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sábado, 11 de maio de 2019

CONFERÊNCIA – AQUILINO RIBEIRO, CARBONÁRIA E MAÇONARIA



CONFERÊNCIA: Aquilino Ribeiro, Carbonária e Maçonaria

ORADOR: Prof. António Ventura [Centro de História da FLUL];

DIA: 16 de Maio 2019 (10,15 horas);
LOCAL: Biblioteca Nacional de Portugal (Campo Grande 83, Lisboa);

A Biblioteca Nacional de Portugal acolhe no próximo dia 16 de Maio de 2019 um Colóquio consagrado à figura e à obra de Aquilino Ribeiro. A partir da oportunidade oferecida pelo centenário da primeira edição do romance Terras do Demo (1919), esta iniciativa está centrada na análise dos anos que decorreram entre o regresso de Aquilino a Lisboa, vindo do seu primeiro exílio em Paris, e o início do segundo exílio do escritor, ditado pela sua participação na frustrada tentativa de derrube da ditadura militar, em Fevereiro de 1927.
 
Os participantes no Colóquio estão convidados a explorar a Lisboa de Aquilino, articulada entre os seus diversos lugares de residência na cidade, o Liceu Camões, onde ensinou, e a Biblioteca Nacional, na qual ingressou pela mão de Raúl Proença e Jaime Cortesão. Estarão também presentes a França e a Alemanha que observou nestes anos e veio a transpor para títulos tão importantes como É a Guerra e Alemanha Ensanguentada.
 
Numa época marcada pela I Guerra Mundial e pela implantação da República em Portugal, este é um dos mais sugestivos períodos da vida do grande escritor que foi Aquilino Ribeiro, marcado pela escrita de viagens, pela criação de personagens intemporais como as que dão vida a O Malhadinhas e ao Romance da Raposa ou, ainda, pelos textos que compôs para o Guia de Portugal de Raúl Proença.
 
A par deste Colóquio, será inaugurada uma exposição biobibliográfica ilustrativa da temática debatida no evento. A exposição estará patente na Sala de Referência da Biblioteca Nacional entre 16 de Maio e 30 de Agosto, com entrada livre. O Colóquio «Aquilino, Anos 20: entre o exílio e as geografias de Lisboa» é organizado conjuntamente pelo Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa (CEG-ULisboa) e pelo Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (CLEPUL), em parceria com a Biblioteca Nacional de Portugal.

 
Esta iniciativa é realizada no âmbito das actividades do grupo de investigação ZOE – Dinâmicas e Políticas Urbanas e Regionais do CEG e do grupo de Investigação Literatura e Cultura Portuguesas do CLEPUL. A Exposição beneficia da colaboração complementar do Arquivo e da Biblioteca da Escola Secundária de Camões” [AQUI] - sublinhados nossos]
 
A não perder.
 
J.M.M.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

PARIS SEMPRE [NO REGRESSO DE JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS]


Paris Sempre” – por António Valdemar, in Caderno E, revista do Expresso
A França constituiu o paradigma cultural de várias gerações de artistas, escritores, cientistas e políticos portugueses. Muitos jovens, na primeira e segunda década do século XX, dirigiram-se para Paris. Uns, formados nas Escolas de Belas-Artes de Lisboa e do Porto e a usufruir de bolsas de estudo; outros, a beneficiar da generosidade de mecenas; outros, a receber mesadas das famílias; outros, ainda, à sua própria custa. Foi este o caso de Almada Negreiros, durante pouco mais de um ano. Repleto de contrariedades incidentes.
Antes, porém, da viagem que lhe permitiu um contacto direto com artistas, galerias e a realidade quotidiana de Paris e outras cidades, José de Almada Negreiros já se considerava fruto da irradiação da cultura francesa. A 16 de novembro de 1917, em “A Engomadeira”, uma das mais prodigiosas ficções da língua portuguesa, Almada Negreiros afirmou, ao concluir a dedicatória a José Pacheko, numa carta prefácio:

“Escuso de repetir-me neste assunto que o nosso Mário de Sá-Carneiro sabia tão justamente classificar:
— Nós três somos de Paris!
E somos. Temos esta elegância, esta devoção, este farol da Fé”.
A correspondência de Mário de Sá-Carneiro para Fernando Pessoa refere, em 1914, em 1915 e em 1916, projetos de viagens de Almada a Paris. Queria viver por dentro a viragem introduzida no desenho, na pintura, na escultura, na literatura, no teatro, na dança, no bailado e outras áreas, não apenas por franceses mas personalidades originárias de países diferentes, tais como Picasso, Brancusi, Modigliani, Chagall, Apollinaire ou Blaise Cendrars.

Numa carta a Pessoa, Sá-Carneiro, conhecedor da energia revolucionária de Almada, manifestava o desejo de o ter, a seu lado, em Paris. Estava bastante só. (Cinquenta anos depois, Almada definiu esse isolamento e angústia, num desenho, que também viria a inspirar Lagoa Henriques no monumento a Pessoa no Chiado...). Sá-Carneiro sentava-se horas e horas no café, a ver passar as horas. Emergia o tédio e o mal-estar. Despertava obsessões que o conduziram, dia após dia, ao suicídio.
“Seria muito agradável” — escreveu Sá-Carneiro — “ver aqui Almada, quanto mais não fosse para fazer escândalo nos cafés”. A virulência torrencial de “A Cena do Ódio” de Almada destinada ao “Orpheu 3” invadiu e empolgou Sá-Carneiro que não hesitou em reconhecê-la como “soberba”. Pessoa já classificara Almada de “homem de génio. Ele é mais novo do que os outros, não só em idade como também em espontaneidade e efervescência. Possui uma personalidade muito distinta — para admirar é que a tivesse adquirido tão cedo”.
DELAUNAYS E BAILADOS RUSSOS
Desde junho de 1915 a janeiro de 1917, instalaram-se em Portugal Sonia e Robert Delaunay, a fugirem à guerra. Também o pintor russo Daniel Rossiné e o pintor americano Samuel Halpert. A eles se juntaram Amadeo de Souza-Cardoso, Eduardo Viana, Pacheko e Almada. Pretenderam formar a Corporation Nouvelle, incluindo Apollinaire e Blaise Cendrars, para “expositions mouvantes” e outras ações culturais. O objetivo não se realizou. No entanto, permitiu um convívio estimulante em torno das estéticas da vanguarda. Vivendo cá, Almada sabia o que se passava em Paris. Os textos que inseriu no “Portugal Futurista” refletem o domínio que já possuía da cultura europeia contemporânea.
Intensificou essa amplitude, na relação pessoal, em Lisboa, com Serguei Diaguilev e Massine, seu coreógrafo e bailarino, quando a companhia dos Bailados Russos se deslocou a Portugal, em fins de 1917 e princípios de 1918, no auge da revolução de Sidónio Pais. A propósito deste acontecimento memorável, Almada lançou um manifesto com aplausos exuberantes e realizou um conjunto de desenhos de figuras e cenas dos espetáculos que decorreram no Coliseu dos Recreios e no Teatro de São Carlos. Foram publicados na revista “Atlântico”. Para “O Século da Noite”, Jorge Barradas fez, com o seu estilo, outra série de desenhos. Quase 50 anos depois, quer Almada quer Barradas, evocaram-me — ainda fascinados — o impacto dos Bailados Russos na arte e na literatura portuguesas.
Estes dois acontecimentos, o contacto com os Delaunays e a vinda dos Bailados Russos a Portugal, trouxeram a Almada o universo de Paris.
CONCRETIZAÇÃO DO DESEJO
A concretização do desejo de ir a Paris só ocorrerá de janeiro de 1919 até abril de 1920. Recusou-se, então, a procurar o pai, o jornalista António Lobo de Almada Negreiros, que se radicara, definitivamente, em 1900, em França para organizar o Pavilhão das Colónias Portuguesas, na Exposição Universal de Paris. Depois ficou como correspondente de “O Século”. Falecera a mulher, em 1896, com 24 anos, em São Tomé, quando esperava um terceiro filho. Casou-se com uma francesa. Almada e um irmão mais novo foram internados dez anos no Colégio de Campolide dos Jesuítas. Concluídos os estudos secundários, ficou entregue ao seu destino. Visitava, de vez em quando, os avós e tios maternos que moravam, em Lisboa, na Rua Castilho e tinham casa em Cascais. Pai e filho, após longa ausência, só se viram e falaram uma única vez, em Sevilha. Almada ganhara o 1º Prémio do cartaz da representação portuguesa naquela exposição. O pai estava como jornalista. “Havia muita gente à volta. Limitaram-se a muito poucas palavras” — contou-me Jorge Barradas — “alta tensão recíproca”.
Almada enfrentou inúmeras dificuldades, apesar dos amigos disponíveis para o ajudar nos momentos maus e no acolhimento quotidiano. “Os amigos pela vida fora” — disse-me — “valem mais do que uma universidade”. Sem meios de fortuna, vivendo de ilustrações em jornais, da realização de cartazes e outras situações precárias, habituou-se, muitos anos, à dura experiência dos quartos de aluguer.
HOMEM CRISTO FILHO
Ao permanecer em França, em Paris, Biarritz e outras cidades, Almada trabalhou como bailarino de salão e empregado de armazém. Teve, contudo, apoios de Francisco Homem Cristo (1892-1928), o admirado e detestado jornalista, filho de Homem Cristo, o implacável panfletário que tanto era contra a monarquia e a República, e bisavô de Guy-Manuel de Homem-Christo, do duo de música eletrónica francês Daft Punk.
Em Paris e em Lisboa, Homem Cristo Filho desenvolveu intensa conspiração monárquica. Esteve ligado ao jornal “Autorité”, dos irmãos Cassagnac, porta-voz da extrema-direita, numa França ainda eletrizada pelo caso Dreyfus. Escrevia artigos de combate, ora com o seu nome, com as iniciais HCF, ora com os pseudónimos Alithinos e Libertador. Assumirá protagonismo político no consulado de Sidónio Pais. Pertencerá, em Itália, ao círculo íntimo de Mussolini e contribuiu para a construção do fascismo, com o livro “Mussolini Bâtisseur d’Avenir” que obteve projeção internacional. Ao falecer, a caminho de Roma, num desastre de automóvel, Mussolini ordenou honras fúnebres a Homem Cristo Filho (in Miguel Castelo Branco, “Homem Cristo Filho — Do Anarquismo ao Fascismo”, edição Nova Arrancada, 2001).
Homem Cristo Filho privou com artistas e intelectuais que participaram na aventura do modernismo. Almada trabalhou na revista “Ideia Nacional”, da qual Homem Cristo Filho era diretor. Era uma publicação monárquica e bissemanal. O primeiro número tem a data de 18 de março de 1915. Foi suspensa, pouco depois, devido à grave crise política que depôs a ditadura de Pimenta de Castro. Reaparecerá a 4 de abril de 1916 e vai prosseguir até 15 de junho de 1916. A orientação artística é de José Pacheko, autor da capa do “Orpheu 1”.
A GRANDE AFRONTA
Almada já se comprometera como diretor artístico do “Papagaio Real”, revista satírica, ilustrada por modernistas, em oposição frontal não só à estética de Bordalo e seus epígonos, mas fundamentalmente à República e aos republicanos, aos chefes dos três partidos — António José de Almeida, Partido Evolucionista; Brito Camacho, Partido Unionista; e, sobretudo, Afonso Costa, Partido Democrático. Também já ilustrara “Republicaníadas”, um verrinoso panfleto monárquico, em verso, subscrito por Marco António, pseudónimo de António Correia Pinto de Almeida.
Se a presença de Almada no primeiro número do “Orpheu” não provocou a controvérsia suscitada por Fernando Pessoa/Álvaro de Campos e Mário de Sá-Carneiro, uma das colaborações de Almada para a “Ideia Nacional” desencadeou forte polémica nos sectores religiosos e políticos. Foi quando desenhou a capa da edição de 20 de abril de 1916 — “Semana Sancta”, ao representar, no auge das celebrações da Quaresma, um Cristo verde, esquálido, sem rosto. E sem lágrimas.
Acossado por católicos e monárquicos, a reagirem à blasfémia onde menos esperavam, numa revista que subsidiavam para combater uma República jacobina e ateia que atacava a Igreja, desterrava o cardeal-patriarca e outros bispos, agredia padres, boicotando atos de culto, Homem Cristo Filho resolveu intervir no debate. Procurou separar-se dos modernistas. Apontou-os como “novos arautos da Anarquia”, “iconoclastas impenitentes sem Fé nem Pátria”.
Perante estas acusações, José Pacheko, em carta para o pintor Eduardo Viana, classificou-as como “tudo quanto há de mais intransigente sobre a arte moderna”; e Almada Negreiros, em carta a Sonia Delaunay disse, muito indignado, que se afastava da Ideia Nacional”. Acentuou, perentoriamente: “Je suis sorti de cette chose ignoble”. Saí desta coisa ignóbil.
Contudo, a relação de Almada Negreiros e Homem Cristo Filho caracterizou-se por distanciamentos e aproximações. Ao ir para França, em 1919, voltou a ligar-se a Homem Cristo Filho. Tanto mais que ele tivera com o pai de Almada um conflito de grande repercussão e que terminou num duelo. “Almada (pai) assestou um golpe, ferindo-o no antebraço e no cotovelo”. O embaixador João Chagas exigiu a expulsão de Homem Cristo. A imprensa francesa impediu (in Miguel Castelo Branco, idem).
 
RELAÇÃO ATRIBULADA
José de Almada Negreiros convergia em muitas opções ideológicas com Homem Cristo Filho. Ambos coincidiam na exautoração da maçonaria e dos judeus por serem “forças do cosmopolitismo apátrida, contra os fundamentos da civilização cristã e ocidental, que teria nas pátrias, na religião católica e na família tradicional os seus alicerces mais sólidos”. Ambos dividiam Portugal entre os ‘homens dignos’ e os ‘bandidos’. Este critério derivava, aliás, de Homem Cristo Pai que rotulava,por exemplo, António José de Almeida de “pulha de bem” (in Miguel Castelo Branco, ibidem).
Provocador incorrigível, com um sentido inveterado do risco e da aventura, Homem Cristo Filho fazia vida faustosa. Morava na Rue Royalle. Sá-Carneiro, numa carta a Pessoa pormenorizou: “Vive em casa atapetada, com telefone, chaufage central e cigarros de luxo. (...) Ergue-se na verdade em Europa, essa figura do Homem Cristo Filho, nascido em Aveiro!”. Tinha um salão que recebia com aparato personalidades políticas e literárias de nomeada. Uma delas, o escritor Maurice Barrès, nacionalista integral. Este ambiente confortável, opulento, sensual, gastronomia requintada, vinhos e champanhes dos melhores, mulheres sedutoras e a imaginação magnética do anfitrião, cativaram Almada Negreiros. Declarou-se rendido: “As circunstâncias fizeram-me o maior amigo do Homem Cristo Filho” (in “Escritor nº 2”, APE, 1993).
Deixou-se envolver e agarrar nos projetos e guerrilhas de Homem Cristo Filho, conforme se verifica em duas cartas, de 13 e 15 de setembro de 1916, enviadas ao poeta e advogado Acácio Leitão a solicitar-lhe, e com a máxima urgência, seis mil francos. O empréstimo destinava-se a encerrar um negócio de Homem Cristo Filho e José de Almada Negreiros e que implicava, na outra parte, o advogado e professor universitário Martinho Nobre de Melo (1891-1985) e o banqueiro José Espírito Santo (1895-1968), gerente em Paris e filho do fundador do clã Espírito Santo, e que também dava “apoio moral”. (in “Escritor”, idem)
O ARRASO A MARTINHO
Martinho Nobre de Melo (diretor do “Diário Popular” de 1958 até 27 de abril de 1974), natural de Cabo Verde, era, na época, o mais jovem catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa. Tinha sido, aos 26 anos, ministro da Justiça, no consulado de Sidónio Pais. Almada e Martinho conheciam-se desde a revista “Sátira”, antecâmara dos Salões dos Humoristas, efetuados, em 1912 e 1913, no Grémio Literário. Martinho andara na roda do “Orpheu”. Fora colega de liceu de Alfredo Guisado e depois seu professor na Faculdade de Direito. Publicara o livro “Ritmos do Amor e do Silêncio” (que Vitorino Nemésio enalteceu no “Jornal do Observador”). Colaborara na “Exílio”, com Pessoa, Alfredo Guisado, Cortes Rodrigues e António Ferro, uma revista, como a “Centauro”, entre o “Orpheu” e o “Portugal Futurista”.
Também se encontrava associado aos primórdios da dança e bailado em Portugal, promovidos por Helena Castelo Melhor e ativa participação de Almada Negreiros. O bailado “Princesa de Sapatos de Ferro”, representado em 1918, no Teatro de São Carlos, baseava-se num poema de Martinho Nobre de Melo. Tinha música de Rui Coelho e cenários de José Pacheko. O próprio Almada realizara os figurinos, a coreografia e dançava com os outros intérpretes.
Apesar de todos os vínculos literários, estéticos, geracionais e até políticos e ideológicos, a insólita operação financeira concebida por Homem Cristo Filho, que enredou Almada, também lhe incutiu um ódio de estimação a Martinho Nobre de Melo. Até ao fim da vida. Nas cartas a Acácio Leitão, mostra-se revoltado por deparar em Paris “surpresas que um raciocínio puro como o meu não pode prever. É o facto de que em Paris, também havia portugueses, mas portugueses, d’aqueles portugueses que não me perdoarão nunca que eu os não admire (eles que nada têm para que eu admire). Um d’estes portugueses, o meu maior inimigo, chama-se Martinho Nobre de Mello”. (in “Escritor” ibidem)
Promete, então, uma desforra e envia, para sair nos jornais, um manifesto a desancar Martinho Nobre de Melo. É um ataque cruel. Pessoal. Intelectual. Considera Martinho Nobre de Melo “pulha” e “safado”. Almada, nascido em São Tomé, na Roça Saudade, e cuja mãe Elvira Freire Sobral era filha de uma angolana negra, não se coíbe de reduzir Martinho Nobre de Melo, a um “desclassificado” e a rebaixá-lo por ser “cor de café com leite”; a desprezá-lo por ser importador do batuque mulato, a morna de Cabo Verde. Insiste: como se poderá chamar “Nobre”? Mais ainda: “verdadeira demonstração da nossa competência intelectual d’ além-mar”. (in “Escritor” ibidem)
O manifesto que tencionava “publicar brevemente”, intitulava-se ‘PA-TA-POOM’. Presumo ser o último manifesto de Almada após o outro arraso impetuoso do “Manifesto Anti-Dantas”. Esta versão manuscrita, na posse da escritora Leonoreta Leitão, filha de Acácio Leitão — autora do recente livro de memórias “Era Uma Vez Uma Boina” — foi por ela entregue, em 1993, e para publicação na revista “Escritor”, da Associação Portuguesa de Escritores.
Todavia, o semanário “O Domingo Ilustrado”, divulgará outra versão, sem especificar o nome de Martinho Nobre de Melo: “Uma Novela da Minha Vida PA-TA-POOM — Recordação de Paris — Capítulo III por Almada Negreiros”. Leitão de Barros, diretor do semanário, inseriu a seguinte nota: “Almada, o maior nome da arte modernista, dá-nos hoje uma novela na sua forma originalíssima. O público tem ali de saborear um estilo pessoal e uma prosa cujo bas-fonds é sempre valioso e tem qualquer coisa de subtil e filosófico. ‘O Domingo’, fiel ao seu programa, vai renovar-se de dia para dia.”
A edição de “O Domingo Ilustrado” é de 8 de agosto, de 1926. A 28 de maio fora implantada a Ditadura Militar, chefiada pelo general Gomes da Costa. Martinho Nobre de Melo (antigo ministro na ditadura de Sidónio), tinha 35 anos incompletos e fez parte do governo, como ministro dos Negócios Estrangeiros. Salazar também fora convidado mas só entrará em 1928. Para durar até 27 de setembro de 1968.
 
SEMPRE PARIS
Regressou Almada Negreiros de Paris, a 7 de abril de 1920. No dia em que completava 27 anos. Só voltará, numa rápida passagem, em 1950, mas continuou a ter Paris dentro de si. Porventura, sem a exacerbação carnal e possessiva do seu amigo Mário de Sá-Carneiro: “Paris da minha ternura/(...) Minha cidade com rosto,/ minha fruta mal madura.../ Mancenilha e bem-me-quer./ Paris — meu lobo e amigo — /quisera dormir contigo,/ ser todo a tua mulher”.
Almada, em certos dias da semana, depois do almoço, na sua casa de família, no Rato, antes de se refugiar no ateliê ia, a pé, em direção ao Rossio. Acompanhei-o, muitas vezes. Em especial, entre janeiro e junho de 1960, quando me concedeu as entrevistas para o “Diário de Notícias”, recuperadas no recente livro “Almada, os Painéis, a Geometria e Tudo” (edições Assírio & Alvim). Entrava na tabacaria Mónaco para comprar jornais e revistas franceses. Seguia-se um café, de saco, tomado ao balcão, na Casa Chinesa, no início da Rua do Ouro. Via logo os títulos. Começava pelo “Paris-Match”. Uma das suas leituras obrigatórias. Lembro-me, de olhar e exclamar: “Horrível este acidente de automóvel que matou Albert Camus. Repare nesta fotografia trágica...”.
Noutra ocasião, no mesmo local, folheando vagarosamente o “Paris-Match”, exclamava: “Morreu Georges Braque. Merece honras nacionais. Não pode ficar eclipsado por Picasso”. (Pouco depois, no Louvre, prestaram-lhe a homenagem devida. André Malraux, ministro da Cultura, proferiu um discurso histórico). E Almada prosseguia: “Penso muito em Braque...” E repetia a diretriz enunciada por Braque: “‘J’aime la règle qui corrige l’emotion. J’aime l’emotion qui corrige la règle’. Penso nisto todos os dias. Talvez várias vezes por dia. Diante de Nuno Gonçalves, da obra-prima da pintura primitiva portuguesa”.
Estas e outras circunstâncias, demonstram o interesse e o conhecimento de Almada a propósito do que se passava em Paris. Recolhia informação nas revistas, nos jornais, nos livros, nos catálogos que lhe ofereciam ou comprava. Via com atenção os principais filmes. Assistia aos espetáculos de teatro de companhias francesas que vinham a Lisboa. Escutava, com atenção crítica, notícias que ouvia de amigos que chegavam de Paris: Vieira da Silva, Júlio Pomar, Merícia de Lemos, Manuel Cargaleiro. Tudo isto conjugava e recriava a imaginação transfiguradora em contínuo estado de alerta. Assim conseguia Almada Negreiros sentir e estar em Paris, residindo em Portugal
Paris Sempre – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 4 de Fevereiro de 2017, pp. 33/35 – com sublinhados nossos.
 
 
António Valdemar

J.M.M.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

A CENSURA DO ESTADO NOVO SOBRE O JORNAL DE NOTÍCIAS: CONFERÊNCIA

O Museu Bernardino Machado, em Vila Nova de Famalicão, tem vindo a realizar ao longo deste ano um ciclo de conferências dedicado ao tema da Censura na Ditadura Militar e no Estado Novo, desta vez tem como condidada a jornalista e investigadora Isabel Forte.

Título da conferênciaA Censura do Estado Novo sobre o Jornal de Notícias

Conferencista: Isabel Forte

Local: Museu Bernardino Machado

Contactos
Rua Adriano Pinto Basto, n.º 79
4760 - 114 Vila Nova de Famalicão


Telefone: 252 377 733
E-mail: museu@bernardinomachado.org
Vila Nova de Famalicão

Entrada Livre

Data: 29 de Abril de 2016

Horário: 21:30 h

Uma iniciativa a divulgar e a que desejamos o maior sucesso.

A.A.B.M.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

AURORA - REVISTA MENSAL DE SOCIOLOGIA, SCIÊNCIA E ARTE


AURORA. Revista Mensal de Sociologia, Sciência e Arte. Ano I, nº 1 (Setembro 1929) ao Ano II, nº XIV (Outubro 1930); Administração e Redacção: Rua Cunha Espinheira, 131 A [depois, ao nº3, Largo da Póvoa, 9], Porto; Administrador: António Teixeira de Araújo; Editor: Fernando Barros; Director: Abílio Ribeiro; Impressão: Tipo-Lito de Gonçalves & Nogueira, Limitada (Porto); Porto; 1929-30, 14 numrs

Colaboração [Alguns Escritos de …]: A. Aulard, A. Sadier, Alexandre Herculano, Alice dos Reis Mendes, Antero de Quental, Aristides Ribeiro, Arnaldo S.[imões] Januário, B. Inácio, Camilo Castelo Branco, Camilo Pert, Carlos Brandt, Constantino de Figueiredo, Daneff, Delfim de Castro, Dostoiewski, Duarte Lima, Eduardo Casela, Eliseu Réclus, Ernesto Gil, ErricoMalatesta, Fialho de Almeida, Francisco Quintal, Francisco de Sade, G. Molinari, Guerra Junqueiro, Henri Martin, Henrique Nido, Hipólito Havel, Hugo Treni, J. M. Peres, João Serra, João Xavier de Matos, Joaquim Serra, Jacinto Benavente, Jean Grave, Joaquim Dicenta, José de Arruela, Júlio Dantas, Leon Trotsky, Lingelbach, Luís Falcão, Maria Montseny, Mário de Oliveira, MaurícioLachatre, Mayer Garção, Max Nettlau, Maximiano Rica, Medeiros e Albuquerque, [Meridional], Miguel Bakunine, Miguel Hernandez Sanchez, Neno Vasco, Oldemiro César, Pinheiro Chagas, Raul Brandão, Roberto das Neves, Rudolfo Rocker, Tomás da Fonseca, Vicente Garcia, Victor Hugo.


Trata-se de uma importante revista de ideário anarquista, publicada na cidade do Porto durante o tempo da Ditadura Militar, sob responsabilidade do grupo “A Comuna”, aliás do grupo “Propaganda Libertária” (grupo nascido em 1904 e que existe até 1925) que está na sua fundação. A revista – que publicou 14 números e foi encerrada pela PIDE em Outubro de 1930 – é o seguimento do periódico “A Aurora” (nascido da fusão entre o Grupo de Propaganda Libertária e o grupo Aurora Social) e do semanário “A Comuna” (Maio de 1920) e reagrupava, depois da repressão policial, os anarquistas da região do Porto.

Tinha como editor Fernando [de Oliveira Leite] Barros, serralheiro (apaixonado cinéfilo) e militante anarquista do Porto (fez parte do Comité de Propaganda e Organização Anarquista do Norte – 1923/1926), que foi preso a 3 de Outubro de 1930, e deportado [juntamente com “Aníbal Dantas, Anastácio Ramos, Manuel João, José Silva, Domingos Lopes Bibi, todos do Porto, e Mário Castelhano e outros, de Lisboa” – cf. Edgar Rodrigues, “A Oposição Libertária em Portugal 1939-1974”, Sementeira, 1982, p. 177] para os Açores, seguindo depois para Ilha da Madeira. Com o romper da revolta da Madeira (1931), tenta Fernando Barros regressar para o continente, mas, face ao fracasso da revolta, refugia-se em Espanha (Barcelona).
Como director da revista encontramos Abílio Ribeiro, dedicado militante anarquista, que tinha já antes colaborado no semanário comunista libertário do Porto com o título, “A Comuna” (1920-25?), tendo sido mesmo seu editor. Na reunião de resistência ao golpe militar de 28 de Maio de 1926, Abílio Ribeiro é o delegado da União Anarquista Portuguesa (UAP – declarada, pela Ditadura Militar, ilegal em 1929).

A qualidade de administrador está o operário gráfico (e secretário da UON e da CGT) António Teixeira de Araújo [1888-1965 – consultar a sua biografia na “Voz Anarquista”, nº17, Setembro de 1976], com intensa colaboração [usando numerosos pseudónimos] em periódicos anarquistas [como “A Batalha”, “Vanguarda Operária”, “Aurora; “A Comuna”]. Em 1908, António Teixeira de Araújo é um dos fundadores do grupo libertário “Verdade e Luz” (Coimbrões), mantendo o grupo uma escola de ensino livre [cf. Edgar Rodrigues, ibidem, p. 151], o Ateneu Sindicalista.
J.M.M.

terça-feira, 26 de maio de 2015

CONFERÊNCIA – 0 28 DE MAIO, A DITADURA MILITAR E A MAÇONARIA



ORADOR: Prof. dr. Luís Bigotte Chorão;
 
DATA: 29 de Maio 2015 (19,00 horas);
LOCAL: Grémio Lusitano [Rua do Grémio Lusitano, nº 25, Lisboa];
ORGANIZAÇÃO: Museu Maçónico Português [Ciclo “Sextas da Arte Real”]

 “Tendo sido recorrente o fenómeno da interrupção da normalidade constitucional ao longo da História Contemporânea portuguesa, o Movimento de Maio de 1926 podia estar hoje exclusivamente registado nos anais pátrios como mais um desses momentos.

Certo é que as características genéticas desse Movimento acabaram por conferir-lhe excepcionais condições de sobrevivência.

A Ditadura Militar, nem sempre devidamente valorizada no plano historiográfico, inaugurada pelo Movimento de Maio de 1926, é essencial à compreensão do Estado Novo com o qual, porém, não deve ser confundida.

Decorridos 89 anos sobre o 28 de Maio, tem toda a pertinência assinalar esta data histórica, convocando a reflexão (sempre inacabada) sobre os factores de crise da I República, que estiveram na origem do Movimento que, iniciado naquela data, se desenvolveu até 9 de Julho seguinte através de uma sucessão de golpes de Estado e de decisões de autoridade, diferenciados pelas suas lideranças, processos e objectivos.

Para uma melhor compreensão dos anos da Ditadura Militar – que haveria de estabelecer-se em momento constituinte do Estado Novo – importará igualmente apurar a presença da maçonaria portuguesa no âmbito daquele complexo quadro histórico de então.

Contando com a vossa participação, apresento os meus cumprimentos.”

[Fernando Castel-Branco Sacramento - Director do Museu Maçónico Português]

J.M.M.

domingo, 17 de maio de 2015

ALFREDO ERNESTO DE SÁ CARDOSO (1864-1950) E O 14 DE MAIO DE 1915 (Parte II)


Durante o seu percurso militar e depois do regresso de Angola, em 1901, apresenta-se no Ministério da Guerra e no Quartel-General da 1ª Divisão. Em Fevereiro desse ano foi incumbido de realizar uma pequena tarefa na fábrica de armas. Em Julho de apresentou-se no Regimento de Artilharia nº 5, e no final de Dezembro apresentou-se no Grupo de Artilharia de Guarnição nº4.

Transferido em 1902 para o Estado-Maior de Artilharia e foi nomeado adjunto da 2ª Repartição da Direcção-Geral do Serviço de Artilharia. Em Dezembro desse ano foi transferido para o Campo de Tiro de Alcochete onde se manteve até Maio de 1907, tendo realizado diversas tarefas como o exame dos terrenos e dependências do Campo, inventariar as construções e material ali existentes. Estudando a forma mais económica e prática de juntar a Escola Prática de Artilharia com a instrução do Exército.

Com a extinção do Campo em Maio de 1907, passou a desempenhar as funções de vogal da comissão de serviço balístico e da comissão encarregada de proceder à elaboração de um regulamento de tiro e armamento, para armas portáteis e à redacção do respectivo manual.

Em Outubro de 1910, após a implantação da República foi nomeado Chefe Interino de Repartição do Gabinete da Secretaria da Guerra. Participou nos acontecimentos da Rotunda, mas quando soube do suicídio de Cândido dos Reis acabou por fazer uma retirada estratégica. Integrou também a comissão encarregada de reunir num único diploma legal as directivas sobre uniformes do Exército, procurando simplificar e adaptar às novas realidades, em especial em caso de guerra.

Promovido a major e nomeado Chefe de repartição do Gabinete do Secretariado da Guerra em 29 de Junho de 1911. Exonerado destas funções foi transferido para o comando do Grupo do 2º Batalhão de Artilharia de Costa. Em 1913 foi colocado na Repartição Técnica do Arsenal do Exército e nomeado vogal da comissão técnica de fortificações.

Em 1914 presta serviço no Regimento de Artilharia nº2, exercendo as funções de comandante do 1º Grupo e, em 1915, foi transferido para o Regimento de Artilharia nº1, tendo nessa altura sido promovido a tenente-coronel. Foi nomeado Inspector do Material de Guerra do Arsenal do Exército. Em Setembro de 1915 passou a integrar o quadro de Artilharia de Campanha, assumindo em Dezembro de 1916 o comando do 1º Batalhão de Obuses de Campanha.

Em correspondência de João Chagas para Sá Cardoso, em Janeiro de 1915, é possível encontrar uma recomendação ao militar no sentido de se conseguir o reforço do poder governamental. Mas o político republicano [João Chagas], referia que não era partidário de uma ditadura, antes seu adversário e Sá Cardoso, sendo militar, sabia as dificuldades e conflitualidades que se faziam sentir no seio da instituição militar a favor e contra a intervenção dos mesmos na vida política.

Participou na preparação do 14 de Maio de 1915, fazendo parte da Junta Revolucionária que preparou a revolução onde pontuavam António Maria da Silva [único civil], Norton de Matos e Sá Cardoso [majores] além de Freitas Ribeiro [capitão-tenente] e Álvaro de Castro [capitão].

Parte para França, integrado no Corpo Expedicionário Português, em Março de 1917. Durante esta fase é promovido a coronel para o Estado-Maior de Artilharia e, em Outubro de 1917 passa a desempenhar as funções de Comandante-Geral de Artilharia e Comandante de Artilharia da 1ª Divisão, mas em Janeiro de 1918 regressa a Portugal, porque entretanto tinha subido ao poder Sidónio Pais.

Sendo oposicionista da revolta sidonista de 5 de Dezembro de 1917, tendo sido preso em 1918 em situações degradantes que provocaram mesmo a sua queixa junto das autoridades. Segundo relato que nos chegou através do testemunho do seu filho, Carlos Ernesto Sá Cardoso, seu pai teria sido preso em sua casa e conduzido ao Governo Civil de Lisboa. Ali foi detido numa enxovia com outros detidos e depois transferido para o Castelo de São Jorge, tendo depois sido novamente transferido para o forte da Graça, em Elvas. Só viria a ser libertado durante o período conhecido como Traulitânia, comandando nesse período das forças republicanas em operações pelo Alentejo.

Em 1919, fiel à sua índole republicana, participou na ofensiva contra a Monarquia do Norte. Nesse mesmo período foi eleito presidente da Câmara dos Deputados. Em Junho desse mesmo ano assumiu a presidência do governo, acumulando as pastas do Interior e dos Negócios Estrangeiros até 1920. Nessa fase afasta-se do Partido Republicano e, juntamente com Álvaro de Castro, funda o Partido Reconstituinte. Em 1923, transita para os Nacionalistas, que resultaram da fusão com os liberais. Voltou a ser Ministro do Interior entre 18 de Dezembro de 1923 e 6 de Julho de 1924. Participa ainda com Álvaro de Castro na criação da Acção Republicana, onde desenvolve actividade até 1925.

Em 1926, com a Ditadura Militar instaurada em Portugal, Sá Cardoso foi preso e deportado. Inicialmente neutral face ao movimento de 28 de Maio, acaba pouco tempo depois por se manifestar claramente contrário à Ditadura Militar. Combatendo-a com firmeza acaba por ser preso, primeiro para Cabo Verde e depois para os Açores. 

[em continuação]

A.A.B.M.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

"SETÚBAL SOB A DITADURA MILITAR", DE ALBÉRICO AFONSO COSTA

Vai ser amanhã apresentado em Setúbal, na Galeria do Quartel 11, pelas 16.30 horas, a mais recente publicação do Prof. Albérico Afonso Costa Alho, Setúbal sob a Ditadura Militar (1926-1933).

Para proceder à apresentação da obra estarão presentes Carlos Tavares da Silva e Fernando Rosas.

Participam ainda no evento o Grupo Musical Trovas e Cantigas, para animar musicalmente a sessão.

Sobre o autor da obra pode encontrar-se um currículo detalhado AQUI.

A acompanhar com toda a atenção.

A.A.B.M.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

ESTADO NOVO E UNIVERSIDADE: A PERSEGUIÇÃO AOS PROFESSORES


AUTORES: Fernando Rosas & Cristina Sizifredo;
EDITOR: Tinta-da-China (Setembro 2013), p. 144.

A Perseguição aos Professores conta a história de todos aqueles que,  por motivos políticos, se viram impedidos de aceder à docência  universitária, foram afastados dos seus centros de investigação,  impossibilitados de progredir nas carreiras académicas ou  compulsivamente exonerados das suas funções como investigadores ou  professores das universidades portuguesas durante a Ditadura Militar e  o Estado Novo.

A depuração política do corpo docente universitário ou de quem a ele  pretendia aceder, quase sempre fundamentada em informações da polícia  política, atingiu um largo espectro de investigadores ou docentes,  muitos dos quais representavam, nos seus sectores – na matemática, na  medicina, na economia, na física, na agronomia, nas ciências humanas  –, o escol do pensamento científico português. A perseguição política  desses elementos por parte de um regime que considerava a liberdade de  opinião e de expressão, e portanto a liberdade científica, como  incompatíveis com a segurança do Estado, acarretaria nefastas e  duradouras consequências para o desenvolvimento científico em Portugal.

Muitos dos investigadores e docentes perseguidos pelas suas convicções  políticas viram-se forçados ao exílio em vários países da Europa e da  América Latina, ou nos EUA, onde livremente puderam exercer o seu  múnus científico. E aí semearam a marca indelével do seu saber,   deixando aos países que os acolheram aquilo que foram impedidos de  oferecer ao seu.

Não parece possível abordar o problema da depuração política das  universidades sem se compreenderem as relações do Estado Novo com o  saber científico e académico e, portanto, com as universidades, depositárias tradicionais desse conhecimento e órgãos por excelência  da sua reprodução. Tenhamos presente que no projecto político, ideológico e cultural da 'política do espírito', delineado no rescaldo  do plebiscito constitucional de 1933 com a criação do Secretariado de  Propaganda Nacional (SPN), virá a ser atribuído um papel claramente  periférico e subalterno ao saber académico, à cultura científica e às   universidades de uma forma geral”.  [ler AQUI - sublinhados nossos]
 
 J.M.M.

CONTRA O FASCISMO - ORGANIZAÇÃO DA ESQUERDA DEMOCRÁTICA



Contra o Fascismo. Organização da Esquerda Democrática [s.d.]

Assunto: Panfleto da comissão provisória para a organização da Esquerda Democrática sobre reunião a realizar no Grémio Recreativo Operário. 
 

J.M.M.

sábado, 18 de maio de 2013

O LIBELO – PELA REPÚBLICA! PELA LIBERDADE!


O LIBELO – Pela República! Pela Liberdade! [depois, “O jornal clandestino de maior circulação"] – nº 1 (31 Outubro de 1926) ao nº 8 (23 Agosto de 1927), Lisboa, VIII numrs.

Director: “Doutor X”; Redactor: “Libert Bell'.

Trata-se do periódico clandestino de oposição à ditadura militar saída do 28 de Maio de 1926. Tem colaboração (não assinada) de Raul Proença [cf. Raul Proença panfletário e jornalista de folhas clandestinas, 1984]. Refira-se que Raul Proença participou (se não foi ele o único redactor) no também periódico clandestino “Pelourinho”. Pelo “actividade” revelada teve de fugir a mandato de captura e passar à clandestinidade [sobre este assunto “Raul Proença” consultar o curioso “O Caso da Biblioteca”, editado pela BNP] e depois para o exílio.

1 (pdf) digitalizado AQUI [Hemeroteca Municipal]
1 ao nº6 AQUI digitalizado [Fundação Mário Soares]
7 digitalizado AQUI [Torre do Tombo]

J.M.M.


domingo, 6 de janeiro de 2013

LUZ DE ALMEIDA – “UM SIMPLES E LEAL SERVIDOR DA REPÚBLICA”


“Luz de Almeida” – Panfleto, 3 DE Outubro de 1927

Luz de Almeida foi um dos mais contribuiu para a implantação da República, sem nada receber em troca. Deputado em 1911, preferiu ir para o Norte enfrentar as incursões monárquicas. Nunca mais foi parlamentar, nem ministro, nem desempenhou qualquer cargo no novo regime, vivendo do seu vencimento de bibliotecário.

Conservou-se sempre republicano e um alto exemplo moral e cívico.

Foi preso em 1927, no seguimento da revolta de Fevereiro contra a Ditadura militar. Da penitenciária de Lisboa seguiu para a deportação, primeiro na Madeira e depois na ilha de São Jorge, Açores. Este panfleto, publicado quando estava na prisão, sublinha o seu carácter e o seu exemplo impoluto".


J.M.M.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

MEMÓRIAS DE UM RESISTENTE ÀS DITADURAS


LIVRO: "Memórias de um resistente às Ditaduras";
AUTOR: Manuel António Correia [introdução de Irene Flunser Pimentel];
EDITORA: Temas & Debates.

Combatente do 5 de Outubro de 1910 e da geração dos que foram mobilizados no Corpo Expedicionário Português para a França e a Flandres durante a Grande Guerra e participaram depois em inúmeras sublevações contra a ditadura militar e o Estado Novo, o coronel Manuel António Correia (1893-1987) escreveu estas memórias aos 91 anos, levado pela constatação de «que a maior parte dos nossos jovens, e mesmo alguns adultos, desconhecem quase completamente tudo que se relaciona com a implantação da República em Portugal» e também porque a maioria dos portugueses «ignora o que foi a comparticipação portuguesa na Grande Guerra, o que motivou a nossa ida para França e as consequências daí advindas», bem como desconhece «o que foi a prolongada luta contra a ditadura fradesca de Salazar». [ler AQUI]

J.M.M.

domingo, 24 de abril de 2011

CRUZADA NUN’ÁLVARES – PARTE III


Em 1920, o Congresso da República instituiu a “Festa do Patriotismo” e determinou o levantamento de um monumento ao beato Nun’Álvares. A 14 de Agosto de 1921 comemorou-se a “Festa da Pátria”, com a presença do presidente da República, e que teve participação de laicistas como Magalhães Lima a par de uma comissão de mulheres pertencentes à Cruzada Nacional Nuno Álvares Pereira. No Manifesto de 1921 da Cruzada Nun’Álvares [escrito por Trindade Coelho; subscrito por republicanos conservadores (António José de Almeida, Braamcamp Freire, Egas Moniz, Henrique Trindade Coelho, Alfredo de Sousa, Jacinto Nunes, Celestino de Almeida), por católicos sociais (cónegos Martins do Rego e José Dias Andrade), por monárquicos constitucionalistas (Mello Breyner, Anselmo da Andrade, Costa Mesquitela) e por monárquicos integralistas (Pequito Rebelo, Antonio Sarmento Brandão)] e no seu Manifesto de 1926 (sob a pena de Martinho Nobre de Melo) já se “descortinavam alguns traços da síntese ideológica do Estado Novo, expressa por Oliveira Salazar no discurso de 30 de Julho de 1930” [ver Ernesto Castro Leal, ibidem]

A 14 de Agosto de 1925 é lançada a primeira pedra do monumento, justamente no Jardim de Santos (Lisboa) o qual passou a denominar-se Praça D. Nun’Álvares. Com sede em Lisboa, a organização estende-se a todo o país. Em 1923 a Cruzada aponta já a Itália de Mussolini como modelo a adoptar [cf. João B. Serra, Da Republica ao Estado Novo]. Não espanta, portanto, o apoio dado ao movimento militar sedicioso de 18 de Abril de 1925 [chefiado por Sinel Cordes, Filomeno da Câmara e Raul Esteves], bem como o discurso nacionalista revolucionário que o formatava, a que se seguirá o dia triunfante de 28 de Maio de 1926, com Gomes da Costa [sidonista e membro da Cruzada Nun’Álvares], Mendes Cabeçadas e Óscar Carmona. De referir que Martinho Nobre de Melo, director da revista “Reconquista” a partir de 15 de Janeiro de 1926, escassos treze dias antes do 28 de Maio (nº 6, de 15 de Maio de 1926) publica a foto de Gomes da Costa na primeira página da revista, com a legenda “Chefe nacional?” [cf. Ernesto Castro Leal; ver tb Luís Bigotte Chorão, op cit, p. 284].

As “experiências” tentadas pela Ditadura após o 28 de Maio, sempre com essa ideia estratégica da construção de uma “elite governamentalprovidencial, como foram a constituição da Milícia Nacional (1926), a União Nacional (1926-27) e a Vanguarda Nacional [1936, que com Afonso Miranda e o general Farinha Beirão propunham uma “dinâmica milicial” própria, mais tarde “absorvida” pela fundação da Legião Portuguesa], tiveram o apoio continuador da Cruzada ou do que dela restava, pois nunca esteve ausente do debate ideológico [ver Ernesto Castro Leal, ibidem]. Em 1928 a Cruzada Nun´Àlvares promove uma curiosa peregrinação a Fátima, dirigida pelo cónego Magalhães, onde estiveram presentes a comissão executiva da organização.

A organização extinguiu-se em 1938, dado estar em convergência com o ideário do Estado Novo, “reconhecendo a chefia pessoal de Oliveira Salazar” [Ernesto Castro Leal, ibidem].

Teve a Cruzada Nun’Álvares, além do seu Boletim, revistas ou órgãos doutrinários, como a “Cruzada Nacional Nun'Alvares” [1, Novembro de 1922; com subtítulo, revista quinzenal e órgão oficial da Cruzada Nacional D. Nun'Álvares Pereira; Direcção: João Afonso de Miranda; Impressão: Tip. Garrett, Lisboa]; a “Revista Nacional" [1, 15 de Maio de 1925 ao nº2; com o subtítulo de Órgão Defensor da Cruzada Nacional Nun’Álvares Pereira; Director: João Afonso de Miranda]; a já citada revista “A Reconquista” [1, 15 de Janeiro de 1926 ao nº6, 15 de Maio de 1926; aparece com o subtítulo, Órgão da Cruzada Nacional Nun’Álvares e da Liga Operária e Académica do Condestável; Administrador: João Xavier de Paiva; Editor: António Bernardo da Fonseca Batista; Colaboradores: Afonso Lopes Vieira, Afonso Lucas, Américo Durão, Anselmo de Andrade, Filomeno da Câmara, Hipólito Raposo, Martinho Nobre de Melo, João Ameal, Redacção e Adm: Travessa S. Pedro de Alcântara, 15; Director: Martinho Nobre de Melo; Correspondência: Rua da Palma, 180, 1º, Lisboa]; e a revista “Galeria do Santo Condestável” [1, 1929; publicação periódica da Cruzada Nacional Nun'Alvares; Direcção: F. M. Lobo da Costa].

FOTO: reprodução da revista "A Reconquista" (nº1), retirada, com a devida vénia, da obra citada de Luís Bigotte Chorão, "A Crise da República e a Ditadura Militar", Sextante, 2009.

J.M.M.