segunda-feira, 14 de setembro de 2009

III CONFERÊNCIA MAÇÓNICA PORTUGUESA NA FIGUEIRA DA FOZ



A III Conferência Maçónica Portuguesa, realizou-se na Figueira da Foz, entre 14 e 16 de Setembro de 1906.

Como se pode observar, pelos temas abordados e pelos palestrantes que intervieram, existia uma crescente republicanização da Maçonaria Portuguesa. Os temas tinham cada vez mais uma feição politizada, embora sempre de acordo com os ideiais da Maçonaria na época. Note-se a tese sobre o pacifismo - tema muito caro a Sebastião de Magalhães Lima; ou ainda, a tese sobre a necessidade de efectivação do Registo Civil em Portugal, temas polémicos, mas que a Maçonaria procurava difundir entre os seus sócios.

Apresentaram-se oito teses principais:

1 – Valor científico das doutrinas pacifistas, por Magalhães Lima;
2- A Mendicidade, por Joaquim da Silva Cortesão [Galeno]
3- Acção da Maçonaria, por Feio Terenas;
4 – Definição de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, por Agostinho Fortes;
5 – Efectivação do Registo Civil em Portugal, por Manuel Gomes Cruz, [Lassale];
6 – Admissão da Mulher às profissões liberais, por David José da Silva;
7 – O Clericalismo, por Heliodoro Salgado
8 – A Maçonaria e as condições histórico-políticas dos povos, por Agostinho Fortes.

Esta Conferência Maçónica contou também com a presença de Sebastião de Magalhães Lima e Bernardino Machado.

A.A.B.M.

sábado, 12 de setembro de 2009

MANUEL JORGE FORBES DE BESSA



Nasceu em 24 de Agosto de 1864, na freguesia da Cedofeita, concelho do Porto. Seus pais eram Joaquim de Bessa Pinto e Maria José Rodrigues Bessa. Foi baptizado em 19 de Setembro de 1864, casou em Outubro de 1887 com Mariana Ventura dos Santos Reis.

Estudou Direito em Coimbra, tendo concluído o seu curso em 1889.

Concluindo os seus estudos exerceu actividade como advogado, granjeando reputação por toda a região norte. Foi presidente da Câmara Municipal de Matosinhos.

Aderiu ao Partido Republicano durante as convulsões provocadas pelo Ultimato Inglês de 1890. Foi membro substituto do Directório do partido entre 1897 e 1899.

Com a cisão do Partido Republicano, Forbes Bessa alinha com Manuel de Brito Camacho, na União Republicana.

Desenvolveu importante papel na propaganda republicana na fase final da Monarquia, em especial no Norte do País. Com a implantação da República foi eleito deputado às Constituintes de 1911 e permaneceu como deputado até 1915. Durante esse período foi eleito pelo círculo de Vila Nova de Gaia. Foi o primeiro presidente eleito da Câmara dos Deputados.

Quando foi eleito deputado, a Associação Comercial e Industrial de Matosinhos, solicitou os seus préstimos para avançar rapidamente na concretização do Porto de Matosinhos.

Sendo eleito senador em 1918/1919, pelo círculo do Douro, nas listas do Partido Nacional Republicano (PNR), exerceu as funções de presidente da Câmara dos Senadores. Foi ainda chamado, no período do sidonismo a desempenhar as funções de ministro de Portugal junto da Santa Sé. Foi ainda secretário da Presidência da República durante a ditadura de Sidónio Pais. Integrava a comissão distrital do Porto do PNR e o directório do mesmo partido.

Foi iniciado na Maçonaria na Loja Independência, do Porto, com o nome simbólico de Passos. Transitou nesse mesmo ano para a Loja Obreiros do Progresso.

Faleceu a 17 de Julho de 1934, em sua casa, em Matosinhos, com 69 anos.

A.A.B.M.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

COLÓQUIO MEMÓRIA, HISTÓRIA E JUSTIÇA


O Centro de Estudos Sociais (CES) da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, vai levar a efeito nos próximos dias 15 e 16 de Setembro um colóquio internacional subordinado ao tema em epígrafe.

Ao longo de dois dias vão discutir sobre a memória da violência nas sociedades contemporâneas, conforme se pode ler na apresentação:

A questão da memória da violência e dos modos de relação com o passado que ela permite estabelecer tornou-se um dos temas centrais da reflexão contemporânea. Uma das facetas fundamentais desta reflexão diz respeito a países saídos de ditaduras e à difícil procura de critérios de justiça individual e colectiva. O colóquio, organizado em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais, o CES – América Latina e a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (Brasil), irá oferecer um espaço interdisciplinar de discussão sobre esta temática, a partir de contributos de investigadores portugueses e brasileiros.

A inscrição no colóquio processa-se online Aqui.

O programa completo do colóquio pode ser consultado Aqui.

Mais uma actividade que o Almanaque Republicano divulga junto dos seus ledores.

A.A.B.M.

ALMANAQUE REPUBLICANO


Almanaque Republicano: Édito

"Coexiste comigo muita gente que vive comigo apenas porque dura comigo" [F. Pessoa]

"O Almanaque Republicano é um álbum onde se vai perfilar uma geração sonhadora, generosa e messiânica, que é afinal o nosso costumado fadário, o nosso "eterno retorno". Da República de 1891 e da outra de 1910 há uma imensa viagem de encantos e desencantos, de "coisa esquecidas e mortas", um itinerário de bondade, pessimismo, ironia e sarcasmo. Há nele todo um movimento que "carecia de alma", como diria Pascoes. Essa Alma Republicana, seja ela qual for, será sempre essa jornada emotiva e social, espiritual e libertária, de encantos e desencantos vários, crença ou saudade do Encoberto, reformadora e socialista, liberal e popular, que da decadência à regeneração marcam para sempre o "espírito lusitano". A "Nova Era" redentora, quer fosse construída no cantar antiquíssimo da Renascença Portuguesa ou ressurgida pela demanda da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, ou intencional na exaltação da luta pela emancipação das classes trabalhadoras e em redor do movimento operário e sindical, não deixa de ser, sem dúvida alguma, um dos momentos mais interessantes da história da sociedade portuguesa contemporânea. Afinal, "Ubi libertas, Ibi Patria".

Sitio de passagem e de euforias públicas, jornada de mil caminhos que o tempo percorreu, o Almanaque Republicano é um panfleto aberto e frontal da Alma Republicana ...
" [Daqui]

Fazemos saber, em canto de reimpressão, o nosso antigo e aceite Édito com que abrimos e instalámos o Almanaque Republicano. Esta confraria de Homens Livres tem vindo a publicar memórias e testemunhos bio-bibliográficos em homenagem & invocação da Grande Alma Republicana. E asseguramos: “aqui se escreverão novas histórias”. Tal como o vate Camões disse e nós, em humílimo préstimo, pretendemos regularizar.

Por estarmos (quase) a entrar nas celebrações do Centenário da República renovamos tamanha viagem “aos homens de novo nascidos”. Até porque o futuro será sempre, para nós, a duração iluminada do nosso passado.

Valete Frates!

J.M.M.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

EFEMÉRIDES DE SETEMBRO



Dia 1
- 1863: Nasce o jornalista e ministro da República, João Chagas.
- 1890: Publica-se no Porto o primeiro número da República Portuguesa, dirigido por João Chagas.

Dia 2
- 1909: O membro do Directório do Partido Republicano, José Barbosa, realiza uma conferência de propaganda no Centro Republicano de Belém.

Dia 3
- 1883: Nasce, em Damão, António Sérgio, ensaísta, crítico e pedagogo.
-1888: Morre, em Lisboa, Francisco Joaquim Rebelo Alves Correia, sendo sepultado civilmente por sua expressa vontade.
-1909: Publica-se o primeiro número do semanário republicano O Povo de Felgueiras.

Dia 4
- 1886: Decreto do Grande Oriente Lusitano Unido abatendo ao seu quadro a Loja Cavalheiros de Urania, de Lisboa.
-1909: Em Portugal organiza-se um movimento de protesto contra a prisão de Francisco Ferrer.

Dia 5
- 1909: Comício anticlerical em Aldeia Galega, presidido pelo Dr. Miguel Bombarda.
- Na Amadora realiza-se uma sessão solene para se instalar um centro republicano.
- Excursão republicana ao Bombarral;
- No Centro Republicano Bernardino Machado realiza-se uma manifestação de protesto contra a prisão de Francisco Ferrer.

Dia 6
- 1888: Morre em Peniche o republicano José Ricardo.
- 1899: Nasce, em Guimarães, Emídio Guerreiro, professor, republicano, político oposicionista ao Estado Novo e maçon.
- 1908: Comício republicano no Bombarral onde discursam Bernardino Machado, João Chagas, Magalhães Lima entre outros.

Dia 7
- 1891: O cabo da Guarda-fiscal do Porto, Alfredo Manuel Salomé, condenado a prisão devido à participação na revolução de 31 de Janeiro.
- 1900: Sai o primeiro número do diário republicano O País, em substituição da Pátria, dirigido por França Borges.
- 1909: É divulgada a notícia de que Francisco Ferrer iria ser julgado militarmente.

Dia 8
- 1881: Constitui-se em Lisboa a Associação Republicana Teófilo Braga.
- Comício, no Porto (Miragaia), onde o Dr. Emídio Garcia apresenta o programa do partido republicano.
- 1909: Realiza-se em Lisboa a primeira sessão do Congresso Sindicalista e Cooperativista.

Dia 9
- 1900: Grande comício em Lisboa contra as ordens religiosas.
- 1902: Morre, em Lisboa, António Maria de Brito, membro do Grande Oriente Lusitano Unido.
- 1908: O director da República é condenado, por delito de imprensa, a 180 dias de multa à 1$200 réis por dia, fora as custas de selo e de processo.
- 1909: Comício público em Coimbra contra a prisão de Ferrer.

Dia 10
- 1888: Morre, na Ilha Terceira, o Dr. Manuel Joaquim Nunes, cujo funeral se realiza civilmente.
- 1900: Sai o primeiro número da Lanterna, dirigida por França Borges.
- 1909: Realizam-se em Lisboa várias sessões de protesto contra a prisão de Ferrer.

Dia 11
- 1876: Filiação do editor François Lallemant, fundador da Loja Cosmopolite, de Lisboa, na Loja Simpatia da mesma cidade, produzindo um brilhante discurso que foi publicado no Boletim do Grande Oriente Lusitano Unido, de Outubro.
- 1884: Nasce, no Porto, Alexandre Vieira, operário tipógrafo e jornalista.
- 1909: É encerrada a subscrição iniciada pelo jornal O Mundo, para acorrer aos desalojados pelo terramoto de Benavente, que recolheu 2910$035 réis.
- Os deputados republicanos, Brito Camacho e João de Menezes, abandonam a sala de sessões do Parlamento em protesto contra as violências monárquicas.

Dia 12
- 1909: Excursão republicana a Abrantes onde se realiza um comício.

Dia 13
- 1865: Nasce em Castanheira de Pêra o Dr. Augusto Barreto, médico em Cuba.
- 1877: Morre, em Santa Maria da Azóia, Alexandre Herculano, escritor, historiador e liberal.
- 1885: Nasce, em Sernancelhe, Aquilino Ribeiro, escritor e jornalista.
- 1908: Sessão de homenagem à memória de Heliodoro Salgado, no Centro Republicano das Mercês, em que tomam parte Bernardino Machado, Alberto Costa, José do Vale, Sá Pereira e Augusto José Vieira.
- Sessão idêntica realiza-se no Centro Democrático do Socorro.

Dia 14
- 1856: Nasce o poeta operário Joaquim dos Anjos.
- 1906: Início da Conferência da Maçonaria Portuguesa , na Figueira da Foz.
- 1909: Morre o operário tipógrafo Júlio Eustáquio dos Santos, republicano e livre-pensador.

Dia 15
- 1906: Decorrem na Figueira da Foz os trabalhos da Conferência da Maçonaria Portuguesa.

[Nota Biográfica Breve: Francisco Ferrer y Guardia nasceu em 14 de Janeiro de 1849. Afirmou-se pelas posições anticlericais que o conduziram ao exílio em Paris. Professor, desenvolveu um conjunto de conceitos educativos que o levaram à fundação de uma corrente pedagógica denominada Escola Moderna. Fundou a Liga Internacional para a Educação Racional da Infância. Foi preso em Setembro de 1909, o que levou a alguma contestação internacional para a sua prisão e acabou por ser executado na prisão de Montjuich, em 13 de Outubro de 1909. Exerceu alguma influência no pensamento pedagógico dos republicanos portugueses.]
A.A.B.M.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

FUNDAÇÃO MANUEL VIEGAS GUERREIRO


Hoje, pelas 19 horas, vão ser inauguradas as novas instalações da Fundação Manuel Viegas Guerreiro, com a presença de Sua Excelência, o Senhor Presidente da República, Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva.

Esta fundação que se situa em Querença, concelho de Loulé, instituída por escritura celebrada em 11 de Abril de 2000 no Cartório Notarial de Loulé e reconhecida pelo Governo através da Portaria n.º 1334/2004 de 23 de Dezembro, é uma pessoa colectiva de direito privado, visando fins de utilidade pública.

Com sede em Querença, terra natal do Patrono, tem como fim contribuir e promover a todos os níveis o desenvolvimento cultural, social e económico do Algarve, através de grandes eventos culturais e artísticos, bem como dinamizar e promover a investigação, com particular relevo para as áreas de natureza social e ambiental.


Esta instituição procura fomentar:
- Apoiar e incentivar os estudos científicos das ciências sociais;
- Desenvolver os estudos do patrono da fundação no âmbito da etnografia, apoiando publicações e estudos;
- Organização de eventos culturais;
- Realizar ou promover cursos de formação;
- Promover acções de investigação quanto aos factores naturais e ao estudo do impacto das acções humanas sobre o ambiente;
- Desenvolvimento cultural, social e económico do Algarve


Uma instituição de índole cultural e ambiental que já tem desenvolvido um trabalho interessante de organização e apoio a actividades de culturais e ambientais.

Partindo da doação de parte da biblioteca pessoal que tem vindo a ser reunida pelo Eng. Luís Guerreiro sobre o Algarve, esta instituição torna-se um marco importante na região algarvia para os investigadores e interessados na história e cultura do Algarve. Além disso, a fundação pretende criar um Centro de Estudos Algarvios.

Sobre este evento vejam-se as notícias que encontramos Aqui ou Aqui.

Uma sessão a acompanhar com todo o interesse.

A.A.B.M.

terça-feira, 18 de agosto de 2009


JOÃO FIEL STOCKLER (Parte II)

Considerado um benemérito da Pátria, ao abrigo da lei de 30 de Abril de 1921.

Por decreto de 1 de Maio de 1925 foi nomeado para o cargo de Secretário do Conselho Superior de Disciplina da Armada.

Bibliófilo e coleccionador, juntou uma biblioteca que foi vendida à Livraria Morais e depois colocada em leilão, com o objectivo de se angariar fundos para um prémio monetário com o seu nome que ainda actualmente existe na Escola Naval. No prefácio do catálogo, assinado pelo camilista Dr. Júlio Dias da Costa, refere-se : “Stockler coleccionava as publicações da Grande Guerra, os inúmeros livros e folhetos que os aliados distribuíam, e dava-lhe quantos recebia, e não poucos eram”. Na sua biblioteca era possível encontrar para além de muitas obras sobre marinha, mas também livros de arte e valiosas edições de clássicos entre as quais o prefaciador salientava O Caleche, O Juízo Final, as Inspiraçoens, o Matricídio sem exemplo e primeiras edições de Carlota Ângela, da Caveira da Martyr e do Marquez de Torres Novas, bem como o Summario, de Cristóvão Rodrigues de Oliveira. O catálogo era constituído por um total de 1006 volumes, que foram a leilão em Novembro de 1929, promovido pela Livraria Moraes, mas que decorreu na Casa Liquidadora, em Lisboa.

Tinha as seguintes condecorações:
- Cavaleiro da Real Ordem de São Bento de Aviz;
- Medalha Militar de prata da classe de comportamento exemplar;
- Comendador da Ordem Militar de Aviz;
- Medalha de ouro comemorativa das campanhas do exército português Moçambique. 1914-1918;
- Medalha da Vitória.

Louvores:
- Foi louvado pelo comandante da Divisão Naval do Índico, pela sua acção como comandante do vapor Batista de Andrade, pela sua coragem e dedicação, pelo seu extenuante trabalho durante o período em que o navio esteve sob a acção da monomocaia (desde 19 de Fevereiro de 1906).
- O Ministro da Marinha concedeu-lhe também um louvor pela dedicação e energia aquando do levantamento do Baixo de Pinda também em 1906.

Pertencia à Maçonaria.

Faleceu a 24 de Maio de 1925.

A propósito do seu falecimento, veja-se o que afirmaram no Parlamento, à época dos acontecimentos:

[Discurso de Ginestal Machado]

Não me leve V. Exa., Sr. Presidente, a mal, nem o pode estranhar a Câmara, como não estranharia o próprio espírito do João Chagas, se pudesse baixar até à terra e vir a entre nós, que eu desde já associe o faça envolver na mesma homenagem um outro republicano não menos dedicado, e que foi também incluído entre os nomes por V. Exa. enumerados: refiro-me ao capitão de fragata João Fiel Stockler.
Se João Chagas foi o apóstolo da República, Fiel Stockler pertenceu àquele grupo do oficiais da nossa heróica marinha do guerra, que em 5 de Outubro fizeram com que a República deixasse de ser um ideal apenas para se tornar numa realidade
.

[Discurso de Ernesto Sá Cardoso]

Além da homenagem a prestar a João Chagas, quero ainda dizer algumas palavras sobre Fiel Stockler.
Fiel Stockler era um revolucionário de 5 de Outubro, e dos mais distintos.
Quando ontem se foi prestar homenagem a João Chagas, ladeavam o seu cadáver os revolucionários de 31 de Janeiro e de 5 de Outubro. Se Fiel Stockler fôsse vivo, de incorporar-se-ia no préstito para dar a João Chagas o seu último adeus.
Sr. Presidente: os revolucionários de 5 de Outubro, com Fiel Stockler à fronte, têm naturalmente direito ao nosso reconhecimento; e, por consequência, pela morte deste distinto oficial que foi um brilhante ornamento da armada portuguesa, a Acção Republicana não podia deixar do se associar, e com pesar ao voto de sentimento proposto por V. Exa.
Segue-se o Sr. Campos Melo, que foi nosso colega, nesta Câmara, ocupando a extrema esquerda.
Creio que a Câmara conserva a mais grata recordação da sua companhia e não é, portanto favor, antes é um acto de justiça. associarmo-nos ao voto de sentimento proposto pela sua morte.
[Sessão de 1 de Junho de 1925, p. 17]

[Vitorino Guimarães]
O Governo não conhecia a situação em que se encontrava a mãe desse grande militar e prestimoso cidadão.
Soube depois que essa proposta seria apresentada por parte dos seus correligionários, e, assim, o Governo entendeu que não devia antecipar-se, deixando, por isso, aos amigos políticos do falecido a satisfação, que certamente teriam, de que essa proposta fosse enviada para a Mesa por esse lado da Câmara.
Foi essa a única razão por que a proposta não foi apresentada pelo Governo, mas, nós fazemo-la nossa, e, procedendo assim, pena é que seja esta a única homenagem que podemos prestar a esse grande republicano, que foi o comandante Stockler. (…)
Devo dizer que é com profunda mágoa que o dever me impõe fazer oposição à proposta do Sr. Ginestal Machado, e digo com profunda mágoa, porque o Sr. comandante João Fiel Stockler foi meu condiscípulo e a ele me ligaram relações de muita e sincera amizade.
Sinto muito e muito a sua morte.
Tenho muita saudade dos tempos em que juntos andávamos, e não há nada para mim mais penoso, desde que se trata de votar uma pensão para a mãe de João Fiel Stockler, do que não poder dar-lhe o meu voto.
Mas S. Exa. era um oficial de marinha, e, nessa qual idade, tinha seguramente o seu montepio.
Não vejo, portanto, razão para só continuar o péssimo sistema de se concederem pensões às famílias daqueles que morrem simplesmente pelo facto de terem feito parte de uma revolução
.

[Sessão de 1 de Junho de 1925, p. 28]

Realizou/Publicou:

- Reconhecimento hydrográphico da barra do rio Meige (Kinga) [ Material cartográfico : província de Moçambique / Commissão de Cartografia ; levantado sob a dir. de Joäo Fiel Stockler, Escala 1:5000, [Lisboa] : C.C., 1903, 1 carta : imp. em papel ; 29,80x39,00 cm em folha de 33,20x54,00 cm; [Levantado em 1901 pelos guarda-marinhas da canhoneira Liberal sob a direcção do 2º tenente João Fiel Stockler] Pode ser visualizada Aqui.
- Reconhecimento hydrographico de Porto Velhaco [ Material cartográfico : Namalungo : província de Moçambique / Comissão de Cartographia ; levantado por Joäo Stockler e José Torres, Escala 1:15000, Lisboa : C. C., 1908, 1 carta : imp. em papel ; 39,30x34,40 cm em folha de 43,80x41,20 cm
- Catálogo da biblioteca que pertenceu ao ilustre oficial de marinha João Fiel Stockler / pref. do Dr. Julio Dias da Costa, Lisboa, Livr. Moraes, 1929;

Sobre esta personalidade ver ainda:
-FERREIRA, Raúl César, O comandante João Fiel Stockler, Lisboa : Imprensa da Armada, 1930;
- CABEÇADAS, José Mendes, “Capitão de Fragata João Fiel Stockler”, Anais do Club Militar Naval, Tomo LVI, nº 4, 5 e 6, Abril, Maio e Junho de 1925, Lisboa, 1925, p. 94-101.
- - MARQUES, A. H. Oliveira (Coord.), Parlamentares e Ministros da 1ª República (1910-1926), Col. Parlamento, Edições Afrontamento, 2000.
- SANTOS, Machado, A Revolução Portuguesa. 1907-1910, Assírio & Alvim, Lisboa, 1982.

A.A.B.M.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009


JOÃO FIEL STOCKLER (Parte I)
Nasceu a 7 de Setembro de 1876 no Monte da Caparica, Almada, filho de Miguel Stockler e Carolina Canelhas Stockler.
O pai de João Fiel Stockler, tinha um estabelecimento comercial em Lisboa, onde se realizaram importantes reuniões de preparação para a revolução republicana.

Alistou-se como voluntário na Armada em 31 de Outubro de 1892. Seguiu a carreira da Marinha, realizando as promoções a guarda-marinha (30-10-1895), segundo tenente (28-07-1898), primeiro tenente (11-07-1910), capitão-tenente (05-10-1910) e capitão de fragata (29-08-1917). Comandou diversas embarcações da marinha de guerra portuguesa e efectuou comissões de serviço em diversos pontos do País e nos antigos territórios ultramarinos portugueses, em especial no Oriente (Moçambique e Índia).

Em 1908, João Fiel Stockler foi transferido da canhoneira Lagos, onde era imediato, e transitou para a corveta Duque de Palmela, onde passou a exercer as funções de instrutor da Escola de Alunos Marinheiros do Sul. Em 1915, já capitão-tenente, era comandante do cruzador República, que naufragou ao lago da praia da Consolação, em Peniche, tendo sido julgado em conselho de guerra onde foi absolvido. Desempenhou depois as funções de secretário do Conselho Superior de Disciplina da Armada em 1916. No ano seguinte, foi exonerado do comando do vapor Moçambique e foi nomeado para servir na Índia, onde assumiu o comando dos portos daquele antigo território português, onde permaneceu entre 1917 e 1923. Foi depois nomeado primeiro comandante da Escola de Recrutas da Armada entre 1923 e 1924.

Desempenhou missões para outros ministérios, destacando-se a acção desenvolvida para a Direcção Geral das Colónias.

Foi um dos principais organizadores da Carbonária no Algarve no período prévio à implantação da República, mas encontrava-se já em Lisboa quando se iniciou a revolta que conduziu à implantação da República. Desempenhou um papel importante nos acontecimentos da noite de 4 para 5 de Outubro de 1910, conforme o refere Machado Santos no seu relato dos acontecimentos.

Foi eleito deputado à Assembleia Nacional Constituinte pelo círculo de Faro, em 1911. Em 1912 foi nomeado para fazer parte de uma comissão técnica para requisição de navios. No ano seguinte, foi nomeado para a comissão encarregue de estudar a reorganização da Escola Prática de Artilharia Naval e indicar o local mais apropriado para a instalação da Escola de Torpedos.
Por despacho de Setembro de 1916 foi nomeado para o cargo de Secretário Superior de Justiça da Armada.

Quando esteve na Índia, foi nomeado para presidir à comissão encarregue de proceder ao estudo do plano geral das obras a realizar com a rede de canais de irrigação, melhorar os canais de navegação e construir e reparar desembarcadouros. Foi ainda nomeado pelo Governador Geral da Índia, Director do Museu de Arte Religiosa, que setinha criado no Convento do Bom Jesus. Foi também nomeado a exercer as funções de vice-presidente do Conselho do Governo do Estado da Índia. A seu pedido, foi exonerado do cargo de Presidente da Comissão Administrativa da Casa da Misericórdia de Goa, tendo recebido um louvor pela forma criteriosa e dedicada como desempenhou as suas funções.

[Em continuação]

Nota: Um particular agradecimento ao Prof. Doutor António Ventura pela cedência da fotografia que apresentamos.

A.A.B.M.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

LIGA DE UNIÃO E DE ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA


Comunicado da Liga de União e de Acção Revolucionária

"O Conselho Superior da LUAR comunica:

A nossa Pátria, subjugada por um regime corruptor e corrompido onde o civismo dificilmente se pode manifestar e onde parece que os homens aceitaram a resignação como condição ingénita da vida, foi atirada para o último lugar da hierarquia das nações europeias.

Um povo iletrado, com um nível de vida inferior que não permite assegurar a dignidade humana, defronta-se, quase exclusivamente, com as preocupações de sobrevivência, do dia-a-dia.

Um povo expulso da Pátria para um exílio forçado, com miragens em possibilidades económicas obtidas à custa de um labor exaustivo, mortifica-se com saudades da Pátria, dos amigos e dia família.

Um povo aterrorizado por uma repressão policial desumana, sem possibilidade de usufruir dos direitos mais elementares de cidadania, aviltado pelo medo, só espera, com ansiedade, o momento de poder recuperar a dignidade dos homens livres.


Uma Pátria exaurida por uma guerra colonial sem perspectiva de vitória militar, fomentadora de baixos sentimentos raciais, que envilecem a dignidade do homem português, e para a qual o salazarismo não encontra solução. Já nem sequer tem legitimidade para invocar o seu passado .histórico. E, como se fora uma maldição social, os democratas vêem-se dominados por um cepticismo deletério e que parece buscar uma justificação na atomízação política das diversas correntes oposicionistas, já que estas nem sempre souberam pôr os interesses do povo português acima dos interesses pessoais ou de partidos.

A LUAR surgiu desta trágica conjuntura, como uma afirmação vigorosa de insubmissão à impotência revolucionária, manifestada pelas várias organizações políticas da oposição ao regime vigente.


2.º Não se trata de mais um partido político, absorvido por querelas estéreis, atarefado em proselitismos completivos de estados-maiores sem tropas, compensatórios de uma inacção revolucionária.

A LUAR é uma organização revolucionária, com uma nova concepção de luta com métodos novos e com homens novos.

A LUAR não é uma organização terrorista, mas antes considera o terrorismo como inoperante e susceptível de justificar a repressão já tão brutal da famigerada PIDE.

A LUAR é uma organização democrática, antifascista, que abre os braços a todos os portugueses que desejem destruir, com armas na mão, o regime infame de Salazar.

A LUAR é, antes de tudo, uma organização para a acção, que polarizará as energias dos democratas, expressamente para a luta irrefreável pela liberdade do povo português.

A LUAR pretende estabelecer uma ordem autenticamente democrática, com liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade de reunião, liberdade de organização sindical e de partidos políticos.

A LUAR eliminará o parasitismo dos magnatas, dos potentados financeiros e económicas e porá o poder político e económico ao serviço da promoção social dos produtores da riqueza nacional.

A LUAR destruirá as causas económicas e sociais que estão na origem dos antagonismos das classes e estruturará uma sociedade humanamente mais justa.

A LUAR mobilizará, para atingir o seu escopo revolucionário, os democratas corajosos e patriotas, sem distinção de ideologias, que põem acima de tudo os direitos inalienáveis do povo e da Pátria.

A LUAR e as suas forças armadas desencadearão a luta insurreccional, com a cooperação do Exército, da Marinha e da Aviação, no que têm de mais puro e de mais patriótico, e com o apoio eficaz e efectivo do povo português.

Viva a insurreição armada que libertará a Pátria Portuguesa.

Viva Portugal!
"

COMUNICADO DA LUAR lido em pleno Parlamento [11 DE FEVEREIRO DE 1976] por Emídio Guerreiro - ler tudo AQUI.

J.M.M.

IN MEMORIAM HERMÍNIO PALMA INÁCIO (1922-2009) - Parte III


Palma Inácio está, de novo, no Brasil em 1961, conforme aqui foi dito. E de novo, porque Palma Inácio tinha fixado residência no Rio de Janeiro já em 1955, local onde chega depois de rocambolescas aventuras no decorrer da sua fuga do Aljube. Passou, como dissemos, por Marrocos e depois de ser tripulante a bordo de um cargueiro que fazia a rota entre "Estocolmo, Roterdão e Ostende" [cf. "O aventureiro da liberdade perdida", por Luís Almeida Martins, Visão, 16 de Junho de 1994] prepara a sua "saída" (ou "fuga") para os EUA, quando ingressa na tripulação de outro cargueiro que fazia a "rota do Suez, Extremo-Oriente, Pacífico e Estados Unidos" [id.ibid.], onde chega (1951) em pleno Maccarthismo. Aí trabalha como mecânico de aviões e depois como piloto, porém em 1955 é declarado "ilegal" e, mesmo com o apoio da população local de Northampton (onde residia), tem de sair do país. Com a preciosa ajuda de Lúcio Tomé Feteira, Palma Inácio tem autorização das autoridades brasileiras para seguir para o Rio de Janeiro [id.ibid.]. É, portanto em território brasileiro que vive e trabalha [em companhias de aviação] onze anos, viajando e contactando a oposição do Rio a São Paulo, acompanhando a luta política contra a ditadura.

Refira-se que uma parte significativa da oposição à ditadura de Salazar se encontrava, por motivos óbvios, no exílio [sobre os exilados políticos portugueses, consultar: Misérias do exílio: os últimos meses de Humberto Delgado. Cartas Inéditas. A luta contra o Fascismo no exílio, de Manuel Sertório, 1978; Humberto Delgado, Patrícia McGowan Pinheiro (pseud.), 1998; «Aqui também é Portugal»: a Colónia Portuguesa do Brasil e o Salazarismo, por Heloisa Paulo, 2000; Os "Insubmissos da Colónia", de Heloisa Paulo; A oposição ao Estado Novo no exílio brasileiro, 1956-1975, de Douglas Mansur da Silva, 2006]

Palma Inácio [e o "seu grupo"] entende que "é preciso continuar a levar a cabo acções que chamem a atenção das Forças Armadas e as decidem a empreender o golpe libertador" [Visão, ibid.]. Procuraram, então, "autofinanciamento" ou "recolha de fundos" para as suas acções, no próprio território nacional, marcando deste modo uma "ruptura nos métodos de luta contra o regime", procurando atingir uma "fase superior de luta" que rompesse com o reformismo [cf. João P. Martins & Rui Loureiro, ibid.]. Alguns elementos, do que viria a ser a L.U.A.R. [Liga de Unidade e Acção Revolucionária], fixam-se em França, preparando ao pormenor a denominada "operação Mondego" ["operação Diana", segundo nota da D.G.S.]. E a 17 de Maio de 1967 avançam para o assalto à filial do Banco de Portugal na Figueira da Foz, roubando 30.000 contos. Na espectacular operação, os operacionais cortaram as comunicações telefónicas da Figueira da Foz, fogem num "avião do aeródromo de Cernache" pilotado pelo próprio Palma Inácio, pousando no Algarve, fugindo para Espanha e depois até França [sobre este assunto e as acções posteriores da organização L.U.A.R., consultar, A história da PIDE, ibid., pp. 187-193]

Dos vinte e dois operacionais presumidamente envolvidos na "operação Mondego", segundo o acórdão proferido no 2º Juízo Criminal da Boa Hora [cf. jornal República, 14/02/1970, p. 16], dezasseis foram posteriormente condenados [sete à revelia] e seis foram absolvidos. Foram julgados à revelia e condenados: António Manuel Marques Barracosa (13 anos), Hermínio da Palma Inácio (16 anos), Luís Benvindo (13 anos), Camilo Tavares Mortágua (20 anos), Germano Mateus de Jesus Filipe (8 anos), Júlio dos Santos Alves (12 meses), Mariana Teresa da Conceição Xufre (7 meses). Condenados a prisão maior, Oliveiros Cabrita Gonçalves (6 anos), Ângelo Maria Fernandes Cardoso (7,3 anos), Castor Manuel Ferreira (8 meses), Natália Augusta Fernandes Cardoso (6 meses), Fernando Manuel de Oliveira (8 meses), Joaquim Manuel Nunes de Freitas e Silva (7 meses), Fernando Abel Campino Gandra ( 7 meses), António Luís Teixeira (8 meses), Joaquim da Silva Ramos (3,4 meses).

na foto [?]: Camilo Mortágua, Palma Inácio e Fernando Pereira Marques

[a continuar]

J.M.M.

sexta-feira, 31 de julho de 2009


REVISTA ILUSTRAÇÃO NA HEMEROTECA DIGITAL

Revista Ilustração: "Quinzenário publicado em Lisboa, entre Janeiro de 1926 e Dezembro de 1939, num total de 336 números. Saíram ainda mais 36 números, até 1975, com o propósito de se manter o título da publicação. Foi dirigido por João da Cunha de Eça e, mais tarde, por Artur Brandão, sendo de consulta 'obrigatória' para o conhecimento da época. A Ilustração aborda assuntos extremamente diversificados, como a arte, a literatura, a história, a moda, a situação da mulher, com muitas ilustrações, de artistas de nomeada, como Abel Salazar, Carlos Reis, Emmerico Nunes, Stuart Carvalhaes, Jorge Barradas, entre outros. A colaboração literária é vastíssima, contando com artigos de Lopes de Oliveira, Ferreira de Castro, Ana de Castro Osório, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Jaime Cortesão, Mário Domingues, Teixeira de Pascoaes, entre muitos outros. Ao todo, são cerca de 14.000 páginas, que podem ser relidas aqui, na Hemeroteca Digital. Para saber mais sobre a Ilustração, e sobre o sucesso que alcançou, leia aqui o verbete que a Rita Correia lhe dedicou"

Revista Ilustração 1926-1939Ano I, nº 1 (1 Jan. 1926) ao Ano XIV, n. 336 (16 Dez. 1939).

J.M.M.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

IN MEMORIAM HERMÍNIO PALMA INÁCIO (1922-2009) - Parte II


Era já evidente, para Palma Inácio, que as lutas ideológicas, as "querelas estéreis" e os métodos clássicos de combate à ditadura se tinham esgotado. Para ele e outros, a "inacção militar" não conduzia a lado nenhum e só "uma organização revolucionária, com uma nova concepção de luta com métodos novos e com homens novos" podia levar a cabo o fim da ditadura.

O ano de 1961 e seguintes revelam, a par de uma crise nas estruturas do regime e curiosos desentendimentos entre os seus apoiantes, uma oposição sistemática contra a ditadura, com o aparecimento de vários sectores dissidentes da linha tradicionalista (ou reformista) e que tomam posições, e sobretudo acções, radicais contra o regime ditatorial. De facto, entre 1961-62, os acontecimentos precipitam-se. Como exemplo:

O assalto [21/22 de Janeiro de 1961] e desvio do paquete Santa Maria e então rebaptizado como "Santa Liberdade" [operação Dulcineia, dirigida por Henrique Galvão. Galvão foi um dos militares do golpe de 28 de Maio, mas posteriormente entra em colisão política com Salazar. Tendo sido preso e condenado, conseguiu evadir-se e exilar-se na Argentina – ler AQUI], que humilhou a ditadura; o levantamento da UPA [4 de Fevereiro 1961] e o começo da guerra colonial; a tentativa de "golpe" de Botelho Moniz, então Ministro da Defesa [é de consultar sobre o assunto, "Salazar. Biografia da Ditadura", de Pedro Ramos de Almeida, Ed. Avante1999, pp. 612 e segs]; as pressões internacionais contra o colonialismo português [resolução da ONU de 20 e Abril]; a operação "Vagô" [já referida]; a espectacular evasão de Caxias de importantes militantes comunistas [4 de Dezembro de 1961 – consultar "A História da PIDE", ibidem, pp. 168-169]; a operação militar da União Indiana contra Goa, Damão e Diu [17 de Dezembro]; o assalto ao quartel de Beja [1 de Janeiro de 1962], sob direcção de Varela Gomes e que resulta em penas pesadas para os incriminados (caso de Manuel Serra e Varela Gomes); o início das emissões da Rádio Portugal Livre (Argélia, 12 de Março); a greve académica de Maio/Junho de 1962; a fundação de vários movimentos de libertação das colónias; o aparecimento de novas organizações políticas e militares de combate à ditadura [entre as quais a Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN), que surge em (19) Dezembro de 1962, agrupando diversos grupos (do seu embrião ou "conferência" inicial (em Roma) participam figuras como Piteira Santos, Manuel Alegre, Tito de Morais, Ruy Cabeçadas e Manuel Sertório].

É nesse contexto, entre a luta pelo derrube da ditadura e o combate anti-reformismo, que surgem diversas organizações que se reclamam da luta armada, como a FAP [Janeiro de 1964 – ler AQUI], a LUAR [Liga de União e Acção Revolucionária, 19 de Junho de 1967], a ARA [Acção Revolucionária Armada, criada pelo PCP em 1964 como resposta à cisão de Francisco Martins Rodrigues e ao aparecimento da FAP; teve a sua primeira aparição pública a 26 de Outubro de 1970 num ataque armado contra o navio "Cunene", atracado no Cais de Alcântara – ler AQUI e AQUI – e que foi entendido como uma resposta, antecipada, à ruptura entre a FPLN e o PCP, na base da qual elementos da FPLN criticavam a falta de "verdadeiras acções revolucionárias" armadas de combate à ditadura – cf. As Organizações Armadas em Portugal de 1967 a 1974, de João P. Martins & Rui Loureiro, rev. História, nº18, Abril 1980] e as BR [Brigadas Revolucionárias, com origem numa cisão da FPLN e que teve a sua aparição numa acção de sucesso contra a base (secreta) da NATO da Fonte da Telha, a 7 de Novembro de 1971; mais tarde estará incluída no PRPPartido Revolucionário do Proletariado – que é fundado em 1973].

[a continuar]

J.M.M.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

IN MEMORIAM HERMÍNIO PALMA INÁCIO (1922-2009) - Parte I


Nasce em Ferragudo [concelho de Lagoa] a 29 de Janeiro de 1922. Filho de José Inácio e de Custódia da Palma, ferroviários, Palma Inácio passa a sua infância em Tunes (Silves) de onde sai [com 18 anos] para se alistar voluntariamente na Aeronáutica Militar. Colocado em Sintra (Base Aérea nº 1), tira o curso de mecânico de aeronaves e de piloto civil para aviação comercial. É nesse meio que trava conhecimento com Humberto Delgado e adere à luta contra a ditadura.

Em 1947 [10 de Abril] há uma tentativa frustrada de conspiração civil e militar [Abrilada] pela Junta Militar de Libertação Nacional [movimento militar e civil, que vem na sequência da tentativa de Revolta da Mealhada, presidido por Mendes Cabeçadas, Celestino Soares, João Soares, o general Marques Godinho, o brigadeiro Maia e outros – ver AQUI] e Palma Inácio participa [com Gabriel Gomescf. A História da PIDE, de Irene Pimentel, p.143] sabotando os aviões [entre eles o Dakota de Santos Costa] da base aérea da Granja (Sintra). Face ao desaire da conspiração, Palma Inácio é um dos suspeitos e, por isso, foge da Portela de Sacavém onde era mecânico da KLM e refugia-se numa quinta de um amigo em Loures [onde fica 3 meses]. É denunciado por uma "ingénua" rapariga à GNR [cf. "Duas Fugas", rev.História, nº28, 2000] e é detido pela PIDE [cf. Pimentel, aliás in "O aventureiro da liberdade perdida", Visão, 16/06/1994], dando entrada na sua directoria no dia 6 de Setembro, seguindo depois para o Aljube.

Torturado, mas nunca cedendo às promessas da PIDE [como as do capitão Catelacf. rev. História, ibidem], prepara a sua fuga do Aljube através da "única janela sem grades", de uma sala utilizada pelos guardas como apoio à condução dos presos, e com auxilio de lençóis, que "trazia escondidos nas calças largas", saltou para o saguão onde estava um guarda, correu para escadas que conduziam à rua, "empurrou" o guarda-porteiro do Aljube e correu com um "galope louco" até à rua da Madalena, "onde apanhou um táxi" [a 16 de Maio 1948].

Farto de esperar pela revolução que tardava, resolve partir para Marrocos, "escondido num cargueiro" que partia do Barreiro [rev. História, ibidem], justamente para onde foi levado num "barquinho à vela" por Gabriel Pedro e o filho, e Edmundo Pedro [ibidem]. Em Marrocos contacta com a oposição a Salazar. Parte para os EUA, onde é, de novo, descoberto, levando-o a abandonar o país, seguindo para o Rio de Janeiro. Humberto Delgado e, pouco depois, Henrique Galvão estão por lá, no exílio, mas também uma vasto grupo de exilados, entre os quais João Camoesas, Oliveira Pio ou Sarmento Pimentel.

A 10 de Novembro de 1961, data onde ocorreu a chamada "Operação Vagô" organizada por Henrique Galvão, Palma Inácio participa no comando da tomada do avião da TAP "Mouzinho de Albuquerque", que fazia a ligação Casablanca-Lisboa [juntamente com "Amândio Silva (hoje, director da organização privada Mares Navegados, Brasil), Camilo Mortágua (agora empresário no Alvito), João Martins (proprietário de um restaurante em Bruxelas), Fernando Vasconcelos (residente em Brasília) e Helena Vidal (já falecida)" - ler AQUI e AQUI todas as peripécias da operação], com a intenção de lançar milhares de panfletos [Manifesto da Frente Anti-Totalitária dos Portugueses Livres no Estrangeiro] sobre o país, denunciando a fraude eleitoral que se ia realizar e apelando à revolta. Foi um êxito a operação e perante as pressões do governo português para a extradição do "comando", Palma Inácio e os amigos partem, de novo, para o Brasil.

[foto in História da PIDE, de Irene Pimentel]

[a continuar]

J.M.M.

terça-feira, 14 de julho de 2009


UM DISCURSO ESCONDIDO. ALFREDO DA SILVA E AS GREVES NA CUF

"Nos anos da Primeira República, o operariado da Companhia União Fabril emerge enquanto novo grupo social no panorama industrial do Barreiro, protagonizando importantes movimentos reivindicativos. No confronto directo com o industrial Alfredo da Silva, afirma e constrói uma identidade própria, numa progressiva consciencialização enquanto classe. Para analisar as greves ocorridas na CUF durante a Primeira República é preciso ter em conta os interesses que opunham patronato e proletariado. Por isso, falar das greves da CUF significa falar da luta operária, mas também das estratégias adoptadas por Alfredo da Silva na sua relação com o operariado".

Um discurso escondido. Alfredo da Silva e as greves na CUF durante a Primeira República (1910-1919) - de Vanessa de Almeida, Editorial Bizâncio, 2009.

J.M.M.

segunda-feira, 13 de julho de 2009


FRANCISCO GONÇALVES VELHINHO CORREIA (Parte II)

Encontramo-lo ligado à Liga Nacional da Instrução tendo participado na primeira Festa da Árvore, realizada no Seixal em 26 de Maio de 1907. Esta iniciativa, foi muito apoiada pelos Republicanos e pela Maçonaria. Nesse ano realiza uma conferência na Sociedade de Geografia, da qual era associado, intitulada O Ensino e a Educação em Portugal que viria a ser publicada como se refere adiante [João Carlos Paulo, “Francisco Gonçalves Velhinho Correia”, Dicionário de Educadores Portugueses, Dir. António Nóvoa, Asa, Porto, 2003, p. 398-399.] Na Sociedade de Geografia ocupou as funções de presidente da Sub-secção de Estudos de Olivença, no início da década de 1920.

Esteve durante algum tempo em Macau, por onde foi eleito deputado entre 1915 e 1917. Foi professor no Liceu Nacional de Macau, no sexto grupo. Nessa situação conheceu e contactou com a elite da região como Camilo Pessanha, com quem estabelece alguns laços de amizade. Colaborou com o jornal Progresso de Macau, onde publicou um artigo intitulado O Dr. Pessanha em Singapura. Notícias de Portugal. Nele referia a desilusão do poeta em relação a Portugal pois não tinham recebido ou valorizado os objectos que o poeta tinha oferecido para o Museu das Janelas Verdes.

Em 1917, apresenta um trabalho para o concurso de professor de Colonização da Escola Colonial, intitulado Problemas económicos e coloniais: uma carreira portuguesa de navegação para o Oriente, em 1919 para a nomeação definitiva regendo a cadeira de Estatística e Informações Coloniais (8ª cadeira), permanecendo na Escola até 1943, onde chega a exercer funções de direcção ainda que por um curto período de tempo (1942-1943).

Quando esteve no governo, ocupando a pasta das Finanças, em 1923, procurou aplicar um conjunto de medidas visando a redução do deficit orçamental. Porém, as suas medidas foram fortemente criticadas e surgiram mesmo algumas contrapropostas que Velhinho Correia considerou inaceitáveis e abandonou o cargo. [Fernando Mendonça Fava, Leonardo Coimbra e a Primeira República. Percurso Político e Social de um Filosofo, Coimbra, Imprensa da Universidade, 2008, p. 113].

Em 1930, publicou um conjunto de artigos no Diário de Notícias onde apresentava uma teoria critica da doutrina económica subjacente ao Acto Colonial [24-05-1930; 31-05-1930; 11-06-1930].

Em 1938 apresentou uma conferência na Sociedade de Geografia de Lisboa intitulado A Lição de Sagres.

Um outro pequeno apontamento sobre Velhinho Correia e a ligação com a Maçonaria refere-nos que ele foi venerável da Loja Solidariedade, em Lisboa e da Loja Lacóbriga, nº 326, em Lagos.

Publicou:
- O ensino e a educação em Portugal, Lisboa, Livraria Clássica Editora de A.M. Teixeira, 1907.
- Problemas económicos e coloniais: uma carreira portuguesa de navegação para o Oriente: sua influencia na economia do país, Lisboa, Livraria Ferreira, 1916.
- Navegação Colonial (Relatório da Cadeira de Estatística e Informações Coloniais), Lisboa, 1921.
- Navegação nacional : extracto d´um relatório, Anuário da Escola Superior Colonial, (1922-1923), Lisboa, p. 59-113
- A semana do escudo: artigos e conferencias, Lisboa, Of. Gráf. de O Rebate, 1924.
- Situação Económica e Financeira de Portugal. Elementos de Informação e Estatística, Lisboa, Imprensa Nacional, 1926, IV vols.

Colaborou ainda em diversas publicações, jornais e revistas como:
- Vanguarda, Lisboa, 1890-1911;
- Progresso de Macau, Macau, 1915;
- Diário de Notícias, Lisboa, 1930;
- Diário de Coimbra, Coimbra, 1930 -;
entre outros títulos.

A.A.B.M.

BRITO CAMACHO – POLÍTICA COLONIAL

"Espírito de altíssima inteligência, carácter da mais nobre tempera, escritor de valor consagrado, o dr. Brito Camacho também deixou o seu nome ligado à vida colonial, tendo exercido, com o maior do aprumo moral, as elevadas funções de Alto Comissário em Moçambique, onde soube observar os diversos problemas que interessam às colónias.

O trabalho que inserimos no presente ‘Caderno’, cedido por quem de direito, e que vale como magnifica lição, nunca foi publicado em separata e passou quase despercebido na Imprensa. Trata-se duma notável conferência sobre ‘Política Colonial’, que o dr. Brito Camacho realizou em Lisboa, pouco tempo depois de regressar de Moçambique, há, pouco mais ou menos, uma dúzia de anos.

Quem se lembra já dessas inteligentes, patrióticas e oportunas palavras, então pronunciadas pelo dr. Brito Camacho, com tanta autoridade moral e mental? ...
"

in Nota Preliminar ao nº 26 - "Politica Colonial" - dos "Cadernos Coloniais", Editorial Cosmos, 1936.

J.M.M.

domingo, 12 de julho de 2009


FRANCISCO GONÇALVES VELHINHO CORREIA (Parte I)

Nasceu em Lagos, a 6 de Outubro de 1882, e veio a falecer em Lisboa, a 22 de Outubro de 1943. Era filho de José Maria Correia Júnior, oficial do Exército, e de Teresa de Jesus Velhinho.

Aos 16 anos, tornou-se praça, tendo atingido pouco depois o posto de 2.º Sargento. Durante alguns meses, deixou o serviço militar para se dedicar à contabilidade numa fábrica. De volta ao exército, ingressou no Instituto Industrial e Comercial de Lisboa e na Escola do Exército, tendo tirado o curso de Administração Militar,em 1906, depois de assentar praça em 1898 –, seguirá uma vida profissional iminentemente ligada ao Exército, quer como docente, quer como oficial de carreira, atingindo o posto de tenente-coronel em 1936.

Além de professor da Escola Superior Colonial e da Escola Militar no período de 1917 a 1943 (na última das quais, chegou a professor catedrático das 19.ª e 20.ª cadeiras), foi químico da Manutenção Militar, serviu no Corpo Expedicionário Português e desempenhou missões em África e Macau. Na sequência do primeiro conflito mundial, quando já ganhara reputação como autoridade em assuntos económicos e financeiros, faz parte da comissão reunida em Londres para liquidar a dívida de guerra e da Comissão de Reparações Alemãs, em Paris, vindo ainda a representar o seu país na Conferência Interparlamentar Internacional de Comércio.

Filiado no Partido Republicano Português e membro da Maçonaria, onde se iniciou em 1907, na loja Solidariedade, adoptando o nome simbólico de Padre Eterno, é um dos poucos oficiais que compareceram de imediato na Baixa lisboeta a seguir à proclamação da República.

Durante este regime, teve uma intensa participação parlamentar, como deputado por Macau (1915-1917), Silves (1919, 1921 e 1922) e Lagos (1925). Sobraçou, ainda, duas pastas ministeriais: a do Comércio, entre 19 de Julho e 20 de Novembro de 1920, e a das Finanças, entre 13 e 17 de Agosto de 1923 e entre 20 de Agosto e 24 de Outubro de 1923.

Apartado da actividade política na vigência da Ditadura Militar, regressaria, porém, no período do Estado Novo, no papel de procurador à Câmara Corporativa (1935) – onde foi relator de pareceres relativos à reforma dos Serviços da Dívida Pública, ao Cadastro da Propriedade Rústica e ao Imposto sobre Lucros de Guerra – e de vice-governador do Banco Nacional Ultramarino.

Foi autor de obra diversa sobre o ensino e a economia, donde se destaca o título A Semana do Escudo – colecção de conferências e artigos realizados em 1924, durante uma campanha contra a inflação fiduciária e a favor da valorização da moeda.

Foi candidato derrotado a secretário-geral do Banco de Portugal.

A Escola Elementar de Comércio e Indústria João de Deus foi inaugurada em 5 de Outubro de 1920. Para a sua criação foi decisivo o esforço desenvolvido pela Câmara Municipal de Silves que reforçou o seu Orçamento dos indispensáveis meios financeiros e disponibilizou as instalações para o seu funcionamento. De entre os seus obreiros destaca-se o nome de Maurício Monteiro que aventou, em Lisboa, a ideia da sua criação e os de Samora Barros e de Henrique Martins que o secundaram no projecto. A ideia ganhou corpo através da acção política dos deputados municipais da cidade João Estevão Águas e Velhinho Correia que desenvolveram o processo oficial que levou à criação da Escola.

O ataque à direcção do Banco Nacional Ultramarino, empossada a 23 de Novembro de 1925 pelo governo de Domingos Pereira, foi propositadamente construído para atingir Francisco da Cunha Leal e Velhinho Correia, do Partido Nacionalista.

[Em continuação]

A.A.B.M.

quinta-feira, 9 de julho de 2009


NÃO PERCAS A ROSA

"Inapetente para a meticulosidade pachorrenta dos registos sistemáticos — por índole poética perfilho as sísteses das vivências acumuladas —, foi-me então estranhável iniciar este diário nas horas entusiásticas em que deflagraram os acontecimentos que lhe foram dando forma (...)"

Natália CorreiaNÃO PERCAS A ROSA. Diário e algo mais (25 de Abril de 1974 — 20 de Dezembro de 1975), Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1978

in CATÁLOGO da Livraria In-Libris.

J.M.M.

SALAZAR, FRANCO E A PROPAGANDA CONTRA A ESPANHA DEMOCRÁTICA

"O título deste livro, "O Que Parece É", não foi inventado por mim, nem tão-pouco foi retirado de um anúncio publicitário. Trata-se de uma frase de Salazar, um dos muitos aforismos que ele tanto gostava de integrar no seu discurso e que serviam de 'slogans' com enorme eficácia propagandística, funcionando como mandamentos explícitos para orientar as directrizes ideológicas do seu novo modelo político. (...) O objectivo científico deste livro consiste em compreender o discurso salazarista no que diz respeito aos meios de comunicação, os quais ele considerava como um veículo de transmissão da ideologia, essencial para doutrinar a sociedade. (...)

Salazar acreditava que o controlo férreo da opinião pública portuguesa era a chave para fazer prevalecer os seus princípios políticos. Isso mesmo manifestou num dos seus discursos: 'A verdade é que politicamente tudo o que parece é, quer dizer, as mentiras, as ficções, os receios, mesmo injustificados, criam estados de espírito que são realidades políticas: sobre elas, com elas e contra elas se tem de governar'

Esta visão totalitária da sociedade portuguesa fez com que temesse o contágio ideológico através da Espanha democrática que nascera com a fundação da Segunda República, a 14 de Abril de 1931, um regime que poderia prejudicar o Estado Novo. A rebelião franquista de Julho de 1936 pareceu-lhe ser o melhor para Espanha e para Portugal. Por isso, era necessário prestar o maior auxílio propagandístico possível a Franco, de modo a difundir a verdade, a sua verdade" [in, Nota Prévia - ler AQUI]

O Que Parece É. Salazar, Franco e a Propaganda Contra a Espanha Democrática - de Alberto Pena, Edições Tinta da China.

J.M.M.

segunda-feira, 6 de julho de 2009


COMISSÃO MILITAR REVOLUCIONÁRIA DO 5 DE OUTUBRO DE 1910 (Parte III)

Continuando a apresentar os militares que intergravam a Comissão Militar Revolucionária e reconhecendo a impossibilidade de os indicar a todos, apresentamos mais um conjunto de figuras que conspiraram para derrubar a monarquia em 1910.

- Mariano Martins
- Vasconcelos e Sá
- Tancredo de Morais
- Artur Carlos de Carlos Barros Basto
- João Ribeiro Gomes
- Armando Porfírio Rodrigues
- José Malta
- Manuel Lourenço Godinho
- Manuel Tavares Grelo
- Augusto Mateus dos Santos Costa
- António Inácio Simões
- Alves de Sousa
- Policarpo de Azevedo
- Humberto de Ataíde Ramos e Oliveira
- António José Soares Durão
- Viriato Pereira de Lacerda
- João Ribeiro Gomes
- Francisco Xavier da Cunha Aragão
- Fernando Mauro d'A. Carmo
- Alexandre Augusto Terry
- José Dias Veloso
- Francisco Gonçalves Velhinho Correia
- Nicolau Tolentino Pereira Homem Teles

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

* Martins, Rocha, D. Manuel II(Memórias para a História do seu reinado), vol. II, Sociedade Editora José Bastos, Lisboa, s/d.
* Mello, João Augusto Fontes Pereira de, A Revolução de 4 de Outubro (Subsídios para a sua História). A Comissão Militar Revolucionária, Guimarães & Cª Editores, Lisboa, 1912.
*Santos, Machado, A Revolução Portuguesa (1907-1910), introd. Joel Serrão, Assírio e Alvim, Lisboa, 1982.
* Silva, António Maria da, O Meu Depoimento. Da Monarquia a 5 de Outubro de 1910, República, Lisboa,1974.

[Na imagem Mariano Martins, um dos conspiradores referido neste post, nasceu em Aljustrel em 8 de Dezembro de 1880 e falecido em 22 de Maio de 1943. Era filho de Sebastião Rodrigues e de Firmiana Rita da Costa. Frequentou o curso superior do Comércio no Instituto Industrial. Ingressou na Armada em 1899, ascendeu a aspirante de 1ª classe em 1903, guarda-marinha em 1905; 1º tenente em 1910; capitão tenente em 1917 e capitão de fragata em 1918, alcançando a patente de capitão de mar e guerra em 1930. Envolveu-se no movimento de 14 de Maio de 1915. Foi governador de S. Tomé e Principe (1911-13) e da Índia (1925-26).Foi administrador colonial, deputado, governador civil de Vila Real e de Lisboa. Desempenhou ainda as funções de Ministro da Agricultura e de Ministro das Colónias. Na fase final da sua vida acabou por aderir ao Estado Novo.]

A.A.B.M.

PERIÓDICOS – "ESQUERDA SOCIALISTA" E "PODER POPULAR"

A Hemeroteca Municipal de Lisboa, que tem vindo a divulgar o seu riquíssimo acervo documental (publicações periódicas), disponibilizou (com alguns números em falta) recentemente dois órgãos de informação do extinto MES [Movimento de Esquerda Socialista], organização política de grande destaque na luta política nos tempos idos de 1974-75.

Assim, pode consultar-se online o estimado periódico "Esquerda Socialista", nº0 (12 de Setembro de 1974) ao nº38 (16 de Julho de 1975) [direcção de César de Oliveira; Rogério de Jesus (nº7); Augusto Mateus (nº11, 14 de Janiero de 1975)]

e o jornal "Poder Popular", Ano I, nº1 (3 de Abril de 1975) ao nº76, Ano II (13 de Julho de 1978) [direcção de Fernando Ribeiro Mendes e Paulo Bárcia; Eduardo Ferro Rodrigues (nº30, 25 de Fevereiro de 1976); Eduardo Graça (nº49, 11 de Setembro de 1976); Augusto Mateus (nº62, 23 de Junho de 1977)].

Nota: sobre a imprensa periódica do MES, consulte-se os posts de Eduardo Graça, nos Caminhos da Memória - Breve resenha histórica da imprensa do MES (I) / Breve resenha histórica da imprensa do MES – O jornal «Esquerda Socialista» (II) / Breve resenha histórica da imprensa do MES – O jornal «Poder Popular» (III).

J.M.M.

domingo, 5 de julho de 2009


NA APRESENTAÇÃO DA BIOGRAFIA POLÍTICA DE HENRIQUE TENREIRO

Ontem, pelas 18 horas, no Museu Marítimo de Ílhavo, tivemos oportunidade de assistir à apresentação da obra de Álvaro Garrido, “Henrique Tenreiro. Uma biografia política”, publicado pelo Círculo de Leitores. Com uma assistência interessada, a rondar a meia centena de pessoas, com familiares e alguns amigos.

Constituída a mesa, composta pela Dr. Guilhermina Gomes, representante da editora, o Dr. Ribau Esteves, presidente da Câmara Municipal de Ílhavo, Doutor Joaquim Feio, apresentante da obra e finalmente o autor da obra em causa.

Após as palavras de circunstância proferidas pelo edil de Ílhavo, onde salientou os laços de amizade que o ligam ao autor, referindo que assistiu ao “crescimento do Museu Marítimo sob a direcção e trabalho do Dr. Álvaro Garrido”. Seguiu-se a representante da editora que salientou a satisfação com trabalho realizado pelo Dr. Álvaro Garrido, particularmente porque os seus trabalhos têm sido bem acolhidos junto do público, anunciando mesmo que vai ser feita uma nova reimpressão desta obra.

O Dr. Joaquim Feio começou por referir as ligações que tem com a região e como ao longo da sua vida conheceu e contactou com pessoas que de alguma forma estavam ligadas à pesca do bacalhau o que lhe permite compreender muitos dos factos e situações que encontrou narradas na obra supra referida. Reconhecendo que acompanhou a elaboração do livro ao longo do tempo, com longas conversas pelos corredores da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

Nos vários pontos que salientou da obra, dois pontos mereceram algum destaque: “o sistema Tenreiro” e o “enigma Tenreiro”. O primeiro, entendido como o “sistema das pescas criado por Tenreiro, que tornou a campanha do bacalhau num enorme sinal simbólico para o Estado Novo, porque recorda a gesta heróica dos Descobrimentos”. Porque todo o cerimonial preparado para assinalar o início das campanhas nos mares do Norte era encenado ao detalhe para lembrar as partidas dos navios na época das Descobertas, desde a bênção da frota até aos discursos da ocasião eram pormenorizadamente estudados, fazendo da faina do bacalhau como a “grande pesca” onde se sugeria a grandeza imperial da Nação.

Por outro lado, o denominado “enigma Tenreiro”, porque a personalidade de Henrique Tenreiro “não deixava ninguém indiferente” como afirmou Joaquim Feio, porque havia dentro do Estado Novo os defensores e os críticos desta personalidade. A obra, que o apresentante considerou como “uma criptobiografia do Estado Novo”, porque a personalidade de Tenreiro acompanha todo o período do salazarismo, “criando ou aproveitando os rituais do regime, tornando-se um guardião ou mesmo um pilar do regime”. Referindo-se às suas estreitas ligações com o Almirante Américo Tomás que lhe valeram para o resguardar de situações mais complicadas no interior da chamada”situação”, em particular na fase final do regime.

Joaquim Feio relatou mesmo situações, de que teve conhecimento, em que Henrique Tenreiro exercia um apertado controlo sobre os capitães e armadores dos bacalhoeiros. Tenreiro, era na opinião de Joaquim Feio, uma figura que entre os armadores “suscitava temor, aprovação e desaprovação”. Porque, aproveitando o corporativismo económico salazarista, surgido como uma terceira via entre o capitalismo e a economia planificada, “construiu no sector das pescas um enorme poder fáctico” tecendo uma complexa e estruturada pirâmide de organizações que lhe permitiram uma posição de destaque na orgânica do Estado Novo. Com a revolução de Abril de 1974, Tenreiro que devia ter sido julgado, acaba por conseguir partir para o Brasil, onde viveu o resto dos seus dias, considerando Joaquim Feio que a parte final da biografia “constitui um excelente material de reflexão sobre o quando tudo acaba enquanto poder”.

Tomou por fim a palavra o Doutor Álvaro Garrido que agradeceu aos membros da mesa, aos familiares e amigos presentes. Assumindo, logo de início que não se referiria à obra em si, explicou os escolhos e problemas que se levantam a quem se propõe escrever biografias políticas que considerou ser mais um género literário que historiográfico. Considerou importante o papel das biografias, porém também reconheceu que a valia de algumas das que recentemente têm sido publicadas podem ser discutíveis.

Referiu que começou a interessar-se pelo tema da pesca do bacalhau a pedido do Professor Romero de Magalhães. Este, juntamente com o Professor Reis Torgal ,desempenharam um importante papel na sua formação de historiador, aproveitando para agradecer a ambos, porque estavam presentes na sala e mais uma vez o acompanhavam na apresentação pública de um novo trabalho.

Para finalizar e aproveitando já alguns ecos recebidos sobre a obra solicitou à editora que numa segunda edição se conseguisse a integração de um índice onomástico que seria muito útil a quem deseje consultar a obra. Já agora, se nos é permitido, partilhamos em absoluto dessa opinião, pois para mais fácil pesquisa das pessoas que são referidas tornava-se fundamental um instrumento desse género, por outro lado permitiria também estabelecer a teia de relações pessoais que se conhecem de Henrique Tenreiro, a importância que as mesmas tinham e abrir caminhos a novas pesquisas no campo das influências sociais e políticas.

Foi um fim de tarde passado no Museu Marítimo de Ílhavo visitando um espaço que já não visitávamos havia algum tempo, onde é possível agora visitar a exposição temporária intitulada "Frota de Paz nos Mares em Guerra" que merece a pena ser visitada pelos nossos ledores.

A.A.B.M.

ESTUDOS SOBRE OS JORNALISTAS PORTUGUESES

"Não conheço olhar mais rigoroso sobre a reconfiguração em Portugal do jornalismo e da profissão de jornalista na viragem do século. Nem mais fecundo sobre a luta pela sobrevivência da autonomia do campo na nova e imprevisível era que emerge". [Adelino Gomes]

"Trata-se de um livro que contém trabalhos de uma grande qualidade e rigor científico sobre um tema da maior pertinência nos tempos que correm. É certamente uma contribuição do maior relevo para o conhecimento da problemática sociológica referente à profissão jornalística em Portugal." [Tito Cardoso e Cunha]

"O universo dos jornalistas portugueses esteve submetido a sucessivas vagas de turbulência desde a alteração política do 25 de Abril de 1974. Certas tendências-chave que tinham vindo a irromper no grupo profissional, a partir desse acontecimento gerador de um contexto democrático, desprenderam-se completamente na década de 1980, dando lugar a um panorama renovado que se desenvolveu na passagem para o século XXI. Manifestações centrais deste processo foram o alargamento e completa recomposição profissional e social dos jornalistas. A feminização, o rejuvenescimento, o aumento da formação escolar, o surgimento de novas posições e funções, a estratificação interna, o aumento das disparidades e o surgimento de novos conceitos e práticas são os principais traços dessa dinâmica. Os estudos reunidos neste livro procuram analisar e compreender estes e outros aspectos da profissionalização dos jornalistas inserindo-os no quadro das profundas transformações que as sinergias entre a revolução tecnológica digital e modelos de gestão adaptados a um mercado tumultuoso e competitivo estão a implicar na realidade que conhecíamos como sendo a imprensa e o jornalismo" [ler, AQUI]

ESTUDOS SOBRE OS JORNALISTAS PORTUGUESES, metamorfoses e encruzilhadas no limiar do século XXI - org. de José Luís Garcia, ICS

APRESENTAÇÃO, dia 7 DE JUNHO (18, 30 horas) - por José Pacheco Pereira e Adelino Gomes - Livraria FNAC (Colombo), Lisboa.

J.M.M.

PRAÇA VELHA - REVISTA CULTURAL DA GUARDA

Saiu, no passado dia 18 de Junho, a Revista Cultural Praça Velha (nº25), com uma temática dedicada à "vida e obras de escritores da Guarda".

Do Índice, registe-se os trabalhos sobre os escritores Eduardo Sucena (por Adriano Vasco Rodrigues), Fernando Silva Correia (por Aires Antunes Diniz), Rui de Pina (de António dos Santos Pereira), Armando Moradas Ferreira (por António José Dias de Almeida), Francisco de Pina (por António Salvado Morgado), uma curioso trabalho biográfico a partir das "Cartas de Nuno de Montemor para Ladislau Patrício" (por Dulce Helena Pires Borges), um estudo de Pinharanda Gomes sobre Leonis de Pina e Mendonça ("Um Escritor Sacro do Séc. XVII") e um artigo sobre Augusto Gil.

Ainda, neste seu último número, pode ler-se um artigo de Eduardo Lourenço e uma entrevista a Manuel António Pina. Em pré-publicação, surgem páginas do "Diário" de Manuel Poppe.

J.M.M.

COMISSÃO MILITAR REVOLUCIONÁRIA DO 5 DE OUTUBRO DE 1910 (Parte II)

Continuando as nossas pesquisas sobre a Comissão Militar Revolucionária encontramos mais os seguintes elementos:
- Djalme de Azevedo
- Sobrinho de Azevedo
- Duarte Fava
- Castro Morais
- António Ladislau Parreira
- José de Ascensão Valdez
- Victorino Godinho
- Manuel Maia de Magalhães
- Camacho Brandão
- Alfredo Pedreira Martins de Lima
- Costa Gomes
- Guilherme Rodrigues
- João Lúcio Serejo
- Álvaro de Oliveira Soares Andreia
- João Salgueiro Rodrigues
- André Bastos
- Carlos Ludgero Antunes Cabrita
- João Sarmento Pimentel

[Na Foto: uma das fachadas da Real Fábrica da Cordoaria Nacional, em Lisboa, local onde a Comissão Militar Revolucionária se reuniu por diversas vezes para preparar a revolução de 4 e 5 de Outubro de 1910.]

A.A.B.M.

sábado, 4 de julho de 2009


JOSÉ ESTÊVÃO / LUÍS DE MAGALHÃES - MOSTRA EVOCATIVA

"José Estevão (1809-1862) foi e é unanimemente considerado o maior parlamentar português.

A vida política deste eloquente orador acompanhou as vicissitudes da implantação do liberalismo em Portugal após 1826. Combateu o miguelismo no batalhão académico, exilando-se depois em Inglaterra. Após a vitória de D. Pedro, que lhe concedeu a condecoração da Torre Espada pela sua coragem em batalha na guerra civil travada no Porto (1833), José Estevão combateu ao lado dos Setembristas por uma concepção mais democrática do liberalismo constitucional. Adversário de Costa Cabral, José Estevão celebrizou-se não só como notável orador parlamentar, mas também como combatente de armas na mão durante a Revolta de Torres Novas (1844) e na Patuleia (1847). Aderiu em 1851 à Regeneração.

Jornalista, principalmente na Revolução de Setembro, militar revolucionário, advogado de causas perdidas que conseguiu ganhar no tribunal dadas as suas qualidades tribunícias, professor de economia política na Escola Politécnica, José Estevão é recordado, assim como seu filho Luís, nesta mostra da BNP, como incansável lutador pelas suas ideias e pai extremoso, tendo morrido inesperadamente quando seu filho primogénito Luís Cipriano contava apenas três anos ...
" [ler mais AQUI]

MOSTRA EVOCATIVA: BIBLIOTECA NACIONAL - de 6 de Julho a 19 de Setembro.

J.M.M.

quarta-feira, 1 de julho de 2009


COMISSÃO MILITAR REVOLUCIONÁRIA DO 5 DE OUTUBRO DE 1910 (Parte I)

Foi no mês de Julho de 1909, em data que não foi possível determinar, que se iniciaram os preparativos para a revolução que acabou por ocorrer em 4 e 5 de Outubro de 1910.

Após a realização do Congresso do Partido Republicano, em que uma parte do partido decidiu organizar a conspiração para derrubar a monarquia foi necessário encontrar entre os conspiradores, desde os militares, à Maçonaria e à Carbonária quem estivesse disposto a arriscar na preparação da revolução.

Como sempre, nestas situações ou não existem documentos escritos, porque era muito arriscado; ou dependemos e acreditamos nas memórias e relatórios que nos foram legadas à posteriori. Tendo em consideração aquilo que temos consultado sobre o assunto, decidimos cruzar elementos entre diversas obras que resultam de testemunhos dos acontecimentos para tentar simplesmente dar conta de alguns dos nomes dos envolvidos no processo. Infelizmente, muitos desses homens permaneceram no anonimato e pouco se sabe sobre alguns deles. Outros, porque desempenharam funções e cargos públicos, acabaram por deixar algum rasto da sua existência, embora muitas vezes quase esquecido.

Vejamos então quem eram alguns dos membros dessa Comissão Militar Revolucionária:
- Carlos Cândido dos Reis
- Carvalho Araújo
- Filemon de Almeida
- Carvalhal Correia Henriques
- Pires Pereira
- José Cabral
- Hélder Ribeiro
- João Augusto de Fontes Pereira de Melo
- Azevedo Gomes
- Aragão e Melo
- José Mendes Cabeçadas Júnior
- Jaime de Morais
- Adalberto Gastão de Sousa Dias
- Machado Santos
- Álvaro Teles de Azevedo
- Augusto Ramos da Costa
- Afonso Pala
- Américo Olavo
- Câmara Leme
- Álvaro Pope
- Ernesto Sá Cardoso
- David Ferreira
- Moura Mendes
- João Manuel de Carvalho
- Pinto de Magalhães
- Assis Duarte Ferreira
- Artur Marinha de Campos
- Silva Pais
- António Joaquim de Sousa Júnior
- Monteiro Guimarães
- José Carlos da Maia
- João Fiel Stockler

Nos próximos dias procuraremos indicar mais alguns dos homens que prepararam a conspiração, principalmente, entre os militares sejam da marinha ou exército.

[Na imagem acima Artur Marinha de Campos que, com a devida vénia, utilizamos o que estava AQUI onde se faz um pequeno bosquejo biográfico sobre a personalidade]

Em continuação

A.A.B.M.