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domingo, 3 de dezembro de 2017

IN MEMORIAM DE MÁRIO NETO (1942-2017)



O engenheiro e professor Mário Neto, cuja morte surpreendeu amigos e admiradores, partiu discretamente, como sempre rendilhou a sua vida, faz esta noite uma semana. Este nosso querido amigo, dedicado companheiro e mestre, não consentiu – na sua proverbial humildade – a homenagem pública que fraternalmente se impunha à admiração e respeito das suas avultadas qualidades humanas e que os figueirenses sabiamente lhe reconheciam. Partiu de rosto levantado, com a honrada obrigação do dever cumprido.

O falecimento do Mário Neto, leitor atento (e crítico) do Almanaque Republicano [como antes, do Almocreve das Petas], deixa-nos profundamente consternados: pelo saber que irradiava, na inteligência, bondade e generosidade intelectual que repartia e o engrandecia. Mário Neto, como tão bem disse [in Diário das Beiras, 30/11/ 2017] o nosso comum amigo Guedes Correia era “uma figura quase renascentista, ao estilo de Leonardo da Vinci ou de Pico della Mirandola, capaz de ter um discurso motivante e encorajador sobre a humanidade e sobre o mundo a partir da sua experiência pessoal, das suas leituras, das suas viagens”.

Mário Neto foi nosso distinto professor na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e, na lei que regula os destinos, tivemos o privilégio de nos ter honrado com a sua amizade e companheirismo. A sua intensa luz soube-nos aproveitar este tempo de utopias, essa “grande paz exterior das coisas” [H.H.] com a serenidade prudente que o sentimento de liberdade exige. E que Mário Neto tão ciosamente buscava, na sua perfumada independência e na benevolência do seu pensamento. O seu legado pela igualdade e dignidade dos Homens, de que era cultor irredutível, eleva-se admirável e eloquentemente. E não será esquecido.

Até sempre, Mário Neto.

Mário António Figueiredo Neto nasceu na Figueira da Foz a 19 de Fevereiro de 1942. Fez os seus estudos no liceu da Figueira da Foz até ao 2º ano, terminando depois o ensino secundário no Liceu D. João III (actual José Falcão). Entretanto foi um curioso desportista, do futebol à prática de ténis de mesa, representando nesta última modalidade o Ginásio Clube Figueirense. Partiu para Lisboa, matriculando-se no Instituto Superior Técnico [IST], em engenharia de máquinas, ou engenharia mecânica [o Núcleo de Estudos de Engenharia Mecânica data de 1960 e foi o primeiro e único a trabalhar até 1975].

Em Lisboa, residiu numa das várias “repúblicas” que pululavam à volta do IST, onde conviveu (e se fez amigo) com uma geração de estudantes messiânicos [dos católicos progressistas aos futuros membros da FAP/CMLP], intransigente contra a ditadura e o Estado Novo. O cinema (sua grande e eterna paixão) e a vida associativa moldaram-lhe o dom e o ornamento do seu carácter, assumidamente combativo contra a impetuosa repressão cultural e política do seu tempo. Frequentou, então, o movimento do cineclubismo, que dava os seus passos, assumindo a direcção (1964) do Cineclube Universitário de Lisboa [CCUL].  

A crise de 1964-65, consequência dos movimentos estudantis de 1956 e de 1962, torna-o activista consciente dos valores da democracia e da liberdade. O Partido Comunista, então em movimento de rectificação contra o “desvio de direita” [antes, Álvaro Cunhal, que se tinha evadido, com outros camaradas seus, do Forte de Peniche, foi nomeado secretário-geral do partido, em Janeiro de 1960], aprova, em Abril de 1964, o importante relatório, elaborado por Álvaro Cunhal, “Rumo à Vitória. As tarefas do Partido na Revolução Democrática e Nacional”, que marca uma nova linha política de combate e derrube do fascismo. A importância dada à conquista da direcção de movimentos culturais e associativos (caravanismo, cineclubismo, associação de estudantes e associações culturais em geral) é notória, visando politizar amplos sectores da população e em especial, mobilizando os estudantes, então ávidos de liberdade e modernidade [sobre este curioso assunto, veja-se: Guya Accornero, Efervescência Estudantil. Estudantes, acção contenciosa e processo político no final do Estado Novo (1956-1974), 2009]. Assim, Mário Neto integra-se nesse movimento, que irrompe à escala nacional (e sabe-se o efeito que teve na greve académica de 1969, em Coimbra; de outro modo, tenha-se em conta o começo dos protestos contra a guerra do Vietname, na Universidade de Berkeley, também em 1964) e, particularmente, no Instituto Superior Técnico     

No dia 24 (ou 25?) de Novembro de 1964, Mário Neto é preso na rua pela PIDE. Então na direcção do CCUL [cf.Liberdade para os Estudantes Presos”, 1º informação das Comissões de Apoio; antes já tinham sido detidos inúmeros estudantes de várias Faculdades, entre os quais Saldanha Sanches, Rui Faure da Rosa, …], Mário Neto (pseudónimo Cândido) é acusado de ser dirigente do PCP no IST, não tendo prestado à PIDE qualquer declaração [outros dirigentes então presos e acusados de ligação ao PCP, seriam: José Crisóstomo Teixeira (pseud. Gonçalo; controlaria superiormente as actividades da Faculdade de Ciências, IST, RIA, Belas-Artes, ISCEF, liceus e escolas técnicas), Humberto António Caria Lucas (pseud. Hugo; juntamente com o Mário Neto seria quem orientava as actividades do IST) – ver jornal República 28/01/1965, p.2 e 15].

No Aljube partilha a mesma cela com Mário Lino (Milo), Fernando Rosas (Rui) e outros mais, quase todos presos na sequência da vaga de prisões verificadas a 21 de Janeiro de 1965, por delação do controleiro do PCP para o sector estudantil Nuno Álvares Pereira [NAP] (pseud. Moreira – ver sobre este assunto, Irene Pimentel, “Vitimas de Salazar”). Refira-se que o caso NAP não esta completamente esclarecido, colocando-se a hipótese de ter sido, ele próprio, um infiltrado da PIDE. Por último, diga-se que a vaga de prisões verificada decapitou o sector estudantil de Lisboa do PCP e curiosamente, como AQUI referimos, deixou incólume o sector de Coimbra, então sob direcção de Valentim Alexandre, ou Vieira. Mário Neto é julgado em 11 de Agosto de 1965, no Plenário Criminal Auxiliar da Boa-Hora, tendo sido absolvido, saindo em liberdade (cf. Diário de Lisboa, 12/08/1965, p. 2).   

Lecciona na Escola Emídio Navarro (Setúbal) em 1965/66 e na Escola Afonso Domingues  (Lisboa) no ano de 1966/67, tendo sido afastado compulsivamente desta Escola a 14 de Junho de 1967, por motivos políticos, pelo Despacho do Conselho de Ministros de 13 de Junho desse ano.  

Cumpre, depois, serviço militar, tendo sido incorporado a 12 de Julho de 1971, saindo a 27 de Setembro de 1974 ( esteve às ordens de Vasco Gonçalves).  Termina o curso em engenharia e, de imediato, matriculou-se e frequentou, com aproveitamento, Economia no ISCEF   

 


No regresso à Figueira da Foz, no ano letivo de 1974/1975, lecionou na Escola Industrial Bernardino Machado. Depois do 25 de Abril, manteve-se militante do PCP, integrando como deputado a Assembleia Municipal. Demitiu-se, em discordância política com o Partido, ainda quando era deputado pela Assembleia.

Mário Neto teve ensejo de integrar o grupo inicial desse curioso projecto figueirense, o periódico “Barca Nova” [semanário democrático progressista;1, 10 de Novembro de 1977 ao nº 241, de 3 de Junho de 1983], sob impulso (principalmente) de Joaquim Namorado e José Fernandes Martins, em torno da Empresa Jornalística do Mondego, SARL, tendo colaborado com textos e pertencido desde a constituição da sociedade, ao seu Conselho de Administração [juntamente com Carlos Neto, presidente, e Wilson dos Santos, que foi, ao mesmo tempo, o primeiro director].

A partir de 1975/1976, Mário Neto é assistente convidado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, ministrando a disciplina de Microeconomia. Aposentou-se em Dezembro de 2008.   
 
Mário Neto era membro do Grande Oriente Lusitano há mais de duas dezenas de anos, fazendo parte da Loja Fernandes Tomás, da Figueira da Foz.

Faleceu no final do dia 26 de Novembro de 2017.

J.M.M.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

IN MEMORIAM DE ANTÓNIO DE MACEDO [1931-2017]


"Portugal é um país, por enquanto, oculto. Aliás Lima de Freitas chama a atenção para o facto de os mitos mais proeminentes da mitogenia portuguesa [os “mitolusismos”] não serem referidos nem pelo René Guénon nem pelo Mircea Eliade, que viveu em Lisboa e deu aulas cá, e ele cita outros; eles citam o mito do imperador que há-de regressar, citam o mito do Encoberto, citam o mito do Prestes João e nunca citam Portugal, além de não referirem o Sebastianismo quando se referem ao mito do Encoberto. Portugal é um um país que, por qualquer razão misteriosa, não existe e tem de se manter oculto” [António Macedo in revista Lusophia, nº44, Setembro 2003]


António de Macedo nasce em Lisboa a 5 de Julho de 1931, curiosamente na rua da Rosa (nº9), no mesmo prédio onde nasceu Camilo Castelo Branco [revista Lusophia, nº 44, ibidem]. Depois de fazer os seus estudos secundários ingressa na Faculdade de Letras da Universidade Clássica e, posteriormente, segue para a Escola Superior de Belas Artes, onde se formou (1958) em arquitectura.

Durante oito anos (1958-1964) exerce a profissão na Câmara Municipal de Lisboa. Funda, em 1958, com o escritor Manuel de Seabra e Carlos Gama, a curiosa editora “Clube Bibliográfico Editex” [sediada em Lisboa, na rua do Fala-Só], que persiste durante três anos. Nesse período, de jovem arquicteto, realiza os seus primeiros filmes [“Ode Triunfal”, “Verão Coincidente” (1962 – filme inspirado num poema de Maria Teresa Horta), “Nicotiana” (1963)]. Publica, ainda, os seus primeiros livros – “Evolução Estética do Cinema” (1959), “Da Essência da Libertação” (1961). Abandona em 1964 o seu lugar na Câmara Municipal para se dedicar a tempo inteiro à actividade de cineasta, escritor e professor.

Foi o primeiro a ir a Veneza, o primeiro a estar em Cannes, o primeiro a filmar um nu integral, a usar jazz e eletrónica; é o único cineasta com obra contínua no campo do fantástico e ninguém sabe, ninguém se lembra” [João MonteiroAQUI]

A sua extensa actividade de cineasta, com “cerca de uma dezena de longas-metragens e quase meia centena de curtas-metragens”, de forte pendor experimental, inclui longa-metragens e alguns dos nossos melhores documentários e filmes de intervenção sociopolítica. António de Macedo, injustamente esquecido, foi, de facto, um vanguardista, um esteta militante e integra, seguramente, a historiografia do “novo cinema português”.




Refira-se, de entre as suas obras: “Domingo à Tarde” (1965, versão do livro de Fernando Namora), “Sete Balas para Selma” (documentário de 1967, com poemas de Alexandre O´Neill e musica do saudoso Quinteto Académico), “Almada-Negreiros Vivo Hoje” (1969), “Nojo aos Cães” (1970 – filme que retrata manifestações académicas, em versão Maio de 1968, e rapidamente proibido pela censura fascista), “A Promessa” (1972, de Bernardo Santareno), “O Principio da Sabedoria” (1975 – longa-metragem que marca definitivamente o seu momento de viragem para o misticismo especulativo), “As Horas de Maria” (1976 – filme polémico que sofreu duras críticas da Igreja Católica), “O Príncipe com Orelhas de Burro” (1978- adaptação do romance de José Régio). “Os Abismo da Meia-Noite” (1983), “Fernando Lanhas. Os Sete Rostos” (1988), “A Maldição de Marialva” (1989), “Chá Forte com Limão” (1993). Foi homenageado pelo XXX Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz (2001), “pela relevância da sua carreira e pelo contributo prestado à cultura cinematográfica portuguesa”. A Cinemateca Nacional realizou uma restrospectiva da sua obra fílmica, em 2012, publicando um copioso e curioso catálogo. Nesse mesmo ano foi-lhe atribuído o prémio “Sophia”, atribuído pela Academia Portuguesa de Cinema. Em 2013, o Fantasporto prestou-lhe uma dedicada e justa homenagem.  

António de Macedo, a partir de 1971, leccionou em diversas instituições [IADE, Lusófona, Universidade Moderna e Universidade Nova de Lisboa (onde lecionou um curso livre de “Introdução ao Estudo do Esoterismo Bíblico”), foi investigador das tradições esotéricas e iniciáticas (em especial o gnosticismo cristão) e especialista em religiões comparadas, estudioso do hermetismo, da história da filosofia portuguesa, da literatura fantástica e da ficção cientifica, tendo sido membro da Fraternidade Rosacruz (a partir de 1980 – tendência Max Heindel) e “alquimístico” (como gostosamente se denominava).

Com participação em inúmeras conferencias e colóquios, publicou ensaios, ficção e peças de teatro, sendo de referir, entre a sua vasta bibliografia: “Instruções Iniciáticas” (1999), “Laboratório Mágico” (2002), “O Neoprofetismo e a Nova Gnose” (2003), “As Furtivas Pegadas da Serpente” (2004, ficção), “Esoterismo da Bíblia” (2006), “Textos Neo-Gnósticos” (2006), “Cristianismo Iniciático” (2011). Dirigiu a colecção “Bibliotheca Phantastica” (da Hugin), tendo sido um dos promotores dos “Encontros Internacionais de Ficção Científica & Fantástico de Cascais” (desde 1996).

Morre a 5 de Outubro de 2017.

J.M.M.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

IN MEMORIAM DE JOSÉ FERREIRA VICENTE

 
José Ferreira Vicente

José Ferreira Vicente, alfarrabista de ofício, livreiro e "marcador" de livros e gravuras raras e estimadas, proprietário da livraria Olisipo [Largo Trindade Coelho, Lisboa] deixou-nos em Janeiro. Partiu no mês de Janus, divindade da luz, depois das festas solsticiais. A corporação dos livreiros ficou mais pobre. Os amantes dos livros e papéis velhos restaram emudecidos e desolados. Nós, para quem José Vicente era um irmão, ficamos perpassados no afecto e na dor.

José Vicente, cujo passamento passou quase ignorado, deixa-nos uma vasta erudição na catalogação de peças bibliográficas, ao longo dos anos publicadas em preciosos Catálogos da sua Livraria e em diversos Leilões, e no estudo do livro antigo, como é o caso da sua incontornável obra “O Valor do Livro Antigo em Portugal”. O seu elevado carácter, o brilho da sua admirável qualidade de cidadão livre, a distinção e merecimento literário que dispunha aos amigos e clientes, faziam-lhe um modelo de um profissional ilustrado, uma alma generosa, um coração leal.     
 

O Almanaque Republicano, em meu nome pessoal, cumpre prestar um preito de homenagem ao José Vicente e deixar exarado um tributo sincero de cordial gratidão e saudade. À família, apresentamos sentidos pêsames e o nosso profundo respeito.

Que descanse em paz.

J.M.M.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

SOARES, TAL E QUAL – POR ANTÓNIO VALDEMAR


 
Soares, tal e qual” – por António Valdemar, in Expresso [online]
 
António Valdemar, “jornalista, antigo aluno do Colégio Moderno (propriedade da família Soares) e do próprio Mário Soares, privou durante décadas com o antigo Presidente da República. Aqui deixa um testemunho inédito sobre aspectos menos conhecidos da vida do antigo PR. Da cultura, à política ou às viagens. Sem esquecer a gastronomia”

Era um animal político. Mal acordava, Mário Soares queria saber tudo o que acontecera. Mergulhava na leitura dos jornais e revistas. Portugueses. Franceses. Espanhóis. Entretanto, seguiam – se os telefonema. Organizava mentalmente essa informação para enfrentar mais outro dia.

O perfil do homem público não se diferenciava muito do homem no convívio íntimo. Nos afetos calorosos, nas aversões ferozes. Mudou, evidentemente, de opinião sem alterar princípios fundamentais. Há situações que, de momento, não vale a pena enumerar. Todavia, era espontâneo nas simpatias e antipatias. As reconciliações possíveis não erradicaram os motivos de cisão, de incompatibilidade, de afastamento. De corte de relações políticas. De relações pessoais. Ou ambas as coisas.

Não se adaptou à internet. O computador colocado na secretaria, do seu gabinete na Fundação, era apenas um elemento decorativo. Até ao fim, tudo o que leu tinha de ser em papel. Escrevia, com rapidez e fluência, na sua letra miúda. Cada vez mais miúda. Mas, em certas ocasiões, emendava muito. As secretarias, durante décadas, a Osita e a Maria José, habituaram – se a decifrar os manuscritos labirínticos, os «textos aracnídeos» conforme exclamei ao ver uma folha A4 repleta correções, de acrescentamentos, de cortes, de repuxos.

Ao falar – lhe nisso respondeu – me: «Procuro, apenas, ser claro». Insisti: «O seu mestre Prof. Francisco Vieira de Almeida costumava advertir: «O simples não é o fácil». Soares olhou – me de alto a baixo e pediu para repetir. E acrescentou: «Eu que o diga...»

Era um homem de cultura. Apesar de nunca ter sido escritor na verdadeira aceção da palavra, frequentou tertúlias de Lisboa e de Paris e sentia – se em pé de igualdade ao lado dos outros intelectuais. Procurava estar ao corrente das novidades. Comprava tudo o que lhe interessava e alguns livros que, não fazendo parte das suas curiosidades habituais, já constituíam uma referência.

Além dos milhares de livros que tinha em casa, e nas casas de Nafarros e do Algarve, instalou no 4º andar do seu prédio, uma «nova biblioteca». Perante aquele universo bibliográfico, devidamente, sistematizada por temas e autores, confirmei o prazer, mais do que isso, a volúpia de ter edições raras. Encadernações preciosas. Primeiras edições, de livros com dedicatórias dos autores e anotações dos possuidores.

Não esqueço o deslumbramento que manifestou ao visitar a biblioteca de Pina Martins, de folhear primeiras edições de Erasmo e Damião de Gois. «Estou esmagado. É demais...» Nesse dia, ao jantar comigo e com o José Manuel dos Santos -  seu colaborador direto, durante décadas e amigo muito próximo - embora houvesse matéria política escaldante, continuava dominado pela emoção que lhe causara a coleção de Pina Martins. E, de vez em quando, repetia: «Estou esmagado. ... Estive para cheirar o papel mas o Pina deve usar inseticidas».

Mário Soares toda a vida também frequentou livrarias e alfarrabistas. Mesmo quando era Primeiro- Ministro, Presidente da Republica, deputado do Parlamento Europeu. Incluiu entre os seus amigos poetas e escritores. Uns ainda da geração do pai, como Jaime Cortesão e Aquilino;  da geração seguinte Rodrigues Migueis e Miguel Torga; outros da sua geração como Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, Sophia, Natália Correia, Mário Cesariny ou Luís Pacheco. Outros ainda das gerações mais recentes.

O mesmo aconteceu com artistas plásticos. Admirava Columbano mas o seu apreço e convívio estenderam – se, por exemplo, a Júlio Pomar, a Vieira da Silva, a Jorge Martins. Escapava – lhe a música. Perguntava – me um dia: «Consegue escrever com música?». «Sempre que estou em casa escrevo melhor com música». «Mas que música?" – insistiu. «Com os clássicos. Quase sempre os mesmos». «Compreendo perfeitamente...».

De todos os escritores portugueses o que mais admirava era Eça de Queiroz. Outra das suas admirações profundas era Teixeira Gomes. Várias vezes, na sua casa do Vau, partilhamos a leitura de páginas antológicas do Agosto Azul e de pequenos grandes textos acerca das metamorfoses da luz e da cor, das praias e do mar do Algarve, das pedras com memória e das terras com aromas.


Era um homem de coragem. Política e pessoal. Deu provas da sua determinação na resistência ao salazarismo, nas prisões que suportou. No verão quente de 75, ao insurgir – se contra outros totalitarismos. Em campanhas eleitorais, ao ser agredido na Marinha Grande. Ao assistir, no encerramento de um Congresso da Internacional Socialista, da qual era vice – presidente, ao atentado a Sartawi, observador da OLP e abatido por um membro de um grupo radical, do Abu Nidal, no Hotel de Montechoro.

Estava preparado para as situações mais diversas. Trágicas, cómicas, insólitas. Em 1990, como Presidente da Republica entregou o Premio de Poesia a Natália Correia e, ao mesmo tempo, aproveitou a oportunidade para a distinguir com a Ordem da Liberdade. Natália Correia ouvia o discurso com o seu ar desafiador.

Enalteceu, de início, em duas frases os méritos literários de Natália e os seus contributos para a Democracia, antes e depois do 25 de Abril. A seguir Mário Soares, numa breve nota pessoal, quando salientava, apenas e tão só, que Natália Correia fora «uma das mulheres mais belas da Lisboa dos anos 40 e 50» ouviu – se, em toda a sala, sem necessidade de microfone, a cólera vulcânica e impetuosa de Natália; «Lá está ele a falar do meu corpo. Olhou sempre para mim como uma fêmea. Nunca contemplou o meu espírito. Nem mesmo aqui...»

Era de mais. Excedera os limites aceitáveis. Ultrapassara broncas sucessivas que marcaram a sua presença na Presidência Aberta nos Açores. A cerimónia começava a perder a dignidade institucional. Mário Soares decidiu abreviar o discurso. Horas depois, num jantar reservado, riu. Riu imenso. Rimos todos com ele. A amizade manteve – se na íntegra. Continuou a prestar a Natália todas as homenagens. Em vida, por ocasião da morte e depois da morte.

Era um apreciador da boa mesa. A mulher é que tratava dos assuntos domésticos. Tal como acontecera com a mãe. Mas havia pequenas coisas que lhe davam satisfação. Ir comprar doces e alguns queijos. No tempo das castanhas, de regresso a casa, mandava o motorista parar numa esquina e comprava uma ou duas dúzias de castanhas para a sobremesa. Com tinto.

Frequentou os melhores restaurantes do mundo. Saboreou os pratos mais diversos. Evitava ementas sofisticadas. Gostava, sobretudo, de pratos tradicionais: uma sopa de legumes, a abrir; carne à jardineira; uma boa posta de pescada cosida; uma omelete cremosa, com salsa picada. Pastéis de bacalhau. Pataniscas com arroz de feijão. Comida caseira portuguesa. E gostava de bons vinhos. Comia e bebia com moderação. Apreciava queijos. Olhava para a tábua com varias marcas como um filatelista percorria as folhas de um álbum. Jean Daniel, num jantar de família, ao experimentar vários queijos não se conteve perante um Serpa: «Ça c’ est le fromage». Um sorriso, de orelha a orelha, traduziu o contentamento de Mário Soares ao verificar que os amigos, se sentiam bem recebidos, na sua casa e à sua mesa.

Deliciava – se, por exemplo, com pão-de-ló. Oferecia, generosamente. «Desculpe não gosto de doces!». Com o ar mais sério do mundo dizia: «Comprei por sua causa. Coma ao menos uma fatia?!». Em face da minha recusa exclamava: «Então como eu. Está ótimo. Não sabe o que perde». Repetia. E com uma colher de sopa rapava ainda o doce de ovos que estava dentro do pão-de-ló. Ficava regalado. Como uma criança. O menino de sua mãe.

Era um apaixonado pelas viagens. Nos anos 60 conheceu parte da Europa com a mulher e os filhos. De país em pais. Surpreendendo os contrastes das paisagens. Percorrendo monumentos e museus. Visitou o Brasil, após a fundação do Partido Socialista, para falar com exilados políticos, desde militares da Rotunda e seareiros que participaram na revolta do 7 de Fevereiro, como Sarmento Pimentel e Jaime de Morais, até Casais Monteiro, Vítor da Cunha Rego e Manuel Pedroso Marques.


Voltou ao Brasil em viagens de Estado, recebido com todas as honras. Foi noutras ocasiões fazer conferências e tomar parte em colóquios. Tinha relações pessoais com Jorge Amado, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, António Cândido, Celso Furtado, Cândido Mendes de Almeida, Fernando Henrique Cardoso, António Houaiss, José Aparecido de Oliveira, entre muitas outras personalidades.

Era agora o que não queria ser. Das últimas vezes que esteve no Rio convidaram – no para uma jantar, com políticos e intelectuais. Ali se encontrou com Roberto Marinho, o diretor e proprietário do jornal O Globo, da Televisão O Globo, da rádio CBN, do Globonews, do maior império da comunicação social não só do Brasil, mas também da América Latina. Marinho com noventa e muitos anos que pareciam robustos fazia confusões tremendas. Ao cumprimenta–lo, Soares logo ficou intrigado quando Marinho o interpelou: «Sabe alguma coisa daquele político português, muito simpático, parece – me que se chama Soares e que foi ou ainda é Presidente da Republica? Ele está bem? Se estiver com ele apresente – lhe os meus cumprimentos...»

Com o melhor dos sorrisos disse: «Está bem. Muito bem... Darei. Darei...» Ao contar- me o que se passara com Roberto Marinho disse – me: «Estou a avançar para os 80. Espero que isto não me aconteça. Seria um horror». Entre centenas de outras estórias, de um convívio de muitos anos, recordo – me deste episódio que o estarreceu. E agora nos choca. Profundamente. Basta evocar imagens da televisão, nas últimas aparições públicas. Deixou de ser quem era e do que sempre quis ser. Já estava ausente de tudo e ausente de si próprio.

Soares, tal e qual [texto revisto pelo autor] – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências, antigo aluno de Mário Soares no Colégio Moderno], jornal Expresso (online), 7 de Janeiro de 2017 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

domingo, 8 de janeiro de 2017

[SOBRE MÁRIO SOARES] A LITERATURA COMO ÍMAN DO MUNDO


O Íman do Mundo” – por José Manuel dos Santos, in Público [online]

“Soares achava que a literatura é o grande íman do mundo, tornando-o menos insuficiente, mais inteligível, menos opaco, mais incandescente. Era herdeiro de um ideia de literatura como imortalidade
Nos anos do fim, quando quase tudo nele deixava de ser o que fora, isso ainda lhe era um ponto de aplicação, onde, como Arquimedes, se apoiava para erguer o seu mundo. Depois da conversa na sala, levava ali os que o visitavam. Agora, estamos no escritório. Ele, com a mão incerta, aponta na estante as prateleiras dos livros que, desde jovem, foi publicando e diz: “Com uma vida tão atribulada, ainda consegui escrever alguns livros.” São uma centena, com as traduções. E há na sua voz um orgulho triste. Esse orgulho olha o passado e não o futuro, por saber que já não é possível acrescentar livros novos àquela longa fila deles.

Mário Soares viveu sempre rodeado de livros – os seus e os dos outros. Achava que ler e escrever é aquilo que distingue os homens dos outros animais. E é aquilo que distingue os homens uns dos outros. Olhava de lado, com um olhar de suspeita e troça, os políticos que não escreviam, que não sabiam escrever. Mesmo nos que escreviam, distinguia os que escreviam bem e os que escreviam mal. E um dos seus desdéns era pelos políticos que não liam, senão relatórios, nem escreviam, senão notas. “Aquele nunca leu um livro!”, dizia, com uma voz cheia de desprezo.

A grande razão que o levava a desagradar-se de ler relatórios não era, diferentemente do que se afirmava, a de que não lhe interessavam os assuntos de que os relatórios tratavam. Era porque os relatórios estavam quase sempre mal escritos: redigidos numa linguagem que diz em muitas e impróprias palavras o que poderia (e, achava ele, deveria) ser dito em poucas e exactas palavras. Então, preferia chamar o autor do relatório, olhá-lo nos olhos e fazer-lhe perguntas. Assim, o obrigava a falar claro e a dizer o que não tinha dito. Assim, o forçava a desfazer aquelas perífrases inclinadas e vazias. Assim, o levava a expor a sua ignorância dissimulada com lugares-comuns num inglês ingénuo e prepotente. Vi, várias vezes, muitos autores de relatórios entrarem no seu gabinete com um passo seguro e altivo – e saírem de lá com um passo vacilante e vencido.

Para Soares, um grande político é aquele que tenta coincidir com um grande escritor. Eram esses os que mais o fascinavam: Marco Aurélio, Frederico II, infante D. Pedro, João Pinto Ribeiro, D. Luís da Cunha, Mouzinho da Silveira, duque de Palmela, Passos Manuel, Disraeli, Jaurès, Clemenceau, Teófilo Braga, B.[asílio] Teles, J.[oão] Chagas, Teixeira Gomes, Afonso Costa, Blum, Azaña, De Gaulle, Churchill, Malraux, Senghor, Mendès France, Brandt, Mitterrand, Obama. E talvez fosse o gosto pela escrita a única coisa que ele absolvia no Salazar que condenava. Em Soares, “os dois corpos do rei”, de que fala o famoso ensaio de teologia política sobre a Idade Média, escrito por Ernst Kantorowicz, eram o corpo político e o corpo literário.

No livro em que reúne textos sobre escritores, a que deu o muito intencional e expressivo título de Incursões Literárias, escreve: “O meu pai que era um pedagogo nato, um homem que tinha o dom de conhecer as pessoas, sempre me aconselhou a ser escritor. Pretendia que eu tinha alguma facilidade para escrever e realmente tinha, talvez demasiada, penso hoje, para poder ter sido, alguma vez, um bom escritor. De qualquer modo, a literatura sempre me apaixonou. (…) É certo que sempre tive, talvez, uma visão literária da vida e das personagens romanescas ou não, que encontrei no meu caminho. Adquiri o hábito de inventar histórias, totalmente ficcionadas, de pessoas que conheci e, por esta ou aquela razão, me interessavam.” Em França ou na Grã-Bretanha, um auto-retrato tão discretamente indiscreto teria dado origem a  exegeses e a teses (há imensos livros sobre a relação de Churchill, De Gaulle ou Mitterrand com a escrita e a literatura). Aqui, ninguém deu por isso […]
 
 
[…] Soares achava que a literatura é o grande íman do mundo, tornando-o menos insuficiente, mais inteligível, menos opaco, mais incandescente. Era herdeiro de uma ideia da literatura como imortalidade. Costumava dizer: “Ninguém sabe quem são os primeiros-ministros do tempo do Eça, mas toda a gente sabe quem é o Eça.” Como os da sua geração, achava também que a literatura dá voz. E que é liberdade.

Um dos grandes prazeres que tinha na vida, além do de ler, era o de falar de livros e de escritores – sobretudo com escritores. No meio do tumulto político, viu-o passar horas a falar de Garrett ou Herculano, de Camilo ou Eça, de Antero ou O. Martins, de Ramalho ou Junqueiro, de Pessoa ou Pascoaes, de R. Brandão ou T. Gomes, de Miguéis ou Nemésio, com João Gaspar Simões (tinha muito orgulho na dedicatória cheia de admiração que Simões lhe fez na biografia de Pessoa), Agostinho da Silva (seu antigo explicador, com quem dava passeios de bicicleta a falar de filosofia, literatura, arte, cinema, numa espécie de “Educação do Príncipe”), Casais Monteiro, Maria Lamas, Palma-Ferreira (muito assíduo, muito imaginativo), Torga, V. Ferreira, Cesariny, Pacheco, Natália, David, Abelaira, Urbano, Sophia, Eugénio, O’Neill, Alçada, C. Oliveira, C. Pires, M. da Fonseca, Saramago, Agustina (num jantar memorável com Cela),  Alegre, Abranches Ferrão, Barradas de Carvalho, Joel Serrão, Piteira Santos, António Valdemar. Escutava segredos e intrigas com o sorriso encantado de quem sabia que a maledicência e a conspiração literárias ainda são mais insidiosas e mortíferas do que a má-língua e a maquinação políticas.

Se viajava, ou se algum escritor estrangeiro passava em Lisboa (vários vieram a seu convite, para o Balanço do Século, por exemplo), convidava-o para almoçar ou jantar: Borges, Bellow, le Carré, Eco, Cela, T. Ballester, Brodsky, Semprún, Rushdie, Milosz, H. M. Enzensberger, Soyinka, J. Amado, Vargas Llosa, Garcia Márquez, Octavio Paz e mais, muitos mais. 

Os seus serões eram cheios de política, de literatura, de história, de arte. O tempo passava e os nomes passavam com ele. Saltava-se de Eça para Zola, de R. Rolland para Orwell, de Sérgio para Abel Salazar, de B. Caraça para Martin du Gard, de Régio para Cortesão, de M. Godinho para Braudel, de L. Caballero para Lorca, de Churchill para Malraux, de Roosevelt para Hemingway, de Balzac para Delacroix, de Koestler para Gide, de Manuel Mendes para Soares dos Reis, de V. de Almeida para Ortega, de Steinbeck para Portinari, de S. Pereira Gomes para Pavia, de Aquilino para Almada, de Alberty para Tàpies, de Picasso para Camus, de Cesário para V. da Silva, de Columbano para Pessanha. Falava de escritores como se falasse da família – de uma outra família. Mesmo os que não tinha lido eram para ele parentes que não conhecia, mas que, ainda assim, não pertenciam menos à família. E, quando falávamos de um poeta, as palavras com que  falávamos eram atravessadas pela voz nítida e ardente de Maria Barroso a dizer-nos um poema, uma estrofe, um verso: “Floriram por engano as rosas bravas” (Pessanha); “Naquele piquenique de burguesas” (Cesário) ; “Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!“ (Pessoa / Álvaro de Campos); “Acusam-me de mágoa e desalento” (Carlos Oliveira); “Sob as mordaças/ calam-se as palavras” (J. Namorado). A noite avançava com lentidão rápida, e nós avançávamos com ela.

Outro dos seus contentamentos maiores era o de ouvir e de contar histórias. Aprendeu essa arte, refinada, maliciosa e encantatória, nas conversas quotidianas das tertúlias dos cafés que, desde jovem, frequentara, como era uso na época. Sabia histórias divertidíssimas e, em muitas delas, havia grandes ensinamentos para a política e para a vida. Tinha histórias íntimas e públicas, épicas e cómicas, passadas e presentes. Nelas, havia amores, conquistas, traições, ciladas, infidelidades, poderes, vaidades, aventuras, ridículos. E no seu contar havia diálogos, apartes, anedotas, trocadilhos, mímicas, gargalhadas. Para contar, usava a memória e a imaginação, o imprevisto e o suspense. Contava para fazer aparecer o que desaparecera, levado pelo tempo e pelo esquecimento. Contava com um ritmo seguro, uma cadência certa, um clímax súbito. Soares contava histórias e o fascínio por elas – e por ele – ia aumentando num crescendo glorioso. Um dos livros que, entre gargalhadas, prometia escrever – e nunca escreveu – era o dos funerais oficiais mais divertidos a que tinha assistido (Brejnev, Andropov, Tchernenko, Hirohito, Hassan II, uma cena com o príncipe Rainier no funeral do conde de Barcelona, no Escorial, etc.).

Na escrita, fazia o louvor e a defesa de um estilo clássico, ordenado, directo e claro, de firme precisão e de fria perfeição, que procurava praticar. Mas, por vezes, a sua escrita trocava a recta pela curva e ganhava as sinuosas, ardentes e deleitosas (esta podia ser uma palavra dele) digressões barrocas, com apostos e continuados sucessivos, ênfases e perífrases, vaivéns e ziguezagues, num movimento ondulatório, vibrante e voluptuoso, magnificado aqui e ali por um sopro romântico. Nos seus livros, há quase sempre reflexão e narrativa, argumentação e valoração, descrição e comentário, comemoração (comemorar- lembrar em comum) e predição (predizer  – dizer antes). O Portugal Amordaçado, o seu livro dos livros, é disso um exemplo e é nisso exemplar. Aí, a política está na vida e a vida está na política. E a vontade de liberdade está nas duas […]

[…] Um dos grandes gostos de Soares era o de ir a livrarias (tinha uma no prédio onde morava) e alfarrabistas. Visitava-os com avidez, com concupiscência, num desejo de satisfazer a sua logofilia, ou mesmo logofagia (como diria o seu amigo de infância D. Mourão-Ferreira). Comprava muitos livros, numa apropriação simbólica do saber. Cá ou lá fora, conhecia os lugares onde descobria o que lhe interessava. Adorava conversar com os livreiros (quando viveu em Paris, fundou, com outros exilados portugueses, uma livraria na Rue Gay-Lussac) e os alfarrabistas (quando era Presidente, teve uma conversa na televisão com o mais antigo deles, José Maria Almarjão). Os troféus de caça que gostava de exibir eram as compras de livros raros ou manuscritos dos autores que admirava. Lembro: as primeiras edições de Vieira, de Camilo, de Eça, de Pessoa, algumas com dedicatórias. Ou a edição original completa da Enciclopédia de Diderot e d’Alembert, ou a primeira edição de todo o Victor Hugo. Tinha um encadernador, que punha no primeiro lugar da hierarquia dos seus artistas-artesãos, seguido do barbeiro, do alfaiate e do jardineiro…

Quando viajava, Soares transportava uma pesada pasta com livros. Levava muitos para poder escolher bem. Escolher bem – escolher de acordo com a vontade do momento, com o interesse do dia, com o desejo da noite. Lia vários livros ao mesmo tempo, como alguém que assim fica com muitas mãos, muitos olhos e muitos pés para andar por caminhos longos e curtos, conhecidos e desconhecidos, variados e até opostos. Quando descobria um grande livro, esse passava a ser o grande assunto das suas conversas.
 
 
As suas casas foram sendo, a um ritmo crescente, ocupadas, sitiadas, devoradas pelos livros. A sua biblioteca, de dezenas de milhares de volumes, é reveladora dos seus interesses vastos e variados: política, literatura, história, ensaio, geografia, artes. Muitos desses livros têm dedicatórias dos autores, que mostrava com uma vaidade infantil. Como era conhecida a sua paixão, escritores e editores de todo o mundo lhos enviavam. Ao seu gabinete chegavam diariamente dezenas de volumes, ficando amontoados, pois não deixava que os levassem sem os ver e agradecer.

Se Soares vivia rodeado de livros, acrescentava às torres de Babel que o cercavam as revistas e os jornais, portugueses e estrangeiros, que todos os dias recebia numa abundância que exasperava quem queria mantar a sua casa arrumada, ordenada e habitável. Assisti a muitas fúrias de Adamastor num cabo das tormentas matinal, geradas por não encontrar os livros, as revistas ou os jornais que estava a ler ou que queria ler.

A leitura deles era, hegelianamente, a sua oração matinal de homem moderno. E era a sua primeira ocupação como político. Essa leitura, feita com atenção, cuidado e desvelo, inspirava-o, dava-lhe ideias, sugeria-lhe acções. Lia e tomava apontamentos nos seus cadernos e blocos. Dessas notas, mal chegava à Rua da Emenda (PS) , a S. Bento (primeiro-ministro), a Belém (Presidente da República), ou à fundação, fazia telefonemas, dava instruções, escrevia cartas, marcava encontros. Era com leitura que, todas as manhas, punha o mundo a girar.

Soares não deitava papéis fora. Guardou tudo, desde o princípio até ao fim da vida, e obrigava quem trabalhava com ele a guardar tudo. No final das reuniões, mandava recolher o que ficara sobre a mesa. O seu arquivo, depois acrescentado com outros arquivos muito importantes, é assim amplo e diverso. É um dos maiores arquivos da nossa história contemporânea.

Soares lia sempre: livros, jornais, revistas, catálogos. Soares escrevia sempre: livros (até há um romance inédito, escrito na prisão), discursos, artigos, prefácios, apontamentos. Como escrevia à mão (só houve um período, dos anos 60 para os 70, que escreveu à máquina), tinha no dedo um calo da caneta. Esse calo dava-lhe mais orgulho do que qualquer título, cargo ou diploma. 

Ao longo dos anos, foi enchendo de observações e reflexões cadernos íntimos que se foram somando e hoje estão, inéditos, no seu espólio. Um dia, se verá o que esse “diário” diz de uma vida tão longa e tão rica. Como estes cadernos provam, essa vida foi-se olhando a si-mesma no divino e demoníaco espelho da escrita. Os cadernos provam também que aquele Mário Soares extrovertido, ligeiro, espontâneo, intuitivo, inspirado, improvisador, impulsivo era completado por um Mário Soares introspectivo, profundo, reflectido, meditativo, prudente, metódico, aplicado, grave, que pesava os actos da sua vida na balança das palavras. D. Quixote e Sancho Pança ao mesmo tempo, Soares era, afinal, muito mais complexo, enigmático e indecifrável do que parecia e do que queria parecer. Este homem, que passou a vida a dar notícias de si, talvez tenha deixado na letra densa e sinuosa das palavras destes cadernos algumas notícias que não nos tenha dado. Pode ser que sejam as chaves de um mundo não imaginado. 

Há na palavra, no verbo, qualquer coisa de sagrado que nos impede de fazer dele um jogo de acaso. Manejar sabiamente uma língua é praticar uma espécie de feitiçaria evocatória”, diz Baudelaire. Para Mário Soares, ler e escrever dava-lhe a certeza de que podia haver sempre um dia seguinte. Um dia seguinte mesmo ao dia da sua morte

O íman do mundo [extracto] – por José Manuel dos Santos, jornal Público (online), 7 de Janeiro de 2017 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

SOARES 65, O ANÚNCIO DO LÍDER


 
"Soares 65, o anúncio do líder” – por António Valdemar, in Público
 
Em 1965, Mário Soares proferiu um discurso que foi um marco, uma fronteira na oposição e uma das componentes do processo que o 25 de Abril irá prosseguir e mudar o curso da História
Há tempo para viver e há tempo para morrer. A saúde cada vez mais precária de Mário Soares tinha-se agravado de modo implacável. Perdera a agilidade de movimentos. Extinguira-se o entusiasmo que lhe fervia nos olhos, se refletia na voz e lhe inundava o rosto. Sentia-se entre os escombros de um mundo que ajudara a construir. Ainda chegou a ter consciência da crise profunda que ameaça a Europa e se tem manifestado em Portugal. 
Depois, ficou reduzido a um espectro do que fora. Mas insistiu sempre em viver. Embora identificasse alguns amigos, estava cada vez mais frágil e mais ausente. O convívio, um dos seus maiores prazeres, passou a ser difícil. Queria citar um nome, referir um acontecimento, mas não conseguia. Faltavam-lhe as palavras que queria dizer. Ou, então, esquecera tudo e todos.
Mário Soares foi em Portugal o maior político da sua geração e do seu tempo. Dominou a segunda metade do século XX e, no início do século XXI, ainda continuou presente. Herdou do pai o vírus da política, o empenhamento na militância, o sentido do risco e a firmeza e vigor na ação para destituir Salazar e erradicar o salazarismo. Orgulhava-se do magistério de António Sérgio, Jaime Cortesão, Bento Caraça, Câmara Reis e Mário de Azevedo Gomes. Considerava-se discípulo, no ensino secundário de Álvaro Salema e Agostinho da Silva; e na universidade de Vieira de Almeida e de Magalhães Godinho. Este último prefaciou-lhe a primeira tese de licenciatura O Nacionalismo Político de Teófilo Braga recusada, por motivos ideológicos, por alguns professores do júri, na Faculdade de Letras de Lisboa.

Para a sua formação, também reconhecia a importância de Álvaro Cunhal, enquanto regente de uma sala de estudos do Colégio Moderno, ao concluir uma disciplina do antigo sétimo ano do liceu. Através dessas explicações criou uma relação direta com uma personalidade que o fascinou. Quando perguntei a Álvaro Cunhal, num encontro no Martinho da Arcada, qual o contributo intelectual e político que exercera em Mário Soares, respondeu-me com o seu humor corrosivo: “Nenhum. Só consegui ensinar-lhe as coordenadas celestes para um exame de Geografia. O dr. Mário Soares nunca conseguiu aprender comigo as coordenadas terrestres”…

A 14 de Dezembro de 1965, falecia Mário de Azevedo Gomes. Chefiava, na altura, a oposição ao salazarismo. A década de 60, a partir de Agosto de 1960, e com a morte de Jaime Cortesão, confrontou-nos com o progressivo desaparecimento das figuras paradigmáticas. O Diretório Democrato-Social  – bastante desativado – admitiu a hipótese de entregar a presidência a Cunha Leal, antigo ministro da I Republica.

Mas a primeira geração, formada na Seara Nova  – Manuel Mendes, Fernando Abranches Ferrão, António Macedo, Carlos Cal Brandão e outros –, não aceitava Cunha Leal. Perduravam os ecos de uma das mais contundentes polémicas de Raul Proença: o conflito entre os princípios e os interesses, o antagonismo entre as conveniências económicas, os valores morais e a ética politica.
 
 

É neste contexto que Mário Soares, no funeral de Mário de Azevedo Gomes, no cemitério dos Prazeres – onde irá agora repousar, transitoriamente, até lhe prestarem honras no Panteão Nacional –, proferiu um discurso que ficou a ser um marco na sua trajetória, uma fronteira na oposição e uma das componentes do processo que o 25 de Abril irá prosseguir e mudar o curso da História.

Estive lá como repórter do Diário de Notícias e como amigo e admirador de Azevedo Gomes, oriundo de famílias açorianas e, ele próprio, nascido na ilha Terceira. Recordo-me do que se passou e do que a Censura truncou e suprimiu. É um momento histórico da carreira política de Mário Soares. Talvez haja um registo no espólio de Igrejas Caeiro. Lembro-me de ter feito a gravação.

Ao usar da palavra, Mário Soares, num ambiente de apertada vigilância policial, falou acerca do futuro da oposição. E disse, perentoriamente, que, falecido Mário de Azevedo Gomes, líder indiscutível, não aceitariam outro líder que não fosse da geração do próprio Mário Soares.

O consenso foi significativo: na sua geração, na geração anterior, e, ainda, nos sobreviventes do grupo originário da Seara Nova e de alguns dos últimos civis e militares que implantaram a República. Afastava-se a hipótese de Cunha Leal suceder a Mário de Azevedo Gomes.

Era a oportunidade de a nova geração dar testemunho e de Mário Soares assumir o papel principal na liderança. Já conquistara protagonismo e visibilidade pública. Já concebera um projeto para Portugal. Assentava na República Moderna e na social-democracia europeia. A oposição passava a ter um rosto jovem. Ganhava maior amplitude e tornava-se mais eficaz.

Em numerosas circunstâncias Mário Soares demonstrara coragem, determinação e energia. Voltou a repetir sempre que necessário. Tinha o perfil adequado para as lutas a travar, à frente da oposição, dentro e fora do País. Estávamos em Dezembro de 1965. Pouco antes completara 41 anos. O discurso, naquele dia, no funeral de Azevedo Gomes, constituiu a afirmação e também o anúncio da grande liderança política nacional e internacional de Mário Soares.

Soares 65, o anúncio do líder – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências, antigo aluno de Mário Soares no Colégio Moderno], jornal Público (online), 7 de Janeiro de 2017 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

IN MEMORIAM DE MÁRIO SOARES. ATÉ SEMPRE!




 
Nos 80 anos de Mário Soares [nasceu a 7 de Dezembro de 1924] dissemos AQUI que Mário Soares era o “avô” que estimávamos ter. Que era um fiador da nossa liberdade (“mesmo que ela só proceda de nós”), um vigilante, um lutador orgulhoso da Res Pública. E que a luz alumiada do seu caminho (mesmo em tempos desditosos) lhe soube conceder sempre elevados estímulos de liberdade - seu fecundo hábito –, um sonhado mundo de fraternidade, em que os deveres cívicos republicanos e laicos cumpriam com vigor o seu dever. Por isso afirmamos: sempre o belo espírito de Mário Soares soube caminhar de rosto levantado, honrando a generosa tradição republicana, democrática e laica.

Em nome do Almanaque Republicano, e em meu nome pessoal, em testemunho da maior estima e respeito pela sua memória querida – que nos transborda a alma -, dizemos bem alto

Até Sempre, Mário Soares.

J.M.M.

sexta-feira, 11 de março de 2016

FÁTIMA PATRIARCA: IN MEMORIAM

Assinalando o falecimento da historiadora Maria de Fátima Patriarca, replicamos o texto evocativo publicado no jornal Público, da autoria de Isabel Salema:

Historiadora do movimento operário e sindical durante o Estado Novo em Portugal, Maria de Fátima Patriarca morreu aos 71 anos, na madrugada desta sexta-feira, devido a complicações na sequência de um problema cardíaco, no Hospital da Cuf (Infante Santo), em Lisboa. 
Fátima Patriarca era mulher do jornalista do PÚBLICO Jorge Almeida Fernandes. O velório de Maria de Fátima Patriarca terá lugar este sábado a partir das 17h na Basílica da Estrela, de onde o funeral sairá no domingo de manhã, pelas 9h, para o crematório de Rio de Mouro.
“Sem dúvida uma das mais importantes historiadoras dos movimentos sociais do século XX, tendo estudado em especial as questões sindicais e laborais”, resume o historiador António Araújo, que destaca o facto de Fátima Patriarca fazer parte de uma geração de historiadores que começou a abrir os arquivos do salazarismo. “Foi sempre uma historiadora muito baseada nos documentos. Rigorosíssima.” Na sua obra, destacam-se A Questão Social no Salazarismo (INCM, 1995), a sua tese de doutoramento, e Sindicatos contra Salazar. A revolta de 18 de Janeiro de 1934 (Imprensa de Ciências Sociais, 2000). 
No livro sobre o 18 de Janeiro, António Araújo dá como exemplo esse intenso trabalho nos arquivos, a partir dos quais Fátima Patriarca construiu uma história onde “viu muito mais do que a querela política entre comunistas e anarquistas”, fazendo uma profunda releitura da mítica revolta da Marinha Grande. O livro, escreveu Adelino Gomes neste jornal quando saiu em 2000, é uma “reconstituição dia a dia, minuto a minuto, da luta contra a instauração por Salazar dos sindicatos corporativos”, fazendo “um retrato quase cinematográfico dos acontecimentos”. 
Fátima Patriarca nasceu em 1944 no Monte do Sol Posto, propriedade dos Ribeiro Telles, no Couço – conta o historiador Álvaro Garrido num texto inédito que será publicado em breve pela Imprensa de Ciências Sociais, num livro colectivo dedicado aos historiadores mais antigos do Instituto de Ciências Sociais (ICS) –, por coincidência “uma freguesia rural ribatejana que teve, ela própria, uma história social intensa que consta dos anais da resistência rural ao Estado Novo”. Os pais, no entanto, vinham de Manteigas, na Serra da Estrela, e no final dos anos 40 a família seguiu para Benguela. 
Foi em Angola que Fátima Patriarca estudou, com uma passagem pelo Instituto Comercial de Lisboa, até entrar para Germânicas, no início dos anos 1960, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em plena crise académica. Pouco tempo depois passa para o Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa, onde obtém o diploma em 1967.
Dois anos depois, conta a breve biografia de Álvaro Garrido, está em Paris, ingressando na École Pratique des Hautes Études en Sciences Sociales, onde assiste aos seminários de Alain Touraine, conhecido pela sua obra dedicada à sociologia do trabalho e dos movimentos sociais, de onde sai em 1972 com o diploma d'Études Approfondies en Sciences Sociales.
Será em pleno PREC (Processo Revolucionário em Curso), depois do 25 de Abril, que entra no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa como assistente; aí se licencia em Sociologia Industrial em 1980. “Nesses anos de euforia revolucionária e de transição para a democracia Fátima Patriarca era claramente socióloga”, escreve Álvaro Garrido, dedicando-se a uma sociologia histórica do trabalho, “com particular atenção aos temas do controlo operário e da greve”.
Em 1992 fez as suas provas de investigadora no Instituto de Ciências Sociais (ICS), sob a orientação do sociólogo Adérito Sedas Nunes, com a dissertação de doutoramento Processo de implantação e lógica e dinâmica de funcionamento do Corporativismo em Portugal – os primeiros anos do Salazarismo. Entra em 1992 para os quadros do ICS, de onde se jubilou em 2005. 
Álvaro Garrido diz que é com o projecto de investigação O Trabalho Operário na Metalomecânica Pesada (1978-82) que começa a transição que dá, aliás, título ao seu artigo sobre a historiadora nascida socióloga: Da Sociologia do Trabalho a uma História Social do ‘Político’. Essa transição, explica ao PÚBLICO, “surge por uma inquietação intelectual, que decorre da necessidade de perceber as políticas sociais e laborais na sua espessura histórica em Portugal: "De estudar o triângulo corporativo institucionalizado pelas políticas do Estado Novo em 1933 – Estado, patrões e trabalhadores –, dada a longa persistência do sistema corporativo nas relações de trabalho e nas políticas sociais. Um triângulo que a Fátima Patriarca estudou como ninguém." 
Tal como António Araújo, Álvaro Garrido destaca “o sentido de minúcia, e de leitura de documentos, muito rigoroso” e “um espírito narrativo muito apurado”. Não publicava nada que não estivesse muito amadurecido: “Acabou por não escrever muito. Tem dois livros muito extensos. O resto são artigos, alguns muito grandes também.” 

"O seu contributo mais saliente para a história da História", escreve Garrido, "reside no modo com soube construir uma História Social do 'político'". "Relativamente ao período do Estado Novo e das suas realidades político-sociais, a auto-exigência analítica de Fátima Patriarca e o seu sentido crítico subtil conduziram-na a evitar o binómio previsível e redutor que tende a situar os historiadores entre aqueles que preferem uma história do regime por dentro de si mesmo e os que elegem a 'história das oposições' como a única perspectiva capaz de alimentar uma memória histórica vigilante."

A notícia pode ser consultada AQUI.

A.A.B.M.