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sábado, 25 de maio de 2019

IN MEMORIAM: JORGE PAIS DE SOUSA (1960 -2019)


Nascido em 1960, Jorge Manuel Garrido Pais de Sousa fez o seu percurso no ensino superior em Coimbra. Primeiro fez a licenciatura em Filosofia (1980-1984), mais tarde o mestrado em História Contemporânea e, mais recentemente, o doutoramento também na mesma área. 

Fez o curso de especialização em Ciências Documentais entre 1987 e 1989, também em Coimbra.

Dedicou-se sobretudo ao estudo da história institucional e política e a história cultural e intelectual contemporâneas, com especial interesse no comportamento político de professores universitários tão díspares entre si como Bissaya Barreto, Afonso Costa e Oliveira Salazar.

Foi investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20) da Universidade de Coimbra. Foi bolseiro de Pós-Doutoramento da FCT, entre 2012 e 2017, com um projecto de investigação que lhe permitiu preparar uma biografia de Afonso Costa. 

Elegia a 1.ª República (1910-1926) como o seu principal domínio de investigação. Desenvolveu por isso também trabalhos sobre a participação de Portugal na I Guerra Mundial e, mais tarde, na Guerra Civil de Espanha

Foi o editor científico e co-autor do livro “Portugal in the First World War 1914-1918: An Interdisciplinary Perspective” que teve publicação prevista para 2018, pela Cambridge Scholars Publishing. 

Dedicou-se também ao estudo da Poesia Experimental, facto que o levou, na última década, a comissariar exposições, a escrever folhas de sala, a publicar artigos para revistas de arte contemporânea e textos para catálogos sobre a terceira vanguarda portuguesa do século XX. 

Foi autor de livros, capítulos de livros e dezenas de artigos, publicados em Portugal e no estrangeiro.

 

Jorge Pais de Sousa publicou vários trabalhos, conforme se pode consultar no seu Currículo Científico no Portal DeGois, onde se destacam os seguintes:

Sousa, Jorge P.; Guimarães, Maria R. C. eds. 1994. Augusto Abelaira: Catálogo Bibliográfico e Documental ed. 1, ISBN: 972-96021-1-5. Cantanhede: Câmara Municipal.

Sousa, Jorge M. G. P.. 1999. Bissaya Barreto: Ordem e Progresso. ed. 1, 1 vol., ISBN: 972-8318-75-8. Coimbra: Minerva Coimbra.

Sousa, Jorge P.. 2006. O Estado Novo perante o 28 de Maio e o Fascismo.  In O 28 de Maio Oitenta Anos Depois: Contributos para uma Reflexão, ed. CEIS20, 84 - 109. ISBN: 978-972-8627-03-4. Coimbra: CEIS20.

Sousa, Jorge M. G. P.. 2007. Uma Biblioteca Fascista em Portugal: Publicações do Período Fascista Existentes no Instituto de Estudos Italianos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra: Catálogo. ed. 1, 1 vol., ISBN: 978-989-8074-10-2. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra.

Sousa, Jorge P.. 2010. Fascismo de Cátedra, Violência e Intolerância: “Os Viriatos” na Guerra Civil Espanhola e a Perseguição Política a Aurélio Quintanilha. .  In Tempos de Fascismos: Ideologia – Intolerância – Imaginário, ed. EDUSP, 197 - 233. ISBN: 978-85-314-1209-7. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.

Sousa, Jorge P.. 2010. "Jaime Cortesão: O escritor combatente na I Guerra Mundial e a defesa intransigente de uma república democrática e inclusiva", Biblos: Revista da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 8: 175 - 206.

Sousa, Jorge M. G. P.. 2011. O Fascismo Catedrático de Salazar: Das Origens na I Guerra Mundial à Intervenção Militar na Guerra Civil de Espanha (1914-1939). ed. 1, 1 vol., ISBN: 978-989-26-0020-8. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra.

Sousa, Jorge P.. 2011. O Estado Novo de Salazar como um Fascismo Catedrático: Fundamentação Histórica de uma Categoria Política. .  In Autoritarismos, Totalitarismos e Respostas Democráticas, ed. CEGFUA; CEIS20, 393 - 471. ISBN: 978-972-8627-24-9. Ponta Delgada e Coimbra: CEGFUA; CEIS20.

Sousa, Jorge P.. 2013. "O Estado Novo de Salazar como um Fascismo Catedrático: Fundamentação Histórica de uma Categoria Política", Intellèctus: Revista Eletrônica, 2: 1 - 30.

Sousa, Jorge P.. 2013. "Existiu uma fração socialista no Partido Republicano? Os casos paradigmáticos de Magalhães Lima e Afonso Costa. A difusão do socialismo no Brasil, em História Revista: Revista da Faculdade de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Goiás. ", História Revista: Revista da Faculdade de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Goiás 18, 2: 1 - 45.

Sousa, Jorge P.. 2013 e 2014. [diversas entradas] Dicionário de História da República e do Republicanismo: Volume I :A-E e III: N-Z. ed. 1, 3 vols., ISBN: 978-972-556-559-9. Lisboa: Assembleia da República.

Sousa, Jorge P.. 2016. A Propaganda nas Ditaduras de Sidónio Pais e de Salazar. Afonso Costa como Inimigo Político, Contrapropaganda e Perseguição Política.  In A Cultura do Poder: A Propaganda nos Estado Autoritários, ed. Imprensa da Universidade de Coimbra, 69 - 113. ISBN: 978-989-26-1063-4. Coimbra: Imprensa da Universidade.

Sousa, Jorge P.. 2017. António Ferro: Sidonismo golpista e propaganda fascista, até à direção do Secretariado de Propaganda Nacional no Estado Novo (1918-1933).  In Tempos de Guerra e de Paz: Estado, Sociedade e Cultura Política nos Séculos XX e XXI, 271 - 311. ISBN: 978-85-7732-330-2. São Paulo: Humanitas.

Sousa, Jorge P.. ed. 2018. A Contemporaneidade Disruptiva do Desenho-Escrito de Ana Hatherly, in Ana Hatherly - O Prodígio da Experiência ed. 1, ISBN: 978-989-8680-13-6. Almada: Casa da Cerca.

Foi técnico superior na Câmara Municipal de Cantanhede entre 1989 e 1998. Foi bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Leccionou no Instituto Superior Bissaya Barreto, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, Universidade de Santiago de Compostela, no Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra.

Era membro de várias organizações e instituições de carácter científico como:
 
A Previdência Portuguesa - Associação Mutualista - Coimbra;
Associação Internacional de Estudos Intelectuais e Poder;
Rede de Estudo dos Fascismos, Autoritarismos, Totalitarismos e Transições para Democracia.

Faleceu em Coimbra, a 24 de Maio de 2019.

O funeral realiza-se sábado, 25 de Maio,  às 15h da igreja de nossa senhora de Lourdes para o cemitério de Cantanhede.

A.A.B.M. |J.M.M.

 

domingo, 20 de novembro de 2016

ENCONTROS DE OUTONO 2016: CENSURA EM PORTUGAL (1910-1974)

Nos próximos dias 25 e 26 de Novembro de 2016, realiza-se em Famalicão, no Museu Bernardino Machado, mais uma das edições dos ENCONTROS DE OUTONO, desta vez subordinado ao tema: Censura em Portugal (1910-1974).

Uma edição com muitos investigadores de renome que vão apresentar os resultados das suas pesquisas, reflexões e análises sobre o tema em análise. 

O programa do colóquio é o seguinte:


25 de Novembro (6ª Feira)

9h30
Abertura
Dr. Paulo Cunha
Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão

Doutor Norberto Ferreira da Cunha
Coordenador Científico do Museu Bernardino Machado

10h00
A censura na I República (1910-1926)
Doutor José Manuel Tengarrinha
Faculdade de Letras
Universidade de Lisboa

10h30
A censura nos governos republicanos "bloquistas" (1911-1913)
Doutor Norberto Ferreira da Cunha
Universidade do Minho


11h00
Debate

Intervalo

11h30
A censura no Governo de Afonso Costa (1913)
Doutor Jorge Pais de Sousa
Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20)
Universidade de Coimbra

12h00
A censura em Portugal durante a I Guerra Mundial (1914-1918)
Coronel Doutor Luís Alves de Fraga
Universidade Autónoma de Lisboa

12h30
Debate

Almoço

15h00
A proibição da censura e a repressão a periódicos durante o Governo Provisório (1910-1911)
Doutor Ernesto Castro Leal
Faculdade de Letras
Universidade de Lisboa

15h30
A censura no ocaso da I República (1919-1926)
Doutor António José Queiroz
Centro de Filosofia
Universidade Católica Portuguesa (Porto)

16h00
Debate

Intervalo

16h30
A censura salazarista: a lei e a prática
Doutor Alberto Arons de Carvalho
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Universidade Nova de Lisboa

17h00
Debate

Conclusão


26 de Novembro (Sábado)

10h00
A censura durante a Ditadura Militar e os primeiros anos do Estado Novo (1926-1939)
Doutor Luís Farinha
Instituto de História Contemporânea da FCSH
Universidade Nova de Lisboa

10h30
Censura e publicações periódicas infanto-juvenis no Estado Novo (1954-1974): O Papel da Comissão para a Literatura e Espetáculos para Menores
Mestre Ricardo Leite Pinto
Faculdade de Direito da Universidade Lusíada de Lisboa
Vice-Chanceler das Universidades Lusíada

11h00
Debate

Intervalo

11h30
A censura ao teatro durante o Estado Novo
Doutora Ana Cabrera
Instituto de História Contemporânea da FCSH
Universidade Nova de Lisboa


12h00
Censura e cinema durante o Marcelismo
Doutora Ana Bela Morais
Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras
Universidade de Lisboa

Debate

Encerramento

NOTA: As inscrições e a participação nas conferências são gratuitas e dão direito a Certificado de Participação.

Creditação pelo CFAE (Centro de Formação de Associação de Escolas de Vila Nova de Famalicão).
Acreditado pelo Centro de Formação Científica. Grupos: Português e HGP (200); Português e Francês (210); Português e Inglês (220); Português (300); História (400). 
Duração: 13h
Créditos: 0,5.

Um colóquio muito interessante e que se recomenda aos seguidores do Almanaque Republicano, que nos últimos anos tem divulgado este evento, porque nos parece de grande qualidade.

A.A.B.M.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

APONTAMENTOS DAS PRELEÇÕES DO DR. AFONSO COSTA SOBRE CIÊNCIA ECONÓMICA E DIREITO ECONÓMICO PORTUGUÊS


AUTOR: Dr. Afonso Costa [coord. & prefácio de Guilherme Oliveira Martins];
EDIÇÃO: INCM (Colecção Biblioteca Res Publicana).

Trata-se da reimpressão do texto original publicado na época de 1896-1897, no âmbito das lições do Dr. Afonso Costa proferidas na Universidade de Coimbra, quando ministrou a cadeira de Economia Política
[O dr. Afonso Costa ingressa na Faculdade de Direito de Coimbra no ano lectivo de 1887/1888. Em Março de 1890 funda, com António José de Almeida, um jornal, O Ultimatum. Folha Académica, 23 Março de 1890 (António José de Almeida publica nesse número o conhecido artigo “Bragança, o último” – sobre o jornal e a questão Afonso Costa e a Economia Social, afinal matéria versada nesta edição dos seus Apontamento, consultar AQUI & AQUI os importantes artigos de Jorge Pais de Sousa) onde exprime “a opinião de que a Monarquia ou o trono eram a causa do abatimento moral do País” – cf. Luís Bigotte Chorão, “Afonso Costa”, in “A Faculdade de Direito de Lisboa no seu Centenário”, vol II, 2013, p. 16. Participa nos acontecimentos de 31 de Janeiro e adere à greve académica de 1892 (ibidem). Realiza o seu exame de licenciado a 17 de Janeiro de 1895 com a dissertação: “Os Peritos no Processo Criminal, Legislação Portuguesa, Crítica, Reformas”. Apresenta-se a concurso para lente substituto em Janeiro de 1896 com a dissertação, “Commentario ao Código Penal Portuguez”. Via então reger a cadeira de Economia Política nos anos de 1896/1897 e 1897/1898 (ibidem). “A respeito das suas lições, Paulo Merêa – acompanhando o juízo de Marnoco e Sousa e José Alberto dos Reis – escreveu que ‘revelam um grande interesse pelo movimento socialista e reflectem a forma sociológica desta escola’ (L. B. Chorão, ibidem)] 


A presente edição é uma excelente iniciativa do Tribunal de Contas e da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República Portuguesa, e de muita estimação.

A presente obra, há muito detectada na biblioteca de Afonso Costa e que não tinha sido editada fora do âmbito académico e do momento em que as lições foram ministradas, oferece ao leitor as lições do Professor Doutor Afonso Costa alusivas ao ensino da ‘Economia Social’, atinente a um modelo do magistério no âmbito das ciências económicas para estudantes de Direito, no longínquo ano letivo de 1896-1897. Conforme prefaciado por Guilherme d’Oliveira Martins, ‘[a] edição que agora se apresenta corresponde à transcrição de um documento no qual encontramos não só o testemunho vivo do ensino do Doutor Afonso Costa, mas também elementos preciosos sobre o seu pensamento económico’ [AQUI]
[c/ um abraço ao dr. Rincon Peres]

J.M.M.

terça-feira, 14 de julho de 2015

AFONSO COSTA E O REVISIONISMO EM HISTÓRIA


Afonso Costa e o revisionismo em história” – por Jorge Pais de Sousa, in jornal Público

Sou leitor assíduo da crónica Consoantemuda, que Rui Tavares assina no jornal PÚBLICO, a qual, normalmente, expressa pontos de vista singulares sobre a complexa realidade política que nos envolve.

Todavia, no dia 24 de junho, escreveu uma crónica histórica que intitulou de “Tempos elétricos.” E nela abordou dois episódios da vida de Afonso Costa (1871-1937) que, na sua leitura, caraterizavam a sua personalidade: a cobardia política, referindo-se ao episódio da queda do elétrico em andamento que lhe causou um traumatismo craniano e o impediu de assumir de imediato a presidência do governo, pois julgou estar a ser alvo de um atentado à bomba, em resultado de um curto-circuito que produziu um clarão e um estrondo; e a corrupção, que estaria na origem da sua prisão, na Fortaleza de Elvas, entre dezembro de 1917 e 30 de março de 1918. Neste último caso, para lembrar, alegadamente, que não seria a primeira vez que os portugueses tiveram um ex-primeiro-ministro detido por corrupção.

Considero muito infeliz a escolha destes dois episódios para caraterizar o perfil moral do político Afonso Costa. Será que o ministro da Justiça do Governo Provisório, enquanto autor da Lei da Separação do Estado das Igrejas (1911), não teve coragem política para promulgar e aplicar esta lei, típica de um Estado moderno, causadora de enormes clivagens políticas na sociedade portuguesa, mas que nem o ditador Salazar se atreveu a revogar?

E se Afonso Costa, ainda hoje, é o único presidente do Governo e ministro das Finanças português que, em contexto democrático, obteve dois superavites 1912-13 e 1913-14 (cf. Nuno Valério - Os Orçamentos no Parlamento Português, 2001), isso é típico de um político corrupto? É que se os conseguiu foi porque os preparou com, entre outras medidas, a chamada “Lei Travão”, pela qual nenhum deputado, em sede de discussão do OGE, poderia propor medidas que aumentassem a despesa pública ou diminuíssem as receitas sem pedir, previamente, a autorização da Comissão de Finanças e do ministro das Finanças. Esta defesa acérrima, e sobretudo a sua concretização, de políticas de finanças públicas equilibradas caraterizam o comportamento de um político corrupto? Nessa altura, o que dizer das dezenas de ministros das Finanças que de então para cá ocuparam o cargo e só conseguiram défices?

Importa recordar que no final do ano de 1917, Portugal participa na I Guerra Mundial e tem a combater mais de 100 mil homens. Cerca de metade defendiam, desde  o verão de 1914, as fronteiras das colónias de Angola e Moçambique. Enquanto os outros 50 mil portugueses combatiam na Flandres. Nesta altura, Afonso Costa é presidente do Governo e regressa a Portugal depois de ter participado na Conferência dos Aliados de Paris, quando em Lisboa, entre 5 e 7 de dezembro, Sidónio Pais chefia um golpe de Estado que instaura a ditadura “dezembrista” durante um ano, o tempo necessário para realizar a sua política de contramobilização que conduziu ao desastre militar em La Lys. Suspendeu, de imediato, a Constituição da República de 1911, exila o presidente Bernardino Machado e detém no Porto, no dia 8, Afonso Costa, o presidente legítimo do Governo. Na véspera, as autoridades sidonistas tinham sido cúmplices no assalto e destruição em Lisboa, pela populaça, da casa onde vivia a sua família e também do seu escritório. O ditador Sidónio Pais vai manter Afonso Costa detido no Forte de Elvas durante mais de três meses sem nunca lhe ter promovido um inquérito, feito uma acusação, instaurado um processo, político ou criminal, e, portanto, nunca o levou a julgamento. Tudo na mais flagrante violação dos mais elementares direitos humanos e das leis de um qualquer Estado de direito. Onde estão, pois, as provas de que Afonso Costa era um presidente do Governo corrupto?

Esta foi, contudo, apenas a primeira de uma série longa e continuada no tempo de violações dos direitos, garantias e liberdades, em relação ao primeiro português que não só foi fundador (1920), mas também, na qualidade de representante de Portugal, foi eleito para presidir a uma assembleia da Sociedade das Nações (1926). É que, em 1927, por exemplo, a Ditadura Militar demite-o, sem a instauração de qualquer inquérito disciplinar, de diretor e de professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, dando origem a um exílio e a uma longa luta antifascista que marcaram os seus últimos onze anos de vida, numa altura em que integra a Junta Diretiva da Liga de Defesa da República.

Não foi por acaso que Salazar o declarou, na nota oficiosa de 1934, seu inimigo político e do Estado Novo, mas em momento algum desse extenso texto o acusa de cobarde e de corrupto. E não obstante, quando Afonso Costa morre no exílio de Paris, em maio de 1937, era o único político que tinha capital e prestígio político para conseguir a formação da Frente Popular Portuguesa e aglutinar nela o PCP.
 
 
 

Se Afonso Costa é apresentado como um político cobarde e corrupto é porque a história contemporânea é objeto, nos tempos que correm, de um processo acelerado de revisionismo. Isto porque Rui Tavares cita, e recomenda, a “curta e ótima” biografia “Afonso Costa” de Filipe Ribeiro de Meneses. Porém, e se não encontrou lá esta e muita outra informação sobre Afonso Costa, eu pensaria duas vezes em a recomendar publicamente. Tenho grandes dificuldades em perceber, por exemplo, como se pode recomendar um livro que nem sequer compila a bibliografia da autoria do biografado, enquanto professor universitário, advogado, deputado, governante e lutador antifascista? É que pelo menos aquela que é conhecida e foi publicada pelo historiador Oliveira Marques, desde os anos de 1970-8O, ali deveria constar.

No entanto, estou à vontade para escrever sobre esta matéria, pois no passado dia 9 de abril tive a oportunidade de debater em público sobre Afonso Costa, enquanto investigador, que o elege como tema de Pós-Doutoramento, com o historiador Filipe Ribeiro de Meneses, na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz, em sessão repleta e muito participada. E ali, tal como no seu livro, ficou claro que desconhece a natureza socialista integral do seu pensamento jurídico-político e a programática pela qual orientou toda a sua ação política, expressas, sobretudo, nas teses universitárias que apresentou em 1895 à Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Nesta começou por lecionar Economia Política para assumir, entre 1899 e 1910, a cátedra de Organização Judiciária. O mesmo se diga para os quinze títulos de livros jurídicos que entretanto identificámos, bem como o teor doutrinário dos mais de 300 artigos, também da autoria de Afonso Costa, que estão publicados em diferentes jornais republicanos.

Em suma, está por fazer com Afonso Costa - e o mesmo é valido, entre outros, para figuras centrais da 1.ª República como António José de Almeida e Brito Camacho - um trabalho semelhante ao que, de há muito, o historiador Norberto Ferreira da Cunha desenvolve no Museu Bernardino Machado em Vila Nova de Famalicão, ou seja, criar uma unidade de interpretação que reúna, conserve e difunda, para o grande público e para a investigação, a memória documental e iconográfica, que com ele se relaciona, e que, entre outras iniciativas, organize a publicação das suas “Obras”.

Afonso Costa e o revisionismo em história – por Jorge Pais de Sousa [bolseiro de pós-doutoramento na FCT], jornal Público, 13 de Julho de2015, p.46 – com sublinhados nossos.
 
J.M.M.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

CONFERÊNCIA – AFONSO COSTA: VIDA E OBRA


CONFERÊNCIA: Afonso Costa: Vida e Obra;

DIA: 9 de Abril 2015 (21,30 horas);
ORADORES: Prof. Filipe Ribeiro de Menezes (National University of Ireland | Prof. Jorge Pais de Sousa (Universidade de Coimbra);

LOCAL: Biblioteca Municipal da Figueira da Foz (Figueira da Foz);
ORGANIZAÇÃO: Biblioteca Municipal Pedro Fernandes Tomás | Divisão de Cultura CMFF.

No âmbito do programa de actividades evocativas do Centenário da I Guerra Mundial, a Divisão de Cultura da Câmara Municipal da Figueira da Foz promove uma CONFERÊNCIA sobre o Dr. “Afonso Costa – Vida e Obra”, a realizar na próxima Quinta-Feira (dia 9 de Abril, pelas 21.30 horas), com a presença do professor Filipe  Ribeiro de Menezes  e do prof. Jorge Pais de Sousa.

“Afonso Augusto da Costa foi um dos políticos dominantes durante a Primeira República. Foi Presidente do Ministério de Portugal por três vezes, Ministro da Justiça e Cultos, Ministro das Finanças, dirigente do Partido Republicano e do Partido Democrático.

Em outubro de 1917 visitou as tropas do Corpo Expedicionário Português na Flandres, acompanhado por Bernardino Machado. Em 1919, após o assassinato de Sidónio Pais e o fim do Sidonismo, passou a chefiar a delegação portuguesa à Conferência de Paz, assinando em representação de Portugal o Tratado de Versalhes. Foi também o representante português na primeira assembleia da Sociedade das Nações” [via Biblioteca Municipal da CMFF].

J.M.M.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O FASCISMO CATEDRÁTICO DE SALAZAR


Foi recentemente publicado o resultado da investigação realizada por Jorge Pais de Sousa sobre a instalação do regime salazarista. A obra foi editada pela Imprensa da Universidade de Coimbra.

Ao longo de mais de quinhentas páginas o autor analisa e procura compreender a ascensão de um conjunto de professores universitários, onde se destaca António de Oliveira Salazar, mas não só, que empreendem uma conquista do poder político num contexto de crise e falência do regime republicano. As razões dessa falência foram aproveitadas e acabaram por conduzir a um largo período de ditadura, conhecido por salazarismo ou Estado Novo.

A parte essencial do livro concentra-se nas várias razões que ao longo do tempo da República vão contribuindo para se encontrar uma resposta política para as fraquezas desse mesmo regime. A análise do processo centra-se muito na fase da 1ª República Portuguesa quando algumas das principais figuras do Estado Novo se vão afirmando, tomando posições criticas em relação ao poder político existente e estabelecendo relações de maior proximidade entre si.

Pode ler-se na nota de abertura da obra:
A investigação incide sobre um período particularmente fecundo da historiografia portuguesa acerca do regime que dominou quase inteiramente a sua história do século XX. Num quadro de atenta reconstrução da vida política nacional, em cujo âmbito se tem vindo progressivamente a consolidar a afirmação de Salazar e do seu regime político, é de maneira convincente que o autor estabelece uma relação entre a afirmação do fascismo, em Portugal, e as rupturas epocais produzidas pela Grande Guerra, apesar da escolha de neutralidade feita pelas suas elites políticas. Não é, de facto, por acaso, que a elaboração teórica do futuro ditador, que o levou a assumir um papel significativo na cena política, decorreu dos seus estudos sobre a economia de guerra (...)

Para delinear as características específicas desta variante lusitana do fascismo continental, Jorge Pais de Sousa retoma e valoriza a definição de “fascismo de cátedra”, proposta nos anos trinta pelo poeta e filósofo espanhol Miguel de Unamuno para definir o Estado Novo, na tentativa de superar o dualismo interpretativo entre aqueles historiadores (Torgal, Rosas, Collotti, Loff) que colocaram a tónica sobre as características plenamente fascistas do regime português, e outros investigadores que, na senda das taxionomias elaboradas pela politologia americana sobre o totalitarismo (Costa Pinto, Payne, Nolte, Gentile), o situaram no campo do tradicional autoritarismo. A obra não se exime, pois, à questão metodológica central do actual debate historiográfico, tendo o mérito de enfrentar uma contraposição que dividiu a historiografia portuguesa, no intento de fornecer uma abordagem original capaz de a superar, para libertar a pesquisa histórica da vinculação a um debate que se arriscava arrastá-la para uma linha morta.

Alberto De Bernardi
Universidade de Bolonha


Sobre o autor pode ler-se:
Fez o Doutoramento e o Mestrado em História Contemporânea, a Especialização em Ciências Documentais, e a Licenciatura em Filosofia, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Bibliotecário de profissão, quando não é bolseiro de investigação. Membro do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20). Integra o grupo de investigação Intelectuais e Poder no Mundo Ibero-Americano, com sede na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Obteve, em 2011, uma Bolsa de Pós-Doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

Publicou os livros Bissaya Barreto: Ordem e Progresso (Coimbra, 1999), que foi tese de mestrado e se encontra esgotado, e Uma Biblioteca Fascista em Portugal (Coimbra, 2007). O livro O Fascismo Catedrático de Salazar, que foi tese de doutoramento, culmina a publicação de uma constelação de estudos dedicada aos seguintes temas: A Presença de Santo Agostinho na Obra de Hannah Arendt (Coimbra, 2004); La Prima guerra mondiale e le origini ideologiche dello Estado Novo (Roma, 2006); O Estado Novo perante o 28 de Maio e o Fascismo (Coimbra, 2006); O Estado Novo de Salazar como um Fascismo de Cátedra (Bolonha, 2009); Jaime Cortesão (Coimbra, 2010); Fascismo de Cátedra, Violência e Intolerância (São Paulo, 2010) – ensaio que integra o livro de actas Tempos de Fascismo que foi no Brasil, em 2011, 2.º Prémio Jabuti de Ciências Humanas; O Estado Novo de Salazar como um Fascismo Catedrático: Fundamentação Histórica de uma Categoria Política (Ponta Delgada, 2011); e Os Futuristas e a República (Coimbra, 2011).


Uma interessante obra que recomendamos aos nossos ledores.

A.A.B.M.