quinta-feira, 3 de setembro de 2015

HÁ 100 ANOS, O CONGRESSO REGIONAL ALGARVIO FEZ A PRIMEIRA RADIOGRAFIA DA REGIÃO

Com a devida vénia e autorização transcrevemos o artigo do Eng. Aurélio Cabrita e investigador de História Regional publicado no Sul Informação.


Há 100 anos, o Algarve saltou para as primeiras páginas dos periódicos nacionais. Reunidos na Praia da Rocha, um vasto leque de engenheiros, economistas, geógrafos, académicos, jornalistas, artistas plásticos e médicos, debateram, nas suas especialidades, o presente e o futuro da região, enumerando deficiências e apontando soluções de curto e longo prazo.
O Congresso Regional Algarvio foi sucedâneo dos congressos municipalistas realizados em Lisboa (1909) e no Porto (1910). O regionalismo, de acordo com o defendido pelo Prof. Fernando Catroga, apresentava-se como um “regionalismo cultural” e com um propósito – o de superar a crise em que a sociedade vivia. Por outro lado, ele constituía também uma resposta ao aumento das desigualdades regionais provocada pela revolução urbana.
Em 1912, o jornal A Capital lança um inquérito, “o que a província pensa e o que a província precisa”, para, no ano seguinte e na sequência do congresso dos regionalistas franceses, em Toulouse, ser a vez de O Século defender a concretização em Portugal de congressos regionais.
Se por um lado, a sugestão conquistou numerosos apoios, as vicissitudes das lutas políticas e sociais, a que não foi alheia a I Grande Guerra, acabaram por travar a iniciativa, sendo o Congresso Regional Algarvio, a par do Municipal Alentejano, realizado no mesmo ano, duas exceções até ao alvor dos anos de 1920.
O Congresso Regional Algarvio decorreu no Casino da Praia da Rocha, entre 3 e 7 de setembro, com um programa variado e paralelo ao seminário propriamente dito.
A organização de uma exposição com os produtos da região terá constituído a génese do evento. Embora organizado pela experiente Sociedade de Propaganda de Portugal, segundo a investigadora Maria João Duarte, foram seus principais mentores Tomás Cabreira (presidente do congresso), Pádua Franco (secretário-geral), Mateus Moreno, Cândido Marrecas, António Teixeira Bicker, Guerreiro Júnior, Magalhães Barros e Julião Quintinha.
Tese Zonas Turismo































   
A revista Alma Nova foi o órgão oficial do evento, simbolizado por uma flor de amendoeira. Para patrono, foi escolhido João de Deus e a “Canção da Praia da Rocha”, sendo nomeado presidente honorário o ministro do Fomento.
Do programa constava, para o dia 1 de setembro, a abertura da Exposição Regional Algarvia, um campeonato de ténis, e à noite concertos na Avenida e no Casino, bem como um baile. No dia 2, houve regatas e festas no rio, iluminação e concerto musical.
A abertura do congresso propriamente dito estava agendada para 3 de setembro, com as suas sessões, a que se seguiria tiro aos pombos, e, à noite, repetiam-se as festas no Arade.
No dia seguinte, sessões do congresso, batalhas de flores e quadros rústicos, concertos e festas no Casino. Para 5 de setembro, estava prevista uma visita a Lagos, a sessão de encerramento do encontro e exposição de Arte Algarvia, na Escola Vitorino Damásio.
Já a 6, devia encerrar a exposição regional, sendo promovidas as últimas iluminações e concerto no Casino.
Nos dias seguintes estavam ainda organizadas excursões a diferentes pontos da região (7, 8 e 9 de setembro), além da exibição de variedades e bailes no Casino, serões de arte e teatro, conferência literária, e, por fim, a 19 e 20 de setembro, arraiais, festa popular e festa da flor.
Em Faro, decorria também, por aqueles dias, uma exposição regional com quadros do pintor Lyster Franco. As inscrições encerraram a 20 de agosto, porém e face à elevada procura, seriam prolongadas por mais nove dias, não assumindo a organização responsabilidades em termos de alojamentos.
O sucesso do evento não foi alheio à sua meticulosa organização, fosse na região ou no país. Assim, enquanto no Algarve (em Tavira, Faro ou Silves) se multiplicavam conferências sobre “Fins e propósitos do Congresso Regional Algarvio”, além de participarem delegados de todas as localidades da região, para os restantes congressistas eram anunciados descontos de 75% sobre os preços praticados no caminho de ferro, fosse em 1ª, 2ª ou na 3ª classe, entre os dias 31 de agosto e 15 de setembro, para a estação de Portimão (então ainda situada em Ferragudo).
A 21 de agosto, o jornal O Século anunciava, para a Praia da Rocha, “luzidos festejos em honra dos congressistas”. Na praia, decorriam trabalhos de embelezamento, com a montagem de um ponto de informações sobre o congresso, alojamentos, transportes, e sobre a região em geral, bem como de um pavilhão “mourisco”, promovido pelo industrial António Júdice Magalhães Barros. Este último para comercialização de frutas, doces, águas de Monchique, conservas, postais e outras recordações do Algarve.
A 29 de agosto, O Século noticiava a ordem de trabalhos do seminário, com duas sessões por dia, sendo os assuntos a tratar divididos em três secções: agricultura e indústria; comércio e meios de transporte; e por fim turismo e história algarvia.
Pavilhão Mourisco (Ilustração Portugueza 4 out 15)
O Pavilhão Mourisco do industrial e agricultor António Júdice Magalhães Barros













Nas vésperas, trabalhou-se afincadamente, de forma a proporcionar o maior número de diversões e o máximo de conforto aos visitantes. Com esse objetivo e para ficar mais próxima da abertura do encontro, a inauguração da exposição agrícola foi adiada para o dia 2. Nesta, destacaram-se a firma V. Campos, de Tavira, com frutos secos, António Teixeira Bicker, Melo Leste, Manuel Mascarenhas, Pedro M. Júdice, com frutas várias, Marreiros & Irmão, de Vila do Bispo, com artigos de malha e de renda, bem como Maria Augusta Viegas, com um artístico trabalho de rendas de bilros, entre outros (mobiliário, conservas de peixe, vinhos, cortiça, até ananases do Algarve). Participaram ainda empresas externas à região, como a Moreira da Silva & Filhos, do Porto, embora não entrassem no concurso dos melhores produtos algarvios.
Nos dias anteriores, foram distribuídos aos congressistas os resumos das teses que iriam ser debatidas, as quais apresentavam em conclusão, com vista à sua vinculação ao poder político, projetos de lei, para rápida aprovação e implementação pelo governo. Ao todo, terão sido impressas 26 teses (1), sobre os mais variados temas, da agricultura, à pesca, sem esquecer a indústria, o ensino profissional, os transportes, as estradas, o clima, a história regional, a etnografia, a arte, o crédito, a assistência à mendicidade, zonas de turismo, hotéis, etc.
Na manhã de dia 3, o congresso abria portas, tendo a sessão inaugural decorrido “brilhantemente”, perante uma assembleia repleta, embora sem a presença do ministro, que só chegaria no dia seguinte.
Na verdade, o evento teve uma participação massiva, de tal forma que, por aqueles dias, foi realizado um comboio extraordinário que partia da então Vila Nova de Portimão, à meia noite, para Faro, para que os congressistas encontrassem alternativas de alojamento na sede de distrito ou nos pontos intermédios.
O presidente Tomás Cabreira expôs então à assembleia “os fins do congresso e enalteceu as belezas naturais do Algarve”. Este visava, como o próprio reconhecia à imprensa dias depois, “valorizar a terra e o trabalho no Algarve”. Para o efeito, sairiam eleitas comissões permanentes, que, aliadas a uma comissão executiva, pugnariam pela implementação das resoluções ali tomadas junto dos ministérios, autarquias e outras entidades, até à realização de um novo congresso previsto para a primavera de 1918, em Faro.
Em suma, pretendia-se dotar o Algarve com um organismo que coordenasse e impulsionasse todas as iniciativas que promovessem o seu progresso.
Finalizada a sessão inaugural, iniciaram-se os trabalhos, com a secção de agricultura.
Caminhos de ferro





























Para a tarde estava prevista a de turismo, que não se realizou, segundo O Século, por não se conseguir reunir, transitando por isso para a manhã seguinte. Esta não terá sido a única alteração ao programa, uma vez que, no dia 6, houve sessões de manhã e de tarde, tendo o encerramento sido aprazado para dia 7 de setembro, às 11 horas, também no Casino.
Todavia, e se alguns temas não geraram debate e as conclusões eram aprovadas rapidamente, não faltaram momentos de discussão acesa e de múltiplas alterações às conclusões, a que a imprensa fez eco. A tese “Tarifas ferroviárias”, de Tomás Cabreira, foi uma das que gerou algum debate entre o autor e Francisco Grilo, com troca de diversos argumentos.
Mas de todas a mais polémica terá sido a “Zonas de Turismo”, também da autoria de Tomás Cabreira, que defendia a regulamentação do jogo. A sua discussão prolongou-se e transitou da sessão da manhã para a da tarde, embora acabasse por ser aprovada.
Em suma, foi feita por aqueles dias uma radiografia à região, pela reputada elite da época e simultaneamente apontadas soluções e recursos a explorar, para o desenvolvimento do comércio, indústria e agricultura do Algarve.
Embora fossem poucos os “touristes” que nos visitavam, o turismo teve particular destaque, pois as potencialidades da região nesta matéria eram já inegáveis. Por curiosidade, refira-se que, em novembro de 1889, a conceituada revista francesa de viagens “Journal des Voya’ges – et des aventures de terre et de mer” dedicara uma reportagem ao Algarve.
A organização do Congresso teve também preocupações sociais, pois a receita resultante da venda do programa geral das festas reverteu para os pobres de Portimão, tendo o custo da sua produção (despesas de composição, impressão e cartolinas) sido suportadas por Fernando da Silva David, membro da Comissão Executiva. Também parte das vendas do pavilhão mourisco se destinaram a fins de beneficência.
Nos dias seguintes, houve diferentes visitas à região, a Monchique, Sagres, Silves, Tavira, Faro, Lagos. Adelino Mendes, jornalista de A Capital, descreveu-as brilhantemente naquele periódico (2), escrevendo ainda sobre as sessões do congresso, reportagens que viriam a constituir o livro “Algarve e Setúbal”, publicado em 1916. Uma obra imprescindível para a compreensão do Algarve de então, que aquele jornalista visitou e pintou de forma magnificente.
Quanto a resultados práticos do Congresso, sintetizou-os, com realismo: “debateram-se questões que para a província são d’um capital, d’um indiscutível interesse. É preciso que se olhe bem para o que foi essa reunião d’homens inteligentes, que procuraram, n’uma assembleia de práticos e eruditos, dizer à gente da região e ao paiz o que por cá se precisa e o que é indispensável fazer. (…). O Congresso, em meu entender, não vae além d’uma tentativa oscilante e talvez demasiado idealista”.
Já o tinha antevisto logo no dia 4 de setembro: “Este Congresso algarvio… Elle não passa, coitadito, d’um primeiro passo vacilante na estrada que esta privilegiada província tem de percorrer para atingir toda a sua valorização”.
Não podia ser mais certeiro. A entrada de Portugal na I Grande Guerra, em 1916, com o incremento de todas as dificuldades daí advindas, sem esquecer o falecimento precoce de Tomás Cabreira (a alma do congresso de 1915), em Tavira, em 1918, protelaram a implementação das orientações e o Algarve e os algarvios caíram de novo na letargia que lhe é característica.
Por sua vez os sucessivos governos olvidaram, como sempre, a região e os seus interesses, e pouco ou quase nada foi feito. A estrada a percorrer para a valorização do Algarve era realmente (ou ainda é?) muito longa, mas tal não pode ser atribuído aos “letrados” de então, já que esses visionaram e prognosticaram sobremaneira a região dos nossos dias. Foi há 100 anos.

Autor: Aurélio Nuno Cabrita é engenheiro de ambiente e investigador de História Local e Regional

Cartaz2 1º Congresso Regional Algarvio 1915 -












Para saber mais:
– Maria João Raminhos Duarte, “O I Congresso Regional Algarvio na Praia da Rocha”, José Mendes Cabeçadas Júnior e a Primeira República no Algarve, Loulé, 2010.
– http://arepublicano.blogspot.pt/
– Adelino Mendes, O Algarve e Setúbal, Lisboa, 1916.
– Jornal “O Século”, de 16/08/1915 a 18/09/1915.
– Revista “Ilustração Portugueza”, de 06/09/1915 e 04/10/1915.
– Fernando Catroga, “Geografia Política. A querela da divisão provincial na I República e no Estado Novo”, O poder local em tempo de Globalização – uma história e um futuro, Dir. Fernando Taveira da Fonseca, Coimbra – Imprensa da Universidade, 2005.
Notas:
(1) Das quais reunimos 24 teses, que ficarão disponíveis, a partir do dia 27 de setembro, no sítio da internet do Museu de Portimão. Houve, todavia, pelo menos mais duas: “Sports” de Vasco Ferreira de Campos, e “Pesca, Escolas de Pesca”, por José Francisco Silva.

[Com um agradecimento de autorização pela partilha do artigo e assinalando a data do início do I Congresso Regional Algarvio].
A.A.B.M.

domingo, 30 de agosto de 2015

ANTÓNIO LOBO DE ABOIM INGLÊS (1869-1941)


Nasceu em Aljustrel a 20 de Junho de 1869. Formou-se em Engenharia de Minas no então Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, que depois se transformou no Instituto Superior Técnico. Convidado pela empresa exploradora das Minas de S. Miguel de Huelva (Espanha) entre 1897 e 1912, onde chegou a atingir as funções de sub-director das mesmas. Regressa a Portugal logo após a implantação da República. Começou depois a leccionar no Instituto Superior Técnico onde foi responsável pelas disciplinas de Metalurgia e Jazigos Mineiros a partir de 1912.

Desenvolveu também actividade como empresário mineiro. Devido a essa condição foi dirigente da Associação Industrial Portuguesa, presidindo aos destinos dessa associação representante do patronato em dois mandatos entre 1915 e 1921. Fez parte da sociedade constituída para tomar conta do jornal A Lucta, em 30 de Setembro de 1920.

Acompanhou inicialmente o seu comprovinciano Manuel de Brito Camacho na União Republicana, chegando, em 1918 a fazer parte da direcção do partido. Mais tarde assinala-se a sua passagem pelo Partido Liberal e Partido Nacionalista. Foi eleito deputado por Silves (1919), tendo desencadeado e apoiado o processo de criação da Escola Comercial e Industrial João de Deus, em Silves. Mais tarde foi novamente eleito por Aljustrel (1921 e 1925).

Desempenhou as funções de Ministro da Agricultura entre 3 de Setembro e 19 de Outubro de 1921, no governo chefiado por António Granjo que terminou na Noite Sangrenta. Foi ainda depois candidato às eleições municipais de Lisboa, em 1922.

Colaborou com alguma regularidade no jornal republicano dirigido por Brito Camacho, A Lucta, depois encontramo-lo a colaborar na revista da Associação Industrial Portuguesa, Industria Portuguesa, com artigos mais técnicos [“O Rádio em Portugal”, nº22 e 23, 1930] . Desenvolveu também alguma actividade como publicista tendo proferido várias conferências pelo País. Destaca-se a conferência proferida durante o I Congresso Regional Algarvio, de 1915, intitulada As Escolas Industriais, que deu à estampa nesse ano. Realiza também, em 9 de Fevereiro de 1928, nas instalações da Liga Naval, em Lisboa, feita a convite da Associação Industrial Portuguesa, outra conferência que se intitulava As Indústrias Extractivas em Portugal. Nessa ocasião esteve presente o Presidente da República e do Ministro do Comércio e das Comunicações. 


Foi representante do Governo Português à Conferência Internacional do Trabalho, realizada em Londres.

Foi casado com Maria Luísa Morais Lopes Aboim Inglês e pai de Carlos Lopes de Aboim Inglês (1899-1942) que frequentou o Instituto Superior Técnico entre 1917 e 1923 e veio a ser futuro dirigente do Partido Comunista Português. Desse casamento resultou também o nascimento de uma filha: Maria Benedita Lopes Aboim Inglês que foi casada com Ernesto Fernandes Paneiro.


Faleceu a 18 de Outubro de 1941, em Aljustrel.

[NOTA: Revisto e actualizado  3 de Setembro de 2015

A.A.B.M.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

JOSÉ PARREIRA (1865-1942)


No âmbito deste conjunto de artigos sobre o Centenário do Congresso Regional Algarvio, relembramos um dos vogais da Comissão Organizadora do Congresso: José Parreira, jornalista e político ligado ao Partido Progressista.

Nasceu em Loulé em 9 de Abril de 1865. Filho de Feliciana Parreira (falecida em 16 de Maio de 1890) e de José Maria Parreira (falecido em 16 de Dezembro de 1904, e que desempenhou as funções de escrivão da fazenda em Tavira, onde vivia[1]).
Realiza os seus estudos iniciais em Braga, depois em Lisboa onde mostra interesse nas letras iniciando colaboração em jornais da capital. Em Lisboa começa a colaborar com o Correio da Noite, depois entrou no quadro do Diário de Notícias.

Em termos profissionais foi amanuense da secretaria da fiscalização dos Caminhos de Ferro de Leste e Norte[2] em 1889.
Desempenhou também as funções de redactor na antiga Câmara dos Deputados. Como membro do Partido Progressista acompanhou José Bento Ferreira de Almeida nas suas actividades políticas e de quem era bastante próximo.

Participa numa reunião de jornalistas em 6 de Abril de 1895, onde se procurou alcançar um acordo entre os vários jornais[3]. Esta reunião teve lugar na redação do jornal Correio da Manhã por forma a não noticiar de forma circunstanciada os suicídios. Na reunião estiveram presentes entre outros: Brito Aranha (Diário de Notícias), Jaime Victor (Correio da Noite); Alves Correia e França Borges (Vanguarda), Magalhães Lima (Século), Fraga Pery Linde ( Folha do Povo), Mendonça e Costa, (Gazeta dos Caminhos de Ferro), C. Rangel de Sampaio, (Tempo), Alfredo Serrano (Nação), Armando e Silva e Machado Correia (Novidades), Segurado e Mendonça (Diário Illustrado), Mello Barreto (Correio Nacional), José Parreira (Popular), Feio Terenas (Batalha), Alberto Camara (Tarde), F. Gomes da Silva, ( O Dia), Décio Carneiro (Repórter), Mariano Pina (Universal). Apesar da visão moralizadora, este acordo acaba por não ser cumprido e alguns acontecimentos trágicos foram acompanhados e relatados com todo o detalhe pela imprensa. No jornal O Tempo, cujo representante defendia a eliminação desse tipo de notícias, referia-se mesmo que Rangel de Sampaio exigiu, para assinar a acta da reunião que houvesse uma declaração de princípio sobre o assunto e lamentava que o resultado da reunião fosse nulo.

Em 1905 o seu nome chegou a ser referido como possível candidato a deputado pelo círculo de Tavira pelo Partido Progressista[4].
Colaborou n’O Século, n’ O Teatro (1918), na Ilustração e no Diário de Lisboa. Chefiou a delegação em Lisboa do Jornal de Notícias e fundou os jornais O Combate (1929) e O Rumor, onde estudou a organização e funcionamento das sociedades anónimas. Foi também durante largo período também um conhecido crítico teatral, tendo assumido essa função em vários periódicos.

Como secretário da Antiga Associação de Jornalistas foi com Alfredo Mesquita e Leonildo Mendonça e Costa ao 8º Congresso Internacional de Imprensa, realizado em Berna, em 1902, sobre o qual publicaram um relatório.
Enquanto jornalista, sobretudo no final do século XIX, realizou alguns trabalhos de reportagem no estrangeiro sendo considerado um dos precursores do jornalismo internacional[5].

Manteve ao longo de vários anos uma secção no Diário de Lisboa onde analisava o pensamento de alguns pensadores, sobretudo Gustave le Bon, mas também outros escritores do tempo. Apesar da mudança frequente de nome da rubrica ela manteve-se com periodicidade regular.
Era considerado um elemento activo nas assembleias-gerais onde participava como accionista, com intervenções que demonstravam conhecimento das disposições estatutárias. Em algumas assembleias a sua combatividade provocava altercações que chegaram a suspender as referidas sessões. Foi secretário da mesa da assembleia-geral dos Caminhos-de-Ferro Portugueses e da Companhia dos Tabacos.

Tinha algumas condecorações como a comenda de Santiago e da ordem de Danneborg, da Noruega.

No âmbito da Comissão Organizadora do Congresso Regional Algarvio, José Parreira desempenhou as funções de vogal da comissão, tendo também sido acompanhado por seu irmão Jacinto Parreira que era secretário da mesma comissão. Neste congresso apresentou a tese cuja capa se apresenta mais acima intitulada Cantos, Músicas e Danças.

Bibliografia activa:
Além de centenas de artigos impossíveis de contabilizar na totalidade no Correio da Noite e no Diário de Notícias, bem como noutros órgãos da imprensa escrita, localizaram-se os seguintes trabalhos:
- Berne, 1902: 8 Congresso Internacional da Imprensa. Relatório, co-autores José Parreira, Leonildo Mendonça e Costa e Alfredo Mesquita, Typ. Universal, Lisboa, 1903, 14 p.;
- Cantos, Músicas e Danças. Tese, Congresso Regional Algarvio, s.n., Lisboa, 1915, 16 p.
Chamamos a atenção para um curioso trabalho assinado por este autor na revista Ilustração:
- “Breve História do Antigo Cemitério dos Israelitas Portugueses na cidade de Bordéus”, Ilustração, Lisboa, 01-05-1933, nº 9 (177), 8º ano, p. 18-19 [Consultar AQUI].

Faleceu em Lisboa, com 77 anos, em 14 de Março de 1942[6], já viúvo e deixando dois filhos: Raúl Ermida Parreira e Alice Celestina Ermida Parreira.







[1] Districto de Faro, Faro, 22-12-1904, Ano 29, nº 1496, p. 2, col. 3.
[2] Novidades, Lisboa, 31-05-1889, Ano V, nº 1531, p. 2, col. 2.
[3] “Reunião de Imprensa”, O Tempo, Lisboa, 07-04-1895, Ano VII, nº 1961, p. 2, col. 2.
[4] Novidades, Lisboa, 23-01-1905, Ano XXI, nº 6357, p. 3, col. 2.
[5] “Da Vida que Passa: Faleceu hoje o antigo jornalista José Parreira”, Diário de Lisboa, Lisboa, 14-03-1942, Ano 21, nº 6934, p. 5, col. 2. Disponível AQUI.
[6] Correio do Sul, Faro, 22-03-1942, Ano XXIII, nº 1303, p. 2, col. 3.

Bibliografia consultada:
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. 20, Lisboa/Rio de Janeiro, s.d., p. 460.

A.A.B.M.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

[TEXTO] NA HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS - FIGUEIRA DA FOZ


DISCURSO PROFERIDO NA HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS NO DIA 24 DE AGOSTO DE 2015, NA FIGUEIRA DA FOZ, pela Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto

Celebra-se hoje mais uma data comemorativa da luminosa jornada que raiou no dia 24 de Agosto de 1820 na cidade do Porto, esse grito memorável da regeneração e engrandecimento da Pátria, levado a cabo por homens generosos e de boa vontade, que o destino abraçou.

Em preito e homenagem a esses varões ilustres, cumpre-me - em nome da Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto – a honra de os evocar neste lugar e laurear a saudosa memória de um dos seus primeiros heróis, o insigne figueirense, o venerando Manuel Fernandes Tomás.

Agradeço, por uma vez mais, à Câmara Municipal da Figueira da Foz - na pessoa do senhor Presidente – este tributo de respeito e gratidão ao Patriarca da Liberdade, e que cada ano a edilidade promove, seguramente contra a inclemência destes nossos tempos; cumprimento, na pessoa do seu Presidente, a Associação Manuel Fernandes Tomás que tem sabido levantar bem alto a figura benemérita de Fernandes Tomás, a alma e rosto da primeira revolução liberal, a grande obra de 1820; e saúdo todos quantos quiseram estar aqui presentes. A todos e a cada um, o nosso agradecimento fraterno.

Minhas Senhoras e Meus Senhores:

Os grandes Homens, pelo reconhecimento que todos lhes devem dos seus largos ideais e das suas boas obras, também e por vezes, perpetuam a sua memória em monumentos escultórios públicos, mantendo assim vivo a sua identidade individual e cultural, para ilustração e edificação aos vindouros.

Essa secularização da morte remete-nos para uma iconografia onde a estatuária e a própria arquitectura fixam determinada memória histórica e biográfica. Esta cultura simbólica torna-se assim um sinal de presença e de rememoração ou nós não soubéssemos que “uma imagem vale mais que mil palavras”.

O Monumento a Manuel Fernandes Tomás – que aqui vemos neste espaço da polis figueirense –, este lugar luminoso da nossa memória, pela sua estatuária e construção tumular (caso único entre nós, pois se encontra em pleno passeio público) não só é o símbolo imortalizante da virtude, da audácia e da raça do tribuno e jurisconsulto Manuel Fernandes Tomás – e uma digna glorificação do Patriarca da Liberdade - mas também faz alusão para uma necessária reflexão sobre a nossa memória colectiva ou da história pátria.

Morre Fernandes Tomás no dia 19 de Novembro de 1822, já com a Constituição jurada, não assistindo porém ao “colapso” do movimento que tinha fundado. Mas legou-nos um exemplo grandioso de serviço à causa pública e à Liberdade, pela sua obra jurídico-constitucional, na defesa da liberdade civil e da soberania da nação, pela defesa do império da lei.

Logo na Sessão das Cortes, a 2 de Dezembro desse ano, Borges Carneiro propõe que a Nação tome a seu cuidado, como testemunho de gratidão pública, as exéquias funerárias do “primeiro dos regeneradores”, o que foi aprovado.

Na Sessão de 6 de Dezembro foi decretado, como sendo um dever de honrar a sua memória, incumbir o Governo de erigir um monumento sepulcral “simples e modesto”, com inscrição “a Manuel Fernandes Tomás as Cortes Ordinárias de 1822”, bem como patrocinar “meios de subsistência à sua família”. 

Porém, com a “Vilafrancada”, no mês de Junho de 1923, com o absolutismo de novo triunfante, tudo se torna inviável - pela animosidade e agressividade que tinham ao seu elevado pensamento, constantes dos soezes ataques proferidos ao seu carácter e integridade cívica. A corrente anti-liberal não perdoava ao cidadão Manuel Fernandes Tomás o seu sentimento de patriotismo, a sua actividade parlamentar de constituinte, a sua figura de rectidão e virtude cívica. Jamais lhe perdoou.

A 24 de Agosto de 1884 os republicanos de Lisboa patrocinam um grandioso cortejo cívico em honra de Fernandes Tomás, junto ao seu túmulo no cemitério dos Prazeres. A comissão da homenagem patriótica, acompanhada por delegados da província e correligionários, saiu do Clube Henriques Nogueira (rua Nova de Almada), com diversas oferendas, enquanto partia da sede da Associação Escolar Fernandes Tomás (rua do Poço dos Negros), diversas agremiações escolares e populares. Usaram da palavra no cemitério dos Prazeres, Sebastião Magalhães Lima, Elias Garcia, Manuel da Arriaga, Alves da Veiga, entre outros. O cortejo, que tinha sido proibido pelas autoridades, representou uma forte manifestação da força do povo republicano, mas terminou com incidentes lamentáveis, manifestações anticlericais violentas e prisões arbitrárias, que o conflito com a guarda desmandada causou.

O republicanismo então emergente – não por acaso o embrião do que seria o futuro Partido Republicano nasce nesse ano a 17 de Maio – tomava assim como sua herança os princípios de cidadania da gloriosa revolução de 1820 - esse grito de liberdade - abraçando o direito à sua memória futura e entre ela a exaltação da alma heróica e generosa de Manuel Fernandes Tomás.
 


Alguns anos mais tarde (Abril de 1906), a ideia de perpetuar em monumento a memória de Fernandes Tomás, “o mais ilustre espírito dos filhos da Figueira”, é abraçada fervorosamente por quatro operários figueirenses, de seus nomes: José Augusto Fernandes Talhadas, Frutuoso Abel Santos, João Maria Cardoso Pereira e João da Silva Cascão e que se constituíram em Comissão Promotora do Monumento. A angariação dos fundos necessários, através de uma lista de subscrição pública, foi bem correspondida, inclusive por contribuição dada pelo rei D. Carlos e pelo então governo.   

A primeira pedra foi colocada no monumento a 22 de Setembro de 1907, na então denominada Praça Nova. A cerimónia, que revestiu grande solenidade - perante duas mil pessoas - contou com discursos dos reputados republicanos António José de Almeida, João Pinto dos Santos, Carlos Borges, António Fontes e Mário Monteiro. Foi uma manifestação imponente ao egrégio cidadão e uma prova que o nome de Fernandes Tomás era já uma “frondosa árvore da liberdade”.

A inauguração do monumento a Manuel Fernandes Tomás só teve lugar no inolvidável e glorioso dia de 24 de Agosto de 1911. O monumento em pedra e bronze foi de autoria do escultor Fernandes de Sá. A estátua em bronze de Fernandes Tomás (de pé) assenta sobre um pedestal com uma palma em baixo-relevo esculpida na parte frontal, encimada por um friso de louros e algumas inscrições (em bronze), onde sobressai um excerto da oração fúnebre de Fernandes Tomás, de autoria de Almeida Garrett. A fundição da estátua, bem como os ornamentos para o pedestal, esteve a cargo de M. J. Pereira Caldas e contou com os préstimos do tenente-coronel José Maria Luiz de Almeida, que por ela se interessou.

A Comissão Promotora do Monumento a Manuel Fernandes Tomás trabalhou sempre generosa e esforçadamente na arrojada iniciativa, tendo organizado um programa dos festejos imponente, com apoio e acolhimento governamental, da edilidade, organizações comerciais e agremiações profissionais, sociais e culturais locais.      

O imponente cortejo cívico revestiu muito brilho e solenidade. Partindo do Salão Nobre dos Paços do Concelho, seguia à frente a Filarmónica Figueirense, o neto do homenageado, Manuel Fernandes Tomás e seus filhos, elementos do Regimento 28 de Artilharia, elementos civis e depois inúmeras associações, com os respectivos estandartes: as associações Artísticas, o Ginásio Clube, Bombeiros, Associação dos Pedreiros, Caixeiros, Carpinteiros, o Monte Pio, sócios do Centro José Falcão, fechando o cortejo a Filarmónica 10 de Agosto.

Frente à Estatua, formava, “com todo o garbo”, o Batalhão dos Voluntários com a banda dos 23, chefiado pelo capitão Girão; a Praça estava engalanada com as janelas das suas casas com colchas.

Marcaram presença na memorável cerimónia várias colectividades, como a Associação Comercial, a Cooperativa Fernandes Tomás, a Associação de Instrução Popular, o Centro Cândido dos Reis, o Grupo da Juventude Republicana Bernardino Machado, o Grémio Fernandes Tomás e o Grémio Evolução.

Usaram da palavra na patriótica homenagem, Francisco Martins Cardoso, Manuel Fernandes Tomás (neto do ilustre homenageado), Lino Pinto, Carlos Borges e Gustavo Bergstrom. À noite continuaram os festejos populares, tendo havido lugar a vários concertos e saraus associativos. O filho mais querido, ilustre e venerado da Figueira da Foz ergueu bem alto o seu nome, foi consagrado pelo povo e jamais poderá ser esquecido.

A 24 de Agosto de 1988, por iniciativa da Associação Manuel Fernandes Tomás (fundada a 12 de Janeiro de 1988) e da Câmara Municipal da Figueira, os restos mortais do insigne figueirense regressam á sua terra natal. Perante enorme multidão, a cerimónia de trasladação decorreu magnifica. A inauguração do mausoléu (que foi obra do arquitecto Nuno Oliveira) teve na presidência a figura do Presidente da República Mário Soares (tornado de imediato sócio Honorário da Associação Manuel Fernandes Tomás), tendo usado da palavra o dr. Henrique Tomás Veiga (presidente da A.M.F.T.), o Presidente da CMFF, Aguiar de Carvalho e o dr. Mário Soares. Terminou, à noite, a Homenagem a Fernandes Tomás com um Cortejo Histórico e um espectáculo de luz e som, evocando a sua vida e obra.   

Minhas Senhoras e Meus Senhores:

A cinco anos da comemoração do bicentenário da revolução de 1820 e a sete do passamento do nosso insigne patrício Manuel Fernandes Tomás - a que devemos todos associarmos - cabe-nos honrar o seu exemplo de cidadania, as virtudes morais e cívicas que o adornam, prestando nessas datas todo o nosso desvelado amor para com o “zeloso defensor dos direitos e liberdades da pátria”. Assim o saibamos merecer!

Termino com as sábias palavras de Almeida Garrett: “voltai os olhos sobre os poucos Portugueses; fitai-os nestes ainda mais poucos, que o amor da pátria e das letras reuniu neste lugar

Deixo à vossa ilustrada meditação as memoráveis palavras de Garrett e digamos todos bem alto:

Honra a Manuel Fernandes Tomás!

Viva a Liberdade!

[Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto, 24 de Agosto de 2015]

FOTO de Mauro Correia, com a devida vénia | sublinhados nossos
 
J.M.M

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

COMEMORAÇÕES DO CENTENÁRIO DO I CONGRESSO REGIONAL ALGARVIO


Foi, no agora centenário, ano de 1915, um dos mais agitados e instáveis de toda a I República, que se preparou, organizou e realizou o I Congresso Regional Algarvio, que decorreu entre os dias 3 e 7 de Setembro de 1915 na Praia da Rocha.

A realização de um Congresso era uma oportunidade de chamar a atenção dos poderes públicos e políticos sobre o Algarve, uma região, sistemática e injustamente esquecida pelo poder central. A justiça reclamada pelos algarvios prendia-se com o facto de o Algarve apresentar um saldo positivo entre receitas e despesas, contribuindo para os cofres centrais com montantes superiores aos que recebia.

O Congresso assumiu-se como uma verdadeira comissão técnica de aconselhamento dos poderes instituídos, sendo porventura uma iniciativa pioneira em Portugal, quer na forma como estruturou a sua intervenção, quer nos conteúdos abordados. Na verdade, pela primeira vez, um conjunto de personalidades afectas à elite do saber e de reconhecida competência técnica sobre as matérias essenciais ao desenvolvimento reuniu-se para reflectir sobre uma região do país e apresentar soluções de curto, médio e longo prazo para os problemas e entraves ao desenvolvimento sectorial e global do Algarve, em conformidade com um verdadeiro plano estratégico de desenvolvimento para a região. 


Deste modo, o CRA projectou uma nova era para o Algarve, subordinando as suas teses à concepção de uma região internacionalizada pelo Turismo, que ocuparia “o lugar de topo, no conjunto de actividades económicas da região”, sendo simultaneamente a actividade estruturante, agregadora e promotora das restantes actividades. O clima, a paisagem, a riqueza dos solos agrícolas e a abundância dos recursos marítimos asseguravam ao Algarve as “condições para alimentar uma indústria turística próspera contribuindo para a riqueza nacional de forma auto-sustentada.
O Congresso Regional Algarvio não teve, porém, os resultados desejados. A gravidade das várias convulsões políticas após 1915 não permitiu a implementação das ideias e das coordenadas de acção propostas pelo CRA.


No entanto, um dos principais objectivos do Congresso foi conseguido. O Algarve fora estudado por reputados especialistas das mais diversas áreas que analisaram, a agricultura, a pesca, a indústria, a rede viária e portuária, os transportes, a educação, o turismo, a fiscalidade, a exportação, o clima, o turismo, a cultura, a assistência, o analfabetismo, a saúde, a arte e demais recursos da região.

Os congressistas, para além da minuciosa caracterização da província, imprescindível para qualquer mudança estratégica, indicaram os novos rumos a seguir para um Algarve bem sucedido, com um desenvolvimento verdadeiramente sustentado e sustentável. As suas teses são fontes imprescindíveis para o conhecimento e compreensão da I República no Algarve e da sua relação com o país, pelo que o seu estudo abre novas pistas de análise para múltiplas investigações sobre o nosso destino colectivo enquanto região.

Que a celebração do Centenário do CRA, seja efectivamente útil no esclarecimento do nosso devir histórico e colectivo. 

Como seria o Algarve, se estas teses não tivessem caído no esquecimento?

Como seria o Algarve, se estas teses tivessem sido lidas e aproveitadas pelas gerações vindouras?

MJRD [Maria João Raminhos Duarte]

Com o nosso agradecimento pela autorização de publicação do texto que pode ser encontrado AQUI.
A selecção da imagem e os destaques do texto são da nossa autoria.

A.A.B.M.