quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

AS SOCIEDADES PATRIÓTICAS – PARTE III


 
AS SOCIEDADES PATRIÓTICAS – PARTE III
 

[Extracto] “Os Estados Peninsulares e as Sociedades Patrióticas” - (A propósito do discurso de José Liberato Freire de Carvalho na noite de 24 de Julho de 1822)”

 José Manuel Martins

NOTA: As Sociedades Patrióticas (Parte III) é a continuação do prefácio ao livro “Memória da Liberdade e do Constitucionalismo. Madrid-Lisboa / 1822”, com textos de José Liberato Freire de Carvalho e João Baptista da S. L. de Almeida Garrett, obra republicada pela Comissão Liberato (com assento em terras do Mondego) a 7 de Julho de 2016, em Coimbra - PARTE I pode ser lida AQUI | PARTE II pode ser lida AQUI.
 
► (...) As Sociedades Patrióticas

O primeiro liberalismo associou à sua volta diferentes intervenientes, clubes e sociedades, sendo que acresce, como dos mais relevantes, um importante elemento histórico: as Sociedades Patrióticas. O seu memorial é relativamente pouco conhecido e longe de ser sistematicamente estudado, existindo escassos estudos publicados que lhe são dedicados [31]; porém algumas referências sectoriais a este tipo de sociedades aparecem em periódicos e parcelarmente em obras gerais ou de âmbito específico, quase sempre registando a sua actividade e algum dos seus membros.

As Sociedades Patrióticas emergiram no contexto das lutas liberais, na “falta de partidos políticos organizados” [32] e resultam das profundas alterações do “modo de vida político da sociedade portuguesa”. São portanto datadas em períodos específicos.

Sitiadas nos principais centros urbanos, estes clubes de opinião e agitação pública, trocam informações políticas e filosóficas, propagam nas suas sessões ideias e soluções liberais, vigiando, apoiando e apelando à virtude e ao patriotismo como fundamento da actividade política. Funcionam assim como “caixa de ressonância” da vida pública e parlamentar, difundindo o ideário revolucionário liberal e sustentando um conjunto de actividades organizadas, de carácter político, económico e social, estando, na sua constituição ou por detrás delas, membros de sociedades secretas ou filantrópicas, e em especial as lojas maçónicas - dizia o abade Correia da Serra [33] que elas formavam a “Ordem terceira dos pedreiros livres”.

As Sociedades Patrióticas, frequentadas por burgueses, intelectuais, membros do clero e da nobreza, gente abastada, eram, porém, participadas pelas classes artesanais, que ali encontravam entusiasmo ideológico, sustentáculo do amor da pátria e da liberdade constitucional. Nessa mixagem assistia-se a um curioso contra-poder: por um lado servia de tribuna para o exercício da liberdade de opinião e por outro permitia organizar e enquadrar os cidadãos contra o despotismo realista e influenciar decisões do poder. De algum modo o modelo dessas sociedades podem ser comparadas às sociedades populares ou clubes políticos e jacobinos que surgiram durante a revolução francesa [34] e onde se iniciavam oradores e se debatiam os grandes temas da sociedade.

A origem da formação e o estatuto destas associações carece de elementos de prova mais concretos que nos permitam afirmar serem ou não elas “sucedâneos” ou sob enquadramento das lojas maçónicas [35]. No entanto existem demasiados aspectos de coincidências ou “íntimos contactos” entre as lojas maçónicas e as sociedades patrióticas, a que decerto a sociabilidade política entre Irmãos não era indiferente, quer na sua norma e estrutura organizativa, quer na utilização de práticas e vocábulos essenciais da liturgia maçónica [36]. Não se estranha, portanto, que em estudos de muitos autores hispano-americanos e, mesmo, brasileiros, se considere existir uma evidência (sempre marcada pela influência maçónica de um ou outro dos seus membros) entre as duas associações. A historiografia liberal e maçónica disso dá conta, ressalvando no entanto as inúmeras diferenças conceptuais entre sociedades secretas, associações maçónicas, sociedades paramaçónicas e sociedades patrióticas. E, decerto, será das diferenças operativas entre elas que reside algumas das dificuldades com que nos deparamos.

Com a “aurora da liberdade” do 24 de Agosto de 1822, constituem-se e proliferam, portanto, instituições e sociedades - entre as quais as Sociedades Patrióticas -, que tiveram muita importância na defesa e consolidação do liberalismo. Das Sociedades Patrióticas estabelecidas neste período conhecem-se inúmeras delas em Portugal, em Espanha [37], nas colónias hispano-americanas e no Brasil.

Em Portugal, durante o período vintista, A. H. de Oliveira Marques anota 18 sociedades patrióticas (ob. cit., p. 268); como foi já salientado, propunham-se trabalhar para defender a Constituição, vigiar o poder político, promover a instrução e conhecimentos úteis. A primeira delas [38] teria sido uma, de que fala o Marquês de Fronteira nas suas Memórias, que existiria antes mesmo do regresso de D. João VI do Brasil (Julho de 1821). Sabe-se que em Setembro desse ano subsistia em Lisboa a Sociedade Patriótica da Casa do Risco [39], ao Arsenal. E que existiu uma outra sociedade patriótica em Setúbal (1820 ?), de que pouco se conhece.

 
Arroladas estão, neste período, as seguintes: a Sociedade Patriótica Filantropia [40] (Angra do Heroísmo, 1821 ?), Sociedade Literária Patriótica de Lisboa [41] (2 de Janeiro de 1822), a Sociedade Literária Patriótica da Covilhã [42] (26 de Janeiro de 1822), a Sociedade Patriótica Promotora da Indústria Nacional [43](16 de Maio de 1822), a Sociedade Patriótica dos Amigos das Ciências e Artes [44] (Funchal, 16 de Maio de 1822), Sociedade Patriótica de Alfândega da Fé [45] (27 de Maio de 1822), a Sociedade Filarmónica [46] (antes de Agosto de 1822), a Sociedade Patriótica Portuense [47] (24 de Agosto de 1822), a Sociedade Patriótica Constituição [48] (15 de Setembro de 1822), a Sociedade Patriótica Constitucional O Gabinete de Minerva [49] (Outubro de 1822), a Sociedade Patriótica [Literária ?] de Coimbra [50] (anterior a 3 de Dezembro de 1822), a Sociedade Patriótica Agricultura [51] (Santarém, 16 de Dezembro de 1822), a Sociedade Filarmónica de Faro [52] (1822 ?), a Sociedade Patriótica de Faro [53] (1822 ?), a Sociedade Patriótica Instrutiva da Juventude Portuense [54] (6 de Janeiro de 1823), a Sociedade Patriótica Marte [55] (Porto, 26 de Fevereiro de 1823), a Sociedade Patriótica Vigilante [56] (antes de Março de 1823), a Sociedade Patriótica Fortaleza [57] (antes de Abril de 1823). Fora já do período vintista, a partir de 1834, ressurgem novas associações e recrudescem de novo as Sociedades Patrióticas, marcando com combatividade a vida política e social.



[31] Sobre as Sociedades Patrióticas tenha-se em conta, principalmente, as seguintes obras: A. H. de Oliveira Marques, História da Maçonaria em Portugal, 1ª parte (pp. 147-167) e 2ª parte (pp. 265-276), 1997 – decerto a mais documentada exposição, em Portugal, sobre as sociedades patrióticas e os seus membros; Alberto Gil Novales, Las Sociedades Patrióticas (1820-1823), Madrid, 1975, II vols; Graça e J. S. da Silva Dias, Os Primórdios da Maçonaria em Portugal, vol I, tomo II, p. 785 e segs; José de Arriaga, História da Revolução Portuguesa de 1820, vol III, livro VIII, cap. IV, p. 248 e vol IV, livro XVII, cap. VI, p. 455; José Silvestre Ribeiro, Historia dos Estabelecimentos Scientificos Litterarios e Artisticos de Portugal, 1874, vol. IV; Maria Carlos Radich, Formas de organização política: sociedades patrióticas e clubes políticos (1820-1836), in O Liberalismo na Península Ibérica na primeira metade do século XIX, 1982, vol I, pp. 117-141.
[32] Em sentido moderno, os partidos políticos surgem no final do século XIX. Nos EUA aparecem já em 1830 e em Inglaterra por volta de 1832. Compreende-se que assim fosse dado a herança do filosofismo iluminista, para quem “a lógica da unicidade da razão”; isto é, a crença que só existia uma racionalidade, necessariamente una, de uma só verdade e de uma só concretização política, impossibilitaria a existência de partidos, cada um com a sua racionalidade própria – cf. José Miguel Sardica, Os partidos políticos no Portugal oitocentista, Análise Social, 1997, vol XXXII, nº 142, p.558.
[33] Cf. Graça e J. S. Silva Dias, ob. cit, p 791 (aliás via Francisco Manuel Trigoso, Memórias) - O abade Correia da Serra (1750-1823), figura notável e apaixonante, estrangeirado por motivos políticos, pois perseguido por Pina Manique por ser liberal e maçon, estudou botânica, história natural, agricultura e comércio, foi conselheiro da delegação portuguesa em Londres, ministro plenipotenciário do Reino Unido e de Portugal nos EUA, deputado às Cortes em 1822; pertenceu a inúmeras e reputadas sociedades internacionais, foi um dos fundadores da Academia Real das Ciências de Lisboa, sócio da Royal Society e da Sociedade Lineana, amigo especial de Thomas Jefferson.
[34] A. H. de Oliveira Marques (ob.cit., p. 266) considera que a origem destas associações foram em França “muito menos maçónicas do que as associações portuguesas correspondentes”. Refira-se, entre elas, o “Clube Bretão” (Abril de 1789; reunia-se no café Amaury, em Versailles), que se reconstitui como Sociedade dos Amigos da Constituição ou Clube dos Jacobinos (nome mais conhecido por estar instalado no convento dos jacobinos, que tinha sido pertença dos dominicanos de Saint-Jacques; foram seus membros Mirabeau, Robespierre, La Fayette, Bailly), A Sociedade Patriótica de 1789, etc.
[35] A. H. de Oliveira Marques, embora entenda que a articulação entre as sociedades patrióticas e as lojas “não é hoje muito clara por falta de documentação pertinente” (ob. cit., p. 267), integra-as nas  instituições paramaçónicas, referindo que na sua origem estariam deliberações das próprias lojas. Cita, em defesa, um curioso e importante documento da loja União Açoriana (Ponta Delgada) – Artigos Secretos e Regulamentares da R[espeitavel] L[oja] União Açoreana para instalação e direcção da Sociedade Patriótica Michaelense (1833 ?) - onde está transcrito  a redacção dos artigos visando a instalação da Sociedade Patriótica Michaelense; ainda Oliveira Marques, refere que a Sociedade Literária Patriótica de Lisboa enviou uma carta á Sociedad Constitucional de Madrid (12 de Junho de 1822) que se iniciava com “Gloria ao Supremo Senhor do Universo”, citando o Jornal da Sociedade Literária Patriótica de 23 de Junho de 1822, o que, de facto, é significativo; refere, ainda, os regulamentos da Sociedade Keporática (ou dos Jardineiros), que se desenvolveu entre os estudantes de Coimbra entre 1820-1823 e da qual Almeida Garrett foi entusiástico membro, onde se mencionava o “controle por aquela sociedade secreta de associações patrióticas, gabinetes literários e toda a espécie de corpos morais e úteis” (ibidem, p. 268). Por sua vez Graça e J. S. da Silva Dias (ob. cit) consideram que “nada nos permite estabelecer que os clubes fossem órgãos inspirados e dirigidos, ocultamente, pela Sociedade [Maçónica]”, mas que “parece difícil excluir a presença de mações nos clubes e, pela sua prática na condução de assembleias e no uso da palavra, que exercessem neles uma influência importante e canalizadora das directivas emanadas das lojas” (p. 791).
[36] Está neste caso, por exemplo, o curioso debate feito na Sociedade Patriótica Portuense, a 12 de Dezembro de 1822, à volta da questão da admissão de sócios de outras Sociedades correspondentes e da participação, intervenção, voto e, mesmo, do lugar que ocupariam esses membros visitantes (vide a Borboleta Constitucional, 1822, nº 293). O mesmo se pode observar nos Estatutos da Sociedade Literária Patriótica de Lisboa, nomeadamente se observarmos a redacção do Regimento das Sessões (cap. V dos Estatutos), onde persistem algumas similitudes ritualísticas em loja maçónica.
[37] Em Espanha, as sociedades patrióticas foram amplamente estudadas durante o período do Triénio Liberal por Alberto Gil Novales, ob. cit, pelo que se remete a sua consulta.
[38] Cf. A. H. Oliveira Marques, ibidem, p. 269. Continuaremos a seguir muito de perto o seu importante trabalho ao longo das nossas notas e para o qual se remete a informação não assinalada. Diga-se que estão referenciadas sociedades patrióticas, muito antes do Vintismo, como a Sociedade Patriótica, ou dos Bons Compatriotas, estabelecida em Ponte de Lima, com Estatutos de 5 de Janeiro de 1780 – cf. Joaquim José Caetano Pereira e Sousa, Esboço de hum diccionario jurídico, theoretico, e practico …, 1825, vol III. Da Associação Patriótica (como é referida nas Memórias do Marquês de Fronteira, Parte II, p. 237), fariam parte o capitão Bernardo de Sá Nogueira, capitão Gil Eanes da Costa, o coronel João Galvão Mexia de Origini, com o “patrocínio” do general Póvoas (cf. Silva Dias, ob. cit., p. 788).
[39] Dataria a sua instalação a 12 de Setembro de 1821, tendo-se extinguido em 1823 (?). Fariam parte dela Eusébio Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado, João Loureiro, José Xavier Mouzinho da Silveira e Simão da Rocha Loureiro; a sociedade deve ter organizado as comemorações do 1º aniversário da revolução liberal, solenizou o dia 15 de Setembro, além de um bodo aos pobres, com um “esplêndido jantar” presidido por Manuel Fernandes Tomás e tendo como vice-presidente António Freire. Nesse jantar participaram muitos militares convidados, deputados da Corte de Espanha e Manuel Fernandes Tomás fez sete brindes: à soberania da Nação, ao sábio Congresso Nacional, a El-Rei Constitucional, aos Irmãos do Ultramar, aos sempre leais Exércitos da Nação Portuguesa, aos Portugueses que preferem a morte à escravidão, a todos os fundadores da Grandeza deste Diain, Gazeta do Rio de Janeiro, 1821, nº 116.
[40] A sociedade supõe-se ligada á Loja Filantropia; participou na revolta liberal de 1 de Março de 1821que ocorreu em Ponta Delgada; vide António Lopes, A Maçonaria Portuguesa e os Açores (1792-1935), Lisboa, 2008, pp. 303-305.
[41] A mais importante e com maior numero de associados, de que falaremos mais adiante.
[42] Tinha correspondência com a Sociedade Literária Patriótica de Lisboa e propunha além dos seus intentos político-literários “praticar generosos actos de beneficência, tais como os de subministrar socorros pecuniários (…) e de prever a instrução gratuita das crianças pobres de ambos os sexos” (José Silvestre Ribeiro, ob. cit, p. 134). Fizeram dela parte, António Gabriel Pessoa de Amorim, como Presidente, F. Pessoa e Cassiano José Joaquim Alves. No Diário do Governo (11 de Fevereiro de 1822) há referência a esta Sociedade, pelo anúncio que foi enviado (e lido) à Sessão das Cortes, de 9 de Fevereiro, pelo Presidente da Sociedade, tendo a exposição motivado imediato debate entre os deputados, em especial Pinto de Magalhães, Sarmento, Borges Carneiro e Vilela; este último considerou que uma vez que se deve ter precauções com essas Sociedades, opina para que “haja toda a cautela para com as sociedades secretas e clandestinas, por muito mais perigosas”.
[43] A sua finalidade era “favorecer a investigação e as experiências de tipo económico, promover a indústria, propagar a instrução industrial (…) socorrer os agricultores e os operários em apuros”; o seu programa foi apresentado ao Rei a 18 de Abril de 1822; tinha como Presidente e Vice-Presidentes, Cândido José Xavier, Hermano José Braamcamp e Francisco Duarte Coelho, todos maçons; tinha em Maio de 1823 listados 400 sócios; sobre esta sociedade, consultar José Silvestre Ribeiro, ob. cit, tomo IV, p. 142 e segs.
[44] Espécie de Academia, teve vida curta devido aos acontecimentos políticos de 1823. Tinha Estatutos (1822, 23 p.), onde constam a lista de sócios (foram 28 sócios efectivos, o que não seria mera causal numeração, porque simbolizava o dia 28 de Janeiro de 1821, quando a revolta do Porto foi secundada na Madeira). A.H.O.M. (ob. cit.) diz que pode ter correspondido a um “autêntico grémio maçónico”, com ligações à loja funchalense. O visconde de Porto da Cruz (História Literária da Madeira, II vol.) refere que foi [a Sociedade] o “principal elemento que trabalhou para a implantação dos princípios da rebelião de 1820, na Madeira”. Fizeram dela parte, João Pedro Freitas Pereira Drumond, Francisco Ferreira de Abreu (secr.), Paulo Dias de Almeida, João Agostinho Pereira d’Agrela e Câmara, etc.
[45] Na sua sessão inaugural, a sociedade debateu os seguintes assuntos: instrução pública, vantagens de um governo constitucional, inconvenientes da acumulação da propriedade numa só mão e a usurpação que a cúria romana tem feito das atribuições episcopais” – cf. José Silvestre Ribeiro, ob. cit; idem nas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, do Abade de Baçal.
[46] O seu grande divulgador foi João Domingos Bomtempo. Bomtempo, assistiu (1812) aos trabalhos da Sociedade Filarmónica de Londres e quando regressa a Portugal (1815) constitui formação idêntica; propunha a Sociedade “o desenvolvimento da cultura musical através da realização de concertos de música clássica”; AHOM, refere que foi considerada “perigosa e suspeita de sociedade secreta, sendo pedreiros-livres muito dos seus cerca de 200 sócios”, pelo que foi extinta em 1828. Refira-se que reaparece, agora com o nome de Academia Filarmónica, em 1838.
[47] Importante sociedade do Porto, fundada a 24 de Agosto de 1822; seria uma versão correspondente à sua congénere Sociedade Literária Patriótica de Lisboa; os seus projectos de Estatutos (Os Estatutos foram depois publicados em opúsculo), relação geral dos sócios e actividades desenvolvidas, encontram-se muito bem transcritos no periódico do Porto, Borboleta Constitucional, a partir do nº 191, de 26 de Agosto de 1822, em diante. Publicou alguns dos discursos proferidos nas suas sessões e alguns folhetos. Sobre esta sociedade e as outras duas que se lhe seguiram, na cidade do Porto, consultar Maria Carlos Radich, ob. cit., p. 122 e segs. Ver, também, o Diário do Governo (13 de Março de 1823), onde está transcrito uma lista de sócios da Sociedade.
[48] Tinha como objectivos “a defesa do sistema constitucional e a promoção do bem da Pátria”; conhecem-se os seus Estatutos; Oliveira Marques diz que é plausível a sua ligação á loja maçónica 15 de Setembro, pelo facto de nos seus Estatutos se apresentar como finalidade comemorarem esse dia. Publicou alguns folhetos, como a Oração Fúnebre consagrada à Memoria dos Martyres da Patria, 1822. Vem no Diário do Governo (4 de Março de 1823) uma extensa lista dos seus associados, no final de uma exposição apresentada nas Cortes.
[49] Sociedade das mais activas, vigilantes e combativas; conhece-se os seus Regulamentos, onde consta uma lista de 77 fundadores. A ela pertenceu José da Silva Carvalho, Marcos Pinto Soares Vaz Preto, José Tomás Branco, entre outros – ver A. H. de Oliveira Marques, ob. cit. p. 271. Moura Coutinho, um dos seus sócios fundou em Coimbra o periódico Minerva Constitucional. No Diário do Governo (21 de Janeiro de 1823), no que diz respeito ao relato das Cortes, é referido um pedido enviado a El-Rei pela Sociedade Minerva para que fosse agraciado o seu sócio José Anastácio Falcão, que se encontrava preso há 55 dias. O pedido foi concedido. Curiosamente, o jornal publica alguns desses documentos (7 de Janeiro de 1823) como prova do pedido feito, tendo como assinatura pela Sociedade Minerva: João Silvério da Cunha Lobo (Pres.), José Thomas Branco (Secr.) e Manoel Antonio de Vasconcelos (Secr.). No dia 16 de Janeiro (dia comemorativo da reunião das Cortes Constituintes), a Sociedade Minerva celebrou uma Sessão evocativa desse dia, onde estiveram presentes membros da Sociedade Literária Patriótica e da Constitucional (ver Diário do Governo, 7 de Fevereiro de 1823).     
[50]  De que pouco se conhece.
[51] Correspondia-se com a Sociedade Promotora da Indústria. Propunha-se “promover a instrução pública em todos os seus ramos, especialmente em aquele da Agricultura”. Foram sócios, António Salinas de Benevides, Anselmo José de Matos, João António Pereira, José Diogo Mascarenhas Neto (A.H.O.M., ibidem). Ver, também o Diário do Governo (8 de Março de 1823) está registado uma extensa lista dos sócios.
[52] A data é incerta. Segundo A.H.O.M., “parece ter sido um Grémio, correspondente à loja maçónica local Fraternidade”, que era composta com grande número de clérigos.
[53] De data incerta (1822 ou 1823 ?), era uma sociedade de instrução e recreio. Na sessão das Cortes de 12 de Março de 1823, apresenta “felicitações e protestos de adesão ao sistema constitucional” (Diário das Cortes). Tinha na data 21 sócios.
[54] Nos seus Estatutos (Porto, 1823) a Sociedade visava que os jovens portuenses se exercitassem “a falar em público com decente desembaraço, exactidão de ideias e pureza de linguagem” de modo a “expender razões sobre as vantagens deduzidas do sistema constitucional”. Dirigida por adultos, contou na sua direcção com Duarte Lessa (Pres.), José Rodrigo Passos, João Nogueira Gandra (1º Secr.), José Joaquim Ferreira de Moura, com um total de 77 sócios jovens (A.H.O.M., ibidem, p 273). Os jovens associados distribuíam folhetos, promoviam a beneficência e realizavam sessões de esclarecimentos. Caetano José de Abreu, estudante e sócio da sociedade, publicou um curioso opúsculo, A Sociedade Patriótica Instructiva da Juventude Portuense aos Transmontanos, Porto, Imprensa da Gandra, 1823. Ver sobre esta sociedade, Isabel Nobre Vargues, A Aprendizagem da Cidadania em Portugal (1820-1823), Minerva, 1997, p. 194.  
[55] Curiosa sociedade que pretendia “militarizar os seus membros”, em 1823.
[56] No Diário do Governo (10 de Fevereiro de 1823), quando é salientado o trabalho das Cortes, há referência à “abertura” dessa Sociedade (26 de Janeiro), e onde o bacharel José Manuel Antunes Monteiro, na qualidade de Presidente da Sociedade, usou da palavra. Está publicado, no mesmo jornal, o discurso do seu Presidente, e é acompanhado da assinatura dos seguintes sócios: Luís António Gonçalves de Mesquita, Alexandre Balbino Proença, Silvestre Rodrigues dos Santos Valadas, Manuel Joaquim Mascarenhas, Henrique Daniel Wenk, Desiderio Joaquim de Oliveira, José Joaquim leal (capitão tenente), Rafael Arcangelo de Santa Ana, José Pedro de Melo, Gregório Joaquim Gomes Aronca, Francisco Zacarias Ferreira de Araújo.
[57] Fundada em Lisboa (Belém), poderá estar associada à Loja maçónica Fortaleza (foram dela membros, Manuel Fernandes Tomás, José Liberato Freire de Carvalho, José da Silva Carvalho, João Maria Soares Castelo Branco, José Aleixo Falcão de G. F. Vanzeller, entre outros); há uma referência a esta Sociedade no nº 100 (de 2 de Maio de 1823) do periódico Borboleta Duriense (A.H.O.M., ibidem). Uma extensa listagem de sócios aparece no Diário do Governo (29 de Março de 1823), numa nota onde se diz que um grupo de cidadãos “acaba de se reunir” em Sociedade, com o título de Fortaleza. 

[A CONTINUAR] - sublinhados nossos
 
J.M.M.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

AS SOCIEDADES PATRIÓTICAS – PARTE II


 
AS SOCIEDADES PATRIÓTICAS – PARTE II

[Extracto] “Os Estados Peninsulares e as Sociedades Patrióticas” - (A propósito do discurso de José Liberato Freire de Carvalho na noite de 24 de Julho de 1822)”
José Manuel Martins

NOTA: As Sociedades Patrióticas (Parte II) é a continuação do prefácio ao livro “Memória da Liberdade e do Constitucionalismo. Madrid-Lisboa / 1822”, que apresenta textos de José Liberato Freire de Carvalho e João Baptista da S. L. de Almeida Garrett, obra republicada pela Comissão Liberato (com assento em terras do Mondego) a 7 de Julho de 2016, em Coimbra. A PARTE I pode ser lida AQUI.

O Triénio Liberal (1820-1823)

É grande a similaridade entre o estabelecimento do regime monárquico-constitucional em Espanha e em Portugal [7], mas não podemos esquecer que a dinâmica do liberalismo peninsular estava ligado ao movimento geral que se estendeu por toda a Europa e no qual os aspectos económicos, as invenções técnicas, o progresso industrial e as estratégias de expansão dos países mais desenvolvidos - como a Inglaterra e a França -, jogavam um papel decisivo: o que não será de todo indiferente [8].
 

O Triénio Liberal (1820-1823) nos dois Estados Peninsulares é aparentemente convergente, mas um exame à situação torna tudo mais complexo, sendo o seu processo bastante ambíguo. Alguns factores [9] são comuns aos dois estados: as inúmeras contradições ideológicas, económicas e sociais dentro da monarquia absoluta, que precedem a mudança; as alterações provocadas pelas invasões francesas que animam uma opinião pública mais esclarecida; o contágio de matiz ideológico ou revolucionário importado de França e o regresso dos emigrados; a emergência da burguesia, então ainda um grupo social minoritário; a ausência do Rei e da Corte em ambos os países; um aparelho militar subalternizado e sob comando de mãos estrangeiras; o fim dos impérios, com as guerras da independência na América espanhola e a independência do Brasil; a acção dos clubes e sociedades políticas e, principalmente, das associações secretas, apesar da perseguição e montaria encetada a liberais e maçons.

 
A restauração absolutista em 1823, com a mão amiga da Santa Aliança e o eterno conflito entre o liberalismo moderado e o liberalismo radical, retardou o anúncio de uma regeneração [10] nos dois Estados e atrasou o avanço para uma Ibéria contemporânea. De facto, uma Europa a caminho da revolução industrial, com novas dinâmicas administrativas e sociais e profundas alterações das relações sociais, sob forte liderança de uma burguesia empreendedora e esclarecida, encontra nos Estados Peninsulares uma burguesia incapaz de “alterações significativas” [11] e regeneradoras, de que não era alheio o atraso económico nos dois países. Seria, no entanto, o “primeiro assalto à fortaleza” do absolutismo e do legitimismo tradicional, a “primeira grande ofensiva liberal”.

 
É conhecido o conflito que deu origem à Guerra Peninsular (1807-1814) ou Guerra da Independência (em Espanha) e de como confrontados com a resistência das populações ibéricas e com apoio inglês, as tropas napoleónicas são obrigados a retirar da Península. Os acontecimentos nos dois países, no “seguimento da falência da aventura napoleónica”, originaram uma vaga nacionalista, patriótica e liberal, dando início a um longo processo de implantação do primeiro liberalismo, de influências recíprocas. A Constituição de Cádis (1812) terá, por isso mesmo, o seu corolário na Constituição liberal portuguesa de 1822 [12].

 
A elite intelectual liberal que propunha um mundo novo, em Portugal e Espanha, forja-se entre os letrados que o gérmen do iluminismo ilustrou, a partir da reforma pombalina de 1772 [13] (entre nós) e com o afluxo de portugueses e espanhóis emigrados.
 

O século XIX foi um curioso período, profundamente revolucionário, em que a luta para uma nova ordem liberal, mesmo com os abalos sofridos que se conhecem, traz a utopia da cidadania, do idealismo da liberdade individual, liberdade de reunião, liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade do comércio, valores que fizeram ruir os escombros do absolutismo e da velha ordem; mesmo já durante o Triénio Liberal, foi visível essa fecundidade cultural, essa “aurora” de luz feita a partir dos clubes, das Sociedades Patrióticas, das lojas maçónicas e por um periodismo virtuoso e combativo. A ruptura política, entre o despotismo e o regime constitucional, estava em marcha.

 
Mas tal não bastou para que (entre nós) o primeiro liberalismo triunfasse, tal a “incipiente e contraditória experiência constitucional tentada pelas Cortes Gerais de 1820-22” [14]. A burguesia não beneficiava dos meios e das estruturas (sociais e mentais) como as que existiam além Pirenéus, onde o capitalismo, arrastado pelo impulso das técnicas, do comércio e da indústria, lutava contra os entraves ao seu próprio desenvolvimento; pelo contrário, a burguesia (com contradições insanáveis entre a burguesia agrária e a comercial) foi, perante as suas insuficiências e bloqueios (reforma dos forais, por exemplo), obrigada a “arranjos políticos” com a velha classe dirigente. Isto é, a Economia Política [15], que já fazia luz em alguns sábios, restou apenas entre os letrados, sem nunca aceder, em rigor, aos patamares do trono e da governação, que manteve o seu espírito conservador e obscurantista. Só a vitória do liberalismo em 1834 - com a derrota do absolutismo e as consequentes legislações inovadoras de Mouzinho da Silveira e Ferreira Borges, apoiadas na reforma da instrução pública [16] de Passos Manuel ou na posterior reforma descentralizadora (1878) de Rodrigues Sampaio - levará ao lento ruir das bases do antigo regime e dos valores tradicionais, possibilitando a “regeneração económica”, o devir de um novo modelo de desenvolvimento [17], enfim, o (hesitante) começo de um “novo mundo”.


[7] Para além dos estudos clássicos sobre a Revolução de 1820, que adiante citaremos, veja-se o trabalho de Manuel Filipe Cruz Canaveira, Liberais Moderados e Constitucionalismo Moderado (1814-1852), INIC, 1988.
[8] Sobre a questão económica nesta fase do liberalismo vintista, consultar entre nós: Fernando Piteira Santos, Geografia e Economia da Revolução de 1820, Lisboa, 1962; Julião Soares de Azevedo, Condições económicas da revolução portuguesa de 1820, Básica Editora, 1976 (2ª ed.).
[9] Ver, principalmente: Joaquim de Carvalho, Período de indecisão e triunfo da corrente regeneradora, História e Portugal (Damião Peres), vol. VII, cap. II, pp. 60-73; Albert Silbert, Le problème Agraire Portugais ao Temps des premières Cortès Libèrales, Paris, 1968; Manuel Fernandes Tomás. A Revolução de 1820, Seara Nova, 1974, com importante prefácio de José Tengarrinha; O Liberalismo na Península Ibérica na primeira metade do século XIX, Sá da Costa, 1981.
[10] O vocábulo “regeneração” foi largamente utilizado e abundantemente citado pela corrente liberal em ambos os países da península (em Portugal, o seu uso é bem anterior ao movimento político de 1851 ou golpe do marechal Saldanha). Sobre o assunto ver: Telmo dos Santos Verdelho, ob. cit; Maria Cândida Proença, A Primeira Regeneração. O Conceito e a Experiência Nacional (1820-1823), Horizonte, 1990; Joel Serrão, Da Regeneração à República, Horizonte, 1990. Ver, ainda, Luís Reis Torgal, A contra-revolução e a sua imprensa no vintismo: notas de uma investigação, Análise Social, 1980, vol XVI, nº 61-62, pp. 279-292.
[11] Cf. Luís Almeida Martins, Um prelúdio de 500 anos de Guerra Civil de Espanha, revista História, Ano XI, nº 115, 1989, p.13.
[12] O pronunciamento militar português (11 de Novembro de 1820) comandado por Gaspar Teixeira, conhecido por “Martinhada”, ao fazer um ultimato ao Governo Provisional (nascido da Revolução de 1820) onde se impunha que “se jurasse a constituição espanhola” de Cádis até à convocação das Cortes, diz bem dos acontecimentos paralelos que decorriam nos dois países, como também pronuncia as profundas divergências que opunha os liberais moderados aos exaltados em Portugal.
[13] No período pombalino, o contacto com a literatura das “luzes” - textos de Locke, Voltaire, Rousseau e dos enciclopedistas em geral (lidos muitas vezes no original), bem como de portugueses como Ribeiro Sanches, Filinto Elísio ou Cavaleiro de Oliveira – é realizado em núcleos restritos, bibliotecas particulares ou Sociedades, como foi o caso de Valença do Minho (biblioteca Diogo Ferrier), Lamego (animado por Agostinho José Freire), Coimbra ou Lisboa (Casa do Risco da Ribeira da Naus, onde pontificava José Bonifácio de Andrada) – ver Luís A. de Oliveira Ramos, Sob o Signo das Luzes, INCM, 1987, p. 135 e segs; sobre a reforma Pombalina na Universidade de Coimbra, ver Maria Eduarda Cruzeiro, A reforma pombalina na história da Universidade, Análise Social, 1988, vol. XXIV, pp.165-210.
[14] Cf. Joel Serrão, Da Regeneração à República, ob. cit., p. 41. Sobre os trabalhos das Cortes Constituintes, no que diz respeito a aspectos de natureza económica, consultar José Luís Cardoso, A legislação económica do vintismo: economia política e política económica nas Cortes Constituintes, Análise Social, 1991, nº112/113, pp 471-488. José Manuel Tengarrinha (Manuel Fernandes Tomás, ob. cit.), aponta o debate da reforma dos forais, da questão do direito da propriedade ou da transferência da propriedade rural (que só se verifica a parti de 1834), como expressão de mero compromisso e que não levava à “destruição das estruturas do Antigo Regime” (pp. 18-22). Ver, também Adrien Balbi, Essai Statistique sur Le Royaume de Portugal, 1822 (aliás, ed. fac-similada pela FEUC, 2004, II vols).
[15] Ver a este propósito, Victor de Sá, Perspectivas do Século XIX, Portugália, 1964, p 17 e segs.

[16] Consultar, sobre o assunto, a excelente obra de Luís Reis Torgal e Isabel Nobre Vargues, A revolução de 1820 e a Instrução Pública, Paisagem Editora, Porto, 1984, em especial o cap. III, Vintismo e Instrução Pública, pp.31 e segs.
[17] O desenvolvimento económico português foi lento e tardio. As invasões francesas, as alterações da estrutura político-colonial com a independência do Brasil, a guerra civil, a ineficiência no ensino e instrução pública, a escassez de capital e existência de uma burguesia dividida, explicam algum do fracasso do modelo político-económico do vintismo. Sobre o assunto ver Jaime Brasil, A industrialização num país de desenvolvimento lento e tardio: Portugal, 1870-1913, Análise Social, 1987, nº 96, pp 207.
 
[A CONTINUAR] - sublinhados nossos
 
J.M.M.

 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

FELIZ FESTIVIDADES – SAÚDE, PROSPERIDADE E FRATERNIDADE


 
Vem, Noite antiquíssima e idêntica
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós …” [F. Pessoa]

Aos leitores do Almanaque Republicano, obreiros respeitosos do espirito Re(s)publicano, animados que estamos no assopro Solsticial e felizes na graça da Grande Alma Lusitana, consintam estes Votos de Feliz Festividades

Saúde, Prosperidade & Fraternidade

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

UMA ESCRITA NA PRIMEIRA PESSOA: JOAQUIM MAGALHÃES

Hoje, sexta-feira, dia 16 de Dezembro de 2016, o Clube Farense e a Âncora Editora procedem à apresentação pública da obra Joaquim Magalhães, Uma Escrita na Primeira Pessoa, recolha e anotações de Joaquim Romero Magalhães.

A apresentação da obra será feita pela Dra. Marília Castro, pelas 18.30h, na sede do Clube Farense, situada na Rua de Santo António, em Faro.

Uma iniciativa que se recomenda e se divulga junto de todos os potenciais interessados.

A.A.B.M.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

PALMA INÁCIO E O ASSALTO AO BANCO DE PORTUGAL DA FIGUEIRA DA FOZ (1967) – LUÍS VAZ




EDIÇÃO: Âncora Editora, 2016, 360 p.

LANÇAMENTO NA FIGUEIRA DA FOZ

DIA: 14 de Dezembro (18,00 horas);
LOCAL: Salão Nobre do Edifico dos Paços do Concelho, Figueira da Foz;
ORADORES: Prof. Doutor Luís Vaz | Pres. CMFF Dr. João Ataíde das Neves

“A vida ensinou-o a questionar os silêncios. Foram os silêncios que lhe deram um controle absoluto de si mesmo. Geria-os com modéstia, astúcia e inteligência. São as raízes operárias, que herdou dos seus antepassados, a despertá-lo para as realidades assimétricas. Foi ainda o ambiente social envolvente, desde o trabalho nas pedreiras de Cascais com tenra idade, às instituições educativas de Faro, onde estudou, que foi moldando a sua consciência de classe e iniciado na contestação, no protesto, nas acções de propaganda, enfim, na conspiração. António José Matias reivindicava apenas dignidade e respeito pelas diferenças. Afinal de contas, coisas tão simples que fazem parte da essência da natureza humana. Qualquer regime que negue estes valores promove a criação das suas próprias antíteses …” [AQUI]
 
Trata-se do lançamento do III volume que o historiador Luís Vaz [Doutorado em Estudos Portugueses pela FCSH da UN de Lisboa] publica sobre a luta antifascista de Hermínio da Palma Inácio [m. 14 de Julho de 2009], do previsto conjunto de IV obras [os volumes saídos foram: Palma Inácio e o Golpe dos Generais (1947)Palma Inácio e o Desvio do Avião (1961); e, agora, Palma Inácio e o Assalto ao Banco de Portugal da Figueira da Foz (1967). Antes tinha publicado, entre outras obras, o muito curioso e valioso trabalho (há muito esgotado) sobre a Associação do Registo Civil e Livre Pensamento, de título “Clericais e Livres Pensadores. O Grande Confronto 1890-1937” [Edição Grémio Lusitano, 2002, 240 p.], bem como “O Pensamento Anticlerical de Brito Camacho” [Hugin, 2004] e o “Centro Escolar Republicano da Ajuda - Cem Anos ao Serviço da República (1906-2006)” [Ed. Centro Escolar Republicano da Ajuda, 2006].

J.M.M.
 

sábado, 10 de dezembro de 2016

FRENESI – CATÁLOGO DE LIVROS ANTIGOS E RAROS


 

FRENESICATÁLOGO DE LIVROS ANTIGOS, RAROS, ESGOTADOS, PERIÓDICOS, MANUSCRITOS

O alfarrabismo – tal como nós o entendemos – é uma actividade de recolha selectiva, limpeza, restauro e classificação de obra que, dado o implacável cuidado de um número cada vez mais restrito de colecionadores, conseguiram sobreviver chegando às nossas mãos. Livros que merecem continuar vivos. Livros, no vertente caso, maioritariamente de cultura portuguesa. Como objectos de cultura substantiva, mas também produtos de arte de imprimir e da arte de encadernar, há que preservá-los do descuido e da destruição dos homens, há que retardar o seu envelhecimento, e empurra-los para o futuro. São os colecionadores contemporâneos o seu agente no tempo – a cultura geral, especializada ou não, depende do respeito e do carinho que nós lhes dedicarmos” [in Catálogo]

 

Paulo da Costa Domingos, poeta, escritor, editor e antiquário de alfarrábios, apresenta-nos (uma vez mais) a sua colheita nestas festividades de final de ano. 363 peças bibliográficas de muita valia e invejável preciosidade, para V. sustento e ilustração. O curioso Catálogo que Paulo da Costa Domingos compôs, leva-nos a um luxurioso garimpar de livros antigos, raros, esgotados, periódicos, manuscritos. O amador de livros irá caprichar na sua ociosidade do papel pintado com tinta. O Catálogo da Frenesi aí está. É bom não esquecer.    

[ALGUMAS REFERÊNCIAS QUE A NÓS DIZ RESPEITO]: Sidónio na Lenda, por António Albuquerque / A execução do Rei Carlos, idem, 1909 / Os Vinculos em Portugal, de D. Antonio de Almeida, IV folhetos / Memorias sobre Chafarizes, Bicas, Fontes, e Paços Publicos de Lisboa, Belem, e Muitos Logares do termo, de José Sergio Velloso d’Andrade, 1851 / O Rapaz de Bronze, de Sophia de Mellho Breyner Andresen, 1956 / Diário da Pátria, por Cesar Anjo, 1932 / As Monjas de Semide, de Tomás Lino d’Assumpção, 1900 / Fundaçao Antiguidades, e Grandezas da mui Insigne Cidade de Lisboa, e seus Varoens Illustres em Santidade, Armas, e Letras, por Luiz marinho de Azevedo, 1753 (2ª ed.) / O Trabalho Rural Africano e o Administração Colonial, do Marquez de Sá da bandeira, 1873 / Evora, Cancioneiro Geral, de Antonio Francisco Barata, 1902 / A Obra Artistica de El-Rei D. Carlos, 1963 / História da Censura Intelectual em Portugal, de José Timoteo da silva Bastos, 1926 / Historia Geral dos Adágios Portugueses, por Ladislau batalha, 1924 / A Corte da rainha Maria I, de William Beckford, 1901 / D. Maria I, por Caetano Beirão, 1934 / O Mandarim, I e II, de Beldemonio, 1883 / Biografia do Remexido, Anónimo, 1838 / Memorias dos anos de 1775, a 1780 Para servirem de historia à analysi e virtudes das Agoas Thermaes da Villa das caldas da rainha, de Joaquim Ignacio de Seixas Brandão, 1781 / Lisboa d’Outros Tempos, de Pinto de carvalho (TINOP) / Lote de livros de Ferreira de Castro /  Gritos, por José Augusto de Castro, 1901 / Colecção A Antologia em 1958, de Mario Cesariny, Antonio Maria Lisboa, Luiz Pacheco, Natália Correia, Antonio Jose Forte, Francisco de Sousa Neves (ilustrações de Cruzeiro Seixas, Mário Cesariny, João Rodrigues e Dinis Salgado), 1958 / Tem Dor e Tem Puta, de Mario Cesariny de Vasconcelos, 2000 / revista Cidade Nova, 33 numrs / lote de livros de Ruy Cinatti / estimada Colecção Miniatura, 170 +1 vols / Colecção Patrícia, 52 vols / Colecção Teatro de Bolso (Contraponto), 18 vols+2 / Um Anno na Corte, de João Andrade Corvo, 1863 / 15 Annos de Obras Publicas, II vols / revista Crónica (integralista e fascizante), II numrs / Senalonga, por Avelino Cunhal, 1965 / Documentos para a Historia da Typographia Portugueza nos Seculos XVI e XVII, 1881-82 / Recordações do Café Royal, por Mario Domingues e Antonio Domingues, 1959 / periódico O Espectro, direcção de Rodrigues Sampaio, 1846 a 1847, 63 numrs+ vários suplementos / O Especto, direcção de Artur Leitão e imagem de Francisco Valença, 1925, 11 numrs+1 especime / Europa Jornal da Cultura, dir de Urbano tavares Rodrigues, 1957 / lote de livros de Virgílio Ferreira / Frenesi 1980-1982 / Da Vida e Morte dos Bichos, por Henrique Galvão et all, 1960 / O Infante d. Afonso de Bragança, por Emygdio Garcia, 1939 / revista Graal, dir Antonio Manuel couto Viana, 1956-57 / lote de livros de Guerra Junqueiro / Historia da Policia de Lisboa, de Albino Lapa / Revista Lusíada, dir Carlos de Passos, 1952-60, 13 numrs / Depois do 21 de Maio, de Bernardino Machado, 1929 (2ª ed.) / 2 livros de Luiz Mardel sobre a Historia de Armas de Fogo e Explosivos / Memorias e Trabalhos da Minha Vida, de Norton de Mattos / Noite Rebelde, de José Ferreira Monte, 1940 / revista literária Mundo Literário, dir. Jaime Cortesão e Adolfo Casais Monteiro, 1946-47, 53 numrs / A Bomba Explosiva, por José Maria Nunes, 1912 / O Caso do Sonambulo Chupista, de Luiz Pacheco, 1980 / Album da Empreza Madeirense de Tabacos Lda (Casa Perestrelos) / periódico Philemporo, redacção de José Maria de Andrade, 1855-62, 20 numrs / revista A Lanterna Mágica por Gil Vaz, dir. Raphael Bordalo Pinheiro, 1875 / revista Portucale, 143 numrs / A Invasão dos Judeus, de Mário Saa. 1924 / Discursos de Oliveira Salazar / revista Sema, 1979-82, IV numrs / lote de livros de Jorge de Sena / revista Sisifo, 1951-52, IV numrs / periódico Sol Nascente, 1937-40, 43 numrs / O Algarve na obra de Teixeira-Gomes, 1962 / revista Ver e Crer, dir José Ribeiro dos Santos e Mário Neves, 1945-50, 57 numrs / Figuras Gradas do Movimento Social Português, por Alexandre Vieira, 1959 / Em Volta da Minha Profissão, por Alexandre Vieira, 1950  

Pedidos AQUI e AQUI. E sejam felizes.

J.M.M.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

TRIBUTO A MÁRIO CESARINY, NOS DEZ ANOS DA SUA MORTE




“Ouvimos esta voz com o poema que nos traz e não sabemos se é a voz que diz o poema ou se é o poema que diz a voz. Esta coincidência do dizer e do dito, do som e do sentido, do corpo e do espírito, da poesia e da vida, do dia e da noite foi sempre o sinal de Mário Cesariny.

Breton escrevera: “Tudo leva a crer que existe um certo ponto do espírito donde a vida e a morte, o real e o imaginário, o passado e o futuro, o comunicável e o incomunicável, o que está em cima e o que está em baixo deixam de ser apercebidos contraditoriamente”. Cesariny afirmava: “O único fim que eu persigo / é a fusão rebelde dos contrários”.

É por isso que estamos aqui: não apenas para cumprir um acto de homenagem civil e cultural, mas acreditando que Cesariny reconhecia neste lugar onde a sua luz encontra a sua sombra, um sentido sagrado, dando a esta palavra a fundura mais funda e a  liberdade mais livre. A morte é o que resta do sagrado e mesmo isso está a desaparecer, afirmava ele. E, às vezes, falava do osso sacro como de um segredo que é preciso guardar.

Cesariny era distante de tudo o que é oficial, convencional e vazio, mas aceitava os ritos que protegem os mitos. Foi assim que aceitou a Ordem da Liberdade, que lhe foi entregue em sua casa, numa tarde em que tudo se calava para o ouvir. Ele recebeu a Grã- Cruz, beijou-a e gritou: “A Santa Liberdade!”. A liberdade era a sua medida desmedida, o rosto do seu rosto.

Nessa tarde, recordei uma outra tarde passada com Jorge Luis Borges, que acabava de receber a Ordem de Sant’Iago da Espada, que a sua cegueira o impedia de ver. Ele pediu-nos para lhe descrevermos as cores e as figuras do colar. A seguir, num gesto que foi repetindo, levou a mão ao frio do metal, exclamando: “Sant’Iago! Sant’Iago!” Falámos então daquela passagem de São Paulo que diz “Agora, vemos como num espelho, mas um dia veremos face a face”. Borges falava e a nossa visão era o rascunho da sua cegueira.

Senhor Presidente da República: a sua presença torna esta homenagem de muitos numa homenagem de todos

Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa: porque Lisboa foi sempre a mais imaginada das cidades de Cesariny

Senhor Ministro da Cultura: hoje e aqui, este título fica mais completo se o ligarmos ao de poeta

Senhores Deputados

Cara Teresa Caeiro, sobrinha de Cesariny

Senhora Secretária de Estado da Inclusão, que tutela a Casa Pia de Lisboa, legatária do poeta

Instituições e Membros da Comissão Organizadora do Tributo a Mário Cesariny

Caro Manuel Rosa, autor do projecto do monumento funerário e seu testamenteiro

Família, amigos e admiradores do Mário (onde incluímos os gatos, também eles família, amigos e admiradores)

Minhas Senhoras e Meus Senhores

Sabemos que esta homenagem nunca conseguirá oficializar, normalizar, naturalizar, neutralizar Cesariny. Ao contrário, e por contraste, torna ainda mais nítido e invencível o seu escárnio selvagem, a fúria firme e feroz, o desassombro ímpio.

A sua vida foi vivida em nome da Liberdade, da Poesia e do Amor, de que os surrealistas fizeram a nova trilogia, juntando ao “transformar o mundo” o “mudar a vida”. Em cada dia e em cada passo dele havia uma grande razão, aquela que num poema reclamava: “Falta por aqui uma grande razão/ uma razão que não seja só uma palavra/ou um coração/ou um meneio de cabeças após o regozijo/ ou um risco na mão…Cesariny procurava o ouro do tempo.

Agora, lembro. O Mário fala de Pascoaes, o velho da montanha, e conta o momento sagrado em que o conheceu. Fala de Lautréamont e de Rimbaud com palavras lentas e acesas. Fala de Artaud e a sua cara coincide com a dele. Já na rua, passa a velha que apanha o que encontra e ele faz-lhe perguntas que guiam respostas assombradas. O Mário ri e diz: “ É a Vieira da Silva!” Agora, estamos nos Açores e ele toca piano, enquanto, da janela, vemos o mar erguer-se como no Moby-Dick, esse livro mágico e trágico, que lia e voltava a ler.

Estar com Cesariny era partir numa nave espacial e olhar cá para baixo com os olhos muito abertos. Havia nas suas mãos um fogo que, quando queimava, mostrava a tragédia, e, quando iluminava, fazia aparecer a comédia. Esse sentimento trágico e cómico da vida é o dos visionários do visível. Ele confessou um dia: “ Para mim, só o momento da criação é linguagem, tudo o mais é baço, não diz, pertence ao sono das espécies, mesmo quando dormem inteligentemente.” Mas em todos os momentos dele havia criação. Nunca o ouvi dizer lugares-comuns, ideias mortas, frases feitas.

Na sua poesia, as palavras têm a exactidão cortante da ponta do diamante sobre o vidro, a velocidade densa dos grandes êxodos, o brilho obscuro dos olhos no amor. Na sua pintura, as cores levam o braço até à proximidade do mar e as formas são as do vento a abrir o portão do castelo.
 
 
Cesariny gostava de anarquistas, videntes, xamãs, usurpadores, hereges, piratas, incendiários e revoltosos. E de reis destronados, deuses abolidos, bruxas acossadas, fidalgos arruinados, heróis vencidos, náufragos salvos no último momento. Detestava tiranos, tiranetes, moralistas, hierarcas, burocratas, preopinantes, instalados, acomodados, calculistas, carreiristas, conformistas, cínicos, convencidos, contentinhos, coitadinhos.

Desses, ria com um riso que era sal insolúvel e tinha a grandeza escura da tempestade no Verão. O país dos risinhos, das piadinhas, das gracinhas, e das graçolas, não aguentava um riso tão livre: enorme e desassombrado. Não suportava esse riso cheio de amargura e desdém, de raiva e protesto. Nesse riso, passavam o riso antigo de Rabelais e o riso moderno de Artaud, o riso dos funâmbulos e das feiticeiras.

Num país em que o medo gerava cobardia e obediência, do medo dele nasciam coragem, insubmissão, subversão. No fim, estava ainda mais desencontrado com aquilo com que sempre se desencontrou: a vida pequenina, a vidinha de que falava o seu amigo Alexandre O’ Neill. E agora ( “O tecto está baixo”, avisava-nos ele) só se fala da vidinha - e só a vidinha fala.

Afinal, é preciso repetir a pergunta de Holderlin: “Para quê os poetas em tempos de indigência?” Afinal, é preciso repetir a resposta de Holderlin: “O que permanece os poetas o fundam”. E a resposta de Cesariny: “A palavra poética é a palavra verdadeira. É a única que diz.” Então, os poetas, se os houver, são para dizer o que ninguém diz, mesmo que ninguém oiça. Mas nesse dizer que ninguém ouve salva-se a honra de um tempo em que tudo se perde.

De Mário Cesariny, não basta afirmar que a sua poesia é das maiores do nosso século XX. Nem que a sua pintura é das mais originais desse tempo. É preciso reafirmar que, nele, pessoa, vida, morte, obra, atitude, ímpeto tinham a força que nos atira para um abismo de claridade.

Nestes 10 anos da sua morte, ouvir a voz de Cesariny é olhar o céu naquele momento em que o sol ainda não partiu e a lua já chegou.

Tributo a Mário Cesariny, nos dez anos da sua morte – por José Manuel dos Santos [Texto lido na cerimónia que assinalou a transladação dos restos mortais de Cesariny de um gavetão anónimo para um jazigo individual do Cemitério dos Prazeres dez anos depois da sua morte, jornal i, 8 de Dezembro de 2016 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

SEBASTIÃO MAGALHÃES LIMA - O SEU TESTAMENTO

 
 
 
 
 
in Boletim Oficial do Grande Oriente Lusitano Unido
Supremo Conselho da Maçonaria Portuguesa,
Suplemento ao nº 12, 31 de Dezembro de 1928
 
J.M.M.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

PORTUGALA ESPERANTISTO: ORGÃO DO MOVIMENTO ESPERANTISTA PORTUGUÊS



PORTUGALA ESPERANTISTO. Órgão mensal do Movimento Esperantista Português. Ano I, nº 1 (Janeiro de 1936) ao nº 8 (Agosto de 1936); Propriedade: L.E.S Nova Vojo, Liga dos Esperantistas Ocidentais e L.E.S. Antauen [no nº1]; Administração e Redacção: Rua Jardim do Regedor, nº5, 4 º, Lisboa; Editor: Joaquim Costa; Director: Manuel de Jesus Garcia; Impressão: Sociedade Industrial de Tipografia (Rua Almirante Pessanha, 5, Lisboa) [ao nº3, Tip. A Montanhesa (Rua Luz Soriano, 71, Lisboa]; Lisboa; 1936, 8 numrs

Colaboração: A. Couto, Afonso de Castro, Alsácia Fontes Machado, António Alves, Carvela Ribeiro, Costa Júnior, Jacinto Benavente, José Antunes, José Vicente Júnior, Júlio Baghy, Júlio Dantas, Justinho Carvalho, L. Beaufront, Lígia de Oliveira, Luzo Bemaldo, Manuel de Jesus Garcia, Mário Pedroso de Lima, Ramiro Farinha, Saldanha Carreira [importante impulsionador do esperantismo português], [Simões Raposo – entrevista].

Trata-se de um periódico esperantista (bilingue), que se dizia “órgão do movimento esperantista”, que se publicou em 1936, em Lisboa. Foram fundadores e proprietários três organismos esperantistas: a “L[aboristas] E[sperantistas] S[ocieto] Nova Vojo”, a “Liga dos Esperantistas Ocidentais” e a “L.E.S. Antauen”.
PORTUGALA ESPERANTISTO AQUI DIGITALIZADO
► «Esta "língua internacional auxiliar", cuja história remonta (também em Portugal) aos finais do século XIX, conhece um ressurgimento na década de 30 do século XX, e é nesse contexto que este jornal, bilingue, se apresenta em editorial: "Ao publicarmos o primeiro número (...), cumpre-nos dizer duas palavras sobre o seu aparecimento. É muito difícil, quási impossível, por nos faltarem elementos, determinar com precisão as causas do desenvolvimento do Esperanto no país, depois de 1931. Certo é que, dessa data em diante, as sociedades, as secções e cursos de Esperanto se multiplicaram de uma maneira assombrosa, não só na capital como na província, num ritmo com tendência a acelerar-se. Só em Lisboa, o número de esperantistas filiados nas organizações citadinas duplicou e, constatando êsse número salta logo à vista que, paralelamente, nada estava feito que pudesse unificar e coordenar os esforços de todos, dando-lhes consciência de uma finalidade a atingir."
Essa coordenação, lê-se no editorial do número seguinte, fazia parte da missão do Portugala Esperantisto, que se propunha como "instrumento de aproximação entre as sociedades esperantistas e consequentemente entre os esperantistas", com vista à futura constituição de uma entidade coordenadora, não um "organismo de carácter associativo ou federativo", antes uma "comissão que interrelacione os grupos".
Saiba mais na ficha histórica da publicação, por Rita Correia, aqui.
 
Em paralelo, disponibilizamos, aqui, a Grammatica da lingua internacional auxiliar Esperanto, editada no Porto em 1907, da autoria de José Augusto Proença e o Curso completo (elementar, médio e superior) de Esperanto, aqui, em 16 fascículos, editado pelo Portugala Instituto de Esperanto entre 1934 e 1935.
Para assinalar a disponibilização destes materiais, iremos realizar na Hemeroteca, amanhã, 7 de dezembro, pelas 17:30h, a sessão O Esperanto como veículo de paz e amizade entre os povos : do Portugala Esperantisto aos nossos dias. Rita Correia falará do passado do Esperanto e Miguel Boieiro, orador convidado, falará do seu presente e das perspetivas de futuro. Mais informações aqui» [via Hemeroteca]

J.M.M.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

[ANGRA DO HEROÍSMO] TEOTÓNIO DE ORNELAS BRUGES


 
INAUGURAÇÃO do Monumento Urbano – Teotónio de Ornelas Bruges


DIA:
2 de Dezembro 2016 (17,00 horas);
LOCAL: Angra do Heroísmo;


"Dia 2 de dezembro, sexta-feira, pelas 17h00, a autarquia de Angra do Heroísmo associa-se ao Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa na inauguração, no lugar da Memória, de um Monumento Urbano Para Informação (MUPI) de homenagem a Teotónio de Ornelas Bruges (1807-1870), primeiro Presidente de Câmara eleito em Portugal e ilustre filantropo e liberal angrense que foi o grande responsável pela edificação desse monumento em memória de D. Pedro IV" [AQUI]
 
 

Teotónio de Ornelas Bruges (1807-1870), aliás Teotónio Simão de Ornelas Bruges Paim da Câmara de Ávila e Noronha Ponce de Leão Borges de Sousa e Saavedra, 1º Conde da Praia da Vitória e 1º Conde de Bruges, foi um notável intérprete da causa do liberalismo. Natural da Ilha Terceira, rico terratenente da ilha, foi oficial das milícias liberais de Angra, liderando a regeneração liberal de 1828, tornando a Ilha Terceira um baluarte de resistência da causa liberal em Portugal, assumindo a administração da Ilha à custa da sua fortuna, pois era o único território sob ocupação das forças fieis a D. Pedro IV. Teve diversos cargos governativos nos Açores (Secretario de Estado da Regência, Pres. da Camara de Angra de Heroísmo, deputado às Cortes, Par do Reino).

Pertenceu à ala Setembrista do liberalismo, aderindo ao Partido Histórico. Foi-lhe concedido, por carta regia (6 de Agosto de 1863), o título de Conde da Vila Praia da Vitória, sendo fidalgo cavaleiro da Casa real, comendador da Ordem de Cristo.

Teotónio de Ornelas Bruges foi carbonário e maçon. Foi um dos fundadores da Barraca Carbonária 22 de Junho com o n.s. de Leónidas [cf. António Lopes, A Maçonaria Portuguesa e os Açores 1792-1935, 2008 – a Barraca foi fundada por maçons pertencentes à Loja 11 de Agosto de 1829]. Foi maçon, iniciado possivelmente em 1828 [António Lopes, ibidem, p. 60] na Loja 15 de Setembro (loja extinta no continente em 1823), integrou a Loja “11 de Agosto de 1829” [loja de Angra do Heroísmo, pertencente ao GOL, e que depois se integra na Maçonaria do Sul], com o nome simbólico de Aníbal, vindo posteriormente a pertencer à Loja União e Segredo [GOL] e à Loja União Terceirense.  

Faleceu a 25 de Outubro de 1870.     

J.M.M.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

1º DE DEZEMBRO – FESTA DA AUTONOMIA DA PÁTRIA PORTUGUESA


 
Ó visão, visão triste e piedosa,
Fita-me assim calada, assim chorosa
E deixa-me sonhar a vida inteira!” [Antero de Quental]
 
 “Tudo o que abraça o mar, tudo o que alumia o Sol, tudo o que cobre e rodeia o Sol, será sujeito a este Quinto-Império; não por nome ou titulo fantástico, como todos os que até agora se chamaram Impérios do Mundo; senão por domínio, e sujeição verdadeira (…)

Todos os reinos de unirão em um ceptro, todas as cabeças obedecerão a uma suprema cabeça, todas as coroas se rematarão em um só diadema, e esta será a peanha da Cruz de Cristo” [P. António Vieira]

Uns agem sobre os homens como a terra, enterrando-os e abolindo-os, e esses são os mandantes do mundo. Uns agem sobre os homens como o ar, envolvendo-os e escondendo-os uns dos outros, e esses são os mandantes do além-mundo. Uns agem sobre os homens como a água, que os ensopa e converte em sua mesma substancia, esses são os ideólogos e os filósofos, que dispersam pelos outros as energias da própria alma. Uns agem sobre os homens como o fogo, que queima neles todo o acidental, e os deixa nus e reais, próprios e verídicos, e esses são os libertadores” [F. Pessoa]

“O tempo tem dous hemisférios: um superior e visível, que é o passado; outro inferior e invisível, que é o futuro. No meio de um e outro hemisférios ficam os horizontes do tempo, que são estes instantes do presente que vamos vivendo, onde o passado se termina e o futuro começa” [P. António Vieira]
 
 
 Vem, Galaaz com Pátria, ergue de novo
Mas já no auge da suprema prova
A alma penintente do teu povo
Á Eucaristia Nova” [F. Pessoa]


“Os Homens morrem por não juntarem o começo ao fim” [
Alcmeón de Crotona]

J.M.M.