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sexta-feira, 24 de julho de 2015

A RAZÃO. SEMANÁRIO REPUBLICANO - PARTE I


A RAZÃO. Semanário Republicano [ao nº 9, Órgão do Centro Republicano José Falcão]. Ano I, nº I (27 Janeiro 1904) ao nº XVII (22 Maio 1904); Administração e Redacção: Rua do Estendal, 33, 3º [depois, ao nº7, Rua de Santo António, 9], Figueira da Foz; Editor: José Maria Roque dos Reis [ao nº4, Amadeu Sanches Barreto; ao nº8, José Soares Coronel]; Redactor Principal: Gustaf Adolf Bergstrom; Impressão: Typographia Democratica (Coimbra); Figueira da Foz; 1904, 17 numrs

Trata-se de um semanário figueirense que se dispunha a “lutar pela ideia da República, como primeira etapa a alcançar na senda do progresso”, referindo que fazem tenção de tomar o “mais humilde logar nas fileiras da democracia pela qual lutaremos sempre com serenidade, mas enérgica e intransigentemente” (in nº1, texto assinado, em nome da redacção, por Gustavo Adolf Bergstrom).
[Gustaf Adolf Bergstrom nasceu em 1892 na Ilha de Santo Antão (Cabo Verde). De ascendência sueca pelo lado do pai, residiu na Figueira da Foz e casou com Amélia Lucas de Oliveira (e, assim julgamos, casou uma segunda vez com Maria da Luz – cf. O Paiz, Rio de Janeiro, 28/12/1916) – tiveram duas filhas, Maria Regina Bergstrom (n. 1902), que se fixou em Moçambique e Fernanda Bergstrom (n. 1910). Curiosamente o seu pai, Theodoro Segismundo Bergström (1856?-1934; foi director do BNU em S. Tomé e Príncipe) e o seu avô paterno, tinham casado também com cidadãs portuguesas. Gustaf Adolf Bergstrom dedicou-se à instrução pública, foi professor de ensino livre (especialidade em língua inglesa) em Lisboa (no Novo Colégio Inglês), Figueira da Foz e Coimbra. Foi jornalista e um ardente propagandista liberal e republicano. Foi maçon, tendo integrado a Loja maçónica "Academia Livre", de Coimbra.

Como jornalista, funda (11 de Maio de 1902) e redige o jornal “A Voz da Justiça” da Figueira da Foz (a 17 de Maio de 1903, Gustaf Bergstrom, cede a propriedade do jornal para a Associação de Instrução Popular, passando o periódico a ser administrado por maçons filiados na Loja Fernandes Tomás, loja maçónica instalada a 22 de Setembro de 1900 na Figueira da Foz); escreve no jornal, “Desaffronta” (1903, Figueira da Foz - nº único) em defesa do descanso semanal dos caixeiros figueirenses – à revindicação dos trabalhadores sucede um “longo” processo judicial, tendo sido Afonso Costa o advogado dos caixeiros processados; participa (1904) no jornal comemorativo da revolta do 31 de Janeiro de 1891, “Glória aos Vencidos”, patrocinado pelo Centro Eleitoral Republicano José Falcão da Figueira da Foz; foi redactor principal do semanário “A Razão”, mais tarde órgão desse mesmo Centro Republicano.
 
 

Retira-se para Coimbra (vive numa casa nos Arcos do Jardim, ao nº52), frequenta como aluno voluntário a Faculdade de Filosofia e de Matemática na Universidade de Coimbra, exercendo a docência no Liceu da cidade, leccionando (em sua casa) um curso especial de inglês prático para alunos internos. Foi um curioso poeta e letrista (com que contribuiu para alguns estimados fados). Parte Gustaf A. Bergstrom, anos depois (1912/13?), para o Brasil. Lecciona matemática, física e química, e dá cursos particulares de inglês, no Instituto Beltrão (rua Haddock Lobo, nº 419) e no Instituto La-Fayette, do Rio de Janeiro. Discursa na sessão solene das comemorações da República Portuguesa em 1913, promovidas pelo Grémio Republicano do Rio de Janeiro (foi realizada excepcionalmente no dia 12 de Outubro) no teatro Lyrico, sob presidência do dr. Bernardino Machado. Morre a 23 de Junho de 1916 (cf. jornal Estado do Pará, 24/06/2016) no hospital da “Beneficência Portuguesa”, vítima da “tuberculose” (assim o refere, como causa da sua morte, Cardoso Martha, inJornalismo Figueirense”, 1926, p. 60)]  

Refira-se que “A Razão” foi criada por um grupo de republicanos que pretendiam reatar “os laços morais” da comissão municipal republicana, pelo que constituíram o núcleo (fundador) do Centro Eleitoral Republicano José Falcão (instalado e inaugurado no dia 31 de Janeiro de 1904, aniversário da revolta republicana do Porto e em que usa da palavra Gustaf Bergstrom, um dos principais impulsionadores do Centro e seu presidente). Antes mesmo da fundação do Centro Republicano José Falcão foi decidido pelo núcleo inicial a criação de um jornal que fosse seu órgão de imprensa. De facto, assim aconteceu, a 27 de Janeiro de 1904, o semanário “A Razão” [cf. Cardoso Martha, ibidem].
 
[A CONTINUAR]
 
J.M.M.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

CORAÇÃO, CABEÇA E ESTÔMAGO – UMA TERTÚLIA FIGUEIRENSE


GUIDA DA SILVA CÂNDIDO, “Coração, Cabeça e Estômago – Uma Tertúlia Figueirense”, Divisão de Cultura da Câmara Municipal da Figueira da Foz, Figueira da Foz, 2014, 50-XLI p.

FOTO [capa do livro] do grupo “Coração, Cabeça e Estômago”, autoria de José Lopes Dias, e datada de 8 de Agosto de 1946.

Em pé: Raul Xavier, António Silveira, Octaviano de Sá, Pedro de Aguiar, Luiz Xavier, Jaime Lopes Dias, Vítor Lopes Dias, José Lopes Dias e Carlos Sombrio;

Sentados: Joaquim da Silveira, Adolfo Santiago, Maria José, Cardoso Martha, Joaquim de Carvalho e António Lopes Dias.  


 
Trata-se da história de uma curiosa tertúlia cultural e gastronómica, grupo fundado (no Verão de 1936) por António Augusto Esteves (Carlos Sombrio) na vila da Figueira da Foz e que reunia “ilustres intelectuais, escritores e artistas admiradores das artes pantagruélicas”, sob o camiliano nome de “Coração, Cabeça e Estômago”. O estudo de Guida da Silva Cândido é apoiado num conjunto vasto de fontes, entre as quais o “Livro de Actas (1942-1948) do grupo - secretariado pelo professor, escritor, poeta e jornalista [Manuel Augusto] Cardoso Martha (1882-1958)

[Cardoso Marta foi assumidamente republicano (tendo sido um dos fundadores, em 1904, do semanário “A Razão”, pertença do Centro Eleitoral Republicano José Falcão), livre-pensador, etnógrafo, famoso bibliófilo (a sua muito curiosa biblioteca foi “herdada” pela poetisa Natália Correia; é suposto que alguma da recolha de textos integrados na polémica obra, e apreendida pela PIDE, organizada por Natália Correia, “Antologia de Poesia Erótica e Satírica …”, publicada pela Afrodite em 1966, tenha vindo da recolha anteriormente feita por Cardoso Marta), foi funcionário do SNI, aproximando-se a partir dos anos 30/40 da politica cultural do Estado Novo]

O Grupo “Coração, Cabeça e Estômago”, grupo de amigos, “replica dos Vencidos da Vida”, era presidido pelo “superior espírito” de Joaquim de Carvalho e tinha por anfitrião, António Augusto Esteves, aliás, Carlos Sombrio

[Carlos Sombrio, pseudónimo literário de António Augusto Esteves (1894-1949), foi ourives de profissão (com estabelecimento na Praça Nova, Figueira da Foz), curioso escritor (de ensaios, novelas, contos – ganhou o 1º premio dos Jogos Florais de 19140 e 1941 - poemas e breves crónicas – veja-se, entre outros, os trabalhos sobre João de Barros e o general Freire de Andrade), coleccionador e bibliófilo, copioso jornalista – começou a sua actividade no jornal republicano e maçónico, “A Voz da Justiça”, prosseguindo por centenas de periódicos regionalistas, escrevendo, em especial, prosa literária -, foi director da Biblioteca Municipal, participou (em 1925) nas Comemorações do Centenário de Camilo Castelo Branco, levadas a cabo na Figueira da Foz, também nas Comemorações do 1º Centenário no nascimento de Eça de Queiroz, pertenceu a diversas associações culturais, comerciais e recreativas da Figueira da Foz, foi maçon – Irmão “Francisco Brás” – da Loja Fernandes Tomás, onde foi iniciado em Maio de 1920, tendo pedido o atestado de quite em 1930]

Os comensais que fizeram parte deste camiliano Grupo foram: Adolfo Gonçalves Santiago (armador de navios), Alberto de Souza (aguarelista e ilustrador), Alberto Garcia (investigador literário), António Augusto Esteves (Carlos Sombrio), António Cruz (jornalista), António Lopes Dias (magistrado), António Piedade (pintor), António da Silveira (professor do IST), Augusto dos Santos Pinto (jornalista e escritor), Cardoso Martha, Carlos Gaspar de Lemos, Eduardo Miranda de Vasconcelos (professor), Egídio da Costa Aires de Azevedo (professor da UC), Francisco da Luz Rebelo Gonçalves (professor da UC), Jaime Lopes Dias (escritor e etnógrafo), João Reis (poeta e pintor), Joaquim da Silveira (advogado e notário), Joaquim de Carvalho (professor da UC), Joaquim Lopes dias (professor), José Lopes Dias (médico), José Salinas Calado (médico e escritor), Juvenal de Araújo (professor Ed. Física), Lúcio de Almeida (professor da UC), Luís Gonçalves Santiago (proprietário), Luís Xavier (arquitecto), Mário Augusto (pintor), Octaviano de Sá (advogado, jornalista e escritor), Pedro de Aguiar (jornalista), Raul Xavier (escultor), Vítor Lopes Dias (jurista).

J.M.M.