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domingo, 22 de novembro de 2020

[CATÁLOGO] UM SÉCULO (CON)DEIXAS, LIBERDADE E BONS COSTUMES

 


CATÁLOGO/LIVRO: Um Século (Con)Deixas, Liberdade e Bons Costumes. Colecção Aires B. Henriques | Museu da República e Maçonaria

AUTOR: Aires B. Henriques;

TEXTOS de: Nuno Moita da Costa | Liliana Marques Pimentel | António Lopes

EDIÇÃO: C. M. de Condeixa, Casa dos Arcos, POROS, Museu Villa Isaura;

Trata-se aqui do magnifico Catálogo da ExposiçãoUm Século (Con)Deixas, Liberdade e Bons Costumes”, que foi apresentada no passado 5 de Outubro em Condeixa, e que mostra um acervo notável de peças, livros e documentos de interesse republicano e maçónico, todas pertença de Aires B. Henriques e do seu Museu da República e da Maçonaria, situado na Villa Isaura, Troviscais, Pedrogão Grande.   

“Uma palavra prévia para os organizadores desta exposição: a Câmara Municipal de Condeixa, terra de tradições de Liberdade, e o Museu Republica e Maçonaria, detentor de uma das mais belas coleções dedicadas à Maçonaria e à República, na qual se incluem objetos de raridade assinalável e de comprovado valor histórico e simbólico. Uma exposição de objetos maçónicos é um ato de cultura por dois motivos principais: em primeiro lugar por divulgar uma forma de pensamento filosófico e de atitude cívica que remonta ao período iluminista do século XVIII; em segundo lugar porque, recorrendo às ideias mestras da Maçonaria, representa um contributo cívico importante. Soma-se a isto o esclarecimento dado a este assunto, contribuindo para afastar ideias erradas e mitos, acidentais ou fabricados. Por isso é, para todos os interessados por este tema, um motivo de satisfação e a oportunidade de ver objetos que, por norma, estão em recato nas reuniões maçónicas. Por outro lado, cumulativamente, compreender a Maçonaria significa compreender alguns factos da História portuguesa, do relacionamento entre os seus protagonistas ou da influência que a legislação, o ensino ou os costumes tiveram nos tempos atuais.

Sobre a Maçonaria, um documento com data de 1931 classifica esta de forma tão curiosa como exata, referindo que é uma associação diversa de outras associações, que "não é política porque o seu programa não visa a administração de um Estado; não é uma organização partidária que vise os interesses de uns, nem pode aliar-se com este ou aquele partido, com este ou aquele governo, pois de todos os partidos e de todos os governos ela pode esperar ou receber auxílio; não é uma associação revolucionária que deseja a revolução violenta, mas sim a revolução da ideia, pela palavra pela escrita e pelo exempto”. Quer isto dizer que a tradição maçónica determina que não se discuta política e religião no sentido comparativo do termo. Mais, valorizando o confronto de ideias e a liberdade de pensamento, apela à tolerância e à diferença, segundo um método que é o ritual e um sistema que é o rito, colocando uma particular ênfase na disseminação desses valeres e na formação de cidadãos livres, participativos no todo social e conscientes dos seus direitos e deveres.

Ao reunir em exposição um conjunto de objetos que são usados ritualmente, apresentados segundo um conceito expositivo acessível, permite-se compreender a sua função e o seu significado. A sua compreensão remete-nos para o papel do símbolo, recurso da instrução maçónica, nele se encontrando condensados os valores morais da Maçonaria ou, por outras palavras, a forma de linguagem usada por ela. Por isso também não encontramos símbolos exclusivamente maçónicos, mas antes símbolos com um significado maçónico. Ou seja, símbolos que foram usados pelas corporações de pedreiros ou pela Igreja, que nesse contexto tinham um dado significado, que no contexto maçónico têm um significado diferente ou semelhante. Símbolos que representam uma forma de transmissão apenas acessível aos iniciados e, entre estes, escalonada segundo o percurso maçónico de cada um. Por tudo isto poderíamos também afirmar que o simbolismo é a alma da Maçonaria, onde as lendas evocadas nos remetem para um imaginário com sugestões mais ou menos claras de ordem moral e filosófica, e é a representação visível de ume ideia que transcende aquele momento e aquele espaço.

Nem sempre as decorações e objetos maçónicos tiveram o uso e a exuberância que hoje conhecemos. Se uns remontam às primeiras práticas maçónicas modernas, outros datam do século XIX ou ganharam sofisticação a partir de meados desse século, tornando-se preciosos auxiliares do ritual. Os objetos agora apresentados são também uma forma de afirmação pessoal e política de vincar um pensamento ou a dedicação e identificação de ideias e valores. A maior ou menor decoração de um avental, a virtuosidade do talhe no vidro de um copo ou a beleza decorativa de um estandarte são formas de demonstrar uma atitude e uma paixão pele Ordem maçónica.

Os símbolos associados a estes objetos representam uma forma de transmissão apenas acessível aos iniciados e, entre estes, escalonada segundo o percurso maçónico de cada um. Fazendo parte do património cultural da Maçonaria, os objetos aqui apresentados remetem-nos para diversos momentos do ritual ou do funcionamento administrativo das Lojas, falam-nos do papel da Maçonaria na História do país e do papel de cada maçom na vida da sua Loja. Por isso se torna difícil definir o que é a Maçonaria, onde se junta uma componente do sentir individual que é diferente de pessoa para pessoa, com uma dimensão espiritual e filosófica, com uma preocupação intelectual e social. Ao maçom, recém iniciado ou não, cabe então conduzir a sua vida no sentido de lhe conferir o equilibro da Razão e do coração, respeitar a diferença do outro e amar a Liberdade. Deve conhecer-se a si próprio, atribuir significado ao oculto e admitir que há conhecimentos que vão para além do imediato num caminho de permanente aperfeiçoamento. O recurso ao símbolo e aos objetos a ele associados é uma forma de "revelar uma realidade total, inacessível através dos restantes meios de conhecimento”, não esquecendo que eles conservam una raiz primordial de significado que fazem deles um elemento unificador e uma afirmação simultaneamente psicológica e intelectual com caráter distintivo”

Dr. Antonio Lopes, Ex-Director do Museu Maçónico Português e Director da revista "Grémio Lusitano", in Prefácio - sublinhados nossos. 

J.M.M.

sábado, 11 de abril de 2020

A PAIXÃO DE CRISTO EM CASA


A Paixão de Cristo em casa” – por António Valdemar, in Revista do Expresso

Os museus estão fechados e até as missas foram canceladas. Mas ainda há maneira de ver como a arte portuguesa representou a Páscoa
“A Páscoa tem profundas tradições na civilização ocidental. Não se esgota na paixão, na morte e na ressurreição de Cristo. A sua origem relaciona-se com a herança de Abraão e de Moisés, a terra do Egito, a libertação do povo de Israel e a passagem do Mar Vermelho. A Bíblia, quer no Antigo Testamento quer no Novo Testamento, descreve as etapas da festa judaica. E, também, a génese das cerimónias que o catolicismo foi adotando, através dos relatos dos Evangelhos e das Epístolas e de acordo com as posições doutrinais introduzidas desde o Concílio de Niceia até ao Concílio de Trento. Acrescente–se, a tudo isto, a profusão de todas as formas de culto das outras igrejas cristãs.
Mas não é, apenas, na literatura, na efabulação narrativa, no universo da criação poética e na exegese histórica, filosófica e teológica que a Páscoa se reflete na área da cultura. As artes plásticas registaram, ao longo dos séculos, o ritual das sinagogas, a prática litúrgica orientada pela hierarquia católica ou, ainda, as manifestações populares que decorrem ao sabor dos usos e dos costumes de cada país e, dentro de cada um, das várias regiões que o constituem.

A VISÃO DE ÁLVARO PIRES
A pintura portuguesa dos séculos XV e XVI, à semelhança dos grandes centros da Europa ou através da sua influência, consagrou as motivações relativas à Semana Santa e à Páscoa. Reconstituiu a vida terminal de Cristo, que principia ao ser julgado por Pilatos, que se prolonga à tortura no Calvário e até à descida da cruz para o sepulcro. Finalmente, emerge na apoteose da Ressurreição.

A recente exposição de Álvaro Pires, no Museu Nacional de Arte Antiga — um dos acontecimentos artísticos mais significativos, das últimas décadas, que fica na história do Museu e que se inscreve no exercício da atual direção de Joaquim Caetano e de Anísio Franco —, aproximou-nos da quase totalidade da obra do notável pintor português que se afirmou em Itália no começo do século XV. Permitiu uma análise comparativa do percurso de Álvaro Pires em face de grandes mestres da época representados na exposição, facto que a tornou ainda mais relevante.
Álvaro Pires nasceu em Évora, por volta de 1370-1380. Radicou-se em Itália, a partir de 1410. A sua obra encontra-se, por exemplo, em quatro cidades da Toscana: Prato, Lucca, Pisa e Volterra. Interpretou o ciclo da Natividade e o ciclo da Paixão da Morte e da Ressurreição de Cristo. Mestre entre mestres tem o domínio e virtuosismo da composição, através da nitidez do desenho e da energia da cor que se associam à sagacidade do olhar e à capacidade de análise e de síntese. Integra-se no contexto da pintura italiana, na véspera do Renascimento. Sendo o primeiro pintor português de quem se conhecem obras não deixa de ser também um pintor de acentuada feição italiana.

O CRISTO DAS JANELAS VERDES
 
Uma das mais enigmáticas obras da pintura, o “Ecce Homo” — antes das investigações de Joaquim Caetano e que alteraram a erudição acumulada —, permaneceu, durante largas décadas, no Museu Nacional de Arte Antiga, na mesma sala — e por se julgar ser da mesma época — dos “Painéis de São Vicente de Fora”. O “Ecce Homo” inspira-se no Evangelho de São João, e faz reviver o Cristo flagelado, a coroa de espinhos e o manto de púrpura sobre os ombros. É a primeira estação da Via Sacra.

É a imagem do condenado que tem numa das mãos uma vara e daí o povo chamar-lhe o Senhor da Cana Verde. Todavia, a tábua do Museu de Arte Antiga é um prodígio de simplicidade e de clareza. É uma figura hierática, reduzida ao essencial, que transmite uma carga emotiva surpreendente. O mistério que envolve os olhos cobertos elevou o conteúdo simbólico e incutiu tamanho fascínio em Almada Negreiros que considerava ser a mais bela e a mais impressionante de todas as pinturas que vira.
Os estudos publicados nas primeiras décadas do século XX da autoria de José de Figueiredo, de Reinaldo dos Santos e de Jaime Cortesão, entre muitos outros, consolidaram o renome nacional e internacional. Ficou denominado, inclusive na classificação do próprio museu, o Cristo das Janelas Verdes, enaltecido não apenas por historiadores e críticos de arte mas, também, por inúmeros poetas e escritores portugueses e estrangeiros.

A ÚLTIMA CEIA

O tema da Última Ceia ficou, universalmente, celebrado por Leonardo da Vinci, num painel, em que a instituição da eucaristia perante os apóstolos se caracteriza pela harmonia cromática, pela técnica sóbria e pela contenção do sentimento na essência e nas formas. Nos primórdios desta representação iconográfica avultam o mosaico de Sant’Apollinare Nuovo, em Ravena, e as três miniaturas do Evangeliário de Rossano, com a ceia, o lava-pés, a repartição do pão e a distribuição do vinho.
Entre nós, podem citar-se numerosas figurações. Entre as mais significativas assinalam-se as obras de Vasco Fernandes, que se radicou em Viseu, na primeira metade do século XV. A “Última Ceia” que está em Viseu é uma das suas obras mais empolgantes. Fez para Lamego o retábulo do Sé. Esteve em Coimbra e passou em Lisboa pela oficina de Jorge Afonso. Dos trabalhos da sua autoria, ou que lhe são atribuídos salientam-se, também os 16 painéis da igreja matriz de Freixo de Espada à Cinta e o o tríptico oferecido, em 1945, ao Museu Nacional de Arte Antiga pelos herdeiros do colecionador inglês Herbert Cook (visconde de Monserrate).

Estas obras correspondem a períodos diferenciados. Mas sem nunca deixarem de estabelecer um confronto direto com o artista vigoroso, de amplos recursos técnicos, para comunicar, através da pintura religiosa, os grandes problemas e as grandes angústias humanas.

A TRAGÉDIA DO CALVÁRIO

O itinerário da Cruz, as sequências da Via Sacra atingem, naturalmente, maior dramatismo e, quantas vezes, a dimensão da tragédia ao pormenorizar o encontro de Cristo com a mãe; a ajuda de Cireneu, o pranto das mulheres de Jerusalém; a Verónica, a limpar o sangue; o suplício no Gólgota e, por último, a descida para o túmulo.
O “Calvário”, de Vasco Fernandes, é uma das obras-primas da pintura no Museu Grão Vasco. Outro artista que se distinguiu na conceção e no imaginário da paixão e da morte de Cristo foi Cristóvão de Figueiredo. Ignoram-se as datas e locais do nascimento e da morte. Mas sabe-se que trabalhou em Coimbra, em Lamego e em Lisboa. Cunhado de Isabel Pires, mulher do imaginário francês João de Ruão, tinha laços de parentesco com os pintores Jorge Afonso, Francisco Henriques, Garcia Fernandes e Gregório Lopes.

Divergem os investigadores e os eruditos a propósito da identificação de painéis que dizem ser de Frei Carlos, oriundo da Flandres. Não restam, contudo, dúvidas de que exerceu atividade, entre nós, e é um dos maiores pintores da época.
Um dos factos averiguados da biografia de Frei Carlos reside no ingresso no Convento do Espinheiro, próximo de Évora. Admite-se a passagem por outros mosteiros, como Santa Marinha da Costa, em Guimarães, e os Jerónimos, em Lisboa. Terá falecido em Alenquer, no Convento do Mato, perto daquela vila.

Contudo, quando se fala de Frei Carlos, o que vem à memória é a famosa oficina no Espinheiro onde havia, em 1834, por ocasião da extinção das ordens religiosas, muitos dos quadros que vieram a pertencer ao fundo do Museu Nacional de Arte Antiga.
 
CARÁCTER PRÓPRIO

Évora também possui um retábulo alusivo à Paixão. Terá sido, inicialmente, da capela da Piedade, mais conhecida pela capela do Esporão. Mais tarde, deu entrada na Sé de Évora, por determinação do donatário, D. Manuel de Vasconcelos e no cumprimento de um voto de sua esposa D. Helena de Noronha.
As hipóteses, quanto à fatura e à origem, são várias: Raczynski indicou analogias com Memling; José de Figueiredo emitiu outra opinião, seria de um pintor de Lovaina. Próximo de nós, Dagoberto Markl alertou para influências dos pintores de Gand e de Bruges, com a predominância de Gerard David.

Évora tornou-se ponto de convergência de personalidades emblemáticas da cultura e da arte europeias. Quando, em 1428, Van Eyck se deslocou a Portugal, por indicação de Filipe III de Borgonha, a fim de retratar a infanta D. Isabel, filha de D. João I, e depois, duquesa de Borgonha, visitou a corte instalada nos Paços Reais de Évora.
Por outro lado, Francisco Henriques, que se presume natural da Flandres e casou em Portugal com uma irmã do pintor Jorge Afonso, não se pode dissociar, igualmente, de Évora, haja em vista os retábulos que lhe são atribuídos e destinados para o altar-mor e os altares laterais da igreja de São Francisco.

A problemática religiosa, da Semana Santa e da Páscoa, na obra dos pintores portugueses dos séculos XV e XVI reveste-se de características específicas. O desenvolvimento do tema e a subordinação do artista a determinados pressupostos verificam-se na composição, no tratamento da cor — e como destacou a corrente nacionalista da História de Arte —, na incorporação das arquiteturas regionais e nas referências objetivas de costumes, de tradições e de paisagens portuguesas. Tudo quanto contribui para definir alguns dos traços fundamentais do carácter e do temperamento do homem português. Quer seja na conceção do mundo, quer seja na atitude perante a vida, quer seja, ainda, na relação que mantém com o sobrenatural.
A Paixão de Cristo em casa – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], E revista do Expresso, 10 de Abril 2020, pp. 57-59 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

MUSEU DA REPÚBLICA E MAÇONARIA ENCERRA EM PEDRÓGÃO GRANDE



MUSEU DA REPÚBLICA E MAÇONARIA ENCERRA EM PEDRÓGÃO GRANDE, por A.B.H.
Depois de há praticamente duas décadas desempenhar uma relevante função turística e cultural na unidade de turismo rural “Villa Isaura”, na aldeia dos Troviscais, no concelho de Pedrógão Grande, em pleno Centro do país, o MUSEU DA REPÚBLICA E MAÇONARIA encerra definitivamente as suas portas ao público no próximo dia 31 de Dezembro.

Trata-se de um dos três raros museus no seu género existentes em Portugal e Espanha, sendo os outros dois em Lisboa e Salamanca. O MUSEU DA REPÚBLICA E MAÇONARIA ganhou notoriedade a partir de 13 de Outubro de 2012, quando formalizou com a Maçonaria Portuguesa/Grande Oriente Lusitano (GOL) um protocolo de colaboração, o qual contou em Pedrógão Grande com a presença do Poderoso Grão-Mestre do GOL, Dr. Fernando Lima.
Mas a sua actividade e colaboração com diversas outras instituições nacionais é muito anterior, designadamente através da cedência de peças e documentação, e reporta-se às comemorações dos 200 anos da Maçonaria em Portugal em 2002 (CM de Lisboa), 1º Centenário da República (em 2010-2011, no Palácio de Belém / Presidência da República e Casino da Figueira da Foz), Museu José Malhoa (Caldas da Rainha), Câmaras Municipais de Miranda do Corvo, Ansião, Condeixa-a-Nova, Figueiró dos Vinhos, Castanheira de Pera e Oliveira do Bairro. Nos últimos anos beneficiaram ainda do seu apoio e acervos o Museu do Aljube em Lisboa (2015) e o Panteão Nacional / Direcção Geral do Património Cultural (2017).
Contudo, apesar da sua manifesta importância nos domínios histórico e cultural, o MUSEU DA REPÚBLICA E MAÇONARIA tem vindo sistematicamente a ser ignorado em termos de apoios financeiros e institucionais por parte dos poderes públicos, designadamente por parte do Ministério da Cultura que, desprezando a qualidade e real importância dos seus acervos, acentua o seu carácter particular e a sua pequena dimensão para negar os apoios de que carece para se manter aberto ao público.
Não compreendem os proprietários do MUSEU DA REPÚBLICA E MAÇONARIA tal desinteresse público quando:
 1 - ele é actualmente o Museu mais significativo a nível nacional no seu género, a avaliar pelas sucessivas visitas de técnicos e requisições de materiais para documentarem exposições organizadas inclusive pela RPM (Rede Portuguesa de Museus);
2 - o Estado Português se dispõe a despender em Peniche – no Litoral português - quase quatro milhões de euros na instalação do Museu da Resistência e Liberdade, sabendo que idênticos princípios e objectivos são defendidos – no Interior / na Região Centro – pelo MUSEU DA REPÚBLICA E MAÇONARIA, a um custo (autárquico) que certamente não chegaria aos 5% daquele dispêndio público.
Contra esta disparidade de poderes, que beneficia sobretudo o Litoral rico em desfavor do Interior pobre, bem assim como os Museus da RPM contra os Museus particulares, não nos resta outra hipótese que não seja rendermo-nos nesta luta desproporcionada, assumindo a nossa relativa pouca importância, na guarda de um património próprio que amamos, mas que lamentamos não poder pôr ao serviço das gerações futuras, a quem gostaríamos de proporcionar uma outra história de amor e luta pelos sagrados princípios da liberdade, igualdade, fraternidade, justiça e tolerância.
Pedrógão Grande, em 12 de Novembro de 2018
Aires B. Henriques [AQUI - sublinhados nossos]
 
J.M.M

domingo, 9 de agosto de 2015

O PANTEÃO NACIONAL – POR LUÍS REIS TORGAL (PARTE II)


Como surgiu afinal o Panteão ou o Pantheon? Podemos obviamente recordar o santuário de todos os deuses, na Grécia ou na Roma antigas. Mas os túmulos da memória, os memoriais ou os cenotáfios (placas que recordam os que morreram com “fama de heróis”) aparecem desde a Antiguidade e são retomados ao longo da história. Foi, porém, a Revolução Francesa que criou o Panteão como lugar oficial de culto nacional dos “notáveis”. Mirabeau e Voltaire terão sido os primeiros a ocupar a igreja de Sainte Geneviève, laicizada com a Revolução e transformada em Panthéon National. E continuaram a entrar nela figuras ilustres até porque o movimento republicano foi ali — como veio a ser em Portugal — animado pelo Positivismo de Comte, que criou uma “religião da Humanidade”, na qual se apresentavam como exemplos os mortos ilustres, quer no Panteão, quer no Calendário positivista, quer nos Centenários, quer mesmo em templos construídos para o efeito. Mas panteões, oficiais ou não, existem de uma forma ou de outra em muitos países e em diversos lugares, com personalidades que se crê terem feito parte fundamental das suas histórias nacionais, sejam reis, governantes (mesmo que viessem a ser considerados ditadores), cientistas, artistas ou escritores. A Basilica di Santa Croce, em Florença, é disso um peculiar exemplo.

Portugal não deixou de seguir o mesmo rumo. É claro que se quis panteonizar os mosteiros da Batalha (onde estão alguns dos reis da dinastia de Avis, mas também os dois túmulos dos “soldados desconhecidos” da Grande Guerra, numa forma de a República eternizar o povo combatente e sacrificado, anónimo, que se repetiu em todas as vilas e cidades em múltiplos monumentos, por vezes com a identificação dos “heróis”) e dos Jerónimos (onde foram sepultados membros da Casa Real — que teve o seu Panteão da dinastia de Bragança em S. Vicente de Fora — mas onde também se celebram Camões, Vasco da Gama e Alexandre Herculano). E é verdade que em Coimbra houve a prática, já mais recente, de conceder à igreja de Santa Cruz o sentido de “Panteão Nacional”, pois ali estão sepultados, em ricos túmulos do século XVI, os dois primeiros reis de Portugal (D. Afonso Henriques e D. Sancho I). Todavia, o liberalismo quis criar, como na França, o seu próprio “Panteão Nacional”, que surgiu por decreto de Passos Manuel de 1836 sem lugar definido, assim como a I República em 1916 (em tempo de governo de guerra da “Aliança Sagrada”, de António José de Almeida e de Afonso Costa) deliberou, por lei, instituir o Panteão Nacional na igreja sempre inacabada de Santa Engrácia, obras eternas, iniciadas no século XVIII e cuja imagem foi sintetizada no provérbio popular de “obras de Santa Engrácia”.

Mas o certo é que, na prática, o Panteão Nacional é uma obra do Estado Novo, pois só em 1 de Dezembro  — dia da Restauração — do ano de 1966 foi inaugurado, com a presença do Cardeal Cerejeira, do presidente da República Américo Tomás e do presidente do Conselho Oliveira Salazar. Recordemos que estávamos então em plena “Guerra do Ultramar”, em que “heróis” eram celebrados todos os anos pelo 10 de Junho e em que Eusébio representava então o “ultramarino” negro — tão português como outros — que deslumbrava o mundo na “equipa das quinas”. Para ali foram então trasladados os corpos dos escritores Almeida Garrett, Guerra Junqueiro e João de Deus, liberais e republicanos, que, devido ao seu sentir nacionalista e popular, não deixaram de sensibilizar o salazarismo. E vieram também Teófilo Braga, Sidónio Pais e Óscar Carmona. Ou seja, o Estado Novo manteve-se respeitoso em relação ao regime republicano, sepultando ali Teófilo, o primeiro presidente da República, que o foi na qualidade de presidente do Governo Provisório de 1910-1911; o presidente Sidónio, que, de alguma forma, e sem dúvida de modo indevido, era em certos meios considerado o precursor do Estado Novo e até do fascismo; e o seu próprio presidente mais carismático, Carmona, que o fora desde 1926 (ainda na Ditadura Militar, considerada “Nacional”) até 1951, ano da sua morte. Afinal era o naipe dos políticos “imortais” que se poderia esperar.

Depois de 1974, verificou-se um novo rumo, com algumas contradições, como têm sido ambíguos e contraditórios os caminhos depois de Abril, onde um ideal socialista ou, pelo menos, social se mistura, altera ou é negado pela força avassaladora do neoliberalismo, que se vai afirmando e consolidando nesta “Europa” dominada por uma nova onda capitalista. Assim, afirma-se também um verniz nacional ou mesmo nacionalista, ao lado de uma prática anti-social, com uma demagogia que, espantosamente, vem de todo o lado, abalando uma coerência que ainda se vislumbra em alguns movimentos políticos.

Para o Panteão vieram Humberto Delgado que, além de ter sido o mais combativo candidato à presidência pela oposição, fora morto pela PIDE em Villanueva del Fresno. Para ali foi num carismático 5 de Outubro de 1990, como o poderia ter acompanhado Norton de Matos. Em 2004 veio Manuel de Arriaga, de facto e de direito o primeiro presidente da República eleito, embora — como a Constituição de 1911 mandava — em Congresso da República e não por sufrágio universal. Aquilino Ribeiro, um dos mais significativos escritores da Respublica, que melhor assimilou e divulgou de uma forma universal o falar popular das suas terras da Beira, para ali foi em 2007, como poderia ter ido Torga e a sua alma de independente e de duro trasmontano, ou o nosso único Nobel da literatura, Saramago, cujas cinzas preferiu que repousassem pacatamente junto da oliveira da sua terra-natal trasladada para junto da Casa dos Bicos. E, finalmente, veio Sophia de Mello Breyner, em 2014, a poeta de Abril e de todos os Abris do Mundo e dos Tempos. Amália veio, antes, em 2001, e Eusébio fechou o ciclo numa trasladação apoteótica e de expressão popular própria deste tempo que vivemos. Nenhum cientista, nenhum escultor, pintor, músico ou arquitecto lá está, nenhum herói do 25 de Abril e da Liberdade conquistada nos quartéis e na rua em 1974. Seria difícil a escolha e, quando tal ideia foi ventilada, acabou por não vir Salgueiro Maia.

Quem vem a seguir? É esse o problema, para que queria dar a minha opinião, com uma resposta ao mesmo tempo simples e complexa: “Ninguém”, como a do “Romeiro” do Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett. Assim simbolizaríamos, em duas palavras, “Todos” e “Nenhuns” — afinal a “Alma Universal da Pátria”, sem debates que não houve, neste país dominado pelas elites do Poder, que se dizem representativas e que, nestes tempos pragmáticos, se têm afastado de uma cultura crítica. O Panteão Nacional ficaria como uma Memória da História, com as afirmações, as contradições e os silêncios que ela nos coloca quotidianamente, a ponto de nos interrogarmos sempre: Que História? Seria apenas, e era muito, um Museu vivo das suas representações, com as dúvidas e as ambiguidades que lhe são próprias. Já o é afinal. Apenas seria assim e de forma assumida para todo o Sempre.

Coimbra, 30 de Julho de 2015, no dia da Jubilação de Fernando Catroga, um dos historiadores que melhor estudou a Memória

O Panteão Nacional” – por Luís Reis Torgal [Professor catedrático aposentado da Faculdade e Letras da Universidade de Coimbra, historiador], jornal Público, 9 de Agosto de 2015, pp. 54-55 – com sublinhados nossos

J.M.M.

O PANTEÃO NACIONAL – POR LUÍS REIS TORGAL (PARTE I)


O Panteão Nacional” – por Luís Reis Torgal, in jornal Público

Como é evidente, falar hoje do Panteão Nacional é falar de Eusébio, como, há alguns anos, teria sido falar de Amália. A Assembleia da República assim quis que as duas grandes figuras do futebol e do fado fossem panteonizadas.

Por pouco, voltaríamos aos três FFFFutebol, Fado e Fátima — que foram considerados como símbolos do Estado Novo e que, afinal, talvez não fossem tanto, como um dia tentei explicar num artigo do jornal Le Monde Diplomatique. De resto, hoje, mais do que nunca, vivemos esta trilogia: com a febre do Futebol (que há muito, na sua versão profissional, deixou de ser um desporto para ser um espectáculo dos estádios, mas, sobretudo, um espectáculo televisivo, que move milhões); com a homenagem ao Fado que se tornou 'Património da Humanidade', tendo excelentes executantes que seguiram o exemplo de Amália (e de Carlos do Carmo) de transformar o fado marialva e fatídico (fatum significa, como se sabe, 'fado' ou 'destino') numa canção com outro tipo de valores, sem perder a toada fadista; e com a importância nacional e ecuménica atribuída a Fátima, dado que o 'milagre' é particularmente sensível em tempos de doença, de austeridade e de fome (assim sucedeu em 1917 e anos seguintes e acontece agora), e em que a fé impera sobre a razão. Ou seja, são três fenómenos sociais que nenhum argumento lógico ou ético parece poder abater. Por isso, os deputados votaram — da direita à esquerda — na trasladação de Amália e de Eusébio para o Panteão (no mais recente caso, apesar das despesas que daí advinham em momento de crise financeira) e quase nenhuma voz lançou a tão simples questão de discutir se era correcta a transformação destes ilustres mortais em 'imortais'.  Que eu visse (não sou consultor de blogues, nem participo em redes sociais), fê-lo o meu colega João Medina no seu blogue e escreveu António Valdemar neste jornal sobre os 'vizinhos da sala 3' (onde Eusébio passou a estar no Panteão) que, por certo, teriam estranhado a presença de mais um companheiro de viagem e de culto cívico.

Mas não vou romper com o estranho silêncio da crítica, pondo em causa a recente panteonização, aliás pouco inesperada de Eusébio (estamos ou não numa “civilização do espectáculo”?), pelo qual tenho a admiração de quem o viu jogar e a simpatia humana que naturalmente infundia. O que quero aqui discutir é sim, neste ano de 2015, a existência do Panteão como organismo vivo que recebe afinal algumas personalidades consideradas “imortais”: o lugar destinado “a homenagear e a perpetuar a memória dos cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao País, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa de valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade”, como reza (afinal de forma genérica e ambígua) a Lei n.º 28/2000, de 29 de Novembro.

É difícil, com efeito, definir esses eleitos. É verdade que, de forma idêntica, é difícil saber quem merece entrar numa Academia — o nome de “imortais” surgiu na Académie Française e nela entraram também, por certo, figuras duvidosas, em função dos valores de cada circunstância — ou quem merece ser condecorado pelo Presidente da República com as ordens honoríficas ou quem merece um prémio, mesmo o Prémio Nobel, que todos os anos se discute se foi justo, ou não, ser atribuído a alguém, nas suas diversas modalidades. Veja-se a lista dos indevidamente chamados “prémios Nobel da Economia” e talvez se fique um pouco espantado com a sua atribuição a certas personalidades. O mesmo, de resto, se passava no tempo de outras oligarquias — “outras” porque vivemos (não tenhamos ilusões) numa oligarquia, à sombra do Poder do Capital, muito mais do que numa democracia, que supõe valores que foram relegados para segundo plano. Recorde-se o que se passava na Monarquia Constitucional com a atribuição de títulos, que tornou popular o ditado: “Foge cão que te fazem barão! Mas para onde se me fazem visconde?”. Pois é, mas o Panteão ou, como prefiro, o Pantheon, dado que a palavra assim escrita está mais próxima da sua origem grega — Pan-Theon, “todos os deuses” — é o lugar de eleição da Pátria, o lugar da Memória das memórias, dos Memoráveis mais memoráveis”.

[CONTINUA]

J.M.M.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

VISITA GUIADA À ESTAÇÃO DO ROSSIO - PAINÉIS DE LIMA DE FREITAS


VISITA GUIADA AOS PAINÉIS DE AZULEJOS DE LIMA DE FREITAS, NA ESTAÇÃO DO ROSSIO.  

DIA: 4 de Julho 2014 (9,30 horas);
GUIA: Arq. João Cruz Alves;

LOCAL DO ENCONTRO: Átrio de acesso às plataformas de embarque da Estação do Rossio (último piso)
ORGANIZAÇÃO: Museu Maçónico Português [Ciclo “Viagens entre o Esquadro e o Compasso”]

“No dia 4 de Julho de 2015, sábado, pelas 10.00H, Museu Maçónico Português leva a efeito, no âmbito do ciclo Viagens Entre o Esquadro e o Compasso, a visita aos Painéis de Azulejos da Estação do Rossio, alusiva aos Mitos e Figuras Lendárias de Lisboa, da autoria do Mestre Lima de Freitas, a conduzir pelo Arq. João Cruz Alves”.
[Mitos e Figuras Lendárias de Lisboa]

“Os painéis de azulejos, da autoria do Mestre Lima de Freitas, que ornam, desde 1996, a Estação de Caminhos de Ferro do Rossio, ‘ilustram’ a “outra” história de Lisboa, menos conhecida porventura, esclarecendo e iluminando os mitos da cidade de Ulisses».

 
Estes painéis procuram traduzir e identificar a essência e o ”espírito do lugar” de Lisboa, como cidade e capital da universalidade lusa, num momento em que a «vida moderna quase faz perder a alma das cidades e das gentes».

Como refere o Mestre Lima de Freitas, ‘importará tentar desvendar e revelar os tesouros do imaginário de Lisboa’, desse tecido de fábulas, tradições e mitos que se foi tecendo entre a sua vocação e a sua história, visível nas lendas e narrativa do passado e guardadas na memória e no fundo do inconsciente colectivo’ e que caracterizam a sua identidade. Estas ‘representações míticas projectam-se no presente e no futuro, definindo alguns dos grandes arquétipos da vivência de um povo ou de uma cidade’.

 
Refere igualmente Lima de Freitas, que, ‘segundo Nietzsche’, ‘o que a história ensina é na realidade o contrário daquilo que o espírito ‘histórico’ nela projecta, não uma progressão cada vez mais consciente do homem, mas o regresso ininterrupto das mesmas disposições, que jamais se esgotam ao longo das sucessivas gerações’. Na verdade, o regresso cíclico dos mesmos motivos universais, longe de ser o produto de um estreitamento do imaginário que se vai esvaziando no repetitivo e perdendo actualidade, gera uma riqueza sempre renovada de configurações fascinantes, à maneira das iterações fractais que desabrocham numa infinidade inesgotável de formas e se revelam, todas elas, de elevada intensidade estética».

Como lembra, ‘o inconsciente lusitano e lisboeta guarda ainda, oculto nos estratos profundos da memória ancestral, os vestígios de um saber antiquíssimo (um saber que abre sobre o ser), sementes de novas e cíclicas ressurreições. Nesse fundo subsistem, mineralizados, os tótemes primordiais do luso e humano imaginar; falo não do “manto diáfano da fantasia’, mas da magia da imagem, das encarnações sucessivas da imago intemporal. De lá nos chegam visões misteriosas e, quando escutamos atentamente, velhas palavras cheias de um estranho poder, que amamos rememorar porque, como disse um poeta, ‘hão-de volver a soar’.
Com estes painéis pretendeu, ‘antes de tudo, definir um temário do imaginário urbano, ou, melhor dizendo, decidir quais os temas universais e as constantes míticas que mais se iluminam e reverberam no ‘espaço’ que é o da alma, da saudade e dos sonhos de Lisboa e da sua memória colectiva, subliminal e arquetípica’.

As inscrições deverão ser feitas de preferência através do e-mail do Museu Maçónico Português.
Contando com a vossa participação, apresento os meus cumprimentos.”
[Fernando Castel-Branco Sacramento - Director doMuseu Maçónico Português]

J.M.M.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

COMEMORAR A REPÚBLICA | OLIVEIRA DO BAIRRO - 5 DE OUTUBRO 2014 | OS BUSTOS DA REPÚBLICA

 
 
 

Realizou-se no Domingo [5 de Outubro] em Oliveira do Bairro, no belíssimo auditório do Quartel das Artes, Dr. Alípio Sol, o lançamento do livro de António Pedro Vicente [Prof. Catedrático aposentado de História Contemporânea da UNL, Académico de Número da Academia Portuguesa de História e sócio correspondente de várias instituições, com valiosos trabalhos publicados sobre história portuguesa do século XIX, a que junta estimados contributos para a História da Fotografia e na História da 1ª República], “Os Bustos da 1ª República”.
 
Sob o patrocínio da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro - que na pessoa do seu presidente João Oliveira apadrinhou esta preciosa obra – o lançamento do livro, que coincidiu com a Comemoração da República, foi ornamentada com a participação, de incontestável virtude, dos professores Amadeu Carvalho Homem e de Luís Bigotte Chorão, que cumpriram com acrisolado saber, competência e distinção a apresentação da Obra e assim dilataram a fé e o ideário republicano.
 
Entre uma assistência dedicada, que soube tributar os aplausos merecidos, estiveram presentes alguns dos proprietários da valiosa colecção de bustos da República, representados na obra de António Pedro Vicente, como os drs. Emílio Rincon Peres e Aires Henriques e que sob os melhores auspícios colaboraram para a sua realização. 
          
Os Bustos da 1ª República” remete-nos para o interessante conhecimento, leitura e entendimento da iconografia e simbologia republicana, numa apologética e didáctica virtuosa, porque contextualizado, acompanhando o “surto da propaganda republicana”. Dividindo-se em diversas partes, desde o Tricentenário de Camões, ao 31 de Janeiro de 1891 e à Implantação da República, toda uma iconografia ligada ao regime republicano emerge, marcando desde logo presença o “busto da República”, ícone e símbolo da “nova era”, dum novo mundo que “resolveria as injustiças e transportaria, para o futuro, a justiça social, a liberdade, a igualdade e que iria acrisolar o amor fraterno entre os seres humanos” [p. 43].     
 
Os Bustos da 1ª República” (177 p.) é uma obra copiosa, profusamente ilustrada e em excelente papel, que reúne reproduções de peças de alguns dos nossos mais luminosos coleccionadores do período da 1ª República – António Pedro Vicente (ver Fundação Mário Soares), Emílio Rincon Peres, Aires Henriques e Luís Bigotte Chorão – e, decerto, será uma incontornável peça da rica bibliografia republicana.    
 
Os Professores Luís Bigotte Chorão e o Amadeu Carvalho Homem abrilhantaram a sessão de lançamento do livro com peças oratórias ilustradas e que deixaram viva impressão no vasto público presente.
 
Como curiosidade registe-se o debate, à margem ou talvez não, sobre o enigmático “bicho” [sic] ou “insecto” presente no busto [e conhece-se 3 versões diferentes], abaixo do pescoço da peça, pertença de Emílio Rincon Peres, e que é capa da obra, que marca uma sã e fraterna controvérsia que se estende no Facebook [AQUI e AQUI] e mesmo fora dele. Trata-se de saber quebicho” é aquele, qual a razão de estar lá colocado e, evidentemente, que simbólica (a ter uma) representa. Várias hipóteses foram entretanto levantadas: centopeia [hipótese Emílio Rincon Peres], joaninha (simbolizando a Boa Nova, da República), escorpião. Da simbologia registe-se a da já citada “República da Boa Nova” [joaninha, hipótese Aires Henriques], passando pela identificação de uma “facção” ou partido [reorganização do PRP, facção Afonso Costa: vidé o caso citado de António Martins e a reorganização do PRP em Castro Daire, 1917, referido por Abílio Pereira de Carvalho] e, até mesmo, uma outra que faz referência à alegoria simbólica [no caso de ser um escorpião] presente no grau 22.º ao 24.º do REAA. De facto, o “bicho” que adorna alguns bustos da República é uma controvérsia bem curiosa.
  
O Almanaque Republicano marcou presença e agradece, a todos, a magnifica recepção e a excelente sessão.
 
J.M.M.      

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

OS BUSTOS DA 1.ª REPÚBLICA


LIVRO: “Os Bustos da 1.ª República";
AUTOR: António Pedro Vicente;
 
LANÇAMENTO EM OLIVEIRA DO BAIRRO:
 
DIA: 5 de Outubro 2014 (17,00 horas)
LOCAL: Quartel das Artes, Dr. Alípio Sol (Oliveira do Bairro)
 
ORADORES: Prof.º Amadeu Carvalho Homem e Prof.º Luís Bigotte Chorão
 
 
J.M.M.