In Memoriam de Francisco Martins Rodrigues (conclusão)
Apesar dessa miríade de grupos de tendência marxista-leninista maoísta, o debate para a "reconstituição" do PCP [via COMORG, i.é., Comissão Organizadora do Congresso de Reconstituição do Partido] fez-se principalmente entre as direcções da ORPC(m-l), do CMLP e da OCMLP.
Numa primeira fase, onde um violento criticismo imperou["oportunismo", "trotskismo", "espontaneísmo", "teoricismo", "dogmatismo", "autocrítica", "sectarismo", "cisionismo", "direitismo", "praticismo", "pontos de principio", "espírito de grupo", "golpe anti-partido", eram os termos e epítetos mais utilizados na refrega política por todas as organizações, principalmente por meio da imprensa partidária], perante as críticas e divergências da então direcção da OCMLP face ao processo reconstitutivo do partido, as direcções da ORPC(m-l), do CMLP e um grupo de ex-quadros da própria OCMLP (em dissidência com a sua organização), decidem avançar de vez para o Congresso da Reconstrução do PCP – agora denominado PCP(R) – e que teve lugar entre os dias 27 de Dezembro de 1975 e 5 de Janeiro de 1976. [ADENDA (29/06/2008): sobre o processo de integração da OCMLP no PCP(R), ler os comentários a este post]
Curiosamente, em todo este processo de "reconstrução" do PCP [em pleno PREC] está presente e marca um papel fulcral, "tomando a direcção das operações" e "dando conselhos" via COMORG [in entrevista a FMR, já referida], Diógenes Arruda um dos míticos comunistas brasileiros [do PCdB, refundado em Fevereiro de 1962 e antes PCB, editando Arruda na época o estimado periódico "Problemas", onde escreveram Luís Carlos Prestes, Carlos Mariguella e, até, Roger Garaudy e Togliatti. Diógenes Arruda veio de França, onde estava exilado desde a sua libertação das prisão brasileiras em 1972 - ler aqui uma sua curiosa entrevista - logo a seguir ao 25 de Abril, oferendo-se para ajudar no processo de "reunificação dos comunistas" portugueses. Morreu a 25 de Novembro de 1979 (ano em que foi amnistiado), no dia em que chegou do exílio (a S. Paulo) o seu companheiro João Amazonas (falecido em 2002) e quando ia com ele no carro].
Com o surgimento do PCP(R), Francisco Martins Rodrigues é eleito para o seu Comité Central, mas seis meses passados uma nova reformulação é feita (sob influência de Diógenes Arruda – cf. Morais, ibidem) e é destituído do C.C., passando a ser redactor do jornal da organização, o "Bandeira Vermelha".
Mais uma vez a questão do "porte na prisão" de FMR tinha regressado. E com ele (velhas) novas questões se colocavam no noviciado partido: a questão do centralismo democrático, agora transformado (segundo FMR) em centralismo estalinista; a questão da matriz e natureza socialista da antiga URSS; a degenerescência do modelo da China Popular e a situação da Albânia; a questão da etapa da revolução e a crítica agora feita à sua concepção dimitrovista [o que não deixa de ser uma curiosa ironia para FMR, dado que até então a linha estabelecida - etapa da revolução democrática-popular, parte integrante da revolução socialista - e que deu sustentação a todo o movimento marxista-leninista português, de tendência maoísta, foi trabalhado teoricamente por ele próprio, o "camarada Campos"]. Isto é, de novo e "na ordem do dia" para FMR, a questão era qual a "linha proletária" a seguir: conciliação e luta reformista ou revolução proletária [vidé entrevista de FMR e ler a este propósito o livro de FMR, "Anti Dimitrov 1935-1985 Meio século de derrotas da revolução", em que, curiosamente, as criticas de pensadores autogestionários e libertários de antanho à natureza socialista da ex-URSS estão praticamente ausentes].
Por tudo isso, Francisco Martins Rodrigues, em ruptura com os dogmas dos seus camaradas sai (em 1983) do PCP(R) e cria o colectivo comunista "Política Operária", publicando a revista do mesmo nome. Em 1984 funda a OCPO - Organização Comunista Política Operária.
Morre, em Lisboa, na madrugada de 22 de Abril de 2008.
NOTA: este In Memoriam de Francisco Martins Rodrigues teve 7 (sete) longos posts (que podem aqui serem lidos). Com inteira justiça, diga-se. Francisco Martins Rodrigues ou o "camarada Campos" marcou decisivamente parte de uma geração em Portugal. Geração essa, da década de 70, que se era já de um outro tempo e certamente recolhida a outro noviciado discurso, pela sua atitude de revolta, a sua radicalidade perante a mudança, a sua "paixão do compromisso" e o seu amor romântico da revolução e da vida - mesmo que os silêncios consentidos fossem já ensurdecedores - muito ficou a dever ao "camarada Campos" e às "situações" por ele e outros (re)criadas. Daí este In Memoriam!
J.M.M.
