domingo, 25 de fevereiro de 2018

ACADEMIAS E INSTITUIÇÕES DE CULTURA



Academia e Instituições de Cultura” – por Diogo Ramada Curto, in Caderno E, Expresso, 17 de Fevereiro de 2018
Onde se defende que se no projeto de levar a cabo um estudo sobre academias o objetivo é propor a renovação de uma espécie de conformismo institucional, o melhor seria sugerir que o público não soubesse nada do que se passa dentro de tais instituições

"Instituições de cultura há que não têm merecido a devida atenção por parte da opinião pública. Faltam estudos ou simples notícias que as deem a conhecer. Será, por ora, escusado saber a quem assacar responsabilidades para explicar a falta de estudos sobre as mesmas: se às instituições que não informam, por viverem em vaso fechado, ou se a uma opinião pública que vive dissociada da vida de certas instituições.
Três situações aparentemente díspares, em termos de conhecimento por parte de um público mais alargado, podem ser utilizadas como laboratórios de estudo: um livro destinado a repensar a universidade em Portugal; os estatutos de uma academia criada em 1965, mas que sobreviveu até aos nossos dias; e um ‘pequeno’  instituto de investigação de uma universidade privada, fundado em 1997. Nos três casos, detetam-se disfuncionalidades e demonstrações de elitismo simbólico, que nada têm que ver com a investigação, o ensino e a transmissão do conhecimento e da cultura. Estudá-los e comunicá-los a uma esfera de opinião mais alargada constitui, só por si, um modo de ultrapassar os problemas encontrados.
A Universidade como deve ser
O recente livro de António Feijó e Miguel Tamen, intitulado “A Universidade Como Deve Ser” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2017), é um excelente contributo para conhecermos o que se passa dentro da universidade. Nele, será possível distinguir um estudo da universidade tal como funciona e o programa de um curso, interdisciplinar, de Estudos Gerais. O livro comporta tanto aspetos corajosos como outros que se afiguram discutíveis.
A sua coragem está em pôr o dedo na ferida, considerando que o ensino universitário não tem de andar subordinado a objetivos práticos ou a meros interesses de mercado. O ensino universitário, feito no contacto com a investigação, tem de se pautar por outros critérios e manter, sempre, um elevado nível de independência em relação a outros poderes. As universidades devem igualmente ser pensadas como unidades, situadas acima deste ou daquele curso (embora este propósito dos autores entre, depois, em contradição com o centramento num único curso). Corajosa é também a crítica dos autores em relação à burocratização da investigação e dos seus centros, bem como à generalização dos projetos coletivos com dotações gigantescas, os quais poucos resultados alcançam, sobretudo na áreas de humanidades e ciências sociais.
Muito discutíveis são os sinais de uma espécie de elitismo anglo-americano, num momento em que abundam as tendências dentro da universidade de desprezo pelas práticas democráticas. De igual modo, é chocante que a proposta de introdução de um modelo inspirado nos “liberal arts colleges” surja numa espécie de deserto criado pelos próprios autores. Isto é, em nenhum momento do livro se encontram referências às inúmeras discussões sobre a universidade que, pelo menos desde  Miller Guerra, têm sido recorrentes em Portugal. Ao circunscreverem-se a um único curso, Feijó e Tamen assemelham-se a náufragos numa ilha deserta, que, tal como Robinson Crusoe, só conseguem salvar do navio encalhado alguns livros (não em português, como no livro de Daniel Defoe, língua que o protagonista não sabia decifrar, mas em inglês, o idioma em que mergulham as raízes mais profundas do livro em causa). Facto que denota uma incapacidade para pensar de modo mais realista — e menos como uma robinsonada — a universidade como um todo.
 
 
A expansão da cultura portuguesa
De um teor completamente diferente são as notas esparsas que recolhi acerca da Academia Internacional de Cultura Portuguesa. Elas constituem um minúsculo contributo para colmatar a lacuna dos estudos sobre instituições de cultura. Pelo menos podem servir como chamada de atenção para a necessidade de querer saber mais acerca do que se passa na vida de tal instituição. A começar pelo seu financiamento, que não sabemos se será ou não de natureza pública. Os seus estatutos, aprovados por decreto de 1965, mantêm-se em vigor. O primeiro aspeto que neles importa sublinhar diz respeito ao principal objetivo da mesma instituição: difundir a cultura portuguesa no mundo. A consulta do “Boletim da Academia Internacional de Cultura Portuguesa”, cuja publicação começou em 1966, revela bem qual a conceção de cultura que ali se defende: do luso-tropicalismo, em tempos coloniais, à sua continuidade, sob a forma de lusofonia, adaptada aos tempos democráticos. Vinho novo em odres velhos...
O segundo aspeto prende-se com as áreas pelas quais se distribui esse mesmo labor difusionista. De um modo que, hoje, interpretaríamos como sendo da ordem da interdisciplinaridade, estabeleceram-se três secções: das artes e letras, das ciências e da missionologia. Aliás, esta última formulação, sobre a qual tanta tinta correu na década de 1960, entendida em estreita relação com a mensagem católica, compreende-se bem à luz da política colonial portuguesa da época.
Do Tarrafal à Academia Internacional
O terceiro aspeto a não perder de vista diz respeito aos fundadores da Academia e como são postos limites ao número dos sócios académicos ou correspondentes. Inegável será, em todo este processo, o papel dinâmico desempenhado por Adriano Moreira, seu fundador e presidente, ao lado do padre Silva Rego, de Jorge Dias e de Virgínia Rau. Estes últimos professores universitários com capacidade para controlar as suas áreas disciplinares, da antropologia à história. A simples evocação de outros nomes da confiança do regime de Salazar, entre os quais se contavam Azeredo Perdigão e Franco Nogueira, faz-nos lembrar que não existe apenas uma lista de nomes que formam o que, hoje, os cientistas sociais designam como uma rede de relações. Há, também, uma rede de outras instituições a ter em conta.
Por exemplo, Adriano Moreira, licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, iniciou a sua carreira na antiga Escola Colonial, onde começou por realizar estudos sobre o sistema prisional nas antigas colónias. Seguiu o processo de transformação daquela Escola impulsionado por Mendes Correia e, em 1961, favoreceu a sua integração na Universidade Técnica, o que lhe valeu a equivalência a professor catedrático, mesmo sem possuir um doutoramento (com o “Diário de Notícias” de Augusto de Castro a atribuir-lhe o título de professor doutor a partir de 14 de abril). Desempenhou papel de relevo na Junta de Investigações do Ultramar e envolveu-se, igualmente, nas atividades da Sociedade de Geografia de Lisboa (onde a mesma Academia Internacional veio a ficar sediada). Enquanto subsecretário de Estado e depois ministro do Ultramar, na altura do início da Guerra em Angola, manteve ligações de estreita colaboração com muitas outras instituições, incluindo o Gabinete de Negócios Políticos do Ministério do Ultramar e o por ele criado “campo de trabalho” de Chão Bom, vulgo, Tarrafal.
 
 

Conforme procurei demonstrar noutro local, Adriano Moreira esteve, por volta de 1961, bem no centro do processo de tomada de decisões das políticas coloniais de Salazar. A legislação laboral promulgada durante a sua passagem pelo Ministério do Ultramar constituiu, sobretudo, “uma carapaça legal com que Portugal pudesse defender-se” internacionalmente (José Capela, “O imposto de palhota...”, Afrontamento, 1977, p. 259). E, por mais que ele próprio tivesse tentado construir a sua própria versão dessa passagem pelo Governo de Salazar, em sucessivas memórias, aconselhou, na altura, a adoção de medidas violentas de aterrorização das populações do Norte de Angola (“Políticas Coloniais em Tempo de Revoltas — Angola circa 1961”, Afrontamento, 2016). Ora a Academia Internacional de Cultura Portuguesa foi criada no interior dessa malha. Nela, sobrepuseram-se uma carreira individual, uma série de instituições e de legislação orientadas para a execução de políticas coloniais e, ainda, um quadro de justificação de fortíssima carga ideológica suscitado pela guerra colonial em Angola, e depois na Guiné e em Moçambique (que de nenhum modo pode ser reduzido a noções de integração ou assimilação luso-tropical).
Questões de indumentária
Há um quarto aspeto que inclui várias minudências acerca do vestuário, difíceis de traduzir por outras palavras. Vale, por isso, a pena citar diretamente da fonte que seguimos, no ponto relativo às vestes académicas, mesmo que infelizmente se tenha perdido o rasto ao desenho: “A farda académica constará de casaca de gola alta, fechada por uma ordem de botões, e de calça, aquela e esta, de pano verde. A casaca terá, bordado a ouro, no peito, gola e portinholas, canhões e remates, assim como na cintura, por cima do começo das abas, um rebordo, que no peito será acompanhado de uma simples fieira de ramos de oliveira folhados e frutados, segundo os desenhos anexos. A calça terá galão estreito, dourado, nas costuras laterais. O chapéu armado, de pasta, será orlado superiormente de plumas pretas e com presilhas das cores académicas verde e encarnado. O espadim, de copos e guarnições douradas, suspende-se de pala de pano verde, com ramos de oliveira, bordados a ouro. Os botões serão ornados com as armas nacionais. A capa será de pano preto com gola voltada”.
Para comparar padrões de dress code, sigo as diferentes maneiras de trajar no quotidiano ou em dias de festa, dentro e fora das instalações ou, no interior destas, em salas diversas ou entre membros e visitantes da instituição em causa. De notar, também, que se trata de um resquício para cobrir com sinais de nobreza, inventando tradições e exibindo um elitismo de pacotilha, certas instituições de criação recente. É aqui que vem a propósito referir as normas que regem o Instituto de Estudos Políticos (IEP) da Universidade Católica, criado em 1997, mais de três décadas depois da citada Academia Internacional, mas inspirado na putativa Escola de Sagres, que nos traz à memória o chapéu de aba larga do Infante D. Henrique:
Todos os colaboradores permanentes do IEP adotam um código de vestuário com a decência e formalidade adequadas às responsabilidades que detêm, o que inclui, para os homens, casaco e gravata, e, para as senhoras, decência correspondente. Na sala Sir Winston Churchill e nos gabinetes de trabalho é esperado que os homens possam tirar o casaco, mas não a gravata. Na sala D. Henrique é esperado o uso de casaco e gravata. Em todo o espaço do IEP, não é autorizado o uso de shorts, T-shirts ou chinelos, sapatos de ténis ou blue-jeans. Estas regras aplicam-se apenas aos colaboradores permanentes do IEP e não aos alunos ou a visitantes, cuja eventual vulgaridade não deve, em princípio, merecer reparo. Em contrapartida, trajes nacionais, regionais, locais ou específicos de instituições, por mais excêntricos, serão sempre respeitados e bem-vindos. Todos os docentes do IEP, incluindo docentes convidados, são enfaticamente encorajados a usar casaco e gravata nas suas aulas e tutorias, podendo tirar o casaco, mas não a gravata”...
Conformismo institucional ou Gentlemanship
O estudo monográfico de instituições como a Academia Internacional de Cultura Portuguesa terá ainda de compreender um quinto e último aspeto. Trata-se de tentar compreender como é que instituições criadas durante o Estado Novo, mais a mais num contexto aberto de guerra colonial, promoveram formas de conformismo de sentido institucional. Senão, vejamos como é que os estatutos impõem formas de controlo e de censura: é “proibido aos académicos contrariar os fins do instituto; imprimir trabalhos fora das publicações académicas com indicação de provirem da Academia; e criticar trabalhos feitos por encargo da mesma ou a ela apresentados por outros académicos, a não ser nas suas sessões ordinárias”.
Que esse conformismo institucional se intensificou na década de 1960, para dar sentido à atuação das elites cooptadas pelo regime de Salazar, num quadro internacional de forte pressão sobre a política colonial portuguesa, parece um dado evidente. O que já não me parece ser possível de aceitar é que as mesmas regras possam subsistir em democracia. Mesmo aceitando que, na vida das instituições, existem arcaísmos, o seu ridículo cresce na medida em que se descobre que eles são invenção recente e, em geral, determinados por quem não tem terra, família, nem vontade para viver numa sociedade democrática. Aliás, os que procuram transformar essas mesmas instituições culturais em veículos da sua promoção são quase sempre os mesmos que têm vergonha de reconhecer o mérito individual. É o que sucede com o curioso ponto sobre “Gentlemanship”, de uma fedúncia insuportável, digna de um qualquer parvenu, e que suscita uma gargalhada digna de uma personagem de Gil Vicente:
Nenhuma regra pode substituir o sentido de responsabilidade pessoal, o common  sense e o sentido de humor de cada pessoa. As regras acima expostas deverão ser aplicadas sem rigidez prussiana e sem laxismo mediterrânico. Portugal é um país atlântico (e não mediterrânico), fundador da mais velha aliança do mundo, bem como do mais velho tratado de comércio livre, e pioneiro dos Descobrimentos. No nosso pequeno IEP da UCP, apreciamos tentar cumprir o dever de honrar as nossas nobres tradições” (Instituto de Estudos Políticos, nº 24).
Enfim, no projeto de levar a cabo um estudo sobre academias, ‘pequenas’  instituições de cultura e universidades, se o nosso principal objetivo fosse propor a renovação de uma espécie de conformismo institucional, o melhor seria sugerir que o público não soubesse mesmo nada do que se passa dentro de tais instituições. Às urtigas, pois, com a mania da informação e com a famigerada opinião pública! O secretismo impõe-se como uma urgência... É que permanecer na ignorância ou dar ao desprezo qualquer tipo de estudo sobre o funcionamento de tais instituições talvez seja, em suma, a única maneira de uma opinião pública escapar a tamanhas aberrações.
 
Academias e Instituições de Cultura – por Diogo Ramada Curto, [Historiador e professor da Universidade Nova], revista E, Expresso, 17 de Fevereiro de 2018, pp. 66/67 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

[EXPOSIÇÃO] PESSOA. TODA A ARTE É UMA FORMA DE LITERATURA



DIA: 7 de Fevereiro a 7 de Maio 2018;
LOCAL: Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia – Edificio Sabatini, Planta 1 [Calle Santa Isabel, 52, Madrid;


 Pessoa e Companhia” – por Celso Martins, in Caderno E, Expresso
Em Madrid, apresenta-se uma grande exposição que capitaliza o estatuto internacional de Pessoa para iluminar também as vanguardas portuguesas.

Toda a arte é uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa.” Escolhida milimetricamente, a frase de Álvaro de Campos, que está na origem do título da exposição dedicada ao universo pessoano, é certeira na forma como define a mostra que acaba de ser inaugurada no Reina Sofía, em Madrid, o museu mais visitado de Espanha. Em bom rigor, ajuda-nos a perceber que esta é e não é uma exposição sobre Fernando Pessoa. Partindo da obra e das suas conceções estéticas, ela funciona, de igual modo, como um apreciável cartão-de-visita para as vanguardas portuguesas do início do século XX, que permanecem pouco conhecidas no país vizinho. Quem o explica é João Fernandes, cocomissário da exposição (com a historiadora Ana Ara) e, desde 2012, subdiretor da instituição madrilena: “O que mostramos é a originalidade das conceções modernistas de Pessoa, a relação delas com as artes visuais do seu tempo e a singularidade das vanguardas portuguesas, que não são meras sequelas do cubismo ou do futurismo parisienses.”
 
É muito provável que a possibilidade de estabelecer este engenhoso triângulo conceptual não seja alheia ao facto de um português participar na direção do museu, mas essa escolha deve ser vista à luz da linha programática da instituição: “Temos estado atentos a histórias menos conhecidas da história da arte que refletem o passado a partir de um ponto de vista que não seja colonizado pelas relações de poder que determinaram o reconhecimento de certos centros artísticos”, refere João Fernandes.

À semelhança do que aconteceu com a apresentação de Amadeo em Paris, em 2016, com origem na Fundação Gulbenkian, que também coproduz esta exposição, esta é uma oportunidade de ouro para a divulgação da arte portuguesa da primeira metade do século XX, cuja relativa invisibilidade em Espanha não é alheia à própria centralidade daquele país (com Picasso, Dalí, Miró e outros) no cânone modernista.
A operação é ambiciosa e multifacetada, aproximando-se do universo pessoano a partir de um acervo que inclui cinema, livros, manifestos, revistas e correspondência pessoal e de um conjunto de 160 obras em desenho, pintura e fotografia, bem representativas da arte mais avançada que se fez em Portugal entre 1914 e 1936 e onde pontificam, entre vários outros, trabalhos de Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros, Eduardo Viana, Mário Eloy ou do casal Robert e Sonia Delaunay.
 
 

Os detalhes biográficos incluem aspetos idiossincráticos, como a relação de Pessoa com a cidade de Lisboa ou a astrologia, mas a exposição foca-se decisivamente nas propostas estéticas do português, nomeadamente, os conceitos e movimentos que instigou, em nome próprio ou através dos seus múltiplos heterónimos, como o Paulismo, o Intercecionismo ou o Sensacionismo. O interessante é que a montagem vai estabelecendo nexos entre essas construções dirigidas à literatura e as artes visuais, através de obras que vieram, por exemplo, do Museu do Chiado ou da Fundação Cupertino de Miranda e de museus estrangeiros como o Centro Georges Pompidou ou o Thyssen-Bornemisza.
O primeiro desses ‘ismos’, o Paulismo, que, segundo [João] Fernandes, corresponde a “uma das suas grandes intuições, a de que o simbolismo oitocentista é uma das origens da vanguarda”, reflete o seu interesse pela poesia de Camilo Pessanha ou a cumplicidade com Teixeira de Pascoaes, que o leva a escrever na “Águia”, o órgão oficial do Saudosismo. A formulação de Pessoa apela à convivência de imagens paradoxais e decadentistas e é aqui apresentada na companhia do tríptico “A Vida”, do simbolista António Carneiro, dos desenhos místicos de Pascoaes, das explorações próximas de uma estética déco de Amadeo e de “Orfeu nos Infernos” (1917), uma das duas únicas pinturas de Santa-Rita Pintor que sobreviveram. O núcleo central da exposição dedica-se ao Intercecionismo (que Pessoa considerava mais uma metodologia criativa do que uma estética), que tem pontos de contacto com o cubismo mas corresponde a uma aceção menos rígida dos mesmos fundamentos, e ao Sensacionismo, “o mais amplo conceito das suas vanguardas, que supõe sentir tudo de todas as maneiras e que se manifesta na heteronímia e sua diversidade”.
 
 

A exposição faz acompanhar estes desenvolvimentos com algumas das pinturas de Amadeo que, partindo do cubismo, mais se aproximam da abstração ou do icónico “K4 Quadrado Azul” (1916), de Eduardo Viana. Em algumas das obras é ainda clara uma das especificidades portuguesas: a convergência das práticas mais especulativas com uma atenção sistemática às formas populares e ao artesanato. Não por acaso, essa terá sido uma das fontes de sintonia com os Delaunay, que haviam chegado, com o orfismo, a uma alternativa ao cubismo picassiano e de quem se mostram pinturas alimentadas pelo plasticismo extrovertido da cultura popular minhota assimilado durante a sua estadia.
Paralelamente, incluem-se as revistas — como a “Águia”, a “Orpheu”, a “Portugal Futurista” ou a “Athena” — de importância decisiva, porque é nelas que “artistas e escritores coincidem”. Outro núcleo importante e normalmente pouco visível reflete a relação do modernismo português com as artes cénicas e performativas e que aqui inclui os desenhos de Almada para o ballet “A Princesa dos Sapatos de Ferro”, o seu painel “Jazz” para o Cine San Carlos, em Madrid, e várias notícias sobre os ballets russos em Portugal, bem como folhetos e cartazes de divulgação impregnados por uma estética modernista. A secção final da exposição sinaliza o segundo e menos radical modernismo português com obras em acorde expressionista ou lírico de Mário Eloy, Sarah Afonso ou Júlio e a centralidade cultural da revista “Presença”, que foi decisiva na receção de Pessoa para lá do seu círculo geracional. Como lembra João Fernandes, “os intelectuais da ‘Presença’ não só o publicam na revista como, no caso de João Gaspar Simões, vão fazer a edição da obra do Pessoa nas edições Ática”. A revista é ainda o pretexto para estabelecer outro nexo, desta vez com o cinema de Manoel de Oliveira, de quem se inclui o filme “Douro, Faina Fluvial”, de 1931, que traz a estética vanguardista ao cinema português.
 
 

A exposição desenvolve-se, aliás, entre dois momentos cinematográficos. No início mostram-se imagens de “Conversa Acabada”, um filme em torno de Pessoa e Mário de Sá-Carneiro realizado por João Botelho em 1981; e, no fim, “Conserva Acabada”, uma curta-metragem de João César Monteiro (1990) que ironiza a transformação de Pessoa num ícone pop.
Estes e outros momentos ilustram a fertilidade da figura de Pessoa inscrita na obra, nas ideias, na sua teia de afinidades e na sua irradiação iconográfica como eixo possível de uma apresentação abrangente da especificidade modernista portuguesa.
O catálogo que se edita com a exposição conta com textos de Marta Soares, Fernando Cabral Martins e António Saéz Delgado e vários do próprio Fernando Pessoa sobre as questões que são exploradas na exposição, oferecendo um olhar múltiplo que ajuda a explicar a sua atual universalidade. “Pela valorização da contradição e do paradoxo, e pela heteronímia, Pessoa é um intérprete fundamental da cisão do sujeito e da crise do autor moderno”, salienta João Fernandes. Por estas e outras razões, ele e a sua corte de heterónimos são bem conhecidos dos espanhóis, mas esta é uma oportunidade única de o descobrirem entre os seus companheiros de aventuras modernistas.
 
Pessoa e Companhia – por Celso Martins, revista E, Expresso, 10 de Fevereiro de 2018, pp. 63/65 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

VÍTIMAS DA DITADURA NO ALGARVE, POR IDALÉCIO SOARES

Amanhã, sábado, dia 10 de Fevereiro de 2018, na Casa do Professor, em Pechão, pelas 15 horas, vai ser apresentada a obra de Idalécio Soares, Vítimas da Ditadura no Algarve, editada com a chancela da editora Sul, Sol e Sal, com três relatos de situações ocorridas com personalidades algarvias: Manuel Paula Ventura, João Feliciano Galvão e José da Mónica.

Na apresentação da obra vai estar o Prof. José Carlos Vilhena Mesquita.

Pode ler-se na sinopse da obra:
Este é um livro sobre a ditadura que vigorou em Portugal entre 1926 e 1974 e sobre a polícia política que a serviu durante quase quarenta e oito anos. Manuel Paula Ventura, João Feliciano Galvão, José da Mónica e outros, cujas histórias se contam neste livro, foram alguns dos muitos milhares que viram as suas vidas prejudicadas, quando não abruptamente interrompidas por este regime. Com origens sociais, personalidades e percursos de vida muito diferentes, eles tiveram, todavia, algo em comum: o terem, em determinado momento das suas vidas, e independentemente das escolhas políticas que fizeram (ou não fizeram), sido apanhados pela malha apertada da ditadura e marcados com o seu ferrete. Quando ideias assentes no preconceito e no ódio ao outro, responsáveis por tragédias humanas inenarráveis, ganham de novo, perigosamente, lastro na Europa e noutras partes do mundo, quando essas mesmas ideias chegam ao poder na maior potência mundial, o combate pela preservação da memória histórica dos que delas foram vítimas é um ato de urgência, uma forma de não deixar que se repita. De dizer: NUNCA MAIS! Porque a ditadura existiu! Porque a polícia política existiu! Em Portugal. Entre 1926 e 1974.

Com os votos do maior sucesso.

A.A.B.M.

COMEMORAÇÕES DO NASCIMENTO DO MESTRE MANUEL CABANAS

Realiza-se amanhã, 10 de Fevereiro de 2018, no Arquivo Histórico Municipal António Rosa Mendes, em Vila Real de Santo António, as comemorações do nascimento do Mestre Manuel Cabanas, conforme o programa que acima pode ser consultado.

Destaca-se entre as várias iniciativas a conferência do Prof. António Ventura, com o título "O Algarve na Luta pela Liberdade (1827-1834).

Divulga-se apelando à participação.

Com os votos do maior sucesso.

A.A.B.M.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

POLÉMICAS À PORTUGUESA - JORGE BORGES DE MACEDO


Polémicas à portuguesa” – por Diogo Ramada Curto, in Caderno E, Expresso

Jorge Borges de Macedo é o pioneiro da história tradicionalista de Portugal. Aquela que vê a pátria como excecional e encara o liberalismo e a República como desvios ou anormalidades

“O historiador Jorge Borges de Macedo (1921-1996) foi pioneiro no estabelecimento da atual agenda de uma historiografia tradicionalista. Autor de uma extensa obra, começou por afirmar os seus créditos através de um conjunto de trabalhos sobre o marquês de Pombal, a economia portuguesa do século XVIII e as relações de dependência de Portugal em relação à Inglaterra durante as Invasões Francesas. Entretanto, mudou de orientação ideológica. A proximidade ao marxismo de início da sua carreira deu lugar — depois de entrar na Faculdade de Letras — a uma série de perspetivas tradicionalistas, centradas numa história política e cultural. Porém, foi só depois do seu saneamento político da Faculdade de Letras de Lisboa, após o 25 de Abril, que passou a assumir o papel de principal guardião de uma história pátria, excecional e tradicionalista. É urgente reunir em volume os seus estudos sobre os séculos XIX e XX, que andam dispersos, para perceber melhor o modo como marcaram a escrita da história contemporânea.
Para já, será possível adiantar que, pelo menos num ponto, a sua influência perdurou até aos nossos dias: o liberalismo e a República foram um desvio, uma anormalidade em relação ao destino de uma pátria excecional, com oito séculos de existência. Vale a pena perceber como este aspeto acabado de referir se conjuga com uma interpretação muito própria daquilo que Borges de Macedo considerava ser uma característica marcante da cultura portuguesa: as polémicas entre intelectuais, em que os séculos XIX e XX foram férteis. Porém, constatar a centralidade das polémicas é uma observação relativamente consensual. O que é questionável são as razões aduzidas por Borges de Macedo para explicar por que motivo essas mesmas polémicas foram um elemento central da cultura portuguesa.
Primeiro, as polémicas do século XIX não deviam ser só relacionadas com as suas herdeiras do século XX. Enquanto “um dos temas básicos da cultura portuguesa”, elas encontravam a sua principal razão de ser numa linha de continuidade que remontava, pelo menos, à guerra da independência nacional (1640-1668). Foi no âmbito desta argumentação que sustentou: “As transformações políticas do liberalismo interromperam a perceção do processo essencial da sua continuidade” (“Revista de História das Ideias”, vol. 5, 1983, pp. 471-531, máxime pp. 472-473).
Em segundo lugar, sempre na opinião de Borges de Macedo, a propaganda republicana, que começou a surgir com o máximo de intensidade a partir de 1890, apenas discutiu o governo, sem querer discutir o país. Porém, com a proclamação da República não veio, nem poderia vir a regeneração do país. Pelo contrário, a República ficou-se por uma espécie de politiquice, uma vez que da herança do liberalismo apenas resultou que “muitos aspetos da vida política pareciam agravar-se em instabilidade e choque de renovadas ambições” (idem, p. 474). A ponto de se poder dizer que só quando à República sucedeu o Estado Novo foi possível retomar os referidos temas básicos da cultura portuguesa, incluindo neles a denominada “problemática polémica”.
Recapitulando, para Borges de Macedo existiam elementos que se mantiveram constantes na cultura portuguesa. Um deles era constituído pelos conflitos de opinião, mais especificamente pelas polémicas. As polémicas do século XIX limitaram-se a retomar temas de debates tradicionais, numa linha de continuidade com o que se teria passado anteriormente.

Quanto às ideias republicanas e ao que, através delas, se desencadeou: elas não passaram de propaganda política. Uma imagem que esconde, no fundo, um enorme desprezo pela vida política... Foi preciso esperar pelo Estado Novo para acabar com os desvios trazidos por uma política da instabilidade e retomar um dos temas básicos da cultura portuguesa: o das polémicas.
 
Justificar o autoritarismo
Vale a pena refletir sobre a argumentação de Borges de Macedo — tão inteligente, quanto perversa e inspiradora, até aos nossos dias — nos seus propósitos de justificar diferentes tipos de autoritarismo. Quer este último surgisse associado aos tempos de um absolutismo anterior ao liberalismo, grosso modo anterior a 1820; quer fosse o próprio autoritarismo de Salazar, com o qual em 1926 se pôs termo à I República. Em qualquer dos casos, as polémicas do liberalismo e da República não podiam ser consideradas como um modo de fazer valer ideias progressistas e modernizadoras.

Como interpretar esta agenda conservadora para a história de Portugal? Representará ela, tão-só, um modo de retomar a raiva dos integralistas, nomeadamente de António Sardinha, contra o liberalismo e a República? Como é que a mesma agenda, na versão de Borges de Macedo, estabelecida entre a década de 1960 e a de 1980, acabou por se difundir e se naturalizar, chegando até aos nossos dias? Não terá essa mesma agenda historiográfica conservadora acabado por obter o respeito de muitos historiadores ditos de esquerda, também eles interessados em usar o passado incutindo-lhe valores progressistas, mas considerando que todos os pontos de vista são válidos, uma vez que a história é apenas uma arte que deve ser praticada bem longe das ciências sociais, logo, dos instrumentos de prova que esta última requer?
Polémicas às dúzias
Responder a todas as questões acabadas de enunciar obriga a clarificar o nosso ponto de vista e, sobretudo, implica um estudo do sentido e dos contextos mais pertinentes das grandes polémicas, pelo menos as que ocorreram na segunda metade do século XIX. Trata-se de um trabalho em relação ao qual há que contar com vários contributos, como os que se encontram na compilação clássica organizada por Artur Anselmo e prefaciada por Vitorino Nemésio, com desenho gráfico de Sebastião Rodrigues (“As Grandes Polémicas Portuguesas”, 2 vols., Verbo, 1964-1967); nas “Polémicas de Camilo”, na edição de Alexandre Cabral (Portugália, 1964-1967); no livro de Ana Isabel Buescu, “O Milagre de Ourique e a História de Portugal de Alexandre Herculano” (Instituto Nacional de Investigação Científica, 1987); e, ainda, no importante trabalho de Ana Maria Pina, “A Quimera do Ouro: os Intelectuais Portugueses e o Liberalismo” (Celta, 2003). Esclareça-se, também, que investigações sobre polémicas poderão concentrar-se nalguns nomes ou em momentos de particular intensidade. Por exemplo, está por fazer um inventário das polémicas em que se envolveram Joaquim de Araújo, Adolfo Coelho, Inocêncio Francisco da Silva e tantos outros.


Batalha Reis e as polémicas do seu tempo
Identificar a linguagem violenta e os ataques pessoais de muitas polémicas, em que Camilo Castelo Branco foi useiro e vezeiro, não deverá fazer com que o sentido mais profundo das mesmas possa ser descartado. Conforme desabafou Jaime Batalha Reis, a 12 de setembro de 1873: “Em Portugal, as polémicas, longe de versarem ideias, não passavam de ofensas pessoais” (“Correspondência entre Antero de Quental e Jaime Batalha Reis”, ed. Maria Staak, Assírio e Alvim, 1982, p. 154). As pessoas é que contavam; as ideias eram secundárias. Logo, seria impossível dizer que existissem sequer condições para um debate de ideias em Portugal. Esta característica afigurava-se-lhe uma das maiores debilidades da cultura portuguesa, mas não a única. Mais importante era, sem dúvida, a falta de instrução que afetava os mais diversos estratos sociais. Projetos e estudos, relacionados com a modernização do país, nos quais Batalha Reis se envolveu de modo sistemático durante a sua longa vida, foram o principal modo de contrariar a situação por ele mesmo denunciada. O objetivo consistiu, pois, em abrir caminho para que as ideias — circundadas dos seus inevitáveis debates e sem evitar polémicas — frutificassem.
Mas qual era a experiência que o autor tinha de tais polémicas? Quais as controvérsias, a que assistiu ou em que se envolveu, que o levaram a fazer uma tal generalização e a formular um juízo tão severo — e porventura injusto — acerca da sua superficialidade? Será mesmo verdade que as polémicas incidiam, sobretudo, sobre pessoas — ligadas ou separadas por grupos distintos — e não sobre ideias?
À luz da historiografia existente, há pelo menos duas grandes polémicas a ter em conta. A primeira opôs António Feliciano de Castilho a Antero do Quental e Teófilo Braga, num conflito claro de gerações, que se desenrolou ao longo de 1865 e 1866. Conhecida pela polémica em torno do Bom Senso e Bom Gosto ou Questão Coimbrã. Os seus principais estudiosos foram Alexandre da Conceição, Fran Paxeco, Rui de Abreu Torres, Manuel Antunes, Bernard Martocq, Amadeu de Carvalho Homem e Alberto Ferreira em conjunto com Maria José Marinho. Meritório foi o trabalho desenvolvido pelos últimos, que compilaram, anotaram e estudaram os principais textos que compuseram a referida polémica (4 vol., Portugália, 1966-1970; 2ª ed., Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985-1989).
Do Brasil, José Feliciano de Castilho — irmão de António que, com a sua autoridade, parecia dominar os modos de consagração do meio literário — atirou uma das últimas pedradas, para ridicularizar as “nebulosidades filosóficas” de Teófilo Braga e Antero de Quental, respetivamente, na “Visão dos Tempos” (1864) e nas “Odes Modernas” (1865). Com uma ironia mordaz, declarou que até ficara “convencido e convertido”. O problema estava em que os seus adversários, na ânsia de darem cabo de tudo, só falavam de coisas que não se percebiam, tal “como se cada cidadão se exprimisse em português e tivesse a resposta em malaio” (“A Águia no Ovo e nos Astros”, Rio de Janeiro, Pereira Braga, 1866, pp. 5-6).

A segunda dessas polémicas ocupou o primeiro semestre de 1871. Foi composta pelas célebres Conferências do Casino Lisbonense, que acabaram por suscitar uma série de reações e ser proibidas em julho pelo marquês de Ávila e Bolama. Das conferências que tiveram lugar, as mais conhecidas foram a de Antero de Quental sobre as causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos, a de Eça de Queiroz sobre literatura e a de Adolfo Coelho sobre educação. Ao contrário do que sucedeu com a Questão Coimbrã, de que Jaime Batalha Reis terá ouvido falar, mas na qual não se envolveu diretamente, a sua conferência sobre o socialismo chegou a estar anunciada, mas nunca foi proferida. Entre os principais estudiosos das Conferências e da Geração de 70, figuram António Salgado Júnior, Manuel Mendes, António Quadros, Flausino Torres, José Augusto França, Álvaro Manuel Machado, Fernando Catroga, João Medina e Carlos Reis.
Que não haja dúvidas: há nessas polémicas ofensas pessoais e tricas sobre assuntos que podem ser considerados menores ou mais relacionados com aspetos conotados com a adoção deste ou daquele género literário. Porém, os primeiros a repudiar tais aspetos foram os que se envolveram nessas mesmas lutas. Ao contrário do que argumentou Jorge Borges de Macedo, o mais interessante nessas polémicas do liberalismo oitocentista não pode ser reduzido ao facto de elas estarem em linha com uma qualquer tradição, tomada como uma constante da cultura portuguesa com raízes nos séculos anteriores. O mais relevante dessas polémicas — parece a muitos dos seus estudiosos — consistiu em terem-se constituído em palco de uma luta pela emancipação de ideias, de homens livres, tendo em vista encontrar as vias para criar uma sociedade mais justa. Elas permitiram uma forma de expressão, logo, de luta em nome do progresso, da liberdade e da justiça social.
 
 
Talvez por isso mesmo, Eça de Queiroz deixou na célebre carta a Carlos Mayer, reunida nas “Prosas Bárbaras”, obra póstuma, prefaciada por Batalha Reis, um testemunho das lutas em que a sua geração se envolvera. E, numa recusa do classicismo, dos sentimentos monárquicos correspondentes e das ideias literárias associadas a António de Castilho, sintetizou: “Nós, meu amigo, somos uma geração desiludida por três revoluções, amolecida por uma invenção horrível — a música, tomada de dúvida religiosa, geração que vê esvaecer-se Cristo, a quem tanto tempo amou, e não vê chegar a liberdade, por quem há bastante tempo espera.” E, mais adiante, voltou a sublinhar: “Queremos ver o homem — não o homem dominado pela sociedade, entorpecido pelos costumes, deformado pelas instituições, transformado pela cidade, mas o homem livre, colocado na livre natureza, entre as livres paixões. A arte é simplesmente a representação dos carateres tais quais eles seriam, abandonados à sua vontade inteligente e livre, sem as peias sociais” (Obras, vol. I, Lello, 1958, p. 621).
Polémicas à portuguesa – por Diogo Ramada Curto, revista E, Expresso, 3 de Fevereiro de 2018, pp. 71/72 – com sublinhados nossos.
J.M.M.

ANTERO DE QUENTAL - ENTRE EROS E THANATOS


LIVROPoesia II – Sonetos Completos, de Antero de Quental; edição crítica de Luiz Fagundes Duarte, Abysmos, 2018, 441 pags.

Entre Eros e Thanatos” – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso
“A criação poética de Antero de Quental teve o maior impacto na sua geração e continuou a motivar, no século XIX e no século XX, as gerações seguintes. Marcada por Cesário Verde e Camilo Pessanha, a geração do “Orpheu” também não ficou indiferente à poesia de Antero, em especial aos “Sonetos”. Está provado que Fernando Pessoa recebeu forte influência de Antero. Manuscritos existentes na Biblioteca Nacional revelam que Pessoa “não seria o que é se não tivesse havido, antes, um Antero, sobretudo, no espírito de muitas odes e de muitos dos ‘Sonetos’”.

Revelam, ainda, que Pessoa deixou traduções para inglês de muitos sonetos e projetou uma edição das Poesias de Antero, constituída por seis pequenos volumes, uma edição encadernada, de 370 páginas, do tipo da de Coleridge, por W & Foyle e da qual existe um exemplar, com a sua assinatura na sua biblioteca pessoal, na Casa Fernando Pessoa.

A propósito da geração do Orpheu, refira-se, também, o retrato quase desconhecido de Antero – que a Revista do Expresso divulgou – da autoria de Almada Negreiros e que fez parte da exposição retrospetiva apresentada, em 2017, na Fundação Gulbenkian.
Estas e outras questões encontram-se pormenorizadas no volume “Poesia II, Sonetos Completos”, que acaba de ser publicada na série Obras Clássicas da Literatura Portuguesa Século XIX, projeto em curso da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, e, no caso concreto, na sequência de “Poesia I”, que reuniu as “Odes Modernas e Primaveras Românticas”. Em ambos os volumes, a edição crítica é da responsabilidade do filólogo Luiz Fagundes Duarte, professor da Universidade Nova de Lisboa, que tem feito outras edições críticas e estudado os manuscritos autógrafos de escritores como Eça de Queirós, Fernando Pessoa, José Régio ou Vitorino Nemésio. Antero de Quental (1842-1891), além de uma recolha de sonetos de juventude — Coimbra, 1861 —, a chamada edição Sténio [pseudónimo literário do seu colega, amigo e também açoriano Alberto Teles (1840 1917)], publicou, no Porto, em 1881, outra edição de “Sonetos”, numa altura em que já atingira o maior prestígio intelectual, e, cinco anos mais tarde, em 1886, os “Sonetos Completos”, acompanhados por um estudo introdutório de Oliveira Martins, que inclui, com a anuência de Antero, cinco outras poesias a que chamou “lúgubres”: ‘Os Cativos’, ‘Os Vencidos’, ‘Entre Sombras’, ‘Hino da Manhã’ e ‘A Fada Negra’.
Em 1886, Antero acrescentou sonetos inéditos e dispersos estruturados em cinco ciclos correspondentes à sua evolução intelectual e filosófica, às intervenções cívicas, aos combates políticos e às efusões sentimentais e que ficaram assim distribuídos: 1860-1862, vinte; 1862-1866, vinte e oito; 1864-1874, dezassete; 1874-1880, vinte e três; e 1880-1884, vinte e um. Desta compilação surgiu uma segunda edição (1890), ainda em vida do autor, sem alterações nos textos dos sonetos, mas incluindo 46 traduções de 32 sonetos para alemão (por Wilhelm Storck), espanhol (Curros Enríquez e Baldomero Escobar), italiano (Giuseppe Cellini, Marco Antonio Canini, Emilio Teza e Tommaso Cannizzaro) e francês (Fernando Leal).
O conjunto de 109 sonetos de Antero teve sucessivas reedições, muitas das quais repetindo gralhas e outras incorreções que afetaram a autenticidade do texto. Entretanto, António Sérgio organizou, no âmbito do centenário do nascimento de Antero, celebrado em 1942, uma edição anotada, mais tarde inserida nos Clássicos Sá da Costa, e que não só manteve lapsos tipográficos como também alterou por completo a sistematização preconizada por Antero e Oliveira Martins.
 
 
A atual edição crítica realizada por Luiz Fagundes Duarte — com rigor textual levado ao extremo e com exaustiva erudição biográfica e bibliográfica —, apresenta as sucessivas variantes introduzidas pelo poeta, a partir dos manuscritos autógrafos, quando disponíveis, ou da última edição em vida. Numa secção de ‘Addenda’, Luiz Fagundes Duarte apontou três sonetos apócrifos, um dos quais a propósito de Camões, no centenário de 1880, ao qual Antero não se associou e assumiu atitude crítica: o soneto ‘Ananké’, que se provou não ser de Antero, mas sim de Joaquim de Araújo, pelo que desaparece do corpus anteriano. Mais ainda: dois sonetos atribuídos a Antero que circulavam, desde 1916, nos meios espíritas como tendo sido ditados por Antero através de um médium. Todavia, um dos outros méritos e revelações que se deparam nesta edição consistiu no trabalho meticuloso de verificação de largas centenas de manuscritos, em arquivos nacionais e estrangeiros, e de consulta em coleções de jornais e revistas, para recuperar todos os dispersos de Antero, até agora conhecidos. Perfazem 176 sonetos (traduções incluídas) relativos a diferentes períodos e que se encontram integrados na já referida arrumação por etapas cronológicas

Esta investigação, porém, não está concluída. Previsto para breve, e também a cargo de Luiz Fagundes Duarte, está o aparecimento do último tomo, “Poesia III – Poemas Dispersos, Alterados e Destruídos”, que virá substituir o volume póstumo “Raios de Extinta Luz”, preparado por Teófilo Braga (1892) e, posteriormente, acrescentado (1948) por António Salgado Júnior e José Bruno Carreiro. Nele se misturam sonetos e não sonetos, publicados uns em vida de Antero e outros póstumos. O critério e exigência agora adotados irão, certamente, corrigir e esclarecer lacunas e incorreções que perduram desde a edição “a vários títulos espúria” de Teófilo Braga.
Os “Sonetos” de Antero chegaram, através da tradução alemã de Wilhelm Storck, ao conhecimento de Tolstoi que registou a profunda emoção e apreço que lhe causaram. Antes da obra ortónima e heterónima de Fernando Pessoa, Antero de Quental foi um dos poetas portugueses de maior projeção e reconhecimento universal. Oliveira Martins afirmou que os “Sonetos” de Antero “não são os quaisquer episódios particulares de uma vida de homem; são a refração das agonias morais do nosso tempo, vividas, porém, na imaginação de um poeta”.
Embora tenha escrito nas mais diversas modalidades estróficas, Antero optou quase sempre pelo soneto que imortalizara “Dante, Miguel Ângelo, Shakespeare e Camões” para exprimir, conforme salientou, “a forma completa do lirismo puro”. Foi, portanto, na concisão lapidar do soneto, que Antero manifestou as crises de angústia metafísica, as lutas políticas, as efusões sentimentais e o exacerbado pessimismo, o testemunho do sofrimento físico resultante de sucessivas doenças que lhe tornaram a vida insuportável e aceleraram o trágico encontro com a morte.
Os “Sonetos” de Antero colocam-nos perante o grito que arde, o verbo que anuncia e o murmúrio que soluça, a presença dominadora de Eros e Thanatos, matriz de um imaginário que oscila entre a labareda do amor e o espetro da morte. E, muitas vezes, a fatalidade e o orgulho de ser açoriano. No auge da mais ruidosa das polémicas em que esteve envolvido, não hesitou em considerar os portugueses de outras regiões do país os meus “quase patrícios”. Era a reivindicação das suas origens que, além das circunstâncias familiares, denunciaram na sua poesia, em especial nos “Sonetos”, os fatores geográficos que singularizam o arquipélago.

O mar é, assim, um dos lugares onde podemos, na sua ilha ou em qualquer outra parte do mundo, estar perto de Antero, de olhar horizontes que o quotidiano oculta e de ouvir, na voz do vento, o legado sempre vivo da sua inquietação”

SONETO

Este é o livro das vinganças nobres,
O inferno dos que têm o céu na terra:
Nem vingança; justiça
- Oh vós que as lagrimas
Trazeis sempre nos olhos, sem se querem,

Lázaros no banquete da existência,
Oh filhos do dever! Lede este livro,
Porque através de um mundo de misérias
Do largo peregrinar chegando ao termo,

Heis- de ouvir, lá das bandas do futuro,
A grande voz do Cristo, a voz eterna,
Erguer – se sobre os filhos da verdade:

«- Felizes dos que sofrem – terão prémio:
Feliz do pobre e triste, órfão de afetos,
Será rico: no céu seu pai o espera!»

[Nota] Coimbra, Dezembro de 1861 e incluído com o número 129, pag. 191 da atual edição, com o titulo “Na Primeira Pagina do Inferno do Dante”. Pela primeira vez – e nesta edição critica – passa a integrar os Sonetos Completos de Antero.
Eros e Thanatos – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 3 de Fevereiro de 2018, pp. 72/73 – texto agora acrescentado pelo autor e com sublinhados nossos.
António Valdemar
J.M.M.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

O PINTOR DOMINGOS REBÊLO EM 10 PINCELADAS – LIVRO E CONFERÊNCIA



AUTORA: Rosa Maria Neves Simas;
EDITORA: Letras Lavadas;

APRESENTAÇÃO:

DIA: 2 de Fevereiro de 2018 (21,30 horas);
LOCAL: Casa dos Açores [Rua dos Navegantes, 21 – à Lapa], Lisboa;
ORGANIZAÇÃO: Casa dos Açores;

ORADORES: António Valdemar (Academia das Ciências) | Jorge Rebêlo

 
O pintor e professor Domingos Maria Xavier Rebelo (1891-1975) nasceu em Ponta Delgada a 3 de Dezembro de 1891, de família de “posses modestas” mas que valorizava o ensino e a educação, como uma valia importante para a ascensão social e cultural. Fez Domingos Rebelo os seus estudos (de forte componente católica) no Instituto Fischer, revelando cedo uma especial propensão para as artes e a pintura. Ingressou na Escola de Artes e Ofícios Velho Cabral [por iniciativa do Decreto de 22 de Agosto de 1889, de Emídio Navarro, são fundadas Escolas Técnicas nos Açores; a 1 de Outubro de 1890 inicia-se as aulas na Escola de Desenho Industrial Gonçalo velho Cabral, curiosamente no solar onde nasceu Antero de Quental], actual Escola Secundária Domingos Rebelo. Com apoio dos condes de Albuquerque, “impressionadas com a qualidade da sua arte”, Domingos Rebelo parte para Paris para prosseguir os seus estudos (tinha 15 anos de idade).


É em Paris que Domingos Rebelo estuda e convive com uma plêiade de notáveis nomes da pintura [Léon Bonnat, Amadeu de Sousa Cardoso, Santa Rita Pintor, Emmerico Nunes, Dórdio Gomes, Eduardo Viana, Manuel Bentes, Pedro Cruz] que lhe marcam decisivamente a sua valiosa obra artística.    

Regressa em 1913 a sua Ilha de S. Miguel, ali permanecendo 30 anos, com deslocações a Lisboa, participando regularmente em exposições na Sociedade Nacional de Belas-Artes. A partir de 1942 estabelece-se em Lisboa, onde produz obras importantes, ao mesmo tempo que leciona, foi director da Biblioteca Museu do Ensino primário, director da Academia Nacional de Belas Artes (1947-1970).

Morre a 11 de Janeiro de 1975.  

J.M.M.