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quarta-feira, 12 de março de 2008

EPITÁFIO - POR MIGUEL DE UNAMUNO [PARTE III]


EPITÁFIO - por Miguel de Unamuno [Parte III]

"O povo português tem, como o galego, fama de ser um povo sofrido e resignado, que tudo suporta sem protestar, a não ser passivamente. E, no entanto, há que ter cuidado com povos como esses. A ira mais terrível é a dos mansos. Nem me espanta que no complexo sentimento produzido pela notícia do regicídio, na alma dos portugueses aqui imigrados, entre em não pequena medida algo de orgulho nacional. Condenavam a execução, mas pareciam dizer: «vejam do que ainda somos capazes». Um destes imigrados, ao ler nos jornais que um dos regicidas era espanhol, deixou escapar este desabafo: «não, não, eram todos portugueses, tenho a certeza». Sem qualquer cumplicidade no acto, ainda que remota, ao serem surpreendidos pela notícia, orgulhavam-se de que na sua pátria tivesse havido homens com a coragem suficiente para levar a cabo essa execução terrível, da maneira como o fizeram, cara a cara e expondo-se, e não como Morral atentou contra os nossos reis no dia em que se casaram, tomando precauções para poder escapar-se.

E então eu disse a Guerra Junqueiro da diferença grande que existe entre os anarquistas galegos e catalães. Havendo como há em La Coruña, relativamente, tantos ou mais anarquistas do que em Barcelona – eu creio que mais -, na capital galega não tem havido atentados à bomba, desses perpetrados por um homem isolado actuando sem risco para si, enquanto na capital catalã os tem havido com deplorável frequência; por outro lado os operários de La Coruña já andaram, em consequência de uma greve, a combater a tiro nas ruas e de peito descoberto, coisa que não sucedeu em Barcelona. E o sangue português é o mesmo que o galego.

Portanto, nem o Rei D. Carlos nem João Franco conheciam o seu povo. E aquele demonstrou cabalmente não o conhecer nas suas famosas declarações ao redactor de Le Temps, declarações que constituíam uma verdadeira provocação à mansidão de um povo. Este dormia e rei e ditador juntos despertaram-no. É muito doloroso mas o certo é que a consciência dos povos adormecidos só desperta com actos de violência. E é ainda mais doloroso porque no comum dos casos não chega um abanão apenas; o dormente volta a adormecer, embora de um sono mais ligeiro e necessita de nova excitação. Mas pondo de parte o caso concreto, há que reconhecer todo o trágico da escravidão de um monarca.

Um presidente do Conselho de Ministros, um presidente da República, é um homem que se dedicou à política, escolhendo com mais ou menos consciência e determinação essa profissão; é alguém que procurou o lugar, apresentando a sua candidatura ou deixando que outros a apresentassem. Um rei, não. Um rei é um escravo de nascimento que, como quase todos os nascidos em escravidão, não têm força de vontade nem lucidez para se libertar das cadeias com que nasceu. Não seria terrível obrigar os filhos mais velhos a seguir a profissão dos seus pais? Não consideraríamos que era uma tirania intolerável? Podia falar-se de abdicações. Mas é muito raro, raríssimo, que os que nasceram para reis sejam capazes de abdicar. Aqui, em Espanha, abdicou do trono D. Amadeu; mas este secundogénito da Casa de Sabóia não nasceu para rei de Espanha nem para tal foi criado. E por isso não estava imbuído dessa espécie de honor régia de que os pobres reis são vítimas, como quase todos somos vítimas da honra especial da nossa profissão ou da nossa classe.
Escrevi uma vez, ao falar do socialismo, que compreendo perfeitamente que uma pessoa se faça socialista tanto por amor aos ricos como por amor aos pobres, pois o que liberta a estes da sua pobreza libertará aqueles da sua riqueza. Assim, compreendo que nas convicções republicanas de alguém pese um pouco um certo sentimento de compaixão pelos desgraçados dos reis, levando em conta que aquilo que liberta os bons povos dos maus reis libertará os bons reis dos maus povos. E é tal a condição dos reis que ninguém considera os atentados de que são vítimas ao mesmo nível de qualquer outro atentado a um particular. «São ossos do ofício», contam que disse D. Afonso XIII a seguir a um dos atentados contra si dirigidos. Se bem que o regicídio seja considerado crime, há que reconhecer que a maior parte das vezes é um crime de direito público, não de direito privado.

E neste caso concreto do regicídio de D. Carlos não se deve perder de vista que foi levado a cabo num país como Portugal, onde a pena de morte foi abolida há já algum tempo e onde chegou a haver distúrbios públicos para impedir que se executasse um condenado a ela. É mais uma prova do que é a ira do manso. Nesse povo brando, pacífico, sofrido e resignado, mas por dentro cheio de paixão, os crimes de sangue são raros, muito raros, raríssimos; mas entre os que ocorrem muitos parece haver que são mais atrozes e violentos do que aqui, em Espanha, onde por desgraça tais crimes são mais frequentes, muito mais frequentes do que lá.

Não tenho dúvida de que este epitáfio parecerá a mais de um leitor um tanto implacável e nada piedoso. Acredito, não obstante, que a suprema piedade é a da verdade e procurei dizer aquilo que dentro de dois, quatro ou vinte anos diria sobre esta morte. Um rei é sempre um sujeito histórico; como tal o considerámos. E a dor que a sua morte causa, mesmo nos seus parentes, próximos e amigos - quando os tem verdadeiros -, é uma dor histórica ou, melhor dizendo, é uma dor litúrgica e oficial. O terrível Fado, ao colocá-los fora da condição geral doméstica dos demais homens, colocou-os fora dos comuns
sentimentos domésticos. E para concluir cabe dizer: descanse em paz o infortunado D. Carlos, mas descanse Portugal também em paz. Se é que a um povo, e a um povo
como o de Portugal, se pode desejar descanso.

Salamanca, Fevereiro de 1908
" [Miguel de Unamuno]

[pré-publicação de um texto de M. Unamuno, que faz parte da Antologia sobre esse importante pensador, intitulada "Portugal, Povo de Suicidas" e a sair brevemente sob edição da Livraria Letra Livre (com tradução de Rui Caeiro)]

J.M.M.

EPITÁFIO - POR MIGUEL DE UNAMUNO [PARTE II]


EPITÁFIO - por Miguel de Unamuno [Parte II]

"Mas de entre as muitas coisas, todas elas vergonhosíssimas, que ouvi acerca do infeliz monarca, a que porventura se me afigura mais grave, se bem que de um ponto de vista de moral corrente possa aos outros não o parecer, é que ele desprezava o seu povo. O pecado mais grave de D. Carlos, o seu pecado imperdoável, é que desprezava Portugal. Costumava dizer, falando da pátria onde reinava: Isto é uma piolheira. E assim como o Evangelho diz que pecados contra o Espírito Santo não têm remissão nem nesta vida nem na outra, assim é pecado irremissível o desprezo de um soberano pelo seu povo. A circunstância de não ser um homem privado de inteligência ou sequer vulgar, agrava a sua culpa a este respeito. O defunto D. Carlos não era um idiota nem se pode dizer que fosse uma inteligência inteiramente vulgar. O que ele foi sempre foi um egoísta astuto e um desenfreado gozador da vida. O seu corpo era reflexo da sua alma: nele o físico revelava o moral. Era do tipo de Falstaff.

E este desgraçado monarca fez uma espécie de pacto com João Franco, o ditador, a quem muitos agora culpam da morte daquele e do seu filho. Incluindo a própria rainha viúva. O pacto consistiu em que Franco daria ao rei aquilo de que este necessitava, ouro, justificando de uma ou de outra maneira os adiantamentos ou antecipações ilegais do Tesouro Público e aumentando-lhe a lista civil, e o rei daria a Franco o que a este apetecia com frenesi do monomaníaco: o poder.

Porque o apetite do poder que atingira Franco era uma verdadeira loucura. Recordando o que se conta do negociante Yanque ao dizer ao seu filho: my son, make money, honestly if you can, but make Money (meu filho, faz dinheiro, honradamente se puderes, mas faz dinheiro), - cabe dizer que o lema de Franco era: conserva o poder, honradamente se puderes, mas conserva-o.

Entre os portugueses que conheço, até os mais hostis ao ex-ditador reconhecem, quando falam serena e desapaixonadamente, que Franco tinha de princípio certas boas intenções e propunha-se, caso lhe fosse possível, introduzir ordem e rigor na desconcertada e corrompida administração pública portuguesa. Mas antes disso, e sobretudo, o seu propósito era exercer e deter o poder. Para lograr levar a cabo esses seus supostos bons propósitos havia um grande obstáculo, que era a própria causa do seu poder: ter transigido com as artimanhas do rei. É difícil cimentar uma administração honrada com um poder que deve a sua origem a uma violação da estrita honradez pública.

Franco cometeu imensos atropelos para reduzir o montante das dívidas do rei. E chamar-lhes dívidas é o menos que se pode dizer... No fundo, para o ditador tratava-se, mais do que ser honrado, de parecê-lo. A virtude era para ele uma arma. Ao serviço do seu frenético apetite de mandar tinha uma enorme dose de hipocrisia. Mentia com o coração na mão, segundo palavras de Guerra Junqueiro. Assim chegou a enganar muita gente acerca dos seus propósitos de regeneração económica. E contribuía para que nele acreditassem o facto de João Franco, sendo riquíssimo, dono de uma enorme fortuna pessoal, estar livre da suspeita de perseguir o lucro.

E ambos, o rei e o seu ministro, desconheciam o seu povo. O que nada tem de estranho, visto que o desconhecia - e continua talvez a desconhecer - a maior parte dos portugueses europeizantes ou europeizados e tão pouco o conhecemos muitos dos que, há algum tempo, atentamente o tomamos como objecto do nosso estudo
".

(continua)

[pré-publicação de um texto de M. Unamuno, que faz parte da Antologia sobre esse importante pensador, intitulada "Portugal, Povo de Suicidas" e a sair brevemente sob edição da Livraria Letra Livre (com tradução de Rui Caeiro)]

J.M.M.

EPITÁFIO - POR MIGUEL DE UNAMUNO [PARTE I]


EPITÁFIO - por Miguel de Unamuno [Parte I]

[pré-publicação de um texto de M. Unamuno, que faz parte da Antologia sobre esse importante pensador, intitulada "Portugal, Povo de Suicidas" e a sair brevemente sob edição da Livraria Letra Livre (com tradução de Rui Caeiro)]

"Há uns oito dias atrás falava eu nesta cidade de Salamanca com o grande poeta português Guerra Junqueiro, que andava evitando presenciar os acontecimentos que já então se previa haviam de ter lugar. E falando-me do Rei D. Carlos, após salientar uma vez mais o rebaixamento moral desse pobre monarca que teve um fim tão trágico, acrescentou: «Não sei como isto vai acabar; mas acreditando, como acredito, que em Portugal há uma família a mais e que o Rei é um monstro de perversão, se eu daqui pudesse matá-lo com o pensamento, fá-lo-ia.» Poucos dias depois, anteontem, domingo 2, quando Guerra Junqueiro estava ainda nesta cidade, chegou a notícias do assassínio do Rei D. Carlos e do príncipe herdeiro D. Luís Filipe.

Suponho que os meus leitores estão ao corrente dos acontecimentos. O rei, depois de abandonado por todos os políticos, que desconsiderara e ofendera, teve que colocar-se nas mãos de João Franco, que inaugurou uma era de ditadura e favoreceu as manobras reais, preparando a justificação dos adiantamentos que o monarca tinha conseguido do Tesouro Público. Dizia-se e repetia-se que toda a agitação em Portugal era uma tempestade num copo de água, obra unicamente dos políticos. Eu mesmo cheguei a acreditar nisso. No entretanto, o partido republicano crescia e ia engrossando com homens prestigiosos que para ele mudavam, vindos das fileiras monárquicas. Preparava uma sublevação popular para fins de Janeiro; foi denunciada a conspiração e os implicados foram presos e tiveram de fugir. E quando menos se esperava chega a notícia do assassínio do rei e do príncipe em Lisboa.

Disse-se que moralmente foi João Franco, o ditador, quem o matou. Eu creio ser mais exacto o que dizia Guerra Junqueiro: foi mesmo um suicídio.

O Rei D. Carlos - que Deus lhe perdoe - não precisava de João Franco para atrair a si o ódio do seu povo. Era quase unanimemente execrado. Tinha conseguido unir os seus súbditos num sentimento comum a seu respeito; um sentimento de ódio misturado com desprezo. Está correcto que de todos os lados a imprensa tenha condenado o assassínio; assim o pede a moral que professamos com maior ou menor sinceridade; mas como penso que acima de todos os amores se deve colocar o amor à verdade, tenho que dizer que os tiros sobre o rei partiram das próprias entranhas do povo português. E se a execução do Rei D. Carlos é execrável, é-o como o é a execução de qualquer réu. D. Carlos estava julgado e condenado pelo seu povo.

Estive por diversas vezes em Portugal. Convivi com muitos portugueses e a nenhum ouvi alguma vez defender o defunto rei. Não tinha, em rigor, um único partidário. Contavam-se a seu respeito coisas execráveis e horrendas. Ouvi a pessoas que com ele trataram, até a um que foi seu ministro, coisas realmente incontáveis em público


Oliveira Martins, esse enorme talento - acaso o mais robusto que Portugal teve no século passado -, deixou o Ministério dizendo que o rei era um monstro de perversidade. Há que ouvir contar as circunstâncias que precederam o suicídio de Mouzinho de Albuquerque, o herói de África, que ao regressar do seu governo colonial, rodeado de imenso prestígio, foi nomeado preceptor dos filhos do rei e acabou por suicidar-se.

Talvez a história algum dia venha a guardar alguma coisa de tudo isto - muito já a piedade ou o servilismo mergulhou no esquecimento - e a julgar o desgraçado D. Carlos
".

(continua)

[Miguel de Unamuno, in "Portugal, Povo de Suicidas" (a sair em breve), Ed. Letra-Livre, 2008]

J.M.M.

terça-feira, 4 de março de 2008

O REGICÍDIO NA FLUC: CICLO DE CONFERÊNCIAS




Recebemos esta notícia que divulgamos a todos os interessados pela análise e interpretação dos acontecimentos ligados ao Regicídio. A FLUC vai assinalar, também ela, o Centenário do Regicídio organizando um conjunto de conferências coordenadas pelo Prof. Doutor Fernando Catroga, um dos grandes especialistas em Portugal sobre a evolução e desenvolvimento das ideias positivistas e do Partido Republicano.

O IHTI e o IHES da FLUC, em colaboração com o CEIS20 da UC, vão
organizar a seguinte iniciativa, coordenada pelo Prof. Doutor
Fernando Catroga (FLUC):

Ciclo de conferências sobre o Regicídio
Prof. Doutor Fernando Catroga, "O Regicídio de 1 de Fevereiro de
1908: e porquê?"
(5ª Feira, 06/03/08, 14h, Anf. II da FLUC, 4º Piso)

Prof. Doutor João Paulo Avelãs Nunes, "O Regicídio: de uma leitura
factualista a uma interpretação estrutural"
(6ª Feira, 07/03/08, 14h, Anf. II da FLUC, 4º Piso)

Prof. Doutor Vitor Neto, "O atentado de Serajevo e a Grande Guerra"
(2ª Feira, 10/03/08, 9h, Anf. I da FLUC, 3º Piso)


A todos os que possam acompanhar este ciclo, certamente muito interessante, e com novos contributos para a problemática do Regicídio.
Em nossa opinião, um ciclo de conferências a não perder.

A.A.B.M.

domingo, 2 de março de 2008

EXPOSIÇÃO SOBRE O REGICÍDIO NA BIBLIOTECA NACIONAL




A BN organiza uma exposição evocativa do acontecimento a que o Almanaque Republicano dedicou grande atenção durante o mês de Fevereiro: O Regicídio.

Inaugurada no passado dia 18 de Fevereiro, esta mostra bibliográfica estará patente até ao próximo dia 24 de Maio de 2008. Publica-se também o catálogo da exposição, que se recomenda, com apresentação do Director da Biblioteca Nacional, Jorge Couto, e organização e pesquisa coordenada por Manuela Rego, onde se encontra muita informação importante sobre os acontecimentos e sobre a sociedade portuguesa da época.

Com os votos de grandes sucessos para mais esta realização, que grandes paixões ainda desperta, conforme se verificou pelos acontecimentos que decorreram a assinalar o Centenário do Regicídio.

A.A.B.M.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - OS DISSIDENTES (II): VISCONDE DA RIBEIRA BRAVA



Em 2 de Abril de 1852, nasceu no Funchal, na então freguesia da Ribeira Brava, Francisco Correia de Herédia que tomará o título supra referido a partir do Decreto de 4 de Maio de 1871. Era filho de António Correia de Herédia e de Ana de Betencourt Herédia.

Estudou no Liceu do Funchal, seguindo posteriormente para Lisboa, onde se matriculou no Curso Superior de Letras, em 1877. Em 1882, foi nomeado para integrar a Comissão Central Antifiloxérica do Sul do Reino, onde participou nos trabalhos ali desenvolvidos durante vários anos.

Na década de noventa do século XIX, inicia um periódo de viagens por várias partes do mundo. Conhece e trabalha na Argentina e Paris. Em 1895 participa no primeiro Congresso Vinícola, representando o Sindicato Agrícola da Madeira.

Em termos políticos adere inicialmente ao Partido Regenerador e desempenha funções como governador civil de Bragança (18 de Dezembro de 1884 a 12 de Março de 1885) e de Beja (12 de Março de 1885 a 19 de Fevereiro de 1886). Afastando-se do Partido Regenerador adere ao Partido Progressista que permite desempenhar outras funções públicas como governador civil, novamente em Beja (1897-1898). Presidiu também a algumas câmaras municipais.

Foi eleito deputado em diversas legislaturas desde 1878. Interrompeu durante algum tempo (1885-1896)a sua participação na Câmara dos Deputados. Regressou em 1897, eleito pelo círculo da Ponta do Sol, no Partido Progressista; em 1900 foi eleito pelo círculo de Ferreira do Alentejo e, finalmente, em 1905-1906, foi eleito pelo círculo de Faro. Da sua actividade como deputado salientam-se as suas presenças como elemento integrante das Comissões de Administração Pública, perticipando ainda na Comssão responsável pela reforma eleitoral de 1883. Foi autor de vários projectos de lei ao longo do tempo, mostrando preocupação com a defesa da sua terra natal e na defesa dos problemas dos proprietários de terras. Com o decorrer dos anos vai ganhando algum distanciamento em relação às estruturas partidárias e estabelece aproximações pontuais com algumas figuras mais independentes.

Em 1905 acompanha José Maria de Alpoim na cisão com o Partido Progressista e, com outros parlamentares, fundam a Dissidência Progressista. Inicia aí um processo de aproximação ao Partido Republicano e, em 1907, juntamente com João Chagas, inicia um processo conspirativo que visava despoletar a revolução contra a monarquia. Conseguem a adesão de alguns militares da armada e conseguem angariar fundos para adquirir meterial para o fabrico de bombas. Na sua residência realizam-se as reuniões conspirativas e ali se decide marcar a data de 28 de Janeiro para iniciar a revolta. Descoberta a tentativa revolucionária, o Visconde de Ribeira Brava é detido e libertado dias depois do Regicídio (6 de Fevereiro de 1908). A partir daí envolve-se profundamente na conspiração para derrubar a Monarquia.

Após a implantação da República filiou-se no Partido Republicano Português, tornando-se um dos amigos próximos de Afonso Costa. Voltou a ser eleito deputado pela Madeira entre 1911 e 1917. Presidiu à Junta Agrícola da Madeira e pertenceu à Junta Geral do Distrito do Funchal, da Junta Autónoma das Obras do Porto do Funchal, da direcção da Santa Casa de Misericórdia do Funchal e foi governador-civil de Lisboa entre 1914-1915.

Foi preso durante o sidonismo e acabou assassinado em Lisboa, na denominada "Leva da Morte" em 16 de Outubro de 1918, quando era conduzido com outros detidos para o Governo Civil de Lisboa, onde seria encarcerado.

[Foto: Visconde da Ribeira Brava discursando num comício republicano in Arquivo Fotográfico]

A.A.B.M.

ORAÇÃO FÚNEBRE ... NAS EXÉQUIAS DE EL-REI D. CARLOS I


Oração Fúnebre 

"... Meus senhores:

Não ha arvore sem raizes e não ha rio sem affluentes. Assim o progresso d'um povo, assim a sua decadencia. Nem uma civilisação surge de repente, de
organismo já feito, no meio d'uma nacionalidade, nem a decadencia d'um povo apparece tambem de improviso, promovida rapidamente pelos homens d'uma epoca. Depende de muitos factores, de circumstancias diversas que successivamente se vão accumulando pelo tempo adiante. O mal da patria portugueza vem de longe, e difficilmente pôde determinar-se-Ihe a sua verdadeira origem. O que é certo é que o senhor D. Cados, ao ser investido na suprema magistratura, recebeu com a corôa a triste herança d'uma nação já decahida, illaqueada por enormes encargos, sem administrações vigilantes e quasi desprovida de homens de estado.


Logo, pois, no inicio do seu reinado veio denunciar-se o estado decadente da patria. O ultimatum da Inglaterra, a revolta de 31 de janeiro, a crise financeira, o enorme augmento de impostos que d'ella derivou, são paginas funebres, escriptas umas com sangue, outras com lagrimas, mas todas ellas sem culpa do Rei. Todos estes factos constituem o primeiro período d'este reinado, periodo triste, verdadeiramente lugubre, recingido de bulcões aterradores, prenúncios de tempestades maiores. Dir-se-ia que nos horisontes da patria se apagára para sempre o sol da felicidade (...)

A escola politica d'onde provinha el-rei o senhor D. Carlos I estava radicada de mais no doutrinarismo exaggerado da acção ministerial. E assim o senhor D. Carlos entregára, quasi em absoluto, a governação publica á politica. A politica, porém, senhoreando-se dos destinos da nação não logrou cobrir-se de gloria. Teve lampejos de prosperidade, alguns reflexos de grandeza, não digo que não, mas sem luz bastante para formar uma aureola. D'ahi o accentuar-se cada vez mais a decadencia da patria, e com essa decadencia o descredito da politica, que fatalmente ia incidir na pessoa do Rei. D'esse descredito nasceu uma reacção – a interferencia directa do Rei nos negocios do estado. Pennas brilhantes, e de innegavel valor e auctoridade, advogavam calorosamente essa interferencia, traçando o doloroso quadro da politica portugueza. O Rei hesitou durante longo tempo: medindo o alcance da tentativa e a magnitude das responsabilidades, mal podia decidir-se a tomar por esse caminho. Mas um dia, como que acordando, volveu um olhar retrospectivo e meditativo para as decadencias da patria e julgou emfim dever intervir, chamando um homem que se identificasse comsigo e com o seu plano. Era um plano muito arriscado, ainda assim... (não digo que não) talvez de exito salvador. Mas um tal plano, uma evolução governativa d'esta natureza, reclamava um estadista de grande valor, um estadista completo:- de cabeça bem organisada e sciencia bem fundada; de orientação clara, sem contradições, sem desequilibrios, sem os zig-zags da incerteza; homem sem preoccupação de partidarismos, - porque, meus senhores, o estadista que em horas afflictivas e angustiosas para a patria, tiver tal preoccupação, esse estadista é um elemento nocivo ao seu paiz (...)"

[A. Ayres Pacheco. Cónego da Sé de Lisboa, in No Templo dos Jeronymos. Oração Fúnebre pronnunciada nas exéquias de El-Rei D. Carlos I e do Príncipe Real D. Luiz Filippe mandadas celebrar pelo governo no dia 25 de Abril de 1908, Lisboa, Impr. Typ. Castro Irmão, 1908]

J.M.M.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

O MARQUEZ DA BACALHOA - ROMANCE DE ANTÓNIO ALBUQUERQUE (II)


O Marquez da Bacalhoa - romance de António de Albuquerque (II)

Gomes Leal fez a devida recensão do livro "O Marquez da Bacalhoa" nos seus opúsculos "Verdades Cruas" [nº15-16], o que suscitou a seguinte carta de António de Albuquerque:

"Meu caro Mestre - Corri ontem Lisboa à sua procura, pois desejava absolutamente agradecer-lhe o seu favor (...)

Resolvo pois escrever-lhe daqui, esperando ter amanhã o prazer de lhe apertar a mão, às duas horas, no seu escritório. Se alguma vez me senti vaidoso, confesso-lhe tê-lo sido, ao acabar a leitura do seu magnífico número das Verdades Cruas em que o Gomes Leal se ocupa exclusivamente da minha defesa com tanto brilho, valor e amizade. Se acaso lhe mereço tal deferência, será certamente pela sincera admiração que sempre senti por si. É V. como todos os grandes espíritos um látego cortante ferindo profundamente a canalha a quem não teme e despreza.

Tem razão em me chamar um revoltado e dizer que o meu romance O Marquês da Bacalhoa é um livro sincero e audaz. Eu sou efectivamente um revoltado, mas creia que o não sou por ódio, mas simplesmente pelo dó que desde criança me inspiraram sempre os oprimidos, os fracos e os ignorantes. Nem doutra forma se poderia explicar a transformação radical dum aristocrata, nascido e criado entre preconceitos religiosos e de raça. Da minha origem resta-me todavia uma consolação, se acaso evoco a memória dos meus ilustres avoengos, e quem sabe mesmo se uma explicação lógica da minha transformação. É que se êles cometeram crimes e crueldades, nenhum-posso-lhe afirmar-foi lacaio de rei ou cobarde. Dos ditos crimes absolve-os certamente a época em que viveram, e as erradas ideas do seu tempo. A exemplo dêles tambêm eu quis sacudir todos os jugos, e por isso me revoltei contra a injustiça social, passando de fidalgo ao mais convicto dos anarquistas, graças talvez à audácia e independência de caracter que dêles herdei-qualidade que para mim os absolve das suas criminosas façanhas guerreiras.

Algumas críticas lisonjeiras se fizeram ao meu livro em França, Espanha, Bélgica, algumas até firmadas por nomes ilustres, creia porêm, caro Mestre, que nenhuma me calou tam doce e carinhosamente no coração, como a do maior poeta português, Gomes Leal. Quem me diria, há tantos anos, ao ler a Traição que o autor dela se ocuparia um dia da minha insignificante pessoa! Envaideceu-me-é certo-a sua crítica, mas um outro sentimento mais íntimo ela me despertou:-uma espécie de infinito enternecimento ao contacto da sua carícia fraternal, carícia dum poderoso a um exilado mal compreendido, bálsamo sereno curando um coração em chaga. O seu elogio era escrito em português, mas apesar do meu incurável internacionalismo, a nossa língua é sempre para mim a mais bela e harmoniosa.

Tendo sido em português que me vibraram os mais rudes e injustos golpes, os quais vibrados é certo por gentes insignificantes me magoaram todavia profundamente pela inveja que os inspirava, calcule o quam grato me foi o ver-me por si desafrontado.
O Gomes Leal vingou-me plena e cruelmente, e fique certo do meu eterno reconhecimento. Sei odiar e sei igualmente estimar.

Breve espero poder enviar-lhe o meu novo livro a Execução do Rei Carlos e oxalá êle lhe leve distracção e lhe mereça aplauso. Firo nele muita gente - é verdade - mas convencido de minha justiça e da obrigação cumprida. Dir-lhe-ei, para terminar, o quanto lastimo não haver em Portugal homens possuidores do seu talento, da sua audácia, e convicção libertária. Mas valerá a pena por acaso lutarmos ainda por esta gente?

Aperto-lhe cordealmente a mão, dizendo-lhe: até amanhã.

Sintra, sexta 18 de Junho de 1909, Laurence's Hotel. - Amigo gratíssimo, António de Albuquerque
" [in Dicionário Bibliográfico Português de Inocêncio F. da Silva]

J.M.M.

O MARQUEZ DA BACALHOA - ROMANCE DE ANTÓNIO ALBUQUERQUE (I)



António de Albuquerque [aliás Alardo de Amaral Cardoso e Barba de Meneses e Lencastre, n. Viseu, 1866 - m. Sintra, 1923 – ler mais aqui] publica em 1908 o romance "O Marquez da Bacalhoa" [Bruxelles, Imp. Liberté] que causou enorme sucesso e não menos escândalo. A história pretende contar a vida de um ministro em plena governação do dito "Marquez da Bacalhoa", onde as personagens, sob o manto de varias escândalos e outra ignomínias, escondem putativas personagens reais, como o Rei D. Carlos, D. Amélia, João Franco, a Condessa de Sabugosa, a Condessa de Freixosa, Mouzinho de Albuquerque, etc. [Vasco Pulido Valente, in O Independente, Janeiro de 1998]

Antes mesmo da sua venda [acabou de ser escrito a 6 de Setembro de 1907] já era fortemente procurado nas livrarias. Alguns livreiros, preocupados com seu teor, dado a lei de 13 de Fevereiro de 1896, não aceitavam a sua venda ou faziam-na com muita prudência. Inocêncio Francisco da Silva [in Dicionário Bibliográfico Português] diz-nos que, mesmo assim, o "gerente da livraria Tavares Cardoso, – 5, Largo do Camões, – expunha-o na montra", pelo que no dia seguinte "o agente da polícia Tomé de S. Marcos (...) apreendeu um exemplar do livro, voltando no seguinte a convidar o dito gerente a comparecer perante o chefe Ferreira". De igual modo foram convocados à polícia os "Srs. Joaquim Monteiro, gerente da Parceria António Maria Pereira, José Pereira, sócio do livreiro José António Rodrigues, e Francisco José Gomes de Carvalho, a quem muitos supunham o editor, ou, pelo menos, que havia cedido a casa para a composição do Marquez da Bacalhoa". Ao que nos diz I.F.S., tal "não obstou à continuação da [sua] venda clandestina", o que nalguns casos atingiu preços exorbitantes [o preço de base era de 800 réis, o que já era dispendioso]. Rocha Martins [in D. Carlos] afirma que o romance foi editado [apesar da edição ter o nome do próprio escritor] pelo maçon Gomes de Carvalho [ler mais, aqui].

[continua]

J.M.M.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - OS DISSIDENTES (I): JOSÉ MARIA DE ALPOIM



A personalidade polémica de José Maria de Alpoim Borges Cerqueira Cabral, surge muitas vezes indicado como um dos indiciados na conspiração que culminou no Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908.

José Maria d'Alpoim, como muitas vezes aparece designado na época, nasceu no Solar da Rede, Mesão Frio, em 2 de Junho de 1858 e faleceu em Lisboa em 12 de Dezembro de 1916. Descendia de uma família da nobreza provincial, sendo filho de Francisco Alpoim Borges Cerqueira Cabral e de Amância Dulce Samora de Quevedo e Alpoim.

Realizou os seus estudos liceais no Porto onde foi colega de Sampaio Bruno, seguindo para Coimbra onde se bacharelou, como era vulgar na época, em Direito em 1879. Ingressou de imediato no Partido Progressista, sendo indicado para administrador do concelho de Mesão Frio (1879-1880) e mais tarde de Lamego (1880-1881). A partir de meados da década de oitenta fixa residência em Lisboa e obtem a sua colocação como primeiro oficial da Direcção Geral das Contribuições Directas do Ministério da Fazenda, transitando depois para o lugar de ajudante do procurador-geral da Coroa e Fazenda, desempenhando ainda a função de administrador da Companhia de Moçâmedes. Desempenhou por três vezes o cargo de Ministro da Justiça (1889, 1904 e 1905), acompanhando sempre José Luciano de Castro de quem era grande amigo e companheiro político.

Reconhecem-se-lhe as qualidades de lutador e grande tribunício, sendo por isso apontado como o "delfim" de José Luciano de Castro. Eleito deputado pela primeira vez em 1887, pelo círculo uninominal de Lamego, consegue mais nove mandatos como deputado pelos círculos de Lamego, Valpaços, por acumulação de votos a nível nacional, por Penafiel, por Anadia e pelo círculo plurinominal de Aveiro. Em 1905 é eleito Par do Reino e, nessa mesma época afasta-se de José Luciano de Castro e do Partido Progressista.

A sua ruptura com José Luciano deve-se à realização de uma remodelação governamental operada pelo Governo dirigido por este, em que José Maria de Alpoim ambicionva ocupar a pasta do Reino, mas foi preterido e afastou-se em colisão com o seu chefe político e funda a Dissidência Progressista, que ocupava a extrema esquerda da Monarquia. Faziam parte deste grupo nomes como António Centeno e João Pinto dos Santos, entre outros. O crescente radicalismo desta facção política facilitou os contactos com os elementos ligados ao Partido Republicano que conspiravam para derrubar a Monarquia. Envolve-se então na intentona de 28 de Janeiro que o conduziu ao exílio em Espanha. Porém, o regicídio acaba por facilitar o seu regresso imediato ao País, aproveitando a amnistia concedida pelo governo do almirante Ferreira do Amaral.

Alpoim procura ainda estabelecer uma aliança, ainda que provisória, com Júlio de Vilhena em 1909, mas a coligação rapidamente se desfez. Em Janeiro de 1910, numa conferência pública Alpoim estabelece uma espécie de programa político da Dissidência Progressista. Com a implantação da República afasta-se da vida política, mantem-se como ajudante do Procurador Geral da República e só regressa em nas vésperas da 1ª Guerra Mundial para tomar publicamente posição contra a participação de Portugal na guerra.

Conhecem-se colaborações suas em inúmeras publicações periódicas, em particular aquelas que estavam mais próximas do Partido Progressista, mas também jornais e revistas de diversa índole. Assim, começa a colaborar como correspondente político, em Lisboa, do Primeiro de Janeiro (Porto), mais tarde assumiu a direcção de O Dia (1904-1910), passou pelo Correio Português, Correio da Noite, Novidades, pelo O Repórter e colaborando com a revista Perfis Contemporâneos.

Bibliografia Consultada:

- Almeida, Pedro Tavares; Jerónimo, Miguel Bandeira, "Cabral, José Maria Alpoim de Cerqueira Borges", Dicionário Biográfico Parlamentar 1834-1910, vol. I (A - C), Maria Filomena Mónica (Coord.), col. Parlamento, Imprensa de Ciências Sociais/Assembleia da República, Lisboa, 2004, p. 508-512.
- Cabral, António, Os Culpados da Queda da Monarquia, Livraria Popular Francisco Franco, Lisboa, 1946.
- Lemos, Mário Matos e, Jornais Diários Portugueses do Século XX. Um Dicionário, Ariadne/CEIS 20, Coimbra, 2006.
- Moreira, Fernando (org.), José Luciano de Castro. Correspondência Política (1858-1911), ICS/Quetzal Editores, 1998.
- Pires, Daniel, Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do século XX (1900-1940), Grifo, Lisboa, 1996.

[Foto retirada de Arquivo Fotográfico de Lisboa, com a devida vénia.]

A.A.B.M.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - VISTO POR CASIMIRO GOMES DA SILVA



Continuamos hoje a trazer à luz do dia alguns depoimentos interessantes que se publicaram sobre o problema do regicídio, este defendendo claramente a posição da Monarquia. Uma obra relativamente pouco conhecida, pois é pouco citada, encontram-se-lhe de facto alguns erros [tipográficos e outros], no entanto é interessante devido às descrições vibrantes que o autor faz da vida de D. Carlos e, em particular, do regicídio.

Na obra de Casimiro Gomes da Silva, Apontamentos para a história de alguns aspectos do reinado de D. Carlos I, publicada em Sintra em 1946, p. 166-167, encontramos este extracto vivo e detalhado dos acontecimentos:

Ao passar a carruagem real na altura do Ministério da Fazenda, Buíça, postado na direcção da estátua de S. José, apontou uma carabina Winchester, desfechando. Estremeceu o corpo do rei. Era no instante em que Alfredo King, professor de D. Manuel, increpava um popular:
- Descubra-se, que vão passando S.S.M.M.!
E o popular Alfredo Costa, ao ouvir o primeiro tiro, correu sobre o trem e, saltando para a capota, disparou, à traição, a sua pistola Browning, sobre o soberano, cuja cabeça logo pendeu para a frente. Foi neste momento que a Rainha, sacudindo o ramo de flores, quis, com ele, afastar a visão sinistra.
Ao ver a agressão, o Princípe, com desembaraço, feriu o Costa, pouco depois morto pelos polícias 32 e 917, mas sem reparar no Buíça, que alvejava, gritando:
- Ah! Cães.

Produziu-se um duelo rápido, entre os dois. O antigo sargento acobertado por certo quiosque, que na época existia na praça, fez fogo duas vezes atingindo D. Luís Filipe, que, de pé sobre o veículo em movimento, mal podia regular a pontaria, acabando por desfalecer sobre as almofadas. Pulou o regicida, como um gamo, para a arcada do Ministério do Reino, fazendo esforços para atingir D. Amélia, que, com o próprio corpo ocultava o do Infante, já ferido num braço.

Passava-se isto, quando o tenente D. Francisco Figueira, oficial às ordens do Rei, atravessou com a espada, por altura dos rins, o dorso do assassino. Depois, para um polícia, que era perto disse:
- Tome conta deste homem!

Então o regicida, de joelho em terra, desfechou a arma, percutindo numa verilha o seu antagonista, que, a esvaír-se em sangue, corajosamente, resolveu ao contrário do que lhe aconselhavam:
- Não vou para o hospital! Vou para onde estiver a Família Real!
Arrastado e mesmo assim lutando sempre, Buíça foi conduzido até junto dos Paços do Concelho, onde um guarda, de nome Silva, o matou.

Dos três cumplices restantes só um deu sinal de si, ainda que passageiramente. A Rainha, mesmo nas condições anormais em que se viu, teve memória para fixar-lhe os traços. Dias depois, para fins de investigação policial, fez-lhe o retrato - sem êxito, de resto.

No meio da extraordinária desordem estabelecida, o povo fugiu em todas as direcções. Por momentos parou o trem da morte, entrando nele a Condessa de Figueiró, ao passo que o Marquês de Lavradio e outro indivíduo saltavam para os estribos. Ouviam-se ainda tiros. O trintanário, Manuel Nunes, foi lacerado numa das mãos, e o cocheiro, Bento Caparica, mal refeito do pasmo e do terror, que o tinham acometido, chicoteou, com violência, os hanoverianos, que, ressentidos na sua nobreza, quase tomamram o freio nos dentes. Dentro de segundo, a carruagem vencia o túnel do velho Arsenal da Marinha.
[...]

A.A.B.M.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

O REGICÍDIO NA "REVUE DES DEUX MONDES)


O Regicídio na Revue des deux mondes [jan-fev, 1908]



[ler todo o texto, aqui]

J.M.M.

D. CARLOS REPORTAGEM DRAMÁTICA - POR AMADEU DE FREITAS FILHO


D. Carlos. Reportagem Dramática

"D. Carlos
... Tu és um bom amigo, como o Hintze.

J. MARIANO (sem se poder conter)
O Hintze!....

D. Carlos
Sim, o Hintze ... Vocês são os dois pilares do trono neste momento ... Conta com eles a monarquia, conto eu ... e conta o país.

J. MARIANO
É impossível!... Os dois partidos não se entendem. Não pode haver comunhão de ideias ... Ou governa um ou governa outro ...

D. CARLOS
Sacrifiquem essas paixões insensatas!

J. MARIANO
Eis um sacrifício impossível!

D. CARLOS
Impossível? É impossível qualquer sacrifício para o bem do país? Mas é impossível porquê, ó José Mariano? Tu não vês, não compreendes que esse sacrifício que dizes impossível é absolutamente necessário? Os políticos ainda não compreenderam isto? Tu já reparaste bem para o espectáculo que o país inteiro nos oferece, semelhante a um vulcão em véspera de terrível e inevitável erupção? (Amoso entra e assiste, de longe, ao fim do diálogo) Já auscultaste o povo, já o ouviste, já percebeste que toda a gente fala mal de mim e de vocês, que toda a gente, como tu disseste há pouco, tem a necessidade de odiar, porque as paixões, as intrigas e as invejas originaram esse ódio tôrvo e injusto que reclama sangue? Porque não se entendem vocês de uma vez para sempre, a bem da Pátria e do Rei – por amor à pátria, mais que por amizade a mim, José Mariano! - e se não unem à volta da nossa bandeira? Porque não esquecem pequenos agravos, fugidias ofensas de discursos parlamentares e não mostram o vosso patriotismo salvando o país? Que querem mais? Querem continuar a insultar-se no Parlamento, a dizer ao povo que há dois homens em Portugal com o monopólio do poder e que existe um Rei que não passa de um palhaço com que vocês brincam? Não! Acabou-se, José Mariano! Quero vida nova porque o povo reclama a vida nova e eu não posso assistir de braços cruzados ao desenvolver da raiva e ao alastrar da revolta! Não respondes? Não dizes nada? Então que patriotismo é esse, que amor ao rei é esse, ó José Mariano? Porque não acabam com essas cenas vergonhosas no Parlamento? Porque não se entendem e, tu, José Mariano, não ordenaste aos teus correligionários que não prosseguissem na oposição ao Hintze? Vocês não puderam governar – deixem governar os outros! O povo, lá fora, ruge contra mim apresentando-me como o maior culpado. Mas não pensem que só eu sou alvejado com o ódio da rua! Hei-de demonstrar que não sou merecedor dêsse ódio. Hei-de provar a toda a gente, ao país inteiro, que quero salvar a Pátria! (levanta-se. Alto, um pouco entusiasmado) Tenho sido um Rei que reina e não governa e, apesar disso, acusam-me de ser absolutista, de não respeitar a vontade do povo! Pois hei-de provar que não mereço o ódio popular!(breve silêncio). Não tens nada a dizer-me? Compreendes, agora, o meu desgosto?"

[D. Carlos. Reportagem Dramática por Amadeu de Freitas Filho, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1934. Capa do livro por Ferreira de Albuquerque]

J.M.M.

CARICATURA DO REI D. CARLOS I - POR ALFREDO CÂNDIDO


Rei D. Carlos I

Caricatura do Rei D. Carlos I [1906], por Alfredo Cândido [1879-1960]. Impressão postal d'A Editora.

[retirado do Blog da Rua Nove, com a devida vénia]

J.M.M.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - OS ACONTECIMENTOS VISTOS POR BERNARDINO MACHAD



Na obra de Bernardino Machado, que vemos acima, encontramos o texto que M.S.M. nos fez chegar às mãos e que muito agradecemos.






[continua]

A.A.B.M

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - UM TESTEMUNHO "SUSPEITO" (CONCLUSÃO)




Neste artigo final, com extractos dos textos publicados por Aquilino Ribeiro em 1922 e 1923, na revista Seara Nova, procuramos trazer a público as impressões, que um dos participantes directos nos acontecimentos, deixou como testemunho. Sabemos de antemão que não é imparcial nas suas análises, mas é um autor muito conhecido e que no ano passado o Almanaque Republicano dedicou alguma atenção a propósito da trasladação dos seus restos mortais para o Panteão Nacional.

Hoje pegamos no artigo publicado em 1 de Março de 1923, no nº 9, da referida revista, p. 226-229, para retirarmos algumas opiniões de Aquilino Ribeiro sobre D. Carlos e a família real. Dizia então Aquilino:

[...] Um rei com mão forte e inteligente poderia ter desviado o curso dos acontecimentos, e ter aproveitado essa pleiade que se nirvanizou ou se perdeu em guerrilhas singulares? De certo. Mas tudo se conjurava para que D. Carlos não fôra esse príncipe necessário e salvador.
Era um Bragança na acepção pejorativa do nome. «Os meus defeitos procedem de duas causas: - confessava ele, segundo os termos de Ramalho [Ortigão] - primeira, a hereditariedade na gestação do meu ser; segunda, a influência do meio em que nasci e me criei». Em D. Carlos, a matéria vibrátil - aquela sua timidez nativa, gosto da comodidade, prespicácia que não inteligência, bonomia pachorrenta e tolerante, todo aquele «não te rales» para tudo o que estivesse fora da sua esfera particular, pois aí não arregimentada a usos e preceitos, a sua actividade mostrava-se viva e expedita - era de todo Bragança. Coburgo no físico, na sensibilidade e carácter neto bem herdado daquele a quem a esposa bradava, num acesso de cólera contra o pusilânime: antes rainha uma hora que duquesa a vida inteira.

Tão pouco teve a educação do príncipe providencial. Qual poderia ser? De certo não essa que lhe ministraram, mecânica de todo, sem presa na alma, Tito Lívio, as armas, a dança, as línguas, de mistura com esse leccionário, todo de vitral, depressivo que não elevador, das glórias passadas dos seus avós e vassalos dos seus avós. Estou a ver o professor de história percorrer com dedo trémulo o mapa, em que poucas são as enseadas e terras remotas, que, no dizer de Vieira, se não infamassem do sangue português. Estou a ver o velho António Augusto de Aguiar penetrando-se e ao discípulo do veneno subtil que levanta o sacudir de todos esses brocados e nobres velharias duma história majestosa. E sinto o adolescente encher-se de ânsia e de inconsolável amargura. [...]


Estava-lhe na massa do sangue esse desinteresse pela causa pública, senão fastio atávico, que a pedagogia ad usum Delphini não saberia corrigir, e um concurso de cousas, uma péssima herança tanto social como política, a noção de pequenez da sua terra, ao compará-la - a piolheira - com outras de intenso trato e vulgo desconforme, noção que conta para todo o portuguesinho e muito mais para um neto de megalómanos, e desalenta, isso e a peia constitucional, esse temível contra-senso que ou torna o soberano logro dos governantes ou o povo logro de soberano, sempre em prejuizo do povo, vieram agravar esse mal ingenito dos Braganças - o desdém pela grei. Podia a Corte, como um crisol de nobreza e virtude, depurar esses vícios de de conformação ou externos do príncipe. Mas a Corte, espelho fiel daquela que cem anos antes Mme. Junot cobriu de ridículo e seu marido de ultrajes, carecia de inteligência e tacto diplomático e até de graça. Exultando parvoinhamente, tanto se não mais que o governo então no poder, subscreveu ao casamento de D. Carlos com D. Maria Amélia de Orleans, destronada e odiosa ao piovo sobre que reinou muitos séculos. E erro foi este com repercussões nefastas na vida doméstica dos Braganças e nos negócios políticos e internacionais da nação.

Uma maquinação surda, de longo folego, simulaneamente empenhada junto do princípe e da princesa, devia determinar essa aliança que a cortesania fácil baptisou de romance de amor. [...]


No domínio da política internacional, o consórcio Bragança-Orleans foi um lamentável desvio. Sob o ponto de vista de política interna, teve também a sua repercussão perniciosa, se não tão sensível, não menos eficiente. D. Carlos, se não era um liberal determinado, não vergava também aos preconceitos religiosos dos seus avós. Não era papa-hóstias como a caterva de D. Joões, nem um timorato perante os juizos de Deus como D. Pedro. Em alguma coisa, já que não em riquezas ou prestígio, devia ser herdado D. Carlos pela linha materna. Às cerimónias religiosas concorria como rei por obrigação. Escreveu Guerra Junqueiro, não sei com que fundamento, que, enquanto se celebravam exéquias por alma do pai, D. Carlos caçava.

Não era fanático, a princesa, ao contrário, conservava viva a tradição de piedade e de fervor que reinavam na família. D. Carlos tinha recebido uma acção educação laica, ministrada por homens que professavam as liberdades do século; D. Maria Amélia tinha sido formada pelas irmãs do Sacré-Coeur.[...]


Na personalidade de D. Carlos há todavia uma distinção a fazer: o rei e o homem. O rei era péssimo, o homem, pelo que li, pelo que ouvi, era óptimo.

No Campo das Salésias pude divisá-lo à vontade seguindo com visível desvanecimento e orgulho as evoluções duma companhia de artilharia, ao lado de Kaiser Guilherme II, seu hóspede. Era um homem sólido, de estrutura maçiça sobre o obeso, todavia não desprovido de agilidade. Pisava com facilidade e potência. Olhos móveis e maliciosos; filamento vermelhos de sangue a sulcarem-lhes a tez rósea do rosto, duma gordura reluzente e simpática; cabelos com leves relfexos ruivos, ligeiramente encaracolados. Em tudo um desses Coburgo que veem nas oleografias, cada vez mais acentuado à medida que os anos passavam por ele.

Guardei esta imagem do homem, a qual, mais tarde, quando a paixão política arrefeceu e me deixou a faculdade de exame, veio ilustrar luminosamente actos seus do domínio particular, tornados públicos, de bonomia, de delicadeza, de compreensível altivez.


Nos próximos dias propomo-nos continuar a trazer outras fontes da época e os acontecimentos vistos por outros intervenientes. Para concluir propomo-nos elaborar uma bibliografia detalhada sobre os acontecimentos, desde a época até aos nossos dias.

A.A.B.M.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - UM TESTEMUNHO "SUSPEITO" (PARTE II)


Continuando a trazer à luz do dia o conjunto de artigos publicados por Aquilino Ribeiro, na Seara Nova, intitulados O Regicídio e os Regicidas. Neste caso, um artigo públicado no número 6, de 14 de Janeiro de 1922, sobre o Alfredo da Costa.

Dizia Aquilino Ribeiro:

[...] Foi no corrente de 1906 que R. P. [personalidade ligada à Carbonária que Aquilino não identifica - nota nossa] apresentou no Gelo esse rapaz de vinte e oito anos, alto, desengonçado de corpo, duma fisionomia séria, quase triste, a que ninguém ligou importância. Grandes olhos castanhos, lentos a mover-se, com uma fixidez por vezes de desvario, um nada de bardba loura no queixo, o nariz levemente amolgado sobre a esquerda. Provavelmente uma tuberculose descurada, que traiçoieiramente seguisse caminho, achatara-lhe o torax, aguçando-lhe os ombros e imprimindo-lhe já às costas uma quebratura perceptível. [...]

Alfredo da Costa foi este homem, lançado para a a cidade da sua aldeia alentejana, e que, dobrando-se sobre si, batido dos baldões, "se viu a marchar". Atrás, todo o atavismo da alma popular, opressões, tristeza, fatalismo, mansidão. Pela frente, o torvelinho do século, luz e sombras, ideias confusas, ideias desordenadas, ideias; a vida com as suas facetas; o homem em todos os seus planos.

Educou-se como pôde, que mais não foi do que abrir os olhos ao que via e tratar de compreender. Tudo o que era imediato recebeu-o; tudo o que era bradado alto, ouviu-o. Nada mais receptivo que a simplicidade do camponês; nada, ao mesmo tempo, que mais precise de síntese. Para a improvisação intelectual de Costa,a revolução prégada em 1906-1907 devia ser o fecho de abóbada, a ideia adequada. [...]


O seu republicanismo acabara por tornar-se exclusivamente num estado de consciência, soberano e despótico. Não lhe faltava nada para carrasco ou herói; coragem, decisão, porque não duvidava, o fanatismo que existe sempre que acima do espírito de flora paire um só pensamento.

Em Angra do Heroísmo fundou um jornal para defesa da classe dos empregados do comércio, e tão bem conduziu a campanha das suas reivindicações que, ao cabo de tempos, vigorava ali o repouso hebdomadário. Em 1903, em Extremoz, fez intensa propaganda republicana e daí começou a colaborar nos jornais de classe da capital, sempre o mesmo homem de fé e de dedicação sem limites. Foi caixeiro viajante, e presidiu à Associação dos Empregados do Comércio de Lisboa. Depois, mediante um pequeno capital, emprestado por mão amiga, fundou uma vaga empresa de livraria, A Editora Social, onde foram editados alguns folhetos contra o regime.

Encetou ainda a publicação em fascículos, distribuídos aos domicílios, dum romance de índole popular: A Filha do Jardineiro. Nele se pretendia aproveitar a voga duma quadra que ainda hoje corre pelas aldeias em que se recorda um pecado ou suposto pecado da juventude de D. Carlos. Os seus autores F. R. [siglas que escondiam nomes de figuras públicas que não queriam ser reconhecidas], um que já foi ministro da República e outro que assentou banca de publicista [alguns autores apontam o próprio Aquilino Ribeiro], propunham-se sob pseudónimo de Miguel Mirra agitar as multidões e atraí-las ao credo republicano. Apenas vieram a lume três capítulos. Nesta empresa embrionária e mal sucedida consumiu Costa o seu pecúlio, que não era muito. [...]


A 30 de Janeiro [1908], dia em que foi assinado o decreto da proscrição pura e simples, Alfredo da Costa, teve um encontro com o oficial da marinha, M. da C. [provavelmente Marinha de Campos] que lhe disse:
-Matem João Franco e dou-lhes a minha palavra que a revolução sai para a rua. A marinha e infantaria da marinha só esperam um sinal.
Costa busca reunir um bando de homens capazes. Furtam-se todos. [...]


Nos próximos dias concluiremos este conjunto de artigos, com muita informação sobre os regicidas e o regicídio que, certamente alguns estudiosos julgaram interessante e oportuno, enquanto alguns dos nossos ledores nunca teriam ouvido falar.

A.A.B.M.

A MORTE DO REI CARLOS


A Morte do Rei Carlos [O Mundo, 24-02-1910]

Capa do jornal O Mundo de 24 de Fevereiro de 1910:

«A Morte do Rei Carlos. Factos e documentos comunicados aos homens de bem de todos os países

Ai d’aqueles que só pela violencia e pelo terror se podem manter’ (Carta do Rei Carlos a Hintze Ribeiro em 16 de Maio de 1904»

J.M.M.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - UM TESTEMUNHO "SUSPEITO" (PARTE I)



A propósito do acontecimento que temos vindo a dedicar alguma atenção nos últimos tempos e face à leitura dos acontecimentos proposta pela série televisiva O Dia do Regicídio, apresentaremos nos próximos dias algumas propostas de leitura, mais ou menos conhecidas, acerca do evento em causa.

No ido ano de 1921, escreveu Aquilino Ribeiro, na recém fundada revista Seara Nova, um conjunto de artigos, que, pensamos, terá ficado inacabado. Este conjunto de artigos intitulava-se O regicídio e os regicidas e, do primeiro, publicado no número quatro, da revista supra-referida, datado de 5 de Dezembro de 1921, afirmava acerca do seu amigo, compadre e "primo":

Era Manuel Buiça dos mais assíduos frequentadores do Gelo, esse café todo arrumado a meio do Rocio tumultuário, que, não obstante o berrante das fardas, conserva um ar todo plácido de botequim provincial. As suas horas, nas meias manhãs preguiçosas de Lisboa, quando, tão lentas e doces, os senhores burocratas vão por aí abaixo mais brandos que liteira, ou à noite, depois do jantar, Buiça era certo à mesa branca do Gelo, na parte que olha a R. do Príncipe, um cálice de cognac à frente, escrevendo cartas ou cavaqueando alto com amigos ou próximos [...]

Note-se a caracterização física e psicológica que Aquilino fazia sobre Buiça:

Curioso este tipo de português, vindo do Norte, da parte mais resistentemente nacional, godo que aflorasse na linha longa das gerações, genuíno, inquieto e batalhador como a flor estreme da raça. De corpo, era um homem de estatura meã, rosto fino, tez branca que mais realçava a barba preta com tons de fogo, na qual as suas mãos tinham o vício de passear-se, de embrenhar-se, quando a cólera o tomava ou ouvia alguém do seu agrado. A testa era longa, com as arcadas superciliares marcadas sem demais, as linhas fisionómicas duma delicadeza que, fóra das mulheres, desagrada. A aparência, toda ela de franzino, mascarava-lhe inteiramente um génio assomadiço e a coragem que não era lenta nem jamais foi receosa a medir-se. Parecia um delicado, destes homens para produzir os quais a vida das cidades esculpiu sobre a carne de gerações e gerações, desengrossando, limando, amaneirando, e era uma planta vivaz das serras. Só os olhos muito móveis e azues, mas sem fereza, traíam nele o ânimo expeditivo e a índole que, além de resoluta, era exaltada. Os seus modos espalhafatosos seriam detestáveis se não houvesse a contrabalançá-los uma grande e sincera franqueza, da mesma forma que "aquele dar-se todo" torna-lo-ia suspeito se o seu carácter se não descobrisse até os planos mais remotos. Mais que a identidade de ideias haviam-no imposto ao grupo revolucionário do Gelo, que paradoxalmente via o mundo através de Nietzsche e dos pensadores russos, haviam-no imposto aquelas virtudes do homem instintivo, generosidade, espontaneidade, poder de estimar e admirar, ao contacto dos quais o homem de pensamento se desvanece.[...]

A sua cultura literária não era também comum. Professor do Colégio Moderno, dava-me a impressão de ter uma inteligência lesta, assimilando sem esforço, mas também sem perdurabilidade. Tinha, no entanto um sentimento bastante largo da vida que nas horas de excitação costumava traduzir pelos baixos epifonemas dum pessimismo exagerado.[...]

Era isto tudo, galante, franco, liberal, corajoso, blasonador, incoerente muitas vezes, parlapatão mais duma, sem equilíbrio na vida, sem disciplina moral, uma ou outra anomalia medrando a meio de sentmentos que, além de ser puros, pareciam ser inibitórios. Assim, Buiça, que era um pai extremosíssimo, se não exacto, presando a sua mulher e tendo pelos filhos uma adoração sem limites, a pontos de tresnoitado ou embriagado, o que sucedia por vezes, se não poder deitar sem os beijar e se abraçar neles, mantinha correspondência de amor com uma menina de Lisboa. [...]

[Na foto: o Café Gelo, em Lisboa, nos inícios do séc. XX, um dos lugares de conspiração mais em destaque na época. Por lá passaram os regicidas, carbonários e maçons que trabalhavam para derrubar a Monarquia. In Arquivo Fotográfico com a devida vénia.]

A.A.B.M.