sábado, 31 de agosto de 2019

“A ESSÊNCIA DO TRÁGICO” OU “ANTERO, PORTUGAL COMO TRAGÉDIA”


"A essência do trágico” – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso

Para Eduardo Lourenço, Antero de Quental, marcou o início da modernidade literária no nosso país

"Todos os ciclos da criação poética, todos os ensaios filosóficos, todas as interpelações cívicas e todos os textos políticos de Antero de Quental (1842-1891) foram objeto de estudo e interpretação de Eduardo Lourenço, ao longo de mais de 50 anos. Encontram-se agora reunidos num único volume com o título genérico Antero, Portugal como Tragédia. Destaca-se, em apêndice, um relatório da PIDE — arquivado na Torre do Tombo — acerca da conferência que Lourenço fez sobre Antero, em 1971, no Teatro Gil Vicente, em Coimbra, mencionando nomes de professores e alunos da Universidade de Coimbra que assistiram.

Para Eduardo Lourenço, Antero é “a maior referência intelectual portuguesa” e “o primeiro português que teve uma consciência trágica do destino humano”. E justifica que vários ensaístas, para retirar Antero do “lote dos suicidas anónimos”, atribuem a procura desesperada da morte a depressões patológicas, a uma peripécia subjetiva ou, ainda, a uma tragédia sentimental, quando se trata do “último ato de uma vida que desejou tocar a face de Deus e não a encontrou”. A essência do trágico resulta do “combate a rosto descoberto que destrói uma por uma, com uma espécie de raiva triste, todas as flores da ilusão, todas as esperanças que o nascer do dia oferece à alma humana”.
Antero — considera Eduardo Lourenço — marcou o início da nossa modernidade, representa “o seu próprio ato fundador”. Verificou-se na criação poética — e esta é a primeira leitura literária profunda que se faz a partir de “Odes Modernas” — não apenas ao nível da ideia, das incursões no universo da filosofia; na poesia social, na “poesia revolucionária do futuro”, mas ao abrir caminho ao imaginário de Cesário Verde, de Camilo Pessanha e de Fernando Pessoa. Teve, contudo, maior impacto na afirmação da modernidade o discurso inaugural das Conferências do Casino (1871): “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”. Introduziu uma revolução cultural que “nem é de natureza literária, nem política, nem mesmo ideológica ou banalmente filosófica, embora se traduza em todos estes planos, mas religiosa”. Proposta sem precedentes em Portugal, “no círculo da religião, não abstratamente visada, mas concreta, institucional”, abrangendo todos os valores intocáveis, desde os da pátria aos da justiça, desde os da ordem aos da família.

Estabeleceu, pela primeira vez em público, um separar das águas, “um ajuste de contas da nossa cultura com ela mesma”. Atingiu o legado doutrinário imposto pelo Concílio de Trento, que amordaçava a liberdade de consciência e todas as outras liberdades e instaurou o Tribunal da Inquisição, implantando o catolicismo dogmático e intolerante. Antero avançou, entretanto, com a urgência de uma rutura frontal. As Conferências do Casino foram proibidas pelo Governo e encerradas pela polícia.

Decorridos 150 anos, apesar dos Concílios do Vaticano e das encíclicas que surgiram, a polémica não perdeu atualidade. Continua a ser — acentua Lourenço — uma questão “recalcada, diluída, escamoteada, não apenas na ordem das ideias (que é essencial) mas nos efeitos delas, no plano dos sentimentos, dos afetos, dos rituais privados e públicos que os encarnam”.
Posto isto, Eduardo Lourenço observou, em 1991, e volta a repetir hoje: “A cem anos da sua voluntária morte, Antero ainda tem inimigos. E merece tê-los. O horror seria que os não tivesse. (…) A visão unanimista da Geração de 70 que tem nele o seu ícone cultural esconde mal os conflitos, os antagonismos, as rivalidades, surdas ou clamadas, que, com matéria viva, o atravessaram.” Antero deixou uma obra que “é a estrela negra, fascinadora e repulsiva. (...) A configuração trágica da obra e da vida de Antero — a primeira entre nós que assumiu esse perfil — é odiosa a gregos e troianos”.

Nestes ensaios, Eduardo Lourenço apresenta-nos uma visão original e clarificadora da problemática anteriana do “prosador e do poeta de génio” e outro aprofundamento do homem múltiplo e trágico. A exigência da palavra verifica-se nos mais diversos textos. Aliás, Vitorino Nemésio, mal saiu a “Heterodoxia”, livro de estreia de Eduardo Lourenço, em 1949, alertou para “um nervo e uma elegância que farão a inveja de muitos prosadores”. Confirmou-se. Eduardo Lourenço, que integra uma geração de escritores consagrados (Vergílio Ferreira e Carlos de Oliveira são exemplos incontestáveis), é também um dos grandes escritores da língua portuguesa”



Antero, Portugal como tragédia, Eduardo Lourenço, FCG, 2019, 666 pp.
 
A essência do trágico – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 31 de Agosto de2019, pp. 64 – com sublinhados nossos

 
António Valdemar

terça-feira, 27 de agosto de 2019

III ENCONTRO DE HISTÓRIA DE LOULÉ


Nos próximos dias 30 e 31 de Agosto de 2019, realiza-se em Loulé, no Cine Teatro Louletano o III Encontro de História de Loulé.

Ao longo de dois dias intensos, e com um conjunto de investigadores muito interessante, para apresentar e aprofundar o conhecimento histórico e do património na cidade algarvia.
Entre os investigadores contam-se:
- Helena Catarino;
- Maria do Rosário Morujão;
- Elsa Santos Alípio;
- Susana Cunha;
- Rui Almeida e Catarina Viegas;
- António Rei;
- Luís Miguel Duarte;
- Irene Vaquinhas;
- Fernando Gameiro;
- Catarina Almeida Marado;
- Sérgio Ribeiro Pinto;
- Saúl António Gomes;
- Paulo Morgado e Cunha;
- Marco Ribeiro;
- Carla Vieira;
- Maria da Graça Ventura;
- Luísa Gama.

O programa pode ser consultado abaixo:



As inscrições são gratuitas, mas têm que ser feitas antecipadamente para a ligação abaixo:

Com os votos do maior sucesso em mais esta iniciativa, a todos os títulos louvável, que nos últimos três anos permitiram reunir um grande número de pessoas interessadas e participativas na iniciativa. Numa organização muito bem conseguida pela equipa do Arquivo Municipal de Loulé, pelas pessoas que nele trabalham e pela autarquia que continua a apoiar estas iniciativas.

A.A.B.M,

domingo, 25 de agosto de 2019

[GRANDE ORIENTE LUSITANO – MAÇONARIA PORTUGUESA] NA EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES THOMAZ – FIGUEIRA DA FOZ



DISCURSO PROFERIDO NA EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES THOMAZ NO DIA 24 DE AGOSTO DE 2019, na Figueira da Foz, pelo Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa


"Cumprindo a tradição e uma feliz e justa deliberação da Câmara Municipal da Figueira da Foz, com mais de quatro décadas, aqui estamos, de novo, para homenagear Manuel Fernandes Tomás.

Ao fazê-lo, recordamos o homem e o cidadão, figura destacada e central na Revolução Liberal de 1820, e sublinhamos a importância do seu contributo e do seu ideário para a democracia que temos e para o Estado de Direito que somos.

Trata-se, por isso, de uma iniciativa justa e pela qual honramos a nossa história e o seu legado.
 
Consequentemente, o Grande Oriente Lusitano - Maçonaria Portuguesa, de que Manuel Fernandes Tomás foi um dos seus mais insignes membros, quer cumprimentar de forma particular a Câmara Municipal da Figueira da Foz, a Associação Manuel Fernandes Tomás e a Associação 24 de Agosto pelo vosso contributo permanente para a defesa do ideário da Revolução Liberal de 1820.

Manuel Fernandes Tomás não foi apenas um ilustre figueirense. Foi também um dos maiores portugueses de todos os tempos, um líder pelo exemplo, defensor da Liberdade e promotor da regeneração da Pátria. Um cidadão com um pensamento político denso e ponderado e defensor intransigente das ideias tão caras ao Grande Oriente Lusitano - Maçonaria Portuguesa do bem comum, do bom governo, da sã convivência entre os cidadãos, pautada, sempre, por critérios de inabalável justiça.

Os valores defendidos por Manuel Fernandes Tomás e pelos Heróis de 1820 continuam actuais e credores nos dias de hoje de reconhecimento, defesa e promoção.

Neste enquadramento, o Grande Oriente Lusitano anunciará até ao fim deste ano o conteúdo de um programa nacional comemorativo dos 200 anos da Revolução Liberal, programa que visa assinalar o contributo decisivo do liberalismo para o aprofundamento da nossa democracia e para nosso desenvolvimento colectivo”

[Grande Tesoureiro-Geral do Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa, Figueira da Foz, 24 de Agosto de 2019] | sublinhados nossos

J.M. M.

FIGUEIRA DA FOZ - [ASSOCIAÇÃO CÍVICA E CULTURAL 24 DE AGOSTO] NA EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS


DISCURSO PROFERIDO NA EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS NO DIA 24 DE AGOSTO DE 2019, na Figueira da Foz, pela Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto

Caros Cidadãos

Mais uma vez aqui reunidos na Praça 8 de Maio perante o imponente Monumento em pedra e bronze da autoria de Fernandes de Sá, inaugurado a 24 de agosto de 1911 e sob o qual repousam os restos mortais de Manuel Fernandes Tomás, reafirmamos com a nossa presença não apenas a celebração de um mero ritual espúrio em que todos os anos se assinala uma qualquer data, mas a celebração de uma vida plena de verdadeiro empenho cívico, de uma vida dedicada à defesa da Liberdade nas suas diversas acepções, como um direito inalienável e intrínseco a cada Homem e a cada Mulher, de uma vida eivada de um profundo e sincero amor a Portugal. 

Em nome da Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto cumpre-nos assim a honra e o solene dever de evocar o luminoso dia de 24 de Agosto de 1820, aurora exaltante de regeneração nacional e de emancipação da Pátria, e prestar saudoso preito e homenagem ao Cidadão e Varão Ilustre Manuel Fernandes Tomás, nosso inolvidável patrício, o sangue e a alma da Revolução de 1820. 

Nesta luminosa data, a um ano da solene Comemoração do Bicentenário da Revolução Liberal de 1820, seja permitido destacar duas breves notas:

1. A primeira nota é para reafirmar que a Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto continuará, com o zelo dos seus membros e seguindo o notável e entusiástico trabalho iniciado pela Família de Manuel Fernandes Tomás (ao Dr. Henrique Fernandes Tomás Veiga, o nosso fraternal afecto e abraço), a estar presente em todas as iniciativas que visem perpetuar o espírito e a memória do Patriarca da Revolução.

Deste modo, pretende, com manifesto orgulho, colaborar e abrilhantar a competente celebração do Bicentenário da Revolução de 1820 que a Câmara Municipal empenhadamente propõe solenizar.

2. Uma segunda nota diz particular respeito à (re)construção da memória histórica ligada à obra e vida do Regenerador da Pátria, Manuel Fernandes Tomás.

A dívida de gratidão a quem auspiciosamente semeou e nos franqueou a palavra “Liberdade”, exige, de todos nós, a digna celebração dessa data e da vida de Manuel Fernandes Tomás, o “magistrado aplaudido pelo saber” nas palavras de Rebelo da Silva.

A um ano, precisamente, do Bicentenário da Revolução Liberal de 1820, a Câmara Municipal da Figueira da Foz terá a honrosa responsabilidade de juntamente com a Cidade do Porto organizar a condigna celebração deste efeméride na qual resplandece ainda hoje e cada vez mais o nome de Manuel Fernandes Tomás como o incontornável Patriarca da Liberdade, cuja Luminosa Vida e Legado Cívico hoje aqui recordamos.

Na presença do Senhor Presidente da Câmara reitera a Associação Cívica e Cultura 24 de Agosto o nosso empenho, bem como o de todos os seus Fraternos Associados, em colaborar em tal necessário esforço e desiderato.

Assim, salientamos em particular a importância da Memória na história de uma Cidade e na história de um Povo.
 
Não apenas da memória do mais Ilustre Figueirense mas a importância da memória de uma figura histórica nacional de incontornável relevância.

Mas com a nossa presença, hoje celebramos também e sobretudo aqueles que não se resignaram perante a brutal invasão do nosso país por forças estrangeiras; aqueles que não se resignaram à opressão e ao cruel jugo do Absolutismo personificado pelo perverso e obscuro D. Miguel; aqueles que não se resignaram a aceitar que era um fado do nosso povo um Portugal permanentemente atrasado perante a Europa e o Mundo, sem instrução pública e com um sistema político e social velho de séculos; aqueles que não se resignaram a aceitar que Portugal tinha de viver na forma habitual, sem liberdade de pensamento, de imprensa e com censura prévia; aqueles que não se resignaram a que as Mulheres fossem apenas donas de casa ou criadas de servir.
 
 
 
Lembrar Manuel Fernandes Tomás é homenagear aqueles que no Cerco do Porto em 1832, na Rotunda em Outubro de 1910, na resistência democrática à longa noite da Ditadura, no Forte de Peniche, no Campo do Tarrafal, e no Largo do Carmo em Abril de 1974 permitiram novos amanhãs de esperança para Portugal e para o nosso Povo. Todos esses Portugueses têm um nome na História de Portugal e todos se chamam também Manuel Fernandes Tomás.

Tal como eles também nós não nos resignamos hoje a acreditar que o longo caminho de construção de uma sociedade mais justa, fraterna e democrática está de todo concluído.

Pelo contrário, passos empenhados e firmes no árduo percurso de intervenção cívica em defesa dos nossos Valores e Causas são ainda nos tempos de hoje – e cada vez mais – necessários. 

Foi esse espírito de intervenção cívica empenhada, desinteressada, sem compromisso e corajosa um genuíno e valioso legado que Manuel Fernandes Tomás colocou nas nossas mãos para ser cumprido e perpetuado.

E assim terá de ser e assim será.

Um bem alto Viva à Memória de Manuel Fernandes Tomás!

Um bem alto Viva à Memória do 24 de Agosto de 1820!

Um bem alto Viva à Figueira da Foz e à Liberdade!

 
Um bem-haja a todos. Disse.

[Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto] - sublinhados nossos

J.M.M.

FRANCISCO AUGUSTO CORREIA BARATA (PARTE II)



Enquanto deputado fez parte da Comissão de Redacção, da Fazenda, de Legislação Criminal, da Instrução Superior (1885-1886), do Bill de Indemnidade (1885), da Comissão de Inquérito sobre os impostos do Sal (1885), da Comissão de Resposta ao Discurso da Coroa (1886) e da Comissão para Estudar as Causas da Emigração (1886). Neste período tomou parte em vários debates na Câmara dos Deputados e apresentou uma proposta de projecto de lei para a organização do curso geral da Faculdade de Filosofia, em Abril de 1885. Envolveu-se no debate sobre a revisão constitucional defendendo a manutenção do beneplácito na Constituição, procurando garantir o bom relacionamento entre a Igreja e o Estado. Numa das sessões, o deputado republicano Consiglieri Pedroso solicitou maior rapidez na obtenção de resultados da Comissão de Inquérito ao Imposto do Sal e Correia Barata fez questão de apresentar os resultados até ali obtidos, bem como todas as iniciativas que tinha tomado para melhor esclarecer a situação e no final solicitou que o dispensassem da referida comissão, porque talvez assim os trabalhos avançassem mais depressa.

Recebeu o título de Conselheiro e já jubilado, exerceu ainda as funções de director da Secretaria da Câmara dos Deputados, por diploma de 1 de Fevereiro de 1897 tendo tomado posse do cargo a 3 de Fevereiro seguinte. Desempenhava estas funções quando faleceu.
Foi dos primeiros a acolher com entusiasmo as ideias positivistas de Augusto Comte e conquistou alguma reputação no plano internacional, principalmente em França, onde um dos seguidores de Comte, Pierre Lafitte, o citava com frequência nas suas aulas.

Foi um dos impulsionadores das comemorações do Centenário do Marquês de Pombal na Universidade de Coimbra. Em 15 de Novembro de 1881, na reunião do conselho da Faculdade de Filosofia, apresentou a proposta para se fazer as comemorações do centenário do Marquês de Pombal. A proposta foi aprovada por unanimidade e, no dia 8 de Maio de 1882, discursou na sessão solene juntamente com António Cândido, tendo o discurso sido publicado no Anuário da Universidade de Coimbra 1882/1883, p. 3 a 20. No entanto, a crítica às comemorações surgiram e, entre eles, Ramalho Ortigão, nas suas Farpas foi dos mais críticos. Este discurso encontra-se reproduzido no Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, vol. 19, Lisboa, Imprensa Nacional, 1908, p. 79 a 83.

Tornou-se sócio da Sociedade de Geografia, uma das mais prestigiadas instituições portuguesas na segunda metade do século XIX, em 27 de Março de 1877, sendo o sócio nº 170.

Foi um dos principais responsáveis pela elaboração da Carta de Lei que criou na Universidade de Coimbra a cadeira de Antropologia, Paleontologia Humana e Arqueologia Pré-Histórica, substituindo a de Agricultura que era lecionada até 1885. Juntamente com Bernardino Machado, foi um dos impulsionadores das ideias que foram discutidas e apresentadas no Congresso de Lisboa de 1880. Os professores responsáveis pela cadeira a partir de 1885/1886 foram H. Teixeira Bastos, seguiu-se Bernardino Machado e mais tarde Eusébio Tamagnini.

Em 1886, traduziu a obra de Júlio Verne, Cinco Semanas em Balão, viagem através de África, para editora de David Corazzi.

Sobre a sua personalidade dizia-se que, “era o algarvio menos falador que se conhecia. Calado e taciturno, firme e austero. Irritava-se facilmente e seria um declarado inimigo do obscurantismo católico reacionário, sendo frequentemente atacado por ser um confesso ateu” [Paulo Jorge Fernandes, apud Carlos Lobo d’Ávila, “Barata, Francisco Augusto Correia”, Dicionário Biográfico Parlamentar, vol. I (A-C), coord. Maria Filomena Mónica, Col. Parlamento, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais/Assembleia da República, 2004, p. 296]

Colaborou com os Estudos Cosmológicos, red. A. M. de Senna, Bernardino Machado, F. A. Corrêa Barata. - Nº 1 (1870) - nº 4 (1871). - Coimbra : Imprensa da Universidade, 1870-1871. Disponível aqui: http://purl.pt/30403/4

O Século. Publicação de Filosofia Popular e de Conhecimentos para todos, quinzenalmente, entre Dezembro de 1876 e Maio de 1878, em duas séries, onde colaboravam também: Zeferino Cândido;

A Revista de Coimbra, Coimbra, 1879, tendo sido director da publicação.

Colaborou regularmente com a revista O Instituto, de Coimbra.

Colaborou ainda em Fraternidade Militar, Coimbra, 1887 (número único). Refere Inocêncio a propósito desta publicação: “organizado pela comissão promotora da festa militar realizada em Coimbra pelos oficiais do regimento de infantaria nº 23, em favor da viúva e filhos do desditoso capitão do mesmo regimento José Maria de Sousa Neves. Publicado em 10 de abril de 1887.

Bernardino Machado, faz-lhe o elogio fúnebre n’O Instituto de 1900, conforme se pode ler aqui:

No final da sua vida, envolta em grande sofrimento provocado por doença, acabou por se converter ao Cristianismo, ele que tinha sido fortemente critico da religião fruta da aproximação à filosofia positivista acabou por receber os sacramentos da Igreja, conforme noticiava o jornal A Nação [ver aqui: http://purl.pt/28600/1/j-2976-g_1900-03-30/j-2976-g_1900-03-30_item2/j-2976-g_1900-03-30_PDF/j-2976-g_1900-03-30_PDF_24-C-R0150/j-2976-g_1900-03-30_0000_1-4_t24-C-R0150.pdf ].

Era casado com Rosalina Amélia do Couto d’Almeida Vale Correia Barata, de quem teve filhos. 

Alguma correspondência entre Correia Barata e Bernardino Machado pode ser consultada na Casa Comum da Fundação Mário Soares, disponível aqui: http://casacomum.org/cc/arquivos?set=e_5373

Faleceu em Lisboa, em 28 de Março de 1900.

Obras Publicadas:
Da Atomicidade – Estudo sobre as teorias químicas modernas, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1871 disponível aqui: https://almamater.uc.pt/cn/fundo_antigo/da_atomicidade_estudo_sobre_theorias_chimicas_modernas_por_francisco_augusto_corr%C3%AAa
As raças históricas da Península Ibérica, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1872
Origens Antropológicas da Europa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1873, disponível aqui:
“Juízo Crítico e Científico em desfavor das Teorias do Génesis”, In O Instituto, Julho de 1876, nº 12.
Lições de Química Inorgânica, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1881.
Carta ao sr. Ramalho Ortigão a propósito do Centenário Pombalino, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1882.

Bibliografia Consultada:
Cardoso, Augusto Correia, “Excertos da História do Laboratorio Chymico da Universidade de Coimbra. Parte II: Período 1860–1930”, Boletim da Sociedade Portuguesa de Química, vol. 42, n.º 148 janeiro–março 2018, p. 33-44. Disponível aqui: https://www.spq.pt/magazines/BSPQuimica/683/pdf
CATROGA, FERNANDO, “Os Inícios do Positivismo em Portugal”, Revista de História das Ideias, nº1, Coimbra, 1977
FERNANDES, Paulo Jorge, “Barata, Francisco Augusto Correia”, Dicionário Biográfico Parlamentar, vol. I (A-C), coord. Maria Filomena Mónica, Col. Parlamento, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais/Assembleia da República, 2004, p. 296-297
FRANCO, Mário Lyster, Algarviana. Subsídios para uma bibliografia do Algarve e dos Autores Algarvios, vol. I (A-B), Faro, Câmara Municipal, 1982, p. 243-245.
OLIVEIRA, Francisco Xavier de Ataíde, Monografia do Concelho de Loulé, Faro, Algarve em Foco, 1990
SILVA, Inocêncio Francisco da, Dicionário Bibliográfico Português, Lisboa, Imprensa Nacional, vol. 19, Lisboa, Imprensa Nacional, 1908, p. 79 a 83



NOTA: Apesar de percorrer várias Enciclopédias e Dicionários, jornais e revistas da época não se conseguiu localizar uma gravura ou fotografia de Francisco Augusto Correia Barata. Ela existirá certamente, mas não foi possível, em tempo útil, conseguir uma fotografia. Alerta-se também para o facto de na página da Universidade de Coimbra, AQUI, existirem alguns dados biográficos sobre este professor, a data de falecimento que se encontra publicada não corresponde, conforme chamámos a atenção na primeira parte destes apontamentos biobibliográficos.

A.A.B.M.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

FRANCISCO AUGUSTO CORREIA BARATA (PARTE I)



A III edição do Encontro de História de Loulé no final deste mês de Agosto conta com uma palestra sobre um dos filhos da terra que foi professor na Universidade de Coimbra: Francisco Augusto Correia Barata, cuja biografia muitos desconhecem e que na Universidade de Coimbra, consta com uma data de falecimento que não corresponde. Veja-se o que encontramos sobre esta personalidade que foi Professor de Química, Positivista, Deputado entre outras facetas que vamos descobrir.

Francisco Augusto Correia Barata nasceu em Loulé a 3 de Abril de 1847, filho de Joaquim José da Silva Barata e de Maria Emília das Dores, ambos naturais de Loulé. O pai era um pequeno comerciante/lojista na então vila de Loulé.

Estudou em Faro e fez os preparatórios na capital algarvia, matriculando-se em Outubro de 1866 na Universidade de Coimbra.

Concluiu o seu bacharelato em Coimbra, em Filosofia, em 1870, licenciou-se depois em 27 de Março de 1871. Viveu na cidade dos estudantes a polémica “Questão Coimbrã” e foi influenciado por algumas das ideias que estavam em confronto e afirmação. Completou o doutoramento em 14 de Julho de 1872, tendo sido apresentado por outro ilustre algarvio, neste caso de Olhão, o professor João José Mendonça Cortez. Professor substituto em 1873 e substituto de nomeação definitiva em 1875. Ascendeu a professor catedrático em 30 de Maio de 1877. A sua dissertação de licenciatura reflecte alguns aspectos novos, que estavam a ser integrados no ensino da Química em Coimbra, através do Congresso de Karlsruhe, realizado na cidade alemã em 3 a 5 de Setembro de 1860, onde se realizou o primeiro encontro internacional de químicos.

Foi responsável pelas cadeiras de Zoologia entre 1872 e 1873, nesse mesmo ano letivo, foi substituto extraordinário de Química; no ano lectivo seguinte foi professor substituto de Agricultura. A partir de 1873, professor substituto de Zoologia e ao mesmo tempo de Química Inorgânica (1873 a 1877) e também de Mineralogia (1873-1877). A partir de 1882 foi lente de Química Orgânica até 1897, quando se aposentou, ocupando também as funções de Director do Laboratorio Chimico (1890-1898).


Em termos políticos, apesar de alinhar na corrente filosófica do Positivismo, alinhou com o Partido Regenerador, na sua intervenção política e foi nomeado para Governador Civil de Viana do Castelo (19-10-1882 a 4-02-1884), sendo depois eleito deputado pelo círculo uninominal de Armamar.
O projecto positivista, de Augusto Comte, encontrou eco em Portugal com alguma rapidez. Esse acolhimento foi feito sobretudo nos núcleos mais elitistas da Universidade, das Escolas Politécnicas e das Escolas Médicas, onde as ideias começaram a ser veiculadas por alguns professores. Entre eles, como assinala Fernando Catroga, ["Os Inícios do Positivismo em Portugal", Revista de História das Ideias, nº1, Coimbra, 1977, p. 314 e ss disponível aqui: https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/43977/1/Os_inicios_do_Positivismo.pdf  ] encontramos Teófilo Braga, Manuel Emídio Garcia, José Falcão, Bernardino Machado, Rodrigues de Freitas, Júlio de Matos, Alves de Sá, Bettencourt Raposo, Augusto Rocha e Correia Barata, entre outros. Todos estes homens começaram a difundir algumas destas ideias através dos órgãos de imprensa periódica, entre eles: A Evolução(1876), O Século (1877), O Partido do Povo (1878) e O Positivismo (1878). 

[Em continuação]
A.A.B.M.

[PORTO] COMEMORAÇÕES DO 24 DE AGOSTO DE 1820 - REVOLUÇÃO LIBERAL



A Associação Cívica e Cultural 31 Janeiro promove as COMEMORAÇÕES DO 24 DE AGOSTO DE 1820 – REVOLUÇÃO LIBERAL DO PORTO, no Salão Nobre da Junta de Freguesia do Bonfim, a partir das 18,00 horas

 

J.M.M.
 

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

[FIGUEIRA DA FOZ] 24 DE AGOSTO (16,30 H) – CERIMÓNIA EVOCATIVA DA REVOLUÇÃO LIBERAL DE 1820 E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS



[FIGUEIRA DA FOZ] 24 DE AGOSTO (16,30 H)CERIMÓNIA EVOCATIVA DA REVOLUÇÃO LIBERAL DE 1820 E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS


DIA: 24 de Agosto de 2019 (16,30 horas);
LOCAL: Praça 8 de Maio, Figueira da Foz;
ORGANIZAÇÃO: CMFF | Ass. Manuel Fernandes Tomás | Associação 24 de Agosto

INTERVENÇÕES:



  • Representante da Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto;
  • Representante da Associação Manuel Fernandes Thomaz;
  • Presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz.
 
 

Todas as revoluções deixam transluzir em seus movimentos periódicos, em sua rotação ordinária e em suas fases, o cunho das sociedades que as premeditam e dos agentes que as executaram. A fortuna toma o carácter dos seus escolhidos: a desgraça toma o carácter das suas vítimas


Manuel Fernandes Tomás, in O Independente, nº7, 1 de Dezembro de 1821
 
 
A inquietude revolucionária de 1820 (nas sábias palavras de Joaquim de Carvalho) foi o termo da “dissolução moral do antigo regime” e o início da alvorada para uma “nova visão do homem, da sociedade e do Estado”, uma nova demanda e que tão bem foi compreendida por Manuel Fernandes Tomás e os seus companheiros do Sinédrio. Atente-se à “eloquência varonil” e ao “profundo saber em todos os ramos da administração pública” (nas palavras de Adrien Balbi) desvelados na brilhante apresentação, por Manuel Fernandes Tomás, do Relatório sobre o estado e administração do reino, durante o tempo da Junta Provisional do Governo Supremo, nas sessões de Cortes, de 3 e 5 de Fevereiro de 1821. Medite-se nos seus exemplares ensinamentos 
 
Os serviços prestados à causa liberal pelo patriótico movimento libertador da revolução de 1820 iluminou o país de sinais esperançosos para uma nova era, anunciando, consagrando e tornando público as venturosas tríades: “Princípios, Direitos e Deveres”; “Razão, Lei e Moral”; “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Por isso esses reivindicadores das “liberdades denegadas”, animados do bem da pátria, foram, com o seu pensamento, labor e distintas qualidades, esclarecidos na causa da liberdade Constitucional e heróis na luta contra o despotismo. Mais tarde, o republicanismo soube tomar como sua herança os princípios de cidadania presentes na gloriosa revolução de 1820, abraçando e exaltando a memória dos seus predecessores.
Glória, pois, aos Heróis de 1820.
Honra a Manuel Fernandes Tomás.
J.M.M.

 

domingo, 18 de agosto de 2019

ALMA LUZITANA – PEÇA DE TEATRO DE FERREIRA DE CASTRO



LIVRO: Alma Luzitana. Phase da Guerra Luso-Alemã em Naulila, Africa – (1914-1915);
AUTOR
: J[osé] M[aria] Ferreira de Castro;
EDIÇÃO: Belém (Pará), Typ. F. Lopes, Dezembro de 1916.

 “Esta peça teatral de Ferreira de Castro nunca foi reeditada e dificilmente o virá a ser nos tempos mais próximos, em virtude de Direitos de Autor. Seria uma boa peça para os bibliófilos da I GG.

Contudo, à falta do texto, podem ler o enredo AQUI “ [Maria Clara Vasco Campanilho Barradas, Estudos de Teatro. A Obra Dramática de Ferreira de Castro – tese de Mestrado] - Via Emílio Ricon Peres [Memória da República], com a devida vénia e forte abraço

  Ferreira de Castro (1898-1974) é um dos mais reconhecidos romancistas portugueses do século XX. Começou a escrever por volta dos 13 anos e foi apurando a sua técnica em contos e novelas. Fruto da pouca experiência, esses textos são ainda frágeis na sua composição. A partir de 1928, as suas obras, principalmente romances, revelam já maturidade na técnica e nos temas, podendo a obra do escritor ser, portanto, dividida em duas fases. Ferreira de Castro escreveu também quatro textos dramáticos, três na primeira fase e um na segunda.

A primeira peça – Alma luzitana (1916) – foi escrita no Brasil, para onde o escritor tinha emigrado. Foi publicada, mas – tanto quanto se sabe – não foi representada. Conta a história de uma família desfeita em consequência da guerra. A segunda peça – O rapto (1918) – também foi escrita no Brasil. Existe apenas um manuscrito deste texto, que foi representado na cidade de Belém, no Pará. Tem como questão central a emancipação da mulher. O Mais Forte (1922), a terceira peça, já foi escrita em Portugal. Este texto, distinguido num concurso de peças do Teatro Nacional Almeida Garrett, nunca foi editado nem representado, existindo apenas o manuscrito. Retrata a vontade de um homem em subir na vida a todo o custo. A quarta e última peça – Sim, uma dúvida basta (1936) – é a única que pertence à segunda fase da obra de Ferreira de Castro. Foi escrita a pedido do actor Robles Monteiro, mas a sua representação foi impedida por ordem superior. O texto, que só foi editado em 1994, expõe um caso jurídico de consciência e de dúvida.

A peça mais interessante e bem construída de Ferreira de Castro é Sim, uma dúvida basta. Mesmo assim, a leitura das outras não deixa de ser pertinente para se conhecer e entender o percurso literário de Ferreira de Castro que o levou até à sua fase canónica.” [AQUI]

J.M.M.