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segunda-feira, 15 de outubro de 2018

ALMADA NEGREIROS, IDENTIFICAÇÃO COM LISBOA


“Almada Negreiros, Identificação com Lisboa” – por António Valdemar, in Tempo Livre, Setembro-Outubro 2018

A relação com a cidade que lhe abriu o caminho para a arte, a literatura e outras formas de intervenção que que também lhe consagrou a memória.   
A diversidade de percursos de Almada Negreiros, o artista plástico, o poeta, o romancista, o novelista, o dramaturgo e o panfletário tem uma relação de diálogo com Lisboa. Foi tão íntima essa relação física e cultural que se poderia dizer que Lisboa era a sua casa. O tempo de Almada Negreiros em Paris foi rápido e disperso. Já o tempo de Madrid foi mais demorado e teve consequências decisivas na sua obra. Uma das mais relevantes terá sido o contato direto e profissional com a arquitetura permitindo–lhe, no regresso a Portugal, integrar–se nas equipas que realizaram grandes edifícios e incluíram trabalhos de Almada com dimensões assinaláveis.

O Chiado, com a sua vida cultural e social, ficou associado aos primeiros e mais incendiários anos da afirmação de Almada Negreiros. Apresentou–se, em 1912, no Iº Salão dos Humoristas, que decorreu no Grémio Literário. E quando não é no Chiado é nas suas fronteiras que o deparamos nos momentos mais exuberantes e mais provocatórios. Realizou, a primeira exposição individual, em 1913, na Escola Internacional, na rua da Emenda. A Ilustração Portuguesa referiu a exposição, reproduziu alguns desenhos, publicou a fotografia de Almada.
Entretanto, Fernando Pessoa escreveu sobre Almada: «Eu creio que ele tem talento. Basta reparar que ao sorriso do seu lápis, se liga o polimorfismo da sua arte para voltarmos as costas a conceder – lhe inteligência absoluta.» Começou a visibilidade pública de Almada. Mas começou, sobretudo, o convívio e cumplicidade com Pessoa. Abria – se o caminho para o Orpheu.


Almada viveu, escreveu, desenhou, pintou, na rua do Alecrim, uma das fronteiras do Chiado. Em 1915, o ano do Orpheu, tinha 22 anos. A colaboração no Orpheu, limitou-se a pequenos textos com o título genérico Frisos e que se podem inserir na área moderada do primeiro número daquela revista. As garras e as asas de Almada vão evidenciar-se no Manifesto Anti Dantas, na Cena do Ódio e na Engomadeira. O Manifesto Anti Dantas  tornou-se a ofensiva mais feroz contra Júlio Dantas figura do maior destaque na literatura, no teatro e na política, ao mesmo tempo que arrasou outras personalidades e atingiu as instituições mais conceituadas.

A renovação da língua portuguesa ocorreu com a Ode Triunfal e a Ode Marítima de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos e com a Cena do Ódio de Almada Negreiros que  está em paralelo com a desconstrução criativa e o furor épico de Álvaro de Campos e a Engomadeira, também  de Almada Negreiros.
Modelo da escrita e da inovação narrativa a Engomadeira assinala um outro ciclo perante a língua e o imaginário de Eça de Queiroz, que já se demarcara de Camilo e de Herculano. E o episódio da chave antecipou o surrealismo. Em França e em Portugal. A rutura com a escrita tradicional vai prosseguir no romance Nome de Guerra, a principal obra de ficção de Almada que também denuncia os comportamentos institucionalizados. «Temos sempre – adverte – de perder o nosso tempo em desfazer o bem que os outros fizeram por nós»


Em 14 de Abril de 1917, Almada apresentou no São Luís (antigo Teatro República) O Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX, uma explosão de energia para romper a indiferença e sacudir a rotina. Também, em 1917, em Novembro participou na revista Portugal Futurista, outro marco fundamental que reúne a colaboração de Robert e Sónia Delaunay, de Marinetti, de Apollinaire, de Blaise Cendras e de outras personalidades do futurismo internacional. Publica os manifestos futuristas de Almada e Álvaro de Campos.

Um dos focos da polémica introduzida pelo Portugal Futurista é o texto de Almada Negreiros Saltimbancos - «contrastes simultâneos”, de cunho intersecionista, e que desencadeou escândalo ao pormenorizar: «soldados em exercício na parada do quartel, garanhões militares em ato de cobrição de éguas, paisagem rural e paisagem de circo». Portugal participava na guerra e esta alusão direta ao que se verificava com as atividades do Corpo Expedicionário português levou a polícia a apreender o primeiro e único número do Portugal Futurista.
Um mês depois, Diaguilev e companhia dos Bailados Russos ao chegarem a Lisboa são apanhados de surpresa com a revolução de Sidónio Pais. Apesar disso realizam dois memoráveis espetáculos, no Teatro de São Carlos e no Coliseu de Lisboa. Em Abril de 1918, Almada Negreiros fez a coreografia e desenhou os figurinos do bailado A Princesa dos Sapatos de Ferro. Pisou o palco e dançou os papéis da Bruxa e do Diabo.

Vai ser ainda no Largo do Calhariz, outra fronteira do Chiado, que Almada proferiu na Liga Naval, em Maio de 1921, a conferência A Invenção do Dia Claro, um ano depois publicada em livro com a chancela da Olisipo, uma das aventuras editoriais de Fernando Pessoa. Estabeleceu o reencontro da poesia com o desenho e a pintura; aprofundou a reflexão sobre a linguagem e através dela sobre a condição humana.
Outra proclamação futurista de Almada Negreiros verificou – se no Chiado Terrasse, a 18 de Dezembro de 1921, no Comício dos Novos. Presidiu Gualdino Gomes e, entre a assistência perplexa, via–se a Preta Fernanda, dona da mais famosa casa de prostituição. Foi um dos escolhidos para decorar a Brasileira do Chiado que, juntamente com o Bristol Club, promoveu em espaços públicos a consagração da arte moderna.

Expôs, ao regressar de Espanha, nos anos 30, na UP, uma galeria na rua Serpa Pinto, dirigida por António Pedro, onde Vieira da Silva apresentou os primeiros trabalhos. A editorial Ática, fundada por Luís de Montalvor, um dos participantes do Orpheu – e autor do título da revista – teve a primeira sede na esquina da rua do Carmo, com a rua Garrett. Ao lançar, a partir de 1942, a obra ortónima e heterónima de Fernando Pessoa, Montalvor colocou na capa de cada volume um desenho de Almada, um Pégaso, símbolo mitológico e vivo da poesia em movimento. A amizade com Fernando Amado incorporou-o na história do Centro Nacional de Cultura ao debater, em 1946, a «posição do artista na sociedade».

O vínculo de Almada a Lisboa decorreu nos seus cafés, nos seus teatros, nos seus clubes, nas suas livrarias, nos seus museus, nas suas galerias e nas suas próprias esquinas. Sem procurar fazer um levantamento exaustivo acrescento que residiu mais de 30 anos no Rato. Morava na rua S. Filipe Nery e tinha atelier na rua Rodrigo da Fonseca.
Está representado nos mais diversos bairros e, em muitos deles, em contacto diário com a população e com todos os que chegam a Lisboa. Retratado por Júlio Pomar e por António, em duas estações do Metro. Pinturas e desenhos de Almada, transpostas para azulejo, revestem outra estação do Metro.

No Porto de Lisboa, as duas gares marítimas, a de Alcântara e a da Rocha de Conde de Óbitos, têm frescos de Almada, com alusões ao Tejo, á expansão marítima, á história de Lisboa, a motivos e figuras celebrados por Cesário Verde, o poeta da cidade e um dos mestres da geração de Orpheu, em especial Fernando Pessoa e Almada Negreiros
 
Na Avenida da Liberdade, na antiga sede do Diário de Notícias, o primeiro edifício construído de raiz, em Portugal, para a instalar um jornal e todos os seus departamentos ficou com a marca de Almada: na fachada e nos frescos do grande átrio e, ainda no rés-do-chão, no espaço de acesso á redação e administração. Próximo no Hotel Ritz, três grandes tapeçarias, com recriações co Centauro, ocupam parte do salão principal.
Nas Avenidas Novas, a igreja de Fátima, o primeiro edifício de arquitetura moderna na arte religiosa, ficou com vitrais de Almada Negreiros. Perto, a Fundação Gulbenkian tem logo no átrio o painel Começar, a síntese do encontro de Almada com a geometria. No Campo Grande, na cidade universitária preencheu, com a representação de figuras tutelares as fachadas da Reitoria, da Faculdade de Direito e da Faculdade de Letras. Nesta última destacam - se Fernando Pessoa e os heterónimos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Ainda não ganhara dimensão nacional e internacional Bernardo Soares. Apenas se conheciam fragmentos do Livro do Desassossego.


A memória de Almada Negreiros perdura nos Museus e em grandes edifícios públicos que marcaram a transformação e expansão da cidade, num diálogo com as vanguardas europeias. Deu o nome a uma rua, em Olivais Sul; e a uma escola, na Charneca do Lumiar, na Urbanização Alta de Lisboa. Está consagrado num monumento (na entrada ou saída do viaduto Duarte Pacheco) e noutro monumento, na avenida Ribeira das Naus, junto ao Tejo, uma estrutura de ferro que incorpora o autorretrato de 1949.

Para Almada, Lisboa constituiu a arena dos grandes combates, uma das linhas de intervenção do grupo e da geração de Orpheu, num momento histórico da cultura portuguesa. Lisboa foi a casa de Almada, onde cabia a ambição de atingir o mundo.
Almada Negreiros, Identificação com Lisboa – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], Tempo Livre, Setembro-Outubro 2018, p. 8 – com sublinhados nossos.
 
António Valdemar
J.M.M.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

[EXPOSIÇÃO] PESSOA. TODA A ARTE É UMA FORMA DE LITERATURA



DIA: 7 de Fevereiro a 7 de Maio 2018;
LOCAL: Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia – Edificio Sabatini, Planta 1 [Calle Santa Isabel, 52, Madrid;


 Pessoa e Companhia” – por Celso Martins, in Caderno E, Expresso
Em Madrid, apresenta-se uma grande exposição que capitaliza o estatuto internacional de Pessoa para iluminar também as vanguardas portuguesas.

Toda a arte é uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa.” Escolhida milimetricamente, a frase de Álvaro de Campos, que está na origem do título da exposição dedicada ao universo pessoano, é certeira na forma como define a mostra que acaba de ser inaugurada no Reina Sofía, em Madrid, o museu mais visitado de Espanha. Em bom rigor, ajuda-nos a perceber que esta é e não é uma exposição sobre Fernando Pessoa. Partindo da obra e das suas conceções estéticas, ela funciona, de igual modo, como um apreciável cartão-de-visita para as vanguardas portuguesas do início do século XX, que permanecem pouco conhecidas no país vizinho. Quem o explica é João Fernandes, cocomissário da exposição (com a historiadora Ana Ara) e, desde 2012, subdiretor da instituição madrilena: “O que mostramos é a originalidade das conceções modernistas de Pessoa, a relação delas com as artes visuais do seu tempo e a singularidade das vanguardas portuguesas, que não são meras sequelas do cubismo ou do futurismo parisienses.”
 
É muito provável que a possibilidade de estabelecer este engenhoso triângulo conceptual não seja alheia ao facto de um português participar na direção do museu, mas essa escolha deve ser vista à luz da linha programática da instituição: “Temos estado atentos a histórias menos conhecidas da história da arte que refletem o passado a partir de um ponto de vista que não seja colonizado pelas relações de poder que determinaram o reconhecimento de certos centros artísticos”, refere João Fernandes.

À semelhança do que aconteceu com a apresentação de Amadeo em Paris, em 2016, com origem na Fundação Gulbenkian, que também coproduz esta exposição, esta é uma oportunidade de ouro para a divulgação da arte portuguesa da primeira metade do século XX, cuja relativa invisibilidade em Espanha não é alheia à própria centralidade daquele país (com Picasso, Dalí, Miró e outros) no cânone modernista.
A operação é ambiciosa e multifacetada, aproximando-se do universo pessoano a partir de um acervo que inclui cinema, livros, manifestos, revistas e correspondência pessoal e de um conjunto de 160 obras em desenho, pintura e fotografia, bem representativas da arte mais avançada que se fez em Portugal entre 1914 e 1936 e onde pontificam, entre vários outros, trabalhos de Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros, Eduardo Viana, Mário Eloy ou do casal Robert e Sonia Delaunay.
 
 

Os detalhes biográficos incluem aspetos idiossincráticos, como a relação de Pessoa com a cidade de Lisboa ou a astrologia, mas a exposição foca-se decisivamente nas propostas estéticas do português, nomeadamente, os conceitos e movimentos que instigou, em nome próprio ou através dos seus múltiplos heterónimos, como o Paulismo, o Intercecionismo ou o Sensacionismo. O interessante é que a montagem vai estabelecendo nexos entre essas construções dirigidas à literatura e as artes visuais, através de obras que vieram, por exemplo, do Museu do Chiado ou da Fundação Cupertino de Miranda e de museus estrangeiros como o Centro Georges Pompidou ou o Thyssen-Bornemisza.
O primeiro desses ‘ismos’, o Paulismo, que, segundo [João] Fernandes, corresponde a “uma das suas grandes intuições, a de que o simbolismo oitocentista é uma das origens da vanguarda”, reflete o seu interesse pela poesia de Camilo Pessanha ou a cumplicidade com Teixeira de Pascoaes, que o leva a escrever na “Águia”, o órgão oficial do Saudosismo. A formulação de Pessoa apela à convivência de imagens paradoxais e decadentistas e é aqui apresentada na companhia do tríptico “A Vida”, do simbolista António Carneiro, dos desenhos místicos de Pascoaes, das explorações próximas de uma estética déco de Amadeo e de “Orfeu nos Infernos” (1917), uma das duas únicas pinturas de Santa-Rita Pintor que sobreviveram. O núcleo central da exposição dedica-se ao Intercecionismo (que Pessoa considerava mais uma metodologia criativa do que uma estética), que tem pontos de contacto com o cubismo mas corresponde a uma aceção menos rígida dos mesmos fundamentos, e ao Sensacionismo, “o mais amplo conceito das suas vanguardas, que supõe sentir tudo de todas as maneiras e que se manifesta na heteronímia e sua diversidade”.
 
 

A exposição faz acompanhar estes desenvolvimentos com algumas das pinturas de Amadeo que, partindo do cubismo, mais se aproximam da abstração ou do icónico “K4 Quadrado Azul” (1916), de Eduardo Viana. Em algumas das obras é ainda clara uma das especificidades portuguesas: a convergência das práticas mais especulativas com uma atenção sistemática às formas populares e ao artesanato. Não por acaso, essa terá sido uma das fontes de sintonia com os Delaunay, que haviam chegado, com o orfismo, a uma alternativa ao cubismo picassiano e de quem se mostram pinturas alimentadas pelo plasticismo extrovertido da cultura popular minhota assimilado durante a sua estadia.
Paralelamente, incluem-se as revistas — como a “Águia”, a “Orpheu”, a “Portugal Futurista” ou a “Athena” — de importância decisiva, porque é nelas que “artistas e escritores coincidem”. Outro núcleo importante e normalmente pouco visível reflete a relação do modernismo português com as artes cénicas e performativas e que aqui inclui os desenhos de Almada para o ballet “A Princesa dos Sapatos de Ferro”, o seu painel “Jazz” para o Cine San Carlos, em Madrid, e várias notícias sobre os ballets russos em Portugal, bem como folhetos e cartazes de divulgação impregnados por uma estética modernista. A secção final da exposição sinaliza o segundo e menos radical modernismo português com obras em acorde expressionista ou lírico de Mário Eloy, Sarah Afonso ou Júlio e a centralidade cultural da revista “Presença”, que foi decisiva na receção de Pessoa para lá do seu círculo geracional. Como lembra João Fernandes, “os intelectuais da ‘Presença’ não só o publicam na revista como, no caso de João Gaspar Simões, vão fazer a edição da obra do Pessoa nas edições Ática”. A revista é ainda o pretexto para estabelecer outro nexo, desta vez com o cinema de Manoel de Oliveira, de quem se inclui o filme “Douro, Faina Fluvial”, de 1931, que traz a estética vanguardista ao cinema português.
 
 

A exposição desenvolve-se, aliás, entre dois momentos cinematográficos. No início mostram-se imagens de “Conversa Acabada”, um filme em torno de Pessoa e Mário de Sá-Carneiro realizado por João Botelho em 1981; e, no fim, “Conserva Acabada”, uma curta-metragem de João César Monteiro (1990) que ironiza a transformação de Pessoa num ícone pop.
Estes e outros momentos ilustram a fertilidade da figura de Pessoa inscrita na obra, nas ideias, na sua teia de afinidades e na sua irradiação iconográfica como eixo possível de uma apresentação abrangente da especificidade modernista portuguesa.
O catálogo que se edita com a exposição conta com textos de Marta Soares, Fernando Cabral Martins e António Saéz Delgado e vários do próprio Fernando Pessoa sobre as questões que são exploradas na exposição, oferecendo um olhar múltiplo que ajuda a explicar a sua atual universalidade. “Pela valorização da contradição e do paradoxo, e pela heteronímia, Pessoa é um intérprete fundamental da cisão do sujeito e da crise do autor moderno”, salienta João Fernandes. Por estas e outras razões, ele e a sua corte de heterónimos são bem conhecidos dos espanhóis, mas esta é uma oportunidade única de o descobrirem entre os seus companheiros de aventuras modernistas.
 
Pessoa e Companhia – por Celso Martins, revista E, Expresso, 10 de Fevereiro de 2018, pp. 63/65 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

CONFERÊNCIA – O CENTENÁRIO DO “PORTUGAL FUTURISTA”


CONFERÊNCIA: O Centenário do “Portugal Futurista”;

ORADOR: António Valdemar (Academia das Ciências);

DIA: 25 de Outubro (19,30 horas):
LOCAL: Grémio Literário [Rua Ivens, 37 – ao Chiado], Lisboa;
ORGANIZAÇÃO: Grémio Literário

Integrado no Ciclo de Literatura Portuguesa, sob organização do Presidente do Conselho Literário do Grémio Literário, Dr. António Aires Gonçalves, o Grémio Literário realiza uma Conferência sobre a estimada, importante e rara revista literária do nosso modernismo, “Portugal Futurista” (Novembro de 1917, nº único), no próximo dia 25 de Outubro.

 
O Orador será António Valdemar, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências, jornalista, investigador, olisipógrafo e autor de vários livros sobre história, literatura, arte e património e um sério conhecedor da obra de Mestre Almada Negreiros. Diga-se que António Valdemar privou com elementos do “grupo e da geração do Orpheu” e ainda privou “com Armando Cortes–Rodrigues, Raul Leal, Alfredo Guisado, destacando–se, contudo, o convívio e a amizade com Almada Negreiros, durante muitos anos. Este concede-lhe entrevistas acerca da sua vida e obra, parte das quais reunidas no livro “Almada, os Painéis, a Geometria e Tudo[in Boletim do Grémio Literário].

A conferência, a realizar no Salão Nobre do Grémio Literário, que terá início às 19 e 30 horas, “será acompanhada com a projeção de fotografias da época”, a cargo do designer Álvaro Carrilho, “de personalidades e acontecimentos culturais, políticos e sociais”.

A não perder.



«O centenário da publicação do primeiro e único número, da revista Portugal Futurista, uma das referências obrigatórias do modernismo, e que em 1917, provocou grande escândalo e foi apreendido pela Policia, vai ser assinalado, no próximo dia 25, no Grémio Literário, com uma conferência proferida por António Valdemar, que tem realizado, nos últimos anos, investigações em bibliotecas e em arquivos, a propósito dos vários aspectos daquele movimento literário e artístico.

Participaram no Portugal Futurista, Almada Negreiros, Fernando Pessoa, Santa Rita Pintor, Carlos Filipe Porfírio, Rebelo Bettencourt, Amadeo de Sousa Cardoso, Raúl Leal, e, ainda, Guillaume Apolinaire, Blaisse Cendras através de Sonia e Robert Delaunay, ao tempo refugiados em Portugal, devido á eclosão da Iª Grande Guerra Mundial.

O Portugal Futurista incluiu, também, montagem de textos de Boccionni, Carra, Russolo e Severini, e as traduções do manifesto futurista ‘Le Music-Haal’, de Marinetti e o ‘Manifesto Futurista da Luxuri’», de Valentine de Saint Point.

J.M.M.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

LEITÃO DE BARROS - “O INVENTOR” [PARTE I]



O Inventor” – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso

O “Diário de Notícias” foi a sua última tribuna. Escrevia a crónica semanal ‘Os Corvos’, que saía aos domingos, sempre na mesma página. Tinha repercussão nos mais diferentes estratos sociais. De Salazar ao merceeiro e ao barbeiro da esquina. A colaboração de Leitão de Barros não trazia assinatura e vinha paginada num espaço próprio e com caracteres tipográficos próprios. Todos sabiam quem era o autor. O título remetia, evidentemente, para Lisboa. Leitão de Barros, porém, ocupava-se do que lhe apetecia e do que se passava em qualquer parte do país e até no estrangeiro. Homem de muitos ofícios, lecionou Desenho, Geometria Descritiva e Matemática nos liceus Camões e Passos Manuel.
Isto constituiu apenas um modo de sobrevivência económica. Os seus interesses repartiam-se por outras áreas. Soube, contudo, atingir o renome intelectual — conforme diversas vezes me disse — para ganhar “o dinheiro que desejo para não pensar no dinheiro”. Ficou na história do cinema. Os seus filmes e documentários marcaram uma época. Desde “Malmequer” (1918) até “Vendaval Maravilhoso” (1948), passando por “Severa”, extraído da peça e da narrativa romanceada de Júlio Dantas e que foi, em 1931, o primeiro filme sonoro português. Fixou o cenário marítimo e piscatório da Nazaré e da Póvoa de Varzim, o universo rural de “As Pupilas do Senhor Reitor”, o pitoresco dos bairros humildes de Lisboa e a realidade telúrica e humana das populações dos arredores. Ficou ainda na história do jornalismo da primeira metade do século XX. António Cortez Pinto apresentou, em 2015, na Universidade Nova de Lisboa, uma tese de doutoramento acerca da orientação que desempenhou em dois semanários. Fundou e dirigiu “O Domingo Ilustrado” (1925-1927) e “O Notícias Ilustrado” (1928-1935), que se afirmaram pela renovação gráfica, pela abundância de temas relatados e comentados e pela diversidade da colaboração.
E como era Leitão de Barros no dia a dia com qualquer um de nós? Ou com o poder político e económico? Ou com os diretores dos jornais? Imprevisível. Umas vezes agradável, outras desagradável. Muito simpático ou ostensivamente antipático. E como era, ainda, Leitão de Barros com a família? Com a mulher, os filhos, os netos, as cunhadas e os cunhados? Joana Leitão de Barros e Ana Mantero, duas netas que privaram ainda com o avô, procuraram-me, recentemente, para obter informações e aclarar dúvidas que lhes suscitou a leitura de um artigo meu de 1996, no dia do centenário do nascimento de Leitão de Barros. Preparam um livro que se baseia em documentação inédita encontrada no espólio, um acervo de muita correspondência, recebida e enviada; de muitas fotografias, de muitos recortes de jornais e revistas. Ao serem divulgados e contextualizados, vão surgir — garantiram-me — “revelações até agora desconhecidas a propósito do homem e da obra”.
José Leitão de Barros nasceu em Lisboa, a 22 de outubro de 1896, e entrou na “ínclita família” dos Gameiros pelo casamento, em agosto de 1923, com Helena, uma das filhas de Alfredo Roque Gameiro, que seguiu o pai na aguarela e no desenho (José tinha 27 anos e Helena 28). Raquel, outra filha de Roque Gameiro, principiou mais cedo na ilustração e na aguarela e atingiu maior notoriedade. Ainda outra filha, Maria, casou com Martins Barata e proporcionou novas ramificações. Havia mais dois filhos, Manuel e Rui. Este último, escultor, em agosto de 1935, com 29 anos, morreu, juntamente com a mulher (que estava grávida), na estrada de Sintra, num choque entre a moto que conduzia e um automóvel. Aos Gameiros juntou-se a dinastia dos Barros. Uma irmã de José casou com o arquiteto Cottinelli Telmo, sogro de Daciano Costa. E outra irmã, Teresa, formada em Letras, lecionou, no tempo áureo das Guardiolas, no Liceu Maria Amália, três ou quatro gerações que, em grande parte, guardaram deplorável memória das suas aulas; integrou o júri do polémico concurso organizado por António Ferro em que Fernando Pessoa enviou a “Mensagem”; e, antes e já depois do 25 de Abril, trabalhou na biblioteca e no arquivo do “Diário de Notícias”. Era feia e assumidamente reacionária. Tinha bigode e vestia mal. Desde o chapéu até aos sapatos.

ALMADA E OS “PAINÉIS”
Em agosto de 1960, entrei como repórter para o “Diário de Notícias”. O lendário chefe da secretaria, Mário Barros — uma das raras pessoas vivas que privaram com o poeta Gomes Leal; que pertencera a uma tertúlia do Café Chave d’Ouro ligada ao 28 de Maio e de que fazia parte o general Gomes da Costa; e que conhecera, de perto, toda a geração do “Orpheu” (tratava por tu Almada Negreiros e Alfredo Guisado) —, disse-me, enquanto marcava, pelo telefone, um serviço de agenda: “O Leitão de Barros quer conhecer-te, por causa dessa trapalhada da questão dos ‘Painéis’, das tuas entrevistas com o Almada. Ele está convencido de que, no ‘Diário de Notícias’, é a única pessoa que pode falar e escrever sobre os ‘Painéis’ e que o que é preciso saber é quem foi que os pintou e para onde se destinavam os ‘Painéis’.” Em ‘Os Corvos’, Leitão de Barros tinha dado algumas alfinetadas que haviam irritado Almada, que me comentou com acidez: “Só faltava agora este preopinante...”
Dias depois, em plena redação, tivemos a primeira aproximação. Eu preparava-me para sair e ele chegava com o texto de ‘Os Corvos’ para publicar no domingo. Dirigi-me ao seu encontro e identifiquei-me. A conversa prolongou-se até às 4h ou 5h da madrugada. Era a ‘Nau Catrineta’. Tinha sempre muito que contar (era um conversador fascinante, como Almada, Nemésio, o professor Vieira de Almeida, António Pedro e poucos mais). Estou a ouvi-lo. Principiou ao ataque: “Como é que tu, que és tão novo, mais ainda do que eu julgava, te atreves a escrever sobre os ‘Painéis’? Já leste o livro de José de Figueiredo? Como é que o monstro sagrado do Almada te deu as entrevistas que nunca me quis dar? Ele, se calhar, não quis foi discutir geometria comigo...”
Deixei-o falar à vontade. Descarregou os nervos. Referi-lhe que passei alguns meses no Museu Nacional de Arte Antiga, apresentado por Almada ao dr. João Couto, que me explicou as várias teses e me pôs à disposição o essencial e o acessório que havia na biblioteca.
[a continuar]
O Inventor [Parte I] – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 15 de Julho de 2017, pp. 46/50 – com sublinhados nossos.
J.M.M.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

PARIS SEMPRE [NO REGRESSO DE JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS]


Paris Sempre” – por António Valdemar, in Caderno E, revista do Expresso
A França constituiu o paradigma cultural de várias gerações de artistas, escritores, cientistas e políticos portugueses. Muitos jovens, na primeira e segunda década do século XX, dirigiram-se para Paris. Uns, formados nas Escolas de Belas-Artes de Lisboa e do Porto e a usufruir de bolsas de estudo; outros, a beneficiar da generosidade de mecenas; outros, a receber mesadas das famílias; outros, ainda, à sua própria custa. Foi este o caso de Almada Negreiros, durante pouco mais de um ano. Repleto de contrariedades incidentes.
Antes, porém, da viagem que lhe permitiu um contacto direto com artistas, galerias e a realidade quotidiana de Paris e outras cidades, José de Almada Negreiros já se considerava fruto da irradiação da cultura francesa. A 16 de novembro de 1917, em “A Engomadeira”, uma das mais prodigiosas ficções da língua portuguesa, Almada Negreiros afirmou, ao concluir a dedicatória a José Pacheko, numa carta prefácio:

“Escuso de repetir-me neste assunto que o nosso Mário de Sá-Carneiro sabia tão justamente classificar:
— Nós três somos de Paris!
E somos. Temos esta elegância, esta devoção, este farol da Fé”.
A correspondência de Mário de Sá-Carneiro para Fernando Pessoa refere, em 1914, em 1915 e em 1916, projetos de viagens de Almada a Paris. Queria viver por dentro a viragem introduzida no desenho, na pintura, na escultura, na literatura, no teatro, na dança, no bailado e outras áreas, não apenas por franceses mas personalidades originárias de países diferentes, tais como Picasso, Brancusi, Modigliani, Chagall, Apollinaire ou Blaise Cendrars.

Numa carta a Pessoa, Sá-Carneiro, conhecedor da energia revolucionária de Almada, manifestava o desejo de o ter, a seu lado, em Paris. Estava bastante só. (Cinquenta anos depois, Almada definiu esse isolamento e angústia, num desenho, que também viria a inspirar Lagoa Henriques no monumento a Pessoa no Chiado...). Sá-Carneiro sentava-se horas e horas no café, a ver passar as horas. Emergia o tédio e o mal-estar. Despertava obsessões que o conduziram, dia após dia, ao suicídio.
“Seria muito agradável” — escreveu Sá-Carneiro — “ver aqui Almada, quanto mais não fosse para fazer escândalo nos cafés”. A virulência torrencial de “A Cena do Ódio” de Almada destinada ao “Orpheu 3” invadiu e empolgou Sá-Carneiro que não hesitou em reconhecê-la como “soberba”. Pessoa já classificara Almada de “homem de génio. Ele é mais novo do que os outros, não só em idade como também em espontaneidade e efervescência. Possui uma personalidade muito distinta — para admirar é que a tivesse adquirido tão cedo”.
DELAUNAYS E BAILADOS RUSSOS
Desde junho de 1915 a janeiro de 1917, instalaram-se em Portugal Sonia e Robert Delaunay, a fugirem à guerra. Também o pintor russo Daniel Rossiné e o pintor americano Samuel Halpert. A eles se juntaram Amadeo de Souza-Cardoso, Eduardo Viana, Pacheko e Almada. Pretenderam formar a Corporation Nouvelle, incluindo Apollinaire e Blaise Cendrars, para “expositions mouvantes” e outras ações culturais. O objetivo não se realizou. No entanto, permitiu um convívio estimulante em torno das estéticas da vanguarda. Vivendo cá, Almada sabia o que se passava em Paris. Os textos que inseriu no “Portugal Futurista” refletem o domínio que já possuía da cultura europeia contemporânea.
Intensificou essa amplitude, na relação pessoal, em Lisboa, com Serguei Diaguilev e Massine, seu coreógrafo e bailarino, quando a companhia dos Bailados Russos se deslocou a Portugal, em fins de 1917 e princípios de 1918, no auge da revolução de Sidónio Pais. A propósito deste acontecimento memorável, Almada lançou um manifesto com aplausos exuberantes e realizou um conjunto de desenhos de figuras e cenas dos espetáculos que decorreram no Coliseu dos Recreios e no Teatro de São Carlos. Foram publicados na revista “Atlântico”. Para “O Século da Noite”, Jorge Barradas fez, com o seu estilo, outra série de desenhos. Quase 50 anos depois, quer Almada quer Barradas, evocaram-me — ainda fascinados — o impacto dos Bailados Russos na arte e na literatura portuguesas.
Estes dois acontecimentos, o contacto com os Delaunays e a vinda dos Bailados Russos a Portugal, trouxeram a Almada o universo de Paris.
CONCRETIZAÇÃO DO DESEJO
A concretização do desejo de ir a Paris só ocorrerá de janeiro de 1919 até abril de 1920. Recusou-se, então, a procurar o pai, o jornalista António Lobo de Almada Negreiros, que se radicara, definitivamente, em 1900, em França para organizar o Pavilhão das Colónias Portuguesas, na Exposição Universal de Paris. Depois ficou como correspondente de “O Século”. Falecera a mulher, em 1896, com 24 anos, em São Tomé, quando esperava um terceiro filho. Casou-se com uma francesa. Almada e um irmão mais novo foram internados dez anos no Colégio de Campolide dos Jesuítas. Concluídos os estudos secundários, ficou entregue ao seu destino. Visitava, de vez em quando, os avós e tios maternos que moravam, em Lisboa, na Rua Castilho e tinham casa em Cascais. Pai e filho, após longa ausência, só se viram e falaram uma única vez, em Sevilha. Almada ganhara o 1º Prémio do cartaz da representação portuguesa naquela exposição. O pai estava como jornalista. “Havia muita gente à volta. Limitaram-se a muito poucas palavras” — contou-me Jorge Barradas — “alta tensão recíproca”.
Almada enfrentou inúmeras dificuldades, apesar dos amigos disponíveis para o ajudar nos momentos maus e no acolhimento quotidiano. “Os amigos pela vida fora” — disse-me — “valem mais do que uma universidade”. Sem meios de fortuna, vivendo de ilustrações em jornais, da realização de cartazes e outras situações precárias, habituou-se, muitos anos, à dura experiência dos quartos de aluguer.
HOMEM CRISTO FILHO
Ao permanecer em França, em Paris, Biarritz e outras cidades, Almada trabalhou como bailarino de salão e empregado de armazém. Teve, contudo, apoios de Francisco Homem Cristo (1892-1928), o admirado e detestado jornalista, filho de Homem Cristo, o implacável panfletário que tanto era contra a monarquia e a República, e bisavô de Guy-Manuel de Homem-Christo, do duo de música eletrónica francês Daft Punk.
Em Paris e em Lisboa, Homem Cristo Filho desenvolveu intensa conspiração monárquica. Esteve ligado ao jornal “Autorité”, dos irmãos Cassagnac, porta-voz da extrema-direita, numa França ainda eletrizada pelo caso Dreyfus. Escrevia artigos de combate, ora com o seu nome, com as iniciais HCF, ora com os pseudónimos Alithinos e Libertador. Assumirá protagonismo político no consulado de Sidónio Pais. Pertencerá, em Itália, ao círculo íntimo de Mussolini e contribuiu para a construção do fascismo, com o livro “Mussolini Bâtisseur d’Avenir” que obteve projeção internacional. Ao falecer, a caminho de Roma, num desastre de automóvel, Mussolini ordenou honras fúnebres a Homem Cristo Filho (in Miguel Castelo Branco, “Homem Cristo Filho — Do Anarquismo ao Fascismo”, edição Nova Arrancada, 2001).
Homem Cristo Filho privou com artistas e intelectuais que participaram na aventura do modernismo. Almada trabalhou na revista “Ideia Nacional”, da qual Homem Cristo Filho era diretor. Era uma publicação monárquica e bissemanal. O primeiro número tem a data de 18 de março de 1915. Foi suspensa, pouco depois, devido à grave crise política que depôs a ditadura de Pimenta de Castro. Reaparecerá a 4 de abril de 1916 e vai prosseguir até 15 de junho de 1916. A orientação artística é de José Pacheko, autor da capa do “Orpheu 1”.
A GRANDE AFRONTA
Almada já se comprometera como diretor artístico do “Papagaio Real”, revista satírica, ilustrada por modernistas, em oposição frontal não só à estética de Bordalo e seus epígonos, mas fundamentalmente à República e aos republicanos, aos chefes dos três partidos — António José de Almeida, Partido Evolucionista; Brito Camacho, Partido Unionista; e, sobretudo, Afonso Costa, Partido Democrático. Também já ilustrara “Republicaníadas”, um verrinoso panfleto monárquico, em verso, subscrito por Marco António, pseudónimo de António Correia Pinto de Almeida.
Se a presença de Almada no primeiro número do “Orpheu” não provocou a controvérsia suscitada por Fernando Pessoa/Álvaro de Campos e Mário de Sá-Carneiro, uma das colaborações de Almada para a “Ideia Nacional” desencadeou forte polémica nos sectores religiosos e políticos. Foi quando desenhou a capa da edição de 20 de abril de 1916 — “Semana Sancta”, ao representar, no auge das celebrações da Quaresma, um Cristo verde, esquálido, sem rosto. E sem lágrimas.
Acossado por católicos e monárquicos, a reagirem à blasfémia onde menos esperavam, numa revista que subsidiavam para combater uma República jacobina e ateia que atacava a Igreja, desterrava o cardeal-patriarca e outros bispos, agredia padres, boicotando atos de culto, Homem Cristo Filho resolveu intervir no debate. Procurou separar-se dos modernistas. Apontou-os como “novos arautos da Anarquia”, “iconoclastas impenitentes sem Fé nem Pátria”.
Perante estas acusações, José Pacheko, em carta para o pintor Eduardo Viana, classificou-as como “tudo quanto há de mais intransigente sobre a arte moderna”; e Almada Negreiros, em carta a Sonia Delaunay disse, muito indignado, que se afastava da Ideia Nacional”. Acentuou, perentoriamente: “Je suis sorti de cette chose ignoble”. Saí desta coisa ignóbil.
Contudo, a relação de Almada Negreiros e Homem Cristo Filho caracterizou-se por distanciamentos e aproximações. Ao ir para França, em 1919, voltou a ligar-se a Homem Cristo Filho. Tanto mais que ele tivera com o pai de Almada um conflito de grande repercussão e que terminou num duelo. “Almada (pai) assestou um golpe, ferindo-o no antebraço e no cotovelo”. O embaixador João Chagas exigiu a expulsão de Homem Cristo. A imprensa francesa impediu (in Miguel Castelo Branco, idem).
 
RELAÇÃO ATRIBULADA
José de Almada Negreiros convergia em muitas opções ideológicas com Homem Cristo Filho. Ambos coincidiam na exautoração da maçonaria e dos judeus por serem “forças do cosmopolitismo apátrida, contra os fundamentos da civilização cristã e ocidental, que teria nas pátrias, na religião católica e na família tradicional os seus alicerces mais sólidos”. Ambos dividiam Portugal entre os ‘homens dignos’ e os ‘bandidos’. Este critério derivava, aliás, de Homem Cristo Pai que rotulava,por exemplo, António José de Almeida de “pulha de bem” (in Miguel Castelo Branco, ibidem).
Provocador incorrigível, com um sentido inveterado do risco e da aventura, Homem Cristo Filho fazia vida faustosa. Morava na Rue Royalle. Sá-Carneiro, numa carta a Pessoa pormenorizou: “Vive em casa atapetada, com telefone, chaufage central e cigarros de luxo. (...) Ergue-se na verdade em Europa, essa figura do Homem Cristo Filho, nascido em Aveiro!”. Tinha um salão que recebia com aparato personalidades políticas e literárias de nomeada. Uma delas, o escritor Maurice Barrès, nacionalista integral. Este ambiente confortável, opulento, sensual, gastronomia requintada, vinhos e champanhes dos melhores, mulheres sedutoras e a imaginação magnética do anfitrião, cativaram Almada Negreiros. Declarou-se rendido: “As circunstâncias fizeram-me o maior amigo do Homem Cristo Filho” (in “Escritor nº 2”, APE, 1993).
Deixou-se envolver e agarrar nos projetos e guerrilhas de Homem Cristo Filho, conforme se verifica em duas cartas, de 13 e 15 de setembro de 1916, enviadas ao poeta e advogado Acácio Leitão a solicitar-lhe, e com a máxima urgência, seis mil francos. O empréstimo destinava-se a encerrar um negócio de Homem Cristo Filho e José de Almada Negreiros e que implicava, na outra parte, o advogado e professor universitário Martinho Nobre de Melo (1891-1985) e o banqueiro José Espírito Santo (1895-1968), gerente em Paris e filho do fundador do clã Espírito Santo, e que também dava “apoio moral”. (in “Escritor”, idem)
O ARRASO A MARTINHO
Martinho Nobre de Melo (diretor do “Diário Popular” de 1958 até 27 de abril de 1974), natural de Cabo Verde, era, na época, o mais jovem catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa. Tinha sido, aos 26 anos, ministro da Justiça, no consulado de Sidónio Pais. Almada e Martinho conheciam-se desde a revista “Sátira”, antecâmara dos Salões dos Humoristas, efetuados, em 1912 e 1913, no Grémio Literário. Martinho andara na roda do “Orpheu”. Fora colega de liceu de Alfredo Guisado e depois seu professor na Faculdade de Direito. Publicara o livro “Ritmos do Amor e do Silêncio” (que Vitorino Nemésio enalteceu no “Jornal do Observador”). Colaborara na “Exílio”, com Pessoa, Alfredo Guisado, Cortes Rodrigues e António Ferro, uma revista, como a “Centauro”, entre o “Orpheu” e o “Portugal Futurista”.
Também se encontrava associado aos primórdios da dança e bailado em Portugal, promovidos por Helena Castelo Melhor e ativa participação de Almada Negreiros. O bailado “Princesa de Sapatos de Ferro”, representado em 1918, no Teatro de São Carlos, baseava-se num poema de Martinho Nobre de Melo. Tinha música de Rui Coelho e cenários de José Pacheko. O próprio Almada realizara os figurinos, a coreografia e dançava com os outros intérpretes.
Apesar de todos os vínculos literários, estéticos, geracionais e até políticos e ideológicos, a insólita operação financeira concebida por Homem Cristo Filho, que enredou Almada, também lhe incutiu um ódio de estimação a Martinho Nobre de Melo. Até ao fim da vida. Nas cartas a Acácio Leitão, mostra-se revoltado por deparar em Paris “surpresas que um raciocínio puro como o meu não pode prever. É o facto de que em Paris, também havia portugueses, mas portugueses, d’aqueles portugueses que não me perdoarão nunca que eu os não admire (eles que nada têm para que eu admire). Um d’estes portugueses, o meu maior inimigo, chama-se Martinho Nobre de Mello”. (in “Escritor” ibidem)
Promete, então, uma desforra e envia, para sair nos jornais, um manifesto a desancar Martinho Nobre de Melo. É um ataque cruel. Pessoal. Intelectual. Considera Martinho Nobre de Melo “pulha” e “safado”. Almada, nascido em São Tomé, na Roça Saudade, e cuja mãe Elvira Freire Sobral era filha de uma angolana negra, não se coíbe de reduzir Martinho Nobre de Melo, a um “desclassificado” e a rebaixá-lo por ser “cor de café com leite”; a desprezá-lo por ser importador do batuque mulato, a morna de Cabo Verde. Insiste: como se poderá chamar “Nobre”? Mais ainda: “verdadeira demonstração da nossa competência intelectual d’ além-mar”. (in “Escritor” ibidem)
O manifesto que tencionava “publicar brevemente”, intitulava-se ‘PA-TA-POOM’. Presumo ser o último manifesto de Almada após o outro arraso impetuoso do “Manifesto Anti-Dantas”. Esta versão manuscrita, na posse da escritora Leonoreta Leitão, filha de Acácio Leitão — autora do recente livro de memórias “Era Uma Vez Uma Boina” — foi por ela entregue, em 1993, e para publicação na revista “Escritor”, da Associação Portuguesa de Escritores.
Todavia, o semanário “O Domingo Ilustrado”, divulgará outra versão, sem especificar o nome de Martinho Nobre de Melo: “Uma Novela da Minha Vida PA-TA-POOM — Recordação de Paris — Capítulo III por Almada Negreiros”. Leitão de Barros, diretor do semanário, inseriu a seguinte nota: “Almada, o maior nome da arte modernista, dá-nos hoje uma novela na sua forma originalíssima. O público tem ali de saborear um estilo pessoal e uma prosa cujo bas-fonds é sempre valioso e tem qualquer coisa de subtil e filosófico. ‘O Domingo’, fiel ao seu programa, vai renovar-se de dia para dia.”
A edição de “O Domingo Ilustrado” é de 8 de agosto, de 1926. A 28 de maio fora implantada a Ditadura Militar, chefiada pelo general Gomes da Costa. Martinho Nobre de Melo (antigo ministro na ditadura de Sidónio), tinha 35 anos incompletos e fez parte do governo, como ministro dos Negócios Estrangeiros. Salazar também fora convidado mas só entrará em 1928. Para durar até 27 de setembro de 1968.
 
SEMPRE PARIS
Regressou Almada Negreiros de Paris, a 7 de abril de 1920. No dia em que completava 27 anos. Só voltará, numa rápida passagem, em 1950, mas continuou a ter Paris dentro de si. Porventura, sem a exacerbação carnal e possessiva do seu amigo Mário de Sá-Carneiro: “Paris da minha ternura/(...) Minha cidade com rosto,/ minha fruta mal madura.../ Mancenilha e bem-me-quer./ Paris — meu lobo e amigo — /quisera dormir contigo,/ ser todo a tua mulher”.
Almada, em certos dias da semana, depois do almoço, na sua casa de família, no Rato, antes de se refugiar no ateliê ia, a pé, em direção ao Rossio. Acompanhei-o, muitas vezes. Em especial, entre janeiro e junho de 1960, quando me concedeu as entrevistas para o “Diário de Notícias”, recuperadas no recente livro “Almada, os Painéis, a Geometria e Tudo” (edições Assírio & Alvim). Entrava na tabacaria Mónaco para comprar jornais e revistas franceses. Seguia-se um café, de saco, tomado ao balcão, na Casa Chinesa, no início da Rua do Ouro. Via logo os títulos. Começava pelo “Paris-Match”. Uma das suas leituras obrigatórias. Lembro-me, de olhar e exclamar: “Horrível este acidente de automóvel que matou Albert Camus. Repare nesta fotografia trágica...”.
Noutra ocasião, no mesmo local, folheando vagarosamente o “Paris-Match”, exclamava: “Morreu Georges Braque. Merece honras nacionais. Não pode ficar eclipsado por Picasso”. (Pouco depois, no Louvre, prestaram-lhe a homenagem devida. André Malraux, ministro da Cultura, proferiu um discurso histórico). E Almada prosseguia: “Penso muito em Braque...” E repetia a diretriz enunciada por Braque: “‘J’aime la règle qui corrige l’emotion. J’aime l’emotion qui corrige la règle’. Penso nisto todos os dias. Talvez várias vezes por dia. Diante de Nuno Gonçalves, da obra-prima da pintura primitiva portuguesa”.
Estas e outras circunstâncias, demonstram o interesse e o conhecimento de Almada a propósito do que se passava em Paris. Recolhia informação nas revistas, nos jornais, nos livros, nos catálogos que lhe ofereciam ou comprava. Via com atenção os principais filmes. Assistia aos espetáculos de teatro de companhias francesas que vinham a Lisboa. Escutava, com atenção crítica, notícias que ouvia de amigos que chegavam de Paris: Vieira da Silva, Júlio Pomar, Merícia de Lemos, Manuel Cargaleiro. Tudo isto conjugava e recriava a imaginação transfiguradora em contínuo estado de alerta. Assim conseguia Almada Negreiros sentir e estar em Paris, residindo em Portugal
Paris Sempre – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 4 de Fevereiro de 2017, pp. 33/35 – com sublinhados nossos.
 
 
António Valdemar

J.M.M.