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domingo, 23 de setembro de 2018

FERNANDO PESSOA, UM RETRATO FORA DA ARCA



Da Resistência a Fernando Pessoa” – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso
Motivos literários, políticos e religiosos ajudam a explicar a lenta, polémica e difícil compreensão do poeta

"Fernando Pessoa, Um Retrato Fora da Arca”, por Zetho Cunha Gonçalves, integra mais de 400 páginas com artigos e depoimentos repartidos em quatro núcleos temáticos: a homenagem da revista “Presença” em 1936, os próximos do seu convívio, o presente da amizade retribuído e as vozes da intimidade comunicantes. Pretende ser “a mais alentada recolha de textos alguma vez dada a público, não só de Fernando Pessoa sobre os seus pares mais próximos, como também, sobretudo daqueles com que eles mais intimamente conviveram humana e literariamente”. É um contributo, sem dúvida, mas não se poderá considerar exaustivo.
A recuperação de textos dispersos principiou com as “Páginas de Doutrina Estética”, coligidas por Jorge de Sena, em 1946, e insere-se, a partir de 1942, no âmbito das obras completas editadas pela Editorial Ática, de Luís de Montalvor. Disponibilizou elementos fundamentais para elaborar as primeiras biografias e estudos críticos. Assinala os primórdios da divulgação ainda muito contestada da produção ortónima e heterónima de Fernando Pessoa.

A escolha para “Um Retrato Fora da Arca” dos dois artigos de Alfredo Guisado no semanário “O Diabo”, de 1935 e de 1936, escritos sob o impacto da morte de Pessoa, e devido a muitos disparates nos jornais e de lamentáveis omissões, merece, todavia, ser completada com a entrevista que Alfredo Guisado concedeu à revista “Autores”, (número 10, de 1960) e que, embora não assinada, é da autoria do diretor e único redator Luís de Oliveira Guimarães.
Ainda sobre Alfredo Guisado aguarda-se, há muito, a colheita e a seleção de centenas de artigos e crónicas acerca do grupo e da geração do Orpheu, no jornal “República”, do qual foi um dos diretores de fins dos anos 40 a fins dos anos 60. Traçou perfis de amigos e companheiros, descreveu episódios desconhecidos, envolveu-se em guerrilhas com Gaspar Simões e Casais Monteiro.
 
 

ERROS CRASSOS
A polémica desencadeada, em 1950, por Gaspar Simões, nos dois tomos de “Vida e Obra de Fernando Pessoa” motivou a crítica pertinente de Augusto Ferreira Gomes, em entrevista de que lemos, agora, alguns excertos reveladores. Todavia, o ataque mais documentado e profundo depara-se em “Fernando Pessoa — Notas a uma Biografia Romanceada”, por Eduardo Freitas da Costa. Pertencia à família, convivera de perto com Pessoa, nos últimos anos. Estava habilitado para rebater opiniões, apontar lacunas e denunciar erros, alguns deles crassos. Por ser um adversário político confesso, João Gaspar Simões recusou-se a proceder às retificações que se impunham em edições posteriores.

A propósito de erros crassos existem outros nas “Páginas Íntimas e de Autointerpretação”, organizadas por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho. São, por exemplo, detetáveis na identificação de Esther Duval, que era a atriz Esther Leão, ou acerca de Carlos Corado, como mais um possível heterónimo de Pessoa. Tratava-se, afinal, de Carlos Celestino Corado, grande contador de histórias de bastidores políticos e culturais, colega de Pessoa no Curso Superior de Letras, bibliotecário do Palácio de São Bento e do “Jornal do Comércio”. Retificou o equívoco Hernâni Cidade, num artigo publicado n’ “O Primeiro de Janeiro”.
AS RESTRIÇÕES DA IGREJA

A igreja católica, durante décadas, formulava as maiores restrições a Fernando Pessoa, enquanto glorificava Mário Beirão, autor do hino da Mocidade Portuguesa e, sobretudo, António Correia de Oliveira, a proposta sempre na manga para um candidato português ao Nobel da Literatura. Uma das vozes mais influentes da igreja, o padre Moreira das Neves, consultor da nunciatura e do episcopado, biógrafo encartado do cardeal Cerejeira, chefe de redação do jornal “Novidades”, órgão diário do episcopado até ao 25 de Abril, depôs no inquérito do semanário “Acção”, mas não foi selecionado para “Um Retrato Fora da Arca”.
Não seria despiciendo divulgar o que, então, disse Moreira das Neves. Reconhecia Fernando Pessoa “um dos poetas mais densos da literatura portuguesa” e, logo a seguir, afirmava perentoriamente: “Crivado de enigmas e com sede de luz, debateu-se entre Deus e o poder das trevas. Daí o hermetismo de muitos dos seus versos e o pendor profético de tantos outros. Lastimo todos os erros que Fernando Pessoa não soube evitar.”

Afonso Lopes Vieira, um dos denominados “mestres da portugalidade”, autor do Avé de Fátima e da Oratória de Fátima musicada, em 1932, por Ruy Coelho, no inquérito da “Acção”, sobre Fernando Pessoa foi categórico: “Quanto à sua vasta obra poética, pelo que conheço, encontro um exoterismo (sic) ou cabalismo que sinto pouco e entendo mal.”
FRASEOLOGIA UNIVERSITÁRIA
Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, até ao fim dos anos 50, fundador e diretor da revista “Colóquio”, até 1975, Hernâni Cidade, colega de Pessoa no Curso Superior de Letras — em texto agora não recuperado do inquérito da “Acção” — ao pronunciar-se acerca de Fernando Pessoa considerava que a sua poesia “procura, acima de tudo intuir os frémitos desconexos, os nevoentos emaranhamentos do mundo interior, em sua atividade subconsciente pré-lógica”.

Esta fraseologia que sempre foi peculiar a Hernâni Cidade, seja a escrever ou a falar sobre Camões, Vieira e outros poetas e escritores clássicos ou contemporâneos, marcou sucessivas gerações de alunos.
A opinião que predominava na Faculdade de Letras de Lisboa, foi alterada por Vitorino Nemésio, catedrático de Literatura Portuguesa Contemporânea. Não sendo um pessoano militante, incitou Jacinto do Prado Coelho a não continuar com a novela camiliana — uma das especialidades do pai, António do Prado Coelho, discípulo de Teófilo — e a preparar a tese Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, concluída em 1949.
 
 

BANDEIRA POLÍTICA
Outro depoimento do insuspeito José Osório de Oliveira que se limitou à “Mensagem”. “Teve, esse livro — acentuou — a pior sorte que em Portugal pode ter uma obra literária; servir de bandeira política”. Muitos “do outro lado, passaram a admirar Fernando Pessoa só no dia em que ele escreveu contra a extinção das ordens secretas”.

Em face de tudo isto a oposição republicana, socialista e comunista, até aos anos 50/60, rotulava Fernando Pessoa de poeta fascista. Tanto mais que publicara, em 1928, a “Defesa e Justificação da Ditadura Militar”. Recorde-se que Pessoa rejeitou este folheto editado pelo Núcleo de Ação Nacional. Com efeito, na nota biográfica, com data de 30 de março de 1935 escreveu: “Deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isto e talvez que repudiar muito.”
A POSIÇÃO DE MÁRIO SOARES

Os preconceitos dos neorrealistas foram, por vezes, ostensivos. Deveriam ser recolhidos e analisados. Mário Soares — companheiro e amigo dos neorrealistas, editado na coleção do Novo Cancioneiro, casado com Maria Barroso, intérprete dos principais poetas do neorrealismo — aproximou-se de Fernando Pessoa “só no exílio em Paris e, fundamentalmente, depois do regresso a Portugal” — confidenciou-me, recordando o forte impacto na sua formação literária e cívica incutido por Álvaro Salema. “A minha visão democrática de Portugal” — prosseguia — “foi alicerçada com a leitura de escritores, poetas e ensaístas dos séculos XIX e XX“. E enumerava: “Herculano e Garrett, Antero e Oliveira Martins, Eça que li e continuei a ler e a reler, até aos intelectuais da República, ao grande escritor da República, Teixeira Gomes, e aos críticos da República, Sérgio, Cortesão e Proença”. A referência era, portanto, a “Seara Nova” e não o “Orpheu”.
Já Presidente da República, numa viagem a bordo do “Sagres”, em agosto de 1986, entre Ponta Delgada, escala nas Berlengas e desembarque no Tejo, aproveitou a oportunidade para, “em contato direto com o mar” fazer uma leitura da “Mensagem”. Leu e gostou muito. Pessoa, para Mário Soares, passou a constituir uma surpresa. Antes o grande poeta era Antero que Álvaro Salema “o obrigou no 7º ano do liceu a ler e a comentar”, na edição dos sonetos prefaciada por António Sérgio. Diversas vezes disse a Mário Soares que não era a obra principal de Pessoa. Respondia-me que “era o único livro que Pessoa editara em português, que teve o cuidado de rever cada poema e que fez a sistematização num todo simbólico”. Procurei lembrar a Mário Soares a opinião do próprio Pessoa sobre a “Mensagem” e que reencontro agora textualmente na famosa e histórica carta a Casais Monteiro sobre os heterónimos: “Não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz com um livro da natureza de Mensagem. Sou, de facto, um nacionalista místico, um sebastianista racional. Mas sou, à parte isso — referia Pessoa na mesma carta — e até em contradição com isso, muitas outras coisas.”
 
 

AS DECLARAÇÕES DE ÁLVARO CUNHAL
No Martinho da Arcada, num encontro organizado por Luiz Machado, em maio de 1991, interroguei Álvaro Cunhal sobre Pessoa, a relação de Pessoa com os fascismos europeus e a “Mensagem”. O Pessoa que Cunhal gostava era Álvaro de Campos. Acerca da “Mensagem” — e estou a transcrever um texto gravado — foi ainda mais categórico: “A ‘Mensagem’ é um momento contraditório na obra de Fernando Pessoa. É uma encomenda do Secretariado da Propaganda, do futuro SNI, uma obra para um prémio, fomentada e inspirada por António Ferro.” “É uma obra fraquíssima, porque Pessoa quis conformar a obra poética com a mensagem política. E o resultado foi que a obra poética fracassou completamente. A ‘Mensagem’ — insistiu — é um fracasso.” Fez questão de acrescentar logo: “Mas em Almada Negreiros, um homem profundamente comprometido com a ditadura fascista, eu reconheço o grande desenhador que ele foi. Isto conforma que é preciso saber distinguir a obra de arte do artista e a sua opção política.”

Tentei demonstrar que os poemas da “Mensagem” eram das primeiras duas décadas do século, publicadas em vários jornais e revistas, muito anteriores à fundação do Secretariado dirigido por António Ferro. Imperturbável, Álvaro Cunhal concluiu a rir, “Olhe que não… olhe que não…”

“MALABARISMO” FREQUENTE
Gustavo de Fraga, no mesmo inquérito, promovido pela “Acção” entrevistou — e vem agora na íntegra em “Um Retrato Fora da Arca” — Vieira de Almeida, antigo colega de Pessoa no Curso Superior de Letras, personalidade do maior prestígio intelectual e cívico. Recordo-me muito bem que, ao falar de Pessoa, Vieira de Almeida caía no absurdo de afirmar que “o seu caso não é excecional, pois (António) Feijó também se serviu do heterónimo de Abreu e Lima”, sem distinguir e clarificar a diferença entre pseudónimo e heterónimo. Muito mais grave, ainda, era quando Vieira de Almeida — sem conseguir dilucidar as diversas personas de um “drama em gente” — declarava com veemência: “Pessoa foi, frequentemente, um malabarista. Há na sua poesia malabarismo, ironia… e creio que muitas vezes ele próprio não sabia onde terminava isso e começava algo diferente.”
 
 

DOIS CRIMES DO JORNALISMO
Mesmo em cima da morte e do funeral de Fernando Pessoa, Norberto de Araújo, um dos jornalistas mais celebrados da época e ainda hoje lembrado como “mestre de estudos olisiponenses”, na página semanal que mantinha no “Diário de Lisboa”, enaltecia o teatro de Eduardo Schwalbach e as crónicas de Augusto de Castro — dois diretores do “Diário de Notícias” — com os adjetivos mais retumbantes, enquanto reduzia Fernando Pessoa a uma figura estranha e bizarra, a vaguear nas ruas da cidade (“Diário de Lisboa”, 5- 12- 1935). Não era de esperar outra coisa de Norberto de Araújo e de muitos outros jornalistas. Uma das raras exceções foi António Ferro. Aliás, o próprio Fernando Pessoa, em carta a António Ferro, identificava, na época, o jornalismo português mergulhado em “dois grandes crimes mentais — a lentidão e a tradição”; (…) “o bolor radicalmente póstumo dos Emídios Navarros, Marianos de Carvalho, Eduardo Coelho e quantos mais, de igual estirpe, que pesam no passado do jornalismo presente como calos do abismo.”

Entre os méritos de Fernando Pessoa, um retrato fora da arca, organizado por Zetho Cunha Gonçalves, somos confrontados com testemunhos curiosos. Não deixa de ser interessante conhecer depoimentos que revelam os insólitos motivos literários, políticos e religiosos que determinaram a lenta, difícil e polémica compreensão da obra de Fernando Pessoa até atingir toda a irrecusável dimensão nacional e projeção universal.
Da Resistência a Fernando Pessoa – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 22 de Setembro de 2018, pp. 66/67 – com sublinhados nossos.
 
António Valdemar
 

J.M.M.

sexta-feira, 16 de março de 2018

CELEBRAR ANTÓNIO SARDINHA, OU A ANTÍTESE DO LUGAR PARA ONDE QUERO IR


Celebrar António Sardinha, ou a Antítese do Lugar onde quero ir” – por Paulo Mendes Pinto, in Público, 15-03-2018
Tenho direito a não me identificar e a pedir que não me obriguem a ler este nome na placa identificativa de uma artéria lisboeta.
“Cada época tem a sua visão, as suas narrativas sobre os acontecimentos, sobre o fluir e sobre as personagens. Cada ideologia distribui prémios e afasta incómodos. Reescrevemos o passado de acordo com as vontades do presente. Mas estas alterações ao sabor dos ventos dominantes são interessantes. Mostram um certo pulsar social e político. Dão-nos uma visão de como a heroicidade pode, por um decreto, ser transformada em crime de lesa-pátria.
E, por vezes, há crimes que não são de lesa-pátria, mas sim de lesa-humanidade. Há avanços que civilizacionalmente fazemos e que não queremos abandonar, nem dar, sequer, possibilidade de mostrar que estamos bem como estamos. Não, no que respeita ao respeito pelo outro, no que respeita ao Humano, não podemos pensar que o adquirido é, de facto, adquirido.
Neste que é ano em que comemoramos os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, não nos podemos contentar com distrações, com ausências e com silêncios. Há que consolidar estes princípios de valorização do ser humano, da sua diversidade, do direito que cada um de nós tem em ter as suas ideias, as suas pertenças, as suas identidades.
 
Há poucas horas descobri que em Lisboa há um topónimo que recorda António Sardinha, integrista, antiliberal, antimaçónico, anti-tudo-o-que-de-liberdades-defendemos. Por fim, foi talvez o maior mentor, a base, do antissemitismo em Portugal. Foi dado no início do Estado Novo; mas ainda existe.
Os primeiros laivos verdadeiramente antissemitas em Portugal, na mais correta aceção da palavra, encontramo-los próximos de um quadro ideológico e nacionalista muito específico, nos grupos que se vão organizando na década de 10 do séc. XX contra a implantação da República, grupos monárquicos, antiliberais e antimaçónicos. Talvez o primeiro autor panfletário antissemita tenha sido Mariotte, i.e., o P.e Amadeu de Vasconcelos, que em 1913 escreveu Os Meus Cadernos, onde vituperava contra a “raça maldita”, os judeus.
Mas o ano de 1914 seria um ano bastante importante na formulação do antissemitismo português. Hipólito Raposo publicava a Nação Portuguesa e António Sardinha, que nos traz aqui, em edição de autor, publicava O Sentido Nacional de Uma Existência/António Thomaz Pires e o Integrismo Lusitano. Sardinha vocifera contra toda a mistura de gentes que os Descobrimentos implicaram, dando especial destaque à “porca infeção hebraica, de que não escapámos incólumes” (p. 41). Sardinha, o “paladino do antissemitismo lusitano”, nas acertadas palavras de Jorge Martins, defende o monarca D. João III na sua luta pela instalação da Inquisição em Portugal e demonstra a necessidade e vantagens desse tribunal religioso perante as “influências do morbo judengo”.
 
Sardinha seria um autor com uma produção continuada no campo do ódio contra os judeus. No ano seguinte, em 1915, daria ao prelo a obra O Valor da Raça. Nesta obra, que se destinava a concurso para professor da Faculdade de Letras de Lisboa, Sardinha revelava uma total ignorância da história judaica, assim como da própria Pré-História humana, que aqui usava para definir uma “raça lusa”. Misturando referências à Atlântida, Sardinha defendia uma homogeneidade étnica e territorial com base na mais distante antiguidade. No ano seguinte, reforçaria esta tese com o texto “O território e a raça” incluído na obra A Questão Ibérica, no qual argumentava ainda mais veementemente a origem atlante da raça lusitana. Mais tarde, no Glossário dos Tempos, editado em 1942, Sardinha diria que a raça lusa era a última barreira ao “alastramento semita” (p. 162).
No seu ideário, Sardinha associava os judeus à maçonaria. Em 1940, no livro Ao Princípio Era o Verbo, acusa o Marquês de Pombal de ser a origem de toda uma linha de degenerescência e de assalto à natureza cristã da identidade, bem como o liberalismo de ser uma “forma espiritual do semitismo” e o capitalismo uma “inegável extração talmúdica” (p. XXII-XXIV).
Citamos o fim de um seu soneto, “Madre Inquisição”, retirado da obra editada em 1937, Pequena Casa Lusitana, na medida em que mostra da melhor forma o pensamento radical de Sardinha, defendendo e desejando a Inquisição:
Ó santa Inquisição, acende as chamas!
E no fulgor terrível que derramas,
Vem acudir à pátria portuguesa!
(p. 122)

Palavras para justificar esta afirmação podemos tê-las na leitura dos tempos. É a época, sim. Mas não somos nós, hoje. E é aqui, na tensão entre o que foi e o que quero passar para o futuro, que eu me tenho de posicionar como cidadão e como pai. Sim, António Sardinha existiu, como muitos outros antissemitas portugueses. Mas quero valorizar tudo o que ele abominava: o judeu, o muçulmano, o protestante, o ateu, o maçon, o liberal, o republicano. O meu mundo é cosmopolita e é esta diversidade que eu quero passar como legado ao futuro.

Hoje eu não me identifico com movimentos como o que Sardinha defendia e alimentou. Hoje, a sociedade em que eu vivo e que pretendo deixar para os vindouros é de Igualdade, de Fraternidade e de Diálogo. Sobretudo, é de Respeito. Tenho direito a não me identificar e a pedir que não me obriguem a ler este nome na placa identificativa de uma artéria lisboeta, cidade que desde o século XV foi de “muitas e desvairadas gentes”, como afirmava Damião de Góis, outro perseguido pela Inquisição que Sardinha desejava.

Lisboa representa exactamente o oposto de António Sardinha

Celebrar António Sardinha, ou a Antítese do Lugar onde quero ir – por Paulo Mendes Pinto, jornal Público, 15 de Março de 2018, pp. 54/55 – com sublinhados nossos.



J.M.M.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

REVISTA "NAÇÃO PORTUGUESA" – ÓRGÃO DO INTEGRALISMO LUSITANO


NAÇÃO PORTUGUESA. [Pola Ley e Pola Grey]. Revista de Filosofia Política [depois, Revista de Cultura Nacionalista] [Órgão do Integralismo Lusitano]; Editores: França e Arménio (Arco de Almedina, 2-4, Coimbra; Impressão: Tip. Teixeira de Mário Antunes Leitão (Rua da Cancela Velha), Porto; 1914-1938, XI Séries:

- I Série, nº 1 (8 de Abril de 1914) ao nº 12 (Novembro de 1916); Dir. Alberto de Monsaraz (Secretário, Nuno de M. Teixeira) [NOTA: A revista “Nação Portuguesa” interrompe-se, sendo substituída pelo diário integralista da tarde “A Monarquia” – 12 de Fevereiro de 1917, com Alberto de Monsaraz na direcção e redactor-chefe, João do Amaral -, reaparecendo depois em Julho de 1922, já sob a direcção de António Sardinha]; Composição: Rua Serpa Pinto, 38, 2º; Impressão Largo do Calhariz, 29 e a partir do nº 8 (Junho 1915) na Tip. Minerva, Av. Trovisqueira, Famalicão;

- II Série [subtítulo: “Revista de Cultura Nacionalista"], nº 1 (Julho de 1922) ao nº 12 (1923);Dir. António Sardinha (Secretario, Domingos de Gusmão Araújo); [NOTA: Alfredo Pimenta sai, em 1924, formando a Acção Realista Portuguesa]; Editor: J. Fernandes Júnior; Propr: a partir do nº 2, Empresa da “Nação Portuguesa” e a partir do nº5 (Novem 1922), da “Sociedade Integralista Editora, Lda”; Composição: largo do Directório, nº8, 3º; Impressão: Largo do Calhariz, 29 [no nº 9 – por dificuldades (!?) de tipografia – e no nº 12, na Typ. Tirsense, Santo Tirso];

- III Série [subtítulo: “Revista de Cultura Nacionalista"], nº 1 (1924) ao nº 12 (1926); Dir. António Sardinha [apenas nos 2 primeiros números, tendo, pela morte de A. Sardinha a 10 de Janeiro de 1925, assumido a direcção da revista Manuel Múrias e Rodrigues Cavalheiro (nº3) no lugar de secretário] (Secretário, Manuel Múrias); Editor e Propr.: J. Fernandes Júnior; Impressão: Rua da Horta Seca, 7, Lisboa [no seu nº3, na Imprensa Beleza, R. da Rosa, 99-107, Lisboa];

- IV Série [subtítulo: “Revista de Cultura Nacionalista"], de 1926 a 1928; Dir. Manuel Múrias (Secretário, Marcelo Caetano, a partir de Novembro de 1927); Editor e Propr.: J. Fernandes Júnior; Redacção: Largo do Directório, 8, 3º; Impressão: Imprensa Beleza, R. da Rosa, 99-107, Lisboa;

- V Série, nº1 (Julho de 1928) ao nº12 (Junho de 1929); Dir. Manuel Múrias (Secretário, Marcelo Caetano); idem

- VI Série, nº1 (1929) ao nº12 (1931); Dir. Manuel Múrias (Secretário, Marcelo Caetano);
 
DEPOIS, a revista passa a publicar-se em volumes:

- Volume VII, nº1 (1932) ao nº 12 (1933); Dir. Manuel Múrias (Secretário, Fernando Campos);

- Volume VIII, 1933 a 1934 (seis fasc.); Dir. Manuel Múrias (Secretário, Fernando Campos);

- Volume IX, 1934 (seis fasc.); Dir. Manuel Múrias (Secretário, Fernando Campos);

- Volume X, 1936 a 1937 (seis fasc.); Dir. Manuel Múrias (Secretário, Fernando Campos);

- Volume XI, 1937 a 1938 (seis fasc.); Dir. Manuel Múrias (Secretário, Fernando Campos);
 
[Alguma] Colaboração/Artigos: A. Botelho da Costa Veiga, Adriano Xavier Cordeiro, Afonso Lopes Vieira, Afonso Lucas, Alberto de Monsaraz, Alfredo Pimenta, Álvaro Maia, Amadeu de Vasconcelos (Mariotte), António Ferro, António Pedro, António Sardinha (António de Monforte), Ayres de Ornelas, Augusto da Costa, Avelino Soares, Bettencourt Rodrigues, Caetano Beirão, Carlos Malheiro Dias, Carlos de Passos, Castelo Branco Chaves, Cunha Saraiva, D. Luís de Castro, Domingos Garcia Pulido, Domingos de Gusmão Araújo, Eduardo Brasão, Feliciano Ramos, Fernando Amado, Fernando Campos, Fernando Pires de Lima, Ferreira Deusdado, Francisco L. Vieira de Almeida, Francisco de Sousa Gomes Veloso, Francisco Vieira de Almeida, Gonçalves Cerejeira, Gustavo Ferreira Borges, Henrique Galvão, Hipólito Raposo, J. Lúcio de Azevedo, João do Amaral, João Ameal, João de Castro, João da Rocha Páris, José de Azevedo Castelo Branco, José Osório de Oliveira, José Rebelo, Luís de Almeida Braga, Luís Cabral Moncada, Luís Chaves, Manuel Múrias, Marcelo Caetano, Mário de Albuquerque, Martinho Nobre de Melo, Mussolini, Nuno de Montemor, Pedro Teotónio Pereira, Pequito Rebelo, Rodrigo de Sá Nogueira, Rodrigues Cavalheiro, Rolão Preto, Silva Rego, Simeão Pinto Mesquita.
 
► Precedida pela revista “Alma Portuguesa” [Lovaine, 1913] - onde aparece pela primeira vez a expressão “Integralismo Lusitano” sob a pena de Luís de Almeida Braga - e pelos “Meus Cadernos” (1913-1916), de Mariotte [aliás, padre Amadeu de Vasconcelos], a revista “Nação Portuguesa” assume o projecto e a “direcção do movimento de que foi órgão” [cf. Carlos Ferrão, O Integralismo e a República, vol. I] - o “Integralismo Lusitano” [de 1914 a 1922, ano em que a sua Junta Central decreta a auto-dissolução do movimento].
 
[“O Integralismo Lusitano, como o seu nome indica, pretende reformar integralmente a vida social portuguesa (…) não somos retrógrados, nem somos conservadores – não queremos voltar atrás, nem conservar o que está -; somos, sim, reaccionários e renovadores, - reagimos contra o presente tal qual é e desejamos restabelecer, não o passado que tivemos, mas o presente que hoje teríamos, se influências não portuguesa nos não houvessem desviado do rumo natural da nossa evolução” (Alberto Monsaraz), in Raul Proença. Polémicas, org. Daniel Pires, 1988]
 
Nacionalista, doutrinariamente antiliberal e anti-parlamentar, contra a Democracia e a República, o Integralismo Lusitano decalca a “Action Française” [com evidentes conflitos com o então exilado maurrasiano Mariotte], embora muitos pretendam - em escusa do alto pensamento intelectual e filosófico evidenciado (?) pelo escol, putativamente encarnado na figura recorrente de António Sardinha ou em textos de Hipólito Raposo e outros bons espíritos da época - não ter nenhum fundamento. Como, aliás, a germanofilia assumida de António Sardinha é, de igual modo, e para os seus apaniguados, não provada.  
 
O Integralismo apoia o Sidonismo, participa na revolta de Monsanto (1919) e na Monarquia do Norte, acolhe esperançoso o “28 de Maio”. Ao mesmo tempo desvincula-se da obediência a D. Manuel II. Extingue-se em 1932, integrando-se na Causa Monárquica, se bem que o seu ideário se tenha mantido ao longo de gerações, configurando uma curiosa mixagem de teor neo-integralista.
 
Diga-se que o seu “organicismo tradicionalista” estabelece um conflito com a corrente salazarista [muitos integralistas são demitidos de cargos públicos, como Hipólito Raposo, Afonso Lucas; ou presos, caso de Hipólito Raposo, César de Oliveira; deportados, como o mesmo Hipólito Raposo e Rolão Preto; ou passado á oposição, como Rolão Preto, Pequito Rebelo ou Luís de Almeida Braga], passe o facto de muitos se terem submetido a Salazar (como Costa Leite, Marcelo Caetano, Manuel Múrias, Pedro Teotónio Pereira). Curiosamente, Pequito Rebelo considera [cf. José Manuel Quintas, Filhos de Ramires, 2004, p. 19] que “o salazarismo viria a ser um integralismo pervertido e invertido porque democratizado (embora sob a espécie da democracia cristã) e maçonizado”, contrariando a tese avançada por Braga da Cruz [idem] para quem o salazarismo era uma “democracia-cristã pervertida e invertida, porque integralizada e fascizada”.
 
[ALGUMAS OBRAS A CONSULTAR]: António Costa Pinto, “A formação do integralismo lusitano 1907-17”, revista Análise Social, 72-73-74, 1982 | António Sardinha, “Ao Principio era o verbo”, 1939 | Carlos Ferrão, “O Integralismo e a República”, III vols, | Cecília Barreira, “Sindicalismo e integralismo: o jornal A Revolução 1922-23”, revista Análise Social, 67-68, 1981 | Cecília Barreira, “Três nótulas sobre o integralismo lusitano”, revista Análise Social, 72-73-74, 1982 | Jacinto Ferreira, “O Integralismo Lusitano. Uma doutrina política de ideias novas”, 1991 | João Medina, “Salazar e os Fascistas”, 1978 | José Manuel Quintas, "Filhos de Ramires. As origens do Integralismo Lusitano”, 2004 | Manuel Braga da Cruz, “As origens da Democracia Cristã e o Salazarismo””, 1980 | Manuel Braga da Cruz, “Monárquicos e Republicanos no Estado Novo”, 1986 | Mariotte (Amadeu de Vasconcelos), “O Nacionalismo Rácico do Integralismo Lusitano”, 1917 | Miguel Dias Santos, “A Contra-Revolução na I República (1910-1919)", Impr. U. Coimbra, 2010“ | “Raul Proença, “Obra Política de Raul Proença”, Seara Nova, 1972 | Raul Proença, “Polémicas”, D. Quixote, 1988 | ...| ...|]
 
J.M.M.

domingo, 28 de abril de 2013

A REVISTA "INTEGRALISMO LUSITANO" (LISBOA: 1932-1934): CONFERÊNCIA

No âmbito do ciclo de conferências Das Revistas Políticas e Literárias no Estado Novo, organizado pela Biblioteca Museu República e Resistência e pela Hemeroteca Municipal de Lisboa, vai realizar-se na próxima terça-feira, 30 de Abril, pelas 18 horas, mais uma conferência.

O convidado desta vez é o Prof. António Costa Pinto, que vai analisar o percurso, contexto e identificação das principais linhas de força que marcaram a revista Integralismo Lusitano. O conferencista é por demais conhecido como comentador político habitual nas nossas televisões, mas o seu currículo profissional e científico pode ser consultado AQUI, através da sua página pessoal.

Quanto à revista e à temática a abordar, permitam-nos uma passagem por alguns dos tópicos onde esse problema foi aqui abordado, consultando AQUI. Além disso, consultar um artigo do conferencista sobre o assunto AQUI, outro texto AQUI, de Manuel Braga da Cruz, ainda um artigo de Paulo Archer de Carvalho, relativamente recente, que pode ser consultado AQUI  e um trabalho talvez menos conhecido, sobre uma das principais figuras do Integralismo Lusitano, António Sardinha, cujo texto pode ser consultado AQUI.

Uma sessão certamente muito interessante e proveitosa, para a qual chamamos a atenção dos nossos ledores.

A.A.B.M.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O INTEGRALISMO LUSITANO E A QUESTÃO DINÁSTICA


A Questão Dinástica. Documentos para a História Mandados Coligir e Publicar pela Junta Central do Integralismo Lusitano, Empresa nacional de Industrias Gráficas, Lisboa, 1921

«Reunindo em volume todos os documentos oficiais, referentes ao conflito aberto ha quasi dois anos, entre o Integralismo Lusitano e o Senhor Dom Manuel II que foi Rei de Portugal, serve-se apenas o proposito de actualizar e perpetuar os termos liais e exactos de uma questão politica, já hoje tão esquecida e deturpada nas suas razões fundamentais (...)»

Refere-se aqui o articulista ao indiferente não envolvimento de D. Manuel II, então a residir em Londres, nas sucessivas tentativas que a Causa Monárquica levou a cabo para derrubar a República.

Adriano Xavier Cordeiro, o conde de Monsaraz, Pequito Rebelo, António Sardinha, Luís de Almeida Braga e Hipólito Raposo assinam pela Junta.

via FRENESI

J.M.M.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A NAÇÃO PORTUGUESA (1914-1938) E O INTEGRALISMO LUSITANO


CICLO de CONFERÊNCIAS: Das Revistas Políticas e Literárias na I República

CONFERÊNCIA: A Nação Portuguesa (1914-1938) e o Integralismo Lusitano;
ORADOR: Pedro Serranito (investigador);
DIA: 10 de Abril (18 horas);
LOCAL: Biblioteca-Museu República e Resistência / Cidade Universitária, Lisboa);
ORGANIZAÇÃO: Biblioteca-Museu República e Resistência & Hemeroteca Municipal de Lisboa.

J.M.M.

domingo, 24 de abril de 2011

CRUZADA NUN’ÁLVARES – PARTE II


Inspirada e tutelada por Martinho Nobre de Melo [1891-1985, ministro da Justiça de Sidónio Pais, prof. de Direito, embaixador e director do Diário Popular], a Cruzada Nun’Álvares contará nas suas fileiras com personalidades tão diferentes entre si como os cruzados Abel de Andrade, Afonso Lopes Vieira (monárquico integralista e autor da letra da "Canção da Reconquista"), Afonso Lucas, Afonso Miranda (da Vanguarda Nacional, 1936), Alberto Pinheiro Torres (no Porto), Alfredo Pinto Sacavém (Lisboa), Almeida d’Eça, Anselmo de Andrade, Anselmo Braamcamp Freire (foi presidente da Direcção Geral em 1921), Antero de Figueiredo (no Porto), António Bivar de Sousa, António Homem de Gouveia (no Funchal), António Pereira de Matos (presidente), António Teixeira Lopes (escultor), Armindo Monteiro (Vice-presidente), Assis Gonçalves (secretário de Salazar e antigo vogal da Cruzada), Beleza dos Santos (em Coimbra), Caeiro da Mata, Canto e Castro, Carlos Malheiro Dias, Costa Lobo (foi presidente), Cunha e Costa, Egas Moniz, Farinha Beirão (general), Ferreira do Amaral, Filomeno da Câmara, Fortunato de Almeida (em Coimbra), Gomes da Costa, Gonçalves Cerejeira (em Coimbra), Henrique Trindade Coelho (fundador e um dos seus principais obreiros), Hermano José de Medeiros (Unionista), Hipólito Raposo (da sua Junta Consultiva), Jacinto Nunes, João de Barros, João de Castro Osório, João de Deus Ramos, José Alberto dos Reis, José Nunes da Ponte (no Porto), José Pereira de Sousa (nacional-sindicalista), Manuel Rodrigues (Vice-presidente), Mário Pessoa da Costa (Estremoz), Oliveira Salazar (pertenceu à distrital de Coimbra), Óscar Carmona, Pacheco de Amorim, Pequito Rebelo (presidente), Pinto Coelho, Schiappa de Azevedo, Sidónio Pais (membro honorário), Tamagnini Barbosa, Tomas de Mello Breyner, Zuzarte de Mendonça (fundador), entre muitos outros – ler uma análise detalhada da sua estrutura dirigente, e ao longo das diferentes fases da organização, AQUI]

Percorrendo diversas fases na sua expansão, a Cruzada Nun’Álvares, vai conseguindo uma ampla convergência entre republicanos e monárquicos, tornando-se numa poderosa organização elitista conservadora, em que a palavra de ordem era o velho ideário de "ressurgimento nacional" [lema muito antes enunciado pelo Congresso Nacional – incentivo à intervenção cívica das elites sociais para superar a crise. De referir que este "intervencionismo elitista" não é, como bem refere Miguel Dias Santos (“A Contra Revolução na I República”), um exclusivo do pensamento indígena, podendo encontrar-se em pensadores tão diferentes como Tocqueville, Spengler, Maurras ou Schmitt - promovido pela Liga Naval Portuguesa, em 1910, e posteriormente avançado pela União Patriótica (1913, promovida por Lino Neto, Pereira de Matos, Costa lobo, entre outros), pela Liga Nacional (1915-18, com Aires de Ornelas, Luís de Magalhães, adeptos da “democracia aristocrática” e do “governo de competências”), Liga de Acção Nacional (1918-19, onde pontificavam António Sérgio e Ezequiel de Campos), depois pela Cruzada Nuno Álvares, pelo Núcleo de Ressurgimento Nacional, pela União Cívica ou, mais tarde, pela própria União Nacional – ver Ernesto Castro Leal, ibid].

O ódio à democracia [“essa enfermidade do século”], o esquecimento da “soberania divina” e os “deveres para com Deus”, a defesa da “tradição” [tradição providencialista] e da “raça” ou o “regionalismo” fizeram escola entre os movimentos católicos [em especial o Centro Católico], os integralistas e (neo)monárquicos [atente-se em José Fernando de Sousa (Nemo), Pacheco de Amorim, Pinheiro Torres, Pinto Coelho, Luís de Magalhães, Aires de Ornelas, Alfredo Pimenta, Cunha e Costa, António Sardinha, Almeida Braga, Caetano Beirão, Homem Cristo Filho, Vasco de Carvalho, João de Almeida, Paiva Couceiro, Azevedo Coutinho ou Sinel de Cordes – ver Miguel Dias Santos, op. cit.] e, deste modo, o pensamento antimoderno assim espargido faz ressuscitar os teóricos da contra-revolução [Marquês de Penalva, padre Agostinho de Macedo, Fortunato de S. Boaventura, José da Gama e Castro, por exemplo], trazendo consigo o reforço do autoritarismo, a opção ditatorial e a propaganda do fascismo.

A Cruzada Nun’Álvares foi, sem margem para dúvidas, um desses pólos aglutinadores da construção ideológica autoritária e fascista do Estado Novo. Dela se ocupou Raul Proença (já a partir de 1921 e até 1926), que nas páginas da revista Seara Nova antecipadamente (e solitariamente) a combate [”O Manifesto da Cruzada Nun’Álvares", de 4/5 Dezembro 1921; “O Fascismo e as suas repercussões em Portugal”, de 6 de Março 1926; “O Fascismo”, artigo de 15 de Abril 1926; ou “Uma apologia do Fascismo”, datado de 13 de Maio desse ano], polemizando com os “nacionalistas fascizantesFilomeno da Câmara, Trindade Coelho e Martinho Nobre de Melo, que lhe responderam no Diário da Manhã [Trindade Coelho, Resposta ao sr. Raul Proença, de 13 Dezembro de 1921] e na Reconquista [ver p. ex. Martinho Nobre de Melo, O sr. Raul Proença e as minhas ideias, nº1; ou O Antifascismo de Raul Proença. Crocodilos Humanitários, nº5], entrando curiosamente na polémica o inefável monárquico integralista Leão Ramos Ascensão ao publicar o opúsculo “O Fascismo e o Anti-Fascismo e a Monarquia Hereditária” (Coimbra, 1926), onde Raul Proença é apodado de “enraivecido adversário do fascismo” [ver sobre todo este assunto, João Medina, Os Primeiros Fascistas Portugueses, separata da Vértice, Coimbra, 1978].

FOTO: "Delegados da Confederação Académica e da Cruzada Nuno Álvares, com o sr. presidente da República", em 24 de Março de 1927 - viaTorre do Tombo.

[a continuar]

J.M.M.

domingo, 12 de dezembro de 2010

AO PAÍS - MANIFESTO DA LIGA DOS ESTUDANTES REPUBLICANOS DE LISBOA



AO PAÍS - Manifesto da Liga dos Estudantes Republicanos de Lisboa, 5 de Outubro de 1927 [via Torre do Tombo]

NOTA: Em 1900 é constituída a Liga Académica Republicana [os associados reuniam-se nas instalações do jornal de Magalhães Lima, A Vanguarda], que publica (no dia 31 de Janeiro de 1901) o periódico "A Liberdade" [alguns colaboradores foram Magalhães Lima, Agostinho Fortes, Brito Camacho, França Borges, Heliodoro Salgado, João Chagas, Sampaio Bruno, Manuel Coelho, Mayer Garção, Alexandre Braga, Guerra Junqueiro, Celestino de Almeida, Jacinto Nunes], aparecendo como "Jornal dos Estudantes Livres" e com o subtítulo (1 de Maio de 1901) de "Diário Republicano Académico" [cf. Ana M. Caiado Boavida, "Tópicos sobre a prática politicas dos estudantes republicanos (1890-1931)", Análise Social, Vol. XIX, 77-78-79, 1983].

O Centro Republicano Académico de Coimbra data de 1906 e o Centro Democrático Académico de Lisboa, de 1909.

Em Abril de 1918 há lugar a uma reunião, convocada por uma "comissão de alunos da Universidade de Lisboa", visando fundar uma "Liga Republicana" [Liga Nacional da Mocidade Republicana] onde se possam congraçar ‘todos os republicanos da nova geração, com ou em filiação partidária’ [idem]. Curiosamente, em Coimbra os republicanos estão organizados no Bloco Académico Republicano e no Porto o trabalho era a "organização do respectivo Grémio Académico Republicano" [1918]. A luta contra a ditadura sidonista e a "arrogância dos monárquicos de todos os matizes" sobressaia. Porém as graves divisões entre os republicanos foram fatais.

Em Agosto de 1918 "ainda decorre a discussão do programa da Liga" e o jornal porta-voz da Liga Nacional da Mocidade Republicana, "A Mocidade", sai nesse mesmo ano [colaboram Nóbrega Quintal, João Camoesas]. Entretanto a Cruzada Nun'Álvares Pereira, formada por estudantes nacionalistas e conservadores, é fundada a 18 de Julho de 1918 [dela fazem parte o tenente João Afonso de Miranda]

Em 1924 procura-se formar a União da Mocidade Republicana, com José Rodrigues Miguéis (ligada à Seara Nova) como presidente.

A 9 de Abril de 1927 um "grupo de rapazes republicanos de Coimbra, mais ou menos dispersos e confundidos no seio dum grémio de estudantes de fama reaccionária, resolveram desfazer esse equívoco e definir, num momento notoriamente difícil da vida nacional, que coisa é o seu republicanismo e em que princípios basilares se sustenta uma consciência cívica de que se ufanam" [idem – texto publicado na Gente Nova, n.º 1, de 9 de Abril de 1927] relança as actividades do Centro Republicano Académico de Coimbra, a partir do jornal Gente Nova [1927-1928; lideram Carlos Cal Brandão, Paulo Quintela, Sílvio Lima, Vitorino Nemésio (que foi seu Presidente), Joaquim Cordeiro e colaboram no jornal José Rodrigues Migueis e António Sérgio (exilado em Paris)]. Entretanto os monárquicos e integralistas de Coimbra organizam-se à volta do periódico "A Ide’a Nova" [nº1, 8/12/1927; dir. Bento Caldas, José Adriano Pinto Coelho, António Quitério], defensor da "Igreja, da Pátria, da Ditadura Militar e da necessidade do Rei" [idem]

Em Dezembro de 1927 a Liga dos Estudantes Republicanos de Lisboa participa nas manifestações do dia da Restauração e em Maio de 1928 sai o mais importante jornal da academia republicana, "Liberdade" [1928-1933; participam Virgílio Marinha de Campos (dir.), Vasco da Gama Fernandes, Fernando de Morais Cabral, Alberto Pinto de Sousa, Carlos Bana, Serra Frazão], que no seu nº de 12 de Janeiro de 1933 aparece como "Semanário Republicano de Esquerda"]. No final do ano constitui-se o Batalhão Académico Anti-Fascista ou BAAF [dele faziam parte António Maldonado de Freitas, Asdrúbal de Aguiar, Heliodoro Caldeira, Teófilo Carvalho dos Santos, Alberto Pinto de Sousa, Vasco da Gama Fernandes]

Ainda em 1928, é reactivado o Centro Académico Republicano do Porto [entre eles estavam Emídio Guerreiro, Jaime Gouveia], que "publica o primeiro número do seu jornal", "Democracia", no dia do aniversário do 31 de Janeiro de 1891. A oposição republicana á Ditadura tornava forma.

Não por acaso, no ano lectivo de 1930-31 as "eleições nas três associações académicas do País são ganhas por estudantes republicanos" [em Lisboa a Direcção eleita era composta por Ernesto Carvalho dos Santos, Bernardino Machado Vaz, Heliodoro Caldeira, Eugénio Higgs Ribeiro e João de Brito Terenascf. Cristina Faria, As Lutas Estudantis contra a Ditadura (1926-1932), Colibri, 2000]. E acreditava-se num "retorno rápido à República liberal e parlamentar" [idem]. Curiosamente uma parte importante dos dirigentes que enquadravam as várias organizações de estudantes republicanos na luta contra a ditadura, nas três Academias do país, foi iniciada em lojas maçónicas, sendo as principais, a Loja Acácia e Rebeldia, ambas de Lisboa, a Loja A Revolta, de Coimbra, e a Loja Comuna, da cidade do Porto [sobre o assunto ver a obra citada de Cristina Faria, 2000].

J.M.M.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

[AINDA] A MONARQUIA (1917-1922)

A Monarquia (1917-1922)- Subtítulo: Diário Integralista da Tarde.

Director: Conde de Monsaraz; António Sardinha (entre 15 de Maio de 1922 e 26 de Outubro de 1923); Hipólito Raposo (a partir de 10 de Fevereiro de 1925). Redactor-em-Chefe: João do Amaral (até 9 de Agosto de 1917). Redactor Principal: António Sardinha (entre 10 de Agosto de 1917 e 1 de Setembro de 1921). Subdirector: Ayala Monteiro (entre 27 de Janeiro e 15 de Maio de 1922)

Propriedade: Sociedade Integralista Editora, Lda. Escritórios e Tipografia: Rua de S. Paulo, 20; a partir de 1 de Agosto de 1919: Rua Serpa Pinto, nº 39; nºs 1196, 1197 e 1198: Largo do Directório, 8 - 3º.

Colaboradores: G. de Ayala Monteiro, Alfredo de Freitas Branco, João Froes, Caetano Beirão, A. Campos Figueira, R. de Bettencourt, Júlio de Melo Matos, João do Amaral, Rui Enes Ulrich, M. Vieira da Silva, César de Oliveira, José Pequito Rebelo, Félix Correia, Cabral do Nascimento, Pires de Lima da Fonseca, Francisco Veloso, Rolão Preto, Afonso Lucas, Augusto da Costa, Luís de Almeida Braga.

O primeiro número foi publicado a 12 de Fevereiro de 1917. Sucedeu à revista Nação Portuguesa, cuja a acção pretendia continuar a divulgar mais amplamente. Tinha 4 páginas a 6 colunas. Fazendo a sua apresentação, em artigo de fundo intitulado "Pela Lei e Pela Grei" (...)

O jornal interrompe a publicação entre o nº 502 e 503, isto é, entre 25 de Outubro de 1918 e 21 de Dezembro de 1818. Volta a interromper a publicação no nº 524, de 18 de Janeiro de 1919. Regressa a 18 de Agosto de 1919 e comunica que o Conde de Monsaraz condenado em tribunal pela sua participação no movimento monárquico de Monsanto e com António Sardinha fora do país, as funções de redactor-principal seriam entregues a Hipólito Raposo e Augusto da Costa, respectivamente, embora os nomes de Monsaraz e Sardinha não tivessem sido substituídos do cabeçalho. (...)

O ultimo nº parece ter sido o 1194, de 5 de Maio de 1922, onde se fez uma grande notícia com a declaração da Junta Central do Integralismo Lusitano, na sequência do acordo dinástico celebrado entre os representantes de D. Manuel II e de D. Duarte Nuno, tendo suspendido a publicação e a actividade de organização política. Neste número o Conde de Monsaraz publicou a sua carta de demissão do lugar de director da 'Monarquia', por este jornal não ter aceite o pacto dinástico celebrado em Paris.

Publicou-se um suplemento a este número a 15 de Maio, com duas páginas e tendo como Director António Sardinha.

Publicaram-se ainda os nº1195, de Dezembro de 1922; 1196, de 5 de Abril de 1923, com 6 pág.; 1197, de 26 de Outubro de 1923, com 8 páginas;1198, de 5 de Abril, dirigido por Hipólito Raposo.

[Fonte: Jornais Diários Portugueses do séc. XX, de Mário Matos e Lemos, Ariadne Editora, Coimbra, 2006, p.432-435. Foto: Luís Almeida Braga e Hipólito Raposo, Tadim, 1933, retirada da "Unica Semper Avis", com a devida vénia.

J.M.M.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

A MONARQUIA - DIÁRIO INTEGRALISTA DA TARDE


«... apareceu em Lisboa [nº 1, 12 Fevereiro de 1917] e foi durante alguns anos órgão do movimento integralista (...)

'Em 1916, conta Hipólito Raposo, reconhecemos a necessidade de editar um jornal, porta-voz que diariamente difundisse a doutrina e por ele se aferisse a actuação da política e da administração republicana. Seriam as melhores lições de propaganda da realeza. Dados os passos que tal empreendimento exigia e reunidos os poucos capitais de alguns subscritores, foi possível começar a publicação do diário em 12 de Fevereiro de 1917. Fizeram-se anúncios e afixaram-se cartazes, que a muitos pareciam bandeirolas de rapaziada literária. O director era Alberto Monsaraz e o redactor principal António Sardinha' ('Folhas do meu cadastro'). Escrevendo certamente de memória, Hipólito Raposo equivocou-se nesta citação. No primeiro numero de 'A Monarquia', além do nome de Alberto Monsaraz (Conde de Monsaraz) como director, figura o de João do Amaral como redactor em chefe (...)

... tecnicamente 'A Monarquia' era um decalque da 'Action Française', estando a rubrica da Política, nesta confiada a Maurras, e no jornal português a Sardinha depois de João do Amaral, nele publicando a primeira parte dos seus trabalhos, mais tarde reunidos em volumes (...)

O primeiro número desse diário, ao contrário das promessas feitas na altura do seu aparecimento, foi um modelo de virulência e incompreensão: com a primeira visava adversários e correligionários, indistintamente, desde que não aceitassem como verdades reveladas as divagações dos chefes do Integralismo; com a segunda lamentavelmente exibida numa hora de perigo para a sobrevivência da Nação, reeditava a súmula das aspirações do movimento, aparecida na 'Nação Portuguesa' com o titulo 'O que nos queremos' e a rubrica genérica que englobava os seus objectivos teóricos: 'monarquia orgânica, tradicionalista e anti-parlamentar' ...»

[Carlos Ferrão, in O Integralismo e a Republica autopsia de um mito, Inquérito, vol. 2, 1964 - sublinhados, nossos]

J.M.M.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

INTEGRALISMO LUSITANO


[Da esquerda para a direita, em pé: Ruy Ulrich, Hipólito Raposo, Luís de Almeida Braga e José Pequito Rebelo; sentados: António Sardinha, Vasco de Carvalho, Luís de Freitas Branco, Xavier Cordeiro e Alberto Monsaraz. Foto, in José Manuel Quintas, Filhos de Ramires. As Origens do Integralismo Lusitano, Nova Ática, 2004]

"... Originariamente católicos e monárquicos na sua grande maioria - e na totalidade, por conversão (...) -, os futuros integralistas bem cedo vieram a contactar com o movimento de Action Française e o pensamento de Charles Maurras, que viriam, por seu turno, a ter uma influência marcante e directa no desencadear da constituição do congénere movimento português. Por caminhos diversos - teóricos e práticos (...) -, confluíram primeiro, em 1914, num movimento doutrinário, em volta de uma revista [Alma Portuguesa. Órgão do Integralismo Lusitano, Bélgica, 1913 e pouco depois, em 1914, em Coimbra, sai a revista Nação Portuguesa], para bem depressa passarem em 1916 a movimento político, com organização própria [Junta Central do Integralismo Lusitano, organismo autónomo da Causa Monárquica]..."

[Manuel Braga da Cruz, Monárquicos e Republicanos no Estado Novo, Dom Quixote, 1986]

Algumas anotações sobre periódicos integralistas ou a eles ligados: Alma Portuguesa. Órgão do Integralismo Lusitano, II números (Maio e Setembro de 1913) / Os Meus Cadernos, de Mariotte (aliás Pe. Amadeu de Vasconcelos), Paris, Agosto de 1913 a 1916 / Aqui d'El-Rei , dir. João do Amaral, Lisboa, Fevereiro 1914 / Nação Portuguesa. Revista de Filosofia Política, dir. Alberto de Monsaraz, Coimbra, Janeiro de 1914 [I série 1914-1916 (XII numrs); II série, Julho 1922-1923 (XII numrs, dir. António Sardinha); III série, 1924-1926 (dir. A. Sardinha e depois, Manuel Múrias); IV série, 1926-1928 (dir. Manuel Múrias, sendo em 1927 secretário da revista, Marcello Caetano)] / jornal A Monarquia. Diário integralista da tarde, dir. Alberto de Monsaraz, (nº1) 12 Fevereiro 1917 a 10 Fevereiro 1925] / Acção Realista, dir. Ernesto Gonçalves, 1921-1926) / semanário A Voz Nacional, dir. Luís Chaves, 1921 / Aqui d'El Rei. Órgão do Integralismo Lusitano a Província do Minho, dir. Alberto C. Menezes, 1922, XXV numrs / Acção Realista, dir. João Ameal, 1926 / A Revolução. Jornal Monárquico Sindicalista, dir. Sílvio Luso (aliás, Caetano dos Reis), nº1, 5 Fevereiro 1922 ao nº 22, Abril 1923 / revista Política. Órgão da Junta Escolar de Lisboa do Integralismo Lusitano, 1929-1930, XX numrs / Integralismo Lusitano, dir. Luís de Almeida Braga e Hipólito Raposo, 1932-1934, XII fasc. / Revolução. Diário Académico Nacionalista da Tarde, 1932-1933 / Revolução Nacional dos Trabalhadores, dir. António Tinoco, nº 1, 4 Fevereiro de 1933 / Acção. Semanário da Vida Portuguesa, dir. Manuel Múrias, nº1 (24 Abril 1941) ao nº 422 (19 Maio 1949)

J.M.M.