quinta-feira, 27 de setembro de 2012

HOMENAGEM AO PROF. DOUTOR JOAQUIM VERÍSSIMO SERRÃO


Vai realizar-se na Sociedade de Geografia de Lisboa, no próximo dia 28 de Setembro de 2012, pelas 17 horas, uma sessão de homenagem ao Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão.

Será oradora convidada a Profª. Doutora Manuela Mendonça, Presidente da Academia Portuguesa da História.

O autor da famosa História de Portugal, que tem vindo a ser editada desde 1977, é professor jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Nasceu em Santarém  em 8 de Julho de 1925 e foi reitor da mesma Universidade entre 1973 e 1974, tendo apresentado a demissão na sequência dos acontecimentos de 25 de Abril de 1974.

Ocupou as funções de Presidente da Academia Portuguesa da História ao longo de 31 anos (1975-2006).

Em Santarém, nas instalações do antigo Presídio Militar, foi instalado Centro de Investigação Joaquim Veríssimo Serrão (CIJVS) que receberá o espólio deste historiador que o doou a esta cidade em 2009. Desse espólio fazem parte: os milhares de ficheiros que constituíram as «alfaias» da investigação desenvolvida ao longo de uma vida, bem como os 30 mil livros, 90 caixas de manuscritos, entre os quais a correspondência que trocou com Marcello Caetano, condecorações, telas, entre outras coisas.

Uma interessante iniciativa que não podemos deixar de divulgar junto de todos os que se interessam pela História e Historiografia de Portugal.

A.A.B.M.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

BULHÃO PATO, JORNALISTA


CONFERÊNCIA: "BULHÃO PATO, JORNALISTA";
ORADOR: Ernesto Rodrigues;
DIA: 27 de Setembro 2012 (18 horas);
LOCAL: Hemeroteca Municipal [R. S. Pedro de Alcântara, 3, Lisboa];
ORGANIZAÇÃO: Hemeroteca Municipal de Lisboa.

J.M.M.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

III ENCONTRO NACIONAL DE HISTÓRIA DAS CIÊNCIAS E DAS TECNOLOGIAS - ÉVORA



Vai realizar-se em Évora entre 26 e 28 de Setembro de 2012 o III Congresso Nacional de História das Ciências e da Tecnologia, subordinado ao tema:  Ciência, crise e mudança.

Neste congresso organizado pelo CEHFCi - Centro de Estudos de História e Filosofia da Ciência e da Técnica vai realizar-se no Colégio do Espírito Santo da Universidade de Évora.

A conferência de abertura do congresso estará a cargo do Professor Kostas Gavrolu, da Universidade de Atenas.

As áreas científicas do congresso são as seguintes:
  • Cidades, urbanismo, arquitectura e ciência
  • Ciência, colonialismo e impérios
  • Guerra e ciência: Práticas e instituições
  • História e Ensino da Ciência
  • História, filosofia e pensamento científico: Ideias e polémicas
  • Historiografia da ciência: Métodos, temas e debates
  • Instituições e agentes da ciência
  • Medicina, saúde e sociedade
  • Património, museus, arquivos e instrumentos
  • Políticas científicas, investigação, desenvolvimento e modernização
  • Redes, colaboração e internacionalização da ciência
  • Sociedade, cultura e entendimento público da ciência
A conferência de encerramento estará a cargo do Professor José Manuel Sánchez Ron, Universidade Autónoma de Madrid.

Entre as dezenas de conferencistas presentes contam-se por exemplo: Augusto Fitas, Ana Leonor Pereira, João Rui Pita, Quintino Lopes, Tiago Brandão, Inês Queirós, Hugo Silveira Pereira, José Luís Assis, Fátima Moura Ferreira, Bruno Navarro, Carlos Fiolhais, Maria de Fátima Nunes, Aires Diniz, João Brigola, entre muitos outros.

O programa completo e detalhado, deste importante congresso, que merece a melhor divulgação entre os interessados nesta temática, pode ser consultado AQUI.

A.A.B.M.

domingo, 23 de setembro de 2012

IN MEMORIAM CÂNDIDO DE OLIVEIRA - TARRAFAL. O PÂNTANO DA MORTE


LIVRO: Tarrafal. O Pântano da Morte;
AUTOR: Cândido de Oliveira [pref. José Magalhães Godinho; capa com ilustração de Stuart Carvalhais];
EDITORA: Editorial "República", Lisboa, 1974, 153 p.

► "... Curvo-me, respeitoso, comovido, e com a maior saudade perante a memória do meu querido amigo e companheiro Cândido de Oliveira, homem íntegro, lutador intemerato, um dos sacrificados e uma das grande vítimas, pelo muito que sofreu, pelas brutalidades inumanas de que foi objecto, nesse negregado período do salazarismo que só por ironia, maldade e má fé, ainda há quem teime em considerar um regime meramente paternalista!

Honra e glória à memória do grande cidadão, do grande democrata que foi Cândido de Oliveira

[José Magalhães Godinho, in Nota Prévia ao “Tarrafal. O Pântano da Morte" - sublinhado nosso”

J.M.M.

CÂNDIDO DE OLIVEIRA [1896-1958]


"Comemora-se amanhã o 116º aniversário do nascimento de Cândido de Oliveira (Fronteira, 24-9-1896, Estocolmo, 23-7-1958) figura maior do Desporto Nacional” [via António Ventura Facebook]

Cândido Fernandes Plácido de Oliveira nasceu em Fronteira, a 24 de Setembro de 1896. Ficou órfão de pai, entrando para a Casa Pia de Lisboa (a 15 de Junho de 1905 – cf. Dicionário de Autores Casapianos, 1982, p.141], com o número 3466. Aluno exemplar “fez [o] Curso Comercial e praticou diversos desportos – luta greco-romana, natação e futebol” [António Ventura, ibidem]. Recebe, por essa “dupla actividade” o prémio “Januário Barreto”, ilustre casapiano, um dos primeiros jogadores de futebol, e que se formou em medicina.

Cândido de Oliveira, tirou também “o Curso de Telegrafia, empregando-se nos Correios e Telégrafos, chegando a Chefe de Divisão.

Discípulo de Cosme Damião, substituiu-o na preparação do Grupo Escolar da Casa Pia de Lisboa, [foi fundador do Casa Pia Atlético Clube, e seu capitão] e começou a jogar no Benfica [foi capitão do grupo de honra do Sport Lisboa e Benfica, 1915-1921, tendo sido um dos mais famosos jogadores portugueses do seu tempo; foi capitão da selecção nacional, nomeadamente no I Portugal-Espanha]. Iniciou a sua actividade como jornalista desportivo em 'A Vitória' [1919], passando para a revista 'Football' [depois 'Gazeta Desportiva'; era já redactor desportivo de 'O Século' – cf. Tarrafal. O Pântano da Morte, de Cândido de Oliveira, 1974].

“Para além de jogador, foi um dos maiores treinadores e seleccionadores portugueses de sempre, deixando o seu nome ligado à selecção nacional, nos jogos Olímpicos de Amesterdão, mas também [treinou] nos clubes Académica de Coimbra, Sporting Clube de Portugal [1948-1949], Belenenses, Futebol Clube do Porto e até no Brasil [Clube de Regatas do Vasco da Gama]. Depois da experiência fracassada da 'Gazeta Desportiva', e de ter passado pela 'Stadium' e por outros jornais, fundou com Ribeiro dos Reis e Vicente de Meio o jornal 'A Bola'.

Quando era Inspector dos CTT, em plena II Guerra Mundial, Cândido de Oliveira, que foi sempre um republicano e defensor dos ideais de liberdade e de progresso, trabalhou como agente secreto para a Inglaterra. Era o agente H. 204 e H. 700, da rede clandestina Pax, do Special Operations Executive (SOE), que tinha como principal missão organizar a resistência em Portugal em caso de invasão nazi.

Foi preso [brutalizado e torturado pela PVDE] a 1 de Março de 1942 no forte de Caxias, e deportado para o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, para onde foi enviado a 20 de Junho do mesmo ano. Só regressou a Portugal 1 de Janeiro de 1944; ficou detido de novo em Caxias, depois no Aljube e novamente em Caxias, sendo libertado a 27 de Maio do mesmo ano.

Impossibilitado de continuar no seu anterior emprego, do qual foi demitido, lançou-se no projecto de 'A Bola' [fundado a 19 de Janeiro de 1945].

Sobre sua experiência em Cabo Verde escreveu o livro 'Tarrafal, o Pântano da Morte', que só foi publicado em 1974 [pela Editorial República, com prefácio de José Magalhães Godinho e capa de Stuart Carvalhais].

Em 1946 ainda teve ligações ao levantamento chefiado pelo capitão Queiroga, conhecido como ‘Revolta da Mealhada’ [10 de Outubro de 1946]. A Federação Portuguesa de Futebol deu o nome de Cândido de Oliveira ao troféu que anualmente se disputa no início das temporadas de futebol entre os vencedores do campeonato nacional da 1ª Divisão e da Taça de Portugal.

Mas o que geralmente se desconhece é a sua filiação maçónica. Cândido de Oliveira foi iniciado [com o n.s. Sócrates] na Loja Luz e Liberdade [nº393], de Braga, em 1 de Dezembro de 1930, quando era Chefe dos Correios naquela cidade”. [foi-lhe passado o “atestado de quite a 31 de Dezembro de 1933, por a loja ter cessado os seus trabalhos” – cf. Revista Grémio Lusitano, nº17]

Faleceu [dirigia na data a Académica de Coimbra e era, ao mesmo tempo, presidente do Conselho Técnico da Federação de Futebol – ver Diário de Lisboa] a 23 de Junho de 1958, “quando efectuava a cobertura jornalística do campeonato do Mundo de Futebol” [Dicionário …, ibidem]

FOTO e texto - com sublinhados e aditamentos nossos - via António Ventura Facebook.

J.M.M.

sábado, 22 de setembro de 2012

LOJA MILITAR CAVALEIROS DA CRUZ (GRENOBLE)



ESTATUTOS da R.'. Loge Militar dos Cavaleiros da Cruz da Legião Portugueza Constituida debaixo dos auspicios do G.'. O.'. Luzitano, e filiada pelo Supremo Concelho do Cap.’. Sob.’. dos Cav.’. da Cruz ao Or.’. de Pariz, s.l [Grenoble], 1809.

Trata-se dos Estatutos da loja maçónica militar dos Cavaleiros da Cruz (Chevaliers de la Croix, em Grenoble), loja constituída (em 1808 ?) por oficiais que faziam parte da Legião e que “trabalhou uns dois ou três anos” [cf. História da Maçonaria em Portugal, de A. H. de Oliveira Marques, vol. I, p. 98] sob o veneralato de Gomes Freire de Andrade.

O seu regulamento interno foi aprovado em sessão de 24 de Abril de 1809 e impresso os seus Estatutos [ibidem]. A composição do corpo dos oficiais da loja, à data, era a seguinte [ibidem, pp 170-1]:

Venerável - Gomes Freire de Andrade (tenente-general);
1º Vigilante - Tomás José Xavier de Lima V. B. N. Teles da Silva (2º marquês de Ponta de Lima – coronel de infantaria));
2º Vigilante - José de Vasconcelos e Sá (futuro 1º barão de Albufeira – coronel de infantaria);
Orador (interino) – José Pereira Pinto (capitão de granadeiros);
Secretário - António Maria Correia de Sá Benevides Velasco da Câmara (futuro 6.º visconde de Asseca – alferes de cavalaria);
Mestre de Cerimónias - Diogo Fausto Reixa da Costa (alferes de Infantaria);
1º Experto – António Huet Bacelar de Souto Maior (capitão de infantaria);
2º Experto - António [Cândido] de Faria Machado (tenente de caçadores);
Tesoureiro - João Manuel da Costa Bonicho (capitão de infantaria);
Hospitaleiro – João Carvalho Nogueira (cirurgião e major de infantaria).

Bibliografia referida em A. H. Oliveira Marques: Estatutos …, 1809; Henrique de Campos Ferreira Lima, in Gomes Freire de Andrade. Notas Bibliográficas e Iconográficas publicadas em comemoração do 1º centenário da Morte deste Ilustre General (1817-1917), sep. do Boletim Bibliográfico da Academia das Sciências de Lisboa, Vol. II, fasc 1, Coimbra, 1919, p. 22; António Sardinha, Ao Principio era o Verbo, Lisboa, 1924, pp 66-68.

FOTO via António Ventura Facebook, com a devida vénia.

J.M.M.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

ORDEM DOS ENGENHEIROS - 75 ANOS DE HISTÓRIA


No próximo dia 25 de Setembro de 2012, pelas 17 horas, no Museu da Electricidade, em Lisboa, vai ser apresentada a obra Ordem dos Engenheiros – 75 anos de História. Inovação e Desenvolvimento em Portugal: o lugar dos engenheiros.

Esta obra resulta da pareceria desenvolvida entre a Ordem dos Engenheiros e o Instituto de História Contemporânea, da Universidade Nova de Lisboa e da investigação realizada pelas investigadoras Maria Fernanda Rollo e Ana Paula Pires.

Pode ler-se na divulgação da iniciativa, disponível na Ordem dos Engenheiros:

a iniciativa tem como objetivo garantir que a História da Ordem dos Engenheiros, reveladora dos contextos políticos, económicos e sociais de cada época, não se perde no tempo, mas também contribuir, com as memórias dos seus fundadores, para pensar o futuro da Engenharia em Portugal. O documento revela, ainda, que os momentos mais marcantes do crescimento do País corresponderam a períodos de intervenção forte da Engenharia e dos Engenheiros.

O lançamento será organizado em três cerimónias distintas, que decorrerão em Lisboa (25 de setembro, no Museu da Electricidade), no Porto (1 de outubro, no Salão Nobre da Reitoria da Universidade do Porto) e em Coimbra (2 de outubro, na Sede da Região Centro da Ordem dos Engenheiros).

A apresentação da obra será efetuada pelos Engenheiros Eduardo Marçal Grilo, Horácio Maia e Costa e Pedro Saraiva, respetivamente.


A obra vai depois ser apresentada nos seguintes locais, sendo necessário realizar uma inscrição prévia :

Porto | 1 de outubro | Reitoria da Universidade do Porto | 18horas
Apresentação pelo Eng. Horácio Maia e Costa

Coimbra | 2 de outubro | Sede da Região Centro da Ordem dos Engenheiros | 18horas
Apresentação pelo Eng. Pedro Saraiva

Inscrição
Lisboa | Tel.: 213 132 662/3/4 | Email: colégios@ordemdosengenheiros.pt
Porto | Tel.: 222 071 307 | Email: eventos@oern.pt
Coimbra | Tel.: 239 855 190 | Email: correio@centro.ordemdosengenheiros.pt

Uma obra que revela como os engenheiros têm sido importantes nas suas acções políticas, industriais e nos negócios que se realizam em Portugal não só nos últimos 75 anos, mas ao longo de bastante tempo. O papel da sua organização de classe na criação de várias políticas que foram desde os transportes, à energia, da habitação às telecomunicações, das minas à alimentação, da economia à política. As preocupações dos engenheiros, dos líderes da ordem, os momentos marcantes na História da Engenharia em Portugal e algumas das suas figuras mais marcantes.

Certamente uma obra com muito interesse para muitos dos nossos ledores.

A.A.B.M.

A "PORTUGUESA"


A "PORTUGUESA" - HINO NACIONAL DA REPÚBLICA

► Letra de Henrique Lopes de Mendonça & Música de Alfredo Keil

J.M.M.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

POLÉMICA HISTORIOGRÁFICA

A propósito da polémica historiográfica que tem marcado este ano e a publicação da História de Portugal, coord. Rui Ramos, Nuno Gonçalo Monteiro e Bernardo Vasconcelos e Sousa reeditada agora em vários volumes pelo Expresso e que tanta polémica tem provocado, conheceu hoje um novo contributo, agora de Luís Reis Torgal, cujo texto foi também publicado no jornal Publico e que, com a devida vénia retiramos do blogue de Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória.

RUI RAMOS E O REABRIR DA POLÉMICA SOBRE A "HISTÓRIA DE DIVULGAÇÃO" DO ESTADO NOVO

"Em Janeiro de 2011 apresentei uma comunicação sobre a historiografia do Estado Novo num colóquio organizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Entre outras considerações, abordei criticamente os textos de dois historiadores: Rui Ramos e Filipe Ribeiro de Meneses. Assistimos agora a uma polémica entre Manuel Loff e Rui Ramos, nas páginas do PÚBLICO, que se alargou a um artigo, que não tive ocasião de ler, de António Araújo, a uma pequena, violenta e inconveniente nota de Maria Filomena Mónica, e, depois, a vários outros textos de valor e significado diferentes, entre eles um artigo de um dos melhores especialistas do Estado Novo, Fernando Rosas.

Não querendo entrar nas questões mais pessoais que se levantaram, achei que não devia ficar de fora, dado que me refiro constantemente nos meus textos à falta de um debate público sobre a historiografia e sobre outros temas de ciência e de cultura. Limito-me, porém, por agora, a isolar e a adaptar o texto que escrevi então sobre Rui Ramos, que faz parte, portanto, de um artigo mais lato e complexo que continua à espera de ser publicado nas actas do referido colóquio. Como se verá, não é, pois, a primeira vez que a obra de Rui Ramos suscita, saudavelmente, alguma polémica. A reedição da História de Portugal em pequenos volumes pelo Expresso, coordenada por este historiador, veio, afinal, reabrir velhas questões.

A obra, no seu conjunto, mereceu, obviamente, elogios desde a sua apresentação, na Sociedade de Geografia, pelo sociólogo António Barreto, que, sobretudo, louvou o seu sentido narrativo e de fácil compreensão, onde estava ausente um exercício teorizador. No entanto, a parte relativa ao regime Salazar-Caetano, assinada por Rui Ramos, provocou logo alguma discussão, proporcionada pelo trabalho da jornalista São José Almeida, que entrevistou e transcreveu pequenos passos das opiniões emitidas por alguns historiadores do Estado Novo, como António Costa Pinto, Manuel de Lucena, Manuel Loff, Irene Flunser Pimentel, Fernando Rosas, para além de afirmações do próprio Rui Ramos. O artigo teve o sintomático título “A História de Rui Ramos desculpabiliza o Estado Novo” (PÚBLICO, 31 de Maio de 2010).

Não valerá a pena analisar cada opinião, pois não se chegaria a grandes conclusões, dado até, precisamente, o carácter de curtas passagens que foram extraídas pela jornalista às palavras de cada um dos interlocutores. Apenas poderei resumir esse debate (se é que de debate se tratou) com a própria síntese da jornalista do PÚBLICO: “Rui Ramos lamenta que em Portugal a História seja vista ‘a preto e branco, ou esquerda ou direita’. E que se conviva mal com diferentes interpretações do passado. Mas outros historiadores vêem na mais recente História de Portugal, coordenada por este autor, um discurso que desculpabiliza o Estado Novo e diaboliza a I República. Há mesmo quem fale de ‘legitimação’ do discurso de Salazar. E quem acuse esta História de ignorar a violência daqueles anos”.

Não entro nessa discussão para que, de resto, não fui convidado, mas posso sim discutir a metodologia de análise de Rui Ramos.

Acima de tudo, gosto sempre de salientar que só divulga quem sabe, ou seja, quem investigou. Caso contrário, corremos o risco — evidente no Estado Novo, em “obras do regime”, como a História de Portugal de João Ameal, que constituiu um verdadeiro best-seller — de reduzirmos a História a um discurso narrativo de tipo mais ou menos ideológico. Mas, se, por um lado, a divulgação não pode ser um discurso literário, normalmente atraente, também é perigoso que seja uma simples narrativa aparentemente asséptica e com pretensões científicas, que pode ser, por outro lado, uma grande arma da ideologia.

Rui Ramos não é um especialista do Estado Novo e usou exactamente o método tão elogiado por Barreto, ou seja, a narrativa não teorizadora. Mas, a problematização é o que de mais aliciante tem a História e que provoca no leitor medianamente culto (o outro lê sempre qualquer coisa, até as Histórias rocambolescas da História de Portugal, pensando que está a ler um livro de História) o gosto pela reflexão crítica, o que — aí concordarei com Rui Ramos, se entender o conceito como eu — o leva a ler a História não “a preto e branco”, mas com todas as cores, ou, por outras palavras, de forma poliédrica.

Ora, se lermos as páginas sobre o Estado Novo da História de Portugal (eu li-as na edição principal e não nesta edição em volumes), não nos apercebemos que Salazar se formou num denso complexo de realidades e de concepções do Estado. Sobressaíam então, para além das teses e práticas republicanas mais radicais que geravam naturais reacções, posições republicanas conservadoras e nacionalistas, o corporativismo católico, com as suas teses sociológicas e pedagógicas, ideias integralistas que jamais apontavam para a noção de uma “monarquia absoluta” (como diz Ramos e que era, ao invés, uma ideia que os integralistas combatiam), ideologias fascistas que surgiram em Portugal logo no contexto da “marcha sobre Roma” e, mais tardiamente, apaixonadas afirmações nacionais-sindicalistas, que não se afastavam mesmo do nazismo nascente. Seguindo a narrativa de Rui Ramos, tudo surge de forma natural, formando-se um Estado onde a regra era “viver habitualmente” (ideologia captada em Salazar, em 1938, por Henri Massis, mas que já se encontra na entrevista de António Ferro), no sentido de uma “nova democracia”, onde a palavra “totalitarismo” era proibida, onde se verificava uma “ditadura moderada” (mais moderada do que na própria República) com uma repressão dirigida (esquecendo as vicissitudes de toda a oposição, fosse ela qual fosse), onde havia uma “pluralidade cultural” (como se tendências de oposição pudessem ser integradas na concepção do Estado Novo e não fossem contra ele e alvo da sua repressão)… Mais ainda: onde havia uma concepção de “assimilação” em relação aos naturais das colónias (só tardiamente notória), onde se deu uma guerra colonial (que conheci, na Guiné, no final dos anos sessenta) em que os movimentos de independência acabaram por ter pouco significado social e até militar, onde as estatísticas provam o desenvolvimento de Portugal (que pode ser um facto em determinadas áreas e conjunturas)…

Nada é discutido e problematizado e mesmo o conceito de “fascismo de cátedra” utilizado pela interessante caracterização de Unamuno, numa reflexão jornalística do Ahora, dado a conhecer primeiro por João Medina, é transformado na expressão “ditadura catedrática”, e o conceito de “totalitarismo” não é observado sistematicamente, apesar de, na verdade, ter sido utilizado e discutido por homens próximos de Salazar (como Bissaya Barreto ou Águedo de Oliveira, Mário de Figueiredo ou Manuel Rodrigues). E seria bom que Ramos entendesse que a História se compreende numa lógica diacrónica, mas também sincrónica. É certo que aproxima uma vez o corporativismo de Salazar do de Mussolini, mas haveria que estender essa comparação a outras áreas e perceber que, para além de um “fascismo de movimento”, há um “fascismo de regime”, fascismo ao qual o salazarismo não foi imune, a ponto de se poder sempre perguntar, como fizeram alguns historiadores desde Manuel Lucena (a quem se deve a feliz e problematizadora expressão de que o Estado Novo poderia ser considerado “um fascismo sem movimento fascista”), com respostas diferentes, se era ou não possível integrar o salazarismo num “fascismo genérico”.

A História não pode ser apenas interpretada por sintomas e factos escolhidos previamente, mas — quer se queira quer não (eu que fui influenciado pela metodologia dos Annales, antes de ela se expandir em Portugal, mas que repudiei expressivamente os seus exageros e a máxima imperialista da “história nova”) — tem de ser vista também pela análise das estruturas, que nos podem dar a conhecer o que os factos isolados nos escondem. O grande erro de Rui Ramos, numa história de divulgação, é, pois, pensar que esta é uma pura narrativa do que não se conhece bem, mas de que se podem tirar ilações que interessam ao leitor e o podem orientar. E isso ainda é mais discutível se pensarmos, como Ramos, que a divulgação se pode igualmente fazer, mais livre e despreocupadamente, numa linha “jornalística” — com todo o respeito que tenho pelo jornalismo de investigação — e até utilizando a “história do se…” (“Sá Carneiro. E se ele não tivesse morrido?”, Expresso, Revista Única, 27 de Novembro de 2010) ou da “história virtual” (como diz, à maneira anglo-saxónica) ou da metáfora do “nariz de Cleópatra”, discutida pelo meu mestre Sílvio Lima em 1960, demitido por Salazar em 1935, mas, felizmente, reintegrado nos anos quarenta. Como se vê (agora digo- o eu, em “à parte”), simples liberais eram objecto da repressão salazarista…

No suplemento do Actual do Expresso (24 de Julho de 2010), Rui Ramos escreveu, nos quarenta anos da morte de Salazar, um artigo de fundo sobre o ditador, que praticamente começa assim: “O problema está em que, se quisermos ser exactos, teremos de admitir que foi precisamente com Salazar que Portugal começou a ser menos pobre, menos analfabeto e mais europeu". Chavões deste tipo, com afirmações de meias verdades não contextualizadas, tornam a divulgação tendenciosa. O mesmo se dirá da afirmação, pura e simples: "O Estado Social em Portugal foi salazarista antes de ser democrático". Quanto à repressão, apesar de Ramos concordar que Salazar, quando queria, "podia ser implacável", o que fica no leitor é outro chavão: "Quando comparamos a ditadura salazarista com as suas contemporâneas, a quantidade repressiva é modesta". No que se refere ao colonialismo, refere aquilo que se poderia dizer de outra maneira e com outra contextualização explicativa, sem o efeito de frases que constituíam verdadeiros "slogans de propaganda": "O colonialismo não começou com Salazar. Liberais e republicanos tinham viabilizado as colónias, submetendo as populações ao trabalho forçado administrado pelo Estado". E, a terminar o artigo nem redigido – a boa escrita e a boa comunicação oral são dois factores, por paradoxal que pareça, muito perigosos na dita "divulgação da História", – escreve, simplificando e dando um tom de ficção literária à sua escrita: "Numa quinta-feira de céu cinzento, a 25 de Abril de 1974, tudo foi derrubado como um cenário de papelão. Nenhum movimento político reivindicou, desde então, as ideias de Salazar. Em 2007, a sua vitória num concurso televisivo foi mais um sinal de iconoclastia, contra o velho antifascismo oficial, do que saudosismo. Falamos dele, mas é isso: falamos. Valem-lhe os antifascistas para o conservarem ameaçadoramente 'vivo'. Terá ele imaginado este fiasco final? Nos seus últimos anos de vida, entre 1968 e 1970, não lhe disseram que fora substituído no Governo, mas, como notou Adriano Moreira, ele também não perguntou. Nunca quis saber o resto da história.

Palavras e frases, provavelmente bem construídas, mas sem nenhuma reflexão profunda... – é esta a técnica de divulgação de Ramos, parecendo não entender que a História supõe sempre uma análise e uma reflexão problematizadoras. Que fique claro, não é o facto de Rui Ramos se afirmar como "homem de direita" que me leva a estas considerações. Como cidadão pode ser o que quiser e entender, mas como historiador tem de seguir uma linha metodológica científica, mesmo na arte da divulgação. A menos que entenda que a História não é uma Ciência que procura a objectividade, mas uma pura ficção subjectiva que pode ser – utilizando as suas palavras – de "direita" ou de "esquerda".

Mais um contributo, muito importante, sobre a razão de ser desta polémica que envolve os historiadores, sobretudo quando se estudam temas muito próximos em termos temporais e quando as razões, contextos e conceitos de cada um podem influenciar as leituras que se fazem dos acontecimentos.

Uma reflexão serena, de base conceptual e metodológica que nos merece a melhor atenção e, sobretudo, porque incide em problemáticas da investigação histórica, tentando colocar de lado outras questões paralelas, essas sim secundárias e menos importantes para os interessados na temática.

A ler com toda a atenção.

A.A.B.M.

NAÇÃO, NACIONALISMOS E IDENTIDADES NACIONAIS: CONGRESSO APH, EM GUIMARÃES

Vai realizar-se em Guimarães, a 5 e 6 de Outubro de 2012, o Congresso Anual da Associação de Professores de História, subordinado ao tema: Nação, Nacionalismos e Identidades Nacionais.

O congresso cujo programa apresentamos em epígrafe conta com a participação de vários reconhecidos especialistas do nosso meio académico e não só. Assim, entre os oradores convidados encontram-se Saúl António Gomes, Stéphane Boissellier, Esther Mucznick para apresentarem as suas comunicações no dia 5 de Outubro.

No dia 6 de Outubro realizar-se-ão as conferências de Sérgio Campos Matos, Manuel Loff, Isabel Barca, Jorge Seabra, Maria Helena Pinto e Raquel Henriques.

O congresso realiza-se no Auditório da Universidade do Minho - Polo de Guimarães e aguarda certificação do CCPFC para os docentes interessados.

Uma iniciativa a acompanhar com todo o interesse a que desejamos o maior sucesso.

A.A.B.M.


terça-feira, 18 de setembro de 2012

JORNALISMO GRÁFICO E CENSURA NO ESTADO NOVO: CONFERÊNCIA



Na próxima quinta-feira (20 Set | 18H), na Biblioteca Museu República e Resistência - espaço cidade universitária, vai realizar-se uma conferência com o título em epígrafe com o Dr. Álvaro Costa de Matos, da Hemeroteca Municipal de Lisboa.

Esta conferência inscreve-se no ciclo de conferências a realizar durante a exposição sobre "Os Ridículos".

A não perder.

A.A.B.M.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

REVISTA SERÕES NA HEMEROTECA DIGITAL DE LISBOA



Ficou hoje disponível, online, para acesso de todos os interessados, uma das mais interessantes revistas do início do século XX, em Portugal, de seu nome Serões.

Esta revista que se publicou entre Março de 1901 e Dezembro de 1911, era juntamente com a Ilustração Portuguesa, O Ocidente e o Brasil -Portugal, todas já disponíveis na Hemeroteca Digital as principais revistas portuguesas de grande circulação.

Para um melhor conhecimento desta publicação recomenda-se uma leitura da ficha histórica da revista elaborada por Rita Correia, a consultar AQUI.

Na linha do excelente serviço público da Hemeroteca Municipal de Lisboa, que só podemos saudar e agradecer.

A.A.B.M.

domingo, 16 de setembro de 2012

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

CONGRESSO INTERNACIONAL: ENTRE A HISTÓRIA E O DIREITO - HOMENAGEM A ANTÓNIO MANUEL HESPANHA



Nos próximos dias 27 e 28 de Setembro de 2012, vai realizar-se um congresso internacional de homenagem a António Manuel Hespanha na Reitoria da Universidade Nova de Lisboa.

No texto de divulgação do congresso pode ler-se:

As várias décadas de ensino e de produção científica de António Manuel Hespanha, assim como o grande impacto do seu pensamento nas áreas da História e do Direito, motivaram a realização do presente congresso de homenagem.

Concebido de forma a congregar muitos dos que se vincularam ao pensamento de António
Hespanha, este congresso tem como finalidade promover o diálogo com a sua multifacetada obra.

Foram por isso definidos quatro painéis, os quais reflectem os vários caminhos e cruzamentos que consistentemente trilhou: «História jurídica e institucional das épocas moderna e contemporânea», «Sistemas políticos do Antigo Regime e suas extensões coloniais», «Teorias do Direito» e «Comunicação, textos e representações». Apesar de estarem longe de esgotar a riqueza do percurso académico, científico e político de António Hespanha, estes quatro painéis funcionam como prismas através dos quais é possível observar os diversos reflexos da sua obra.

O trabalho intelectual de António Hespanha sempre se caracterizou por um diálogo fundado no rigor científico, na hermenêutica e no contraditório, sendo frequentemente marcado pela inquietude provocada pelas dificuldades políticas e sociais contemporâneas, as quais Hespanha nunca se furtou de pensar criticamente, tanto nas suas aulas quanto nos seus textos. Em sintonia com essa atitude, este congresso pretende promover um debate plural e multidimensional, e ambiciona, também,
suscitar um repositório de questões que sirva de inspiração para novos itinerários de investigação.


A Comissão Organizadora do congresso é constituída por: Ângela Barreto Xavier, Cristina Nogueira da Silva, José Subtil, Mafalda Soares da Cunha,Maria Teresa Beleza, Nuno Camarinhas, Nuno Gonçalo Monteiro, Pedro Cardim.

Ao longo de dois dias vão ser debatidos em três paineis a decorrer em simultâneo na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e na Reitoria da Universidade Nova de Lisboa, que contam com a participação de mais de sete dezenas de investigadores, onde se destacam na área da História: Joana Estorninho de Almeida, Fátima Moura Ferreira, Miriam Halpern Pereira, Maria João Vaz, Ana Margarida Seixas, Rui Tavares, André Belo, José Vicente Serrão, Luís Nuno Rodrigues, entre muitos outros.

Um evento a acompanhar com atenção e cujo programa completo pode ser consultado AQUI.

A.A.B.M.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

JOSÉ DO VALE (Parte III)


Colabora com a Liga Contra a Lei de 13 de Fevereiro de 1896, que previa a deportação de agitadores e anarquistas para África e Timor, logo baptizada "lei celerada” pelo Partido Republicano, devido ao seu carácter repressivo. Nesse âmbito realiza pelo menos uma conferência, no Grémio Federal Republicano, situado na Rua do Benformoso, nº 238, 2º, pelas oito horas da noite, em 13 de Setembro de 1906. Mais tarde envolve-se no combate à Lei de 11 de Abril de 1907, uma nova tentativa de limitar a acção da imprensa, com critérios editoriais muito limitados, tendo realizado uma nova conferência em 18 de Janeiro de 1908, no Centro Rodrigues de Freitas.

A propósito dos vários episódios de detenções de José do Vale, afirmou Afonso Costa em pleno Parlamento, a 13 de Maio de 1908, num dos momentos de detenção deste juntamente com Macedo de Bragança e Mendes de Almeida. Numa intervenção muito crítica em relação às autoridades policiais da época, em particular a polícia civil de Lisboa:

Uma das prisões, a que quero especialmente referir-me, é a do meu amigo José do Vale, jornalista do diário republicano O Mundo, o qual já conta no seu activo não menos que catorze prisões, algumas muito demoradas, todas realizadas pela polícia, nenhuma mantida pelo poder judicial, e até uma delas solenemente exautorada pela Boa Hora, que o absolveu, apesar de ser então o período negro da lei de 13 de Fevereiro, em cujas malhas tenebrosas a polícia o quis envolver.
Certamente José do Vale tem ideias avançadas, sonha com uma sociedade em que a autoridade se eliminará sucessivamente até desaparecer de todo; mas é, por isso mesmo, um bom, um honesto, um trabalhador, um simples, e não me parece que estas qualidades o tornem um ser perigoso…
Todavia, na madrugada de 10 de Abril, ele foi preso, ao sair de O Mundo, quando ia procurar em sua casa o descanso a que tinha direito.
Os polícias que o prenderam não souberam ou não quiseram dizer-lhe porque o prendiam. E lá o levaram para a esquadra de D. Fradique, para a sua esquadra, como ele já lhe chama por tantas vezes o terem recolhido nela… (Risos)
Ali esteve dois dias sem que dele fizessem o menor caso!
Em 12, apareceram-lhe dois agentes, e não o Sr. Juiz, ou algum seu delegado, para o interrogarem. Quiseram convencê-lo de que tinha aliciado gente para as arruaças de 5 e 6 de Abril, mas, como ele os desarmasse com a sua serenidade e inocência, os polícias, segundo a sua própria linguagem …, encavacaram.
(…)
É por isso, só no dia 15 foi solto, não se tendo feito, entretanto, nem sequer à saída, qualquer novo interrogatório, não tendo ao menos o Sr. Juiz de instrução chamado José do Vale à sua presença para lhe pedir desculpa do erro e para lhe pedir licença para apertar a sua mão.


A referência à sua situação, ao exemplo que representava para uma parte da sociedade que criticava a situação política estabelecida e que via constantemente colocadas em causa as suas convicções políticas, sofrendo represálias e retaliações mais ou menos violentas.

Como afirma Alice SamaraAfonso Costa defendeu um homem que não tinha as suas convicções políticas, com alguma sobranceria, é certo, quando o apelidou de “simples”. Este deputado afirmou que ele não era perigoso, o que trouxe um peso mais significativo a tudo o que sofreu nas mãos da polícia”.
[Alice Samara, Repúblicas da República. História, Cultura Política e Republicanismo, FCSH-UNL, Lisboa, 2010, p. 239 (dissertação de doutoramento) disponível aqui]


Segundo várias indicações, José do Vale esteve logo nos momentos fundadores da Carbonária, neste caso da Carbonária Lusitana, ou também designada dos anarquistas, em Lisboa, ao lado de Heliodoro Salgado, Benjamim José Rebelo, Júlio Dias, Sebastião Eugénio, e vários democratas e anarquistas de Alcântara, que constituíam o núcleo de resistência da chamada Aliança Revolucionaria. Esta organização deu depois lugar á loja irregular Obreiros do Futuro, instalada na Rocha do Conde de Óbidos numa casa pertencente ao Crédito Predial e que foi alugada ao próprio José do Vale pelo sr. José Belo, naquele tempo administrador das propriedades da referida companhia.

A loja Obreiros do Futuro, ao tempo irregular, congregou durante algum tempo quase todos os elementos radicais e mais avançados que existiam em Lisboa. A ela pertenceram os homens que mais tarde o juiz de instrução criminal devia encarcerar como implicados em incidentes da politica interna (que o grande publico conheceu vagamente sob a designação de atentados anarquistas) e dela saíram resoluções vigorosas cuja descoberta o ex-irmão Hoche dessa época pagaria por bom preço.
[Ver AQUI]

A denominada Carbonária Portuguesa, de origem académica, do maçom Luz de Almeida, Machado de Santos, etc, vai manter relações privilegiadas com a Loja Montanha, que aparece mais tarde, e que não se pode confundir com a denominada Carbonária Lusitana, de pendor anarquista - daí ser conhecida pela Carbonária dos Anarquistas - muito sigilosa, a que pertenceram os anarquistas José do Vale, Ribeiro de Azevedo, entre outros [António Ventura, Carbonária em Portugal, por Museu Republica e Resistência, 1999].

Em 23 de Fevereiro de 1908, no Centro Republicano Rodrigues de Freitas realizou-se um banquete de homenagem aos srs. Macedo Bragança, José do Vale, Ricardo Covões, António Fernandes e Juvenal Sacadura que estiveram presos no Forte de Caxias, por ocasião dos últimos acontecimentos políticos. O banquete com 48 talheres correu de forma muito animada.

Em Fevereiro de 1911, a Associação do Registo Civil promoveu uma romaria às sepulturas de Costa e Buiça. Segundo A Vanguarda, alguns grupos revolucionários e ligados ao livre-pensamento, convidados pelo Grémio Excursionista José do Vale, promoveram a visita às sepulturas dos “(…) livres-pensadores e revolucionários Alfredo Costa e Buiça, assassinados no dia 1 de Fevereiro de 1908 no holocausto à causa da liberdade.” As homenagens a estes dois homens correram paralelas a outras, ou seja, promoveram uma romagem a campas de outros consócios, designadamente Cândido dos Reis, Miguel Bombarda e Heliodoro Salgado.
[Alice Samara, Repúblicas da República, 2010, p. 114]

Durante o mês de Maio de 1911, realizou-se o Congresso Sindicalista, ao longo de três semanas. Na nona sessão do congresso regista-se a intervenção de Joaquim Domingos, que dá conta da defecção de José do Vale e propõe a sua exclusão do congresso. Esta situação foi suscitada devido à publicação de uma carta no jornal O Mundo onde apresenta um conjunto de razões que justificariam a sua atitude. Mas os congressistas não aceitaram as explicações apresentadas e o anarquista acabou por ser afastado. [O Congresso Sindicalista de 1911, César de Oliveira (pref. Notas e selecção de Textos), Afrontamento, Porto, 1971, p. 80]

Afirmava José do Vale na referida carta publicada no jornal O Mundo:

Meus caros camaradas: Venho por este meio desta carta despedir-me de vós, porquanto renuncio à representação que me deu o Germinal, de Setúbal. Os motivos do meu procedimento são, por enquanto, de carácter muito pessoal (...). O facto principal já deve ser por vós conhecido: depois de muita solicitação de queridos amigos meus, aceitei uma candidatura, sem qualquer carácter de filiação partidária, e apenas como livre pensador e amigo dos operários. Mais nada.
[O Mundo,25-05-1911 apud. Luís Vidigal, Cidadania, Caciquismo e Poder. Portugal, 1890-1916, Livros Horizonte, Lisboa, 1988, p. 97-98]

Foi candidato às eleições Constituintes de 1911, realizadas a 28 de Maio, pelo círculo de Aldeia Galega (Montijo). Era o círculo eleitoral nº 38, que integrava ainda os concelhos de Alcochete, Almada, Barreiro, Sesimbra, Moita e Seixal, mas não conseguiu a eleição para deputado, já que os eleitos por esse círculo foram: Celestino de Almeida, Teixeira de Queirós, Luís Fortunato da Fonseca e Gastão Rodrigues. José do Vale obteve 475 votos no círculo [“Eleições”, Vanguarda, Lisboa, 30-05-1911, Ano 21, nº 7484, p. 1,col. 7].

Foi redactor da Câmara dos Deputados.

José do Vale visitou Évora em Janeiro de 1912, acompanhando o movimento grevista que se vivia pela cidade [“José do Valle”, O Carbonário, Évora, 21-01-1912, Ano I, nº 62, p. 1, col. 2-3].

Participa ainda no Congresso Operário, realizado em Tomar em Março de 1914.

Enquanto colunista no jornal O Mundo foi dos primeiros em Portugal a tomar posição sobre a Revolução Russa de Outubro de 1917, publicando um conjunto de artigos sobre o tema.

Foi redactor de jornais como a Vanguarda, a Capital, a República, O Mundo, O Rebate, O Carbonário, de Évora, O Sindicalista, A Revolta, A Obra, Revista Republicana, Archivo Republicano, O País, O Germinal, de Setúbal, entre outros.


José do Vale faleceu a 11 de Junho de 1927.


Entre as centenas de artigos que escreveu nos jornais conseguimos localizar alguns para dar referência da sua existência:
- Páginas de Propaganda. Religião e Autoridade. A Missão dos Círios Civis / José do Valle. - Lisboa : Instituto Geral das Artes Gráphicas, 1899. - Bibliotheca do Cirios Civil Estrela
Em comemoração do 2º aniversário -29 de Outubro de 1899

- “O Algarve Operário I”, Vanguarda, Lisboa, 15-08-1903, Ano VIII (XIII), nº 2437 (5290), p. 1, col. 6;
- - “O Algarve Operário II”, Vanguarda, Lisboa, 21-08-1903, Ano VIII (XIII), nº 2443 (5298), p. 1, col. 1.
- “Terra e Liberdade. Resposta a Tarik”, Vanguarda, Lisboa, 02-09-1903, Ano VIII (XIII), nº 2455 (5308), p. 1, col. 1 e 2;

- “Heliodoro Salgado e o Livre Pensamento”, Revista Republicana, Ano I, 08-12-1906, p. 3.
- “A Liberdade”, Almanach Democrático para 1908, Typ. Liberty, Lisboa, 1908, p. 55.
- “As Mulheres e a Liberdade”, A Mulher e a Criança, Ano I, nº 5, Agosto, 1909, p. 5;

- “Janeiro-Revolução”, Archivo Republicano, Lisboa, Março 1910, Ano I, nº3, p. 20-21;
- “Um Homem- A Monarquia encontra o seu mais implacável adversário em Afonso Costa”, Archivo Republicano, Lisboa, Julho de 1910, Ano I, nº 7, p. 59-60; reproduzido no Almanach de O Mundo para 1911, Imprensa Libânio da Silva, Lisboa, 1911, p. 299-300;
- 1o de Maio : a manifestação dos trabalhadores, O Mundo, Lisboa, 01-05-1911,A.11, n. 3772, p.2;
- As victimas de Timor : o ultimo que regressa, O Mundo, Lisboa, 17-06-1911, A.11, n. 3819, p.3;

- Um homem da Republica : Alexandre Braga um lutador de rara eloquência, O Mundo, Lisboa, 08-05-1921, A.21, n. 7.065, p.1;
- Carta aos republicanos que já o eram em 5 de Outubro de 1910, O Mundo, Lisboa, 27-06-1921, A.21, n.o 7.115, p.1;
- Movimento Liberal : os republicanos perante a acção do clericalismo, O Mundo, Lisboa, 25-07-1921, A.21, n.o 7.143, p.1;
- O sr. presidente da República e a Nação, O Mundo, Lisboa, 29-10-1921, A.22, n.o 7.237, p.1;

- “Luís Derouet”, Archivo Republicano, Lisboa, Fevereiro de 1912, Ano IV, nº 26, p. 206;
- “Recordações do mês de Fevereiro”, idem, p. 207;
- “Rússia Trágica. A propósito de uma execução”, Almanach de O Mundo para 1912, Tipografia Casa Portuguesa, Lisboa, 1911, p. 251-252;
- “Caixa Económica Operária”, Almanach de O Mundo para 1913, Tipografia Casa Portuguesa, Lisboa, 1912, p. 297;
- “O Mundo e o seu aniversário”, Archivo Republicano, Lisboa, Setembro de 1913, Ano IV, nº 27, p.217;
- “Uma tradição que não se apaga” Archivo Republicano, Lisboa, Setembro de 1913, Ano IV, nº 27, p. 217-219;
- «Editorial», Germinal,Setúbal, 5/11/1910;
- “O 1º de Maio é uma luta dos trabalhadores contra a burguesia”, O Corticeiro, Lisboa, 01-05-1912, IV Ano, nº 149, p. 1;

- A Revolução burguesa e a Revolução social / José do Valle. - Lisboa : A. Lima da Costa, 1911. - (Biblioteca Sociológica).

A.A.B.M.

sábado, 8 de setembro de 2012

ALFREDO DE MORAES - "SOLDADO INFANTARIA PORTUGUESA"


ALFREDO DE MORAES - "Soldado infantaria portuguesa" (Bilhete Postal)

ALFREDO JANUÁRIO DE MORAES nasceu a 19 de Setembro de 1872, em Lisboa, e foi um dos mais “prolíficos ilustradores portugueses”. Estudou na Escola de Belas Artes, foi "chefe de litografia da Imprensa nacional e um dos fundadores da Sociedade Nacional de Belas Artes, onde ensinou gratuitamente durante vinte anos" [cf. Dicionário dos Autores de Banda Desenhada e Cartoon em Portugal, Época de Ouro, 1999, pp.89-90].

"Com um frasquinho de tinta-da-china e uma caneta na algibeira, percorria as tipografias e, ali mesmo, desenhava o que fosse necessário. Embora laureado como aguarelista, no estilo de Alfredo de Moraes o mais impressivo é a concisão e o poder descritivo do traço nos desenhos a caneta" [ibidem].

Ilustrou (capas, desenhos e cartoons) para vários periódicos, como o Amigo da Infância (1894-1940), Branco e Negro (1896), Brasil-Portugal (1899), O Século, O Século Cómico (1913), O Mundo, o Diário de Notícias, a Folha do Povo ou o Diário da Manhã; ilustrou folhetins de aventuras e mistério [como o Capitão Morgan, Texas Jack, Sherlock Holmes, Jim Joyce, Raffles, Miss Carter, …] no ABC-zinho (1922), os Ridiculos (1905), O Carlitos, Pim-Pam-Pum, Acção Infantil.

Fez ilustrações para livros e fascículos (hoje disputadíssimos, raros e de colecção) como a 1ª edição dos “Serões no Japão” de Wenceslau de Moraes ou para a tradução de D. Quixote. Desenhou um conjunto apreciável de desenhos para livros escolares, vinhetas e postais. Figurou na V Exposição do Grémio Artístico (1895), na I Exposição da Sociedade Nacional de Belas Artes (1901), foi galardoado com a medalha de honra da SNBA e a medalha de ouro no Rio de Janeiro, encontrando-se representado em vários museus, como o Militar, Museu do Chiado, Museu Regional Grão Vasco. Trabalhou, graficamente, em parceria com Roque Gameiro. Utilizou nalguns trabalhos o pseudónimo de Fauno.

Morre a 6 de Fevereiro de 1971, em Lisboa.

FOTO via Memória da República, com a devida vénia.

J.M.M.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

CARTILHA "NORMALIZADA" DO ESTADO NOVO?


"Não era minha intenção intervir na polémica que neste jornal tem oposto os historiadores Rui Ramos (RR) e Manuel Loff (ML), a propósito dos conteúdos sobre a História do século XX da de que o primeiro é, respectivamente, autor e co-autor. E não o faria, se o inacreditável artigo de Filomena Mónica (FM) publicado nestas colunas (1/8 - jornal Público) a tal me não tivesse obrigado.

Permitam-me que comece por situar a questão, tal como a vejo: é ou não científica e civicamente relevante discutir criticamente os pontos de vista que enformam a versão da História política do século XX subscrita por RR? Eu acho que sim. Porque é um texto bem escrito, porque teve ampla divulgação e, sobretudo, porque é matéria que se prende umbilicalmente com a forma como pretendemos legitimar o presente e fazer o futuro. No meu entender, foi precisamente isso que, à sua maneira e no seu estilo assertivo, mas onde não vislumbro nada de insultuoso ou pessoalmente difamatório para o criticado, julgo que Manuel Loff pretendeu fazer. Na realidade, essa parte da História de Portugal de RR, no seu modo corrente e aparentemente desproblematizador, no seu jeito de discurso do senso comum superficial e para o 'grande público', é um texto empapado de ideologia. Uma ideologia que faz passar a visão da I República como um regime ditatorial, 'revolucionário' e de 'terror', por contraponto a um Estado Novo ordeiro e desdramatizado, quase banalizado na sua natureza política e social, transfigurado em ditadura catedrática, em regime conservador moderado e aceitável, apesar de um ou outro abuso. Essa visão — em vários aspectos semelhante ao próprio discurso propagandístico do Estado Novo sobre a I República e sobre si próprio — carece, a meu ver, de qualquer sustentação histórica. E, talvez por isso mesmo, convém salientá-lo, não é subscrita, ao que me parece, por uma significativa parte de historiadores e investigadores que, com diferentes perspectivas, trabalham sobre este período.

O que julgo intelectualmente inaceitável é que alguns dos candidatos do costume a sacerdotes do 'pensamento único' venham ameaçar com a excomunhão do seu mundo civilizado quem não aceitar o que eles parece quererem transformar numa espécie de cartilha 'normalizadora' do salazarismo e da sua representação histórica. Peço licença para dizer que, como historiador e como cidadão, não me intimidam. E por isso vamos ao que interessa.

É bem certo que a I República, e já várias vezes o escrevi, não foi, obviamente, uma democracia nem política, nem socialmente, sobretudo no sentido moderno do termo. Com o seu liberalismo oligárquico, com as suas perseguições políticas (sobretudo na sua primeira fase contra as conspirações restauracionistas) e principalmente sociais (contra o movimento operário e sindical), foi um regime de liberdade frequentemente condicionada, à semelhança da maioria dos regimes liberais da Europa do primeiro quartel do século XX. Mas com o ser isso tudo, foi um sistema imensamente mais liberal e aberto do que o Estado Novo da censura prévia, da proibição e perseguição dos partidos, dos sindicatos livres, do direito à greve e da oposição em geral, da omnipresença da polícia política e da violência arbitrária, da opressão quotidiana dos aparelhos de repressão preventiva e de enquadramento totalizante. E tenho para mim que isso não é banalizável ou 'normalizável'. Nem histórica, nem civicamente. É por isso que os valores matriciais da I República puderam ser os da resistência à ditadura salazarista e enformaram, como referência, os constituintes democráticos de 1976.

Infelizmente, RR não compareceu a este debate. Refugiou-se sob o manto de uma pretensa intangibilidade moral, ou seja, de uma vitimização construída a partir, na realidade, da deturpação dramatizante das críticas do seu interlocutor. FM fez bem pior. Sem aparentar perceber nada de nada, veio à liça reclamar contra o facto de ML romper o consenso que ela acha que existia em torno do 'terror republicano', apodá-lo de 'marxista leninista' e de 'historiador medíocre' — quem falou de insultar? — sem discutir um único dos seus pontos de vista e confessando desconhecer e não querer conhecer a obra de ML! E embalou: a 'deturpação de um texto', diz FM, está na natureza dos comunistas e apela sem rebuço à censura do 'seu' jornal contra tal gente. Isto tudo, claro está, porque, como se terá percebido, FM 'gosta de controvérsia'...

Para mim, ao contrário, acho absolutamente necessário que RR e FM continuem a ter pleno direito à palavra. Pelo menos, isso mantém-nos atentos e despertos relativamente aos 'demónios capazes de despertar o pior da cultura portuguesa' (António Barreto dixit)"

FERNANDO ROSAS, in jornal Público, 5 de Setembro 2012, p. 47

[texto via Entre as Brumas da Memória - sublinhados nossos -, com a devida vénia]

J.M.M.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

MUNDO LITERÁRIO


MUNDO LITERÁRIO. Semanário de crítica e informação literária, científica e artística, Lisboa, Ano I, nº 1 (11 Maio 1946) ao Ano II, nº 53 (1 Maio de 1948); Propr: Editorial Confluência, Lda; Editor: Luís de Sousa Rebelo; Director: Jaime Cortesão Casimiro (e Adolfo Casais Monteiro), 1946-48, 53 numrs

[Alguma] Colaboração: Adolfo Casais Monteiro, Alberto Ferreira, Alexandre O’Neill, Álvaro Salema, Alves Redol, António Pedro, António Ramos de Almeida, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Branquinho da Fonseca, Eugénio de Andrade, João Gaspar Simões, João José Cochofel, Jorge de Sena, José Blanc Portugal, José Régio, Júlio Pomar, Mário Dionísio, Mário Sacramento, Ruy Luís Gomes, Sant’Anna Dionísio, Tomaz Kim, Victor de Sá, Vitorino Magalhães Godinho.

"... A escolha dos colaboradores norteava-se por um critério obviamente não declarado, mas que não era difícil de inferir: o de não apoiarem ou colaborarem com o Estado Novo, tendo a maioria deles subscrito as famigeradas listas do MUD contra o Governo.

Não faltaram problemas com a Censura, que me cabia contactar nessas situações e, para evitar uma primeira suspensão, fomos forçados por ela a 'Declaração' publicada no n.° 6.

A colaboração era remunerada e, em Maio de 1947, as dificuldades financeiras e dívidas acumuladas impuseram a suspensão, que anunciámos no n.° 52, de 3 de Maio de 1947. Consegui, ao fim de quase um ano, o apoio da Editorial Cosmos, gerida por Manuel Rodrigues de Oliveira, após contacto com o Prof. Bento de Jesus Caraça, e o n.° 53 surgiu em l de Maio de 1948, no qual se assinalava que Casais Monteiro abandonara o Corpo Directivo, continuando a dar-nos a sua colaboração. Foi o pretexto para a Censura decidir acabar com o semanário, invocando o que considerava uma intolerável guinada para a esquerda e denunciando em especial a sua falta de confiança no novo corpo directivo e na reportagem 'Alfambras, Terras Perdidas' de Maia de Jesus [acerca da miséria da população algarvia]. Desde então, a Censura recusava-se a devolver, visadas ou cortadas, as provas dos textos a publicar. E quando insistíamos por carta para saber as razões da sua atitude, era-nos respondido apenas que confirmavam o que sobre o assunto haviam dito ao director Jaime Casimiro.

Ainda cheguei a procurar António Ferro que me remeteu para Luís Forjaz Trigueiros, salvo erro ao tempo Director do Diário Popular. Ao contactar este último, tornou-se claro que se pretendia tutelar por este meio o Mundo Literário. Desistimos então ...
" [Jaime Cortesão]

via FRENESI

J.M.M.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

IN MEMORIAM DO MAJ. GEN. AUGUSTO JOSÉ MONTEIRO VALENTE (1944-2012)


O Major General Augusto José Monteiro Valente, “antigo segundo comandante-geral da GNR ... morreu hoje em Coimbra, aos 68 anos ...

Nascido em Coimbra, em 1944, mas com ligações familiares ao concelho de Almeida, distrito da Guarda, exerceu na Guarda Nacional Republicana (GNR) os cargos de comandante da Brigada Territorial 5 (1999-2001), inspector-geral (2001-2002) e segundo comandante-geral (2002-2003). Presidente da delegação regional do Centro da Associação 25 de Abril, Augusto Monteiro Valente era investigador associado do Centro de Documentação 25 de Abril e do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, ambos da Universidade de Coimbra, e colaborador da Revista Militar.

Manteve ainda intensa actividade cívica como especialista em questões militares, dando também significativa atenção ao estudo do republicanismo e das revoltas militares de resistência à ditadura de Salazar e Caetano. Incorporado na Academia Militar em 1963, terminou a licenciatura em Ciências Militares - Infantaria três anos depois, tendo passado à situação de reserva em 2003.

Entre outras formações superiores, era ainda licenciado em História, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde concluiu uma pós-graduação em Estudos Europeus. Nos últimos anos, Monteiro Valente empenhou-se na preservação da memória do general Gastão Sousa Dias sendo autor de uma biografia deste democrata e antifascista, publicada pela Câmara Municipal da Guarda, no âmbito da colecção 'Gentes da Guarda'. Monteiro Valente era também presidente da Associação Casa de Cultura Prof. Dr. José Pinto Peixoto, com sede em Miuzela, concelho de Almeida
” [in jornal Público]

O Almanaque Republicano, nesta hora de dor e tristeza, apresenta os nossos sentimentos sinceros de saudade, expressando as nossas sentidas condolências à família e amigos do Maj. Gen. Monteiro Valente.

[O funeral decorre amanhã, pelas 10h, no crematório da Figueira da Foz]

J.M.M.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A REPÚBLICA POR ANTERO DE QUENTAL





"A República é, no estado, liberdade; nas consciências, moralidade; na industria, produção; no trabalho, segurança; na nação, força e independência. Para todos, riqueza; para todos, igualdade; para todos, luz..."

[in A REPUBLICA. Jornal da Democracia Portugueza, Ano I, nº1, 11 Maio de 1870]

via José Adelino Maltez Facebook.

J.M.M.

ANAIS DO MUNICÍPIO DE FARO, VOL. XXXVII


Vai ser apresentado no Museu Municipal, em Faro, no próximo dia 7 de Setembro de 2012, pelas 17 horas, o vol. XXXVII dos Anais do Município de Faro, com a coordenação do Prof. Doutor Joaquim Romero Magalhães e contando com a apresentação do Dr. José de Matos Guita.

O índice do presente volume conta com os seguintes trabalhos:


Os Anais do Município de Faro, criados por iniciativa de José António Pinheiro e Rosa, têm procurado manter numa base anual de publicação, alguns estudos sobre Faro e o seu concelho, bem como toda a região do Algarve.

Uma iniciativa que se saúda e a divulgar.

A.A.B.M.

A GERAÇÃO DE 1870


► "A GERAÇÃO DE 1870", por Manuel Mendes [1906-1969], Lisboa, Jornal do Fôro, 1960 [capilha de João Abel Manta], VI fascículos, 344 pgs [aliás 336]

"Obra, que seria de grande fôlego ensaístico se o autor tivesse tido a oportunidade de nos dar a conhecer o que aqui falta. Porém, com (...) toda a sua obra de escritor condicionada pela censura prévia, apenas nos jornais clandestinos e manifestos da Oposição Democrática a sua pena exprimiu de forma contundente aquilo que sentia ..." [Ver Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, vol. IV, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1998]"

via FRENESI, com a devida vénia.

J.M.M.

sábado, 1 de setembro de 2012

JOSÉ DO VALE (Parte II)


Desde 1896 que existem referências à actividade política de José do Vale. Ainda bastante jovem integrou a Associação de Classe dos Trabalhadores, que procurava agrupar os ajudantes dos operários da construção civil. Nessa altura próximo da facção socialista de Ernesto da Silva e contestando a direcção de Azedo Gneco no Partido Socialista.

A partir do ano seguinte e integrando o núcleo de colaboradores de A Obra, jornal de pendor intervencionista, revolucionário, passando em 1897 a pertencer à equipa de redactores deste jornal. Segundo Edgar Rodrigues, A Obra foi fundada em 9 de Julho de 1891, tendo como director inicialmente Guedes Quinhones, mais tarde J. Fernandes Alves e, posteriormente, Francisco Cristo. O editor do jornal era Francisco Maria Bandeira. Este jornal era o órgão dos carpinteiros civis e do operariado em geral. A redacção deste semanário situava-se na Rua da Barroca, 29, 1º, em Lisboa. Contou entre os seus colaboradores Heliodoro Salgado, Ernesto da Silva, Ribeiro de Azevedo, além dos anteriormente referidos. Este jornal evolui depois do socialismo possibilista para o anarquismo, anti-eleitoralismo e de tendência pró-republicana. Terminou publicação em 1906 [Edgar Rodrigues, O Despertar Operário em Portugal (1834-1911), Editora Sementeira, Lisboa, 1980, p. 275; Victor de Sá, Roteiro da Imprensa Operária e Sindical (1836-1986), Editorial Caminho, Lisboa, 1991, p. 81].

Em 1899, José do Vale juntamente com Heliodoro Salgado e outros activistas fundaram a Liga dos Livre Pensadores, tendo muitos deles estado na base da organização do Congresso Anticlerical que anteriormente referimos. Ainda devido à sua participação nesse congresso acabou por ser detido devido aos desacatos e desordens que ocorreram durante o mesmo. Nessa altura foi acusado de “vadiagem”. No ano seguinte volta a ser preso entre Março e Junho de 1901. Situação que veio a conhecer variadas vezes ao longo da sua vida.

Colabora, como redactor na revista Mocidade, revista mensal que se publicou em Lisboa entre 1 de Março de 1899 e Fevereiro de 1905. Numa edição de Cândido Chaves, contou com colaboração de Trindade Coelho, João de Barros, Luís da Câmara Reis, Álvaro de Castro, Cândido Guerreiro, Carlos Olavo, Alfredo Pimenta, João de Deus Ramos, Joaquim Manso, Ramada Curto, Tomás da Fonseca, Utra Machado, Campos Lima, Francisco Queirós, Pulido Valente, entre outros. Encontram-se três séries nesta revista, a primeira com 9 números; a segunda com 12 e a terceira e última, com 4 números. Uma das particularidades desta revista é contar com uma larga colaboração de Câmara Reis e de Álvaro de Castro [Daniel Pires, Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX (1900-1940), Grifo, Lisboa, 1986, p. 238-239]. Muitos dos colaboradores desta revista eram jovens estudantes, republicanos e anarquistas que viriam depois a assumir outras posições na vida política e cultural do País.

Em 1901, Bartolomeu Constantino e José do Vale, entre outros, organizaram a fundação da Federação Socialista Livre, onde Vale desempenhava as funções de secretário [António Ventura, A Carbonária em Portugal (1897-1910), Livros Horizonte, Lisboa, 2004, p. 53]. Publica-se também por essa altura aquele que viria a ser o órgão desta organização política: O Germinal. Esta federação volta a ser refundada em 1905 e mostra o fraccionamento que o movimento vivia nesse período, com anarquistas defendendo a revolução e a República como soluções para os problemas que se viviam no final do século XIX e início do século XX, em simultâneo outros grupos libertários que propunham soluções mais ou menos radicais.

José do Vale, entretanto, passa a viver como empregado do comércio e torna-se correspondente em Lisboa, do jornal portuense A Reacção, começando também a colaborar com A Vanguarda de forma regular, constando como redactor desse jornal desde Março de 1903. Nessa altura acompanhou uma missão de propaganda republicana ao Algarve que deram origem a um conjunto de artigos publicados nesse jornal em Agosto e Setembro de 1903 sob o título “Algarve Operário”.

Em Março de 1904, vamos encontrá-lo como membro do comité sul da Liga dos Livres Pensadores, organismo que deveria funcionar como elemento de ligação à Federação Internacional do Livre Pensamento. Foi um dos participantes na reunião realizada em Abril de 1904, na Associação dos Lojistas de Lisboa, onde se criticaram os acontecimentos ocorridos em Alcalá del Valle a 1 de Agosto 1903. Esta manifestação de pendor anarquista, na vizinha Espanha, provocou grande emoção entre os libertários e socialistas europeus. Em Lisboa, os acontecimentos foram difundidos pela Federação Socialista Livre, tendo, na ocasião discursado, para além de Sá Pereira, Magalhães Lima, Heliodoro Salgado, França Borges, Ramada Curto e José do Vale, entre outros.


Integrou, ainda em 1905, a Comissão do 2º Centenário de António José da Silva (O Judeu), que era constituída por Augusto José Vieira, Fernão Boto Machado, Carlos Cruz, Dâmaso Teixeira, França Borges, Joaquim Madureira, Luz de Almeida, Mayer Garção, Teófilo Braga, Magalhães Lima, Macedo Bragança, Israel Anahory, Martins Monteiro, Silva Fernandes, Sá Pereira, Fernando Reis e José do Vale.

Em 3 de Junho de 1907 teve início do julgamento de Magalhães Lima e José do Vale, do jornal Vanguarda, por crimes de liberdade de imprensa.

Segundo Armando Ribeiro, José do Vale foi contactado oficialmente através de carta enviada pelo próprio Ferreira do Amaral através de Bernardino Machado, para garantir que durante as exéquias fúnebres de D. Carlos não voltassem a existir atentados por parte dos núcleos de anarquistas intervencionistas [Armando Ribeiro, A Revolução Portuguesa, Edições João Romano Torres, Lisboa, 1915, p. 465-466]. Segundo contam outras fontes, José do Vale percorreu todos os núcleos anarquistas que conhecia na região de Lisboa, durante a noite para garantir que tudo decorreria de modo normal e foi isso que garantiu na carta que retribuiu a Bernardino Machado no dia seguinte e que viria a ser entregue ao conselheiro Ferreira do Amaral.

Durante o I Congresso Sindical e Cooperativista, realizado em 1909, em Lisboa, estabelece-se a ruptura entre sindicalistas e socialistas, saindo os sindicalistas anarquistas José do Vale, Constantino Martins, Denis de Morais, Alfredo Ladeira.

[Em continuação]

A.A.B.M.