sábado, 12 de abril de 2014

95º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE FERNANDO NAMORA: CONFERÊNCIA

No próximo dia 15 de Abril de 2014, na Casa Museu Fernando Namora, em Condeixa-a-Nova, realiza-se uma conferência para assinalar o 95º aniversário de nascimento do escritor e médico Fernando Namora.

A convidada para esta evocação é a Prof. Doutora Isabel Pires de Lima, que proferirá uma conferência subordinada ao título: Fernando Namora: o escritor e o(s) seu(s) mundo(s).

Um evento a acompanhar e a divulgar.

A.A.B.M.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

FRANCISCO XAVIER DA CUNHA ARAGÃO (Parte II)

Francisco Xavier da Cunha Aragão foi promovido a alferes da arma de cavalaria em 11 de Novembro de 1911. Promovido a tenente em 13 de Novembro de 1913.

Quando em 12 de Dezembro de 1914, uma força avançada alemã estaciona na margem esquerda do rio Cunene, considerado território português, frente aos morros de Calorque, a 12 quilómetros de Naulila, e são os dragões de comandados por Cunha Aragão que entram em contacto com o invasor, fazendo nessa altura um prisioneiro. Na sequência desse aprisionamento, as tropas portuguesas tomam conhecimento das intenções e do número das tropas alemãs. No dia seguinte, Aragão aproxima-se de novo do invasor e ataca-o, fazendo dois novos prisioneiros e provoca algumas baixas nos soldados alemães.

Francisco Aragão advoga um ataque imediato e maciço contra o invasor, mas a hierarquia  impede-o de avançar. Nesse contexto, chega a ser censurado pelos superiores hierárquicos pela sua iniciativa. O seu esquadrão, constituído por 47 homens realiza um exaustivo serviço de vigilância até 18 de Dezembro.

No dia 18 de Dezembro, as forças alemãs organizam-se e antecipando alguma iniciativa portuguesa de ataque, avançam para Naulila. Aragão enfrenta as tropas comandadas pelo major Van Franck que atacam Naulila. Bate-se brilhantemente com a coluna do capitão Van Vater, que subia o rio Cunene. Aragão foi ferido e fica prisioneiro dos alemães. 

Depois da sua libertação e do seu regresso a Portugal, Francisco Aragão uma série de declarações no Funchal em que repudia a ditadura de Pimenta de Castro e exorta à entrada de Portugal na guerra para vingar a afronta alemã. Na sequência disto, em Lisboa, Fernando Pessoa elabora um conjunto de textos que acabaram por não ser publicados, mas onde se criticava a posição assumida pelo militar. Este conjunto de textos ficou com designação de “Carta a um herói estúpido”, sendo que o herói estúpido era nem mais nem menos que Francisco Xavier de Cunha Aragão. Fernando Cabral Martins recorda que Cunha Aragão era nessa altura um símbolo para os republicanos e democráticos que defendiam a posição beligerante de Portugal [FERNANDO CABRAL MARTINS, Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, Coord. Fernando Cabral Martins, Editorial Caminho, Lisboa, 2008, p. 140-141]


Em 1917 organiza a Esquadrilha Colonial, que vai servir em operações contra os alemães em Moçambique. Porém, a falta de meios impede que a esquadrilha chegue a desempenhar algum papel. Aragão serve nessa altura como oficial de cavalaria nas tropas em operações.

Após o final da Grande Guerra, mais propriamente em 16 de Outubro de 1921, reuniu-se em Lisboa, no escritório do advogado João Jayme Faria Affonso,  a assembleia fundacional da Liga dos Combatentes da Grande Guerra, cujo núcleo inicial é composto entre outros pelos seguintes veteranos: tenentes-coronéis de cavalaria Ferreira do Amaral (comandante da Polícia) e Francisco Xavier da Cunha Aragão, primeiro-tenente Horácio Faria Pereira e tenente Joaquim de Figueiredo Ministro.

Esta comissão de veteranos justifica a necessidade de criação desta organização, «em razão das injustiças feitas aos que na Grande Guerra combateram, especialmente aos mutilados e estropiados, e ainda devido ao desprezo a que foram votados pelos poderes constituídos, os quais não só não tomaram na devida conta mas até propositadamente esqueciam as justas reclamações de muitos que, após haver cumprido o seu dever, cumprido comunhamente com o juramento que antes haviam feito de darem o seu sangue pela Pátria, se viam abandonados e na miséria, com grave prejuízo para o patriotismo, disciplina e moral do povo português».

Foi um dos mentores do Apelo à Nação, feito em Março de 1923, organizado por personalidades ligadas à Seara Nova, tendo integrado a comissão que foi entregar o documento a António Maria da Silva e ao Presidente da República. Faziam também parte dessa comissão Ezequiel de Campos, Jaime Cortesão e Sarmento Pimentel.

Integrou ainda a Comissão Directiva de Lisboa da União Cívica, juntamente com António Sérgio, Jaime Cortesão, Filomeno da Câmara, Ferreira do Amaral, Quirino de Jesus e Bourbon e Menezes.

[Em continuação]

A.A.B.M.

CULTURA HEBRAICA E MAÇONARIA



CONFERÊNCIA: "Cultura Hebraica e Maçonaria

ORADOR: dr. Joshua Ruah;
DIA: 11 de Abril 2014 (19,00 horas);
LOCAL: Grémio Lusitano [Rua do Grémio Lusitano, 25, Lisboa];
ORGANIZAÇÃO: Museu Maçónico Português [Ciclo “Sextas de Arte Real”]


Com o advento da maçonaria especulativa, enquanto as Lojas proliferam, os Judeus saem do gueto, beneficiando da introdução de uma forma de sociabilidade fundada na tolerância e, no respeito pela liberdade de consciência, que procura constituir-se como o centro de união de todos aqueles “que poderiam ter continuado a ignorar-se”.
Existem referências da admissão de alguns Judeus, na Grande Loja dos Modernos, incluindo a Constituição da Grande Loja dos Antigos, Ahiman Rezon, disposições específicas para os Irmãos que praticavam esta religião.


São, de resto, numerosos os exemplos de personagens significativas da história da Maçonaria que foram de origem hebraica. Entre outros exemplos, recorde-se que dos nove Irmãos que integraram o primeiro Supremo Conselho do 33º Grau quatro eram Judeus, sendo também de origem judaica os fundadores do Rito de Misraïm e, um dos pais-fundadores da maçonaria rectificada.


As referências veterotestamentárias são numerosas nos ritos maçónicos. As palavras hebraicas, ou inspiradas no hebreu, são muitas, em todos os graus da maior parte dos sistemas. Por outro lado, muitos rituais maçónicos fundamentam-se em conceitos cabalísticos, de clara inspiração hebraica, reflectindo-se os mesmos nos procedimentos litúrgicos, nas construções simbólicas e, na própria disposição dos oficiais em Loja.


Nos domínios do anti-semitismo e, do anti-maçonismo, existe uma linha convergente, que tende a atribuir uma conotação comum a estas duas correntes de pensamento, gerando assim o mito da “Grande Conspiração Judaico-Maçónica”.


Pretende-se, pois, aprofundar todas estas questões, identificando sincretismos que a maçonaria possa ter recolhido na cultura hebraica e, aprofundando historicamente os caminhos paralelos que possam ter sido percorridos por estas duas linhas de pensamento”.

[Fernando Castel-Branco Sacramento - Director do Museu Maçónico Português]

J.M.M.

terça-feira, 8 de abril de 2014

ARTUR INEZ (1898-1968)


Artur Lopes Inez nasceu em Lisboa, a 5 de Dezembro de 1898. Tipógrafo, tal como o seu irmão António Lopes Inês [que escrevia, com o pseudónimo de “Antero Lima”, no jornal anarquista “A Batalha” – cf. Jacinto Baptista, “Surgindo vem ao longe a Nova Aurora”, p. 188], começou a sua brilhante carreira jornalística no periódico “A Pátria” [dirigido por Nuno Simões], em 1921. E “repórter ficaria toda a vida” [cf. Diário de Lisboa, 8 de Março de 1968].
Antes mesmo de abraçar o jornalismo, colabora (1919) na revista literária “Trova Popular” [cf. Dicionário Cronológico de Autores Portugueses], publicando “crónicas, versos e letras de fado”, algumas sob o pseudónimo de “Rui de Salvaterra”. Data de 1920 a publicação do seu livro de versos, “Sol de Outono”.   

Novelista, crítico de teatro, e também poeta, foi com a paixão do jornalismo, das artes gráficas e do “jornal popular” que Artur Inez se revelou, sentindo “o jornalismo como povo que era, sem jamais renegar a sua origem e sentindo-se bem entre o povo humilde, sofredor, espezinhado muitas vezes, mas sem jamais estender a cerviz ao cutelo do algoz” [ibidem]. Foi jornalista “desportivo, noticioso, jornalista político e revistas consumiram este homem alegre, combativo, franco e lhano, atacando o adversário a que era capaz de estender a mão de amigo” [ibidem].
Jornalista democrata e republicano, pertenceu ao jornal “A Pátria”, passando, depois, para a redacção do jornal “O Século”, “A Capital”, “Rebate”, “Diário da Tarde” “Republica Portuguesa”, jornal “O Povo” (1928 – era dirigido por Ramada Curto). Foi chefe da redacção de “Os Sports” [em 1924, curiosamente teve, entre outros, como colaboradores do jornal, Henrique Galvão, João Pinto de Almeida, Artur Santos, Armando Ávila. Data de 16 de Março de 1924 uma jornada futebolística patrocinada pelos classe jornalística da capital, onde Artur Inez fez equipa com Cândido Oliveira, Belo Redondo, Felix Bermudes, enfrentando o “Carcavelos Club” – cf. Francisco Pinheiro, “História da ImprensaPeriódica Portuguesa (1875-2000)”], do “Diário Popular” e do diário “República” [em 1945, em substituição de José Ribeiro dos Santos e nesse lugar permaneceu durante 12 anos, tendo-se afastado por doença].

A sua colaboração nos jornais desportivos [cf. Francisco Pinheiro, ibidem] é vasta, estando na fundação da revista “Eco dos Sports
[nº1, 7 de Março de 1926 – refira-se que na qualidade de director e jornalista, Artur Inez, juntamente com “mais de 80 jornalistas”, esteve presente, no início de 1929, no apoio e solidariedade com Félix Correia, jornalista do Diário de Lisboa, preso por “ter desrespeitado as indicações da Censura”, conforme fotografia publicada na p. 7 do jornal do dia 10 de Fevereiro de 1929, onde se vê à entrada da cadeia, Artur Inez, Cândido de Oliveira (na altura director de “Os Sports”) e o próprio Félix Correiacf. ibidem];

colaborou no semanário “Jornal de Sports” (nº1, 1 de Maio de 1927); é o fundador e editor da revista desportiva “O Az” [nº1, 14 de Outubro de 1928]; colabora no semanário desportivo “Futebol” [nº1, 9 de Fevereiro de 1935, que tinha como director Moreira Rato e o ilustrador, Vasco].
 
Artur Inez funda e dirige [até 4 de Agosto de 1935] o importante semanário de crítica literária e artística, “O Diabo” [nº1, 2 de Junho de 1934 – ver AQUI], curiosamente um dos primeiros periódicos literários. Pertenceu à Associação dos Trabalhadores de Imprensa, foi director do Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa, dirigente de Caixa de Previdência de Profissionais de Imprensa de Lisboa (Casa da Imprensa) .
Polemista desassombrado, publica no jornal República (1945) uma réplica ao artigo de António Ferro, "A Morte do Sebastianismo”, que foi depois editado em [raro] folheto com o título “Oiça, António Ferro” [44 p.], com carta-prefácio de Ribeiro de Carvalho [1ª e 2º ed., Imprensa Beleza, 1933; 3º ed., 1935].

… Nós não pertencemos ao número, elevado por sinal, dos que o consideram simplesmente um imbecil que passa horas trágicas e aflitivas curvado sôbre a sua secretária do Notícias, de mãos fincadas nos parietais, suando, bufando em busca dum adjectivo salvador e bonito.
Não pertencemos a êsse número, porque o sabemos razoavelmente inteligente, embora de raciocínio lento e de precária realização verbalista, ainda que os seus panegiristas imaginem ou digam o contrário.

O senhor, Ferro, é um torturado da forma, que leva duas horas para escrever um período de quatro linhas que levou quatro horas a raciocinar... E nem sequer é original! (...)
O leitor que me perdoe. Fui mais longe do que queria. Com esta facilidade de escrever com que o destino me dotou, fui por aqui fora e não consegui responder ao Ferro.

Deixá-lo. Já agora não respondo. É que entrou, neste instante, no meu gabinete, um camarada a dizer-me que o 1936, da 8.ª esquadra, sem que o chefe lhe encomendasse o sermão, estava ontem, na Baixa, de chanfalho na dextra a arrancar das paredes alguns exemplares do jornal onde lhe ferrei aquela trepa que o deixou a pão e laranjas.

Ora como posso eu responder ao amigo e correligionário do 1936 da 8.ª esquadra? Nessa não caio eu...” [in Oiça, António Ferro” - AQUI]
Publicou várias obras: “Sol de Outono” (1920), “La Intrusa” (1923), “António Luís Lopes, o Cavaleiro Ribatejano” (1930 – com o pseud. de Rui Salvaterra), “Um bodo Indecoroso. A Burla do Açúcar” (1933 – obra muito polémica na época), “Torel Norte. 5853. Reportagem de Rua” (1934 - policial), “Diário de uma Mulher Casada” (1949)

Morre em Lisboa, a 8 de Março de 1968.
J.M.M.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

ALMADA NEGREIROS, REGRESSO AO CHIADO

 
“Os 120 anos do nascimento de Almada Negreiros, que agora se completam, têm constituído pretexto para uma série de manifestações e homenagens que abrangem o artista plástico, o poeta, o romancista, o novelista, o dramaturgo, o panfletário e, simultaneamente, o grupo e a geração de Orpheu, a diversidade de percursos e atitudes que, no seu todo, configuram um momento histórico na procura e afirmação da modernidade.
 
Desde sempre o Chiado e os seus locais mais emblemáticos permanecem associados às múltiplas intervenções de Almada Negreiros. Foi tão íntima e tão longa essa relação física e cultural que do Chiado se poderia dizer que era a sua própria casa, numa Lisboa mergulhada nas guerrilhas da República e numa sociedade imobilizada no seculo XIX e, ao mesmo tempo, com a ambição ilimitada de atingir o mundo para um diálogo com as vanguardas europeias.
 
Partilhou o Chiado com Sónia e Robert Delaunay, quando se refugiaram em Portugal, a fugir a guerra de 14; com Diaguilew e outras figuras dos Bailados Russos que ao chegarem a Lisboa são apanhados de surpresa com a revolução de Sidónio Pais; também num hotel do Chiado, em 1947, falou com Miró, ao passar por Lisboa a caminho de Nova Iorque. O encontro a que também assistiu António Dacosta ficou registado numa fotografia e no Sempre Fixe, na Fita da Semana, de Carlos Botelho.
 
O aparecimento de Almada, como desenhador e caricaturista, decorreu em 1912, no 1.º Salão dos Humoristas, uma exposição coletiva no Grémio Literário inaugurada pelo Presidente da República, Manuel de Arriaga. Em 14 de Abril de 1917 apresentou no São Luís (antigo Teatro República) O Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX – uma explosão de intenções e chicotadas para romper a indiferença e sacudir a rotina. Uma entrega total de energia para mudar o País.
 
Interveio, no Chiado Terrasse, a 18 de Dezembro de 1921, no Comício dos Novos com Gualdino Gomes a presidir, Aquilino Ribeiro na mesa e, entre a assistência perplexa. Foi outra proclamação futurista contra os modelos dominantes. Expôs na Bobone, uma das raras galerias de Lisboa, com tradições oitocentistas; e depois de regressar de Espanha, nos anos 30, fez uma exposição na UP, uma galeria na rua Serpa Pinto, dirigida por António Pedro, onde Vieira da Silva apresentou os primeiros trabalhos.
 
A editorial Ática, fundada por Luis de Montalvor, um dos participantes do Orpheu – e autor do título da revista – teve a primeira sede na esquina da rua do Carmo, com a rua Garrett. Ao lançar, a partir de 1942, a obra ortónima e heterónima de Fernando Pessoa, Montalvor colocou na capa de cada volume um desenho de Almada, um Pégaso, símbolo mitológico e vivo da poesia em movimento.
 
 
A amizade com Fernando Amado incorporou-o na história do Centro Nacional de Cultura ao debater, em 1946, a “posição do artista na sociedade”. Foi um dos escolhidos para decorar a Brasileira do Chiado que, juntamente com o Bristol Club, introduziu em espaços públicos a consagração da arte moderna.
 
A Brasileira, quase até ao fim, constituiu um dos lugares de convívio diário. Almada, ali se envolveu numa aguerrida cena de pugilato com José de Bragança, a propósito da prioridade da descoberta das perspectivas dos ladrilhos que reuniu num políptico os dois trípticos dos Painéis de São Vicente de Fora.
 
E quando não é no Chiado, é nas suas fronteiras que o deparamos, nos seus primórdios ou nos momentos mais exuberantes da sua carreira. Realizou, a primeira exposição individual, em 1913, na Escola Internacional, na rua da Emenda, a dois passos do largo do Calhariz. A Ilustração Portuguesa referiu a exposição, reproduziu alguns desenhos, publicou a fotografia de Almada. O mais importante, contudo, é que atraiu Fernando Pessoa que, escreveu sobre Almada, na revista Águia: “Eu creio que ele tem talento. Basta reparar que ao sorriso do seu lápis, se liga o polimorfismo da sua arte para voltarmos as costas a conceder-lhe inteligência absoluta.” Começou a visibilidade pública de Almada. Mas começou também o convívio e cumplicidade com Pessoa. Abria-se o caminho para o Orpheu. Vai ser ainda no Largo do Calhariz que Almada faz na Liga Naval, em Maio de 1921, a conferência A Invenção do Dia Claro, um ano depois publicada em livro com a chancela da Olisipo, uma das aventuras editoriais de Fernando Pessoa.
 
Trazia a memória escaldante de Paris. Era uma vedeta da primeira página desde o primeiro número do Diário de Lisboa que principiara há um mês e iria durar 70 anos. Almada desdobrava-se em projetos, no desenho, na ilustração, no cinema, no teatro, na dança, no bailado, no afrontamento, direto com os velhos e com os novos, com os valores, os preconceitos, os códigos morais e as cartilhas estéticas e literárias em circulação.
 
N’ A Cena do Ódio – escrita quando residia na Rua do Alecrim, outra fronteira do Chiado – está em paralelo com a desconstrução criativa e o furor épico de Álvaro de Campos, mas atinge outra dimensão n’ A Invenção do Dia Claro. Estabeleceu o reencontro da poesia com o desenho e a pintura; aprofundou a reflexão sobre a linguagem e através dela sobre a existência humana. Entre o vivido e o escrito desvenda as geografias que a imaginação concebeu. Quer, a todo o custo, recuperar os afetos perdidos. A atenção dirige-se para a memória e o quotidiano. A palavra é concisa ou pujante: as coisas mais vulgares surgem transfiguradas.
 
 
Hoje 7 de Abril, o encerramento do ciclo dos 120 anos do nascimento proporciona, no Grémio Literário, um encontro com a presença e intervenção de alguns que conheceram Almada Negreiros e com ele ainda privaram na intimidade. Também José Quaresma, professor da Faculdade de Belas Artes de Lisboa vai promover, a partir de 6 de Maio, e à semelhança dos últimos cinco anos, um conjunto de iniciativas – em que se destacam a personalidade e a obra de Almada Negreiros e o Chiado – no âmbito da reflexão e da produção artística que problematize as origens e a atualidade da dramaturgia e da performance em estreita relação com as noções de Esfera Pública e de Arte Pública.
 
Almada regressa ao Chiado, aos seus cafés, aos seus restaurantes, aos seus teatros, aos seus clubes, às suas livrarias, a outras instituições, às suas próprias esquinas a todo aquele universo que, desde sempre integrou as duas faces distintas da arte, da literatura e da vida: a tradição e a rutura, o antagonismo das gerações em conflito. Para Almada o Chiado constituiu a arena dos grandes combates que travou enfrentando tudo e todos. Para derramar e explodir: “Luz, a luz, tal e qual, que é, presença de cada qual”. Com essa irradiação de luz mudou a arte e a Literatura. Mudou Portugal.”
 
[António Valdemarin jornal PÚBLICO (7/04/2014), sublinhados nossos]
 
J.M.M.

domingo, 6 de abril de 2014

JOÃO ABEL MANTA

 
 
 
JOÃO ABEL MANTA “nasceu em 1928, em Lisboa. É filho dos pintores Abel Manta e Maria Clementina Carneiro de Moura Manta. Formou-se em Arquitectura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (1951), tendo-se dedicado como artista plástico, à pintura, cerâmica, tapeçaria, mosaico, ilustração, artes gráficas e cartoon. Na área da sua formação académica foi o responsável, com Alberto Pessoa e Hernâni Gandra, pelo projecto dos blocos habitacionais da Avenida Infante Santo, referente de qualidade na arquitectura da cidade, com o qual ganhou o Prémio Municipal de Arquitectura (1957). Recebeu ainda o Prémio Nacional da Sociedade Nacional de Belas Artes (1949), o Prémio da Fundação Calouste Gunbenkian (1961) e a Medalha de Prata na Exposição Internacional de Artes Gráficas, em Leipsig (1965).
 
A sua pintura, numa primeira fase neofigurativa e eivada de ironia surrealista, tomou depois uma feição de carácter abstracto. Foi o autor das tapeçarias do Salão Nobre da sede da Fundação Calouste Gunbenkian. No cartoon, utilizando-o como forma privilegiada de retrato da sociedade, evidenciou-se de forma ímpar, sendo os anos de 1974 e 1975, dos mais fecundos da sua produção. Publicou o álbum Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar (1978), síntese de vincada e sofisticada ironia onde o lápis do artista traça um quadro negro, mas preciso, daquele período da nossa história.
 
No contexto da arte pública interveio nos pavimentos de mosaico para arruamentos na Praça dos Restauradores, em Lisboa, e na Figueira da Foz. No campo da azulejaria concebeu em Lisboa os painéis: do restaurante do Hotel da Avenida Infante Santo (1952), da Escola Primária do Alto dos Moinhos (1955) e do revestimento do monumental mural da Avenida Calouste Gulbenkian, aplicado em 1982 (concebido em 1970). Foi ainda autor da série de painéis cerâmicos para o Teatro Gil Vicente, em Coimbra (1955), dos azulejos para os edifícios da Associação Académica de Coimbra (1959), bem como de uma composição geométrica para a Caixa Geral de Depósitos, em Mafra (1972)” [AQUI - sublinhados nossos]
“… Com um grafismo único, meticuloso, os seus cartoons (veja-se por exemplo Turistas, da série Reportagem Fotográfica, 1972) marcaram a época anterior ao 25 de Abril: "Nenhum pintor daqui e de agora resumiu com tantas subtilezas a temperatura social e política do fascismo agonizante". Nesse "inventário doméstico" cabe praticamente tudo: "estão em causa os desastres e os grotescos duma burguesia, a nossa, com os seus emblemas e heróis". João Abel "aponta à História, ao monumento e em particular à procissão provinciana da nossa burguesia intelectual"
 
A sua intervenção pública intensifica-se em 1974 e 1975, logo após a queda da ditadura, lançando-se "à batalha com redobrado ardor, multiplicando-se em caricaturas, posters e cartazes de orientação vincadamente revolucionária", e tornando-se no "artista máximo, talvez o único afinal, que a revolução de Abril suscitou". É o que vemos em desenhos como "Um problema difícil", de 1975, onde um grupo de notáveis – de Marx e Lenin a Gandhi e Sartre –, se interrogam perante um pequeno mapa de Portugal. João Abel Manta "ficará associado dum modo muito particular ao melhor e ao pior que em Portugal vivemos nesses dois anos"
 
A partir de 1976 "o artista alistado João Abel eclipsa-se: os ventos são outros, o MFA (Movimento das Forças Armadas) dissolveu-se", e só em 1978 "emerge do silêncio e lança ao público um […] novo álbum: Caricaturas dos Anos de Salazar", onde "narra uma história – a nossa história […] onde se encaixam, se alternam ou se encadeiam […] o ridículo e a tragédia da colonização e da guerra colonial, o miguelismo e o liberalismo […] a submissão popular e a sua revolta […] o folclore musical e o artesanato, o teatro, o cinema ou a pintura …" [AQUI - sublinhados nossos]
 
J.M.M.


A REVOLUÇÃO NA ILHA DA MADEIRA


LAVRADOR (José) — A REVOLUÇÃO NA ILHA DA MADEIRA. Depoimento para a história da política portuguesa. Editorial Alba (2ª ed.), Rio de Janeiro, 1931, 176 p.
"Refere-se o Autor – cônsul do Brasil – a acontecimentos ocorridos na vila de Machico, na Madeira, entre Fevereiro e Abril de 1931. Foi assim: quando a banca deixa de cumprir as suas obrigações perante os depositantes, por “falta de liquidez”, e quando os monopólios cerealíferos transformam o comércio em pura extorsão das populações, brota o desespero amotinado, com seus confrontos policiais, o saque de lojas e armazéns, etc... Mas uma ilha é como um barco! – Uma ratoeira sem saída, onde ganha o mais forte, aquele que estiver armado até aos dentes. E como o governo salazarista se achou pouco, ainda fez apelo à armada inglesa, a “invencível”.

Das condições pré-revolucionárias existentes na altura diz-nos, a certo passo, o Lavrador:

«[...] O Governo da Dictadura agglomerava de deportados a Ilha da Madeira. Era para ahi, que, depois de ligeiras estadias pelas possessões africanas portuguezas, seguiam, mais por um acto de benevolencia do proprio Governo, todos os chefes de goradas conspirações, de movimentos abortados ou revoluções vencidas.
Havia, entre os deportados, homens publicos notaveis pelo seu saber e de certo renome no paiz, altas patentes do exercito e da marinha, e tambem jornalistas e alguns funccionarios publicos.


É preciso ter estudado a psychologia das multidões para se poder comprehender o vulto que essas figuras tomavam na imaginação do povo madeirense. Ellas evidenciaram-se como verdadeiros martyres, sacrificadas por um ideal, sendo, assim, acolhidas com admiração, não só na intimidade das familias como tambem – principalmente os officiaes deportados – em fraternal camaradagem pelas forças aquarteladas na Madeira.

Deu-se o que era inevitavel. As idéas anti-situacionistas foram-se alastrando e, creando profundas raizes no espirito da collectividade, diffundiram-se por todas as classes. E o povo ficou completamente empolgado por essas idéas, convencido que nellas estava a sua propria redempção.

O espirito da revolta, que condensou todo o movimento militar, foi inspirado em amistoso convivio numa pensão da rua dos Netos, em Funchal, entre officiaes deportados e especialmente vindos com as tropas do Continente para manter a ordem. [...]»

via FRENESI
 
J.M.M.