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domingo, 25 de fevereiro de 2018

ACADEMIAS E INSTITUIÇÕES DE CULTURA



Academia e Instituições de Cultura” – por Diogo Ramada Curto, in Caderno E, Expresso, 17 de Fevereiro de 2018
Onde se defende que se no projeto de levar a cabo um estudo sobre academias o objetivo é propor a renovação de uma espécie de conformismo institucional, o melhor seria sugerir que o público não soubesse nada do que se passa dentro de tais instituições

"Instituições de cultura há que não têm merecido a devida atenção por parte da opinião pública. Faltam estudos ou simples notícias que as deem a conhecer. Será, por ora, escusado saber a quem assacar responsabilidades para explicar a falta de estudos sobre as mesmas: se às instituições que não informam, por viverem em vaso fechado, ou se a uma opinião pública que vive dissociada da vida de certas instituições.
Três situações aparentemente díspares, em termos de conhecimento por parte de um público mais alargado, podem ser utilizadas como laboratórios de estudo: um livro destinado a repensar a universidade em Portugal; os estatutos de uma academia criada em 1965, mas que sobreviveu até aos nossos dias; e um ‘pequeno’  instituto de investigação de uma universidade privada, fundado em 1997. Nos três casos, detetam-se disfuncionalidades e demonstrações de elitismo simbólico, que nada têm que ver com a investigação, o ensino e a transmissão do conhecimento e da cultura. Estudá-los e comunicá-los a uma esfera de opinião mais alargada constitui, só por si, um modo de ultrapassar os problemas encontrados.
A Universidade como deve ser
O recente livro de António Feijó e Miguel Tamen, intitulado “A Universidade Como Deve Ser” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2017), é um excelente contributo para conhecermos o que se passa dentro da universidade. Nele, será possível distinguir um estudo da universidade tal como funciona e o programa de um curso, interdisciplinar, de Estudos Gerais. O livro comporta tanto aspetos corajosos como outros que se afiguram discutíveis.
A sua coragem está em pôr o dedo na ferida, considerando que o ensino universitário não tem de andar subordinado a objetivos práticos ou a meros interesses de mercado. O ensino universitário, feito no contacto com a investigação, tem de se pautar por outros critérios e manter, sempre, um elevado nível de independência em relação a outros poderes. As universidades devem igualmente ser pensadas como unidades, situadas acima deste ou daquele curso (embora este propósito dos autores entre, depois, em contradição com o centramento num único curso). Corajosa é também a crítica dos autores em relação à burocratização da investigação e dos seus centros, bem como à generalização dos projetos coletivos com dotações gigantescas, os quais poucos resultados alcançam, sobretudo na áreas de humanidades e ciências sociais.
Muito discutíveis são os sinais de uma espécie de elitismo anglo-americano, num momento em que abundam as tendências dentro da universidade de desprezo pelas práticas democráticas. De igual modo, é chocante que a proposta de introdução de um modelo inspirado nos “liberal arts colleges” surja numa espécie de deserto criado pelos próprios autores. Isto é, em nenhum momento do livro se encontram referências às inúmeras discussões sobre a universidade que, pelo menos desde  Miller Guerra, têm sido recorrentes em Portugal. Ao circunscreverem-se a um único curso, Feijó e Tamen assemelham-se a náufragos numa ilha deserta, que, tal como Robinson Crusoe, só conseguem salvar do navio encalhado alguns livros (não em português, como no livro de Daniel Defoe, língua que o protagonista não sabia decifrar, mas em inglês, o idioma em que mergulham as raízes mais profundas do livro em causa). Facto que denota uma incapacidade para pensar de modo mais realista — e menos como uma robinsonada — a universidade como um todo.
 
 
A expansão da cultura portuguesa
De um teor completamente diferente são as notas esparsas que recolhi acerca da Academia Internacional de Cultura Portuguesa. Elas constituem um minúsculo contributo para colmatar a lacuna dos estudos sobre instituições de cultura. Pelo menos podem servir como chamada de atenção para a necessidade de querer saber mais acerca do que se passa na vida de tal instituição. A começar pelo seu financiamento, que não sabemos se será ou não de natureza pública. Os seus estatutos, aprovados por decreto de 1965, mantêm-se em vigor. O primeiro aspeto que neles importa sublinhar diz respeito ao principal objetivo da mesma instituição: difundir a cultura portuguesa no mundo. A consulta do “Boletim da Academia Internacional de Cultura Portuguesa”, cuja publicação começou em 1966, revela bem qual a conceção de cultura que ali se defende: do luso-tropicalismo, em tempos coloniais, à sua continuidade, sob a forma de lusofonia, adaptada aos tempos democráticos. Vinho novo em odres velhos...
O segundo aspeto prende-se com as áreas pelas quais se distribui esse mesmo labor difusionista. De um modo que, hoje, interpretaríamos como sendo da ordem da interdisciplinaridade, estabeleceram-se três secções: das artes e letras, das ciências e da missionologia. Aliás, esta última formulação, sobre a qual tanta tinta correu na década de 1960, entendida em estreita relação com a mensagem católica, compreende-se bem à luz da política colonial portuguesa da época.
Do Tarrafal à Academia Internacional
O terceiro aspeto a não perder de vista diz respeito aos fundadores da Academia e como são postos limites ao número dos sócios académicos ou correspondentes. Inegável será, em todo este processo, o papel dinâmico desempenhado por Adriano Moreira, seu fundador e presidente, ao lado do padre Silva Rego, de Jorge Dias e de Virgínia Rau. Estes últimos professores universitários com capacidade para controlar as suas áreas disciplinares, da antropologia à história. A simples evocação de outros nomes da confiança do regime de Salazar, entre os quais se contavam Azeredo Perdigão e Franco Nogueira, faz-nos lembrar que não existe apenas uma lista de nomes que formam o que, hoje, os cientistas sociais designam como uma rede de relações. Há, também, uma rede de outras instituições a ter em conta.
Por exemplo, Adriano Moreira, licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, iniciou a sua carreira na antiga Escola Colonial, onde começou por realizar estudos sobre o sistema prisional nas antigas colónias. Seguiu o processo de transformação daquela Escola impulsionado por Mendes Correia e, em 1961, favoreceu a sua integração na Universidade Técnica, o que lhe valeu a equivalência a professor catedrático, mesmo sem possuir um doutoramento (com o “Diário de Notícias” de Augusto de Castro a atribuir-lhe o título de professor doutor a partir de 14 de abril). Desempenhou papel de relevo na Junta de Investigações do Ultramar e envolveu-se, igualmente, nas atividades da Sociedade de Geografia de Lisboa (onde a mesma Academia Internacional veio a ficar sediada). Enquanto subsecretário de Estado e depois ministro do Ultramar, na altura do início da Guerra em Angola, manteve ligações de estreita colaboração com muitas outras instituições, incluindo o Gabinete de Negócios Políticos do Ministério do Ultramar e o por ele criado “campo de trabalho” de Chão Bom, vulgo, Tarrafal.
 
 

Conforme procurei demonstrar noutro local, Adriano Moreira esteve, por volta de 1961, bem no centro do processo de tomada de decisões das políticas coloniais de Salazar. A legislação laboral promulgada durante a sua passagem pelo Ministério do Ultramar constituiu, sobretudo, “uma carapaça legal com que Portugal pudesse defender-se” internacionalmente (José Capela, “O imposto de palhota...”, Afrontamento, 1977, p. 259). E, por mais que ele próprio tivesse tentado construir a sua própria versão dessa passagem pelo Governo de Salazar, em sucessivas memórias, aconselhou, na altura, a adoção de medidas violentas de aterrorização das populações do Norte de Angola (“Políticas Coloniais em Tempo de Revoltas — Angola circa 1961”, Afrontamento, 2016). Ora a Academia Internacional de Cultura Portuguesa foi criada no interior dessa malha. Nela, sobrepuseram-se uma carreira individual, uma série de instituições e de legislação orientadas para a execução de políticas coloniais e, ainda, um quadro de justificação de fortíssima carga ideológica suscitado pela guerra colonial em Angola, e depois na Guiné e em Moçambique (que de nenhum modo pode ser reduzido a noções de integração ou assimilação luso-tropical).
Questões de indumentária
Há um quarto aspeto que inclui várias minudências acerca do vestuário, difíceis de traduzir por outras palavras. Vale, por isso, a pena citar diretamente da fonte que seguimos, no ponto relativo às vestes académicas, mesmo que infelizmente se tenha perdido o rasto ao desenho: “A farda académica constará de casaca de gola alta, fechada por uma ordem de botões, e de calça, aquela e esta, de pano verde. A casaca terá, bordado a ouro, no peito, gola e portinholas, canhões e remates, assim como na cintura, por cima do começo das abas, um rebordo, que no peito será acompanhado de uma simples fieira de ramos de oliveira folhados e frutados, segundo os desenhos anexos. A calça terá galão estreito, dourado, nas costuras laterais. O chapéu armado, de pasta, será orlado superiormente de plumas pretas e com presilhas das cores académicas verde e encarnado. O espadim, de copos e guarnições douradas, suspende-se de pala de pano verde, com ramos de oliveira, bordados a ouro. Os botões serão ornados com as armas nacionais. A capa será de pano preto com gola voltada”.
Para comparar padrões de dress code, sigo as diferentes maneiras de trajar no quotidiano ou em dias de festa, dentro e fora das instalações ou, no interior destas, em salas diversas ou entre membros e visitantes da instituição em causa. De notar, também, que se trata de um resquício para cobrir com sinais de nobreza, inventando tradições e exibindo um elitismo de pacotilha, certas instituições de criação recente. É aqui que vem a propósito referir as normas que regem o Instituto de Estudos Políticos (IEP) da Universidade Católica, criado em 1997, mais de três décadas depois da citada Academia Internacional, mas inspirado na putativa Escola de Sagres, que nos traz à memória o chapéu de aba larga do Infante D. Henrique:
Todos os colaboradores permanentes do IEP adotam um código de vestuário com a decência e formalidade adequadas às responsabilidades que detêm, o que inclui, para os homens, casaco e gravata, e, para as senhoras, decência correspondente. Na sala Sir Winston Churchill e nos gabinetes de trabalho é esperado que os homens possam tirar o casaco, mas não a gravata. Na sala D. Henrique é esperado o uso de casaco e gravata. Em todo o espaço do IEP, não é autorizado o uso de shorts, T-shirts ou chinelos, sapatos de ténis ou blue-jeans. Estas regras aplicam-se apenas aos colaboradores permanentes do IEP e não aos alunos ou a visitantes, cuja eventual vulgaridade não deve, em princípio, merecer reparo. Em contrapartida, trajes nacionais, regionais, locais ou específicos de instituições, por mais excêntricos, serão sempre respeitados e bem-vindos. Todos os docentes do IEP, incluindo docentes convidados, são enfaticamente encorajados a usar casaco e gravata nas suas aulas e tutorias, podendo tirar o casaco, mas não a gravata”...
Conformismo institucional ou Gentlemanship
O estudo monográfico de instituições como a Academia Internacional de Cultura Portuguesa terá ainda de compreender um quinto e último aspeto. Trata-se de tentar compreender como é que instituições criadas durante o Estado Novo, mais a mais num contexto aberto de guerra colonial, promoveram formas de conformismo de sentido institucional. Senão, vejamos como é que os estatutos impõem formas de controlo e de censura: é “proibido aos académicos contrariar os fins do instituto; imprimir trabalhos fora das publicações académicas com indicação de provirem da Academia; e criticar trabalhos feitos por encargo da mesma ou a ela apresentados por outros académicos, a não ser nas suas sessões ordinárias”.
Que esse conformismo institucional se intensificou na década de 1960, para dar sentido à atuação das elites cooptadas pelo regime de Salazar, num quadro internacional de forte pressão sobre a política colonial portuguesa, parece um dado evidente. O que já não me parece ser possível de aceitar é que as mesmas regras possam subsistir em democracia. Mesmo aceitando que, na vida das instituições, existem arcaísmos, o seu ridículo cresce na medida em que se descobre que eles são invenção recente e, em geral, determinados por quem não tem terra, família, nem vontade para viver numa sociedade democrática. Aliás, os que procuram transformar essas mesmas instituições culturais em veículos da sua promoção são quase sempre os mesmos que têm vergonha de reconhecer o mérito individual. É o que sucede com o curioso ponto sobre “Gentlemanship”, de uma fedúncia insuportável, digna de um qualquer parvenu, e que suscita uma gargalhada digna de uma personagem de Gil Vicente:
Nenhuma regra pode substituir o sentido de responsabilidade pessoal, o common  sense e o sentido de humor de cada pessoa. As regras acima expostas deverão ser aplicadas sem rigidez prussiana e sem laxismo mediterrânico. Portugal é um país atlântico (e não mediterrânico), fundador da mais velha aliança do mundo, bem como do mais velho tratado de comércio livre, e pioneiro dos Descobrimentos. No nosso pequeno IEP da UCP, apreciamos tentar cumprir o dever de honrar as nossas nobres tradições” (Instituto de Estudos Políticos, nº 24).
Enfim, no projeto de levar a cabo um estudo sobre academias, ‘pequenas’  instituições de cultura e universidades, se o nosso principal objetivo fosse propor a renovação de uma espécie de conformismo institucional, o melhor seria sugerir que o público não soubesse mesmo nada do que se passa dentro de tais instituições. Às urtigas, pois, com a mania da informação e com a famigerada opinião pública! O secretismo impõe-se como uma urgência... É que permanecer na ignorância ou dar ao desprezo qualquer tipo de estudo sobre o funcionamento de tais instituições talvez seja, em suma, a única maneira de uma opinião pública escapar a tamanhas aberrações.
 
Academias e Instituições de Cultura – por Diogo Ramada Curto, [Historiador e professor da Universidade Nova], revista E, Expresso, 17 de Fevereiro de 2018, pp. 66/67 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

POLÉMICAS À PORTUGUESA - JORGE BORGES DE MACEDO


Polémicas à portuguesa” – por Diogo Ramada Curto, in Caderno E, Expresso

Jorge Borges de Macedo é o pioneiro da história tradicionalista de Portugal. Aquela que vê a pátria como excecional e encara o liberalismo e a República como desvios ou anormalidades

“O historiador Jorge Borges de Macedo (1921-1996) foi pioneiro no estabelecimento da atual agenda de uma historiografia tradicionalista. Autor de uma extensa obra, começou por afirmar os seus créditos através de um conjunto de trabalhos sobre o marquês de Pombal, a economia portuguesa do século XVIII e as relações de dependência de Portugal em relação à Inglaterra durante as Invasões Francesas. Entretanto, mudou de orientação ideológica. A proximidade ao marxismo de início da sua carreira deu lugar — depois de entrar na Faculdade de Letras — a uma série de perspetivas tradicionalistas, centradas numa história política e cultural. Porém, foi só depois do seu saneamento político da Faculdade de Letras de Lisboa, após o 25 de Abril, que passou a assumir o papel de principal guardião de uma história pátria, excecional e tradicionalista. É urgente reunir em volume os seus estudos sobre os séculos XIX e XX, que andam dispersos, para perceber melhor o modo como marcaram a escrita da história contemporânea.
Para já, será possível adiantar que, pelo menos num ponto, a sua influência perdurou até aos nossos dias: o liberalismo e a República foram um desvio, uma anormalidade em relação ao destino de uma pátria excecional, com oito séculos de existência. Vale a pena perceber como este aspeto acabado de referir se conjuga com uma interpretação muito própria daquilo que Borges de Macedo considerava ser uma característica marcante da cultura portuguesa: as polémicas entre intelectuais, em que os séculos XIX e XX foram férteis. Porém, constatar a centralidade das polémicas é uma observação relativamente consensual. O que é questionável são as razões aduzidas por Borges de Macedo para explicar por que motivo essas mesmas polémicas foram um elemento central da cultura portuguesa.
Primeiro, as polémicas do século XIX não deviam ser só relacionadas com as suas herdeiras do século XX. Enquanto “um dos temas básicos da cultura portuguesa”, elas encontravam a sua principal razão de ser numa linha de continuidade que remontava, pelo menos, à guerra da independência nacional (1640-1668). Foi no âmbito desta argumentação que sustentou: “As transformações políticas do liberalismo interromperam a perceção do processo essencial da sua continuidade” (“Revista de História das Ideias”, vol. 5, 1983, pp. 471-531, máxime pp. 472-473).
Em segundo lugar, sempre na opinião de Borges de Macedo, a propaganda republicana, que começou a surgir com o máximo de intensidade a partir de 1890, apenas discutiu o governo, sem querer discutir o país. Porém, com a proclamação da República não veio, nem poderia vir a regeneração do país. Pelo contrário, a República ficou-se por uma espécie de politiquice, uma vez que da herança do liberalismo apenas resultou que “muitos aspetos da vida política pareciam agravar-se em instabilidade e choque de renovadas ambições” (idem, p. 474). A ponto de se poder dizer que só quando à República sucedeu o Estado Novo foi possível retomar os referidos temas básicos da cultura portuguesa, incluindo neles a denominada “problemática polémica”.
Recapitulando, para Borges de Macedo existiam elementos que se mantiveram constantes na cultura portuguesa. Um deles era constituído pelos conflitos de opinião, mais especificamente pelas polémicas. As polémicas do século XIX limitaram-se a retomar temas de debates tradicionais, numa linha de continuidade com o que se teria passado anteriormente.

Quanto às ideias republicanas e ao que, através delas, se desencadeou: elas não passaram de propaganda política. Uma imagem que esconde, no fundo, um enorme desprezo pela vida política... Foi preciso esperar pelo Estado Novo para acabar com os desvios trazidos por uma política da instabilidade e retomar um dos temas básicos da cultura portuguesa: o das polémicas.
 
Justificar o autoritarismo
Vale a pena refletir sobre a argumentação de Borges de Macedo — tão inteligente, quanto perversa e inspiradora, até aos nossos dias — nos seus propósitos de justificar diferentes tipos de autoritarismo. Quer este último surgisse associado aos tempos de um absolutismo anterior ao liberalismo, grosso modo anterior a 1820; quer fosse o próprio autoritarismo de Salazar, com o qual em 1926 se pôs termo à I República. Em qualquer dos casos, as polémicas do liberalismo e da República não podiam ser consideradas como um modo de fazer valer ideias progressistas e modernizadoras.

Como interpretar esta agenda conservadora para a história de Portugal? Representará ela, tão-só, um modo de retomar a raiva dos integralistas, nomeadamente de António Sardinha, contra o liberalismo e a República? Como é que a mesma agenda, na versão de Borges de Macedo, estabelecida entre a década de 1960 e a de 1980, acabou por se difundir e se naturalizar, chegando até aos nossos dias? Não terá essa mesma agenda historiográfica conservadora acabado por obter o respeito de muitos historiadores ditos de esquerda, também eles interessados em usar o passado incutindo-lhe valores progressistas, mas considerando que todos os pontos de vista são válidos, uma vez que a história é apenas uma arte que deve ser praticada bem longe das ciências sociais, logo, dos instrumentos de prova que esta última requer?
Polémicas às dúzias
Responder a todas as questões acabadas de enunciar obriga a clarificar o nosso ponto de vista e, sobretudo, implica um estudo do sentido e dos contextos mais pertinentes das grandes polémicas, pelo menos as que ocorreram na segunda metade do século XIX. Trata-se de um trabalho em relação ao qual há que contar com vários contributos, como os que se encontram na compilação clássica organizada por Artur Anselmo e prefaciada por Vitorino Nemésio, com desenho gráfico de Sebastião Rodrigues (“As Grandes Polémicas Portuguesas”, 2 vols., Verbo, 1964-1967); nas “Polémicas de Camilo”, na edição de Alexandre Cabral (Portugália, 1964-1967); no livro de Ana Isabel Buescu, “O Milagre de Ourique e a História de Portugal de Alexandre Herculano” (Instituto Nacional de Investigação Científica, 1987); e, ainda, no importante trabalho de Ana Maria Pina, “A Quimera do Ouro: os Intelectuais Portugueses e o Liberalismo” (Celta, 2003). Esclareça-se, também, que investigações sobre polémicas poderão concentrar-se nalguns nomes ou em momentos de particular intensidade. Por exemplo, está por fazer um inventário das polémicas em que se envolveram Joaquim de Araújo, Adolfo Coelho, Inocêncio Francisco da Silva e tantos outros.


Batalha Reis e as polémicas do seu tempo
Identificar a linguagem violenta e os ataques pessoais de muitas polémicas, em que Camilo Castelo Branco foi useiro e vezeiro, não deverá fazer com que o sentido mais profundo das mesmas possa ser descartado. Conforme desabafou Jaime Batalha Reis, a 12 de setembro de 1873: “Em Portugal, as polémicas, longe de versarem ideias, não passavam de ofensas pessoais” (“Correspondência entre Antero de Quental e Jaime Batalha Reis”, ed. Maria Staak, Assírio e Alvim, 1982, p. 154). As pessoas é que contavam; as ideias eram secundárias. Logo, seria impossível dizer que existissem sequer condições para um debate de ideias em Portugal. Esta característica afigurava-se-lhe uma das maiores debilidades da cultura portuguesa, mas não a única. Mais importante era, sem dúvida, a falta de instrução que afetava os mais diversos estratos sociais. Projetos e estudos, relacionados com a modernização do país, nos quais Batalha Reis se envolveu de modo sistemático durante a sua longa vida, foram o principal modo de contrariar a situação por ele mesmo denunciada. O objetivo consistiu, pois, em abrir caminho para que as ideias — circundadas dos seus inevitáveis debates e sem evitar polémicas — frutificassem.
Mas qual era a experiência que o autor tinha de tais polémicas? Quais as controvérsias, a que assistiu ou em que se envolveu, que o levaram a fazer uma tal generalização e a formular um juízo tão severo — e porventura injusto — acerca da sua superficialidade? Será mesmo verdade que as polémicas incidiam, sobretudo, sobre pessoas — ligadas ou separadas por grupos distintos — e não sobre ideias?
À luz da historiografia existente, há pelo menos duas grandes polémicas a ter em conta. A primeira opôs António Feliciano de Castilho a Antero do Quental e Teófilo Braga, num conflito claro de gerações, que se desenrolou ao longo de 1865 e 1866. Conhecida pela polémica em torno do Bom Senso e Bom Gosto ou Questão Coimbrã. Os seus principais estudiosos foram Alexandre da Conceição, Fran Paxeco, Rui de Abreu Torres, Manuel Antunes, Bernard Martocq, Amadeu de Carvalho Homem e Alberto Ferreira em conjunto com Maria José Marinho. Meritório foi o trabalho desenvolvido pelos últimos, que compilaram, anotaram e estudaram os principais textos que compuseram a referida polémica (4 vol., Portugália, 1966-1970; 2ª ed., Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985-1989).
Do Brasil, José Feliciano de Castilho — irmão de António que, com a sua autoridade, parecia dominar os modos de consagração do meio literário — atirou uma das últimas pedradas, para ridicularizar as “nebulosidades filosóficas” de Teófilo Braga e Antero de Quental, respetivamente, na “Visão dos Tempos” (1864) e nas “Odes Modernas” (1865). Com uma ironia mordaz, declarou que até ficara “convencido e convertido”. O problema estava em que os seus adversários, na ânsia de darem cabo de tudo, só falavam de coisas que não se percebiam, tal “como se cada cidadão se exprimisse em português e tivesse a resposta em malaio” (“A Águia no Ovo e nos Astros”, Rio de Janeiro, Pereira Braga, 1866, pp. 5-6).

A segunda dessas polémicas ocupou o primeiro semestre de 1871. Foi composta pelas célebres Conferências do Casino Lisbonense, que acabaram por suscitar uma série de reações e ser proibidas em julho pelo marquês de Ávila e Bolama. Das conferências que tiveram lugar, as mais conhecidas foram a de Antero de Quental sobre as causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos, a de Eça de Queiroz sobre literatura e a de Adolfo Coelho sobre educação. Ao contrário do que sucedeu com a Questão Coimbrã, de que Jaime Batalha Reis terá ouvido falar, mas na qual não se envolveu diretamente, a sua conferência sobre o socialismo chegou a estar anunciada, mas nunca foi proferida. Entre os principais estudiosos das Conferências e da Geração de 70, figuram António Salgado Júnior, Manuel Mendes, António Quadros, Flausino Torres, José Augusto França, Álvaro Manuel Machado, Fernando Catroga, João Medina e Carlos Reis.
Que não haja dúvidas: há nessas polémicas ofensas pessoais e tricas sobre assuntos que podem ser considerados menores ou mais relacionados com aspetos conotados com a adoção deste ou daquele género literário. Porém, os primeiros a repudiar tais aspetos foram os que se envolveram nessas mesmas lutas. Ao contrário do que argumentou Jorge Borges de Macedo, o mais interessante nessas polémicas do liberalismo oitocentista não pode ser reduzido ao facto de elas estarem em linha com uma qualquer tradição, tomada como uma constante da cultura portuguesa com raízes nos séculos anteriores. O mais relevante dessas polémicas — parece a muitos dos seus estudiosos — consistiu em terem-se constituído em palco de uma luta pela emancipação de ideias, de homens livres, tendo em vista encontrar as vias para criar uma sociedade mais justa. Elas permitiram uma forma de expressão, logo, de luta em nome do progresso, da liberdade e da justiça social.
 
 
Talvez por isso mesmo, Eça de Queiroz deixou na célebre carta a Carlos Mayer, reunida nas “Prosas Bárbaras”, obra póstuma, prefaciada por Batalha Reis, um testemunho das lutas em que a sua geração se envolvera. E, numa recusa do classicismo, dos sentimentos monárquicos correspondentes e das ideias literárias associadas a António de Castilho, sintetizou: “Nós, meu amigo, somos uma geração desiludida por três revoluções, amolecida por uma invenção horrível — a música, tomada de dúvida religiosa, geração que vê esvaecer-se Cristo, a quem tanto tempo amou, e não vê chegar a liberdade, por quem há bastante tempo espera.” E, mais adiante, voltou a sublinhar: “Queremos ver o homem — não o homem dominado pela sociedade, entorpecido pelos costumes, deformado pelas instituições, transformado pela cidade, mas o homem livre, colocado na livre natureza, entre as livres paixões. A arte é simplesmente a representação dos carateres tais quais eles seriam, abandonados à sua vontade inteligente e livre, sem as peias sociais” (Obras, vol. I, Lello, 1958, p. 621).
Polémicas à portuguesa – por Diogo Ramada Curto, revista E, Expresso, 3 de Fevereiro de 2018, pp. 71/72 – com sublinhados nossos.
J.M.M.

domingo, 5 de junho de 2016

UMA HISTÓRIA MAL CONTADA OU A TEORIA DO APAGÃO - PARTE II



Uma história mal contada ou a teoria do apagão” – por Diogo Ramada Curto, in Público
 
"Todos estes pontos de um inventário mais vasto são minudências que não dão conta do argumento principal que nesta biografia se defende. Um argumento, de resto, que não é inédito. Já Fradique dissera, acerca desse personagem cheio de talento que era Pacheco, deputado, ministro da Marinha, presidente do Conselho e conselheiro de Estado, que ele e Portugal se completavam: “sem Portugal – Pacheco não teria sido o que foi entre os homens; mas sem Pacheco – Portugal não teria sido o que é entre as nações”. No fundo, Pacheco era uma espécie de microcosmos, um Portugal em ponto pequeno, um laboratório para se compreender algo de mais vasto, uma mini-pátria.

Ora, MFB, no momento em que põe de lado o seu método narrativo, também se alcandora à grande teoria sobre a pátria. E lá vem, então, a ideia sobre Portugal, formulada com clareza, para que não restem dúvidas, nem apelos à complexidade: “A história contemporânea de Portugal assemelha-se a uma série de apagões” (p. 146). Sem mais, para que os “indígenas” – essa massa ignara e analfabeta de portugueses, referidos ao longo do livro com uma proverbial condescendência – possam entender o sentido da história. Ou seja, o Liberalismo e a República apagaram o absolutismo e o miguelismo. Seguiu-se o Estado Novo, a “revanche de um país profundo, católico e conservador que durante cem anos (1834-1926) não tivera a oportunidade de se manifestar”; Salazar pôde, então, “apagar esses cem anos ‘heréticos’ e ‘anárquicos’; por sua vez, “o 25 de Abril apagou o Estado Novo” e, a partir de então, todo o país foi dominado pela esquerda, até que em Maio de 2014 se começou a fazer luz, com o aparecimento de um novo diário electrónico (pp. 144-146).

Um novo apagão se anuncia, perguntar-se-á no estilo profético de quem anuncia a boa nova? Haja esperança! E pouco importa, a este último respeito, que MFB acabe por constatar, acerca das últimas décadas: “sob o aspecto da liberdade e diversidade intelectuais, Portugal mudou muito. Desde logo desapareceu a hegemonia comunista assim como o império da cultura e língua francesas” (p. 508). O certo é que a teoria histórica do “apagão” fica demonstrada no acto da sua enunciação. Talvez mesmo se imponha a essa outra tese de um escritor e crítico exímio: “desde 1820 a 1988 a Direita governou, em números redondos, cento e quinze anos e a Esquerda cinquenta e dois” (Vasco Pulido Valente, Às avessas, Assírio & Alvim, 1990, p. 248). Acredito mesmo que, nos círculos mais devotos, a nova tese transformar-se-á em argumento de autoridade e, a partir daí, em dogma.

Essa mesmíssima teoria histórica do apagão é projectada, pela própria autora, na vida que toma por objecto de análise. Isto é, a mesma descontinuidade do Portugal contemporâneo – aquela que é própria de um apagão eléctrico – encontra-se plasmada na trajectória biográfica de AB. Da infância e adolescência em Vila Realficou pouco”, pois deu-se uma “mudança abrupta de direcção sem ficar a olhar para trás” (p. 36). Da saída do PC e da sua experiência de controleiro do Partido na Suíça, na década de 1960, também nada ficou, sendo de notar que já “não era o primeiro nem seria o último corte que Barreto operava na vida sem guardar angústias ou recordações nostálgicas” (p. 68). A mesma descontinuidade fez-se sentir, de novo, no que escreveu em 1973, relativamente ao que publicara apenas dois anos antes: Barreto era, então, um homem diferente, o seu pensamento tinha mudado (p. 92). O rol dos momentos de ruptura poderia continuar, mas para compreender todo esse paralelismo entre Portugal e AB – mundo grande e mundo pequeno, Portugal e Portugalete, ambos com os seus sucessivos e simultâneos apagões – é inevitável referir, novamente, esse figurão: o Pacheco de Fradique.

Claro que nem tudo são descontinuidades na vida de AB narrada por MFB. Há, pelo menos, um momento de autêntica antecipação. Foi quando AB expôs a sua tese acerca do Estado Novo, nos idos de 1970. Nada mais, nada menos do que 24 anos antes daquela que parece ter sido “a primeira ruptura historiográfica sobre o tema”, estabelecida por Fernando Rosas (MFB dixit, p. 82). Mais concretamente, a arte de fazer durar atribuída a Salazar, um sábio político capaz de estabelecer equilíbrios e formas de arbitragem, envolvendo monopólios e pequenos grupos, grandes agrários e pequenos proprietários, toda essa teoria do “equilíbrio arbitrado”, que atrasou o progresso capitalista, já se encontrava num texto de AB. Ou seja, a grande ruptura nas interpretações do Estado Novo, se existe, foi ideia de AB.

Mas terá sido mesmo assim? É normal que dois intelectuais de esquerda da mesma geração, em momentos diferentes do seu radicalismo, tivessem procurado disputar a interpretação canónica do Estado Novo, em última análise, da autoria de Álvaro Cunhal e de outros. Porém, considerar que a transformação em tese de análise historiográfica da auto-representação do equilíbrio corporativo do Estado Novo, encimado por Salazar no papel de árbitro, foi capaz de criar uma ruptura de interpretação é contribuir para a formação de um mito historiográfico. E, acrescente-se, não haverá em tudo isto um toque de déjà vu? Até parece, sobretudo no confronto com as interpretações historiográficas dos anos 1950 e 1960, mais informadas pelas ciências sociais – bem longe dos caminhos da história narrativa –, sobre como os ditadores integraram as elites nos seus regimes e criaram instituições para regular conflitos e tensões entre grupos de interesse?

Muito poderia ser dito de outras antecipações, mas MFB arrisca pouco. Confesso que, ao ler as páginas acerca do modo como, em 1973, AB teorizou acerca de Portugal, situado entre capitalismo atrasado e desenvolvimento subalterno, esperei em vão pela óbvia conclusão: uma antecipação das teses da “semi-periferia” formuladas, mais tarde, por Boaventura de Sousa Santos (p. 109-111). Porém, são as constantes referências e insinuações galantes às namoradas e às mulheres, a começar pela falta delas no Portugal lúgubre de Vila Real, que tornam de novo inevitável recapitular o que Eça escreveu acerca de Fradique: “a influência deste ‘feminino’ foi suprema na sua existência”. Impossível, também, deixar de apontar o momento em que, ao ser nomeado ministro, AB acorreu a comprar os fatos escuros no Lourenço & Santos (pp. 154, 156). É que também Fradique Mendes escreveu a Sturmm, o célebre alfaiate de Conisberga, dizendo-lhe que punha “no dorso de toda a sociedade essa casaca de conselheiro, lisa, insípida, rotineira, pesabunda – (...) criando um país de conselheiros”.

Mais importante, ainda, é perceber o sentido do conjunto da obra escrita de AB. As suas desconfianças em relação à teoria, desde que rompeu com o marxismo, a sua atracção pelos factos e estatísticas, no fundo a evidência de uma almejada realidade, e depois a insatisfação pelo trabalho já feito, a indicar uma enorme expectativa nessa obra de interpretação sobre a pátria – uma espécie de novo Portugal contemporâneo – a publicar um dia. No Verão de 2006 ou 2007, nos três meses passados em Oxford, “longe do mundo e das tentações que em Lisboa encontra sempre ao voltar da esquina”, AB esteva quase a alcançar esse objectivo (p. 380). Chegou, então, às 260 páginas! Infelizmente, todo esse trabalho “não serve para nada”, segundo as próprias palavras de AB (id.). Entretanto, meteu-se o governo de Sócrates, a crise internacional e a Troika. Os trabalhos de recolha estatística, agora com o apoio profissional da PORDATA, também se interpuseram, impedindo que o livro chegasse ao fim. Porém, AB não desistiu: em Março de 2014, “estava decidido a iniciar precisamente essa prova final – o livro da sua vida” (p. 381).

O leitor não pode deixar de se comover ao ler essas páginas. Um autêntico combate em nome da escrita de um livro, uma súmula interpretativa, a que AB chamou em tempos a “suma teológica” (p. 381). Mordidos de curiosidade, apetece perguntar: estará AB, ainda, a escrever essa tal grande obra? E se assim não é, o que lhe falta? Quais os obstáculos? Excesso de distracções? O turbilhão dos media? Informação em excesso? Não sei, e o livro de MFB promete uma explicação, mas acaba por não fornecer resposta certa. É que é preciso evitar que um dia – esperemos que seja daqui a muitos anos – se venha a discutir se a obra sempre existe ou se apenas desapareceu. De qualquer modo, mais uma vez, é impossível esquecer a discussão póstuma sobre a obra de Fradique. Este, com a sua superior inteligência, deixara apenas o poema intitulado Lapidárias e, em latim, o Laus Veneris Tenebrosae. A Ramalhal figura considerou que os seus papéis, enviados primeiro para a “vala comum” e, depois, à guarda dos príncipes de Palidoff, na Carcóvia, continham apenas memórias. Todavia, Eça concluiu que, afinal, “nesse cofre de ferro, perdido num velho solar russo, não existe uma obra – porque Fradique nunca foi verdadeiramente um autor”.

Uma leitura da biografia de AB atenta aos pontos de contacto com uma série de figuras criadas por Eça de Queiroz pode ser discutível, mas tem a vantagem de alertar para a necessidade que existe de qualquer autor de uma narrativa, historiador de ofício ou não, conseguir controlar melhor o que escreve e os vários sentidos da sua prosa. É que a ingenuidade narrativa de MFB não resiste ao confronto com a escrita de um Eça, que sabe tirar partido da ironia, das ambiguidades e dos duplos sentidos. A falta de cruzamento de fontes, de instrumentos de prova, também debilita o livro. AB não tem responsabilidade, pois não escreveu, nem quis autorizar, apenas “deu sinais de que no essencial se revia no que eu escrevera” (MFB dixit, p. 19). Foi MFB, sem dúvida com boas intenções e com uma admiração genuína por AB, que alcançou um resultado inesperado, pois acabou por aproximar, injustamente, AB de Cornuski, Pacheco, Fradique e Sturmm.

Enfim, segundo MFB, “António Barreto tinha tudo para ser tudo o que há para ser em Portugal” (p. 18). O mesmo se passava com Pacheco, na célebre carta VIII de Carlos Fradique Mendes ao Senhor Mollinet: ‘Portugal todo, moral e socialmente, está repleto de Pacheco. Foi tudo, teve tudo’.

Uma história mal contada ou a teoria do apagão – por Diogo Ramada Curto, jornal Público / Ípsilon, 3 de Junhode 2016, p.24-26 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

UMA HISTÓRIA MAL CONTADA OU A TEORIA DO APAGÃO - PARTE I


 

Uma história mal contada ou a teoria do apagão” – por Diogo Ramada Curto, in Público

[Uma leitura da biografia de António Barreto atenta aos pontos de contacto com uma série de figuras criadas por Eça pode ser discutível, mas tem a vantagem de alertar para a necessidade de qualquer autor de uma narrativa conseguir controlar melhor os vários sentidos da sua prosa. O inventário das banalidades que resulta da leitura desta obra é extenso. Melhor seria se a autora tivesse cortado aquilo que vem à baila numa conversa oral, mas que se afigura pouco relevante numa narrativa biográfica]

A biografia de António Barreto (AB) escrita por Maria de Fátima Bonifácio (MFB), uma experiente historiadora de ofício, ocupa 527 páginas, divididas em 24 capítulos, que correspondem a duas partes distintas. Na primeira, o biografado é visto como actor político, narrando-se o seu meio familiar, educação com entrada na Universidade de Direito de Coimbra, fuga à tropa com exílio na Suíça, regresso a Portugal em 1974, relações com o PS e Mário Soares, passagem pelo Ministério da Agricultura no I Governo Constitucional (1976-78), retirada da política activa aos 49 anos e actividade de comentador político na televisão e nos jornais, etc. A segunda parte é dedicada ao exame das principais ideias daquele que se toma por objecto, com base numa leitura das suas publicações mais relevantes. No seu conjunto, o género biográfico é aquele que corresponde melhor ao projecto de uma história narrativa, tal como tem sido defendido e praticado pela autora em vários livros sobre políticos do século XIX: Costa Cabral, Duque de Palmela e Rodrigo da Fonseca Magalhães.

Na base deste trabalho estão 17 entrevistas, realizadas entre 2013 e 2015, que irão ser depositadas para consulta na instituição pública de investigação em que ambos, biógrafa e biografado, trabalharam durante décadas. As fontes de MFB são também constituídas pelos livros, artigos e discursos da autoria de AB. Assinalável é o cuidado com que MFB distingue – através de um sistema de aspas – a voz do biografado e as suas próprias opiniões. Uma distinção importante, uma vez que é assumida a proximidade, em termos de relação de amizade, de dois colegas de investigação e de uma superlativa admiração que MFB nutre por AB.
 
Mais difícil de entender é o facto de esta biografia, nas palavras da sua autora, surgir como “livro não autorizado”, com base no argumento de que AB se limitou a conceder as entrevistas e, depois, a corrigir alguns factos ou datas. Ou seja, AB não interveio, nem condicionou a autora. Ora, é justamente por se apresentar com o rótulo de biografia “não autorizada” que este livro coloca, desde logo, muitas reservas. Para merecer tal estatuto, deviam ter sido consultadas outras fontes e recolhidos mais depoimentos, pelo menos os daqueles que se cruzaram ao longo da vida com AB e com ele conviveram. A prova, o recurso ao contraditório, o cuidado para não repetir e sublinhar, por via analítica, as auto-representações do biografado são instrumentos de que nenhum biógrafo pode prescindir, mesmo quando reivindica para si, repetidas vezes, a liberdade de narrar. Tivesse Barreto escrito as suas memórias (por exemplo, sob a forma de entrevista ou de autobiografia tout court), já o estatuto deste livro não levantaria esse tipo de dúvidas. Mas, nesse caso, diga-se, teria de concorrer com as autobiografias de Rosado Fernandes e João Freire, escritas num estilo claro e enxuto, difícil de ultrapassar, sobretudo a primeira mais irónica, sendo a segunda de grande simplicidade, transparência e riqueza de informação.
 
Ainda a propósito do cruzamento de fontes, o leitor fica sem perceber, na crucial passagem de Barreto pelo Ministério da Agricultura – “a grande oportunidade da minha vida política”, segundo AB (p. 188) – , quais eram os pontos de vista dos seus colaboradores mais próximos. Nem o nome do seu Chefe de Gabinete é referido, tão-pouco o seu testemunho mencionado. A narrativa acerca da Lei Barreto é reduzida a um quadro onde AB se confrontou com as posições do antigo ministro da mesma pasta, Oliveira Baptista, e na sua esteira com os fretes feitos por Lopes Cardoso ao PC; mais tarde, com a saída do governo de AB, a mesma lei foi denunciada por Mário Soares, que a considerou mal feita. De resto, a sua formulação surge no livro completamente desinserida de um quadro onde muitos agrónomos e especialistas em economia rural tinham opinião – Henrique de Barros, Castro Caldas, Afonso de Barros, Francisco Avillez, Gomes da Silva, Sevinate Pinto, etc. Em lugar de descrever o contexto e procurar reconstitui-lo através de diferentes testemunhos, a autora limita-se a uma banal e genérica troca de opiniões entre AB e MFB sobre os limites da decisão política: “o poder de transformação da sociedade é muito reduzido”, sustenta o primeiro, acabando a autora por responder com a pergunta, mais ou menos retórica, “que tipo de líder se poderá elevar acima delas [limitações] e visionar a transformação da sociedade?” (p. 189).
 
Aliás, o inventário das banalidades que resulta da leitura desta obra é extenso. Melhor seria se a autora tivesse cortado aquilo que vem à baila numa conversa oral, mas que se afigura pouco relevante numa narrativa biográfica. Quatro exemplos, de uma vasta série. Primeiro, seria dispensável a referência aos pintores italianos do Renascimento, vistos em reproduções na infância e que, ainda hoje, motivam o gosto pelas visitas de AB a “cidades estrangeiras para ver certos quadros” (p. 29). É que também o polaco G. Cornuski, professor e crítico que escrevia na Revista Suíça, com o qual Fradique Mendes se correspondia, se deixava esmagar pelo sublime frente às telas de Ticiano (que MFB, na sua vasta cultura geral, cita com apelido e tudo – Ticiano Vecellio).
 
Depois, sem sair das comparações com esse mundo tão irónico quanto sardónico de Eça, talvez valesse a pena repensar uma das tensões que atravessa este livro: a preocupação com a nação, com Portugal e os seus problemas, em contraste com a sua ‘irrelevância’ ou pequenez quando visto a partir do estrangeiro (pp. 38, 107, 117). Sobre esta questão, há uma passagem que merece destaque, quando MFB diz que AB ‘pensou em naturalizar-se suíço, para transformar o país de exílio numa segunda pátria’ (p. 118). É que também a Fradique Mendes ocorreu o mesmo pensamento, quando sentiu vontade ‘em se nacionalizar nas terras alheias’.
Uma terceira banalidade surge quando MFB regista que, desde o 28 de Setembro de 1974, se tornou “cristalino para António Barreto‘ que o PC 'quer tomar conta da situação’; que o ‘PS, ou uma parte do PS, vai consentir’” (p. 123). Terá AB sido mesmo o único a constatá-lo? Creio que não, pois essa foi uma ideia partilhada por muitos. E como pode o papel da extrema-esquerda ficar de fora da referida visão cristalina? Não será isso o resultado de um anticomunismo feroz apenas preocupado com o PC e que, por isso mesmo, não presta atenção às outras esquerdas mais radicais?
 
Por último, não menos banal é apresentar o estatuto académico de AB como uma espécie de “apêndice curricular” (p. 211). Ao trivializar um dos proventos de AB – que de tão banal passa a funcionar como um acessório – , a afirmação acaba por ser chocante nos tempos que correm, em que uma nova geração extremamente bem preparada não tem condições para prosseguir uma carreira de investigação. Pior ainda é que tal constatação vem acompanhada, no livro, de uma celebração dos “anos dourados” da instituição académica que acolheu AB, onde “reinava total liberdade e independência do espírito” (pp. 403-404). É que, não se esqueça, AB ali trabalhou durante mais de um quarto de século, porventura em regime de dedicação exclusiva. A liberdade para fazer o que bem lhe aprouvesse – num quadro de liberalismo suportado pelo Estado –, foi-lhe concedida pela tranquila estabilidade do orçamento, com o objectivo de proporcionar condições para a pesquisa e obra que lhe correspondesse.
 
[CONTINUA]
 
Uma história mal contada ou a teoria do apagão – por Diogo Ramada Curto, jornal Público / Ípsilon, 3 de Junho de 2016, p.24-26 – com sublinhados nossos.
 

[J.M.M.]

sábado, 25 de janeiro de 2014

RUI RAMOS NO CANAL Q: UM NOVO ANTÓNIO SARDINHA?


“O novo Sardinha é bem-falante. Na televisão, não hesita. Peremptório mesmo quando dubitativo. Em estilo casual, casaco e colarinho desabotoado. Inteligente e com cara de bom menino. Praticante de um novo populismo, com a chancela atractiva do mercado de massas.

Com obra feita e de reconhecido valor, consta, diz tudo o que lhe vem à real gana. Mas, à cautela, nunca foi em conversas: à política chegou como intelectual com créditos firmados e não como funcionário de partido. Não é como os outros que chegaram bem mais alto, mas à custa de diplomas de origem duvidosa.

Subiu a pulso. Logo após, desfez-se da escada para que mais ninguém lá chegasse. E adoptou os tiques que observou nos snobes. Inspirado em Maurras, misturou-o num blend com outros, tudo autores já publicados pelo Liberty Fund, em encadernações bem cheirosas. Monárquicos, conservadores e uma elite ignara começaram a vibrar com as suas realidades pesadas, donde não está ausente uma ponta de crueldade. E ele não se faz rogado.

– Ena, como vai lançado no seu gosto pela polémica! Estou certo que um dia conseguirá beijar a mão do putativo rei. Ou será que lhe dão mesmo um ministério?

Às suas audiências dá aquilo que elas querem. Indigna-se frente ao despesismo do Estado. E despreza essa esquerdalha de jovens investigadores que, no fundo, não passam de uns comunistas ou ainda pior...

Exímio na arte do paradoxo, partilha com os que não se souberam arranjar uma óbvia denúncia: porque tarde chegaram, foram todos enganados quando alimentaram falsas expectativas em relação a um futuro dedicado à ciência e à investigação. No seu realismo cru, nega-lhes a carreira. Porquê? Simplesmente, porque o despesismo é insustentável. E essas crianças grandes, que se deixaram embalar pelo estudo e pela pesquisa, têm de cair na realidade. Na dura realidade, entenda-se, da sua inutilidade.

Não há alternativa, para tanta evidência. Só talvez a emigração, sempre ela, pode oferecer uma outra via. Porque lá no estrangeiro – provavelmente porque foram todos enganados por um outro trapaceiro – ainda continuam a investir na pesquisa e a preocupar-se em acolher novas gerações de investigadores.

– Olha, Daisy, os coitados lá na estranja, caíram na trapaça. Os tristes continuam a financiar publicamente a investigação.

É que se o despesismo é inútil, porque se constituiu num fardo insustentável, é também escusado pensar-se que exista alguma relação causal entre investigação e desenvolvimento. Tudo uma série de inutilidades. Retire-se, pois, o Estado de tudo isto e deixem em paz os decisores políticos – ministros ou responsáveis por agências de financiamento público – que nunca se deveriam ter envolvido em programas criadores de falsas expectativas e de despesas em espiral.

Devolva-se, isso sim, a responsabilidade às universidades, que se devem comportar de forma autónoma. Mas, esclareça-se desde já, em relação aos que mandam nestas últimas, que devem deixar de se preocupar com o aumento do seu número de investigadores e com a integração de novas gerações na pesquisa. Directores e responsáveis, parem com tais lamúrias insensatas! Basta de tal tipo de erro crasso! Malditos sejam os que o fizerem, sobretudo em jornais! Lá na utopia do propalado liberalismo, as universidades e os centros de investigação nem sequer deveriam depender dos fundos públicos e do Orçamento.

– Olha, Daisy, por que razão não estamos na Grã-Bretanha ou nos Estados Unidos, onde as grandes universidades privadas são mesmo autónomas financeiramente, com os seus states e endowments milionários? Isso é que era bom para que o liberalismo de pacotilha se difundisse. 

– Aqui, no terrunho, tirando as idas à televisão e as vendas dos livros a subir em flecha, tudo o resto é uma chatice. Não que a pátria não exista, com as suas tradições e gente importante digna de biografias que se vendem lindamente. Mas o Estado, ao ter de assumir responsabilidades e ao não deixar crescer as crianças que, na sua adolescência retardada, vivem à sua custa, cria esta chatice, menino! Um autêntico ferro!

“Transforma-se o amador na cousa amada”, como o trapaceiro com a trapaça. A trapaça dos últimos governos que criaram uma ilusão, que enganaram as crianças grandes (pelo menos as que resistiram à emigração) e que alimentaram falsas ideias acerca da criação de um sistema científico. Uma tramóia insuportável, alimentada à custa das loucuras do despesismo do Estado, com que é necessário romper.

O novo Sardinha vê tramóias em todo o lado, porque constrói o mundo à sua imagem. Com a consciência das duras realidades, chama a si a inimputabilidade e uma estratégia de vitimização. Aos seus amigos sopra-lhes a ideia de que a investigação é coisa obscurantista. Por isso, há que reduzi-la e dispensar os que a ela se dedicam. Melhor será fazer como antigamente, só para alguns, muito poucos. E, num estilo sério, mesmo muito sério, o Sardinha new age finge não suportar o estilo chocarreiro deste seu retrato.

–  Olha, Daisy, até que, se se tiver em conta o novo Álbum de Glórias de que este retrato chocarreiro faz parte, nem é assim tão mau. Verás que a notoriedade sobe.

Pouco importa que quem defende que o Estado se retire – aliás, de onde nunca esteve, a julgar pelo que se faz por essa Europa fora – continue a ser um funcionário público, que não abdica de nenhum dos seus cargos e privilégios. A moral de apregoar aos outros aquilo que o próprio não pratica só tem um fundamento: não somos todos iguais, os que já se safaram e que são os beneficiários do sistema não querem partilhar com mais ninguém a estabilidade e tudo o que é bom. A eles o mandarinato e os privilégios, aos outros a dura realidade.

–  Tudo o resto, menino, uma chatice em relação à qual só me resta exprimir a minha dramática indignação: que ferro!”

Diogo Ramada Curto, in jornal PÙBLICO,24/01/2014, p. 49

J.M.M.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

25 DE ABRIL: O QUE MELHORARIA NA DEMOCRACIA PORTUGUESA?


DIOGO RAMADA CURTO (Historiador):

Melhoraria a distribuição da riqueza, multiplicaria as formas de participação política, quebraria o monopólio dos profissionais da política, tornaria transparente o financiamento dos partidos, lutaria por uma sociedade sem discriminações de classe, raça, credo e género, criaria quotas para a representação das mulheres, salvaguardaria o serviço nacional de saúde e a protecção aos idosos, tornaria mais acessível a leitura de livros, continuaria a rede de bibliotecas, daria melhores condições aos museus e aos arquivos, dignificaria por todos os meios a função dos professores, sobretudo do básico e do secundário, investiria mais na pesquisa científica e na criação artística e musical, trataria os emigrantes como parte integrante do que somos, estabeleceria relações de franca igualdade com as antigas colónias, sem derrapar em mitos paternalistas, e não esqueceria os ideais da Primeira República ridicularizados pelo Estado Novo.

IRENE PIMENTEL (Historiadora):

 Em situação de crise global, é bom regressar aos clássicos que definiram a sociedade civil e política e delinearam o Estado de Direito. Foi o caso de John Locke (1632-1704), segundo o qual todo o poder político legítimo deriva apenas do consentimento dos governados que confiam as suas “vidas, liberdades, e posses” à comunidade, tornada política. Mais tarde, outros filósofos definiram a separação de poderes, acrescentando ao legislativo e executivo, o judicial. Continuo adepta de uma democracia representativa, aceitando delegar em instituições democráticas o poder que não exerço directamente. Mas urge aprofundar o Estado democrático e o funcionamento da sociedade civil, de modo a que os partidos voltem a representar os que neles delegam. Por outro lado, face ao abuso do poder, não haverá direito de resistência civil? É que, como diz Locke, a comunidade política pode ser dissolvida sempre que o detentor do poder desrespeita a lei, perdendo assim o direito a ser obedecido.

 Y. K. CENTENO (Escritora):

 Se há diferença, na nossa democracia, quanto ao entendimento geral do que é a Democracia – trazida até ao Ocidente por Platão no desenho de uma sociedade justa -, faltará muito para melhorar.

A minha reflexão prende-se ainda com os conceitos de Liberdade, Igualdade, Fraternidade, estruturantes de um século XVIII que para mim é o século I da nova Era.

Mas impõe-se:

1. Recuperar a Ética quanto à dignidade de carácter, à honestidade intelectual, ao respeito mútuo, liberdade e correspondente responsabilidade, na intervenção social e política.

2. Recuperar a Estética: embora Platão expulse o poeta da cidade perfeita, a dimensão do Belo amplia, na sua criação e contemplação, uma actividade e um sentimento que devem ser repartidos dando condições de acesso a toda a sociedade.

3. Por fim: valorizar a Educação e a Cultura, nos seus espaços próprios, fomentando uma contínua existência e desenvolvimento.

 
in, “25 de Abril – O que melhorariana democracia portuguesa? Personalidades propõem mudanças para Portugal”, jornal Público, 25/04/2013 [ler TUDO AQUI & AQUI]

J.M.M.