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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

[ANGRA DO HEROÍSMO] CONFERÊNCIA/DEBATE – “DIÁLOGOS: A IGREJA E A MAÇONARIA AO SERVIÇO DA SOCIEDADE” | EXPOSIÇÃO DE EX-LIBRIS MAÇÓNICOS



CONFERÊNCIA/DEBATE: Diálogos: a Igreja e a Maçonaria ao Serviço da Sociedade” | Exposição de Ex-Libris Maçónico

ORADORES: Fernando Lima (Grão-Mestre do Oriente Lusitano) | Frei Bento Domingues;

DIA: 1 de Dezembro 2018 (21,00 horas);
LOCAL: Salão Nobre dos Paços do Concelho de Angra do Heroísmo;

NOTA: A Sessão será antecedida pela inauguração da exposição “Ex-Libris Maçónicos – Coleção de Sérgio Avelar Duarte, que tem lugar no Átrio dos Paços do Concelho.

 
A não perder
 
J.M.M.

 
 

quinta-feira, 8 de março de 2018

40.º ANIVERSÁRIO DA MORTE DE VITORINO NEMÉSIO – EVOCAÇÃO DA SUA VIDA E OBRA



40.º Aniversário da Morte de Vitorino Nemésio – Evocação da sua Vida e Obra

 
DIA: 10 de Março 2018 (15,00 horas - 17,00 horas);

LOCAL: Centro Cultural de Belém (sala Sophia de Mello Breyner Andresen), Lisboa.

 
PROGRAMA:

- Abertura e Justificação da Homenagem (por Elísio Summavielle, pres. Cons. Adm. Do CCB)

- Retrospetiva de Vitorino Nemésio (António Valdemar, jornalista e investigador)

­- Poemas de Vitorino Nemésio (por Luiza Costa)

- O Lugar de Nemésio na Literatura Portuguesa e na Cultura Açoriana (Luís Fagundes Duarte, Univ. Nova de Lisboa)

- Poemas de Vitorino Nemésio (por Luiza Costa)


“Poeta, escritor e professor universitário, Vitorino Nemésio (1901-1978) nasceu com o século XX e acompanhou quase todo o século nas suas múltiplas transformações culturais, políticas e sociais.

Em março de 2018 completam-se 40 anos sobre a sua morte. O Centro Cultural de Belém vai recordar esta efeméride no dia 10.


A problemática açoriana dominou grande parte da criação literária de Nemésio, embora se ocupasse de outros temas relacionados com a Europa e, muito em especial, o Brasil.

Deixou quatro livros de ficção, onze de poesia e, ainda, mais dezassete volumes constituídos por aquilo que, genericamente, denominou «história, critica e viagens». De todos os títulos, porém, o que teve maior renome nacional e internacional foi o 
Mau Tempo no Canal (1944).

Além do 
Mau Tempo no Canal, Vitorino Nemésio afirmou- se como poeta, nomeadamente em: La Voyelle Promise (1935); O Bicho Harmonioso (1938); Eu, Comovido a Oeste (1940); Nem Toda a Noite a Vida (1953); O Verbo e a Morte (1959); Canto de Véspera (1966); Sapateia Açoriana (1976). Assinala-se na obra poética o livro póstumo, Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga (2003), que testemunha a outra grande paixão com Margarida Vitoria Jácome Correia”.

[António Valdemar, AQUI – sublinhados nossos]

FOTO: Vitorino Nemésio, por Alfredo Cunha, com a devida vénia

J.M.M.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

O PINTOR DOMINGOS REBÊLO EM 10 PINCELADAS – LIVRO E CONFERÊNCIA



AUTORA: Rosa Maria Neves Simas;
EDITORA: Letras Lavadas;

APRESENTAÇÃO:

DIA: 2 de Fevereiro de 2018 (21,30 horas);
LOCAL: Casa dos Açores [Rua dos Navegantes, 21 – à Lapa], Lisboa;
ORGANIZAÇÃO: Casa dos Açores;

ORADORES: António Valdemar (Academia das Ciências) | Jorge Rebêlo

 
O pintor e professor Domingos Maria Xavier Rebelo (1891-1975) nasceu em Ponta Delgada a 3 de Dezembro de 1891, de família de “posses modestas” mas que valorizava o ensino e a educação, como uma valia importante para a ascensão social e cultural. Fez Domingos Rebelo os seus estudos (de forte componente católica) no Instituto Fischer, revelando cedo uma especial propensão para as artes e a pintura. Ingressou na Escola de Artes e Ofícios Velho Cabral [por iniciativa do Decreto de 22 de Agosto de 1889, de Emídio Navarro, são fundadas Escolas Técnicas nos Açores; a 1 de Outubro de 1890 inicia-se as aulas na Escola de Desenho Industrial Gonçalo velho Cabral, curiosamente no solar onde nasceu Antero de Quental], actual Escola Secundária Domingos Rebelo. Com apoio dos condes de Albuquerque, “impressionadas com a qualidade da sua arte”, Domingos Rebelo parte para Paris para prosseguir os seus estudos (tinha 15 anos de idade).


É em Paris que Domingos Rebelo estuda e convive com uma plêiade de notáveis nomes da pintura [Léon Bonnat, Amadeu de Sousa Cardoso, Santa Rita Pintor, Emmerico Nunes, Dórdio Gomes, Eduardo Viana, Manuel Bentes, Pedro Cruz] que lhe marcam decisivamente a sua valiosa obra artística.    

Regressa em 1913 a sua Ilha de S. Miguel, ali permanecendo 30 anos, com deslocações a Lisboa, participando regularmente em exposições na Sociedade Nacional de Belas-Artes. A partir de 1942 estabelece-se em Lisboa, onde produz obras importantes, ao mesmo tempo que leciona, foi director da Biblioteca Museu do Ensino primário, director da Academia Nacional de Belas Artes (1947-1970).

Morre a 11 de Janeiro de 1975.  

J.M.M.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

A MAÇONARIA NA SOCIEDADE AMOR DA PÁTRIA. A HISTÓRIA DE UMA LOJA NO FAIAL




LIVRO: A Maçonaria na Sociedade Amor da Pátria. A História de uma Loja no Faial;
AUTOR
: António Lopes;
EDIÇÃO: Sociedade Amor da Pátria, 2017, p. 192

“No caso da Maçonaria, que não é religião, nem mera ideologia, onde se vivem e revivem lendas, alegorias e símbolos, através de rituais conhecidos, é mais intensa e formalizada essa dimensão, até com a procura do próprio sagrado. Logo, ver de fora qualquer comunidade de coisas que se amam pode levar muitos a dizer que todas as cartas de amor são ridículas. Mas como dizia Fernando Pessoa, é bem mais ridículo não se escreverem cartas de amor. Ou não responder a uma entrevista sobre a matéria, só porque o interpelante tem manifestado óbvias divergências com as nossas conceções do mundo e da vida, mas talvez seja capaz de reconhecer que comete erros, tem dúvidas e pode enganar-se, até na listagem de inimigos públicos”

A Sociedade Amor da Pátria foi no passado, e é no presente, uma entidade marcante e incontornável na vida e na história do Faial e da cidade da Horta em particular. Abordar os momentos chave dessa história é manter vivo o presente, compreendendo-o com a certeza que, com isso, estamos a honrar todos os faialenses, de nascimento ou de coração, que em tempos idos lutaram para que os homens e as mulheres de hoje possam ter um conjunto de referências morais e materiais que os enchem de orgulho.

 


Essa história a que nos referimos é feita por uma Sociedade criada pela Maçonaria onde, por vezes, não se distingue onde começava o pensamento ou a ação de uma e acabava o de outra. Por isso, conhecer a história da Loja Amor da Pátria é conhecer uma parte importante da Sociedade Amor da Pátria, mais vasta é certo, mas onde estão presentes os ideais da Liberdade, Igualdade e Fraternidade que floresceram nesta ilha, Compreende-se que a dado passo desta obra se diga que no Faial “até as pedras das calçadas eram constitucionais”.

A Direção da Sociedade Amor da Pátria ao convidar o Dr. António Lopes para efetuar este trabalho, historiador especializado nos temas maçónicos, está a lembrar esse passado que nos orgulha e a deixar para os vindouros momentos que o tempo tem tendência para apagar, e os homens, mesmo que involuntariamente, por vezes esquecem. Ao lembrar esse passado estamos a assumir a paixão que nos motiva numa casa como esta. Estamos a lembrar o contributo cívico de uma entidade, dos seus associados e dos seus dirigentes para com o todo social num momento histórico difícil para o associativismo e em prol do Bem Comum. Estamos ainda a prestar homenagem, aos sócios de ontem e de hoje, que fizeram e fazem a Sociedade Amor da Pátria e estamos, por fim, a sublinhar o contributo cívico que a Sociedade Amor da Pátria todos os dias, de forma renovada, dá para a história do Faial e dos Açores.

[Ruben Simas, in Prefácio à obra - sublinhados nossos]

J.M.M.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

[ANGRA DO HEROÍSMO] TEOTÓNIO DE ORNELAS BRUGES


 
INAUGURAÇÃO do Monumento Urbano – Teotónio de Ornelas Bruges


DIA:
2 de Dezembro 2016 (17,00 horas);
LOCAL: Angra do Heroísmo;


"Dia 2 de dezembro, sexta-feira, pelas 17h00, a autarquia de Angra do Heroísmo associa-se ao Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa na inauguração, no lugar da Memória, de um Monumento Urbano Para Informação (MUPI) de homenagem a Teotónio de Ornelas Bruges (1807-1870), primeiro Presidente de Câmara eleito em Portugal e ilustre filantropo e liberal angrense que foi o grande responsável pela edificação desse monumento em memória de D. Pedro IV" [AQUI]
 
 

Teotónio de Ornelas Bruges (1807-1870), aliás Teotónio Simão de Ornelas Bruges Paim da Câmara de Ávila e Noronha Ponce de Leão Borges de Sousa e Saavedra, 1º Conde da Praia da Vitória e 1º Conde de Bruges, foi um notável intérprete da causa do liberalismo. Natural da Ilha Terceira, rico terratenente da ilha, foi oficial das milícias liberais de Angra, liderando a regeneração liberal de 1828, tornando a Ilha Terceira um baluarte de resistência da causa liberal em Portugal, assumindo a administração da Ilha à custa da sua fortuna, pois era o único território sob ocupação das forças fieis a D. Pedro IV. Teve diversos cargos governativos nos Açores (Secretario de Estado da Regência, Pres. da Camara de Angra de Heroísmo, deputado às Cortes, Par do Reino).

Pertenceu à ala Setembrista do liberalismo, aderindo ao Partido Histórico. Foi-lhe concedido, por carta regia (6 de Agosto de 1863), o título de Conde da Vila Praia da Vitória, sendo fidalgo cavaleiro da Casa real, comendador da Ordem de Cristo.

Teotónio de Ornelas Bruges foi carbonário e maçon. Foi um dos fundadores da Barraca Carbonária 22 de Junho com o n.s. de Leónidas [cf. António Lopes, A Maçonaria Portuguesa e os Açores 1792-1935, 2008 – a Barraca foi fundada por maçons pertencentes à Loja 11 de Agosto de 1829]. Foi maçon, iniciado possivelmente em 1828 [António Lopes, ibidem, p. 60] na Loja 15 de Setembro (loja extinta no continente em 1823), integrou a Loja “11 de Agosto de 1829” [loja de Angra do Heroísmo, pertencente ao GOL, e que depois se integra na Maçonaria do Sul], com o nome simbólico de Aníbal, vindo posteriormente a pertencer à Loja União e Segredo [GOL] e à Loja União Terceirense.  

Faleceu a 25 de Outubro de 1870.     

J.M.M.

domingo, 23 de agosto de 2015

DINIZ DA LUZ, RETRATO INCOMPLETO DE UM MICAELENSE COMPLETO


Diniz da Luz, Retrato Incompleto de um Micaelense Completo” – por António Valdemar, in Correio dos Açores

“Torrentes da memória a propósito do jornalista, do poeta, do colega e do amigo, a um mês do centenário do nascimento, onde voltará a ser homenageado. Pelo menos, na sua ilha e na sua terra

Conheci imensas pessoas mas dificilmente encontrei alguém como Diniz da Luz. Fumava, vorazmente, quatro ou cinco maços de cigarros. Julgo que excedia o Cardeal António Ribeiro ou o arquitecto Siza Vieira. Bebia cerca de trinta cafés, por dia. Também suplantava o escritor Ferreira de Castro. Os que assistiam, a seu lado, a um desafio de futebol, e se o Benfica tivesse algum azar, ouviam-no proferir os maiores palavrões contra o adversário. Ultrapassavam o recenseamento e as notas de Carolina Michaelis dos Autos de Gil Vicente e das Cantigas de Escárnio e Maldizer. Assemelhava-se ao pior e melhor da irrupção sarcástica e satírica de outro padre, José Agostinho de Macedo, miguelista ferrenho contra os liberais, autor dos Burros, da Besta Esfolada e da Tripa Virada.

Conheci, pessoalmente, em São Miguel, Diniz da Luz, cujo centenário do nascimento, decorrerá, a 8 de Setembro e voltará a ser homenageado. Pelo menos na sua terra e na sua ilha. Apresentou-nos Silva Júnior, no antigo Bureau de Turismo, um dos locais históricos de Ponta Delgada, onde chegavam jornais e revistas portugueses e estrangeiros, que nos traziam os sinais do mundo. Foi ainda num tempo em que tudo permanecia muito mais longe.

Radicava-me, pouco depois, em Lisboa (com a ilha dentro de mim) e víamo-nos, todos os dias e até várias vezes por dia. Na mesma rua, uma das fonteiras do Chiado e do Bairro Alto, berço e túmulo de tantos jornais. Ele trabalhava n’A Voz e eu no República. Todavia, as diferenças políticas e religiosas não representavam qualquer obstáculo a um convívio aberto e assíduo. Diniz da Luz entrara para A Voz, diário católico e monárquico, ainda dirigido por Fernando de Sousa o mais feroz e sistemático adversário da Maçonaria, e continuado por Pedro Correia Marques, também católico e monárquico, e ainda mais; apoiante do 28 de Maio, da ditadura militar de Gomes da Costa e da ditadura de Salazar. Requisitado à diocese de Angra, esteve no quadro d’A Voz de Janeiro de 1940 até fins de 1970. Não estava sujeito a trabalhos de agenda, nem lhe pediam textos de opinião política. Limitava-se à informação religiosa, mas com os condicionalismos de um jornal ligado ao que havia de mais conservador e comprometido com o salazarismo.

As posições frontais de Diniz da Luz causaram-lhe dissabores profissionais. Durante a Guerra apoiou a causa dos aliados. Terminada a guerra, o rei Jorge VI, da Inglaterra, atribuiu a Diniz da Luz uma condecoração. O rei Leopoldo II da Bélgica também o agraciou. Foi um ativo militante contra Hitler, o nazismo e o fascismo.

Logo que foi anunciado o Vaticano II, Diniz da Luz, embora se mantivesse como redator d’A Voz, passou a escrever artigos de opinião no Diário Popular, acerca das mudanças operadas pelo Concilio na estrutura tridentina da igreja. No seu jornal teriam de ser «amputados em questões fundamentais». «Bastam – disse-me várias vezes – as picardias habituais da Censura».

Encontrávamos-nos na Bertrand e, ao fim da tarde, na mesma leitaria. Recusava a Brasileira. Outras vezes, no Rossio, na Mónaco, à procura de jornais estrangeiros. Tínhamos amigos comuns. Dizíamos mal do Salazar e do salazarismo. Eramos controlados pela PIDE, na própria redação. Ele n’A Voz e eu, pouco depois, no Diário de Noticias e n’A Capital. (Fui notificado, com outros colegas, pela Comissão de Extinção da PIDE e interrogado pelo capitão António Pardal, por causa das denuncias de informadores que eram jornalistas, seguiam os nossos passos e escutavam as nossas conversas. Um dos denunciantes espiou Diniz da Luz, desde o primeiro até ao último dia em que trabalhou n’A Voz e exerceu altos cargos no Sindicato dos jornalistas).

Para todos nós, Diniz da Luz constituía uma das referências emblemáticas dos Açores, onde se destacava a figura tutelar de Vitorino Nemésio. Se bem me lembro – há mais de 50 anos – existiam outros açorianos em jornais e revistas: Rebelo de Bettencourt, amigo próximo de Fernando Pessoa, de Almada Negreiros e de Aquilino Ribeiro, na Gazeta dos Caminhos de Ferro, na revista Viagem e correspondente do Diário dos Açores; Jaime Brasil, a chefiar a redação do Primeiro de Janeiro em Lisboa, após a aposentação de Pinto Quartim (tive a honra de lhes suceder durante 12 anos). Num dos jornais mais antigos, o Portugal Madeira e Açores, trabalhava Breno de Vasconcelos, genealogista empenhado, que principiara no Correio dos Açores – suponho que depois de José Bruno – com Manuel Ferreira, Salomão Adrahy, Dias Júnior e Cícero de Medeiros.

Estavam ligados ao Diário da Manhã, A Voz, ao SNI e à agência ANI, Dutra Faria e Ramiro Valadão. Vinham do jornal e do partido de Rolão Preto. Foram sustentáculos indefetíveis do salazarismo e do marcelismo. Foram fundadores do Diário Popular, dirigido por António Tinoco, neto de Charles Lepierre e com raízes açorianas. No entanto, Tinoco e António Pedro derivaram para a oposição como, aliás, o próprio Rolão Preto.

O Século, entre os seus fundadores, na década de 80, do século XIX, além de Magalhães Lima e outros pilares do regime republicano, teve a participação de António Furtado, irmão do cientista Francisco Arruda Furtado, o único português que se relacionou com Darwin. Contou, muitos anos, com o profissionalismo de Raposo de Oliveira, que havia sido, na transição da monarquia para a Republica, um dos redatores parlamentares da época áurea d’A Lucta de Brito Camacho, historiada no mesmo livro por Ferreira de Mira e Aquilino Ribeiro.

Nos meus verdes anos de Lisboa, recordo-me n’O Seculo de Geraldo Soares, natural do Pico, colecionador de livros, apaixonado de Natália Correia, até ao delírio. Remédios de Bettencourt, chefiava a seção internacional. Agostinho Vieira de Areia Remédios de Bettencourt, de seu nome completo – como se escrevia em algumas necrologias de luxo – natural da Terceira, também era tradutor dos Livros do Brasil onde assinava Vieira d’Areia.

Entre todos, Diniz da Luz distinguia-se por várias singularidades. Era jornalista e padre, mais jornalista do que padre e, fundamentalmente, pelo seu açorianismo irredutível. Ele próprio se definia: «Em Lisboa sou dos Açores, nos Açores sou de S. Miguel; em São Miguel sou do Nordeste; no Nordeste sou do Nordestino. E no Nordestino sou do Burguete». Na reta final, ao sentir-se sem amigos mesmo à porta de casa, acrescentava: «no Burguete – ai de mim! – sou … de Lisboa que me não sai do pensamento, nem nos sonhos de cada noite. Em Lisboa vivi a minha vida, quase trinta e um anos, pelo que me apetece voltar ao princípio. No Burguete sou de Lisboa».

Observava ainda: «Podia escrever: Porque me orgulho de ser Açoriano. Porém, o que tenho passado por doença e sem família, fez estremecer essa ideia, embora as terras não tenham culpa dos males dos seus filhos. Mas tinha tempo para respirar e ver o Benfica. O cargo anedótico de Cônsul Geral dos Açores tirava-me o sono e o melhor das folgas de tempo útil. Orgulho-me – concluía – de uma coisa: nunca deixei de receber um açoriano ou o fiz esperar. Nunca fui dos açorianos encobertos em Lisboa».

Mas Diniz da Luz era também arisco e refratário às receções e conveniências mundanas. Habituara-se a uma modéstia excessiva. Morava no Rossio, num quarto alugado, de uma velha pensão, onde chovia de Inverno. Almoçava e jantava na cantina da Guarda Republicana, no quartel do Carmo. Tomava o pequeno-almoço no café Gelo quando ainda não estavam os surrealistas. Exatamente o contrario do Padre Moreira das Neves, chefe de redação do jornal as Novidades, órgão do episcopado, outro amigo excelente de muitos anos, de convívio também quase diário, ao almoço, no mesmo restaurante, próximo da redação do Novidades e do Hospital de Santa Marta. Homem de confiança absoluta do Patriarca e dos sucessivos Núncios Apostólicos, Moreira das Neves era autor de muitos textos que saíram com a assinatura do Cardeal Cerejeira. Precursor de Tolentino da Nóbrega, Moreira das Neves, celebrava batizados, casamentos funerais de pessoas importantes. Também era capelão do Visconde do Botelho.
 
 

Por seu turno, Diniz da Luz era capelão de António Medeiros de Almeida que residia muito perto da minha antiga casa, na rua Barata Salgueiro. De manhã, muitas vezes com o ar mais desconsolado do mundo, surpreendia o vulto esguio e trepidante de Diniz da Luz:

«Você não pode calcular» – gritava-me a esbracejar - «o que é dizer missa, todos os dias, com a capela vazia. Não dá tusa nenhuma. O motorista ajuda a missa. Peço-lhe para trazer ao menos a mulher. Responde-me. Só pode ser ao domingo…». «E não há vizinhos para virem à missa? Perguntei-lhe: «Ao domingo vão a outras missas. Até para casa do Visconde Botelho. Ficam deliciados com o Moreira das Neves» …

Foi numa destas manhãs de Lisboa, enquanto eu avançava para o Diário de Noticias, na esquina da rua Barata Salgueiro para o a Avenida da Liberdade (seria, anos depois, a sede do Banco Espírito Santo) que vi Diniz da Luz, depois de celebrar missa, eufórico com o volume da Antologia da Poesia Erótica e Satírica de Natália Correia, já apreendido pela Pide e pela Censura.

«Então que tal? Com um riso luciferino exclamou: – Está aqui tudo. Ofereceu-me com esta dedicatória que você não tem. Sou amigo e admirador da Natália desde que vim para Lisboa. Estou com a Antologia a atualizar o vocabulário para quando as coisas correrem mal ao Benfica…»

Riu. Riu muito. Rimos os dois. Muitíssimo.

Agora, lembro-me, de súbito, da última visita que lhe fiz em São Miguel. Mantinha a palavra rebelde e solta. Como sempre. Mas as frases, de vez em quando, não tinham sentido. Nenhum de nós se riu. Como era costume.

Estava outro. Irreconhecível. Quase um fantasma. Quase como as hortenses na antiga estrada para o Nordeste, na voragem galopante do Outono para o Inverno. Tristemente desbotadas, envelhecidas, exaustas da cor, da explosão de cor que derramaram. Esgotara-se a exuberância, a energia, o viço que Diniz da Luz exaltara na Ponta da Madrugada: «pingos de céu e mar que a terra/ troca em onda de azul que não se perde/nem ao bater de encontro às serranias».

Ao aproximar-se o centenário do nascimento, não consigo afastar a imagem de Diniz da Luz, tal qual o conheci, anos e anos seguidos, igual a si próprio como jornalista, como poeta, como amigo, 25 horas por dia açoriano, voz irreprimível de São Miguel, do Nordeste, do Nordestino e do Burguete, dividido entre a rotina e as solicitações de Lisboa e a presença dominadora do Pico da Vara e, sobretudo, do horizonte vivido e sentido no alto das rochas abertas para o mistério e fascínio do mar absoluto.

[NOTA: nasceu Diniz da Luz a 8 de Setembro de 1915 em S. Pedro Nordestino (S. Miguel), frequentou o seminário em Angra, foi ordenado sacerdote em 1938, trabalhou como prefeito num colégio de Ponta Delgada; foi jornalista, poeta, cronista, ensaísta … e morre a 20 de Dezembro de 1988]







Diniz da Luz, Retrato Incompleto de um Micaelense Completo – por António Valdemar [Jornalista, carteira profissional nº24], jornal Correio dos Açores, 19 de Agosto de 2015, p.16 – com sublinhados nossos.
 
J.M.M.
 
 

 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

AÇORES: 100 ANOS DE REPÚBLICA


LIVRO: "AÇORES: 100 ANOS DE REPÚBLICA". Actas do Ciclo de Conferências, Governo Regional dos Açores | Coordenação dos Palácios da Presidência, Outubro 2012.

"Foi recentemente editado o volume intitulado "Açores: 100 Anos de República", onde se encontram reunidas as comunicações proferidas no âmbito do ciclo de conferências com o mesmo nome, que se realizou durante o ano de 2011, no quadro das comemorações do centenário da implantação do regime republicano em Portugal, levadas a efeito pelo Governo Regional dos Açores.

Editadas em colaboração com a Coordenação dos Palácios da Presidência, as Atas incluem, de entre os textos explanados pelos diversos estudiosos e especialistas, a conferência de abertura, da autoria de António Reis, apresentada a 3 de novembro de 2010 no Palácio de Sant’Ana, bem como o texto de encerramento dos trabalhos, proferido por Tomaz Vieira.

Embora nesta obra tenha lugar de destaque a investigação referente directamente aos Açores no período em causa, às particularidades socioeconómicas do arquipélago e às suas personalidades mais marcantes, são também numerosos os textos dedicados à realidade nacional no seu todo e que descrevem e contextualizam os mais variados aspectos da vida portuguesa cerca de 1910, adianta uma nota do Gabinete de Apoio à Comunicação Social". [ler AQUI]
FOTO via António Ventura Facebook, com a devida vénia.

J.M.M.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

FOTOBIOGRAFIA DE MANUEL DE ARRIAGA



Foi recentemente publicada a Fotobiografia de Manuel de Arriaga, da autoria de Joana Gaspar de Freitas, numa edição da Câmara Municipal da Horta, 2011, uma obra que foi apresentada na cerimónia de encerramento das Comemorações do Centenário da República que decorreram nos Açores.

Uma obra que merece a maior divulgação.

A.A.B.M.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

CENTENÁRIO DA ELEIÇÃO DO PRIMEIRO PRESIDENTE DA REPÚBLICA PORTUGUESA


Vai realizar-se amanhã,4ª Feira, 24 de Agosto de 2011 pelas 21.30 horas, na cidade da Horta, Ilha do Faial - Açores a Sessão Evocativa para assinalar o primeiro centenário da eleição para a presidência da República, do Dr. Manuel de Arriaga.

A sessão decorrerá no Auditório da Biblioteca e Arquivo Regional João José da Graça Cidade da Horta, Ilha do Faial e conta com
o Alto Patrocínio do Senhor Presidente da República.

A sessão vai ser presidida pelo Representante da República nos Açores com a presença do Senhor Presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores.


PROGRAMA

Contributos para a projecção da memória de Manuel de Arriaga – 2001-2011
Professor Doutor Henrique Melo Barreiros, Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta

Manuel de Arriaga: Um Pensamento de Verdade e de Justiça
Professora Doutora Magda Costa Carvalho, Universidade dos Açores

Manuel de Arriaga: O Julgamento da História
Professor Doutor Luís Bigotte Chorão, Universidade de Coimbra

Intervenção do Representante da República nos Açores
Embaixador Pedro Catarino

Momento Musical – sob a Direcção Artística da Professora Ludmila Chovkova do Conservatório Regional da Horta, serão interpretados os seguintes trechos musicais:

Prelúdio nº 9 de Luís Freitas Branco por Isabel Carvão em piano
Concerto em dó menor, II andamento, para violoncelo e piano de Iohn K. Bach por Vítor Daniel Pavtchinski (violoncelo) e Ludmila Chovkova (piano)

Canção sem palavras de F. Mendelssohn por Isabel Carvão em piano

Coordenador da sessão – Luis Prieto

Apoio – Câmara Municipal da Horta
Biblioteca e Arquivo Regional João José da Graça

Organização – Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta

Uma sessão que merece a maior divulgação e acompanhamento por parte dos açorianos, em particular dos faialenses. A acompanhar com toda a atenção.

[Nota: a imagem que se apresenta supra para ilustrar o programa deste evento foi a capa da revista Ilustração Portuguesa, na época, conforme se pode confirmar consultando a referida revista AQUI.]

A.A.B.M.

sexta-feira, 18 de março de 2011

A PONTE Nº 2 - REVISTA CULTURAL DA RIBEIRA GRANDE


REVISTA: A Ponte nº2 [Revista Cultural da Ribeira Grande];
EDIÇÃO: Câmara Municipal da Ribeira Grande - São Miguel, Açores;

A Divisão de Promoção Cultural e Juventude, da Câmara Municipal da Ribeira Grande, publicou a sua estimada revista cultural. A edição deste ano é "dedicada aos cem anos de implantação da República em Portugal e, em particular, no concelho da Ribeira Grande".

TÍTULOS/COLABORAÇÃO:

- "República e Republicanos, Maçonaria e Maçons em São Miguel", por António Lopes [Museu Maçónico];
- "No rescaldo da proclamação da República na ilha de São Miguel", pela profª Susana Serpa Silva [Univ. dos Açores];
- "A República na Ribeira Grande(1910)", por José Guilherme Reis Leite;
- "A Ribeira Grande antes e durante a I República anotações para um notariado histórico", por Hermano Teodoro;
- "Dr. José Nunes da Ponte. Esboços e perfis em construção", por Mário Moura.

ler/ver mais AQUI

J.M.M.

quarta-feira, 16 de março de 2011

A REPÚBLICA, OS AÇORES E A AUTONOMIA



Vai ser apresentado amanhã, 17 de Março de 2011, pelas 21 horas, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, em Ponta Delgada, o livro A República, os Açores e a Autonomia- Ciclo de Conferências, que reune os textos das conferências realizadas no âmbito do Centenário da República Portuguesa.

Esta iniciativa resulta do trabalho desenvolvido pela Câmara Municipal de Ponta Delgada e pelo Instituto Cultural de Ponta Delgada e conta com a apresentação do Reitor da Universidade dos Açores, Avelino Meneses.

A presente obra conta com os textos dos seguintes autores:
- Álvaro Monjardino;
- João Bosco Mota Amaral;
- Jaime Gama.

A coordenação editorial da obra esteve a cargo de João Paulo Constância.

Para mais informações consultar AQUI ou AQUI.

A.A.B.M.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

MANUEL GOULART DE MEDEIROS – NOTA BREVE


Manuel Goulart de Medeiros nasce a 24 de Março de 1861, na cidade da Horta (Ilha do Faial). Era filho do conselheiro Venâncio de Medeiros Júnior e de Maria Alexandrina Goulart de Medeiros [cf. As Constituintes de 1911 e os seus Deputados, Livraria Ferreira, 1911, p.195]. Estuda no liceu da Horta, tendo participado no primeiro jornal editado pelos estudantes desse liceu, "O Lyceu da Horta" [ler AQUI] e, depois, inscreve-se na Escola Politécnica, em Lisboa.

Pertenceu à arma de artilharia, tendo assentado praça a 30 de Outubro de 1880, terminando o seu curso em 1882. Nesse ano, defendendo já ideias liberais e republicanas, e ainda estudante, integra a comissão promotora das comemorações do Centenário do Marquez de Pombal. Curiosamente, era filho de um importante monárquico e chefe do partido Progressista da ilha do Faial. De referir, ainda, que, em 1879, fez parte do Centro Republicano Federal de Lisboa [juntamente com Carrilho Vieira, Teixeira Bastos, Manuel de Arriaga, entre outros], o que explica a sua adesão ao ideário federalista. É promovido a alferes em 1883, a tenente em 1885, a capitão (em Angra do Heroísmo) em 1892 e a major em 1909 [ibidem].

Como capitão, desenvolve já um trabalho de interesse em prol da instrução pública, propagandeando ideais democráticos [cf. Dicionário dos Educadores Portugueses, p. 908]. Com a implantação da República é eleito deputado às Constituintes pelo círculo nº 49, da Horta, participando na proposta de projecto de Bases para a Constituição da República Portuguesa, dando primordial importância às medidas em prol da instrução pública, ao mesmo tempo que aí assumia posições ideológicas federalistas. Foi, posteriormente senador (1911-1915) e assumiu a vice-presidência e a presidência do Senado.

É iniciado [ler AQUI] na Loja "Amor da Pátria" [Loja do RF, inicialmente dentro da Confederação Maçónica Portuguesa, transitando para o G. O. Português e, deste, para o GOLU, em 1869 – cf. Dicionário de Maçonaria Portuguesa, de A. H. Oliveira Marques, vol I]. Em 1911 é obreiro da Loja "Livre Exame", nº 200 de Lisboa [Loja do REAA instalada em 1897 e que cindiu do GOLU em 1914, acompanhando a dissidência do Supremo Conselho do Grau 33, tendo abatido colunas em 1928 – ibidem, vol II]. Escolhe como n.s. o de "Gomes Freire". Alcançou o cargo de Presidente do Conselho da Ordem Interino do GOLU, em 1913.

No governo de Pimenta de Castro, Goulart de Medeiros era membro do Partido Unionista, ocupa o lugar de Ministro de Instrução [de 25/01/1915 a 14/05/1915 – cf. Dicionário dos Educadores, ibidem]. Deve-se-lhe a reorganização do ensino secundário da agricultura, das suas escolas profissionais. Foi administrador, pelo governo [provisório da República], na Companhia dos Caminhos de Ferro e fez parte da comissão "encarregada de estudar a reorganização geral do exército". Foi, ainda, presidente da Assembleia-geral da Casa dos Açores, em Lisboa. Goulart de Medeiros atingiu o posto de coronel, passando à reserva em 1919.

Morre, em Lisboa, a 18 de Fevereiro de 1947.

J.M.M.