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domingo, 27 de maio de 2007

CONFERÊNCIAS DEMOCRÁTICAS DO CASINO


O Programa das Conferências Democráticas do Casino

"Conferências - Em seguida, publicamos o programa das conferências que já anunciámos, e que devem ser feitas no Casino Lisbonense. Começam na próxima segunda-feira, sendo orador o sr. Antero de Quental que fala sobre o espírito das conferências:

Conferências Democráticas estabelecidas na sala do Casino, Largo da Abegoaria

Ninguém desconhece que se está dando em volta de nós uma transformação política, e todos pressentem que se agita, mais forte que nunca, a questão de saber como deve regenerar-se a organização social.

Sob cada um dos partidos que lutam na Europa, como em cada um dos grupos que constituem a sociedade de hoje há uma ideia e um interesse, que são a causa e o porquê dos movimentos.

Pareceu que cumpria, enquanto os povos lutam nas revoluções, e antes que nós mesmos tomemos nelas o nosso lugar, estudar serenamente a significação dessas ideias e a legitimidade desses interesses; investigar como a sociedade é, e como ela deve ser; como as nações têm sido, e como as pode fazer a liberdade; e, por serem elas as formadoras do homem, estudar todas as ideias e todas as correntes do século.

Não pode viver e desenvolver-se um povo, isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo; o que todos os dias a humanidade vai trabalhando, deve também ser o assunto das nossas constantes meditações.

Abrir uma tribuna, aonde tenham voz as ideias e os trabalhos que caracterizam este momentos do século, preocupando-nos sobretudo com a transformação social, moral e política dos povos;

Ligar Portugal com o movimento moderno, fazendo assim nutrir-se de elementos vitais de que vive a humanidade civilizada;

Procurar adquirir a consciência dos factos que nos rodeiam, na Europa;

Agitar na opinião pública as grandes questões da filosofia e da ciência moderna;

Estudar as condições da transformação política económica e religiosa da sociedade portuguesa;

Tal é o fim das conferências democráticas.

Têm ainda elas uma imensa vantagem, que nos cumpre especialmente notar: preocupar a opinião das ideias, que devem presidir a uma revolução, de modo que para ela a consciência pública se prepare e ilumine, é dar não só uma segura base à constituição futura, mas também, em todas as ocasiões, uma sólida garantia à ordem.

Posto isto, pedimos o concurso de todos os partidos, de todas as escolas de todas aquelas pessoas, que, ainda quando não partilhem as nossas opiniões, não recusam a sua atenção aos que pretendem ter uma acção -embora mínima - nos destinos do seu país, expondo pública mas serenamente as suas convicções, e o resultado dos seus estudos e trabalhos.

Lisboa, 16 de Maio de 1871. - Adolfo Coelho - Antero de Quental - Augusto Soromenho - Augusto Fuschini - Eça de Queiroz, Germano Vieira Meireles - Guilherme de Azevedo - Jaime Batalha Reis - J.P. Oliveira Martins - Manuel de Arriaga - Salomão Sáragga - Teófilo Braga.

Será segunda feira, 22 do corrente, às 9 da noite, a primeira conferência; seguindo-se as outras todas às segundasfeiras, à mesma hora. Entrada 100 réis.

A Revolução de Setembro, 18-V_1871, p. 2 in João Medina, As Conferências do Casino e o Socialismo em Portugal, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984, p. 70 - 71.

[ Na foto podemos encontrar algumas das personalidades que participaram ou se envolveram com as Conferências do Casino como: Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, António Cândido, Guerra Junqueiro, Eça de Queirós, Luís de Soveral, o conde de Ficalho, Carlos Mayer, Carlos Lobo d'Ávila e o conde de Sabugosa.]

A.A.B.M.

CONFERÊNCIAS DEMOCRÁTICAS DO CASINO LISBONENSE



Por estes dias, há 136 anos, decorriam em Lisboa as famosas Conferências do Casino, onde a intelectualidade portuguesa começava a discutir a democratização e as ideias socialistas que chegavam a Portugal devido à forte influência francesa.

Vejamos então uma carta de Antero de Quental para Teófilo Braga, onde se trata das ideias que estavam em debate na época.

"Temos um programa, mas não uma doutrina; somos associação, mas não igreja: isto é, liga-nos um comum espírito de racionalismo, de humanizaçaõ positiva das questões morais, de independência de vistas, mas de modo nenhum impomos uns aos outros opiniões e ideias, fora do âmbito marcado tão largamente à nossa unidade por esse comumponto de vista. Seremos, em religião, pelo sentimento criador do coração humano, contra os mitos doutrinais das teologias: seremos, em política, pelo governo do povo pelo povo: em sociologia, pela emancipação do trabalho, combatendo as tendências egoístas e esterilizadoras que hoje predominam. Dentro disto, todas as opiniões são perfeitamente livres, assim como todos os assuntos. O nosso fim é produzir uma agitação intelectual na nossa sociedade, lançando em cada semana uma ideia ou duas para o meio desta massa adormecida do público".

Antero de Quental, carta a Teófilo Braga, s.d., in João Medina, As Conferências do Casino e o Socialismo em Portugal, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984, p. 69

[Note-se a actualidade do pensamento de Antero, mesmo no nosso tempo, Portugal continua a debater-se com problemas semelhantes aos que existiam no último terço do século XIX.]

A.A.B.M.