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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O ESPIRITO ERRANTE – CARLOS BABO


CARLOS BABO, “Espírito Errante. Retalhos de um Diario” (capa de Manuel Monterroso), Lisboa, Tipografia do Comercio (Rua da Oliveira, 10 – ao Carmo), 1916, 112 p.

► “- Olá, mestre! … Vae o diabo lá fora … Tiros, pranchadas, correrias, gritos, assaltos a esquadras de policia... desasocego perigoso! Isto vae mal, mestre! O trabalho escasseia, o comercio encolhe-se numa crise exhaustiva, a industria não dá um passo, o retraimento geral lança-nos a todos numa situação desesperada... Isto vae mal.

Quem assim falava' era um rapaz com aparencia de vinte anos, vestindo blusa de operario, alto, forte, de cabeça descoberta, cabelos negros anelados, olhar vivo, rasgado, inteligente.

Aquele a quem ele chamava mestre, estava sentado junto de uma mesa pequena e tôsca de pinho, numa ampla oficina de tanoaria. Era um operaria tambem e aparentava ter cinquenta anos. Usava barba grande, naturalmente frisada e que lhe chegava até meio do peito espaçoso e saliente. Tinha a fronte larga, aberta em sulcos transversaes, sob uma farta cabeleira grisalha, onde ele nesse momento sucessivamente mergulhava os dedos enclavinhados da mão direita, branca e nervosa […]

- Isto vae mal, mestre. Os homens são ferozes. Bem dizia o mestre que eu era uma creança, quando olhava todos os meus sonhos como possiveis realidades côr de rosa ...
- Creanças ... creanças ... Repetiu o mestre, num intimo recolhimento, esparso o olhar na mesma nesga de céo.

Passados instantes de silencio, voltou se o mestre para o rapaz e disse:

Quem governa Babylonia? O Trabalho, a Honra, o Direito? Não; a licença. A patria do guerreiro e monge, do audaz navegador e do epico sublime, tem sido alma da lenda na elegia dolente do passado.
A blusa tomou o logar das armaduras de aço, e a grande epopeia do futuro seria o Cantico dos Canticos do trabalho á Liberdade...

Liberdade! Como ousaram manchar meus labios esta palavra santa, que paira em silêncios de luz, muito alem das torturas da terra, das infamias do mundo, das imperfeições dos homens e das minhas apagadas esperanças?!...

Esperanças! Bronzeos grilhões de refulgências enganadoras, que arrastaes o homem pela longa tormenta da vida, em busca da terra da promissão, sem que jamais logre encontra-la, e por fim o deixaes, inexoravelmente, á borda do tumulo, clamando em suplice desespero pelo descanço misterioso da... inconsciencia! […]

E quem tem governado a moderna Babylonia? Os homens, defendendo a pureza dos principies? Tem governado os melhores? Não. Governam os homens integrados na lucta dos interesses.

Governa a maioria, - mentira que a nossa fantazia morbida engendrou? Não. E' sempre uma minoria autocráta que domina e governa, aferindo os seus actos mais incoerentes e contradictorios pelas necessidades da Patria na aparencia, mas de facto pelas necessidades de seus interesses em lucta …

NOTA BREVE: Este “Espírito Errante”, de Carlos [Cândido dos Santos] Babo (1882-1959), foi publicado em Março de 1916. Trata-se da republicação de um conjunto de crónicas (1913-1916) escritas no jornal “República”.

Diga-se que Carlos Babo [AQUI, AQUI e AQUI já referido por nós] escreveu inúmeras crónicas e artigos nos periódicos [como A Mocidade Livre, A Plebe, A Vitória, Ala Esquerda, Alma Nova, Diário Liberal, Diário de Lisboa, Humanidade, Liberdade, Montanha, O Mundo, O Clarim, O Laico, O Norte, O Povo, O Raio, Pátria, Pensamento, República, Voz da Justiça, etc.], tendo sido, mais tarde, completamente silenciado [caso raro e suponho único], por ordem pessoal do ditador Oliveira Salazar

[curiosamente, o ditador Oliveira Salazar permite-lhe, bem como a Tomás da Fonseca, a publicação de artigos anticlericais, como estratégia política de consolidação do poder pessoal. De facto a campanha anticlerical que a Censura (Major Barradas) e o ditador permitiu, pretendia insinuar ter o ditador “pouco poder” para combater o jacobinismo e a maçonaria (da qual, Carlos Babo e Tomás da Fonseca, eram obreiros dedicados. Babo foi iniciado em 1903, em Coimbra, no seu 4º ano de Direito. E Tomás da Fonseca em 1906, também em Coimbra). A “armadilha”, ao que parece, resultou e rapidamente, e após a “guerra anticlerical” verificada, consolidado o seu poder pessoal com a “eliminação das resistências” por parte dos sectores da Igreja e do grupo em torno do presidente Carmona, Salazar combate e persegue ferozmente os mais ardoroso publicistas dessa contenda. Parece que o ditador, chamando o major Barradas (censor-mor), disse-lhe o seguinte sobre Carlos Babo: “esse senhor (sic), a partir de agora, não escreve nem mais uma linha” – refª ms inédito de J.B.. E assim foi, salvo alguns artigos que Carlos Babo publica no jornal “República”. Ao mesmo tempo, Carlos Babo é aposentado compulsivamente]    

O livro “Espírito Errante” publica-se quando Carlos Babo se encontra em trabalho administrativo, em S. Tomé e Príncipe (Julho de 1915 a 1916). Durante esse “interregno colonial” em S. Tomé, escreve, além do já referido “Espírito Errante”, os opúsculos, “A Pérola do Atlântico” e “Pela Colónia de S. Tomé”. 

A sua estadia em S. Tomé e o seu labor no apoio às governações republicanas, deve-se a ter sido um amigo pessoal, indefectível e até ao fim de António José de Almeida.

[tornam-se amigos quando Carlos Babo integra a Comissão Republicana de Felgueiras e a partir daí, pela militância republicana e a comunhão maçónica, a amizade ficou para sempre; na verdade, Carlos Babo é (1908) nomeado advogado do Directório (PRP), sob pedido de A. José de Almeida a Bernardino Machado, tendo sido incumbido, em especial, de defender em tribunal os elementos da Carbonária; não por acaso, a casa onde, na ocasião, viveu com o seu (também) amigo de sempre, Manuel Bravo, foi-lhe acertada por Albertino da Costa Feio, seu futuro sogro, amigo de A.J.A. e maçon da Loja “Comércio e Indústria” (a casa ficava na rua dos Correeiros, 205, antigo templo maçónico); depois, a 6 de Outubro de 1910, torna-se chefe de gabinete de A.J.A, ministro do Interior do governo provisório, continuando a ser sucessivamente, ao longo das várias governações republicanas, seu secretário pessoal, ao mesmo tempo que chefiou a Repartição da Direcção geral de Instrução Primária e, também, secretário Geral do Ministério; foi A.J.A. que, por volta de Maio de 1915, lhe “preparou” a nomeação para o cargo de Chefe dos Serviços de Curadoria Geral dos Serviçais, acumulando com Juiz da 2ª Vara, em S. Tomé e Príncipe; refira-se, ainda, que António José de Almeida foi padrinho no seu casamento com Judite Costa Feio, realizado a 19 Julho de 1911 – refª J.B., ibidem]

J.M.M.

domingo, 4 de agosto de 2013

O PADRE, A MULHER E O CONVENTO

 

O Padre, a Mulher e o Confessionário”, pelo ex-padre CHINIQUY [pref. de Carlos Babo]; Editado pela Livraria Triunfo, Editora, Rua Nova da Trindade, 38, Lisboa; 1935, 201 p.

… Segundo conta Plutarco – tendo sido Lysandro intimado por um padre a confessar-se, perguntou-lhe_

- É a Deus ou ao homem que eu me devo confessar?

- A Deus – respondeu o hierofante.

- Então retira-te, homem! – exclamou o general lacedemonio” [in pref. de Carlos Babo]

 
O Convento Desmascarado. Escândalos da Vida Conventual”, por EDITH 0’GORMAN [pref. de Cristina Torres]; Editado pela Livraria Triunfo, Editora, Rua Nova da Trindade, 38, Lisboa; s/d, 303 p.
 
J.M.M.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

EPÍSTOLAS AOS PADRES – CARLOS BABO


CARLOS BABO, “Epístolas aos Padres. 1ª Serie. Celibato Eclesiástico” [ao todo são vinte e seis curiosas epístolas]; Editado pela Livraria Triunfo, Editora, Rua Nova da Trindade, 38, Lisboa; Impressão: Sociedade Nacional de Tipografia, R. do Século, 50, Lisboa; 1932, 164 p.

“Todo o homem está sujeito às potestades ou forças da Natureza, pois destas não há nenhuma ‘que não venha de Deus’ – conforme deveis saber pelas palavras de Paulo aos romanos. ‘E as que há, foram por Deus ordenadas' – disse o mesmo apostolo.

Ora, se elas têm mais força e poder do que todos os ‘príncipes’, como haveis vós – ó padres – de lhes opor juramento – pois que as potestades ou forças da natureza exigem por determinação insuperável da própria vida, que é, afinal, efeito dessas mesmas forças ou potestades?!

E visto que Deus é a vontade geradora de toda a potestade, o apóstolo acrescenta (Epist. aos Romanos, C. XIII, V. 2): ‘aquele que resiste à potestade, resiste à ordenação de Deus. E os que lhe resistem, a si mesmo trazem a condenação’.

A Igreja de Roma – obrigando-vos ao voto de castidade – exige de vós, por isso mesmo, a promessa, por juramento, de que haveis de resistir às forças da natureza – às potestades superiores da criação, às potências que foram ordenadas por Deus, para a vida do homem sobre a terra, para a vida da própria Vida – pois nessas potestades, forças ou potências da Natureza do vosso corpo, da substancia da vossa carne, do calor do vosso sangue – está o renascimento constante da Vida!

Essas potestades que vos fazem estremecer tão misteriosamente a carne, são da mesma natureza daquelas que vivificam …. o grão de trigo, de que há de nascer a planta geradora de novos grãos!...

A Natureza ‘cumpra todos os vossos desejos’. E Gloria à Natureza ‘por todos os séculos e séculos’. Eu vos saúdo”.

[Carlos Babo, ibidem, p. 7.]
 
J.M.M. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

CARLOS BABO (Parte II)


Em 1906, Carlos Babo fez uma breve passagem por Luanda (Angola), mas a sua passagem por aquela colónia portuguesa foi de curta duração. A política em Lisboa atraía-o. Além do mais, entretanto João Franco chega ao poder e a ditadura que se instalou iria levar o advogado de Amarante ao contato com as principais figuras do Partido Republicano.

Em 10 de Dezembro de 1909, participa num comício de propaganda republicana realizado no Barreiro. De acordo com uma notícia publicada no jornal O Século, estava a preparar-se a realização de um comício de propaganda republicana no Barreiro. A iniciativa estava a cargo do Grémio da Mocidade Liberal, do Centro Dr. Estevão de Vasconcelos e da comissão municipal republicana do Barreiro. Esperava-se que estivessem presentes diversas figuras ilustres do Partido Republicano, entre as quais, António José de Almeida, Bernardino Machado, Carlos Babo, Feio Terenas, Agostinho Fortes, Alberto Marques, Gastão Rodrigues e Inocêncio Camacho [O Século, Lisboa, nº 10 054, 10 de Dezembro de 1909, p. 2.]

Em Janeiro/Fevereiro de 1910, Carlos Babo é chamado a defender Eduardo de Carvalho, que tinha publicado um artigo no Archivo Democrático onde criticava abertamente a casa de Bragança [“Sabedoria Judicial”, Alma Nacional, Lisboa, 24-02-1910, nº 3, p. 12], no âmbito das suas obrigações como advogado ao serviço do Diretório do Partido Republicano. Desempenhava também já por essa época as funções de secretário de redação da revista Alma Nacional, dirigida por António José de Almeida.

Durante o julgamento acima referido, realizado em 2 de Março de 1910, Carlos Babo faz uma resenha histórica sobre a governação monárquica, mas causou um incidente no tribunal quando começou a tentar dissecar o que se passou durante o reinado de D. Carlos. Descontentes com a situação, e solidários entre si, os três juízes e o delegado abandonaram a sala do julgamento, deixando a assistência perplexa [“Originalidades Judiciais”, Alma Nacional, Lisboa, 10-03-1910, nº 5, p. 75-76].

Já em 1910, envolve-se ativamente nos trabalhos conspirativos que conduziram à implantação da República. Chegou a ser pedida uma sindicância aos atos do Dr. Miguel Bombarda, um procedimento contra o Dr. António José de Almeida, Carlos Babo e comissário naval reformado Artur Marinha de Campos, devido a serem personalidades que publicamente atacavam o regime monárquico [Armando Ribeiro, A Revolução Portuguesa, vol. II, João Romano Torres Editores, Lisboa, 1915, p. 96].

A 3 de Setembro de 1910, estando no Rossio, à noite, a ouvir um concerto da banda dos marinheiros, foi detido juntamente com o então estudante de Medicina, Manuel Vaz Bravo.
As suspeitas contra Carlos Babo não foram confirmadas e ele acaba por ser libertado, mas Manuel Vaz Bravo, fica detido com a suspeita de que estaria a transmitir palavras de passe a revolucionários [Armando Ribeiro, A Revolução Portuguesa, vol. II, João Romano Torres Editores, Lisboa, 1915, p. 698]. Na sequência dessa detenção, e pensando que o advogado continuava detido Cândido dos Reis, procura fazer o levantamento contra a monarquia, já que a prisão de Carlos Babo representava uma provocação ao Diretório.

[Em continuação]

A.A.B.M.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

CARLOS BABO (Parte I)



Carlos Babo nasceu a 4 de Setembro de 1882, no lugar da Corredoura, freguesia de S. Tiago de Figueiró, concelho de Amarante, filho de Eduardo Pinto dos Santos Teixeira e Isabel Cândida Teixeira de Babo.

Em 1898 ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, tendo concluído o curso em 1904. Em 1903 aderiu ao Partido Republicano.
Após a conclusão do curso, tentou advogar em Amarante, montando um escritório juntamente com o seu amigo Teixeira de Pascoaes. Torna-se um dos membros da Comissão Municipal Republicana de Amarante, a par do Dr. António Cerqueira Coimbra, Alfredo Osório, José Pereira da Silva, Dr. Lago Cerqueira, Dr. Romão da Cruz, entre outros.

Inicia colaboração no jornal Voz de Amarante onde se afirmou, proclamou o conjunto de princípios em que se mostrou irredutível. Durante o tempo em que esteve em Amarante escreveu um panfleto intitulado, Os mestres de Direito ou os Assizes da Universidade. Este trabalho foi editado em 1906, pela Livraria Moura Marques, de Coimbra, e é da propriedade, da Companhia Editora Portugal Brasil.

Com o seu empenho e trabalho contribuiu também para fundar a Comissão Municipal Republicana de Felgueiras.

Durante os anos de 1907 e 1908 colaborou assiduamente com o mais importante jornal republicano da época, O Mundo, de Lisboa, dirigido por França Borges, onde assinou alguns dos textos que depois veio a reunir num livro intitulado Amor Perfeito, publicado em 1922, onde se encontram páginas revivalistas, que reportam a intensidade com que este advogado, escritor e jornalista as viveu.

Por decisão de António José de Almeida e de Bernardino Machado, em 1908 é nomeado advogado do Partido Republicano. No âmbito das suas funções e até à implantação da República, percorre o país defendendo aqueles que se consideravam, perseguidos políticos. Carlos Babo defendeu, quase sempre com brilho a maior parte dos republicanos que os governos monárquicos acusavam de pertencerem às associações secretas (leia-se principalmente Maçonaria e Carbonária). Renuncia então à advocacia particular, por não conseguir atender a todas as solicitações, definindo como prioridade os serviços que a sua situação no Directório lhe impunha.

Data desse tempo a publicação de um folheto a que se deu o título de Um conselho à Rainha de Portugal.

Por diversas vezes se desempenhou de missões secretas de confiança política.

No ano de 1909, integrou a comissão que preparou a Lei Orgânica do P. R. P. reunido em Setúbal.

[Em continuação]

A.A.B.M.