quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A IMPRENSA MÉDICA E A 1ª GUERRA MUNDIAL: CONFERÊNCIA EM FAMALICÃO

CONFERÊNCIA: "A IMPRENSA MÉDICA E A 1ª GUERRA MUNDIAL”;

ORADORESDOUTORA MARIA DE FÁTIMA NUNES

DIA16 de Outubro 2015 (21,00 horas);
LOCAL: MUSEU BERNARDINO MACHADO (VILA NOVA DE FAMALICÃO);


 Integrado no “Ciclo de conferências  - Portugal na 1ª Guerra Mundial” (que terminará, na próxima sessão, a realizar em Dezembro) onde têm vindo a participar alguns dos especialistas no tema, desta vez tendo por convidada a Professora Maria de Fátima Nunes, docente e investigadora da Universidade de Évora, cujo currículo científico pode ser consultado AQUI. Uma excelente oportunidade para perceber que temas/assuntos tratava a imprensa médica portuguesa durante a Grande Guerra e quais os periódicos que se publicavam: Jornal dos Médicos e Farmacêuticos Portugueses, Porto, 1894-1919; Jornal da Sociedade de Sciencias Médicas de Lisboa, Lisboa, 1836-1947; Portugal Médico, Porto, 1915-1962; entre outras publicações

A não perder.

A.A.B.M.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

CONDEIXA – HUMOR, MONARQUIA E REPUBLICANOS


EXPOSIÇÃO: Humor, Monarquia e Republicanos;
DIAS: 10 de Outubro a 29 de Novembro;
LOCAL: Galeria Manuel Filipe (Condeixa);
ORGANIZAÇÃO: Câmara Municipal de Condeixa | Galeria Manuel Filipe | Villa Isaura (Troviscais).

CONFERÊNCIA

DIA: 10 de Outubro (18,00 horas);
ORADORES: Amadeu Carvalho Homem | Aires Barata Henriques;

“O final do século XIX e inicio de XX viu aparecer caricaturistas e humoristas que souberam interpretar na perfeição as incongruências da sociedade portuguesa. Rafael Bordalo Pinheiro, Francisco Valença, Leal da Câmara foram alguns desses geniais artistas.

Jornais como O , Sempre Fixe, A Paródia e o Século Cómico, foram os veículos utilizados para de forma mordaz e contundente pôr a nu acções de figuras políticas, situações de injustiça e acontecimentos políticos e sociais que muitas vezes tocavam o ridículo. A cerâmica foi também um dos géneros artísticos utilizados: aqui foi Bordalo Pinheiro o génio maior. A figura do “Zé Povinho” ultrapassou gerações, sendo ainda hoje do um ícone sociedade portuguesa.

Nesta Exposição é possível ver algumas dessas caricaturas, desenhos e peças de cerâmica de uma época que foi rica em acontecimentos político-sociais.

É nosso desejo que consigam sorrir com elas”

 J.M.M.

1915 - O ALGARVE REVISITADO: CONFERÊNCIA NAS COMEMORAÇÕES DO CENTENÁRIO DO CONGRESSO REGIONAL ALGARVIO



Realiza-se amanhã, 10 de Outubro de 2015, no Auditório do Museu de Portimão, pelas 15.30 h, a conferência que marca o inicio das comemorações do 1º Centenário do Congresso Regional Algarvio.

Vão apresentar o resultado das suas investigações:
- Maria João Raminhos Duarte
- Carlos Osório
- José Gameiro

Pode ler-se na nota de divulgação do evento:

No âmbito das comemorações do centenário do 1º Congresso Regional Algarvio, realizado no Casino da Praia da Rocha, em 1915, terá lugar no próximo dia 10 Outubro, às 15h30, no Auditório do Museu de Portimão, a Conferência «1915- O Algarve revisitado».
Com o objetivo de relembrar, debater e divulgar a importância histórica desse momento para o conhecimento do contexto político e social da época e homenagear esta singular ação dos republicanos algarvios e as suas propostas para o progresso da região, serão apresentadas três comunicações intituladas: “Congresso Regional Algarvio: Realidade e Utopia”, “Victorino da Fonseca Dias, o fotógrafo do 1º Congresso?” e “O barítono portimonense Alfredo Mascarenhas”.
A primeira comunicação, da autoria de Maria João Raminhos Duarte, doutorada em História Contemporânea, contextualizará a particularidade deste congresso, considerado, na sua perspetiva, um evento único na história do Algarve e do país em que pela primeira vez uma região promoveu um Congresso Regional com o intuito de estudar as suas potencialidades e refletir sobre todas as matérias essenciais ao seu desenvolvimento, chamando à colaboração, pela sua reconhecida competência técnica e científica, as mais reconhecidas personalidades.
Ambiciona-se nesta comunicação divulgar o conhecimento deste acontecimento ímpar da nossa História e, sobretudo, evocar os que para ele trabalharam incansavelmente, os que sonharam e acreditaram num outro Algarve que ficou por cumprir.
Carlos Osório, professor e investigador nas áreas da fotografia, da produção, edição e comunicação de conteúdos multimédia, apresentará um retrato biográfico de Victorino da Fonseca Dias, o fotógrafo republicano de Vila Nova de Portimão, que registou com a sua câmara raras imagens do CRA – 1915, contribuindo para eternizar um dos mais importantes eventos realizados na época.
Por último, José Gameiro, Diretor Científico do Museu de Portimão, dará a conhecer a história do cantor lírico Alfredo Mascarenhas, reconhecido e prestigiado barítono portimonense, que se destacou nas sessões musicais programadas para o Casino da Praia da Rocha, pela organização do Congresso. Este será igualmente o momento para, 100 anos depois, se voltar a ouvir a “CANÇÃO DA ROCHA “, cuja música e letra foram feitas propositadamente para apoiar aquela iniciativa republicana.
A moderação da conferência ficará a cargo de Elisabete Rodrigues, diretora do jornal Sulinformação.
As comemorações, que culminarão no dia 12 de Dezembro com a inauguração da exposição “O Congresso Regional Algarvio”, no Museu de Portimão, serão marcadas por uma edição comemorativa de postais da Praia da Rocha no início de século, pelo GAMP-Grupo de Amigos do Museu de Portimão, tertúlias, encontros de reflexão e debates tendo como tema “100 ANOS DEPOIS QUE ALGARVE?”.

1º Congresso Regional Algarvio
Traduziu-se no grande momento de afirmação e reflexão regionalista onde, pela primeira vez, foi feito o levantamento das potencialidades e constrangimentos do Algarve. A imprensa regional da época deu grande cobertura ao acontecimento, de que a revista “Alma Nova“ (órgão oficial do Congresso) e os semanários republicanos “O Heraldo”, “A Alma Algarvia” e “O Algarve” constituem um bom exemplo.

Uma excelente iniciativa que não podemos deixar de saudar e de divulgar junto de todos os interessados. Além disso, um evento que marcou a região na época.

A.A.B.M.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

CONFERÊNCIAS JOAQUIM DE CARVALHO NA FIGUEIRA DA FOZ


CONFERÊNCIA: "A Filosofia da Saudade e a Saudade da Filosofia”;

ORADORES: Eduardo Lourenço | José Carlos Seabra Pereira | João Tiago Pedroso de Lima;
MODERADOR: Paulo Archer de Carvalho;

DIA: 9 de Outubro 2015 (21,00 horas);
LOCAL: Centro de Artes e Espetáculos (Figueira da Foz);


Integrado nas “Conferências Joaquim de Carvalho” (que continuará, em próxima sessão, no dia 23 de Outubro) - sob coordenação científica do professor Paulo Archer de Carvalho e o apoio do Município da Figueira da Foz, o C.A.E., a Biblioteca Pública Municipal Pedro Fernandes Tomás, o Museu Municipal Santos Rocha e o Arquivo Fotográfico Municipal -, realizar-se-á uma conferência, subordinada ao tema, “A Filosofia da Saudade e a Saudade da Filosofia”, no próximo dia 9 de Outubro.

A não perder.

J.M.M.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

"O LAICISMO NA CAPITAL ALGARVIA ALGARVIA NOS FINAIS DE OITOCENTOS. O CÉLEBRE PROCESSO DE FRANCISCO PEREIRA SALLES - CONFERÊNCIA

CONFERÊNCIA: "O Laicismo na Capital algarvia nos finais de oitocentos. O Célebre Processo de Francisco Pereira Salles”;
ORADORA: Luís Guerreiro (Câmara Municipal de Loulé; Pres. da Fundação Manuel Viegas Guerreiro);
DIA9 de Outubro 2015 (21,30 horas);
LOCAL
CLUBE FARENSE (Rua de Santo António - Faro);
ORGANIZAÇÃO: CIRCULO CULTURAL DO ALGARVE;

Pode ler-se na nota de divulgação:

"Francisco Pereira Salles era um barbeiro de Faro, com jeito para a escrita, correspondente da Semana de Loyola, que escreveu um livrinho intitulado «Elementos de Geografia Astronómica», onde entre outras coisas negava a existência de Deus. O livro foi apreendido e mandado queimar. O autor apanhou um ano de prisão. Estávamos em 1887, o assunto teve uma enorme repercussão nacional num contexto de grande discussão das questões religiosas. É em volta destes temas que iremos falar na Sexta , no Clube Farense."

Uma iniciativa a não perder para quem estiver em Faro ou pelo Algarve.

A.A.B.M.


terça-feira, 6 de outubro de 2015

ALMADA. OS PAINÉIS A GEOMETRIA E TUDO


LIVRO: Almada. Os Painéis, a Geometria e Tudo. As entrevistas com António Valdemar;
AUTOR: António Valdemar;
EDIÇÃO: Assírio e Alvim, 2015, p. 223.


LANÇAMENTO:

DIA: 7 de Outubro (18,30 horas);
LUGAR: Grémio Literário (Rua Ivens, 37, Lisboa);
ORADOR: Eduardo Lourenço | presença de António Valdemar



 É preciso que o leitor saiba que, ao escolher este livro, acertou em cheio. Este é um livro que desfaz a nossa falta dele. É um livro que torna próximo, reunido e nítido o que até agora estava distante, disperso e desfocado. É um livro que, 55 anos depois, restitui à voz de Almada o seu som escrito mais sonoro, mais sucinto, mais sucessivo («alto e bom som», gostava ele de dizer). É um livro atravessado por uma estrada que passa em todos os lugares onde aquele para quem a arte era um todo e o artista um tudo firmou a sua soberania, a sua sabedoria, o seu saque. É um livro de palavras que procuram uma verdade que não é o contrário de uma mentira, mas o oposto de uma outra verdade. É um livro por onde o tempo corre para acompanhar a sua fuga: garrafa arrebatada ao mar fundo do passado, lança atirada à terra seca do presente, nave apontada ao céu alto do futuro («Até hoje fui sempre futuro», Almada). É um livro (documento, depoimento e testemunho) que fala da geometria que fala - que fala da geometria que «assim fala».

É um livro, mas o que nele se diz «não foi encontrado em livros primeiro, mas n'eles assegurado depois» (Almada). É um livro a mostrar-nos que «o novo existe e que pode mesmo dizer-se que é precisamente tudo o que há de mais antigo» (Delacroix, citado por Almada). É um livro e, com ele, sabemos que «o Futuro é tão antigo como o Passado. E ao caminharmos para o Futuro é o Passado que conquistamos» (António Maria Lisboa).

É este um livro feito a quatro mãos: as de um escritor-artista, sem o qual a cultura portuguesa seria outra; e as de um jornalista-investigador, sem o qual as entrevistas - e este livro que agora, passados mais de meio século, as restitui - seriam o não serem […]

Abre-se este livro e lemos o ensaio-prefácio, escrito agora, e em que António Valdemar nos fala, com minúcia e memória, de Almada Negreiros e de como foi feita a caça ao tesouro de que estas entrevistas tratam. Com conhecimento, fala-nos da vida de Almada e dos ventos que a moveram. Com inspiração, fala-nos dos Almadas que o Almada foi sendo para ser o Almada que era («A mim já me chamaram pau de dois bicos, quando, na verdade, eu tenho tantos bicos quantos os necessários para deixar de ser pau e ser eu!», Almada). Com deleite, fala-nos de obsessões e de polémicas. Com persistência, fala-nos daquela geometria em que Almada encontrou uma egometria. Pense-se o que se pensar desta geometria e desta egometria, a verdade é que elas deram origem a um mundo que se nos tornou magnificamente visível em tudo o que Almada com ele fez […]

O ensaio-prefácio faz-nos entrar, de olhos abertos e ouvidos despertos, na conversa entre os dois autores, o entrevistador e o seu entrevistado, o mestre atencioso e o discípulo atento. Esta conversa passa de um para o outro como uma corrente elétrica intensa passa de um pólo a outro polo: diálogo atravessado por monólogos; monólogo atravessado por diálogos; monodiálogo e diamonólogo; jogo de fórmulas e de formas; cinemática de forças e de figuras; mapa de segredos súbitos e de sentidos subtis. Aqui, Almada é o D. Sebastião que se perde num nevoeiro geométrico para nele se voltar a achar, regressando à Pátria mais passada e mais futura, mais encoberta e mais desejada, mais desaparecida e mais encontrada.

Agora, lembro. Era verão, os dias estavam claros e as noites quentes e demoradas. Nós vínhamos a pé de Algés ou de Belém, onde tantas vezes jantávamos com outros amigos, até ao Cais do Sodré ou à Praça do Comércio. Andávamos e conversávamos, conversávamos e andávamos. Por cada passo, dez palavras; por cada palavra, dez silêncios. Vejam bem o tudo que dizíamos e o nada que calávamos naqueles dez quilómetros […]

Agora, continuo a lembrar. Havia horas dessas noites, assim vagarosas e abafadas, em que o António Valdemar evocava o Almada, falava do Almada, citava o Almada, contava do Almada, figurava o Almada, representava o Almada. A noite subia e, sob o desenho distante dos astros na escuridão seca do céu, o meu amigo conseguia fazer com que o Almada aparecesse ali, entre nós, vivo […]

Agora, olho a fotografia da capa do livro. Aconteceu que, de entre as muitas fotografias do espólio de Almada, esta saltou de lá, ainda há pouco tempo, por milagre ou prodígio. Foi como se quisesse vir ao nosso encontro, como se desejasse estar na capa deste livro. E assim se lhe faz a vontade!

A fotografia dá-nos a ver dois homens que passeiam no Chiado. Nos seus rostos, há uma alegria comum, que não se perde nem se parte. Elegantes e com tempo para o serem, o homem já velho conversa com o homem ainda novo. Assim, anos mais tarde, um homem ainda novo, a quem chamo eu, conversará com um homem mais velho, a quem chamo amigo.

No Chiado, enquanto caminhava ao lado do Valdemar, o Almada falava do Almada. No caminho que, anos depois, eu e o meu amigo fazíamos de Algés à Baixa, era do Almada ainda que falávamos. Este livro é, de Almada e de nós a falar dele, uma memória que não esquece. Por isso, o reconheço - assim Almada Negreiros reconhecia os Painéis das Janelas Verdes como se os tivesse visto pintar. Mais e melhor: reconhecia-os como se ele, muito antes dele, os tivesse pintado.

[José Manuel dos Santos, “O Fausto de Almada ou a Caça ao Tesouro”, in prefácio, p. 11-19]

 
António Valdemar
 
 
J.M.M.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

QUE VIVA A REPÚBLICA!


Faça-se a República!” [Afonso Costa]

O Almanaque Republicano, sereno e puríssimo cantar da Alma Lusitana, evoca - uma vez mais - os cidadãos que no memorável dia de 5 de Outubro de 1910 cumpriram a patriótica missão de serem propagandistas da Liberdade, Igualdade e Fraternidade e mudar Portugal. Esses homens souberam desfraldar as velas da justiça, da honra e do progresso pátrio, iluminar a alma popular, sementeira de terra esclarecida, livre e democrática. A eles, a nossa gratidão e o nosso preito de saudade!

Em tempos de memória amassada, num descrédito de instituições que a res publica soube fundar e que se devia honrar, saibamos rememorar o espírito comemorativo e a alma do 5 de Outubro, recusando quem o quer calar. Neste dia glorioso que inundou o espírito do tempo, o Almanaque Republicano saúda fraternalmente todos os nossos estimados ledores que nos honram com o generoso sentimento do ideal republicano. A vós o nosso Abraço fraternal!

Viva a República! Viva a Pátria!
Saúde, Paz e Fraternidade.

J.M.M.
A.A.B.M.

domingo, 4 de outubro de 2015

COMEMORAÇÕES DO 5 DE OUTUBRO EM LISBOA


DIA: 5 de Outubro 2015 (10 horas)
Colocação de uma coroa de Flores na Estátua de António José de Almeida
(Av. António José de Almeida - Lisboa)

Sessão Evocativa: VALORES REPUBLICANOS 
 
DIA: 5 de Outubro 2015 (18,30 horas);
LOCAL: Escola Oficina nº1 - Largo da Graça, nº 58;
ORGANIZAÇÃO: Grémio Lusitano - Lisboa;

[TEMAS /ORADORES]:

 Joaquim Romero Magalhães;

 José Luís Pinto Ramalho;

A acompanhar com todo o interesse.

A.A.B.M.

sábado, 3 de outubro de 2015

RELAÇÕES ENTRE SUPREMOS CONSELHOS DO RITO ESCOCÊS E OBEDIÊNCIAS MAÇÓNICAS EM PORTUGAL (1840-1993)



LIVRO: Relações entre Supremos Conselhos do Rito Escocês e Obediências Maçónicas em Portugal (1840-1993);

AUTOR: Fernando Marques da Costa;
EDIÇÃO: Supremo Conselho do R.E.A.A. para Portugal e sua Jurisdição, 2015, 269 pp [trata-se da obra nº1 da série, agora iniciada, “Cadernos do Supremo Conselho”]

“ […] Há urna ideia difundida na historiografia portuguesa sobre o tema da maçonaria, seja a feita por curiosos, seja a feita por académicos, de remeter as dissensões nas organizações para questões pessoais ou políticas. É impossível negar o mérito dessa interpretação, sublinhada, aparentemente, pelo profundo envolvimento político que esta teve durante algumas décadas da sua história, designadamente no período da implantação do liberalismo até à sua consolidação na década de 50 do século XIX, ou no da República, grosso modo entre 1900 e o início da ditadura militar de 1926. Porém, essa interpretação, ao valorizar o carácter de intervenção política que a maçonaria teve nesses períodos, ignora ou, pelo menos, subvaloriza a sua componente institucional enquanto organização dotada de características próprias de funcionamento e dogmática constitutiva, remetendo usualmente estas para a categoria de pretextos invocados para disfarçar a outra interpretação.

Será isso inteiramente verdade? Não creio. Muita historiografia aponta para uma aproximação - não arrisco similitude - entre determinado posicionamento social e político e determinado entendimento da maçonaria como organização, quer do ponto de vista do seu funcionamento institucional, ritual e simbólico, quer do ponto de vista da sua inserção na sociedade. Tendeu-se a arrumar as dissensões entre «conservadores» e «progressistas», sobretudo entre a segunda metade do século XIX e o primeiro quartel do século XX. Sem querer debater o valor intrínseco desses qualificativos quando aplicados à esfera política, julgo essencial reflectir sobre a sua operacionalidade enquanto critérios de análise das perspectivas do que era e do que se achava que devia ser a maçonaria nessas décadas […]

A visão hegemónica da história da maçonaria em Portugal constrói o seu modelo interpretativo à luz do período republicano e da forma como este olhou para o seu passado. As longas décadas de ditadura transformaram esse período em paradigma e bitola aferidora do que deve ser a maçonaria. Não há nisso nada de extraordinário. Porventura não se apelidou, durante tanto tempo, a l." República de «democrática», quando ela praticou o sistema eleitoral mais restritivo de que há memória no constitucionalismo português? É tempo de poder olhar para o passado e dizer, com igual rigor e idêntica isenção, sem complexos, sem querer qualificar uns de «progressistas» e outros de «conservadores»: que feito notável! Ou, que erro grosseiro! De ambos foi feita a história da maçonaria.

São os historiadores que «definem» o que foi o passado. Por isso, não há apenas «um passado», mas vários, tantos quantos a diversidade interpretativa dos historiadores que, de forma sequencial, vão fazendo novas «sínteses», forma académica e polida de dizer que enterram as interpretações anteriores e legitimam a sua, baseando-a na descoberta de documentação inédita ou de novos modelos teóricos interpretativos. Nada de mal nisso tudo. O intróito só serve para lembrar que a história da maçonaria não deve fugir a essa regra. Frequentemente, porém, recorre-se apenas à abundante literatura maçónica do século XIX e início do XX, que, de forma mais ou menos mitificada, justapôs aos factos que narrava as opções entre as querelas pessoais ou dogmáticas que assolaram a maçonaria durante esse período e em que o narrador estava envolvido. Historiografia feita com metodologia e ferramentas de interpretação académicas multidisciplinares é uma coisa recente, que se afirmou lá fora com consistência e resultados credíveis a partir da década de 80, com honrosas excepções anteriores, naturalmente […]

Assim, este texto, sendo apenas uma nota sobre uma complexa relação entre duas organizações maçónicas, sofre da treva de investigação que ainda domina o contexto mais vasto do conhecimento da história da maçonaria da segunda metade do século XIX em diante, em que se insere.

O seu objecto é o estudo das relações entre os Supremos Conselhos do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito (doravante Supremo Conselho), como câmaras superiores de administração desse Rito, e as diversas organizações com quem se relacionaram desde 1840, designadamente o Grande Oriente Lusitano, a Confederação Maçónica, o Grande Oriente de Portugal, o Grande Oriente Português e o Grande Oriente Lusitano Unido (doravante Grande Oriente)." Embora mandasse o rigor conceptual que aos últimos se aplicasse a designação de «Obediências Maçónicas» e àqueles o de «Potências Maçónicas» - isto é, organizações que só recrutam para os Altos Graus entre membros de uma Obediência - a verdade é que no passado os dois conceitos foram aplicados com alguma liberalidade, confundindo o seu significado, ou ignorando-o mesmo […]”

inIntrodução”, pp 11-15 [sublinhados nossos]

J.M.M.

A IMPRENSA E A I REPÚBLICA EM V. N. FAMALICÃO


No âmbito das comemorações do 105 aniversário da implantação da República, a Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, em Vila Nova de Famalicão vai levar a efeito uma exposição evocativa da efeméride. A exposição será inaugurada hoje dia 3 de Outubro de 2015, pelas 17 horas e está subordinada ao título A Imprensa e a I República em Vila Nova de Famalicão.

Pode ler-se no blogue Do Presente, de Amadeu Gonçalves e responsável pela organização da exposição, que o principal objectivo da mesmo é: dar a conhecer a Comissão Municipal do Partido Republicano desde os tempos da propaganda até às dificuldades que passaram os republicanos famalicenses até ao 28 de Maio de 1926:

Numa primeira abordagem, o que convém questionar é se, de facto, o republicanismo em V. N. de Famalicão através da imprensa, na divulgação do seu ideário, teve o seu efeito prático. Na realidade, num primeiro momento, quando Sousa Fernandes em 1909, na inauguração do Centro Republicano Dr. Bernardino Machado, salienta a importância dos centros republicanos como meio de propaganda e de instrução, foca, enquanto instrumentos para tal fim, o jornal, o livro e a conferência. Contudo, pretende-se aqui enunciar cinco áreas concretas à volta da imprensa famalicense, entre o período histórico da última década da monarquia e os anos da I República, a saber: os periódicos republicanos, os periódicos de transição, os periódicos informativos e noticiosos, os periódicos literários e humorísticos e os periódicos associativos.

Pode ler-se o restante artigo com a nota de apresentação da exposição AQUI.

Uma exposição que se saúda e se recomenda a todos os interessados na temática.

A.A.B.M.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

PARA UMA HISTÓRIA DA REPRESSÃO DO ANARQUISMO EM PORTUGAL NO SÉCULO XIX



LIVRO: Para uma História da Repressão do Anarquismo em Portugal no Século XIX seguido de «A Questão Anarchista»,  de Bernardo Lucas;
AUTOR: Luís Bigotte Chorão;
EDIÇÃO: Letra Livre, 2015, 138+39 pp

A Letra Livre edita «Para uma História da Repressão do Anarquismo em Portugal no Século XIX», de Luís Bigotte Chorão.

O autor, historiador do direito, tem como fio condutor o percurso do ilustre advogado portuense Bernardo Lucas e a sua célebre defesa dos anarquistas acusados no Porto ao abrigo da lei de 13 de Fevereiro de 1896, e que é pela primeira vez estudada entre nós. Esta lei reproduziu em Portugal as políticas repressivas de outros países, que tinham como alvo os anarquistas e o movimento operário e que culminaram numa conferência anti-anarquista em Roma, em 1898.

A brilhante defesa de Bernardo Lucas que levou à absolvição dos militantes anarquistas veio a ser publicada na revista A Ideia, editada no Porto em 1898, sob o título «A Questão Anarchista», que se reproduz em fac-símile.

«Sem que houvesse em Portugal razões de ordem pública que o justificassem, e sendo desconhecida entre nós – diferentemente do que sucedia em França e Espanha – a propaganda pelo acto, e naturalmente desconsiderando o discurso lombrosiano sobre os riscos da repressão, o ministro apresentou a 8 de Fevereiro de 1896 uma proposta de lei na Câmara dos Deputados que foi justificada pela “exigência imperiosa da segurança das pessoas e da propriedade”.

A nova lei destinava-se a “prevenir gravíssimos atentados contra a ordem social” e a “reprimir qualquer tentativa de propaganda de doutrinas subversivas” que provocassem ou incitassem à execução desses atentados. A comissão de legislação criminal logo se pronunciou, para observar que de há muito se vinha revelando em Portugal a existência do mal anarquista, “se bem que por formas relativamente atenuadas”. Porém, os acontecimentos recentes reclamavam, no entender da comissão, a existência de leis “eficazmente repressivas”.»

Para uma História da Repressão do Anarquismo em Portugal no Século XIX, de Luís Bigotte Chorão, seguido de «A Questão Anarchista», de Bernardo Lucas à VENDA na LIVRARIA LETRA LIVRE
 
J.M.M.

JAIME DE PÁDUA FRANCO (1868-1938)


Jaime de Pádua Franco era natural de Portimão, onde nasceu em 9 de Maio de 1868, filho de Francisco Augusto de Pádua Franco e de Maria da Conceição Franco. Foi baptizado na igreja de Nossa Senhora da Conceição em dois de Julho desse ano, com o nome completo de Francisco Jaime Lindsay de Pádua Franco, embora tenha ficado conhecido com o nome de Jaime de Pádua Franco. O pai era aspirante da alfândega de Olhão, mas colocado na delegação de Portimão, era natural de Lagoa e a mãe era natural de Portimão.

Os avós paternos chamavam-se Francisco António das Chagas Franco e Carolina de Pádua Franco. Os avós maternos chamavam-se João André da Conceição Franco e Maria da Conceição Lindsay Franco. Foram seus padrinhos de batismo António Maria de Pádua, viúvo, oficial da alfândega de Olhão e madrinha D. Augusta Ballesteros de Pádua.

Começou por integrar o pessoal do quadro das alfândegas e parte para as colónias, mais concretamente para Moçambique, onde desempenhou papel de relevo que lhe permitiu ser agraciado com a condecoração de comendador de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa em 1904. Sobre a sua actividade profissional como aspirante das alfândegas deve consultar-se o processo que existe AQUI. Exerceu actividade profissional até 1932, quando se aposentou de funcionário do serviço de alfândegas.

Foi uma das personalidades que acompanhou a cisão que se registou na Academia das Ciências de Lisboa e criou a efémera Academia das Ciências de Portugal, acompanhando a iniciativa dos irmãos Cabreira [Tomás e António], juntamente com Teófilo Braga, criada em 1907 e que se manteve em actividade até 1925, sendo fortemente influenciada pelos republicanos.

Participou como um dos fundadores da Sociedade de Propaganda de Portugal, embora não tenha integrado a direcção provisória da associação, impulsionador e inspector de diversas organizações daquela instituição em Paris e noutras cidades europeias, que durante muitos anos desempenharam as funções que passaram a competir às Casas de Portugal. Foi, por exemplo, um dos membros da comissão que recebeu a visita dos organizadores da Exposição Internacional de S. Francisco (1915) que esteve em trabalhos de divulgação e preparação em Novembro de 1912, comissão essa que era presidida pelo Eng. Manuel Roldan.

Pádua Franco era também um dotado na área da música tendo realizado alguns concertos acompanhando ao piano algumas personalidades amadoras em 1913.

Foi organizador das primeiras conferências de propaganda turística de Portugal em Paris, Londres, Rennes, Bordéus e Ruão, dos primeiros concertos de música portuguesa em Paris, Havre e Londres, e da representação do nosso país em feiras internacionais, como a de Bordéus e Saarbrucken. Acompanhou Sebastião de Magalhães Lima entre Novembro e Dezembro de 1920, na sua viagem pela Bretanha. Em 1921, sendo director da Sociedade de Propaganda de Portugal e seu representante em Paris, conseguiu, depois de várias negociações, a criação da cadeira de Português na Universidade de Rennes, que foi entregue a seu primo sr. Sezinando Raimundo das Chagas Franco, a partir de Fevereiro de 1921. Este processo envolveu no seu início uma conferência realizada na referida universidade pelo Conde de Penha Garcia, em que se abordou a questão da cultura portuguesa e nessa altura, o reitor da Universidade de Rennes, Prof. Gérard Varet e pelo prof. Georges Dottin, decano da Faculdade de Letras local, mostraram interesse na existência de um leitorado português na instituição. Acompanharam também esse processo e acabaram por ter alguma influência nele os maçons Sebastião de Magalhães Lima e o embaixador José Bernardino Gonçalves Teixeira, que era presidente do Rotary Clube Português, secretário-geral do  Ministério dos Negócios Estrangeiros e personalidade de destaque no movimento espírita em Portugal, entre os anos 20 e 30.  Em 1923, graças aos seus esforços, foi dada à língua portuguesa um estatuto semelhante ao do inglês, do alemão e do espanhol, nos cursos secundários de França.

Sob a sua orientação, realizaram-se também vários filmes turísticos da região algarvia que serviram para propaganda do turismo na mesma. Muitas vezes era ele que escolhia os cenários a serem utilizados pelas câmaras, apostando nas paisagens de Monchique, Portimão e Sagres, mas também com referências a outros locais da região, em especial as praias que já eram motivo de atenção dos viajantes da época.

Chama-se a atenção para uma entrevista que Pádua Franco cedeu ao jornal quinzenário de Portimão, Algarbh, dirigido por Armando de Miranda em 1922, onde refere ao seu papel como director da Sociedade de Propaganda de Portugal (nº 4).

Representou Portugal em vários congressos dos «Tourings» (Aliança Internacional de Turismo). Colaborou em muitas publicações de turismo e em diversos jornais, sendo correspondente do Diário de Lisboa, na Praia da Rocha, de 1932 em diante, quando se fixou novamente no Algarve, após a aposentação. Colaborou ainda com o semanário O Povo do Algarve, de Tavira (2ª série, 1915-1917), dirigido por Isidoro Manuel Pires. Na Revista de Turismo, também se encontram vários artigos da sua autoria. Com o encerramento do Bureau de Propaganda de Portugal em Paris e com a criação das Casas de Portugal, em 1932, regressa a Portugal e desempenha as funções de diretor-honorário da Sociedade de Propaganda de Portugal

Pertenceu também como sócio à Sociedade de Geografia de Portugal desde 1894.

O velório de Jaime de Pádua Franco teve lugar na Igreja da Praia da Rocha, seguindo depois para a Igreja matriz de Portimão, onde foi rezada missa de corpo presente. A urna foi coberta com a bandeira da Sociedade de Propaganda de Portugal e o corpo vestido com a casaca e com as condecorações de Isabel, a Católica, Senhora da Conceição de Vila Viçosa e colar da Sociedade de Geografia.

Faleceu com 69 anos, em 20 de Abril de 1938.
A urna ficou depositada no cemitério de Portimão, no jazigo do visconde de Bívar[1].





[1] “Necrologia - Jaime de Pádua Franco”, O Algarve, Faro, 24-04-1938, Ano 31, nº 1569, p. 3, col. 3 a 5.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

SESSÃO EVOCATIVA DE RAMALHO ORTIGÃO NA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS



Sessão Evocativa de Ramalho Ortigão (por ocasião do centenário da sua morte)
 
DIA: 1 de Outubro 2015 (15,00 horas);
LOCAL: Academia das Ciências de Lisboa (Salão Nobre), Lisboa;
ORGANIZAÇÃO: Academiadas Ciências de Lisboa;

[TEMAS /ORADORES]:

Ramalho e os Vencidos da Vida” [Guilherme d’Oliveira Martins];

Saudação em nome da família de Ramalho” [Margarida Ortigão Ramos];

Virtudes e defeitos do povo n’As Farpas” [António Valdemar];

Ramalho na Academia das Ciências” [Artur Anselmo].
 
 

«Tenho hoje 54 anos, dos quais 35 consagrados à profissão das letras. Do exercício da minha arte tirei grandes alegrias de aplicação e de trabalho. Nos primeiros anos um feminismo, que estava talvez em gérmen no meu temperamento, mas que a leitura de Garrett na psicose da minha puberdade contribui muito para desenvolver num sentido romanesco, levava-me a apetecer um certo género de celebridade: que as mulheres me lessem, me olhassem com simpatia. Essa ambição tive, mas nunca tive outra sendo completa e absolutamente indiferente ao aplauso das academias, aos prémios oficiais, a toda a espécie de honras e dignidades públicas. Mais tarde esvaiu-se esse mesmo desejo de ser lido por mulheres lindas, e o meu único prazer de escrever está na minha própria escrita, quando raramente numa e noutra linha consigo fixar a imagem de um sentimento verdadeiro, transmitir uma emoção sincera.

Maçar o menos que seja possível o meu semelhante, procurando tornar para os que me cercam a existência mais doce, o mundo mais alegre, a sociedade mais justa, tem sido a regra de toda a minha vida particular. O acaso fez de mim um crítico. Foi um desvio de inclinação a que me conservei fiel. O meu fundo é de poeta lírico.

Cumpri o melhor que pude o meu destino, criando o filho e escrevendo o livro. Faltou-me plantar a árvore, e é já agora tarde para o fazer com alguma probabilidade de aproveitar a sombra.

Mas à minha profissão exercida com modéstia, mas com honradez, devo amizades, e ligações de simpatia, que fazem a minha única glória, e me permitirão talvez não morrer ao sol e às moscas” [Autobiografia]




J.M.M.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

RAMALHO, MORTO OU VIVO?


Ramalho, morto ou vivo?” – por António Valdemar, in jornal Público

“A herança que Ramalho deixou em textos de intervenção abriu novos horizontes. Desfez rotinas e marasmos. Reformou hábitos e costumes arcaicos. Empenhou-se em manter Portugal nos padrões europeus de vida e de cultura"

"Portugal é outro. Dentro de um outro mundo e em permanente transformação. Terá algum sentido falar e escrever acerca de Ramalho Ortigão, cujo centenário da morte hoje se completa, pois faleceu a 27 de Setembro de 1915 quase com 80 anos? Que interesse pode suscitar esse jornalista escritor que se caracterizou, fundamentalmente, um grande cronista, um grande repórter, um notável crítico da vida social, cultural e política da segunda metade do século XIX?

Muitas páginas dos livros de Ramalho estão datadas. Apesar disso não se extinguiu o legado intelectual de Ramalho. Se procedermos, na maioria dos seus textos, a uma descircunstancialização – no sentido a que Ortega y Gasset atribuiu o mais amplo significado desta expressão – verificamos que Ramalho, numa linguagem clara, fluente e sólida, estimula a reflexão e a crítica, combate a mediocridade e desmascara a intriga e a corrupção.
 
Ramalho nasceu no Porto a 24 de Novembro de 1836 e lá principiou a sua carreira intelectual. Lecionava francês no colégio do pai (Eça de Queiroz foi um dos seus muitos alunos) e entrou para a redação do Jornal do Porto. Exerceu durante alguns anos a tarimba diária do noticiário e do folhetim. Foi destacado em 1867 para a cobertura da Exposição Universal. Realizou um dos sonhos de um homem de letras. Conhecer Paris. Tomar o pulso da capital do espírito. Frequentar os teatros, ver os museus, ir às bibliotecas e livrarias, sentar-se à mesa de restaurantes e comer o que no Porto ou em Lisboa era, gastronomicamente, traduzido em calão. Foi o primeiro e decisivo contato com o mundo.
 
Ao contrário de Sampaio Bruno que permaneceu agarrado ao Porto, foi um dos historiadores do Porto e dos seus homens ilustres, Ramalho Ortigão – apesar de palavras cordiais escritas sobre o Porto – não gostava do Porto, nem dos portuenses. As confissões a sua mulher (Cartas a Emília introdução e seleção de Beatriz Berrini, páginas 56 e 57, edição da Biblioteca Nacional, 1993) constituem um documento, sobre todos os aspetos inconcebível. É difícil encontrar, em qualquer parte do mundo, tamanha repulsa de alguém pela sua própria terra. Pela cidade do Porto que, em vida e a título póstumo, lhe prestou as maiores homenagens. Este facto explica, porventura, ter-se radicado, definitivamente, em Lisboa. Instalou-se, em 1868, com a família no Bairro Alto, ao cimo da Calçada dos Caetanos, no último andar de um prédio com vista para o Tejo. Trabalhava muito perto. Era funcionário da secretaria da Academia das Ciências.
 

Retrato do grupo "Vencidos da Vida". Sentados: Carlos Lima Mayer, Oliveira Martins e Ramalho Ortigão; de pé: marquês de Soveral, conde de Sabugosa, Carlos Lobo de Ávila e Eça de Queiroz; sobre a escada: Guerra Junqueiro, conde de Arnoso e conde de Ficalho (1889) – via Casa Comum


Encontrou-se com Eça que terminara o curso de Direito. Estabeleceu relações com a nova geração de intelectuais e artistas, que vai promover as Conferências do Casino, o Centenário de Camões e o Centenário de Pombal, referências emblemáticas do Portugal democrático, republicano e laico; colaborou nos principais jornais e revistas de Lisboa. Por exemplo; na Revolução de Setembro e no Diário de Notícias que se fundara, há pouco, como órgão de informação geral, sem resvalar nas querelas partidárias. Ao mesmo tempo, principiou a escrever com regularidade para o Brasil, para a Gazeta de Noticias que será, também, uma das tribunas de Eça de Queiroz. De tal modo que alguns dos livros apareceram primeiro editados no Brasil.
 
Entretanto, lançou com Eça de Queiroz As Farpas, crónica mensal de política, de letras e de costumes. Em vez do sarcasmo escaldante e da sátira feroz, uma rajada esfusiante de ironia passou a comentar as personagens e instituições oficiais. Ao ingressar na diplomacia, Eça interrompeu a publicação que viria a compilar em dois volumes com o título Uma Campanha Alegre. Enquanto Ramalho prosseguiu, sem intermitências, até 1888, reunindo a maior parte dos textos, em 11 tomos, sistematizados por temas e com o título genérico e original As Farpas.

Ramalho n’As Farpas mostra-nos o que o Pais era – e não deixou de ser nos seus fundamentos – a compleição geográfica do território e a diversidade humana das populações; os vícios da política e da administração pública; as acrobacias e rábulas parlamentares; a produção literária e artística; aspetos insólitos do quotidiano de Lisboa; lacunas na educação e deficiências no ensino; falta de limpeza nas casas e nas ruas; a necessidade de regras de higiene pública e privada; as imposturas, as hipocrisias e as superstições da prática religiosa. A tudo isto juntou um conjunto perfis de figuras exemplares, em vários domínios da vida portuguesa.
 
Nos primórdios da sua carreira Ramalho escreveu dois livros que atingiram grande sucesso: Banhos de Caldas e Águas Minerais e As Praias de Portugal. Promoveram a descoberta do litoral e do interior, das serras e da planície, das margens e do curso dos rios, numa altura em que as viagens eram difíceis. O caminho-de-ferro estava a avançar muito lentamente. As estradas eram péssimas. E o alojamento rudimentar. Percorreu o País desde o Minho ao Algarve, desde Trás-os-Montes até ao Alentejo. Estudou cada região e as qualidades e defeitos dos seus habitantes.
 
 
Além da França, com permanências demoradas em Paris, visitou parte da Europa. Inteirou-se do que era a Holanda, a Suíça, a Inglaterra, a Espanha e a Itália. Foi muitas vezes ao Brasil. Em especial ao Rio de Janeiro onde tinha família e relações literárias com escritores, poetas, jornalistas e políticos que muito o estimavam.
 
Apesar das várias opções políticas e ideológicas que adotou e se refletiram na sua obra, As Farpas e outros livros de Ramalho tiveram forte impacto em várias gerações. Em políticos, escritores e panfletários que lutaram pela implantação da Republica: João Chagas, Lopes de Oliveira, Tomaz da Fonseca, João de Barros. No grupo e na geração da Seara Nova que foi a consciência crítica e moral da 1ª Republica – admiraram Ramalho: António Sérgio que o antologiou, prefaciando e anotando as Origens da Holanda; Câmara Reys, assinalou a morte, de Ramalho logo no primeiro número da revista Atlântico e incluiu-o e enalteceu-o nas Questões Morais e Sociais da Literatura; Aquilino Ribeiro louvou-lhe o desassombro e os primores da escrita (O Século, 25 de Junho de 1958); e Raul Proença no Guia de Portugal cita-o, com abundância, e acolheu-o como um dos orientadores no conhecimento e valorização de Portugal.
 

A trajetória de Ramalho, embora sem qualquer filiação explícita, decorreu em Lisboa ao lado dos precursores da República, do Socialismo e da Federação Ibérica. Ao prestar serviço na Biblioteca da Ajuda conviveu com a família real. Aderiu e apoiou a ditadura de João Franco. Radicalizou a posição monárquica após o regicídio. Insurgiu-se contra a proclamação da Republica. Combateu o novo regime dentro e fora de Portugal. Simpatizou com os integralistas. Para o jornal monárquico A Restauração, de Homem Cristo Filho, escreveu um dos últimos textos Carta de um velho a um novo (7 de setembro de 1914), reeditado em 1947, pela Causa Monárquica. Elegeram-no mestre do nacionalismo português.
 

Manuel Gonçalves Cerejeira, futuro cardeal patriarca, no controverso livro A Igreja e o Pensamento Contemporâneo – desmistificado por Sílvio Lima, numa obra de análise crítica retirada do mercado pela PIDE e pela Censura e que lhe interrompeu a carreira universitária – exaltou Ramalho como um dos paradigmas morais e intelectuais, até porque, pouco antes da morte, se convertera ao catolicismo e solicitara funeral católico. Na revista Nação Portuguesa, Alberto de Monsaraz, escreveu um artigo sobre a morte de Ramalho considerando-o, um dos mentores do Integralismo Lusitano.
 
Almada Negreiros também o elogiou. O testemunho de Almada provoca alguma surpresa. Para quem leu o Manifesto Anti Dantas estranha o apreço por Ramalho. Todavia, Almada (íntimo de Homem Cristo Filho) e parte da geração transformaram a Carta de um Velho a um Novo, numa cartilha politica e num breviário nacionalista. Havia profundas diferenças literárias e estéticas, mas identificavam-se com o ideário terminal de Ramalho. Pertenciam aos adversários irredutíveis da República.
 
Seja como for, a herança que Ramalho deixou está viva. E numa escrita viva. A maior parte d’ As Farpas, a Holanda, a colaboração no Álbum de Glórias, de Rafael Bordalo e outros textos de intervenção constituem referências obrigatórias. Exerceu significativa pedagogia cívica. Abriu novos horizontes. Incutiu saúde em face do pessimismo militante e dissolvente. Desfez rotinas e arrasou marasmos. Reformou hábitos caducos. Baniu costumes arcaicos. Empenhou-se em manter Portugal fiel às raízes que o definem e o singularizam, mas inserido nos padrões europeus de vida e de cultura”.
 
Ramalho, morto ou vivo? – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], jornal Público, 27 de Setembro de 2015, p.54 – com sublinhados nossos. 
 
 
J.M.M.