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quinta-feira, 25 de outubro de 2018

APESAR DE VOCÊ!



Apesar de você!” – por Marcelo Rubens Paiva, in jornal Estado de S. Paulo

Apesar de você, as cores do arco-íris continuarão as mesmas, ele sempre estará entre o céu e a terra, continuará lindo a nos emocionar. Mulheres continuarão a desejar mulheres, homens se beijarão e se amarão: o amor não tem limites, o desejo não tem barreiras. A composição familiar nunca mais será a mesma. Os jovens não deixarão de mudar padrões, quebrar regras. O amor vencerá a bala. A Inteligência sempre vencerá a burrice.
Drummond continuará arquiteto das palavras, Niemeyer, o poeta das formas. Ambos continuarão gauche na vida. Livros poderão ser proibidos, mas jamais serão esquecidos, poderão estar escondidos nos labirintos das estantes, no labirinto da nossa memória.

Apesar de você, a palavra será a melhor arma, o pensamento, livre, as ideias brotarão, os questionamentos serão infinitos, é da nossa essência, é nossa vocação.
Apesar de você, florescerá na primavera, a solidariedade existirá, o altruísmo continuará vital como o ar. Apesar de você, a bondade estará entre nós. Vamos esperar para tudo melhorar, vamos esperar para o dia amanhecer sem ódio, sem tiros, vamos esperar a tempestade passar.

Apesar de você, Dom Quixote lutará contra moinhos de vento, Riobaldo, contra o amor por outro jagunço, Canudos, contra as tropas da insensatez, Zumbi, contra a escravidão. A dívida social não será paga. A história dos negros não será reescrita nem recontada. Uma ditadura continuará a ser assassina, e a tortura, nunca mais! Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.
Hoje é dia 20 de outubro. Hoje é celebrado o dia do poeta. Hoje é dia de Manuel Bandeira. Apesar de você, podemos ir embora pra Pasárgada, onde somos amigos do rei, termos o amor que quisermos, na cama que escolhermos e, se aqui não somos felizes, lá a existência será uma aventura, lá faremos ginástica, andaremos de bicicleta, montaremos em burros brabos e, cansados, nos deitaremos na beira do rio, porque em Pasárgada tem tudo, é outra civilização, nos sentiremos seguros, e no dia mais triste, o mais triste de todos, amaremos quem quiser, porque lá somos amigos do rei.

Apesar de você, toda a cultura será acessível, Brecht proporá a revolução, a angústia estará na solidão, a dor da alma não terá cura, até o dia em que decidirmos não sofrer mais e agir. Sofreremos por causa de você, superaremos apesar de você. Nossos ancestrais não sairão do lugar, seus ensinamentos irão nos guiar, apesar de você. Os mortos continuarão vivos entre nós. Continuarão a nos inspirar. Luther King continuará mito. Jesus a nos defender. Simone de Beauvoir nos fez pensar. Gandhi é o mito da paz.
O índio guerreiro vai lutar, vai se esconder e sobreviver, vai defender a sua mata, unir-se aos animais, defender sua família, até o último guerreiro, e mais uma vez o mal não vencerá. Os rios terão o poder de se regenerar, os mares, de se recompor, a fumaça vai se dissipar, as bombas vão se calar. A floresta vai renascer das cinzas. A destruição não nos acometerá.

Cometas vão passar. O Universo continuará a se expandir e ser enigmático. As descobertas nos surpreenderão. O conhecimento será sempre o caminho, não o ponto final. O desconhecido será conhecido, para voltar a ser desconhecido, que será conhecido, e desconhecido. Teorias podem ser reescritas, nunca extintas ou ignoradas.
Michelangelo será eternamente belo. Leonardo, genial. Van Gogh pintará as cores do vento. Pollock, a representar nossa loucura. Picasso, a incongruência. Miró será eternamente arrebatador. Rimbaud será nosso poeta que faz da vida, versos, da sua andança, sentido: “Que venha a manhã, com brasas de satã, o dever é ardor. Ela foi encontrada. Quem? A eternidade é mar misturado ao sol”.

Shakespeare nunca deixará de mostrar o horror de reinos, a loucura de reis. Campos de Carvalho narrarei de cor. Continuará píncaro do espetacular. Lobos uivarão para a lua. Cachorros latirão uns para os outros. Gatos se esconderão na escuridão. Sabiás cantarão antes do amanhecer, nos despertando com a beleza da sua inconveniência. À noite, será sempre noite, por vezes desesperadora, por vezes longa demais, dolorida e saudosa. Enfim, o sol aparecerá. O ciclo das estações não se alternará. O minuto de daqui a pouco será depois o minuto que se foi. O amanhã será ontem.
A Justiça não será parcial, a defender os que mais têm. A verdade poderá nunca prevalecer. Mas nenhum doutor irá nos convencer do contrário. A polícia continuará a reprimir, a defender o bem de quem os têm. Mas nunca será eliminado o fato de sermos tão desiguais, de que quem não tem luta para dividir. Os grilhões se romperam. As amarras se romperão. Apesar de você.

Hoje é dia de poesia e samba. Todo dia é dia de samba. Apesar de você, o sol há de brilhar mais uma vez, a luz há de chegar aos corações, do mal será queimada a semente, o amor será eterno novamente. Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer. Amanhã será um novo dia. Apesar de você."
Apesar de Você – por Marcelo Rubens Paiva, [Escritor, dramaturgo, cronista], jornal Estado de S. Paulo [Estadão], 20 de Outubro de 2018 – com imagem e sublinhados nossos

J.M.M.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

RECIFE: ÚLTIMO PORTO DE HENRIQUE GALVÃO - PALESTRA

CONFERÊNCIARecife: último porto de Henrique Galvão;

DATA: 30 de Abril 2015 (19,30 horas);
LOCALMuseu do Estado de Pernambuco [Av. Rui Barbosa, 960 - Graças];

ORADOR: Ana Maria César [Academia Pernambucana de Letras]

MODERADOR: Margarida Cantarelli.

Uma interessante iniciativa sobre um episódio da luta contra a Ditadura salazarista e a afirmação dos oposicionistas no contexto internacional, sobretudo Henrique Galvão, durante os anos seguintes ao acontecimento.

Para acompanhar com toda a atenção.

A.A.B.M.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

segunda-feira, 23 de abril de 2012

NO DIA MUNDIAL DO LIVRO: JOSÉ MINDLIN



Hoje, quando se assinala o Dia Mundial do Livro, recordamos, com este pequeno video, um dos maiores entusiastas e apaixonado pelo livro. Conseguiu reunir a maior biblioteca particular do Brasil e na sua vastíssima coleção de livros deixou inúmeras relíquias que muitos bibliófilos apaixonados tanto ambicionam.

A ver com toda a atenção e, particularmente, dedicado a todos os entusiastas pelo livro ainda e sempre (dizemos nós) em papel.

A.A.B.M.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE GIUSEPPE GARIBALDI



Giuseppe Garibaldi [n. 4 de Julho de 1807] foi uma das personagens mais notáveis, complexas [a sua bibliografia é copiosa, por vezes contraditória] e marcantes do século XIX. Nascido em Nice [ou Nizza], este marinheiro (e capitão mercador ou "capitão do mar") idealista e sonhador italiano, que lutou pela unificação (e republicanização) de Itália, na sua epopeia, quase lendária, atravessou continentes [daí a alcunha de "herói de dois mundos"], deixando um enorme lastro de fraternidade, respeito (e temor, da parte dos seus inimigos). Republicano, maçon e carbonário, Giuseppe Garibaldi participa em várias conspirações e revoltas, tornando-se uma das maiores figuras da unificação italiana e um herói da luta contra a tirania e a intolerância.

Garibaldi, então na Rússia (1833), conhece o carbonário Giovanni Cuneo, entrando em contacto com a sociedade secreta "Jovem Itália", fundada pelo revolucionário místico e republicano Giuseppe Mazzini [nacionalista italiano, dirigente da Carbonária e do movimento clandestino "Jovem Itália", fundada em 1831 em Marselha, e um dos "santos patronos" do Risorgimento Italiano, onde figuram também Giuseppi Verdi e o próprio Giuseppi Garibaldi – sobre o pensamento de Mazzini veja-se o seu livro "Doveri dell’uomo"; diga-se que o "Manifesto" republicano da "Jovem Itália", lançado por Mazzini, foi rapidamente difundido em vários países, entre os quais o Brasil - via o periódico "O Povo", Rio de Janeiro -, na Argentina ou o Uruguai], aderindo aos seus princípios [faz parte, com Cavour e Mazzini, da sua direcção] e ao sonho da unificação da península e, por isso, em 1835 toma parte da tentativa fracassada da conquista de Nápoles.

Após a sentença de condenação à morte pela corte genovesa parte para o exílio. Chega, depois de passagem por Marselha e a Tunísia, ao Brasil [finais de 1835? Janeiro 1936? – ver MAIS AQUI], integrando-se na rede local de jovens exilados mazzinianos da "Jovem Itália", maçons e carbonários, como Luigi Rossetti, Tito Livio Zambeccari, Giuseppe Stefano Grondona, Cuneo, Pietro Gaggini, Giacomo Picasso ou Luigi Carniglia, trabalhando e "navegando como comerciante", evidentemente com o apoio dos "Bons Primos".

Giuseppe Garibaldi era membro da maçonaria

[as fontes sobre a sua iniciação e percurso maçónico são algo contraditórias: segundo alguns foi iniciado em Itália, filiando-se depois (1837) na loja irregular "Asilo (ou Refúgio) da Virtude", do Rio de Janeiro; outros defendem que teria sido iniciado numa loja do Rio Grande do Sul, com o mesmo nome da loja do Rio de Janeiro (a loja "Asilo da Virtude", do Rio Grande do Sul, é fundada em 1833 e regularizada em 1840); outros, ainda, consideram que foi iniciado (1844) em Montevideu, na loja "Asilo de la Virtud", loja irregular criada por norte-americanos exilados, sendo depois regularizado (18 de Agosto de 1844) na loja francesa "Les Amies de la Patrie" (fundada em 1827, loja de RF, regularizada pelo GODF em 1844 e depois integrada no Grande Oriente do Uruguai); em 1850, está filiado na loja "Tompkins" (nº 471 de Stepleton, New York); improvável será o seu putativo contacto oficial (ou reconhecimento) com a maçonaria da UGLE, dado a sua matriz conservadora – sobre este(s) assunto(s) ver AQUI ou AQUI. Em Março de 1862, surge como Soberano Grande Comendador do REAA do Grande Oriente de Palermo e depois, pela unificação dos três Orientes existentes em Itália (Nápoles, Turim e Palermo), é nomeado Grão-Mestre do Grande Oriente de Itália (na reunião de Florença, dos dias 21 a 24 de Maio de 1864). Em 1872 é nomeado Grão Mestre Honorário "Ad Vitam" do Grande Oriente de Itália. Em 1877 a Loja "Garibaldi" de Buenos Aires nomeia-o Venerável Mestre "Ad Vitam"]

e, na sequência [1837-1840] da sua participação na Revolução Farroupilha do Rio Grande do Sul [iniciada em 1835 - ver MAIS AQUI] - levado a cabo pelo coronel Bento Gonçalves da Silva [importante maçon, da loja de Porto Alegre, "Filantropia e Liberdade"], Domingos José de Almeida, António de Souza Netto, David Canavarro e outros – integra a construção da jovem República Rio-Grandense [que precede o triunfal movimento republicano brasileiro], recebendo a "carta de corso" e assume-se "guerrilheiro". Conhece a brasileira Ana Maria de Jesus Ribeiro (a imortalizada Anita Garibaldi) com quem casará [1842] depois, já em Montevideu, lugar para onde vai residir [1841]. Em Montevideu participa na defesa da cidade, organizando a "Legião Italiana" ou "camisas vermelhas".

Em 1848 regressa a Itália com o intuito de fundar a República e unificar a Itália. Após relativos insucessos da sua acção militar e consequente exílio (Suíça e Nice), volta a Roma (onde, então, se proclama a República) como deputado republicano, mas rapidamente tem de a abandonar, depois da sua queda, sendo perseguido na fuga por exércitos de diferentes países, pelo que se retira para Tanger (1849), partindo, depois, para Staten Island (Estados Unidos). Retoma o seu trabalho nos navios mercantes, percorrendo de novo cidades e mares, restabelecendo a sua rede de amizades e cumplicidades. Em 1854 volta a Itália, participando, como comandante das forças sardo-piemontesas (do rei Vítor Emanuel II), na conquista da Lombardia (1859) aos austríacos. Determinado a não perder a ocasião, Garibaldi avança para o do sul de Itália, conquistando a Sicília, Sardenha e Nápoles. O reino de Itália está assim unificado (faltaria Roma), após proclamação (em 1861) de Vítor Emanuel II como rei. Garibaldi tenta, ainda, a anexação de Veneza (1866), a conquista de Trento, a invasão de Roma (onde obtêm um enorme desaire). Organiza a Assembleia de Livres-Pensadores, em Napoles (1869). Morre a 2 de Junho de 1882, em Capri.

J.M.M.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A EXPERIÊNCIA DA PRIMEIRA REPÚBLICA: PORTUGAL E BRASIL



Vai realizar-se entre 5 e 7 de Maio de 2010, um seminário internacional que se reparte entre Coimbra, Leiria e o Rio de Janeiro (Brasil), onde se vai realizar a segunda parte deste seminário no próximo mês de Setembro.

As sessões vão decorrer em Coimbra, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Anfiteatro IV e no Arquivo Distrital de Leiria.

O seminário consta de vários painéis como:

5 de Maio de 2010
- PRIMEIRA REPÚBLICA: HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA;
- POLÍTICA E ELITES CIVIS E MILITARES;
- TRÂNSITOS LUSO-BRASILEIROS: IMIGRAÇÃO E EXILIO;

6 DE MAIO - Leiria
- TRAJECTÓRIAS E REDES DE SOCIABILIDADE INTELECTUAL;
- REPUBLICANISMO E EDUCAÇÃO;

7 MAIO
- ECONOMIA E TRABALHO EM PERSPECTIVA LUSO-BRASILEIRA.

Compõem a Comissão Científica:

Maria Manuela Tavares Ribeiro (Coordenadora Científica do CEIS20, Universidade de Coimbra)
Celso Castro (Director Cientifico do CPDOC, Fundação Getúlio Vargas)
Alda Mourão (CEIS20, Instituto Politécnico de Leiria)
Américo Freire (CPDOC, Fundação Getúlio Vargas)
Ângela Castro Gomes (CPDOC, Fundação Getúlio Vargas)
António Pedro Pita (CEIS20, Universidade de Coimbra)
Isabel Vargues (CEIS20, Universidade de Coimbra)
João Paulo Avelãs Nunes (CEIS20, Universidade de Coimbra)
João Rui Pita (CEIS20, Universidade de Coimbra)
Luís Reis Torgal (CEIS20, Universidade de Coimbra)

Integram a Comissão Organizadora:

Ângela de Castro Gomes
Alda Mourão
Ana Teresa Peixinho
Ángel Gallardo
Isabel Maria Luciano

Entre os conferencistas contam-se:
Nuno Rosmaninho Rolo; Vítor Neto; Marieta de Moraes Ferreira; Ana Teresa Peixinho; Américo Freire; Marly Motta; Carlos Cordeiro; Augusto Monteiro; Libânia Xavier; António Gomes Ferreira; João Paulo Avelãs Nunes; Francisco Palomanes Martinho; António Rafael Amaro.

O programa completo das actividades pode ser consultado AQUI.

Uma actividade a acompanhar com todo o interesse.
A.A.B.M.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

A REPÚBLICA DO BRASIL


A República do Brasil

Reprodução da cena passada no dia 16 de Novembro de 1889 - um dia depois da proclamação da República do Brasil - no Palácio de S. Cristóvão (Rio de Janeiro), da entrega da mensagem (Lei do Banimento) a D. Pedro II pelo Major Solon Sampaio Ribeiro [pai de Ana de Assis, futura esposa do escritor Euclides da Cunha] e que dava 24 horas para D. Pedro II sair do país. O Imperador partiu no dia seguinte, com a família real, para a Portugal a bordo da fragata "Alagoas".

Foto in Galeria histórica da revolução brazileira

J.M.M.