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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

MANIFESTO ANTI-DANTAS, ACTUALIDADE E PERMANÊNCIA

 

"Manifesto Anti-Dantas,actualidade e permanência” – por António Valdemar

 [A contestação literária e a desmontagem do oportunismo político]
 
 
“O Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros, insere-se na linha de intervenção da geração do Orpheu ao introduzir uma nova literatura e uma nova estética e, ao mesmo tempo, ao proceder à contestação de personalidades consagradas nas instituições oficiais. Publicado há um século — que este ano se completa —, e tendo falecido Júlio Dantas há mais de 50 anos, será legítimo falar em actualidade e permanência de um texto visceralmente panfletário, relacionado com figuras e acontecimentos pontuais, eventualmente sujeito ao esquecimento e à erosão do tempo?

É evidente que Júlio Dantas permanece ligado a uma época e às suas circunstâncias, mas, além disso, constituía um modelo social, cultural e político que não se extinguiu. Já existia antes e continuou a existir depois. Eça de Queiroz já ridicularizara e exautorara o conselheiro Acácio, o Pacheco, o Dr. Margaride, o Gouvarinho, o Steinbroken, o conde de Abranhos, o boticário Carlos e outros símbolos da presunção oficiosa e da mentalidade conservadora. Que, aliás, também, se deparam na Bíblia, no teatro de Plauto, nos autos e nas farsas de Gil Vicente...
Almada Negreiros tinha 23 anos. Encontrava-se na força da vida. Havia sido ‘director artístico’ e colaborador do Papagaio Real, semanário monárquico de sátira política. Pertencia, com Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Santa-Rita Pintor, entre outros, ao grupo do Orpheu, que, ao surgir em Março de 1915, desencadeou os maiores protestos. Numa crónica na Ilustração Portuguesa, Júlio Dantas fora um dos muitos que execraram o Orpheu, juntando-se aos psiquiatras que consideraram paranóicos os colaboradores da revista.
O Manifesto Anti-Dantas não é, apenas, um ajuste de contas e a escolha de um bode expiatório. Traduz o conflito de gerações e integra-se numa corrente literária e artística com orientação estética de ruptura. Em 1913, Fernando Pessoa já se pronunciara contra a poesia de Afonso Lopes Vieira a propósito da publicação de Bartolomeu Marinheiro e, no mesmo texto, não deixou também de se distanciar de Júlio Dantas: 'os homens do Portugal de amanhã', ‘educados na estupidez’, ‘terão por Shakespeare o Sr. Júlio Dantas e por Shelley o Sr. Lopes Vieira’.

O pretexto imediato do Manifesto Anti-Dantas resultou da estreia, a 21 de Outubro de 1915, no Teatro Ginásio da peça de Júlio Dantas Soror Mariana. Almada era um dos que patearam a peça e, no dia 25, no jornal A Lucta, dirigido por Brito Camacho, reduziu a Soror Mariana a uma ‘baboseira teatral’ e apontou Dantas como um ‘homem cuja mediocridade inchada de egotismo o levou a comparecer em cena, ao chamamento de meia dúzia de claqueurs, ignorantes e ineptos’.
Mas a ofensiva implacável viria no Manifesto. Dantas estava no auge da celebridade. Com a Ceia dos Cardeais projectou-se através da Europa e das Américas e estendeu-se até ao Japão. A Ceia dos Cardeais, logo após a primeira representação, pelos maiores atores, constituiu um sucesso de livraria. Houve cinquenta edições, mais de 200 mil exemplares; traduções nas mais diversas línguas e duzentas e cinquenta imitações e paródias, em Portugal e no Brasil. A última de José Vilhena não sei se já foi publicada.



Além de Júlio Dantas, Almada disparou ataques a muitas outras figuras públicas da literatura, do teatro, da pintura, da escultura e do jornalismo. Contudo, a investida a Júlio Dantas tinha, igualmente, uma forte componente política. Atingia o Júlio Dantas que passara, sem hesitações, de um regime para outro, da Monarquia para a República. A transição política também se reflectia na trajectória literária — a ligação ao poder, aos sucessivos governos, às respectivas cúpulas partidárias.
Costumo resumir o êxito de Júlio Dantas através das seguintes peças: A Ceia dos Cardeais, para deslumbrar a família real e ter acesso ao paço; Um Serão nas Laranjeiras, ao pressentir a decomposição e queda da Monarquia; Santa Inquisição, para a I República e agradar a Afonso Costa; Carlota Joaquina, para desmistificar o Integralismo Lusitano; Frei António das Chagas, para o Estado Novo, empenhado na reconciliação do Estado com a Igreja. Em 1945, ao irromper o MUD (e a situação começou a estremecer), Dantas fez uma versão da Antígona. A oposição revia no tirano e detestável Creonte o tirano e detestável Salazar.

Não se registaram sinais de mudança. Júlio Dantas assinou o protesto fabricado na União Nacional e no Diário de Notícias, contra o "obviamente, demito-o" (Salazar), declarado, sem papas na língua, por Delgado, em 1958, na apresentação da candidatura à Presidência da República.
O ponto final das versatilidades políticas e literárias de Dantas verificou-se em 1960. Tinha 86 anos. Já fora substituído na Presidência da Academia por Reynaldo dos Santos. Mas não deixava de intervir. E aceitou subscrever, ao lado dos representantes da oposição democrática, a candidatura de Aquilino Ribeiro para Prémio Nobel da Literatura. Tinha plena consciência de que se tratava de um expediente para conseguir repercussão internacional, de modo a arquivar o processo-crime devido aos ataques cerrados ao regime e ao próprio Salazar no romance Quando os Lobos Uivam. E no âmbito do centenário do Infante D. Henrique, que se comemorava na altura, Salazar avançou com uma amnistia que abrangeu Aquilino e o libertou das picardias do Tribunal Plenário (da acusação inquisitorial do Ministério Público por Lopes de Melo que, após o 25 de Abril, ascendeu ao Supremo Tribunal de Justiça), das garras da PIDE, de um julgamento vexatório com pena suspensa ou efectiva.

Por tudo isto, Júlio Dantas foi tudo ou quase tudo o que quis e que é possível um intelectual exercer em Portugal: director e professor do Conservatório, comissário do Governo no Teatro Nacional, inspector superior das Bibliotecas e Arquivos, deputado, dirigente partidário, ministro de várias pastas. Desempenhou, episodicamente, funções de médico da Guarda Municipal em Lisboa, antecessora da Guarda Nacional Republicana. Desejou ser médico da Casa Real, mas não havia lugar vago. Estavam preenchidos por António Lencastre e Thomaz de Mello Breyner.
Ser médico terá facilitado a adesão à República, durante as horas de expectativa revolucionária. Em vez de ir aos banhos de São Paulo, onde estava reunido o futuro governo provisório, com grandes personalidades da Maçonaria, deslocou-se a cavalo à Rotunda, oferecendo os seus serviços clínicos aos militares e aos civis armados da Carbonária. Está referido e documentado por Machado Santos no relatório acerca das fases do processo que conduziu à proclamação da República em 5 de Outubro de 1910.

A Júlio Dantas faltou-lhe, apenas, ser Presidente da República, Prémio Nobel e cardeal. Soube adaptar-se às conjunturas políticas. Reunia as condições essenciais. Era filho de um general e sobrinho de outro general. Vestia com gosto. Sabia o que era um smoking e uma casaca. Nunca teve caspa na gola do casaco nem, muito menos, as unhas sujas.

Mas a maior parte dos dirigentes e responsáveis institucionais também o repescava, porque sabia cumprir a liturgia do poder, oficiar o cerimonial do Estado e conduzir o funcionamento de uma academia. Era um ritualista exímio. Um cenógrafo da língua para todas as situações, as mais solenes e as mais insólitas.


 
Almada, ao fazer a desmontagem dos ecletismos políticos (e faltava assistir a mais 50 anos de oportunismo), pôs o dedo na ferida:’"Dantas é um habilidoso e um ciganão, (...) um pantomineiro. Para ter chegado aonde chegou basta não ter escrúpulos, nem morais, nem artísticos, nem humanos. Basta usar o tal sorrisozinho, basta ser muito delicado (...) e ter olhos meigos (...) Basta ser Judas. Basta ser Dantas’.

Seja como for, o Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros, alertou uma ou duas gerações, a do Orpheu e a da Presença, e mesmo depois disso, para outros Dantas. Antes dele, Castilho foi um Dantas do século XIX. A carta de Antero de Quental Bom Senso e Bom Gosto, publicada, em 1864, contra António Feliciano de Castilho e seus discípulos, não se restringiu à luta de gerações literárias mas à denúncia da promiscuidade do elogio mútuo.
E quantos outros Dantas temos conhecido tão solícitos e ávidos de protagonismo, mas sem a inteligência e a cultura de Dantas? Infelizmente, o que nos tem faltado são manifestos de Almada contra os Dantas, e cartas de Antero contra os Castilhos. Justifica-se, portanto, a actualidade e permanência do Manifesto Anti-Dantas. O panorama que se nos depara é confrangedor: poetas e escritores em santa aliança e sagrado conluio, numa descarada troca de panegíricos. Mas é mais angustiante e deplorável em relação à política, aos partidos e à banca. As palavras incendiárias e as sínteses fulminantes de Almada Negreiros no Manifesto Anti-Dantas começam a ser insuficientes para desmascarar a progressiva confusão de valores e princípios com interesses e negócios.”

Manifesto Anti-Dantas, actualidade e permanência – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], jornal Público, 12 de Agosto de 2016, p.48 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

CHAVE DIZ: FALTAM DUAS TÁBUAS E MEIA DE PINTURA NO TODO DA OBRA DE NUNO GONÇALVES



JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS: A CHAVE DIZ: FALTAM DUAS TÁBUAS E MEIA DE PINTURA NO TODO DA OBRA DE NUNO GONÇALVES “O pintor português que pintou o altar de s. Vicente na Sé de Lisboa”. (Da pintura antiga, Francisco da Hollanda). Depositaria Livraria Sá da Costa. Lisboa. (1950). 20,5x27 cm. 15-I págs. B. &

“Curioso ensaio em que Almada Negreiros pretende resumir algumas das noções matemáticas que o levam a  concluir que na disposição do retábulo de Nuno Gonçalves faltariam “duas tábuas e meia”.




[Almada Negreiros] “… Um evidente acerto e o erro gravíssimo de retirar do altar de S. Vicente na Sé de Lisboa, nem mais nem menos do que as seis tábuas em políptico, e ambos a um tempo no mesmo autor, confirmam não haver autoridade crítica para declarar evidente um acerto ou gravíssimo em erro, senão quando o senhor da ‘chave’ do todo do dito altar. Não é este o caso do crítico de arte, porquanto acrescenta erro a acerto, demonstrando ignorar o todo da obra do altar, o qual, de verdade já ignorava de há muito Portugal (embora o desconheçam ainda o Governo e a Nação, e os mandatários oficiais de ambos); e ignorando o todo da obra, demonstra não saber da  sua ‘chave’;  e desconhecendo esta, demonstra ignorar existir quem a tenha. Não tem por conseguinte autoridade crítica para decidir o que seja, no todo ou em parte da obra, a ignorância da ‘chave’ desta …


J.M.M.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

ALMADA. OS PAINÉIS A GEOMETRIA E TUDO


LIVRO: Almada. Os Painéis, a Geometria e Tudo. As entrevistas com António Valdemar;
AUTOR: António Valdemar;
EDIÇÃO: Assírio e Alvim, 2015, p. 223.


LANÇAMENTO:

DIA: 7 de Outubro (18,30 horas);
LUGAR: Grémio Literário (Rua Ivens, 37, Lisboa);
ORADOR: Eduardo Lourenço | presença de António Valdemar



 É preciso que o leitor saiba que, ao escolher este livro, acertou em cheio. Este é um livro que desfaz a nossa falta dele. É um livro que torna próximo, reunido e nítido o que até agora estava distante, disperso e desfocado. É um livro que, 55 anos depois, restitui à voz de Almada o seu som escrito mais sonoro, mais sucinto, mais sucessivo («alto e bom som», gostava ele de dizer). É um livro atravessado por uma estrada que passa em todos os lugares onde aquele para quem a arte era um todo e o artista um tudo firmou a sua soberania, a sua sabedoria, o seu saque. É um livro de palavras que procuram uma verdade que não é o contrário de uma mentira, mas o oposto de uma outra verdade. É um livro por onde o tempo corre para acompanhar a sua fuga: garrafa arrebatada ao mar fundo do passado, lança atirada à terra seca do presente, nave apontada ao céu alto do futuro («Até hoje fui sempre futuro», Almada). É um livro (documento, depoimento e testemunho) que fala da geometria que fala - que fala da geometria que «assim fala».

É um livro, mas o que nele se diz «não foi encontrado em livros primeiro, mas n'eles assegurado depois» (Almada). É um livro a mostrar-nos que «o novo existe e que pode mesmo dizer-se que é precisamente tudo o que há de mais antigo» (Delacroix, citado por Almada). É um livro e, com ele, sabemos que «o Futuro é tão antigo como o Passado. E ao caminharmos para o Futuro é o Passado que conquistamos» (António Maria Lisboa).

É este um livro feito a quatro mãos: as de um escritor-artista, sem o qual a cultura portuguesa seria outra; e as de um jornalista-investigador, sem o qual as entrevistas - e este livro que agora, passados mais de meio século, as restitui - seriam o não serem […]

Abre-se este livro e lemos o ensaio-prefácio, escrito agora, e em que António Valdemar nos fala, com minúcia e memória, de Almada Negreiros e de como foi feita a caça ao tesouro de que estas entrevistas tratam. Com conhecimento, fala-nos da vida de Almada e dos ventos que a moveram. Com inspiração, fala-nos dos Almadas que o Almada foi sendo para ser o Almada que era («A mim já me chamaram pau de dois bicos, quando, na verdade, eu tenho tantos bicos quantos os necessários para deixar de ser pau e ser eu!», Almada). Com deleite, fala-nos de obsessões e de polémicas. Com persistência, fala-nos daquela geometria em que Almada encontrou uma egometria. Pense-se o que se pensar desta geometria e desta egometria, a verdade é que elas deram origem a um mundo que se nos tornou magnificamente visível em tudo o que Almada com ele fez […]

O ensaio-prefácio faz-nos entrar, de olhos abertos e ouvidos despertos, na conversa entre os dois autores, o entrevistador e o seu entrevistado, o mestre atencioso e o discípulo atento. Esta conversa passa de um para o outro como uma corrente elétrica intensa passa de um pólo a outro polo: diálogo atravessado por monólogos; monólogo atravessado por diálogos; monodiálogo e diamonólogo; jogo de fórmulas e de formas; cinemática de forças e de figuras; mapa de segredos súbitos e de sentidos subtis. Aqui, Almada é o D. Sebastião que se perde num nevoeiro geométrico para nele se voltar a achar, regressando à Pátria mais passada e mais futura, mais encoberta e mais desejada, mais desaparecida e mais encontrada.

Agora, lembro. Era verão, os dias estavam claros e as noites quentes e demoradas. Nós vínhamos a pé de Algés ou de Belém, onde tantas vezes jantávamos com outros amigos, até ao Cais do Sodré ou à Praça do Comércio. Andávamos e conversávamos, conversávamos e andávamos. Por cada passo, dez palavras; por cada palavra, dez silêncios. Vejam bem o tudo que dizíamos e o nada que calávamos naqueles dez quilómetros […]

Agora, continuo a lembrar. Havia horas dessas noites, assim vagarosas e abafadas, em que o António Valdemar evocava o Almada, falava do Almada, citava o Almada, contava do Almada, figurava o Almada, representava o Almada. A noite subia e, sob o desenho distante dos astros na escuridão seca do céu, o meu amigo conseguia fazer com que o Almada aparecesse ali, entre nós, vivo […]

Agora, olho a fotografia da capa do livro. Aconteceu que, de entre as muitas fotografias do espólio de Almada, esta saltou de lá, ainda há pouco tempo, por milagre ou prodígio. Foi como se quisesse vir ao nosso encontro, como se desejasse estar na capa deste livro. E assim se lhe faz a vontade!

A fotografia dá-nos a ver dois homens que passeiam no Chiado. Nos seus rostos, há uma alegria comum, que não se perde nem se parte. Elegantes e com tempo para o serem, o homem já velho conversa com o homem ainda novo. Assim, anos mais tarde, um homem ainda novo, a quem chamo eu, conversará com um homem mais velho, a quem chamo amigo.

No Chiado, enquanto caminhava ao lado do Valdemar, o Almada falava do Almada. No caminho que, anos depois, eu e o meu amigo fazíamos de Algés à Baixa, era do Almada ainda que falávamos. Este livro é, de Almada e de nós a falar dele, uma memória que não esquece. Por isso, o reconheço - assim Almada Negreiros reconhecia os Painéis das Janelas Verdes como se os tivesse visto pintar. Mais e melhor: reconhecia-os como se ele, muito antes dele, os tivesse pintado.

[José Manuel dos Santos, “O Fausto de Almada ou a Caça ao Tesouro”, in prefácio, p. 11-19]

 
António Valdemar
 
 
J.M.M.

terça-feira, 24 de março de 2015

O ORPHEU E A SUA CIRCUNSTÂNCIA


O Orpheu e a sua circunstância” – por António Valdemar, in jornal Público

A revista Orpheu abriu novos caminhos na literatura portuguesa, permitindo questionar o homem e os seus abismos e levar a limites desconhecidos a invenção da escrita e da palavra.

Para vários capítulos da História, desde a cultura à politica, 1915 representou o ano de tudo o que era previsível e imprevisível: pulsões revolucionárias e turbulências contrarrevolucionárias, o restabelecimento das estruturas democráticas da República, o lançamento de uma política atlântica, de cooperação política e cultural com o Brasil.

Foi, ainda, ano do aparecimento da revista Orpheu – cujo centenário principia hoje a ser comemorado em numerosas instituições – que deu lugar à irradiação de uma nova poesia portuguesa e, ao mesmo tempo, à construção de uma nova língua portuguesa. Deve-se, fundamentalmente, a Fernando Pessoa, através de Álvaro de Campos, com a Ode Triunfal e a Ode Marítima. Também se deve a Almada Negreiros, não com os Frizos, publicados no Orpheu 1 – as garras e as asas de Almada ganharam folego e amplitude no Manifesto Anti-Dantas, na Cena do Ódio e na Engomadeira. Todos escritos em 1915.

Os cinco primeiros meses de 1915 podem considerar-se dos mais terríveis no percurso da Primeira República, tão fértil em incidentes, conflitos e revoltas que provocaram, em Maio de 1926, o fim do regime, com uma outra ditadura que só terminará com o 25 de Abril de 1974. Os últimos dias de Janeiro de 1915 acentuaram o fantasma da I Grande Guerra Mundial (1914-1918), os primeiros mortos em África (antes da tragédia da Flandres), a divisão de opiniões acerca da participação no conflito: os que sustentavam a fidelidade à Grã-Bretanha e as exigências da secular aliança luso-britânica; os que se pronunciavam a favor da neutralidade; e a erupção de sentimentos germanófilos.

Ainda não se tinham apagado os efeitos das incursões monárquicas de 1911 e 1912, no Norte do país, nomeadamente em Chaves, persistia o objetivo da restauração monárquica: intrigas e conspirações para ataques à República, já reconhecida por todos os Governos do mundo. A arrancada do grupo do Integralismo Lusitano recuperava o pensamento contrarrevolucionário, em revistas e jornais próprios e no auge dos conflitos militares e políticos, um ciclo de conferências na Liga Naval, em Lisboa.

Houve, também, no campo dos republicanos, oposições dilacerantes. Agravaram-se as querelas que fragmentaram a maçonaria, o Grande Oriente Lusitano Unido, liderado por Magalhães Lima, dando origem a outra obediência, o Grémio Luso-Escocês, dirigido pelo general Ferreira de Castro. Saíram do Grande Oriente lojas de todo o país. A dissidência envolveu muitos civis e militares dos partidos Evolucionista, de António José de Almeida, Unionista, de Brito Camacho, e do próprio Partido Democrático, de Afonso Costa.

O Movimento das Espadas, em 20 de Janeiro de 1915, foi o rastilho das muitas contestações. Manuel de Arriaga chamou o general Pimenta de Castro para formar um Governo que seria a primeira ditadura na República. Parlamento encerrado, adiamento de eleições, saneamento de altos quadros da função pública. Censura nos órgãos de comunicação social.

Entretanto, registou-se, a 14 de Maio, a mais sangrenta das revoluções da I República, 24 horas de fogo cerrado, mais de 100 mortos e mais de 1000 feridos em estado grave só em Lisboa. Houve a queda do Governo presidido por Pimenta de Castro, a renúncia de Arriaga; o regresso de Teófilo Braga à chefia do Estado, até se efetuarem eleições, para repor a Constituição de 1911 e consolidar os fundamentos do regime.

À margem desta agitação partidária, que se estendeu de norte a sul do país, acentuando todas as incógnitas, todos os pressentimentos, todas as fatalidades, a 25 de Março de 1915, precisamente há 100 anos, concluiu-se na Tipografia do Comércio, na Rua da Oliveira, ao Carmo, e para ser posto à venda, em Lisboa, no dia seguinte, a 26 de Março, o Orpheu 1. Também na mesma tipografia, será composto e impresso, em Junho de 1915, o Orpheu 2. Várias tendências literárias e estéticas avultam na diversificada e heterogenia colaboração de Fernando Pessoa (e Álvaro de Campos), Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Alfredo Guisado, Luís de Montalvor, José Pacheko, Raul Leal, Armando Côrtes-Rodrigues, (Violante de Cysneiros), Santa-Rita Pintor e, ainda, de dois poetas brasileiros, Ronald de Carvalho e Eduardo Guimarães. Sem escrever uma linha, António Ferro foi o editor.

Entre a publicação e o lançamento do Orpheu 1 e do Orpheu 2 ocorreu uma cisão no grupo que se refletiu nas relações pessoais dos diretores e colaboradores da revista. Fernando Pessoa, através do heterónimo Álvaro de Campos, dirigiu uma provocação sibilina a Afonso Costa, que considerava um feroz e detestável adversário. Afonso Costa estava hospitalizado e era objeto de contínuas provas de solidariedade. (Júlio Dantas chorou, na sua crónica semanal, na Ilustração Portuguesa). Afonso Costa saltara de um elétrico, em andamento, julgando que era uma bomba. Sofreu graves ferimentos. Álvaro de Campos, em declaração publicada n'A Capital, insinuou com ironia perversa: “Numa hora tão deliciosamente mecânica, a própria Providência Divina serve-se dos carros eléctricos para os seus Altos Ensinamentos”.

Numa carta aberta, no jornal O Mundo, Alfredo Guisado e António Ferro, ambos republicanos, ambos do Partido Democrático de Afonso Costa, repudiaram o comentário de Álvaro de Campos. Deixaram de colaborar no Orpheu. Também se demarcou Mário de Sá-Carneiro e, em especial, Almada Negreiros. Apesar de católico praticante, monárquico assumido e muitos anos aluno interno do Colégio de Campolide dos Jesuítas, Almada deslocou-se, pessoalmente, a 7 de Julho de 1915, à redação d’A Capital para esclarecer que a frase de Álvaro de Campos resultara de “manifesto estado de embriaguez”. Foi a primeira alusão pública ao alcoolismo de Pessoa, antes da fotografia a “decilitrar” na taberna de Abel Pereira da Fonseca.

Três nomes do Orpheu vão evidenciar-se e definir o futuro: Fernando Pessoa (ortónimo e heterónimo), Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros. A política democrática e, mais tarde, o anti-salazarismo militante de Alfredo Guisado afetou-lhe a criação poética. Mesmo assim, Alfredo Guisado, “o mais injustamente esquecido poeta do Orpheu” no entender de Óscar Lopes e Vitorino Nemésio (Jornal do Observador), foi, na época, o que teve maior aceitação, influenciando os primórdios, por exemplo, de Cabral do Nascimento e José Gomes Ferreira.

Poetas e intelectuais das gerações seguintes acusaram o forte impacto causado pelo Orpheu, sobretudo por Fernando Pessoa e os seus heterónimos. E, cada vez mais, traduzido em todo o mundo, o semi-heterónimo Bernardo Soares do Livro do Desassossego. Ficamos a “ler o que nunca foi escrito” para mencionar Hofmannsthal, uma frase citada e aplaudida por Walter Benjamim.

O Orpheu projetou-se no grupo e na geração da Presença, nos Surrealistas, nos neorrealistas, nos Cadernos de Poesia e em sucessivos outros movimentos literários até aos nossos dias. Através de, apenas, dois números da revista Orpheu abriram-se caminhos surpreendentes na literatura portuguesa. O Orpheu permitiu questionar o homem e os seus abismos. Perder-se e encontrar-se nos labirintos. Criar novos imaginários. Levar a limites desconhecidos a invenção da escrita e da palavra”.

O Orpheu e a sua circunstância – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Academia das Ciências], jornal Público, 24de Março de 2015, p.46 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

VIDA CONTEMPORÂNEA (1934-1936)


VIDA CONTEMPORÂNEA. Revista Mensal de Estudos Económicos, Financeiros, Sociais e Literários. Ano I, nº 1 (Maio de 1934) ao Ano II, nº 24 (Abril de 1936); Propr. e Director: Cunha Leal; Editor e secretário da redacção: Victor Júdice da Costa; Admin: António Casanovas Augustine; Redacção: Rua Cidade da Horta, nº 19, 1º, Lisboa; Redactor Principal: Vasco da Gama Fernandes; Chefe da Redacção: Álvaro Machado; Impressão: Tipografia “A Renascença”, Lisboa (Imprensa Lucas & C.ª, Lisboa); 1934-36, 24 numrs

Colaboração: Abel Salazar, André Brun, Almada Negreiros, Almerindo Lessa, Álvaro Marinha de Campos, Armando Cortesão, Aquilino Ribeiro, Campos Lima, Carlos Amaro, César Ferreira, Cunha Leal, Fidelino de Figueiredo, Germano Rocha, Henrique Vilhena, Hipólito Raposo, José Lopes, Lobo Vilela, Manuel Maria Coelho, Moura Vitória, Nuno Rodrigues dos Santos, Pimenta da Castro, Salvado de Carvalho, Sebastião Ribeiro, Severo Portela, Vasco da Gama Fernandes
A revista Vida Contemporânea surgiu em Maio de 1934, ano marcado por eventos dramáticos em Portugal: a Revolta de Marinha Grande em 18 de Janeiro, a entrada em vigor da Constituição de 1933 e a realização das primeiras eleições, em 16 Dezembro, para a Assembleia Nacional. Perante estes momentos iniciais a consolidação do Estado Novo, a oposição ao regime, dividida e cada vez mais enfraquecida pela repressão, parecia mostrar-se incapaz de inverter a marcha dos acontecimentos propícia ao salazarismo nascente (…)

(…) O proprietário e director era o engenheiro Francisco Pinto Cunha Leal (1888-1970), chefe de ministério na Primeira República, antigo reitor da Universidade de Coimbra e opositor ao Estado Novo. O periódico nasceu na sequência do regresso de Cunha Leal de um dos seus exílios, resultantes justamente das actividades contra o regime político, institucionalizado com a Constituição de 1933. Esteve exilado desde 1930 na Galiza (Corunha), onde estabeleceu uma forte amizade com o líder nacionalista galego e futuro chefe do governo espanhol, Casares Quiroga. Aproveitaria a amnistia de finais de 1932 para regressar a Portugal e lançar a Vida Contemporânea, no conturbado ano de 1934 (…)

(…) O projecto educacional da revista torna-se um elemento de mobilização das elites da oposição, devido ao seu impacto cultural na sociedade portuguesa da época. Em 31 de Janeiro de 1935 realiza-se um almoço de confraternização, no Hotel Avis, com o objectivo explícito de organizar uma estrutura cultural destinada a propagandear as ideias de instrução pública. A expulsão, em Maio de 1935, de Francisco Pinto da Cunha Leal para Espanha, pelo governo do Estado Novo, esteve ligada à sua participação na falhada intentona, desse mesmo mês, em ligação com republicanos e nacionais sindicalistas (…)"

[LER MAIS AQUI - Júlio Rodrigues da Silva, “Cunha Leal e a Vida Contemporânea (1934-1936)” - sublinhados nossos]

 


A alma portuguesa caracteriza-se por uma doentia sensibilidade, que se manifesta por formas aparentemente contraditórias: por um lado, a exaltação hiperbólica das glórias do passado; por outro lado, a apreciação pessimista das misérias do presente. Somos como os velhos fidalgos excessivamente maltratados pelo destino, que se comprazem em exagerar a grandeza da sua queda, fazendo para isso subir a nível do ponto donde vieram e baixar o nível do ponto aonde chegaram. Somos ainda como o mendigo que, ao receber do transeunte parcamente caritativo a magra esmola, tem uma chama estranha a iluminar-lhe as pupilas e lhe diz com voz rouca e misteriosa: Ah! Se o senhor pudesse adivinhar o homem que eu já fui!
Há uma explicação plausível para êste modo de ser espiritual. A nossa história tem, como as histórias dos outros povos — nem mais, nem menos do que elas — altos e baixos, acções nobres e acções reles, façanhas heróicas e manifestações de poltronaria. Quiseram, porém, os fados que a trajectória portuguesa tivesse influenciado sobremaneira a evolução da civilização mundial e que, em grande parte, os nossos empreendimentos colectivos não estivessem em proporção com a nossa capacidade material, com as nossas possibilidades práticas de execução. Desta maneira, a história de Portugal surge como um fogacho, que se erguesse muito alto para logo quási se extinguir. Isto criou em nós a propensão para os sonhos épicos e para os contrastes bruscos da suma grandeza e da suma miséria.

Assim, pois, falta-nos equilíbrio espiritual e bom senso — qualidades aliás muito mais raras do que se supõe. Um exame de consciência, mesmo superficial, deve convencer-nos disso. Um grande esfôrço intelectual pode fazer-nos adquirir o sentimento das proporções, a noção das realidades universais, condição indispensável para que sejamos mais comedidos em quebrar a paz e sossêgo de que gozam nos sarcófagos das catedrais os 'barões assinalados' dos tempos idas e para que possam tornar-se menos desageitados e mais eficientes os homúnculos fabricados em série pela fraqueza genética da era contemporânea. Oxalá as gerações presentes e futuras ousem lançar ombros à obra de resgate espiritual e de renovação material, requerida imperativamente pelas circunstâncias! (…)"
[Cunha Leal, inNo Começo da Nossa Viagem", Vida Contemporânea, n.º 2, Junho de 1934 - sublinhados nossos]

FOTOS via FRENESI

J.M.M.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

ALMADA NEGREIROS, REGRESSO AO CHIADO

 
“Os 120 anos do nascimento de Almada Negreiros, que agora se completam, têm constituído pretexto para uma série de manifestações e homenagens que abrangem o artista plástico, o poeta, o romancista, o novelista, o dramaturgo, o panfletário e, simultaneamente, o grupo e a geração de Orpheu, a diversidade de percursos e atitudes que, no seu todo, configuram um momento histórico na procura e afirmação da modernidade.
 
Desde sempre o Chiado e os seus locais mais emblemáticos permanecem associados às múltiplas intervenções de Almada Negreiros. Foi tão íntima e tão longa essa relação física e cultural que do Chiado se poderia dizer que era a sua própria casa, numa Lisboa mergulhada nas guerrilhas da República e numa sociedade imobilizada no seculo XIX e, ao mesmo tempo, com a ambição ilimitada de atingir o mundo para um diálogo com as vanguardas europeias.
 
Partilhou o Chiado com Sónia e Robert Delaunay, quando se refugiaram em Portugal, a fugir a guerra de 14; com Diaguilew e outras figuras dos Bailados Russos que ao chegarem a Lisboa são apanhados de surpresa com a revolução de Sidónio Pais; também num hotel do Chiado, em 1947, falou com Miró, ao passar por Lisboa a caminho de Nova Iorque. O encontro a que também assistiu António Dacosta ficou registado numa fotografia e no Sempre Fixe, na Fita da Semana, de Carlos Botelho.
 
O aparecimento de Almada, como desenhador e caricaturista, decorreu em 1912, no 1.º Salão dos Humoristas, uma exposição coletiva no Grémio Literário inaugurada pelo Presidente da República, Manuel de Arriaga. Em 14 de Abril de 1917 apresentou no São Luís (antigo Teatro República) O Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX – uma explosão de intenções e chicotadas para romper a indiferença e sacudir a rotina. Uma entrega total de energia para mudar o País.
 
Interveio, no Chiado Terrasse, a 18 de Dezembro de 1921, no Comício dos Novos com Gualdino Gomes a presidir, Aquilino Ribeiro na mesa e, entre a assistência perplexa. Foi outra proclamação futurista contra os modelos dominantes. Expôs na Bobone, uma das raras galerias de Lisboa, com tradições oitocentistas; e depois de regressar de Espanha, nos anos 30, fez uma exposição na UP, uma galeria na rua Serpa Pinto, dirigida por António Pedro, onde Vieira da Silva apresentou os primeiros trabalhos.
 
A editorial Ática, fundada por Luis de Montalvor, um dos participantes do Orpheu – e autor do título da revista – teve a primeira sede na esquina da rua do Carmo, com a rua Garrett. Ao lançar, a partir de 1942, a obra ortónima e heterónima de Fernando Pessoa, Montalvor colocou na capa de cada volume um desenho de Almada, um Pégaso, símbolo mitológico e vivo da poesia em movimento.
 
 
A amizade com Fernando Amado incorporou-o na história do Centro Nacional de Cultura ao debater, em 1946, a “posição do artista na sociedade”. Foi um dos escolhidos para decorar a Brasileira do Chiado que, juntamente com o Bristol Club, introduziu em espaços públicos a consagração da arte moderna.
 
A Brasileira, quase até ao fim, constituiu um dos lugares de convívio diário. Almada, ali se envolveu numa aguerrida cena de pugilato com José de Bragança, a propósito da prioridade da descoberta das perspectivas dos ladrilhos que reuniu num políptico os dois trípticos dos Painéis de São Vicente de Fora.
 
E quando não é no Chiado, é nas suas fronteiras que o deparamos, nos seus primórdios ou nos momentos mais exuberantes da sua carreira. Realizou, a primeira exposição individual, em 1913, na Escola Internacional, na rua da Emenda, a dois passos do largo do Calhariz. A Ilustração Portuguesa referiu a exposição, reproduziu alguns desenhos, publicou a fotografia de Almada. O mais importante, contudo, é que atraiu Fernando Pessoa que, escreveu sobre Almada, na revista Águia: “Eu creio que ele tem talento. Basta reparar que ao sorriso do seu lápis, se liga o polimorfismo da sua arte para voltarmos as costas a conceder-lhe inteligência absoluta.” Começou a visibilidade pública de Almada. Mas começou também o convívio e cumplicidade com Pessoa. Abria-se o caminho para o Orpheu. Vai ser ainda no Largo do Calhariz que Almada faz na Liga Naval, em Maio de 1921, a conferência A Invenção do Dia Claro, um ano depois publicada em livro com a chancela da Olisipo, uma das aventuras editoriais de Fernando Pessoa.
 
Trazia a memória escaldante de Paris. Era uma vedeta da primeira página desde o primeiro número do Diário de Lisboa que principiara há um mês e iria durar 70 anos. Almada desdobrava-se em projetos, no desenho, na ilustração, no cinema, no teatro, na dança, no bailado, no afrontamento, direto com os velhos e com os novos, com os valores, os preconceitos, os códigos morais e as cartilhas estéticas e literárias em circulação.
 
N’ A Cena do Ódio – escrita quando residia na Rua do Alecrim, outra fronteira do Chiado – está em paralelo com a desconstrução criativa e o furor épico de Álvaro de Campos, mas atinge outra dimensão n’ A Invenção do Dia Claro. Estabeleceu o reencontro da poesia com o desenho e a pintura; aprofundou a reflexão sobre a linguagem e através dela sobre a existência humana. Entre o vivido e o escrito desvenda as geografias que a imaginação concebeu. Quer, a todo o custo, recuperar os afetos perdidos. A atenção dirige-se para a memória e o quotidiano. A palavra é concisa ou pujante: as coisas mais vulgares surgem transfiguradas.
 
 
Hoje 7 de Abril, o encerramento do ciclo dos 120 anos do nascimento proporciona, no Grémio Literário, um encontro com a presença e intervenção de alguns que conheceram Almada Negreiros e com ele ainda privaram na intimidade. Também José Quaresma, professor da Faculdade de Belas Artes de Lisboa vai promover, a partir de 6 de Maio, e à semelhança dos últimos cinco anos, um conjunto de iniciativas – em que se destacam a personalidade e a obra de Almada Negreiros e o Chiado – no âmbito da reflexão e da produção artística que problematize as origens e a atualidade da dramaturgia e da performance em estreita relação com as noções de Esfera Pública e de Arte Pública.
 
Almada regressa ao Chiado, aos seus cafés, aos seus restaurantes, aos seus teatros, aos seus clubes, às suas livrarias, a outras instituições, às suas próprias esquinas a todo aquele universo que, desde sempre integrou as duas faces distintas da arte, da literatura e da vida: a tradição e a rutura, o antagonismo das gerações em conflito. Para Almada o Chiado constituiu a arena dos grandes combates que travou enfrentando tudo e todos. Para derramar e explodir: “Luz, a luz, tal e qual, que é, presença de cada qual”. Com essa irradiação de luz mudou a arte e a Literatura. Mudou Portugal.”
 
[António Valdemarin jornal PÚBLICO (7/04/2014), sublinhados nossos]
 
J.M.M.