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sexta-feira, 4 de maio de 2007

CARTA DE D. ANTÓNIO FERREIRA GOMES A SALAZAR


Carta de D. António Ferreira Gomes a Oliveira Salazar (Julho 1958)

(...) Quero, sobretudo e antes de tudo, acentuar que aquilo que se opõe à minha consciência é um problema directamente da Igreja. A grande e trágica realidade, que já se conhecia mas que a campanha eleitoral revelou de forma irrefragável e escandalosa, é que a Igreja em Portugal está perdendo a confiança dos seus melhores. Não direi se este processo está em princípio, no meio ou perto do fim; o que é evidente é que tal processo está em curso, por mim penso que muito e muito adiantado. Apresentarei apenas dois factos, que, podendo servir de símbolos, são já de si realidades enormes. No Minho, coração católico de Portugal, onde se pensava que bastaria sempre o abade dar o alarme e todos cantavam imediatamente no coro, no Minha católico, mal os padres começaram a falar de eleições, os homens, sem se importarem com o sentido que seria dado ao ensino, retiraram-se afrontosamente da igreja. Nas juventudes da Acção Católica, onde tanto se quis dizer que os padres andaram a lançar inquietações e dúvidas, os dirigentes mais responsáveis saltam fora dos quadros e da disciplina, para manifestarem a sua inconformidade e desespero, fugindo ao conhecimento dos assistentes (que, apesar de tudo, lhes aconselhariam paciência). São os dois pólos, o da tradição e o da recristianização: do que fica no meio facilmente se poderá julgar (...)

Posso errar, mas creio bem estar com a doutrina da Igreja (aqui não se trata de mera política, mas de filosofia política e de sociologia) ao discordar de doutrinas que, sendo de V. Ex.ª, são da Situação. Permita-me V. Ex.ª que, por me parecer da maior utilidade, eu alinhe aqui algumas dessas oposições, o que farei, por brevidade, sem qualquer demonstração e com um mínimo de aclarações.

Aponta V. Ex.ª, entre as reivindicações de certa campanha, «a reclamação de ser reconhecido o direito de greve» e conclui terminantemente: «Aqui nos separamos». Depois confirmaria V. Ex.ª que «a greve é entre nós um crime».
Tenho realmente pena, porque eles estão com a doutrina da Igreja, e num ponto que, tendo já deixado de ter interesse de maior em vários países, na conjuntura político-económico-social do nosso é, infelizmente, da maior relevância.

- «Nós não aceitamos a ideia da incompatibilidade de interesses entre o patronato e o operariado, mas da sua solidariedade permanente».
Porém, se a oposição de interesses é, na base, a própria evidência, e se a solidariedade só se pode pedir no vértice, quer da empresa quer da profissão, quer da economia geral, mas com a condição das duas partes em presença terem iguais direitos e formas equivalentes de os realizarem!... (...)

Completa V. Ex.ª: «Se uma incompatibilidade de momento põe as forças em risco de chocar-se, é necessário que o defensor do interesse colectivo arbitre a contenda de acordo com a justiça e o bem comum.»
Podia justificar a minha discordância aduzindo o princípio da complementaridade ou função supletiva do Estado, válido em tantas outras e ainda mais, nestas matérias económico-sociais; podia lembrar aquele outro princípio gravíssimo de filosofia social, de que «se cometeria uma injustiça, ao mesmo tempo que se perturbaria seriamente a ordem social, se fossem retiradas aos agrupamentos ordem inferior as funções que esses agrupamentos estariam em condições de exercer eles próprios» (Pio XI). Basta, porém considerar - em aplicação, aliás, desses princípios - a impossibilidade ou inoperância de tal arbitragem. (…)

Todos estamos de acordo em que há dois problemas fundamentais, sem cuja solução não poderá haver paz social, sejam quais forem as aparências. O primeiro é que os frutos do trabalho comum devem ser divididos com equidade e justiça social entre os membros da comunidade, quer no ponto de vista dos indivíduos quer no dos sectores sociais (e aqui podemos pensar especialmente na lavoura e na miséria do trabalhador do campo). O segundo é que, seja qual for o conforto ou riqueza que se atribuam a um indivíduo ou a uma classe, nunca eles estarão satisfeitos enquanto não experimentarem que são os colaboradores efectivos, que têm a sua justa quota-parte na condução da vida colectiva, isto é, que são sujeito e não objecto da vida económica, social e política (...)

Problema da Igreja é igualmente o corporativismo. A Igreja «comprometeu-se», não com o Estado corporativo, mas com a ordem corporativa da sociedade. E bem sabemos, entre nós, como do respectivo Ministério se quer «comprometer» a Igreja na sua doutrinação e acção (...) Temos de ser francos, talvez brutais; o corporativismo português, como outros já passados, foi realmente um meio de espoliar os operários do direito natural de associação, de que o liberalismo, em 91, os privara, e que tinham reconquistado penosa e sangrentamente. E a isto se chama corporativismo; e com isto se quer comprometer, e na verdade se comprometeu, inútil mas terrivelmente, a Santa Igreja. Isto é pois um problema de Igreja... (...)

[D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto, in Carta ao Exmo. Senhor Presidente do Concelho, Dr. Oliveira Salazar, Julho de 1958]

J.M.M.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

D. ANTÓNIO FERREIRA GOMES - BISPO DO PORTO [1906-1989]


D. António Ferreira Gomes - Bispo do Porto [1906-1989]

Nasce a 10 de Maio de 1906 no concelho de Penafiel. Faz o curso de preparatórios do Seminário do Porto (1916), conclui o Curso Teológico (1925) e tira o doutoramento em Filosofia, na Universidade Gregoriana (Roma). É ordenado presbítero a 22 de Setembro de 1928, sendo depois professor, vice-reitor e reitor, sucessivamente, no Seminário de Vilar, no Porto.

Em 1936 é cónego capitular da Sé do Porto, tendo participado na Liga Católica Masculina e na Liga Universitária Católica. É eleito Bispo titular de Rando, coadjutor do Bispo de Portalegre (que era D. Domingos Maria Frutuoso), a quem sucede (1949). É transferido, depois, para a Sé do Porto (1952).

Como Bispo do Porto interessa-se com questões de natureza social e promove a defesa do património artístico da Diocese. A 13 de Julho de 1958, em plena campanha presidencial de Humberto Delgado, dirige uma carta a Oliveira Salazar com uma análise lúcida e corajosa da situação político-social e religiosa do País. Do mesmo modo, critica o silêncio [cúmplice] dos seus colegas. Tal opinião valeu-lhe o exílio (1959), em Espanha, R.F.A. e França. É nomeado, nesse período, pelo Papa João XXIII, membro da Comissão Pontifícia de Estudos Ecuménicos para a preparação do Concílio Vaticano II (1962-65).

Em 1968 escreve uma carta ["violenta"] ao Cardeal Cerejeira, expressando as suas diferenças com Cerejeira e o regime político. Regressa a Portugal (1969) na primavera marcelista, retomando o lugar que tinha na Diocese do Porto. Funda o semanário Voz Portucalense. Resigna em 1981 e cessa funções a 2 de Maio de 1982, retirando-se para Ermesinde, onde morre a 13 de Abril de 1989.

Foi Dom António Ferreira Gomes galardoado com a Cruz da Ordem de Liberdade (1976) e a Ordem Militar de Cristo (1983). Cria em 1977 a Fundação Spes, com fins educativos e culturais. Teve, ao longo do seu episcopado e da sua vida, como lema: "De joelhos diante de Deus, de pé diante dos homens".

Colaborou no Comércio do Porto, a Voz do Pastor e Novidades. Publicou uma curiosa peça de teatro, "Herói e Santo", sob o pseudónimo de G. Penafiel.

Obras a consultar: Cartas do Senhor Bispo do Porto, D. António, ao Presidente do Concelho, Porto, 1958 / "Devemos defender os direitos dos pequenos...", de D. António Ferreira Gomes [folha volante do artigo publicado no jornal A Voz do Pastor], Ed. da Comissão de Candidatura de Humberto Delgado, 1958 / Sessão de Homenagem a D. António Ferreira Gomes. Discursos proferidos por Francisco Carvalho Guerra et al., Porto, 1983 / D. António Ferreira Gomes, por Eugénio dos Santos, sep. revista F. Letras, 1984 / Uma cristologia para a identidade cristã na modernidade: o pensamento cristológico de D. António Ferreira Gomes, por Arnaldo Cardoso de Pinho, Salamanca, 1989 / D. António Ferreira Gomes. Antologia do seu pensamento, Fund. Eugénio de Almeida, 1990 / Dom António Ferreira Gomes: cerimónias evocativas da sua memória - org. Fundação Eugénio de Almeida/Fundação Spes, 1993 / D. António Ferreira Gomes, um Bispo de carácter, por Alberto de Azevedo, Braga, 1999 / Profecia e liberdade em D. António Ferreira Gomes [Actas], Lisboa, 2000 / O Bispo controverso: D. António Ferreira Gomes - percurso de um homem livre, por Pacheco de Andrade, Multinova, 2002 / O Essencial sobre D. António Ferreira Gomes, de Arnaldo de Pinho, INCM, 2004 / A igreja e o Estado Novo na obra de D. António Ferreira Gomes, por Manuel de Pinho Ferreira, Univ. Católica, 2004 / D. António Ferreira Gomes, antigo Bispo do Porto, paladino dos direitos humanos, por Maria Manuela Machado Pires Migueis [tese de Mestrado], Vila Real, 2004 / Dom António Ferreira Gomes (1906-1989). Fotobiografia e Testemunhos, ASA, 2006

J.M.M.