quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

SUBSÍDIOS PARA UMA BIBLIOGRAFIA DO 31 DE JANEIRO DE 1891


Pretende-se com estes subsídios dar um contributo para os investigadores sobre este acontecimento, compilando alguma da bibliografia que existe sobre o assunto. Não será certamente um trabalho muito exaustivo (já existe um catálogo sobre o 31 de Janeiro, com texto de A. H. de Oliveira Marques), mas apontar-se-ão alguns dos principais títulos que conhecemos.

Assim, em primeiro lugar apresentaremos os relatos e memórias de alguns dos protagonistas sobre a revolta republicana do Porto. Numa segunda parte, far-se-á referência a alguns dos estudos que os historiadores têm publicado sobre este assunto.

A) Memórias e Relatos dos Intervenientes

- Alferes Malheiro (O), Número único, Porto, Typ. da Empreza Litteraria e Typographica, (1893 ?), 8 pag.
Colaboraram: Gualter, Magalhães Lima, Bruno, Guerra Junqueiro, R, Fialho de Almeida, Augusto Taveira, Heliodoro Salgado, Feio Terenas, N. da S., Martins Lima, Alberto Bessa, Godinho Correia, Jaime Filinto, Artur de Araújo, Ricardo Malheiro, Augusto de Mesquita, A. Marinho, Marcos Guedes, Nunes da Silva, Fernando Caldeira e Ladislau Batalha.
O alferes Augusto Rudolfo da Costa Malheiro tomou parte activa na revolta republicana no Porto, em 31 de janeiro de 1891.

-Alvorada (A) de 31 de janeiro. Publicação promovida por uma comissão da classe dos barbeiros e cabeleireiros do Porto, em beneficio dos vencidos, Porto, Typ. da Empreza Litteraria e Typographica, XIX pag. e mais 1 innumerada de agradecimento da commissão aos proprietarios da typographia, que, generosamente, ofereceram o trabalho de composição e impressão do opúsculo, bem como ao encadernador, que, gratuitamente, executou todo o trabalho de brochura. Colaboradores: D. Albertina Paraiso, Guerra Junqueiro, Gomes Leal, Rodrigues de Freitas, Augusto de Mesquita, Castro Alves, Oliveira Passos, Severo Portela,, entre outros.

- O 31 de Janeiro: semanario republicano do Porto , adm. Diamantino Leite, red. J. Gonçalves Cruz, Typ. Gutenberg, Porto, 1891.

- O 31 de Janeiro , red. princ. Gonçalves Neves, Lisboa, J. Garcia de Lima, 1893.

- 31 de Janeiro. Número comemorativo do 20.º Aniversário da Revolta do 31 de Janeiro de 1891 no Porto. A beneficío do «Vintem das Escolas». Typ. do Commercio, Lisboa.
Neste número único colaboraram: Magalhães Lima, Bruno, António Claro , Adriano Gomes Pimenta, Agostinho Fortes, Xavier de Carvalho, Santos Pousada, Pinheiro de Melo, Luís Ferreira Lima, Miguel Verdial, etc.

- ABREU, Jorge de, A revolução portuguesa: o 31 de Janeiro (Porto 1891), Alfredo David,Lisboa, 1912.

-ALMEIDA, António José d', Desafronta (História d'uma Perseguição), Augusto de Oliveira -Editor, Coimbra, 1895 [em partcular entre as páginas 45-74].

- CARVALHO, Christiano de, Revelações, Portucalense Editora, Barcelos, 1932.

- CHAGAS, João, Diário de um Condenado Político (1892-1893), Livraria Chardron, Porto, 1894.

- CHAGAS, João, História da revolta do Porto de 31 de Janeiro de 1891: depoimento de dois cúmplices (João Chagas & ex-tenente Coelho), Emp. Democrática de Portugal, Lisboa,1901.

- CHAGAS, João, Trabalhos Forçados, Lisboa, 1926 [ed. definitiva]

- CHRISTO,Francisco Manuel Homem, Os acontecimentos de 31 de Janeiro e a minha prisão, J.J. Nunes-Ed., Lisboa, 1891, 270 p.

- COELHO, Manuel Maria, "A Revolta de 31 de Janeiro de 1891" in História do Regimen Republicano em Portugal, vol I, Lisboa, 1932.

- COUTO, José Alberto de Sousa, Revolução do Porto, (31) de Janeiro de 1891 - discurso de defeza pelo advogado José Alberto de Sousa Couto perante o segundo Conselho de Guerra, Typ. de Arthur José de Sousa & Irmão, Porto,1891.

- FILHO, Joaquim Silvano, A situação do Paiz: abalos da sociedade portugueza: depois da representação de 1892, que pedia aos poderes constituidos a amnistia dos exilados de 31 de Janeiro,[s.n.], Porto 1908, 40 p.

- General Corte Real, 2º Comandante da 3ª Divisão Militar perante a revolta de 31 de Janeiro,O , Porto : [s.n.], 1891. - 13 p.

- Julgamento do 31 de Janeiro, [Porto : s.n., 1891?], 479 p.

- Manifesto dos emigrados da Revolução Republicana Portuguesa de 31 de Janeiro de 1891, [S.l. : s.n.], 1891 (Paris : Imp. Schiller), 16 p.

- TELES, Basílio, Do Ultimatum ao 31 de Janeiro. Esboço d'História Política, Ed. Autor, Porto, 1905.

- Patria e exilio: 31 de Janeiro de 1893, Typ. da Empresa Litteraria e Typographica, Porto,1893, 8 p.

- Revolta militar no Porto em 31 de Janeiro de 1891: os conselhos de guerra e respectivas sentenças, Typ. do Commercio do Porto, Porto, 1891, 479 p.

- SALGADO, Heliodoro, A insurreição de Janeiro: historia, filiação, causas e justificação do movimento revolucionario do Porto , Porto, Emp. Literaria e Typographica, 1894, 224 p.

- Anno (Um) depois, (Aos vencidos). 31 de janeiro de 1831 - 31 de janeiro de 1892. Porto, Typ da Empreza Litteraria e Typographica, 20 pag.
Colaboração de: Rodrigues de Freitas, João Paes Pinto, José de Arriaga, José Caldas, Cunha e Costa, Ricardo Feio, Heliodoro Salgado, Eduardo Maia, Delfim Gomes, Alves de Moraes, Antonio José de Almeida, Carlos Calixto, Pires Soares, Bernardo Lucas, João Chagas, Martins Lima, Jaime Filinto, A. Justino Ferreira, João Huss, Felizardo Lima, Costa Breydey, B. Costa, Frederico A. de Andrade, Alexandre Braga, filho, Pereira Caldas, Alberto, Bessa, Alfredo Leal, Padre Domingos Antonio Guerreiro, José Castro, Silva Graça , Artur Machado, R. Costa Malheiro, Alves Mendes, José de Sousa Larcher, Eduardo de Sousa, Teixeira Coelho, Marcos Guedes, Raymundo Soares, Joaquim José Amoinha Lopes, Armelim Junior, Padre Oliveira, Guilherme de Oliveira Santa Rita, Candido da Cruz, Catalão Pimentel, Manuel Pereira Villaça, João de Menezes, J. C. C. Saavedra, Guerra Junqueiro, Anselmo de Sousa, Carvalho Neves, M. J. Martins Contreiras , A. L. Duarte de Figueiredo, A. A. Dias, Lopes Teixeira, H. Marques, Machado de Almeida, Julio Gama, Feio Terenas, Cardoso Pereira, Teixeira de Brito, Augusto Cesar, Agostinho de Almeida Rego, José Joaquim de Oliveira, Pinto Saraiva, Alexandre Braga. A comissão organizadora do número único.

B) Historiografia

- ALVES, Jorge Fernandes, Rodrigues de Freitas: entre a "Janeirinha" e o "31 de Janeiro", [Porto : s.n., 1991?]. - p. 377-390 ; - Sep. de: Congresso "O Porto de fim de século". 1991

- BARROSA, Joäo, Breve resumo da história da revolta de 31 de Janeiro de 1891 , Porto : [s.n., 19--]. - Sep. Bol. Cultural Amigos do Porto

- BRANDÃO, Mário Cal, A Maçonaria e o 31 de Janeiro , [Porto], Associação Cívica 31 de Janeiro, 2002. - 47 p.

- CARDIA, Sottomayor, "João Chagas: Requinte, Litertura, Conspiração", Nova Renascença, nº 40, Porto, 1991, p. 255-264.

- CENTENÁRIO DA REVOLTA DO 31 DE JANEIRO, Centenário da Revolta do 31 de Janeiro: homenagem ao ilustre Gouveense Pedro Amaral Botto Machado, Gouveia, C.M., 1991. - [24] p.

- CRUZ, Maria Antonieta da Conceição,Repercussões eleitorais da revolta de 31 de Janeiro de 1891 na cidade do Porto, Porto, Faculdade de Letras, 1991, p. 191-249. ;Sep. de: Revista da Faculdade de Letras. - Porto. - 2ª Série, vol. VIII (1991)

- DÓRIA, António Álvaro, Movimentos Políticos do Porto no séc. XIX, Porto, 1963.

- GOMES, Pinharanda, "A Esperança Iludida ou Bruno e o 31 de Janeiro", Nova Renascença, nº 40, Porto, 1991, p. 281-294.

GOMES, Ruy Luís, A revolução republicana de 31 de Janeiro, Porto, 1956 (Porto: Empresa Industrial Gráfica). - 42, [1] p.

- HOMEM, Amadeu Carvalho, "Basílio Teles e a Revolta do Porto - Uma carta para Teófilo Braga", Da Monarquia para a República, Palimage Editores, Viseu, 2001, p. 111-124.

- MARQUES, António Henrique Rodrigo de Oliveira, "A Propósito do Ultimatum e do 31 de Janeiro", Nova Renascença, nº 40, Porto, 1991, p. 159-165

- PEREIRA, Luciano Vilhena, "Sobre o 31 de Janeiro de 1891", Nova Renascença, nº 40, Porto, 1991,p. 143-149.

- Revolução de 31 de Janeiro de 1891, A, Biblioteca Nacional, coord. A. H. de Oliveira Marques, [pref. Maria Leonor Machado de Sousa], 1ª ed., Lisboa, BN, 1991, 95, [4] p.

- SAMUEL, Paulo, "O Porto antes do 31 de Janeiro. Do Positivismo ao idealismo republicano", Nova Renascença, nº 40, Porto, 1991, p. 265-280.

- SEABRA, José Augusto, "Entre a Liga Patriótica do Norte e o Levantamento do 31 de Janeiro", Nova Renascença, nº 40, Porto, 1991, p. 113-125.

- SEABRA, José Augusto, "Um Manifesto Patriótico e Cívico", Nova Renascença, nº 40, Porto, 1991, p. 181-196.

- SEABRA, José Augusto , O Porto e o Republicanismo: (a geração do 31 de Janeiro), pref. Gomes Fernandes. - Associação Cívica e Cultural "31 de Janeiro" - Centro de Estudos Republicanos "Sampaio Bruno",Porto, 2004.

- SERRÃO, Joel, Sampaio Bruno - O Homem e o Pensamento, Lisboa, 1958.

- SOUSA, Fernando de, O Porto e a revolta do 31 de Janeiro, Athena, Porto, 1977, 58 p. (Cadernos Portugal na balança da Europa).

- SOUSA, Fernando de, O Jornal de Notícias e a Revolta de 31 de Janeiro de 1891, [s.n.], Porto,1990. - p. 255-264 ; Sep. da Revista da Faculdade de Letras, II Série, Vol. VII, Porto, 1990.

- SOUSA, Fernando de, "Cartas de Basílio Teles no Exílio (1891-1893)", Nova Renascença, nº 40, Porto, 1991, p. 197-236.

- O Ultimátum e o 31 de Janeiro: catálogo da exposição,[org.] Biblioteca Pública Municipal do Porto, B.P.M.P., Porto, 1991, 82 p.

- VARELA, Maria Helena,"Sampaio Bruno e o 31 de Janeiro", Nova Renascença, nº 40, Porto, 1991, p. 237-254.

C) Outros estudos
- DIAS, Manuel, Do 31 de Janeiro ao 25 de Abril. A História e o Testemunho da Imprensa, Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Porto, 1999.

- LIMA, A. C. Pires de, José de Castro Silva (o Serrinha): um herói do 31 de Janeiro, Santo Tirso : [s.n.], 1921, (Tip. de José Cardoso Santarém), 63, [2] p.

- MOUTINHO, Mário [notas e coment.], As privações dum condenado político do 31 de Janeiro de 1891, pelo capitão Joaquim Augusto Moutinho, Ibis,Rio Tinto, 1991, 76 p.

- SÁ, Mário de Vasconcelos e, A revolução de 31 de Janeiro,Com. das Comemorações, Porto, 1956, 15 p.

A.A.B.M.

EDITAL - 31 DE JANEIRO DE 1891


Edital do Governo Civil do Porto, no dia 31 de Janeiro de 1891

J.M.M.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

31 DE JANEIRO DE 1891

Amanhã assinala-se uma das datas mais marcantes na história do movimento republicano em Portugal. Ela marca um momento de exaltação patriótica, que percorre Portugal de norte a sul. Os acontecimentos que tinham começado com o 11 de Janeiro de 1890 (Ultimato inglês) foram aproveitados por alguns elementos do Partido Republicano, para fomentar uma revolta contra o regime monárquico.


As lutas internas entre facções do partido estavam no seu auge, o Directório do partido não conseguia fazer impôr as suas decisões. A denominada "geração activa" do partido começava a ganhar protagonismo. Dela faziam parte Afonso Costa, António José de Almeida, Alves da Veiga, Francisco Homem Cristo, Basílio Teles, entre muitos outros. Por seu lado, a denominada "geração doutrinária" estava a ser ultrapassada pelos acontecimentos e pelas ideias revolucionárias que a nova geração procurava transmitir.

A solução preconizada para estabelecer o regime republicano era cada vez mais a conspiração e a revolta popular, em lugar de tentar chegar ao poder por eleições, como até ali tinham defendido os principais protagonistas da "geração doutrinária". Eram posições diferentes que vão explicar por um lado o falhanço da revolta que foi considerada de carácter popular, mas sem uma liderança, sem um programa de acção política que tivesse acolhimento entre a população ou mesmo entre os militares de patente mais elevada, tudo ficava em situação complicada. Quem acaba por intervir directamente na revolta são os sargentos, cabos, povo anónimo na rua que tomando conhecimento da revolta a apoiou.


O Directório Republicano em 1891, após a realização de um Congresso do partido a 5, 6 e 7 de Janeiro desse ano, era constituído por: Manuel de Arriaga, Sebastião de Magalhães Lima, Bernardino Pinheiro, Manuel Jacinto Nunes, Francisco Azevedo e Silva,
Francisco Homem Cristo e Teófilo Braga. Para a Junta Consultiva do partido foram eleitos: Latino Coelho, Elias Garcia, Rodrigues de Freitas, Zófimo Consiglieri Pedroso, Teixeira de Queirós, Bettencourt Rodrigues e Sousa Brandão.


Nesse congresso até se tentaram pôr de lado as divergências entre as facções e chegaram a publicar uma moção onde afirmava:

a unidade do partido e a solidariedade para a conquista do ideal de regeneração e reabilitação nacional, não obstante a diversidade de opiniões que no mesmo partido possam existir sobre pontos secundários de processos e doutrinas. [...]
A data terrível de 11 de Janeiro de 1890 veio revelar que o Partido tinha terminado a sua missão de propaganda doutrinária, e que lhe competia tomar uma acção decisiva....

Em 11 de Janeiro de 1891, saía a público o novo programa político do Partido Republicano.

A reunião do Directório a 25 de Janeiro publicou uma moção em que afirmava:
Todas as combinações importantes para a vida do partido serão comunicadas e estabelecidas por um enviado especial do Directório, evitando assim as intervenções descricionárias de indivíduos sem mandato ....

No dia 30 de Janeiro a comissão revolucionária, no Porto, decidiu avançar com o levantamento das tropas da cidade nas horas seguintes. Quem eram os principais líderes da revolta?


Sampaio Bruno, João Chagas, Alves da Veiga, Santos Cardoso, alferes Malheiro, capitão Leitão, tenente Manuel Maria Coelho [na época], foram os principais responsáveis pela tentativa revolucionária.

Resumindo os factos:
na madrugada de 31 de Janeiro de 1891 o batalhão de caçadores nº 9, comandado por sargentos, rebela-se e dirige-se ao Campo de Santo Ovídio, onde chega o alferes Malheiro que desta forma entra na revolta. Juntam-se ali o regimento de infantaria nº 10, comandado pelo capitão Leitão e acompanhado por Manuel Maria Coelho, participam ainda vários soldados de infantaria, alguma cavalaria e diversos elementos da Guarda Fiscal. Nos primeiros momentos a surpresa e a expectativa parecem ser dominantes entre os militares fiéis à Monarquia, mas passado pouco tempo organizam-se e, estratégicamente, ocupam o alto da Rua de Santo António. As forças amotinadas, de forma algo ingénua acreditavam que não haveria confrontos e só quando começaram os disparos é que prepararam as suas defesas. Entretanto, do edifício da Câmara Municipal do Porto, Alves da Veiga proclamava a extinção da Monarquia em Portugal e a constituição do Governo Provisório da República onde constavam:
- Rodrigues de Freitas;
- Joaquim Bernardo Soares;
- José Maria Correia da Silva;
- Joaquim Azevedo Albuquerque;
- José Ventura dos Santos Reis;
- Licínio Pinto Leite;
- António Joaquim de Morais Caldas;
- Alves da Veiga.

A Guarda Municipal começou o tiroteio e rapidamente os revoltosos entraram em debandada. Alguns ainda tentaram opor alguma resistência, mas acabaram por ser derrotados pela artilharia. A derrota da revolta republicana tornou-se inevitável, restou o exílio ou a prisão para os principais implicados.

No próximo post daremos algumas informações bibliográficas sobre os acontecimentos: memórias, relatos, historiografia do acontecimento.

A.A.B.M.

BERNARDINO MACHADO


Bernardino Machado (Chefe de Estado) na chegada à Estação do Rossio (Lisboa), regressando da viagem oficial das comemorações do 31 de Janeiro, na cidade do Porto, em Fevereiro de 1916. Foto de Joshua Benoliel, in Arquivo Fotográfico da CML.

J.M.M.

domingo, 28 de janeiro de 2007

GOMES FREIRE DE ANDRADE - OBRAS A CONSULTAR


António Ferrão, Gomes Freire na Rússia, 1917 / António Ferrão, Gomes Freire e as virtudes da raça portuguesa, 1920 / António Lopes, Gomes Freire de Andrade: um retrato do homem e da sua época, 2003 / António Rodrigues Cavalheiro, Os Motins do Campo de Ourique em 1803, 1932 / Encyclopedia das Encyclopedias. Dicionário Universal Portuguez, Vol VI, 1884 / Graça e J. Silva Dias, Os primórdios da Maçonaria em Portugal, 1986 / Henrique de Campos Ferreira Lima, Gomes Freire de Andrade: notas bibliográficas e iconográficas publicadas em comemoração do Centenário da morte deste ilustre General, Coimbra, 1919 / [Joaquim Ferreira de Freitas], Memoria da Conspiração de 1817, Vulgarmente chamada A Conspiração de Gomes Freire, escripta e publicada por um Portuguez, amigo da Justiça e da verdade, Londres, 1822, p. 287/  José Liberato Freire de Carvalho, Memórias da Vida, 1855 / Manuel Borges Grainha, História da franco-maçonaria em Portugal, 1912 / Manuel José Gomes d'Abreu Vidal, Analyse da sentença proferida no Juizo da Inconfidencia em 15 de Outubro de 1817 contra o tenente-general Gomes Freire de Andrade, o coronel Manoel Monteiro de Carvalho, e outros, Lisboa Typ. Morandiana, 1810 / Manuel José Gomes d'Abreu Vidal, Allegação em gráo de revista a favor dos Martyres da Patria, benemeritos della em gráo heroico: condemnados a morte, e a degredos, e confiscos pelas nullas e Barbaras Sentenças proferidas em 15 e 17 de Outubro  de 1817: com o Relatório que os Espiões, e Denunciantes mandarão para o Rio de Janeiro, e com a Certidão extrahida do livro Secretíssimo da Intendência, oferecido aos Homens que tem  Patria, 1822 /  Miguel António Dias, Annaes e Código dos Pedreiros Livres em Portugal, 1853 / Miguel António Dias, Memorias em defesa da maçonaria por um maçon portuguez fiel ao rei e à pátria, 1861 / Raul Brandão, 1817 - A conspiração de Gomes Freire, 1922 / Ribeiro Arthur, A Legião Portugueza ao serviço de Napoleão (1803-1813), Lisboa, 1901 / Rodrigo J. Lima Felner, Almanak do rito escocês, antigo e aceite para o anno de 5845, Lisboa, 1845 / [Rodrigo J. Lima Felner] Biografia de Gomes Freire de Andrade, in Panorama, vol IX, 1ª da 3ª Série, nº1 5 de Setembro de 1846 ao nº4, 26 de Setembro 1846 / Testamento de Gomes Freire de Andrade, in Diário de Notícias, de 30-5-1907

J.M.M.

GOMES FREIRE DE ANDRADE - II PARTE

Gomes Freire de Andrade [ler, aqui] foi (possivelmente) iniciado na Loja Zur gekrönten Hoffnung (em Viena). Em 1801, na sua residência fez-se "o plenário maçónico" [Gomes Freire esteve ausente] da Grande Loja, que dá origem ao GOL [de rito escocês e doze graus] em 1804, aparecendo como vogal [era Grão-Mestre Sebastião José de Sampaio de Melo Castro e Lusignan e Grande-Orador, José Liberato Freire de Carvalho].

De referir que as invasões francesas se iniciam em 1807 e que Junot não tarda a levar a cabo a reestruturação do exército nacional, onde Freire de Andrade tem lugar de destaque. É um período curioso da nossa história, onde a intelegentsia nacional, e os maçons em particular, não deixam de inicialmente "acolher" os invasores franceses [sobre estes últimos, consultar a obra de Graça e J. Silva Dias, "Os primórdios da Maçonaria em Portugal", Vol I, tomo II, INIC,1986], passando depois [de aparente dormência] a conspirar abertamente, no que não é alheio a forte politização havida e a campanha levada a cabo pelos periódicos O Português, Correio Braziliense e o Investigador Portuguez.

Em 1808, Gomes Freire de Andrade "pertence à Loja militar portuguesa Chevaliers de la Croix (Cavaleiros da Cruz), em Grenoble, França". A maçonaria em Portugal, após as "perseguições de 1809 e 1810", surge "reactivada" e em 1815 Gomes Freire [regressado ao país juntamente com o antigo Grão-Mestre Sebastião José de Sampaio] é eleito Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano. E é como Grão-Mestre que morre, no trágico dia de 18 de Outubro de 1817.

[a continuar]

J.M.M.

sábado, 27 de janeiro de 2007

GOMES FREIRE DE ANDRADE [1757-1817] - PARTE I

Nasce em Viena de Áustria, a 27 de Janeiro de 1757, Gomes Freire de Andrade. Era filho do embaixador português naquela cidade (e pertencente à família dos Condes de Bobadela) e da Condessa de Scafgoche (da família austríaca do general Daun).

Existe uma ampla bibliografia sobre a vida e morte de Gomes Freire de Andrade, com alguma polémica à sua volta, pelo que nos dispensamos de assinalar todos os seus episódios. No entanto, registe-se que serviu no exército da Prússia; esteve na campanha da Catalunha e Rossillon; serve Bonaparte em França, integrado na Legião Portuguesa (1808-1813) e sob as ordens do Marquez d'Alorna; foi depois prisioneiro de guerra, regressando a Portugal em 1815; em 1817 é preso (25 Maio 1817) denunciado [por José d'Andrade Corvo de Camões, João de Sá Pereira Soares, Pedro Pinto de Moraes Sarmento, que serão, depois, devidamente premiados] e acusado de ser o chefe de uma conjura contra o reino; e pela sentença do tribunal da Inconfidência [a 18 de Outubro, sendo juízes: António Gomes Ribeiro, José António Leite de Barros, D. João Velasques Sarmento, João António d'Araujo, José Ribeiro Saraiva e o Padre António José Guião] é enforcado [com outros mais] e queimado na torre de S. Julião da Barra.

[continua]

J.M.M.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

REPUBLICANOS FIGUEIRENSES


Grupo de Republicanos Figueirenses, acompanhando os acontecimentos do 5 de Outubro pelo jornal O Mundo. Reconhecem-se: "António Franco e Fortunato" (?)

[via Boletim da B. M. da Figueira da Foz]

J.M.M.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

A. H. DE OLIVEIRA MARQUES (1933-2007)


A. H. de Oliveira Marques morreu ontem, dia 23 de Janeiro, em Lisboa. O professor Oliveira Marques doutorou-se em História pela FLUL, tendo sido aí professor. Considerado "especialista em história da Idade Média" (com abundante produção teórica), trabalhava nos últimos anos no âmbito da história contemporânea, com relevo para os trabalhos sobre a I República e o Estado Novo, a par dos trabalhos historiográficos (e de divulgação) da Maçonaria em Portugal. Aliás, o professor Oliveira Marques, era um dos seus membros ilustres, tendo sido grão-mestre adjunto do GOL entre 1984 e 1986 e seu Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Grau 33, entre 1991 e 1994. [Fonte: aqui]

J.M.M.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

JOSÉ FÉLIX HENRIQUES NOGUEIRA


Assinala-se hoje a data do falecimento de uma das figuras que mais influenciou o pensamento dos republicanos e dos socialistas portugueses: José Félix Henriques Nogueira.
Henriques Nogueira nasceu em Torres Vedras a 15 de Janeiro de 1825 e faleceu em Lisboa a 23 de Janeiro de 1858, vítima de tuberculose. Filho de Félix Henriques Nogueira e de Maria do Espírito Santo Henriques Nogueira, foi um autodidacta, estudioso e publicista que marcou os alicerces do pensamento republicano, porque foi dos primeiros a afirmar publicamente as suas crenças democráticas e republicanas. A sua biografia já se encontra aqui, juntamente com a bibliografia mais importante.

Quase todos os estudos sobre a República em Portugal apontam-no sempre como um dos pioneiros. Desde Teófilo Braga, na História das Ideias Republicanas em Portugal, 2ªed., col. Documenta Histórica, Vega, Lisboa, 1983, p. 59 a 75 que aborda as temáticas do federalismo e do municipalismo no pensamento de José Félix Henriques Nogueira.

A sua personalidade emerge como uma das mais importantes entre os intelectuais portugueses de meados de oitocentos, porque acompanhou as convulsões provocadas na Europa pela Revolução de 1848 e os seus escritos mostram como ele conhecia o pensamento que avançava na Europa, especialmente na leitura de autores franceses como Proudhon, Robert Blum, Raspail, Fourier, Louis Blanc ou ainda Mazzini e Kossuth.

Para Henriques Nogueira: a ideia de República concretiza-se, apresenta-se como uma realidade que pode ser e melhorar a nossa vida, desde o contacto de homem para homem até à realidade da justiça, contacto com as autoridades, organização administrativa, sistema tributário, e enquadramento das localidades nos municípios, destes na província, de todos na Nação e da Nação entre todas as Nações. Não é uma República de Platão, nem a Utopia de Tomás Morus: é a República dos cidadãos portugueses. [Raúl Rêgo, História da República. A ideia e a propaganda, vol. I, Círculo de Leitores, Lisboa, 1986, p. 128]

Outras referências a Henriques Nogueira na net para consultar:
-Fernandes, António Teixeira , O Socialismo Proudhoniano na Escola Portuense
-Leonidio, Adalmir , «Os Vencidos da Vida»: Literatura e
Pessimismo em Portugal no século XIX
(Universidade Rural do Rio de Janeiro)

A.A.B.M.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

ASSALTO AO JORNAL "A NAÇÃO"


Assalto ao jornal A Nação, na Rua da Luta, nº 30 - 21 de Outubro de 1913. Foto de Joshua Benoliel, in Arquivo Fotográfico da CML.

J.M.M.

MANUEL BORGES GRAINHA (NOVA ADENDA)


Foi, aqui e aqui, mui justamente biografado Manuel Borges Grainha. Sobre o biografado, foi citado o trabalho de António Carlos Carvalho e um outro de Artur Manuel Villares Pires Oliveira. Decerto haverá muitos mais. De qualquer modo, convém assinalar a pequena notícia saída na primeira página do jornal "A Luz" (Lisboa, 1 Maio de 1925, Ano VIII, nº 180), retirada (pelo que se entende) da Revista Livros (?).

Assim, "A Luz",

[«Importante jornal maçónico de Lisboa, editado pelo Grémio Luso_Escocês e, desde 16.4.1920, pelo Grémio Lusitano. Começou a publicar-se em 6.4.1918 (nº1) sendo, a principio, semanal, depois de Abril de 1920 quinzenal e, a partir de 1923, mensal. Terminou oficialmente em 1.11.1928 (nº 200) embora, na prática, o seu último número mensal tivesse sido o 198, de 1.11.1926» - in Dicionário de Maçonaria Portuguesa II, de A. H. Oliveira Marques, 1986]

refere na resenha bibliográfica de Borges Grainha, que este terá publicado o "Método intuitivo, legográfico, e mecânico para ensinar a ler, escrever e contar", em 1909 (não conhecemos a peça) e, depois em 1910, continua com "Alguma explicações para a boa execução do método intuitivo, legográfico e mecânico". Na bibliografia de Borges Grainha, é registado (pelo jornal "A Luz" e secundado, depois, por Oliveira Marques) a publicação em francês do seu I volume da História da Maçonaria, "Histoire de la Franc-Maconnerie en Portugal", em "luxuosa edição".

Ainda como aditamento, diga-se que pertenceu Borges Grainha à "Comissão de Propaganda e Instrução" [juntamente com Joaquim Ferreira Pacheco, Dr. Cristiano Goulart de Aragão Morais, José Augusto de Melo Vieira e António Luís Ribeiro Júnior] do Parlamento Maçónico da Grande Loja, conforme é referido no Boletim Oficial do GOLU [nº4 a nº6, Abril a Junho de 1913]. Foi nomeado, por sua vez, relator das Teses do Cong. Maç. Nacional, a coberto do Congresso Nacional de Educação, realizado no Porto, nos dias 19 a 23 de Junho de 1914 [outros relatores nomeados: Floro Henriques (Loj. Portugal de Coimbra), Raul Tamagnini Barbosa (Loj. Victoria do Porto), António Joaquim da Silva Ramos (Loj. Liberdade e Progresso, Porto) - in Boletim Oficial do GOLU, Julho a Setembro de 1913 e, ainda, no Relatório do Congresso Maç. Nacional realizado no Porto ...., 1914].

J.M.M.

sábado, 20 de janeiro de 2007

INSTITUTO AURÉLIO DA COSTA FERREIRA


1962 - Instituto António Aurélio da Costa Ferreira, na Av. Álvares Cabral (via Arquivo Municipal de Lisboa.

J.M.M.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

ANTÓNIO AURÉLIO DA COSTA FERREIRA


Nasceu no Funchal, no dia 18 de Janeiro de 1879, filho de Francisco Joaquim da Costa Ferreira e de Teolinda Augusta de Freitas.
Realizou os primeiros estudos na cidade do Funchal, seguindo depois para Coimbra, onde cursa Filosofia, tendo concluído a licenciatura em 1899. De imediato, inicia curso de Medicina que conclui em 1905. Nos dois anos seguintes vive em França, onde estagia.

Regressando a Portugal em 1907 inicia actividade como professor de Liceu (1907-1910), ocupou ainda o cargo de juíz dos árbitro avindores (1910-1911). Como era um republicano histórico, designação dada ao republicanos que existiam antes da implantação da República, foi nomeado para director da Casa Pia de Lisboa, mais tarde torna-se Provedor da Assistência Pública. Desempenhou funções como vogal do Conselho Superior de Instrução Pública e professor na Escola Normal Primária de Lisboa, destacou-se como naturalista do Museu Bocage.

Foi um dos responsáveis pela fundação da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia. Em 1922, foi incumbido de realizar uma visita de trabalho a Moçambique, por convite de Brito Camacho, quando chegou a esta antiga colónia portuguesa, acabou por se suicidar no dia 15 de Julho de 1922, em Lourenço Marques.

Na vida política, começou por fazer parte entre 1908 e 1911, como vereador da Câmara Municipal de Lisboa. Foi eleito deputado republicano, por Setúbal, em 1910. Após a cisão do Partido Republicano, segue o partido liderado por António José de Almeida. Foi chamado a exercer as funções de Ministro do Fomento, entre 1912 e 1913, no governo liderado por Duarte Leite. Durante a 1ª Guerra Mundial foi mobilizado e esteve na vida militar até atingir a patente de major. Foi eleito novamente deputado por Lisboa, em 1919 e em 1921, pelo distrito de Aveiro. Neste ano seria novamente chamado a exercer a função de ministro, desta vez com a pasta do Trabalho, no Ministério que resultou da tentiva revolucionária de 19 de Outubro de 1921.

Pertenceu à Maçonaria, tendo desempenhado o cargo de venerável da Loja Solidariedade, de Lisboa.

Dizia Forjaz Sampaio em 1930:
A República perdeu um sábio e um servidor devotado. Eu perdi um amigo. Todos os dias se perde alguma coisa. Da sua vida ficou o exemplo. Da sua passagem remanesce a sua obra onde à tona, o seu formoso espírito vive para a ciência. [p. 152]

Bibliografia da sua autoria, ver aqui e ainda:

- Arythmies grippales, Sep. La Clinique Infantile, Paris, 1900.
- O que é a Antropologia, Lisboa, 1908.
- O anthropologista Ferraz de Macedo : apontamentos para a história da sua vida e da sua obra, Typ. A Editora,Lisboa, 1908.
- O Povo Português sob o ponto de vista antropológico, Lisboa, 1909.
- Situação demographica do paiz sob o ponto de vista do vigor da raça... , Livraria Ferin, Lisboa, 1910.
- O ensino das sciencias physico-naturaes na escola primaria portuguêsa, Sep. Revista de Educação, vol. 1, nº 1, Coimbra, 1911.
- Alguns Elementos para a História dos Serviços da Provedoria da Assistência Pública de Lisboa, Lisboa, 1912.
- Domingos Antonio de Sequeira e a Casa Pia de Lisboa, [s.l., s.n., 1912]
- A Cegueira de Camões, Sep. Medicina Contemporânea, s.l., s.n., 1913.
- Alguns documentos concernentes à minha passagem pelo Ministério do Fomento, Tip. Casa Portuguesa, Lisboa, 1914.
- A Casa Pia e o ensino de farmácia em Portugal, [s.n.], Lisboa, 1914.
- N'outros tempos, [pref. Forjaz Sampaio], Livraria Neves, Coimbra, 1914.
- Cirurgiões Portugueses em Inglaterra no século XVIII, Sep. Medicina Contemporânea, s.l., s.n., 1916.
- Subsidio para a história da obstetricia em Portugal, Sep. Medicina Contemporânea, Lisboa, 1916.
- Gimnástica - escola de moral e de civismo, Sep. da Rev. de Educação Geral e Técnica, Tip. Casa Portuguesa, Lisboa, 1917.
- Algumas lições de Psicologia e Pedologia, Lisboa, 1921.
- Antropologia Pedagógica, Lisboa, 1921.
- Afonso de Albuquerque : notas antropológicas, Sep. Arquivos de Medicina Legal, [s.n.], Lisboa, 1922.
- Casa Pia de Lisboa : em comemoração do centenário da independência do Brasil, Casa Pia de Lisboa, Lisboa, 1922.
- Perturbações da Linguagem Gráfica dos Gagos, Lisboa, 1922.

Sobre António Aurélio da Costa Ferreira existem já diferentes estudos, entre os quais destacamos:
- Pereira, José Augusto de Oliveira, O pensamento e a acção educativa de António Aurélio da Costa Ferreira, Coimbra, 1995 [tese de mestrado].
- Pereira, José Augusto Oliveira; Ferreira, António Gomes, co-autor, António Aurélio da Costa Ferreira : um educador na primeira república, Casa Pia, Lisboa, 1999.

Bibliografia consultada:
- Lisboa, Eugénio (coord.), Dicionário Cronológico de Autores Portugueses,vol III, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1994, p. 219-220.
- Marques, A. H. de Oliveira, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, vol. I, Editorial Delta, Lisboa, 1986, col. 570-571.
- Marques, A. H. de Oliveira (coord.), Parlamentares e Ministros da 1ª República (1910-1926), col. Parlamento, Edições Afrontamento/Assembleia da República, Porto/Lisboa,2000, p. 209-210.
- Sampaio, Albino Forjaz de, Homens de Letras, Livraria Guimarães, Lisboa, 1930, p. 145-153.

A.A.B.M.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

MANUEL BORGES GRAINHA (ADENDA)

Tendo hoje tido a possibilidade de, numa biblioteca, encontrar a obra Dicionário de Educadores Portugueses, coord. António Nóvoa, Edições Asa, Porto, 2003, consegui esclarecer melhor algumas dúvidas sobre a personalidade em questão.
Assim, o artigo de João Carlos Paulo sobre Borges Graínha, p. 653-658 afirma:

Borges Graínha descende de uma família de comerciantes de lanifícios da Covilhã. Em 1870 entra para o Colégio de S. Fiel, contando para tal com a interferência de um tio eclesiástico da Companhia de Jesus. Em 1877, inicia o noviciado no Convento do Barro, nele permanecendo até 1886. Nesta data, decide abandonar o colégio dos Jesuítas, regressando à Covilhã onde se envolve em aceso debate com os dois tios membros da congregação. A ruptura com a vida eclesiástica consolida-se com a decisão de vir residir em Lisboa para frequentar o Curso Superior de Letras, mudança que efectiva naquele mesmo ano.

O autor deste artigo biográfico afirma ainda que Borges Graínha leccionou em escolas de Coimbra, Aveiro,Braga e no Liceu Central de Lisboa, onde permanece vários anos.

Participa no 1º Congresso Pedagógico de Instrução Primária e Popular, realizado em Lisboa, em Abril de 1908, onde apresenta um relatório sobre o problema do analfabetismo em Portugal. No ano seguinte, realiza-se o 2º Congresso, onde volta a tratar a mesma temática.

Em 1914, no Congresso Maçónico Nacional, apresenta um texto sobre a importância da instrução popular.

Encontraram também mais referências a colaborações nas publicações periódicas:
- Liga Nacional de Instrução - Arquivo dos seus Trabalhos, Lisboa, 1915. [Publicou-se entre Janeiro-Março de 1915 a Janeiro/Dezembro de 1917]
- Boletim das Missões Civilizadoras, Cernache do Bonjardim, 1920[Publicou-se entre Abril de 1920 a Julho/Outubro de 1925]

A.A.B.M.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

CONGRESSO PEDAGÓGICO - 1912



Congresso Pedagógico de 1912, na Sociedade de Geografia de Lisboa.

Na foto: Manuel Borges Grainha, Manuel de Arriaga, Aníbal de Magalhães e Bernardino Machado. Foto de Anselmo Franco [in Arquivo Fotográfico]

J.M.M.

MANUEL BORGES GRAINHA


No passado domingo, dia 14, assinalou-se o aniversário do nascimento de um dos republicanos mais activos no combate ao clero português: Manuel Borges Grainha, nascido na Covilhã a 14 de Janeiro de 1862.

Estudou num colégio jesuíta, realizou os estudos preparatórios para entrar como membro desta ordem entre 1877 e 1886. A partir de 1886 afasta-se da vida religiosa e inscreve-se no Curso Superior de Letras, em Lisboa, que conclui em 1899. Inicia a sua actividade como docente de línguas, particularmente línguas latinas, em diversas escolas particulares e liceus públicos.

Começa a publicar livros contra a presença dos jesuítas em Portugal, tendo alcançado alguma projecção com os seguintes trabalhos:

- Os Jesuítas e as Congregações Religiosas em Portugal nos últimos trinta anos. A propósito do Caso das Trinas, Typ. da Empreza Litteraria e Typographica, Porto, 1891.
- O Portugal Jesuíta, Typ. e Stereotypia Moderna, Lisboa, 1893.
- A Questão Religiosa e a Liberdade atravez da Historia. Conferência feita na Associação Académica do Porto (no dia 28 de Maio de 1893), Imprensa Gratidão, Braga, 1893.
- História da Franco-Maçonaria em Portugal, 1733-1912, Typ. «A Editora Limitada», Lisboa, 1912; 2ªed. 1914; 3ª ed. Vega, 1976.
- História do Colégio de Campolide da Companhia de Jesus / trad. e pref. M. Borges Graínha,Imprensa da Universidade,Coimbra, 1913, 148 p.
- Lés Jesuites en Portugal de 1540 à 1834. Contribution à l'étude et à l'interpretation des lois du 8 Octobre et 31 Décembre 1910. Cour permanent d'Arbitrage de la Haye. Affaires dites «des biens contestés en Portugal». Observations générales - Annexe nº 3, Imprimmerie Nationale, Lisboa, 1914.

Manuel Borges Grainha traduziu para o francês, entre outras obras antijesuíticas um trabalho historiográfico sobre o mais importante colégio da Companhia de Jesus do período da sua segunda restauração: Histoire du collége de Campolide et de la Résidence des Jésuites à Lisbonne, Lisbonne, Imp. «A Editora Limitada», 1914.

Publicou ainda alguns trabalhos sobre o ensino em Portugal:
- Instrução Primária, Secundária e Normal. Os Livros Escolares, Lisboa, 1904.
- A Instrução Secundária de ambos os sexos no Estrangeiro e em Portugal, Lisboa, 1905.
- O Analfabetismo em Portugal, Lisboa, 1908.
- Meios de Facilitar o Ensino das Primeiras Letras, Lisboa, 1909.
- Método intuitivo Legográfico e Mecânico para Ensinar a Ler, Lisboa, 1925.


Foi o responsável pela organização do extinto Museu das Congregações Religiosas que funcionava em anexo ao também extinto Museu Histórico da Revolução do 5 de Outubro.

Pertenceu ainda à comissão executiva que levou a efeito as comemorações do centenário do nascimento de Alexandre Herculano em 1910. Esteve também ligado à Comissão designada para realizar a reforma ortográfica de 1911, com José Joaquim Nunes, Cândido de Figueiredo e Gonçalves Viana. Pertenceu ainda à Liga Nacional de Instrução.

Colaborador em diversas publicações como:
- Revista dos Lyceus, surgida em 1891, sob a direcção inicial de M. Borges Grainha, professor do Liceu Central de Lisboa, e cuja publicação será interrompida em 1896.
- O Tempo, jornal diário republicano, Lisboa, 1911, Dir. António Maceira [publicou 77 números entre 16-03-1911 e 31-05-1911]

Foi maçon, iniciado com o nome simbólico de Renovator ou Reconstrutor, em 1893, em loja desconhecida. Pertenceu ainda aos quadros da Loja Solidariedade (1906) e Loja Paz e Concordia (1911).

Faleceu em Lisboa a 4 de Abril de 1925.

Publicou-se sobre esta personalidade:
- Carvalho, António Carlos, "Sobre Borges Grainha", in História da Franco-Maçonaria em Portugal, 3ª ed., Vega, Lisboa, 1976, p. 11-14

- Oliveira, Artur Manuel Villares Pires, O regresso das congregações religiosas nos finais da 1ª República - um relatório de Borges Graínha, in separata de População e Sociedade, n.º 4. Porto: CEPESE, 1998.

A.A.B.M.

domingo, 14 de janeiro de 2007

COLÓQUIO: A REVOLUÇÃO DE FEVEREIRO DE 1927 CONTRA A DITADURA - OITENTA ANOS DEPOIS


Colóquio: A Revolução de Fevereiro de 1927 contra a ditadura: oitenta anos depois

No próximo dia 2 de Fevereiro, pelas 15 horas, vai realizar-se no Arquivo da Universidade de Coimbra, um colóquio que serve para assinalar a Revolta de 3 de Fevereiro de 1927 com um conjunto de especialistas na matéria. Ver Programa AQUI

Com a presença de António Reis, Fernando Rosas, Luís Farinha, Heloisa Paulo, Luís Bigotte Chorão e o general Augusto Valente, para apresentarem alguns elementos das suas investigações, sobre esta temática, nas diferentes perspectivas.

Para todos os que gostam de aprender um pouco mais de história contemporânea, compreender melhor as revoltas contra a ditadura militar, os protagonistas e o pensamento dos republicanos que a desencadearam, esta é uma boa oportunidade para ouvir, aprender e trocar opiniões, confrontar ideias com aqueles que ensinam História nas nossas Universidades.

A.A.B.M.

POLICARPO XAVIER DE PAIVA


A 12 ou 13(???) de Janeiro de 1882, faleceu em Lisboa, vítima da tuberculose, o correeiro e mais tarde jornalista Xavier de Paiva.
Nascido em 1850, em Lagos, freguesia de Santa Maria, numa família de parcos recursos não obteve a instrução que necessitava. O pai era um militar, José António Xavier de Paiva e a mãe Maria do Sacramento Paiva. Desde muito jovem começou a trabalhar como correeiro, aprendendo ao longo do tempo a ler e a escrever.

Em Lisboa, vive com dificuldades, colabora nos jornais republicanos desde 1875-76, mas os problemas financeiros eram muito grandes. À custa de muito trabalho e esforço pessoal conseguiu algum relevo nas letras do seu tempo, especialmente junto daqueles que lutavam pela melhoria das condições das camadas operárias.

Afirmando-se como republicano, participa nas discussões acaloradas que decorriam no Centro Republicano Federal, a que pertenceu. Esteve também ligado ao aparecimento da Junta Federal Republicana, que em 1878, apresentou Teófilo Braga como candidato a sufrágio pelos republicanos do Bairro de Alfama.

Durante a celebração dos centenários de Camões e do Marquêz de Pombal conquista algum protagonismo, com a publicação de alguns artigos de crítica que, segundo a imprensa da época, foram muito apreciados.

Dispersa colaborações nos jornais de Lisboa e Porto, procurando estabelecer laços de amizade com alguns dos homens do movimento republicano em destaque na sua época, como: Costa Goodolfim, Eugénio da Silveira, Gomes Leal, Silva Pereira, Guedes de Oliveira, Bessa de Carvalho, Angelina Vidal e muitos outros.

Apuramos colaborações nos seguintes periódicos:
- Universo Ilustrado, Lisboa, semanário de instrução e recreio[7-1-1877 a 26-3-1887](colabora desde o primeiro número)
- Ocidente, Lisboa, [1-1-1878 a 1915]
- Voz do Operário, Lisboa,[11-10-1879 a 19??]
- Vulcão, Lisboa, [25-4-1880 a 28-11-1880)(colaborador principal deste jornal)
- Serrote, Porto, [20-5-1877 a 5-3-1878)
- Justiça Portuguesa, Porto, [11-1880 a 1886 ???]
- Enciclopédia Republicana, Lisboa, 1882 [colab.: Magalhães Lima, Teófilo Braga, Teixeira Bastos, Alexandre da Conceição, Feio Terenas, Anes Baganha, Augusto Rocha, entre outros.]
- Almanach do Século para 1882, Dir. Gomes Leal, Kiosque do Rocio, Lisboa, 1881 [com vários textos poéticos e um texto em prosa].

Publicou ainda:
- Os Bárbaros Modernos, Imp. R. do Crucifixo, Lisboa, 1874, 7 pág.
- Os Maltrapilhos: poesia dedicada a Francisco Pi Y Margall, Tip. Casa da Inglaterra, Lisboa, 1875, 8 pág.
- Camões em África, peça de teatro, drama em verso, Imprensa Nacional, Lisboa,1880, 19 pág. [em colab. com Paulo da Fonseca].
- Passado e o Futuro, Typ. Progressista, Lisboa, 1880, 7 pág.
- O Trabalho, número único, Lisboa, 15-08-1889, Typ. Fénix, 4 pág.
- Mistério de Alfama, romance, Lisboa.

Morreu no Hospital de S. José, em Lisboa, abandonado e esquecido por todos, porque naquela mesma data, o rei de Espanha visitava a capital. O seu funeral realizou-se civilmente.

Um ano após a sua morte, Gomes Leal publica o texto de um discurso proferido junto à sepultura de Xavier de Paiva, na cerimónia realizada no dia 14 de Janeiro de 1883, para assinalar o primeiro aniversário da sua morte.

Sobre mais este jornalista e poeta republicano esquecido pelos portugueses, procuramos elementos na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (GEPB), mas nada consta. No Dicionário Bibliográfico Português, encontram-se três referências dispersas.

Pesquisas por nós realizadas dão conta que se realizou dez anos depois da sua morte, uma sessão de homenagem no cemitério do Alto de S. João, em Lisboa, com cortejo cívico, onde discursaram Magalhães Lima, pelo jornal O Século, Feio Terenas pela Batalha, Feliciano de Sousa pelo Eco Socialista, Bartolomeu Constantino, pelo Tribuna do Porto e Gomes da Silva pelo Dia[A Vanguarda, Lisboa, 8-5-1892, Ano II, nº 367, p.2].

Publicou-se ainda um número único, intitulado Xavier de Paiva, onde colaboraram: Eugénio da Silveira, Angelina Vidal, Carlos Calixto, Augusto Figueiredo, Sebastião Baçam, Alfredo Cabral, Paulo da Fonseca, José Fernandes Alves, Francisco do Lago, José Feliciano Oliveira, Júlio d' Azevedo, João Mathias França e Manuel Domingues Ferreira.

Conhecem-se dois trabalhos realizados por Raul Esteves dos Santos onde se trata esta figura votada ao ostracismo pela sociedade portuguesa actual:
- Figuras esquecidas: o poeta Xavier de Paiva, Lisboa, 1935, 19 pág.
- Xavier de Paiva: o primeiro grande poeta vindo das classes proletárias, Tip. Voz do Operário, Lisboa, 1949, 50 pág.

Também o professor Fernando Catroga, na sua obra: O Céu da Memória - Cemitério romântico e culto cívico dos mortos (1756-1911), col. Minerva História, Minerva Editora, Coimbra, 1999 refere por diversas vezes a figura de Xavier de Paiva, em especial as homenagens de que foi alvo e a mensagem de alguns dos seus poemas.

A.A.B.M.

sábado, 13 de janeiro de 2007

JOSHUA BENOLIEL


Joshua Benoliel: n. a 13 de Janeiro de 1873

"...foi um fotógrafo e jornalista de Portugal, considerado por muitos o maior fotógrafo português do inicio do século XX.

Judeu, descendente de uma família hebraica que se instalara em Cabo Verde. Considerado o criador em Portugal da reportagem fotográfica. Fez a cobertura jornalística dos grandes acontecimentos da sua época, acompanhando os reis D. Carlos e D. Manuel II nas suas viagens ao estrangeiro, assim como a Revolução de 1910, as revoltas monárquicas durante a Primeira República, assim como exército português que combateu na Flandres durante a Primeira Guerra Mundial. As suas fotografias caracterizam-se pelo intimismo e humanismo com que abordava os temas.

Trabalhou para o jornal O Século e para a revista do mesmo jornal Ilustração Portuguesa bem como para o Ocidente e Panorama, revistas da altura.

Publicou Arquivo Gráfico da Vida Portuguesa, obra em fascículos ilustrada com fotografias de 1903 a 1918" [in wikipedia]

Foto - "Directório do Partido Republicano, da esquerda para a direita: Joaquim Ribeiro de Carvalho, jornalista, Marinha de Campos, oficial da Marinha, José Barbosa, Eusébio Leão, José Relvas, Malva do Vale e Inocêncio Camacho"

[por Joshua Benoliel, 1910 e publicado na Ilustração Portuguesa]

J.M.M.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

LUZ DE ALMEIDA



Foto: Banquete em Honra de Luz de Almeida (13/2/1911), oferecido pela Loja Montanha, onde era Venerável. Lado esquerdo, Magalhães Lima, seguido de Luz de Almeida e de Machado Santos [in, A Carbonária em Portugal, de António Ventura, Biblioteca Museu República e Resistência, 1999]

J.M.M.

ANTÓNIO MARIA MACHADO SANTOS - II PARTE


Obras: Os Barbadães (?) [refª de Inocêncio F. Silva] / Projecto de Estatuto Nacional. Para servir de elemento de estudo da futura organisação politica a promulgar, Tip Liberty, s.d. / A Revolução Portuguesa:1907-1910, Lisboa, Tip. Liberty, 1911 / A Ordem Pública e o 14 de Maio, Lisboa, Tip. Liberty, 1916

Colabora nos seguintes periódicos: O Radical, dir. Marinha de Campos [por motivo dum artigo, foi processado, depois absolvido, mas tal não impede que o Governo o mandasse para Angola "fazer uma estação de seis meses" / O Intransigente [Lisboa, nº1, 12 Novembro 1910 ao nº 1424, 31 Março 1915. Editor e Adm. Augusto M. Santos, Director, Machado Santos. Teve como colaboradores, João Deus Guimarães, Joaquim Madureira (Braz Burity), Camilo Rodrigues]

Obras a consultar: A Carbonária em Portugal [António Ventura, 1999] / "A Obra Revolucionaria da Propaganda. As Sociedades Secretas" [Luz de Almeida], in História do Regímen Republicano em Portugal, 1932 / Carbonária. O Exército Secreto da República [José Brandão, 1984] / História da República [Editorial Século. 1960] / Machado Santos. A Carbonária e a Revolução de Outubro [textos de Joaquim Madureira et al, com um estudo de João Medina], Lisboa, 1980 / Memórias [Raul Brandão] / Memorias Políticas [José Relvas] / Memórias Sobre Sidónio Pais [Rocha Martins, 1921] / O Meu Depoimento [António Maria da Silva] / Pimenta de Castro [Rocha Martins] / Vermelhos, Brancos e Azuis [Rocha Martins, Vida Mundial, 1948-51]

Foto: credencial carbonária de Cândido dos Reis.

J.M.M.

ANTÓNIO MARIA MACHADO SANTOS: NOTA BREVE


Nasceu em Lisboa, a 10 de Janeiro de 1875. Filho de Maurício Paula Vitória dos Santos, "empregado de comércio" e Maria de Assunção Azevedo Machado Santos.

Alista-se na armada (29 de Outubro de 1891), tira o curso de administração naval, tendo sido promovido a capitão-de-mar-e-guerra a 6 de Julho de 1911. Começa por militar ao grupo de "esquerda monárquica" [dissidência de José de Alpoim], tendo aderido à causa republicana [dado a sua oposição à ditadura Franquista]. Contacta, no seguimento dos acontecimentos de 28 de Janeiro de 1908, com a "Maçonaria Florestal" ou Carbonária Portuguesa [colabora, portanto, com Luz de Almeida, António Maria da Silva, Cândido dos Reis, João Chagas, etc.].

Republicano, mação [Oliveira Marques - Dic. Maçonaria Portuguesa, tomoII - diz que foi iniciado na Loja Montanha, em 1909, com o nome simbólico de Championnet, tendo atingido o grau 7º do RF, "passando a coberto em 1914"], membro da Alta Venda da Carbonária Portuguesa, teve a parte mais "relevante" [é "o vencedor da Rotunda"] na organização militar do 5 de Outubro de 1910 e, portanto, no estabelecimento do regime republicano.

Desiludido com o governo saído do 5 de Outubro [Machado Santos e os seus companheiros tinham escolhido um governo que seria formado, caso a revolução triunfasse, por: Basílio Teles, José Castro, Magalhães Lima, Ramos da Costa, Inocêncio Camacho, Miguel Bombarda, Cândido dos Reis] e com o rumo dos acontecimentos, com profundas divergências com Afonso Costa [contra o qual conspirou], torna-se mais tarde apoiante de Pimenta de Castro. Continua em acções de conspiração [o que o leva, de novo, à prisão], tendo depois colaborado com o governo de Sidónio Pais (foi nomeado, em 1917, Ministro do Interior]. Afastou-se, posteriormente, do Sidonismo e funda o Partido da Federação Nacional Portuguesa (ou Republicana ?), sem qualquer expressão politica. São evidentes os conflitos, os "factos inexplicáveis" e os "paradoxos" desta figura emblemática da República, depois de ter sido o seu herói. Muitos, e de diferentes quadrantes políticos, o odiavam e mesmo diversas ligações com antigos carbonários, deixaram de existir. Era, no fundo, como Rocha Martins afirma: "um romântico".

Foi assassinado na "noite sangrenta" de 19 de Outubro de 1921, no Largo do Intendente, pelo bando do famigerado cabo Abel Olímpio, o "Dente de Oiro" ["a soldo dos monárquicos"], e o seu corpo abandonado junto à Morgue de Lisboa [vide Imprensa da Manhã n.º 107, de Lisboa, 22 de Outubro de 1921]. Nessa mesma noite, e do mesmo modo, foram assassinados dois outros "bons primos" da Carbonária Portuguesa, António Granjo e Carlos da Maia. Tinha chegado ao fim a associação, passe o facto de (ainda) Luz de Almeida tentar organizar uma outra, denominada "Serraria" [ref.ª José Brandão], que não surtiu qualquer efeito.

[continua]

J.M.M.

REVOLTA REPUBLICANA DO PORTO



Foto: "Gravura de Louis Tynayre que representa a Guarda Municipal a atacar os revoltosos entrincheirados no edifício da Câmara Municipal, durante a Revolta Republicana do Porto" [in O Portal da História, com a devida vénia]

J.M.M.

ULTIMATUM INGLÊS - 11 DE JANEIRO DE 1890


Assinala-se a 11 de Janeiro um dos momentos mais conturbados da História recente de Portugal: a Inglaterra ameaça invadir o país, caso o rei não abra caminho às intenções de Cecil Rhodes, para construir o caminho de ferro a ligar a cidade do Cabo à cidade do Cairo, atravessando todo o continente africano.

O Partido Republicano, particularmente através da imprensa, nos dias subsequentes organiza comícios e manifestações de repúdio ao acontecimento. As manifestações deviam-se ao facto de ter sido atacado o explorador português, na altura major Serpa Pinto, em terras moçambicanas, mas que os ingleses desejavam integrar no seu vasto império colonial.
Para tanto, o embaixador inglês M. Petre, entregou ao Governo português a seguinte missiva:

O Governo de Sua Majestade Britânica não pode aceitar, como satisfatórias ou suficientes, as seguranças dadas pelo Governo Português, tais como as interpreta.

O Cônsul interino de Sua Majestade em Moçambique telegrafou, citando o próprio major Serpa Pinto, que a expedição estava ainda ocupando o Chire, e que Katunga e outros lugares mais no território dos Makololos iam ser fortificados e receberiam guarnições. O que o Governo de Sua Majestade deseja e em que mais insiste é no seguinte:

Que se enviem ao governador de Moçambique instruções telegráficas imediatas para que todas e quaisquer forças militares portuguesas actualmente no Chire e nos países dos Makololos e Mashonas se retirem.

O Governo de Sua Majestade entende que, sem isto, as seguranças dadas pelo Governo Português são ilusórias.

Mr. Petre ver-se-á obrigado, à vista das suas instruções, a deixar imediatamente Lisboa, com todos os membros da sua legação, se uma resposta satisfatória à precedente intimação não for por ele recebida esta tarde; e o navio de Sua Majestade, Enchantress, está em Vigo esperando as suas ordens.

Legação Britânica, 11 de Janeiro de 1890.»


O reflexo desta missiva na opinião pública foi tremendo e a consequência foi o aumento das adesões ao Partido Republicano que, em segredo, começa a conspirar para desencadear uma revolta popular que terá lugar no Porto a 31 de Janeiro de 1891.

A.A.B.M.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

O MUNDO - "ENFIM A REPÚBLICA EM PROTUGAL"


Quarta-feira, 5 de Outubro de 1910 - Capa do jornal O Mundo

J.M.M.

ANTÓNIO MARIA MACHADO SANTOS POR ALGUNS CONTEMPORÂNEOS

Ontem, assinalava-se também a data do nascimento de António Maria Machado Santos, (10-10-1875 a 19-10-1921) muitas vezes denominado "O Heroi da Rotunda". Desta vez não nos vamos preocupar em esboçar a biografia de um dos grandes responsáveis pela vitória da revolta republicana de 5 de Outubro de 1910, vamos antes tentar mostrar, com alguns exemplos, como esta figura foi sendo encarada ao longo do tempo.

João Augusto de Fontes Pereira de Mello, A Revolução de 4 de Outubro (Subsídios para a História). A Comissão Militar Revolucionária, Guimarães & Cª Editores, Lisboa, 1912, p. 18-19:

[Magalhães Lima afirmava numa reunião da comissão militar, que teve lugar a 6 de Outubro de 1909, e que tentava preparar a revolta ] - Veja bem que não há um único regimento que venha com o seu comandante!... E não há um chefe militar que ponha e disponha, enfim, que mande! ...Isto é uma perigosíssima aventura, uma loucura que o Machado Santos vai praticar, que certamente nos vai ficar muito cara, pois eu vejo evidente o insucesso!... E com um insucesso quantos anos vamos atrasar a implantação da República?!... Entretanto, o Machado Santos acha que tem muitos elementos, e todos prontos a entrar em acçao. Para ele tudo é côr-de-rosa, tudo facílimo ... é um optimista, tem fogo de mais.


Claudio Pereira, História do 14 de Maio, Imprensa Nacional, Lisboa, s.d., p. 109-110:

Machado Santos que na conjura para a revolução de 4 de Outubro, desempenhou um papel brilhante, importantíssimo, e que no acto revolucionário de então fo de uma heroicidade e patriotismo notáveis, comandando as forças revoltosas na Rotunda da Avenida da Liberdade, inequecível acto aquele que levou à implantação da República em Portugal, esteve também ao lado do governo ditatorial desde a sua formação.
Não queremos aqui discutir o porquê de tal atitude que também foi seguida por António José de Almeida e Manuel de Brito Camacho, chefes de partido, mudando-a porém, este último na véspera de rebentar o movimento de 14 de Maio [Pimenta de Castro]...
Esteve pois, Machado Santos ao lado da ditadura.
Ao rebentar a revolução que a derrubou, o ex-comandante da Rotunda refugiou-se no Quartel do Carmo.
Quer pelo facto ... de se ter refugiado, quer por constar que estava na disposição de, com um bom número de amigos, reagir contra o estado de coisas, por então, quer pela campanha violenta que há muito vinha fazendo a favor da ditadura no Intransigente, Machado Santos foi feito prisioneiro e conduzido para bordo dum navio de guerra.
Pediu então que se tornasse público que ele recomendava aos seus amigos, em nome da consolidação do regime, que reconhecessem o novo governo e o apoiassem para restabelecimento da ordem e da tranquilidade públicas.




António Maria da Silva, O Meu Depoimento. Da Monarquia a 5 de Outubro de 1910, vol. I, Col. Documentos, República, Lisboa, 1974, p. 179:

[Luz de Almeida] convidou-me [António Maria da Silva] a ingressar na Carbonária com Machado Santos que eu conhecera aquando do 28 de Janeiro e cuja inteligente cooperação, actividade e faculdades de organizador muito admirava. Em seu entender, os nossos esforços poderiam assim congregar-se com manifesta e evidente vantagem. Concordei plenamente, outro tanto aconteceu com Machado Santos. Desse acordo, resultou a nossa iniciação naquele organismo, levada a efeito em Julho de 1908, na Rua do Benformoso, numa fábrica de licores pertencente ao velho carbonário e montanhês [pertencente à Loja maçónica Montanha], Acácio dos Santos, apadrinhados por Luz de Almeida.

José Relvas, Memórias Políticas, vol. I, Terra Livre, Lisboa, 1977, p. 72:

Em Machado Santos concorriam singulares condições para ser um terrível elemento de combate contra a Monarquia e um agente inquietante para os revolucionários. Pouco inteligente, mas sempre movido por fé inquebrantável, inalteravelmente, animado de uma magnífica confiança no êxito da Revolução, todo o seu trabalho convergiu para a coesão dos soldados de marinha, de preferência à acção que prosseguia junto de alguns elementos do exército de Terra. Por vezes foi o portador de verdadeiros ultimatos ao Directório, chegando a pôr em grave risco a preparação revolucionaria com a ameaça da insurreição dos grupos da marinha, resolvidas todas as audácias, apeasr da reduzida força numérica.
Em Julho e Agosto de 1910 estiveram iminentes algumas tentativas dessa natureza, e foi preciso toda a autoridade do Directório e foram necessárias todas as garantias para impedir actos, que seriam de verdadeira loucura. Dotado de dedicação
e de sinceridade inigualáveis, era contudo Machado Santos perigoso; para a Monarquia, porque a sua irreflectida coragem podia feri-la de morte, num lance de audácia e de fortuna, como veio a suceder com a sua permanência na Rotunda, contra todas as indicações estratégicas; era perigoso para a República porque tendia sempre a precipitar a acção revolucionária em termos de lhe fazer correr riscos, porventura irremediáveis.



Fernando Honrado, Os Fuzilados de Outubro de 1921, Acontecimento, Lisboa, 1995, p. 11:

Machado Santos - como é sabido -foi um conspirador apaixonado contra a Monarquia.E também, sem dúvida, um espírito inconformista, sem cedências, em relação à República que idealizou e aquela que se tornou realidade. Um caso de busca intensa para pôr de acordo ideal e real.
Com a implantação da República tornou-se político muito importante no novo regime. E, muito rapidamente, um crítio duro do que considerava desvios ao ideal republicano. Deste modo, um dos políticos que mais foi por ele combatido foi Afonso Costa. Logo em 1913, em Abril, envolveu-se na revolução contra o Governo presidido pelo chefe do Partido Democrático.


A.A.B.M.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

ANTÓNIO MARIA MACHADO SANTOS


10 de Janeiro de 1875 - Nasce em Lisboa, António Maria Machado Santos [1875-1921]

Foto: António Maria da Silva (à esquerda), Luz de Almeida (ao centro) e Machado Santos (à direita). Faziam todos parte da Alta Venda da Carbonária Portuguesa. Luz de Almeida era o Grão-Mestre e os outros eram os adjuntos [in História da República, Editorial Século, 1960]

J.M.M.

ANTÓNIO FRANÇA BORGES


Nasceu em Sobral de Monte Agraço, a 10 de Janeiro de 1871. Filho de António Ribeiro Borges e Cândida Borges França.

Realizou os seus estudos no Colégio Luso-Brasileiro, que mais tarde prosseguiu na Escola Nacional.
Começou por trabalhar como funcionário público, na repartição de Fazenda Pública, em Sobral de Monte Agraço. Porém, quando iniciou a sua intervenção política foi colocado em Sintra, como castigo. Perseguido pelas autoridades políticas naquele concelho, acaba por ser preso em Lisboa. Transferido para Vila Real de Santo António, acaba por retornar a Lisboa, por requisição, como escrivão de Fazenda no 2º bairro da capital.

Desde bastante jovem começou a colaborar na imprensa. Brito Aranha, no Dicionário Bibliográfico Português, vol. XXII, aponta-lhe as seguintes colaborações:

- Neófito, [Torres Vedras, 1892. Publicaram-se 5 nº](???)
- Novo Escolar, [Lisboa, 1887. Publicaram-se 3 nº]
- Defesa de Sobral de Monte Agraço, Sobral de Monte Agraço, [1894]
- O Universal, Lisboa, [3-02-1891 a 28-01-1899]
- Jornal de Notícias, Lisboa, [5-07-1887 a 8-08-1888]
- Vanguarda, Lisboa, [9-03-1891 a 31-07-1929]
- País, Lisboa,[1-11-1895 a 19-07-1898]
- Lanterna, Lisboa,[24-07-1898 a 28-02-1899]
- O Combate, Lisboa, [1-1-1899 a 18-03-1900].
- Pátria, Lisboa, [1-03-1899 a 4-09-1900].
- O Mundo, Lisboa, [16-09-1900 a 9-12-1935].
- A Liberdade, Lisboa, [31-01-1901 a 25-05-1901.]

António França Borges afirma-se como jornalista de combate, em particular, quando começa a colaborar com Alves Correia, na Vanguarda. A partir daí a sua visibilidade aumenta e torna-se um dos jornalistas republicanos mais populares. Envolve-se em inúmeras polémicas e chega a ser preso por abuso de liberdade de imprensa, sendo acusado de acordo com a famosa lei de 13 de Fevereiro. No entanto, a justiça não o condena.

Assume em 1900, a direcção de O Mundo, que se vai tornar no mais importante órgão da imprensa republicana. Foi preso em 1908, tendo sido envolvido na intentona de 28 de Janeiro que acabou por não ter lugar. Exilou-se de seguida, em Espanha, onde continuou a colaborar no jornal republicano que dirigia, aguardando a implantação da República.

O jornal Gabinete dos Reporters. Jornal independente, ilustrado e literário, Dezembro de 1898, Lisboa. N.° 82, 4.º anno foi dedicado ao jornalista França Borges, que fora preso pelo crime de abuso de liberdade de imprensa. Colab.: de Alves Correia, Mayer Garção, Carlos Callixto e Agostinho Fortes.

Pertenceu à Maçonaria, iniciado na Loja Montanha em 1901, com o nome simbólico de Fraternidade, pertenceu ainda à Loja Justiça e presidiu à Loja O Futuro (1905), tendo alcançado o 7º grau do Rito Francês em 1914. Foi presidente da Associação do Registo Civil, membro do Directório do Partido Republicano, deputado em 1912.

Deixou publicados ainda os seguintes trabalhos:

- O Combate, panfleto(colab. com Heliodoro Salgado).
- A imprensa em Portugal. Notas de um jornalista, Porto, Typ. da Empresa Literaria e Typographica, 1900.
- A razão de um padre. O bom senso do cura Meslier, Trad. de M., com uma notícia de França Borges, s.d.

Morreu em Davos-Platz (Suiça), a 5 de Novembro de 1915.

O professor Oliveira Marques, publicou na Correspondência Política de Afonso Costa (1896-1910), Editorial Estampa, 1982, onde se encontram várias cartas de França Borges.

Afirmou Sebastião de Magalhães Lima, na obra Episódios da Minha Vida, Livraria Universal, Lisboa, 1928, p. 216 e 218:

Foi duro e longo o combate, aspérrimo o caminho, eriçado de espinhos e abrolhos. E nessas horas amargas e cruéis, nunca a fé amorteceu no peito de França Borges, nunca vacilou a sua crença profunda nos destinos da pátria e da República.

Se França Borges vivesse, considera-lo-iam um idealista incorrigível, como todos me consideram. A coerência tornou-se uma aberração. Não compreendem os homens do nosso tempo que se possa servir uma ideia com dedicação e desinteresse. E essa qualidade, hoje rara, raríssima, inconcebível, para os judeus na finança, foi a suprema virtude de França Borges.


A.A.B.M.

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

MIGUEL ANTÓNIO DIAS


Miguel António Dias [1805-1878] - in BND

J.M.M.

MAÇONARIA E MANUEL EMÍDIO GARCIA: DOCUMENTO EPISTOLAR


Foi dito, anteriormente, que era certo ter sido obreiro da Loja Perseverança, ao vale de Coimbra, Manuel Emídio Garcia, aliás Ir. "Augusto Comtte". Seguimos a indicação, presente no trabalho para o Arquivo Coimbrão (nº31, 1988-89) do professor Fernando Catroga, já antes referido. Ora, no final do estudo, surge, em Apêndice, um conjunto significativo de importantes documentos epistolares.

Anotemos, para efeito da filiação maçonica de Manuel Emídio Garcia, a seguinte carta:

"... Todos os dias tenho estado à espera da biographia do nosso Ir. Gama [nome simbólico de Miguel António Dias, 1805-1878: e como até hoje não tem apparecido é de presumir que V. Ex.ª se tenha esquecido, ou não tenha tido occasião opportuna p.ª concluir aquele trabalho.

Lembro a V. Ex.ª, e lhe peço o especial favor de mandar a biographia logo que lhe seja possível p.ª se mandar imprimir: pela minha parte já estou à muito encolhido - sem poder dizer nada sobre o objecto, à família Dias! Fui um pouco indiscreto em solicitar os apontamentos p.ª a biographia do homem; muito embora essa exigência fosse por ordem, e à conta da R. L. Pers. [Loja Perseverança] (...)

Estamos em crise pelo que toca a nossa casa de sob-ripas!

O arrendamento acaba est'anno; o dono tem muitos arrendatários; a preferência é nossa; o homem quer a resposta amanham - sim ou não - e, esta resposta é fatal!
Hontem reuniu a off. p.ª resolver tão momentoso assumpto (...)

Dez oob. de boa vontade podem muito: podemos contar com elles: Sim - ou não - vamos a ver: o Ir. Augusto Comtte tem feito agora bastante falta porque é uma das dez colunas mais vigorosas do nosso Templ.; vale meia dúzia dos bons ..."

[Carta de Abílio Roque de Sá Barreto a Manuel Emídio Garcia, datada de 10 de Agosto de 1878, in op. cit.]

Nota: considera-se que o opúsculo, "Dr. Miguel António Dias. Notas biographicas por alguns dos seus dedicados amigos", (Coimbra, 1880), que saiu anónimo e sob "iniciativa" da Loja Perseverança, foi escrito por Manuel Emídio Garcia.

Foto: gravura de Miguel António Dias [in B.N.]

J.M.M.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

MAÇONARIA E MANUEL EMÍDIO GARCIA


Sobre a filiação maçónica de Manuel Emídio Garcia (salientada em post anterior), o professor Fernando Catroga [Mações, Liberais e Republicanos em Coimbra: década de 70 do século XIX, Arquivo Coimbrão", Coimbra, 31, 1988-1989, p.271] refere que na cerimónia de instalação da importante Loja Perseverança (vale de Coimbra), em Outubro de 1871, o seu orador foi "o lente de Direito Manuel Emídio Garcia, irmão A. Comte". O venerável seria o "irmão Lafayette" (Abílio Roque de Sá Barreto) e alguns dos seus obreiros eram, além de Manuel Emídio Garcia, conhecidas e importantes personalidades conimbricenses, como Olímpio Nicolau, Feio Terenas, Adelino Neves e Melo, António Zeferino Cândido, Bernardino Machado, Sebastião Magalhães Lima (João Huss), etc. Note-se, curiosamente, que a Loja Perseverança foi de extrema importância para o desenrolar da história da maçonaria e das ideias republicanas, em Portugal, quer "pelos seus projectos de renovação do pensamento e da prática da maçonaria", quer "pelo número e qualidade dos seus electivos" [F. Catroga, op. cit.]

A Loja Perseverança, formada por (7) mações saídos da Loja Federação de Coimbra [instalada e regularizada sob a obediência do GOLU], foi "irradiada por decreto de 21 de Janeiro de 1876, em consequência de ter no decurso de 1875 rompido contra o Grande Oriente e declarado separar-se da obediência a ela" [in Encyclopedia das Encyclopedias ..., dir. Fernandes Costa, 1884, vol. VI, p. 397], tendo seguido, após a ruptura, o rito eclético de Miguel António Dias. Ocorre dizer que a Loja Perseverança, tal como outras oficinas de obediência maçónica, tinha uma publicação mensal, intitulada O Reformador (em 1875, com sede na Rua Visconde da Luz, 96-100), onde é dado ler textos de forte intervenção maçónica, de contestação e divergência às posições [conservadoras] do GOLU [ver textos da revista na Encyclopedia das Encyclopedias ... e o trabalho, já citado, de F. Catroga].

Refira-se, ainda, que "dando cumprimento a uma deliberação?" da Perseverança, foi constituída uma sociedade denominada "Companhia Edificadora e Industrial de Coimbra" (28 de Janeiro de 1876), visando a construção de casas para os operários. Porém, a sociedade dura poucos anos (1884).

Como ainda foi salientado (post anterior) Manuel Emídio Garcia foi um dos principais obreiros da Associação Liberal de Coimbra, tendo sido um dos fundadores. Cabe registar (seguindo F. Catroga), que a Loja Federação "tinha aprovado uma proposta" (17 de Maio de 1873) para a fundação de uma associação profana, em memória do "exército liberal" e da "obra da revolução" e que, dado o conservadorismo da direcção do GOLU, não foi dado provimento. Tal posição foi contestada pelos mações de Coimbra e a Loja Perseverança (de novo!) vai retomar a ideia. Após acontecimentos polémicos e tumultuosos na cidade, onde Manuel Emídio Garcia tem lugar preponderante [F. Catroga (op.cit.) considera-o "a pena e a alma desse movimento"], a associação foi inaugurada a 8 de Maio de 1875 e, após legalização pelo Governo Civil, é instalada definitivamente (8 de Maio de 1878). Pretendia "pugnar pela difusão dos ideias liberais", fundando escolas, bibliotecas e conferências públicas, numa proposta cívica de participação na vida pública. O que de facto aconteceu, tal a profusão de comemorações, organizações e contestações, que patrocinou.

[a continuar]

J.M.M.

ANIVERSÁRIO DA REPÚBLICA - CARRO DA MAÇONARIA


1911 - Comemorações do primeiro aniversário da República, vendo-se o carro da Maçonaria no cortejo. Foto de Joshua Benoliel [in Hemeroteca Municipal Lisboa.

J.M.M.

domingo, 7 de janeiro de 2007

MANUEL EMÍDIO GARCIA


Celebrou-se ontem, 6 de Janeiro, o aniversário de nascimento de um dos homens que estiveram na origem do movimento republicano em Portugal.
No ano de 1838, na cidade de Bragança, nascia Manuel Emídio Garcia filho de um comerciante local, Manuel Leonardo Garcia. Realizou os estudos iniciais em Bragança prosseguindo mais tarde no Liceu de Coimbra e na Universidade, o curso de Direito que frequentou entre 1856 e 1861.

Em 17 de Julho de 1862 defende a sua tese, a 24 realiza o denominado exame privado e a 27 recebe o grau de doutor. Em 1864 concorre, com mais quatro candidatos, ao lugar de substituto ordinário da Faculdade de Direito, tendo obtido a primeira posição. Em 1865 foi promovido a substituto ordinário em 1871 a professor catedrático.

Desde 1859 que frequentava com assiduidade e interesse as reuniões promovidas pela revista O Instituto, em Coimbra, onde foi reconhecida a sua inteligência e, sobretudo, a sua capacidade oratória.

Envolve-se na vida cívica da cidade de Coimbra, onde se destaca como membro da Associação dos Artistas da cidade e na Associação Liberal. Nesta última, desempenhou função de relevo tendo sido um dos fundadores e redigindo os estatutos.

Toma contacto com as ideias positivistas de Augusto Comte que integra no seu pensamento e ensina nas suas aulas de Direito Administrativo (1865-1880), Direito Público (1881- ?) e Direito Criminal, quando foi responsável por estas cadeiras. Torna-se um positivista ortodoxo que enquadra na sua linha de pensamento três aspectos fundamentais: a lei dos três estados; o relativismo gnoseológico; e, a tentativa de classificação das ciências, dando naturalmente maior enfase à Sociologia.

Para Álvaro Ribeiro, o papel de Emídio Garcia na difusão do positivismo entre os estudos jurídicos foi preponderante, porque o seu "ensino influiu poderosamente na mentalidade dos alunos que haveriam de ser funcionários e políticos" [Álvaro Ribeiro, Os Positivistas, Distribuidora Livraria Popular Francisco Franco, Lisboa, 1951, p. 84]. Na mesma linha de pensamento, mais recentemente António Bráz Teixeira afirma: "o positivismo sociológico assenta arraiais no domínio jurídico, que irá modelar durante largas décadas, de uma forma por vezes difusa e inconsciente e talvez, por isso, mais persistente e surdamente avessa à inovação" [António Bráz Teixeira, História da Filosofia do Direito Portuguesa, col. Universitária, Caminho, 2005, p. 157]. Por seu lado, José Luís Brandão da Luz, afirma que na década de setenta do século XIX, a filosofia positivista provocava acesas polémicas entre Manuel Emídio Garcia e Manuel Eduardo da Mota Veiga, quando o primeiro tenta fazer a conciliação entre positivismo e catolicismo nas páginas da Correspondência de Coimbra, no final do primeiro trimestre de 1873, tendo o segundo respondido no púlpito da Sé de Coimbra [José Luís Brandão da Luz, "A propagação do Positivismo em Portugal", História do Pensamento Filosófico Português. O Século XIX, Tomo I, Coord. Pedro Calafate, Círculo de Leitores, Lisboa, 2004, p. 260].

Entre 1870 e 1874 foi procurador à Junta Geral do Distrito de Coimbra pelos concelhos de Góis e Pampilhosa. Quando exercia esta função esforçou-se por criar um Hospício de Abandonados em substituição da denominada roda dos expostos que até ali vigorava. Elaborou para tal um extenso relatório com as bases dessa reforma e o respectivo regulamento.
Foi vogal do Conselho Superior de Instrução Pública. Apresentou-se como candidato a deputado pelo Partido Republicano, pelo bairro ocidental do Porto, em 1881.

Colaborou em diversas publicações como:
- Prelúdios Literários, Coimbra, 1858-1861[ainda enquanto estudante].
- O Trabalho, Coimbra, 1870
- Correspondência de Coimbra, Coimbra, 1872- [Emídio Garcia foi redactor principal até Junho de 1874]
- O Século, Coimbra, 1877.
- Partido do Povo, Coimbra, 1878 [Emídio Garcia colaborou neste jornal até Fevereiro de 1879??]
- Comércio Português, Porto, nº 218, 21-09-1877.
- Album Literário, Porto, 1880.
- O Positivismo, Porto, Agosto, Setembro, Outubro e Novembro, 1880
- Evolução, Coimbra, 08-05-1882.
- Galeria Republicana, Lisboa, nº 14, 1882.
- O Instituto, Coimbra, vol. XVII e vol XIX.
- A Discussão, Porto, nº 218, 24-08-1884.
- Fraternidade Militar, Coimbra, número único, Abril de 1887, Imp. Universidade, 16 pág.
- Doze de Agosto, Águeda, 1889 [nº de Homenagem da José Estevão Coelho de Magalhães]
- Mala da Europa, Lisboa, nº 17, 09-03-1895 [nº de Homenagem a João de Deus]
- A Época
, Lisboa, nº136, 13-10-1902 [nº de Homenagem a Alexandre Herculano]

Publicou ainda os seguintes trabalhos:
- Theses ex universo jure selectae... Conimbricae, Typis Academicis 1862.[de 20 pág.]
- Estudo sobre a legislação das águas. Dissertação inaugural para o acto de conclusões magnas. Coimbra, Imp. da Universidade, 1862. [de 239 pág.]
- Relatório e parecer apresentado ao claustro pleno da Universidade pela commissão encarregada de estudar as reformas da instrução superior, e responder ás questões indicadas na portaria do Ministério do Reino de 6 de Julho de 1866, Coimbra, Imp. da Universidade, 1867. [de 40 pag.]
Este folheto foi reimpresso na mesma tipografia em 1882.
- Organisação do Curso Administrativo. Relatório e voto especial do dr. Manuel Emídio Garcia, membro da commissão encarregada pela Faculdade de Direito de redigir o projecto de resposta aos quesitos pertencentes a mesma faculdade, indicados na portaria do Ministerio do Reino de 6 de julho de 1866, Coimbra, Imp. da Universidade, 1867.[ de 23 pág.]
- Estudos critico-históricos. I. O Marquez de Pombal. Lance de olhos sobre a sua ciência politica e sistema de administração; ideias liberais que o dominaram, plano e primeiras tentativas democráticas, Coimbra, Imp. da Universidade, 1869.[de 55 pág.]
- Beneficência Pública. A roda dos expostos. Parecer e projecto de reforma apresentados á Junta Geral do Districto de Coimbra, Coimbra, Imp. Literária, 1871. [160 pag.]
- Estudo Sociológico, Coimbra, Imp. Académica, 1880. [Emídio Garcia assina a introdução onde faz um confronto entre Camões, Augusto Comte e Charles Bonnim]
- Faculdade de Direito. Programa da quarta cadeira para o curso respectivo ao anno lectivo de 1885-1886, Coimbra, Imp. da Universidade, 1885.[de 45 pág]
- Plano Desenvolvido do Curso de Ciência Política e Direito Político, Coimbra, Imp. Universidade, 1885.
- Apontamentos de Algumas Prelecções do Dr. E. Garcia, Coimbra, 1893. [Trabalho publicado por Abel de Andrade e Camelo]

Segundo A. H. Oliveira Marques, Emídio Garcia também foi maçon, iniciado em data e loja desconhecidas mas que utilizava o nome simbólico de Augusto Comte. Regularizou a sua situação em 1897, na Loja Comércio e Indústria, de Lisboa [ob. cit., vol I, col. 629].

O profesor Manuel Emídio Garcia faleceu em Lisboa em 15 de Outubro de 1904.

Por indicação amiga do professor Hirondino Fernandes, tomamos conhecimento que se publicou recentemente um estudo biográfico sobre Emídio Garcia:

- Carlos Lipari Garcia Pinto, "Memória do Professor Doutor Manuel Emídio Garcia [conferência]", Liceu 150 Anos. Comemorações dos 150 Anos do Liceu de Bragança, coord. ed. Teófilo Vaz e Carlos Fernandes, Edição da Escola Secundária Emídio Garcia, Tip. Arte Gráfica Brigantina, Bragança, 2004, p. 11-27.

A.A.B.M.