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sábado, 29 de junho de 2019

NO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE RAMON MACHADO DE LA FERIA (1919-2003)





Ramon Machado de La Feria nasceu na freguesia de São Salvador, concelho de Serpa a 27 de Junho de 1919. Era filho de Helena da Ascensão do Prado Machado e do médico republicano e ilustre maçon Ramon Nonato de La Feria 


[nascido a 18 de Julho de 1886, em Serpa – cf A.H.de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria, vol. 1, p. 563; bacharel em medicina e republicano militante do partido Unionista, de Brito Camacho; é ele que anuncia a boa-nova da implantação da Republica ao povo de Serpa; combateu em França na I Grande Guerra e foi um íntegro combatente contra o Estado Novo, foi preso por diversas ocasiões (na sequência da revolta da Madeira; entre 1937-1939, curiosamente acusado de integrar a maçonaria - Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 29, registo nº 5776), presidiu (1925) à direcção do Grémio Alentejano; pertenceu ao MUD e esteve sempre presente nos diversos combates eleitorais; Ramon Nonato de La Feria foi iniciado na Maçonaria com o n.s. de Claude Bernard, em 1914, na Loja Cândido dos Reis, onde teve diversos cargos, entre eles de Venerável; pertenceu ao Supremo Conselho do grau 33 do REAA, tendo sido eleito Presidente do Conselho da Ordem para o período de 1927-29 e 1930, demitindo-se, neste ano, a 12 de Setembro; integrou, em 1930, a Comissão de Estudos Profanos do GOLU, que presidiu – cf. António Ventura, Uma História da Maçonaria em Portugal, p, 698, 736; integra, em 31 de Março de 1935, o Conselho da Ordem, então presidido por Maurício Costa, mantendo-se no cargo até ao 25 de Abril de 1974; morre a 10 de Novembro de 1970, em Lisboa]


Frequenta os seus estudos liceais no Liceu Camões (em Lisboa), cursou medicina na Universidade de Lisboa (no Campo Santana), ingressando na carreira médica com a especialidade em Anestesiologia Cardíaca. Chefe de clínica, foi desde 1960 responsável pelos Serviços de Anestesiologia e Reanimação do Hospital Pulido Valente. Teve copiosos trabalhos de investigação publicados e diversos cargos na Ordem dos Médicos  e da Liga dos Direitos do Homem


Como estudante universitário foi preso a 28 de Março de 1947, por mandado de captura do inspector da PIDE, capitão José Catela, e enviado para a cadeia do Aljube. Tinha-lhe sido atribuído o crime de ter assinado em nome da direcção universitária de Lisboa do MUD Juvenil (como outros seus companheiros: José Carlos Gonçalves, Fernando Pulido Valente, Joaquim Ângelo C. Rodrigues e Carlos Gomes) e distribuído, um panfleto ciclostilado intitulado “Em defesa da Universidade” e onde se verbera a iníqua detenção do estudante da Faculdade de Ciências (e também membro do MUD Juvenil – organização ilegal e clandestina para a PIDE) Mário Ruivo. Teve como seu defensor em Tribunal Plenário, o advogado João Manuel da Palma Carlos. Cumpriu pena de prisão em Caxias, com perda de direitos políticos por cinco anos.    




Isto é, desde a primeira hora que Ramon Machado de La Feria marcou a sua posição contra o salazarismo e o Estado Novo. Republicano assumido, pertenceu à direcção do MUD Juvenil e integra ao longo da sua vida diversos centros republicanos, assumindo mesmo a Presidência da Comissão Permanente das Assembleias Gerais dos Centros Republicanos de Lisboa, “procedendo à reestruturação das instituições [republicanas] que chegaram até ao 25 de Abril” – cf. António Valdemar, República, 10 de Dezembro de 2003, p. 8. -, presidindo às Comissões Cívicas da Comemoração do 5 de Outubro até à sua morte. 


Em 1952, estando a cumprir o serviço militar como oficial miliciano, foi de novo detido pela PIDE (no Aljube e Caxias, durante 2 meses e meio) por “envolvimento num movimento de oficiais milicianos ligados a Henrique Galvão” [António Valdemar, ibidem] contra Salazar. Em 1968 é de novo preso no Aljube e em Caxias, acusado de ser um dos responsáveis da tentativa de derrube do regime, com apoio de um grupo de militares. Já em 1973, enquanto presidente da Ordem dos Médicos, Ramon Machado de La Feria é preso por ter denunciado em público a intervenção da PIDE no assassínio do estudante do MRPP, Ribeiro dos Santos. Depois de Abril de 1974, integra o MDP/CDE e depois filia-se no PS.  


Em Fevereiro de 1973, seguindo os passos do seu ilustre pai, inicia-se na Maçonaria com o n.s. de Marat, na Loja Simpatia e União [A Loja Simpatia e União, foi das poucas oficinas que não abateram colunas; tinha em Abril de 1974 cerca de trinta e seis obreiros – ver Casa 4. A Loja dos Grão-Mestres Sympathia e União 1859-2009, p. 108], por proposta do então Grão-Mestre Luís Hernâni Dias Amado [n.s. Zacuto Lusitano]. Pertenceu, em 1975, à Loja Cândido dos Reis (ver Manuel Poirier Braz, Eu Maçon me Confesso, p. 38 e ss; foi nesta loja que o seu pai tinha sido iniciado), tendo sido nomeado Grande Secretário das Relações de Justiça do Conselho da Ordem, depois Presidente do Conselho da Ordem Interino (1975 e 1976); atinge o grau 18 (cavaleiro Rosa-Cruz) em 1975, o grau 25, em 1977, grau 30, em 1979 e o grau 33, em 1980, com um curioso trabalho “Maçonaria - Sociedade Iniciática”, integrando o Supremo Conselho do Grau 33 do REAA. Em 1987 pertence ao quadro da Loja José Estêvão. Com um notável curriculum maçónico, é eleito como Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano para o período entre 1990 a 1993, tendo como Adjuntos António [Maria Lobo de Vasconcelos] Corte-Real e Mário de Sousa Dias. Data desse período uma “grave querela” que opõe o REAA e o RF. 


Foi associado do Internato de S. João, integrando por diversas vezes a sua direção, foi sócio da Escola-Oficina nº1, presidiu à Mesa da Assembleia Geral do Centro Republicano Almirante Reis, do Centro Republicano Fernão Botto-Machado, do Centro Republicano da Ajuda e foi membro da Comissão de Romagem aos Heróis de 5 de Outubro (Cemitério do Alto de S. João). A 25 de Julho de 1989 foi feito Comendador da Ordem da Liberdade.   


Morre vítima de doença prolongada a 25 de Maio de 2003


J.M.M.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

ESCOLA PRÁTICA DE CAVALARIA – MEMÓRIA (1890-2013)



LIVRO: Escola Prática de Cavalaria – Memória (1890-2013);
AUTORES: António Xavier Pereira Coutinho | António Eduardo Queiroz Martins;
EDIÇÃO: Fronteira do Caos, 2018, 282 pp.

“A Escola foi detentora de um excecional percurso histórico ligado aos destinos de Portugal, em momentos relevantes e decisivos da nossa História. Desde a Primeira Guerra Mundial, passando pelo papel decisivo na alteração do regime político em Portugal e na defesa de Portugal em África, bem como mais recentemente, na participação em missões internacionais, os Cavaleiros escreveram páginas de honra, lealdade e bravura, individual e coletiva, demonstrando uma notável disponibilidade para bem servir o Exército e a Nação em todas as circunstâncias.

A Escola Prática de Cavalaria sempre soube adaptar-se às sucessivas evoluções dos assuntos militares, introduzindo em cada época os ajustes necessários às exigências estratégicas de Portugal. De forma constante manteve o espírito do Cavaleiro, aquele que domina o animal ou controla a máquina, com o seu rasgo de iniciativa, bravura e audácia, suportado no forte espírito de corpo, na abnegação e no sacrifício.

Este livro é, assim, uma afirmação de que hoje, tal como ontem, a nossa Cavalaria continua a alicerçar a sua força e coesão em valores e tradições intemporais, em idiossincrasias próprias, fatores que associados à criatividade, dinamismo e ambição dos seus militares, lhe confere serenidade e confiança face ao futuro”.

(Da Nota de Abertura pelo CEME General Frederico Rovisco Duarte)


J.M.M.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

A MAÇONARIA EM ÉVORA (1908-1936) - CONFERÊNCIA



DIA: 22 de Novembro de 2018 (18,30 horas);

LOCAL: Biblioteca Pública de Évora [Largo do Conde de Vila Flor 4, Évora];
ORGANIZAÇÃO: Centro de História da UL | IHCFCSH-UNL | Centro de Estudos de História e de Filosofia da Ciência da Universidade de Évora.

ORADOR: Prof. António Ventura

"O Centro de História da Universidade de Lisboa irá promover uma conferência intitulada "A Maçonaria em Évora (1908-1936)", a ter lugar na Biblioteca Pública de Évora, no próximo dia 22 de novembro.

A conferência será proferida pelo Professor Doutor António Pires Ventura, Professor Catedrático do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Organização: Centro de História da Universidade de Lisboa; Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa; Centro de Estudos de História e de Filosofia da Ciência da Universidade de Évora" [AQUI]

J.M.M.

domingo, 30 de setembro de 2018

IN MEMORIAM FERNANDO FERNANDES [1934-2018]



Partiu de entre todos nós, FERNANDO FERNANDES, livreiro da mítica livraria portuense “Leitura” (com uma entrada na rua de Ceuta e outra pela rua José Falcão; foi fundada em Setembro de 1968 por Fernando Fernandes e José Carvalho Branco, silenciando-se só em 1999), um espaço de encontro, esperança e luta contra a ditadura, um local de culto que uma geração conheceu e venerou. Anos antes (1958) já Fernando Fernandes, o guardião dos livros, tinha decidido entrar no mundo dos livros, criando a livraria “Divulgação”.
Fernando Fernandes nasceu em Águeda e vem residir [em 1941; cf. Pedro Pereira Leite, Pela estrada larga: O Livreiro Fernando Fernandes e as memórias duma geração – texto que seguimos de perto e para qual remetemos a sua gostosa leitura] para a cidade do Porto, que muito amou. Órfão muito cedo, acedeu ao convite para dirigir a sessão de livros da papelaria Aviz. Tinha 18 anos e um especial assombro e entusiasmo pelo papel impresso. Estava traçado o seu destino nessa nobre “arte de vender livros”, da qual muitos dos livreiros herdaram muito do que sabem. O “poeta dos livros” marcou, seguramente, toda uma geração de livreiros.

Fernando Fernandes não era, porém, um simples e erudito livreiro, era um cidadão íntegro e de corpo inteiro, que vivia intensamente o seu tempo, por isso não espanta que tenha (em 1953) integrado o MUD Juvenil [idem, ibidem], combatendo com determinação a ditadura. Foi aí, porventura, pelas tertúlias culturais organizadas pela oposição, e onde participa, que lhe nasce esse gosto e entrega pelo serviço público cultural, ornamento do seu negócio do livro.    

Foi preso (1955), internado no hospital psiquiátrico [Conde Ferreira; idem ibidem] e julgado no célebre processo [o seu advogado era Alexandre Babo] que levou à prisão 52 democratas do Porto, na violenta repressão salazarista que se abateu contra os estudantes universitários do Porto, e que culminou na proibição legal (1957) do MUD Juvenil. Sai em liberdade e regressa à sua secção de livros da papelaria Aviz.   
Em 1958, na sequência da sua colaboração com o movimento cívico “Convívio” [que editava os cadernos Convívio, como depois publicava livros; tinha os bons auspícios de Afonso Cautela], vendendo no seu estabelecimento as suas edições, foi-lhe feito a proposta de criar uma livraria, convidando Fernando Fernandes para a sua direção. Fernando Fernandes depois de muita hesitação [“foi a decisão mais difícil da minha vida” – ibidem] deixou o trabalho na papelaria Aviz (com alguma tristeza, pela sua grande amizade com o proprietário, Manuel Camanho) e funda em Junho a livraria “Divulgação”, “na esquina da rua de Ceuta nº 88, com a rua José Falcão. Como novidade, a nova livraria organizava-se com secções temáticas, publica um boletim bibliográfico mensal, patrocinava sessões de autógrafos com escritores, tinha uma galeria de arte e secção de discos, organiza exposições bibliográficas [como aquela organizada em 1963, por José Augusto Seabra, sobre o vate Fernando Pessoa, e que ficaria célebre pelo incidente verificado com o dr. Pedro Veiga (Petrus), e que não cumpre aqui referir]. Tudo isso era notoriamente inovador, pelo que desde o seu início foi um centro dinamizador cultural da cidade e um local conotado com o reviralhismo conspirativo e a oposição à ditadura. A Divulgação abriu mesmo duas livrarias mais, uma (1964) em Lisboa e outra em Viana do Castelo, o que de certo modo originou problemas financeiros que se foram agravando, levando ao encerramento da livraria em 1968 [sobre este assunto ver Pedro Pereira Leite, ibidem].



Fernando Fernandes não desiste e, com o apoio de Jaime Castelo Branco (que se torna seu sócio) reabre a livraria [recuperando-a da tutela da Bertrand], agora com o nome de “Livraria Leitura”. De novo impera o mesmo espírito de amor aos livros e tributo aos seus ledores, a mesma “referência da elite intelectual do Porto”, pelo que floresce e alarga-se a outras zonas e regiões (caso de Aveiro).  Até ao 25 de Abril de 1974, foi objeto contínuo de vigilância da PIDE, mas mesmo assim lá se encontravam os inúmeros opúsculos, textos e livros proibidos de circular pela censura, continuando a ser um local de paragem obrigatória ao cidadão democrata e livre, uma espaço de tertúlia cultural e de fraternidade. Em 1998 Fernando Fernandes reforma-se, “descontente com o rumo que estava a ser seguido pelo mercado livreiro, com a emergência de novos espaços comerciais, onde nem sempre o livro é tratado com a devida deferência”. Em 2017, Fernando Fernandes leiloa a sua estimada biblioteca (o Catálogo com a colaboração de Armando Alves e Albano Martins) e sua colecção de Arte.
Morre a 30 de Setembro de 2018.

[NOTA: agradecimento especial a Pedro Baptista]
J.M.M.

domingo, 23 de setembro de 2018

FERNANDO PESSOA, UM RETRATO FORA DA ARCA



Da Resistência a Fernando Pessoa” – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso
Motivos literários, políticos e religiosos ajudam a explicar a lenta, polémica e difícil compreensão do poeta

"Fernando Pessoa, Um Retrato Fora da Arca”, por Zetho Cunha Gonçalves, integra mais de 400 páginas com artigos e depoimentos repartidos em quatro núcleos temáticos: a homenagem da revista “Presença” em 1936, os próximos do seu convívio, o presente da amizade retribuído e as vozes da intimidade comunicantes. Pretende ser “a mais alentada recolha de textos alguma vez dada a público, não só de Fernando Pessoa sobre os seus pares mais próximos, como também, sobretudo daqueles com que eles mais intimamente conviveram humana e literariamente”. É um contributo, sem dúvida, mas não se poderá considerar exaustivo.
A recuperação de textos dispersos principiou com as “Páginas de Doutrina Estética”, coligidas por Jorge de Sena, em 1946, e insere-se, a partir de 1942, no âmbito das obras completas editadas pela Editorial Ática, de Luís de Montalvor. Disponibilizou elementos fundamentais para elaborar as primeiras biografias e estudos críticos. Assinala os primórdios da divulgação ainda muito contestada da produção ortónima e heterónima de Fernando Pessoa.

A escolha para “Um Retrato Fora da Arca” dos dois artigos de Alfredo Guisado no semanário “O Diabo”, de 1935 e de 1936, escritos sob o impacto da morte de Pessoa, e devido a muitos disparates nos jornais e de lamentáveis omissões, merece, todavia, ser completada com a entrevista que Alfredo Guisado concedeu à revista “Autores”, (número 10, de 1960) e que, embora não assinada, é da autoria do diretor e único redator Luís de Oliveira Guimarães.
Ainda sobre Alfredo Guisado aguarda-se, há muito, a colheita e a seleção de centenas de artigos e crónicas acerca do grupo e da geração do Orpheu, no jornal “República”, do qual foi um dos diretores de fins dos anos 40 a fins dos anos 60. Traçou perfis de amigos e companheiros, descreveu episódios desconhecidos, envolveu-se em guerrilhas com Gaspar Simões e Casais Monteiro.
 
 

ERROS CRASSOS
A polémica desencadeada, em 1950, por Gaspar Simões, nos dois tomos de “Vida e Obra de Fernando Pessoa” motivou a crítica pertinente de Augusto Ferreira Gomes, em entrevista de que lemos, agora, alguns excertos reveladores. Todavia, o ataque mais documentado e profundo depara-se em “Fernando Pessoa — Notas a uma Biografia Romanceada”, por Eduardo Freitas da Costa. Pertencia à família, convivera de perto com Pessoa, nos últimos anos. Estava habilitado para rebater opiniões, apontar lacunas e denunciar erros, alguns deles crassos. Por ser um adversário político confesso, João Gaspar Simões recusou-se a proceder às retificações que se impunham em edições posteriores.

A propósito de erros crassos existem outros nas “Páginas Íntimas e de Autointerpretação”, organizadas por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho. São, por exemplo, detetáveis na identificação de Esther Duval, que era a atriz Esther Leão, ou acerca de Carlos Corado, como mais um possível heterónimo de Pessoa. Tratava-se, afinal, de Carlos Celestino Corado, grande contador de histórias de bastidores políticos e culturais, colega de Pessoa no Curso Superior de Letras, bibliotecário do Palácio de São Bento e do “Jornal do Comércio”. Retificou o equívoco Hernâni Cidade, num artigo publicado n’ “O Primeiro de Janeiro”.
AS RESTRIÇÕES DA IGREJA

A igreja católica, durante décadas, formulava as maiores restrições a Fernando Pessoa, enquanto glorificava Mário Beirão, autor do hino da Mocidade Portuguesa e, sobretudo, António Correia de Oliveira, a proposta sempre na manga para um candidato português ao Nobel da Literatura. Uma das vozes mais influentes da igreja, o padre Moreira das Neves, consultor da nunciatura e do episcopado, biógrafo encartado do cardeal Cerejeira, chefe de redação do jornal “Novidades”, órgão diário do episcopado até ao 25 de Abril, depôs no inquérito do semanário “Acção”, mas não foi selecionado para “Um Retrato Fora da Arca”.
Não seria despiciendo divulgar o que, então, disse Moreira das Neves. Reconhecia Fernando Pessoa “um dos poetas mais densos da literatura portuguesa” e, logo a seguir, afirmava perentoriamente: “Crivado de enigmas e com sede de luz, debateu-se entre Deus e o poder das trevas. Daí o hermetismo de muitos dos seus versos e o pendor profético de tantos outros. Lastimo todos os erros que Fernando Pessoa não soube evitar.”

Afonso Lopes Vieira, um dos denominados “mestres da portugalidade”, autor do Avé de Fátima e da Oratória de Fátima musicada, em 1932, por Ruy Coelho, no inquérito da “Acção”, sobre Fernando Pessoa foi categórico: “Quanto à sua vasta obra poética, pelo que conheço, encontro um exoterismo (sic) ou cabalismo que sinto pouco e entendo mal.”
FRASEOLOGIA UNIVERSITÁRIA
Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, até ao fim dos anos 50, fundador e diretor da revista “Colóquio”, até 1975, Hernâni Cidade, colega de Pessoa no Curso Superior de Letras — em texto agora não recuperado do inquérito da “Acção” — ao pronunciar-se acerca de Fernando Pessoa considerava que a sua poesia “procura, acima de tudo intuir os frémitos desconexos, os nevoentos emaranhamentos do mundo interior, em sua atividade subconsciente pré-lógica”.

Esta fraseologia que sempre foi peculiar a Hernâni Cidade, seja a escrever ou a falar sobre Camões, Vieira e outros poetas e escritores clássicos ou contemporâneos, marcou sucessivas gerações de alunos.
A opinião que predominava na Faculdade de Letras de Lisboa, foi alterada por Vitorino Nemésio, catedrático de Literatura Portuguesa Contemporânea. Não sendo um pessoano militante, incitou Jacinto do Prado Coelho a não continuar com a novela camiliana — uma das especialidades do pai, António do Prado Coelho, discípulo de Teófilo — e a preparar a tese Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, concluída em 1949.
 
 

BANDEIRA POLÍTICA
Outro depoimento do insuspeito José Osório de Oliveira que se limitou à “Mensagem”. “Teve, esse livro — acentuou — a pior sorte que em Portugal pode ter uma obra literária; servir de bandeira política”. Muitos “do outro lado, passaram a admirar Fernando Pessoa só no dia em que ele escreveu contra a extinção das ordens secretas”.

Em face de tudo isto a oposição republicana, socialista e comunista, até aos anos 50/60, rotulava Fernando Pessoa de poeta fascista. Tanto mais que publicara, em 1928, a “Defesa e Justificação da Ditadura Militar”. Recorde-se que Pessoa rejeitou este folheto editado pelo Núcleo de Ação Nacional. Com efeito, na nota biográfica, com data de 30 de março de 1935 escreveu: “Deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isto e talvez que repudiar muito.”
A POSIÇÃO DE MÁRIO SOARES

Os preconceitos dos neorrealistas foram, por vezes, ostensivos. Deveriam ser recolhidos e analisados. Mário Soares — companheiro e amigo dos neorrealistas, editado na coleção do Novo Cancioneiro, casado com Maria Barroso, intérprete dos principais poetas do neorrealismo — aproximou-se de Fernando Pessoa “só no exílio em Paris e, fundamentalmente, depois do regresso a Portugal” — confidenciou-me, recordando o forte impacto na sua formação literária e cívica incutido por Álvaro Salema. “A minha visão democrática de Portugal” — prosseguia — “foi alicerçada com a leitura de escritores, poetas e ensaístas dos séculos XIX e XX“. E enumerava: “Herculano e Garrett, Antero e Oliveira Martins, Eça que li e continuei a ler e a reler, até aos intelectuais da República, ao grande escritor da República, Teixeira Gomes, e aos críticos da República, Sérgio, Cortesão e Proença”. A referência era, portanto, a “Seara Nova” e não o “Orpheu”.
Já Presidente da República, numa viagem a bordo do “Sagres”, em agosto de 1986, entre Ponta Delgada, escala nas Berlengas e desembarque no Tejo, aproveitou a oportunidade para, “em contato direto com o mar” fazer uma leitura da “Mensagem”. Leu e gostou muito. Pessoa, para Mário Soares, passou a constituir uma surpresa. Antes o grande poeta era Antero que Álvaro Salema “o obrigou no 7º ano do liceu a ler e a comentar”, na edição dos sonetos prefaciada por António Sérgio. Diversas vezes disse a Mário Soares que não era a obra principal de Pessoa. Respondia-me que “era o único livro que Pessoa editara em português, que teve o cuidado de rever cada poema e que fez a sistematização num todo simbólico”. Procurei lembrar a Mário Soares a opinião do próprio Pessoa sobre a “Mensagem” e que reencontro agora textualmente na famosa e histórica carta a Casais Monteiro sobre os heterónimos: “Não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz com um livro da natureza de Mensagem. Sou, de facto, um nacionalista místico, um sebastianista racional. Mas sou, à parte isso — referia Pessoa na mesma carta — e até em contradição com isso, muitas outras coisas.”
 
 

AS DECLARAÇÕES DE ÁLVARO CUNHAL
No Martinho da Arcada, num encontro organizado por Luiz Machado, em maio de 1991, interroguei Álvaro Cunhal sobre Pessoa, a relação de Pessoa com os fascismos europeus e a “Mensagem”. O Pessoa que Cunhal gostava era Álvaro de Campos. Acerca da “Mensagem” — e estou a transcrever um texto gravado — foi ainda mais categórico: “A ‘Mensagem’ é um momento contraditório na obra de Fernando Pessoa. É uma encomenda do Secretariado da Propaganda, do futuro SNI, uma obra para um prémio, fomentada e inspirada por António Ferro.” “É uma obra fraquíssima, porque Pessoa quis conformar a obra poética com a mensagem política. E o resultado foi que a obra poética fracassou completamente. A ‘Mensagem’ — insistiu — é um fracasso.” Fez questão de acrescentar logo: “Mas em Almada Negreiros, um homem profundamente comprometido com a ditadura fascista, eu reconheço o grande desenhador que ele foi. Isto conforma que é preciso saber distinguir a obra de arte do artista e a sua opção política.”

Tentei demonstrar que os poemas da “Mensagem” eram das primeiras duas décadas do século, publicadas em vários jornais e revistas, muito anteriores à fundação do Secretariado dirigido por António Ferro. Imperturbável, Álvaro Cunhal concluiu a rir, “Olhe que não… olhe que não…”

“MALABARISMO” FREQUENTE
Gustavo de Fraga, no mesmo inquérito, promovido pela “Acção” entrevistou — e vem agora na íntegra em “Um Retrato Fora da Arca” — Vieira de Almeida, antigo colega de Pessoa no Curso Superior de Letras, personalidade do maior prestígio intelectual e cívico. Recordo-me muito bem que, ao falar de Pessoa, Vieira de Almeida caía no absurdo de afirmar que “o seu caso não é excecional, pois (António) Feijó também se serviu do heterónimo de Abreu e Lima”, sem distinguir e clarificar a diferença entre pseudónimo e heterónimo. Muito mais grave, ainda, era quando Vieira de Almeida — sem conseguir dilucidar as diversas personas de um “drama em gente” — declarava com veemência: “Pessoa foi, frequentemente, um malabarista. Há na sua poesia malabarismo, ironia… e creio que muitas vezes ele próprio não sabia onde terminava isso e começava algo diferente.”
 
 

DOIS CRIMES DO JORNALISMO
Mesmo em cima da morte e do funeral de Fernando Pessoa, Norberto de Araújo, um dos jornalistas mais celebrados da época e ainda hoje lembrado como “mestre de estudos olisiponenses”, na página semanal que mantinha no “Diário de Lisboa”, enaltecia o teatro de Eduardo Schwalbach e as crónicas de Augusto de Castro — dois diretores do “Diário de Notícias” — com os adjetivos mais retumbantes, enquanto reduzia Fernando Pessoa a uma figura estranha e bizarra, a vaguear nas ruas da cidade (“Diário de Lisboa”, 5- 12- 1935). Não era de esperar outra coisa de Norberto de Araújo e de muitos outros jornalistas. Uma das raras exceções foi António Ferro. Aliás, o próprio Fernando Pessoa, em carta a António Ferro, identificava, na época, o jornalismo português mergulhado em “dois grandes crimes mentais — a lentidão e a tradição”; (…) “o bolor radicalmente póstumo dos Emídios Navarros, Marianos de Carvalho, Eduardo Coelho e quantos mais, de igual estirpe, que pesam no passado do jornalismo presente como calos do abismo.”

Entre os méritos de Fernando Pessoa, um retrato fora da arca, organizado por Zetho Cunha Gonçalves, somos confrontados com testemunhos curiosos. Não deixa de ser interessante conhecer depoimentos que revelam os insólitos motivos literários, políticos e religiosos que determinaram a lenta, difícil e polémica compreensão da obra de Fernando Pessoa até atingir toda a irrecusável dimensão nacional e projeção universal.
Da Resistência a Fernando Pessoa – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 22 de Setembro de 2018, pp. 66/67 – com sublinhados nossos.
 
António Valdemar
 

J.M.M.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

JOSÉ EDUARDO SIMÕES COIMBRA – MISTÉRIOS ANTIGOS, MARINHA, MAÇONARIA



AUTOR: Luís Vaz;
EDIÇÃO: Âncora Editora, Setembro 2018

LANÇAMENTO:

DIA: 22 de Setembro 2018 (17,30 horas);
LOCAL: Fornos de Algodres (Biblioteca Maria Teresa Maia Gonzalez);
ORADORES:
Luís Vaz | José Adelino Maltez


“[…] José Eduardo Simões Coimbra [1908-1996] - alvo da nossa atenção nesta obra e com quem tivemos o privilégio de conviver – foi um desses Mestres que na nossa mais profunda convicção, entendemos que os iniciados e aqueles que vierem a ter o privilégio de serem iniciados, devem conhecer. A sua vida impoluta e prenhe de virtudes raras, deve ser conhecida na sua componente profana que creio poucos maçons conhecem, e na sua componente Maçónica, conhecida por muitos, mas, por muitos desconhecida atendendo ao devir do tempo e à pouca tendência para que o futuro seja pensado com o fermento do passado e da memória.
 
Quanto á componente profana, tentamos conhecer o seu percurso histórico desde o seu nascimento até ao seu ingresso no curso de Engenharia Maquinista Naval na Escola Superior Naval da Marinha Portuguesa. Tivemos algumas dificuldades, sobretudo no histórico da sua infância e adolescência, atendendo a que o tempo fez mudança e a mobilidade dos arquivos colocou documentação a seu respeito em espaços que se desconhecem. Não obstante, foi interessante o recurso á tradição oral que nos facultou informação sobre o seu percurso escolar, do Liceu á Escola Superior Naval, que se nos afigura aproximar-se de uma realidade inteligível. Foi mais fácil a análise do seu percurso académico superior e profissional como quadro da Marinha Portuguesa e cuja documentação foi possível analisar com as autorizações legalmente instituídas.
 
É esta história que começa em Vila Chã – Fornos de Algodres, passa por Coimbra, continua o seu percurso pela Escola Superior Naval, no Alfeite em Almada, e percorre continentes e mares, nas residências flutuantes de uma das mais nobres instituições militares, mas sobretudo, de educação, instrução e formação profissional. Passado á reforma fixou-se em Lisboa, só regressa ao “berço”, após o seu desaparecimento físico, onde jaz no cemitério de Vila Chã, Concelho de Fornos de Algodres.
 
Como Maçon [Irmão Victor Hugo - integrou a loja Simpatia e União, nº4, de Lisboa], destacamos a data da sua iniciação clandestina em 1945, assumindo riscos que poderiam fazer perigar a sua carreira e a sua vida. Mas o GOL - Grande Oriente Lusitano, Maçonaria Portuguesa, lembra Simões Coimbra nas suas facetas especiais e plurais, considerando-o uma referência na convivência cívica entre os maçons e de uma extrema dedicação á Obediência, com destaque para o período da transição da ditadura para a democracia. Muito se deve a Simões Coimbra, a prática á luz do dia, do culto da pedagogia dos três valores mais sublimes da Maçonaria – Liberdade, Igualdade e Fraternidade. A ele se deve a pedagogia do pragmatismo, que conferiu o carácter apolítico à organização que entendia constituir o factor de convergência, indispensável para cimentar a fraternidade na pluralidade de pensamento entre todos os irmãos. Foram Homens que ao longo da História e senhores destas componentes que mantiveram a Maçonaria na vanguarda de grandes iniciativas, dos grandes movimentos de opinião liberal, republicana, progressista e democrática a que não são alheias as grandes reformas verificadas com cunho eminentemente iniciático.
 


Na verdade, foi com Simões Coimbra, Dias Amado, Adão e Silva, de entre outros - muito poucos - que resistiram no decurso da longa noite de ditadura, que a Maçonaria, em Abril de 1974, quase a partir do nada, recomeçou em Liberdade, uma nova etapa da sua longínqua História. A eles se deve a restituição do Palácio Maçónico, a sua reabilitação, seu apetrechamento em equipamentos e adaptação aos fins das actividades do Grande Oriente Lusitano. A eles se deve o retorno do património desviado, nomeadamente, documentação, obras literárias, livros de registos e de actas.
 
Foi grande o trabalho de organização administrativa e financeira que envolveu um Conselho da Ordem que funcionava em regime de Comissão Administrativa, que integrava, para além de Simões Coimbra, Dias Amado e Adão e Silva, também Araújo e Sá e Adosindo de Sousa Leite. Foi este Conselho da Ordem que procedeu ao recenseamento “dos antigos associados que não perderam a qualidade e promoveu a regularização das suas situações e secções”. Porém, o mais hercúleo trabalho foi proceder à elaboração do primeiro orçamento – 25 de Abril a Dezembro de 1974 que encerrou a fase de clandestinidade e apresentou várias soluções de receitas em que foram evidenciadas as receitas das quotizações ordinárias, suplementares, eventual única e pedido ao Governo de um subsídio de indemnização definitiva, por todos os prejuízos decorrentes da ocupação do edifício pela Legião Portuguesa. Foram estas receitas que vieram a assegurar as despesas com pessoal, com o normal funcionamento administrativo, seguros, manutenção e obras, cuja evolução se verificou nos anos sequenciais de gestão de Simões Coimbra como presidente do Conselho da Ordem ou como Grão-Mestre [1984-1988], com destaque para o desenvolvimento das relações exteriores com outras Potencias Maçónicas [...]"  
 
in NOTA PRÉVIA [Extrato], por Luís Vaz – com sublinhados & notas nossas. 

J.M.M.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

ACADEMIAS E INSTITUIÇÕES DE CULTURA



Academia e Instituições de Cultura” – por Diogo Ramada Curto, in Caderno E, Expresso, 17 de Fevereiro de 2018
Onde se defende que se no projeto de levar a cabo um estudo sobre academias o objetivo é propor a renovação de uma espécie de conformismo institucional, o melhor seria sugerir que o público não soubesse nada do que se passa dentro de tais instituições

"Instituições de cultura há que não têm merecido a devida atenção por parte da opinião pública. Faltam estudos ou simples notícias que as deem a conhecer. Será, por ora, escusado saber a quem assacar responsabilidades para explicar a falta de estudos sobre as mesmas: se às instituições que não informam, por viverem em vaso fechado, ou se a uma opinião pública que vive dissociada da vida de certas instituições.
Três situações aparentemente díspares, em termos de conhecimento por parte de um público mais alargado, podem ser utilizadas como laboratórios de estudo: um livro destinado a repensar a universidade em Portugal; os estatutos de uma academia criada em 1965, mas que sobreviveu até aos nossos dias; e um ‘pequeno’  instituto de investigação de uma universidade privada, fundado em 1997. Nos três casos, detetam-se disfuncionalidades e demonstrações de elitismo simbólico, que nada têm que ver com a investigação, o ensino e a transmissão do conhecimento e da cultura. Estudá-los e comunicá-los a uma esfera de opinião mais alargada constitui, só por si, um modo de ultrapassar os problemas encontrados.
A Universidade como deve ser
O recente livro de António Feijó e Miguel Tamen, intitulado “A Universidade Como Deve Ser” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2017), é um excelente contributo para conhecermos o que se passa dentro da universidade. Nele, será possível distinguir um estudo da universidade tal como funciona e o programa de um curso, interdisciplinar, de Estudos Gerais. O livro comporta tanto aspetos corajosos como outros que se afiguram discutíveis.
A sua coragem está em pôr o dedo na ferida, considerando que o ensino universitário não tem de andar subordinado a objetivos práticos ou a meros interesses de mercado. O ensino universitário, feito no contacto com a investigação, tem de se pautar por outros critérios e manter, sempre, um elevado nível de independência em relação a outros poderes. As universidades devem igualmente ser pensadas como unidades, situadas acima deste ou daquele curso (embora este propósito dos autores entre, depois, em contradição com o centramento num único curso). Corajosa é também a crítica dos autores em relação à burocratização da investigação e dos seus centros, bem como à generalização dos projetos coletivos com dotações gigantescas, os quais poucos resultados alcançam, sobretudo na áreas de humanidades e ciências sociais.
Muito discutíveis são os sinais de uma espécie de elitismo anglo-americano, num momento em que abundam as tendências dentro da universidade de desprezo pelas práticas democráticas. De igual modo, é chocante que a proposta de introdução de um modelo inspirado nos “liberal arts colleges” surja numa espécie de deserto criado pelos próprios autores. Isto é, em nenhum momento do livro se encontram referências às inúmeras discussões sobre a universidade que, pelo menos desde  Miller Guerra, têm sido recorrentes em Portugal. Ao circunscreverem-se a um único curso, Feijó e Tamen assemelham-se a náufragos numa ilha deserta, que, tal como Robinson Crusoe, só conseguem salvar do navio encalhado alguns livros (não em português, como no livro de Daniel Defoe, língua que o protagonista não sabia decifrar, mas em inglês, o idioma em que mergulham as raízes mais profundas do livro em causa). Facto que denota uma incapacidade para pensar de modo mais realista — e menos como uma robinsonada — a universidade como um todo.
 
 
A expansão da cultura portuguesa
De um teor completamente diferente são as notas esparsas que recolhi acerca da Academia Internacional de Cultura Portuguesa. Elas constituem um minúsculo contributo para colmatar a lacuna dos estudos sobre instituições de cultura. Pelo menos podem servir como chamada de atenção para a necessidade de querer saber mais acerca do que se passa na vida de tal instituição. A começar pelo seu financiamento, que não sabemos se será ou não de natureza pública. Os seus estatutos, aprovados por decreto de 1965, mantêm-se em vigor. O primeiro aspeto que neles importa sublinhar diz respeito ao principal objetivo da mesma instituição: difundir a cultura portuguesa no mundo. A consulta do “Boletim da Academia Internacional de Cultura Portuguesa”, cuja publicação começou em 1966, revela bem qual a conceção de cultura que ali se defende: do luso-tropicalismo, em tempos coloniais, à sua continuidade, sob a forma de lusofonia, adaptada aos tempos democráticos. Vinho novo em odres velhos...
O segundo aspeto prende-se com as áreas pelas quais se distribui esse mesmo labor difusionista. De um modo que, hoje, interpretaríamos como sendo da ordem da interdisciplinaridade, estabeleceram-se três secções: das artes e letras, das ciências e da missionologia. Aliás, esta última formulação, sobre a qual tanta tinta correu na década de 1960, entendida em estreita relação com a mensagem católica, compreende-se bem à luz da política colonial portuguesa da época.
Do Tarrafal à Academia Internacional
O terceiro aspeto a não perder de vista diz respeito aos fundadores da Academia e como são postos limites ao número dos sócios académicos ou correspondentes. Inegável será, em todo este processo, o papel dinâmico desempenhado por Adriano Moreira, seu fundador e presidente, ao lado do padre Silva Rego, de Jorge Dias e de Virgínia Rau. Estes últimos professores universitários com capacidade para controlar as suas áreas disciplinares, da antropologia à história. A simples evocação de outros nomes da confiança do regime de Salazar, entre os quais se contavam Azeredo Perdigão e Franco Nogueira, faz-nos lembrar que não existe apenas uma lista de nomes que formam o que, hoje, os cientistas sociais designam como uma rede de relações. Há, também, uma rede de outras instituições a ter em conta.
Por exemplo, Adriano Moreira, licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, iniciou a sua carreira na antiga Escola Colonial, onde começou por realizar estudos sobre o sistema prisional nas antigas colónias. Seguiu o processo de transformação daquela Escola impulsionado por Mendes Correia e, em 1961, favoreceu a sua integração na Universidade Técnica, o que lhe valeu a equivalência a professor catedrático, mesmo sem possuir um doutoramento (com o “Diário de Notícias” de Augusto de Castro a atribuir-lhe o título de professor doutor a partir de 14 de abril). Desempenhou papel de relevo na Junta de Investigações do Ultramar e envolveu-se, igualmente, nas atividades da Sociedade de Geografia de Lisboa (onde a mesma Academia Internacional veio a ficar sediada). Enquanto subsecretário de Estado e depois ministro do Ultramar, na altura do início da Guerra em Angola, manteve ligações de estreita colaboração com muitas outras instituições, incluindo o Gabinete de Negócios Políticos do Ministério do Ultramar e o por ele criado “campo de trabalho” de Chão Bom, vulgo, Tarrafal.
 
 

Conforme procurei demonstrar noutro local, Adriano Moreira esteve, por volta de 1961, bem no centro do processo de tomada de decisões das políticas coloniais de Salazar. A legislação laboral promulgada durante a sua passagem pelo Ministério do Ultramar constituiu, sobretudo, “uma carapaça legal com que Portugal pudesse defender-se” internacionalmente (José Capela, “O imposto de palhota...”, Afrontamento, 1977, p. 259). E, por mais que ele próprio tivesse tentado construir a sua própria versão dessa passagem pelo Governo de Salazar, em sucessivas memórias, aconselhou, na altura, a adoção de medidas violentas de aterrorização das populações do Norte de Angola (“Políticas Coloniais em Tempo de Revoltas — Angola circa 1961”, Afrontamento, 2016). Ora a Academia Internacional de Cultura Portuguesa foi criada no interior dessa malha. Nela, sobrepuseram-se uma carreira individual, uma série de instituições e de legislação orientadas para a execução de políticas coloniais e, ainda, um quadro de justificação de fortíssima carga ideológica suscitado pela guerra colonial em Angola, e depois na Guiné e em Moçambique (que de nenhum modo pode ser reduzido a noções de integração ou assimilação luso-tropical).
Questões de indumentária
Há um quarto aspeto que inclui várias minudências acerca do vestuário, difíceis de traduzir por outras palavras. Vale, por isso, a pena citar diretamente da fonte que seguimos, no ponto relativo às vestes académicas, mesmo que infelizmente se tenha perdido o rasto ao desenho: “A farda académica constará de casaca de gola alta, fechada por uma ordem de botões, e de calça, aquela e esta, de pano verde. A casaca terá, bordado a ouro, no peito, gola e portinholas, canhões e remates, assim como na cintura, por cima do começo das abas, um rebordo, que no peito será acompanhado de uma simples fieira de ramos de oliveira folhados e frutados, segundo os desenhos anexos. A calça terá galão estreito, dourado, nas costuras laterais. O chapéu armado, de pasta, será orlado superiormente de plumas pretas e com presilhas das cores académicas verde e encarnado. O espadim, de copos e guarnições douradas, suspende-se de pala de pano verde, com ramos de oliveira, bordados a ouro. Os botões serão ornados com as armas nacionais. A capa será de pano preto com gola voltada”.
Para comparar padrões de dress code, sigo as diferentes maneiras de trajar no quotidiano ou em dias de festa, dentro e fora das instalações ou, no interior destas, em salas diversas ou entre membros e visitantes da instituição em causa. De notar, também, que se trata de um resquício para cobrir com sinais de nobreza, inventando tradições e exibindo um elitismo de pacotilha, certas instituições de criação recente. É aqui que vem a propósito referir as normas que regem o Instituto de Estudos Políticos (IEP) da Universidade Católica, criado em 1997, mais de três décadas depois da citada Academia Internacional, mas inspirado na putativa Escola de Sagres, que nos traz à memória o chapéu de aba larga do Infante D. Henrique:
Todos os colaboradores permanentes do IEP adotam um código de vestuário com a decência e formalidade adequadas às responsabilidades que detêm, o que inclui, para os homens, casaco e gravata, e, para as senhoras, decência correspondente. Na sala Sir Winston Churchill e nos gabinetes de trabalho é esperado que os homens possam tirar o casaco, mas não a gravata. Na sala D. Henrique é esperado o uso de casaco e gravata. Em todo o espaço do IEP, não é autorizado o uso de shorts, T-shirts ou chinelos, sapatos de ténis ou blue-jeans. Estas regras aplicam-se apenas aos colaboradores permanentes do IEP e não aos alunos ou a visitantes, cuja eventual vulgaridade não deve, em princípio, merecer reparo. Em contrapartida, trajes nacionais, regionais, locais ou específicos de instituições, por mais excêntricos, serão sempre respeitados e bem-vindos. Todos os docentes do IEP, incluindo docentes convidados, são enfaticamente encorajados a usar casaco e gravata nas suas aulas e tutorias, podendo tirar o casaco, mas não a gravata”...
Conformismo institucional ou Gentlemanship
O estudo monográfico de instituições como a Academia Internacional de Cultura Portuguesa terá ainda de compreender um quinto e último aspeto. Trata-se de tentar compreender como é que instituições criadas durante o Estado Novo, mais a mais num contexto aberto de guerra colonial, promoveram formas de conformismo de sentido institucional. Senão, vejamos como é que os estatutos impõem formas de controlo e de censura: é “proibido aos académicos contrariar os fins do instituto; imprimir trabalhos fora das publicações académicas com indicação de provirem da Academia; e criticar trabalhos feitos por encargo da mesma ou a ela apresentados por outros académicos, a não ser nas suas sessões ordinárias”.
Que esse conformismo institucional se intensificou na década de 1960, para dar sentido à atuação das elites cooptadas pelo regime de Salazar, num quadro internacional de forte pressão sobre a política colonial portuguesa, parece um dado evidente. O que já não me parece ser possível de aceitar é que as mesmas regras possam subsistir em democracia. Mesmo aceitando que, na vida das instituições, existem arcaísmos, o seu ridículo cresce na medida em que se descobre que eles são invenção recente e, em geral, determinados por quem não tem terra, família, nem vontade para viver numa sociedade democrática. Aliás, os que procuram transformar essas mesmas instituições culturais em veículos da sua promoção são quase sempre os mesmos que têm vergonha de reconhecer o mérito individual. É o que sucede com o curioso ponto sobre “Gentlemanship”, de uma fedúncia insuportável, digna de um qualquer parvenu, e que suscita uma gargalhada digna de uma personagem de Gil Vicente:
Nenhuma regra pode substituir o sentido de responsabilidade pessoal, o common  sense e o sentido de humor de cada pessoa. As regras acima expostas deverão ser aplicadas sem rigidez prussiana e sem laxismo mediterrânico. Portugal é um país atlântico (e não mediterrânico), fundador da mais velha aliança do mundo, bem como do mais velho tratado de comércio livre, e pioneiro dos Descobrimentos. No nosso pequeno IEP da UCP, apreciamos tentar cumprir o dever de honrar as nossas nobres tradições” (Instituto de Estudos Políticos, nº 24).
Enfim, no projeto de levar a cabo um estudo sobre academias, ‘pequenas’  instituições de cultura e universidades, se o nosso principal objetivo fosse propor a renovação de uma espécie de conformismo institucional, o melhor seria sugerir que o público não soubesse mesmo nada do que se passa dentro de tais instituições. Às urtigas, pois, com a mania da informação e com a famigerada opinião pública! O secretismo impõe-se como uma urgência... É que permanecer na ignorância ou dar ao desprezo qualquer tipo de estudo sobre o funcionamento de tais instituições talvez seja, em suma, a única maneira de uma opinião pública escapar a tamanhas aberrações.
 
Academias e Instituições de Cultura – por Diogo Ramada Curto, [Historiador e professor da Universidade Nova], revista E, Expresso, 17 de Fevereiro de 2018, pp. 66/67 – com sublinhados nossos.

J.M.M.