sábado, 31 de março de 2018

ALMANACH DE S. BRAZ D’ALPORTEL (ALGARVE)



ALMANACH DE S. BRAZ D’ALPORTEL. Ano I (1893) ao Ano II (1894); Proprietário: João Manuel Rodrigues de Passos; Editor e Redactor: João Manuel Rodrigues de Passos; Impressão: Tipographia do “Recreio” (Rua da Barroca, 109; depois, ano II, Rua do Marechal Saldanha, 59-61), Lisboa; 1892-1893, II numrs

Trata-se da edição de dois curiosos Almanaques, ambos editados por João Manuel Rodrigues de Passos (1856-?), de São Brás de Alportel. A divulgação destes Almanaques locais/regionais são raros e valiosos. Conhecem-se, antes deste(s) Almanach de S. Braz d’Alportel, o Almanaque Curioso do Porto (1803?), muitos e interessantes de Lisboa (a partir de 1806?), a sugestiva Folhinha da Terceira (1831), outra Folhinha a Açoriana Micaelense (1843), o Almanaque de Leiria (1854), o competente Almanaque de Instrução Pública em Portugal de Coimbra (1857), o de Moçambique (1859?), de Aveiro (1862), o de Ponta Delgada (Arquipélago dos Açores, 1864), o Maragato da Terceira (1865), de Goa (1864), o de Margão (da Mocidade, 1868), o Almanaque do tio Brás (Horta, 1872), de Viseu (da Beira, 1872), o Almanaque do Faialense (1872), o Almanaque Insulano (para Açores e madeira, Angra, 1873), o curioso Almanaque Liberal de Coimbra (1875), o magnifico Almanaque da Praia da Figueira (1878), o de Barcelos (do Minho, 1880), de Estremoz (Almanaque Ilustrado, 1884), o de Castro Daire (1888), o Almanaque Estremocense (1889), de Bastorá (de Paredes e Bastorá, 1889?), o de Braga (1893) e o de Montemor-o-Novo (Alentejo, 1884).

Os Almanaques de São Brás de Alportel são “documentos importantes para a história de São Brás de Alportel” [José do Carmo Correia Martins (JCCM), Subsídios para uma Biobibliografia São-Brasense, 2017, p. 169]. De muita “ousadia” e de franco “pioneirismo” regional, o(s) Almanaque de São Brás de Alportel, como habitual assente no seu “kalendário”, tem enigmas, curiosidades e passatempos variados, insere um brevíssima monografia da povoação (Ano 1893) e outras mais anotações antigas sobre São Brás (ver, artigo de Ataíde de Oliveira, Ano 1894), apresenta curiosas secções sobre agricultura, “relações de mercados e feiras de gado em todo o país”, apresenta um artigo sobre João de Deus, supostamente da pena de Bernardo de Passos (Pa …Pi; Ano de 1893, pp. 20-21), replica artigos da “Folha do Povo” e outras mais crónicas a consultar [ver sobre a sua importância, JCCM, ibidem].   


O Almanaque era editado por João Manuel Rodrigues de Passos, natural de São Brás de Alportel. Nascido a 15 de Agosto de 1856, filho de Manuel Rodrigues do Passo e de Inês de Jesus (ibidem). Pertencia à poderosa família Passos, sendo primo paterno de Bernardo Rodrigues de Passos Júnior [1876-1930; poeta, publicista, notável jornalista, republicano e anticlerical, com cargos políticos e administrativos locais e regionais], de Boaventura Rodrigues de Passos [1885-1935; republicano, poeta, escritor, irmão e sócio, com Bernardo, da oficina tipográfica “Regional Editora”, jornalista e director do semanário Ecos do Sul], de Rosalina de Passos [1880-1958; escultora e irmã dos anteriores Passos, tendo reproduzido os seus bustos, bem como, entre outros, o do poeta Cândido Guerreiro] e de Virgínia Passos [1881-1965; pintora]. 
Integrou João Manuel Rodrigues de Passos a primeira geração que “dinamizou” politica e culturalmente São Brás de Alportel [José do Carmo Correia Martins, ibidem, p.168] – a “Barcelona Algarvia”- conjuntamente com o publicista republicano Bernardo Rodrigues de Passos, Sénior [considerado um dos “apóstolos” do republicanismo local], o combativo e intransigente republicano João Rosa Beatriz [1881-1960; comerciante de ferragens e mercearia, carbonário e livre-pensador; integrou a primeira Comissão Paroquial Republicana de S. Brás; foi um dos homens que esteve ao lado de Machado de Santos, na Rotunda, no 5 de Outubro de 1910; pertencia à maçonaria, integrando o triângulo nº189, do GOL, que foi fundado pelo Decreto de 20 de Junho de 1911, como filial da Loja Luís de Camões, de Lisboa; fundador do Batalhão de Voluntários para a Defesa da República (fundamental a repor a ordem no motim de Abril de 1916); elemento dinamizador e reivindicador (acompanhado por Virgílio Passos e José Pereira da Machada) da elevação de S. Brás de Alportel a concelho, conseguindo-o a 1 de Junho de 1914, tendo sido o seu primeiro administrador; vice-cônsul de Portugal em Mazagão; exilou-se após o 28 de Maio de 1926, em Marrocos, onde faleceu], José Pereira da Machada Júnior [farmacêutico e Presidente da Câmara Municipal, em 1916; proprietário da Farmácia Machada Júnior; foi neste estabelecimento que trabalhou, na juventude, o poeta Bernardo de Passos], o importante publicista republicano Júlio Cesar Rosalis [contabilista, fundador do Centro Republicano local; pertenceu ao triângulo maçónico local; foi, em 1911, nomeado governador civil dos Distrito de Faro] e Virgílio de Passos [farmacêutico, republicano, tendo sido nomeado Presidente da Comissão Paroquial Republicana de S. Brás, a 18 de Novembro de 1907; maçon do triângulo maçónico local; era primo do poeta Bernardo de Passos – refira-se que o Triângulo Maçónico de S. Brás de Alportel nº 189, integrava além dos elementos já citados, João de Sousa Uva e Ventura Coelho Vilhena].


João Manuel Rodrigues de Passos foi correspondente do Diário de Notícias e era agente de seguros das Companhias Tagus [fundada em Lisboa, em 1877, com a denominação de Companhia de Seguros Marítimos Tagus, adotando a designação só em 1883] e da Portugal Previdente [1907 – idem, ibidem, p. 168]. Comerciante (proprietário da Loja Progresso), homem culto e defensor intransigente dos interesses locais, ousou editar (1893) os dois Almanaques acima lembrados, que são documentos “importantes para a história de São Brás de Alportel [idem, ibidem).  


[Algumas assinaturas] Colaboração: Annes Baganha, Aleixo Gomes, Alexandrino Flores, “Bengalinha”, Bernardo Roiz de Passos Júnior, Casimiro Dantas, Fialho de Almeida, Hypocrates, J. J. Cyrillo Junior, J. Leonam Sossap, João António Rodrigues de Passos, João de Deus, João Manuel Rodrigues de Passos, João Pimenta, João Xavier de Ataíde de Oliveira, José Bernardo Bonga, José Felix da Cruz, Júlio Teixeira, “Keraunophobuz”, Lima João, Maria Carolina Frederico Crispin (Maria Veleda), Maria Alexandrina, Martinho de Brederode, Mendo d’Athouguia, Nogueira da Carvalho, Pa … Pi [Bernardo de Passos Júnior], Passos Pinto, “Uma Senhora Portuguesa”, Zampironi.
O Almanach de S. Braz D'Alportel AQUI digitalizado.
J.M.M.

sábado, 24 de março de 2018

IN MEMORIAM DE JÚLIO EMÍLIO GONÇALVES LOURO (1928-2018)



Júlio Emílio Gonçalves Louro nasceu a 29 de Janeiro de 1928. Neto de António Augusto Louro (1870-1949) – nascido no Sabugal, formado em ciências farmacêuticas [adquire uma farmácia no Seixal, a partir da qual exerce uma importante influência cívica local; cf. António Lopes, “António Augusto Louro. Um Maçon há cem anos”, 2005], é uma figura incontornável do ideário republicano e maçónico; ao longo da sua vida, António Augusto Louro, manteve uma intensa intervenção cívica, cultural e política [integrava, como maçon (n.s. Luso) da Loja Firmeza, a Comissão de Resistência Maçónica à data do 5 de Outubro de 1910, pertenceu à Carbonária, foi um entusiasta da educação, escrevendo curiosos materiais pedagógicos na sua luta contra o analfabetismo, fomentou as Escolas Moveis, intervém no movimento associativo fundando o Montepio dos Operários, Filarmónicas, Grupos Dramáticos, pertenceu à Associação de Registo Civil, é jornalista e fundador do periódico Seixalense (1902), integra a comissão que promove a primeira Festa da Árvore (26 de Maio de 1907), promove Associações de Beneficência, Associações de Bombeiros, funda centros republicanos (Alcanena, Torres Novas), lojas maçónicas (Seixal, Barreiro, Sesimbra, Moita, Alcanena), foi administrador dos concelhos de Torres Novas, Coruche e Alcanena, milita nas atividades do MUD e participa na campanha presidencial de Norton de Matos] – com ele viveu e aprendeu os valores da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, com ele aprendeu e ensinou que “sem Liberdade não há Democracia e sem Instrução não há Liberdade”.

Júlio Louro - que pertencia ao Grémio Lusitano, tendo sido agraciado a 16 de Fevereiro, último, com a Ordem Maçónica Hipólito José da Costa [AQUI] - foi um cidadão sem fadigas, verdadeiramente humilíssimo, harmonioso nos afectos, fraterno com os semelhantes, de uma generosidade sem limites.
 
O seu funeral decorrerá amanhã, pela 16 horas, no cemitério de Benfica.
 
Até sempre, Júlio Louro

J.M.M.

sexta-feira, 23 de março de 2018

VÍTIMAS DA DITADURA NO ALGARVE, POR IDALÉCIO SOARES


Amanhã, 24 de Março de 2018, na FNAC, em Faro, pelas 21.30 h, vai ser apresentada a obra de Idalécio Soares, com algumas notas sobre várias Vítimas da Ditadura no Algarve.

Pode ler-se na sinopse do livro:
Este é um livro sobre a ditadura que vigorou em Portugal entre 1926 e 1974 e sobre a polícia política que a serviu durante quase quarenta e oito anos. Manuel Paula Ventura, João Feliciano Galvão, José da Mónica e outros, cujas histórias se contam neste livro, foram alguns dos muitos milhares que viram as suas vidas prejudicadas, quando não abruptamente interrompidas por este regime. Com origens sociais, personalidades e percursos de vida muito diferentes, eles tiveram, todavia, algo em comum: o terem, em determinado momento das suas vidas, e independentemente das escolhas políticas que fizeram (ou não fizeram), sido apanhados pela malha apertada da ditadura e marcados com o seu ferrete. Quando ideias assentes no preconceito e no ódio ao outro, responsáveis por tragédias humanas inenarráveis, ganham de novo, perigosamente, lastro na Europa e noutras partes do mundo, quando essas mesmas ideias chegam ao poder na maior potência mundial, o combate pela preservação da memória histórica dos que delas foram vítimas é um ato de urgência, uma forma de não deixar que se repita. De dizer: NUNCA MAIS! Porque a ditadura existiu! Porque a polícia política existiu! Em Portugal. Entre 1926 e 1974.

Vai apresentar a obra o professor Joaquim Vieira Rodrigues.

Fica o convite para comparecer e aprender um pouco mais sobre estas figuras ainda hoje bastante esquecidas.

Com os votos do maior sucesso.

A.A.B.M.

sexta-feira, 16 de março de 2018

CELEBRAR ANTÓNIO SARDINHA, OU A ANTÍTESE DO LUGAR PARA ONDE QUERO IR


Celebrar António Sardinha, ou a Antítese do Lugar onde quero ir” – por Paulo Mendes Pinto, in Público, 15-03-2018
Tenho direito a não me identificar e a pedir que não me obriguem a ler este nome na placa identificativa de uma artéria lisboeta.
“Cada época tem a sua visão, as suas narrativas sobre os acontecimentos, sobre o fluir e sobre as personagens. Cada ideologia distribui prémios e afasta incómodos. Reescrevemos o passado de acordo com as vontades do presente. Mas estas alterações ao sabor dos ventos dominantes são interessantes. Mostram um certo pulsar social e político. Dão-nos uma visão de como a heroicidade pode, por um decreto, ser transformada em crime de lesa-pátria.
E, por vezes, há crimes que não são de lesa-pátria, mas sim de lesa-humanidade. Há avanços que civilizacionalmente fazemos e que não queremos abandonar, nem dar, sequer, possibilidade de mostrar que estamos bem como estamos. Não, no que respeita ao respeito pelo outro, no que respeita ao Humano, não podemos pensar que o adquirido é, de facto, adquirido.
Neste que é ano em que comemoramos os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, não nos podemos contentar com distrações, com ausências e com silêncios. Há que consolidar estes princípios de valorização do ser humano, da sua diversidade, do direito que cada um de nós tem em ter as suas ideias, as suas pertenças, as suas identidades.
 
Há poucas horas descobri que em Lisboa há um topónimo que recorda António Sardinha, integrista, antiliberal, antimaçónico, anti-tudo-o-que-de-liberdades-defendemos. Por fim, foi talvez o maior mentor, a base, do antissemitismo em Portugal. Foi dado no início do Estado Novo; mas ainda existe.
Os primeiros laivos verdadeiramente antissemitas em Portugal, na mais correta aceção da palavra, encontramo-los próximos de um quadro ideológico e nacionalista muito específico, nos grupos que se vão organizando na década de 10 do séc. XX contra a implantação da República, grupos monárquicos, antiliberais e antimaçónicos. Talvez o primeiro autor panfletário antissemita tenha sido Mariotte, i.e., o P.e Amadeu de Vasconcelos, que em 1913 escreveu Os Meus Cadernos, onde vituperava contra a “raça maldita”, os judeus.
Mas o ano de 1914 seria um ano bastante importante na formulação do antissemitismo português. Hipólito Raposo publicava a Nação Portuguesa e António Sardinha, que nos traz aqui, em edição de autor, publicava O Sentido Nacional de Uma Existência/António Thomaz Pires e o Integrismo Lusitano. Sardinha vocifera contra toda a mistura de gentes que os Descobrimentos implicaram, dando especial destaque à “porca infeção hebraica, de que não escapámos incólumes” (p. 41). Sardinha, o “paladino do antissemitismo lusitano”, nas acertadas palavras de Jorge Martins, defende o monarca D. João III na sua luta pela instalação da Inquisição em Portugal e demonstra a necessidade e vantagens desse tribunal religioso perante as “influências do morbo judengo”.
 
Sardinha seria um autor com uma produção continuada no campo do ódio contra os judeus. No ano seguinte, em 1915, daria ao prelo a obra O Valor da Raça. Nesta obra, que se destinava a concurso para professor da Faculdade de Letras de Lisboa, Sardinha revelava uma total ignorância da história judaica, assim como da própria Pré-História humana, que aqui usava para definir uma “raça lusa”. Misturando referências à Atlântida, Sardinha defendia uma homogeneidade étnica e territorial com base na mais distante antiguidade. No ano seguinte, reforçaria esta tese com o texto “O território e a raça” incluído na obra A Questão Ibérica, no qual argumentava ainda mais veementemente a origem atlante da raça lusitana. Mais tarde, no Glossário dos Tempos, editado em 1942, Sardinha diria que a raça lusa era a última barreira ao “alastramento semita” (p. 162).
No seu ideário, Sardinha associava os judeus à maçonaria. Em 1940, no livro Ao Princípio Era o Verbo, acusa o Marquês de Pombal de ser a origem de toda uma linha de degenerescência e de assalto à natureza cristã da identidade, bem como o liberalismo de ser uma “forma espiritual do semitismo” e o capitalismo uma “inegável extração talmúdica” (p. XXII-XXIV).
Citamos o fim de um seu soneto, “Madre Inquisição”, retirado da obra editada em 1937, Pequena Casa Lusitana, na medida em que mostra da melhor forma o pensamento radical de Sardinha, defendendo e desejando a Inquisição:
Ó santa Inquisição, acende as chamas!
E no fulgor terrível que derramas,
Vem acudir à pátria portuguesa!
(p. 122)

Palavras para justificar esta afirmação podemos tê-las na leitura dos tempos. É a época, sim. Mas não somos nós, hoje. E é aqui, na tensão entre o que foi e o que quero passar para o futuro, que eu me tenho de posicionar como cidadão e como pai. Sim, António Sardinha existiu, como muitos outros antissemitas portugueses. Mas quero valorizar tudo o que ele abominava: o judeu, o muçulmano, o protestante, o ateu, o maçon, o liberal, o republicano. O meu mundo é cosmopolita e é esta diversidade que eu quero passar como legado ao futuro.

Hoje eu não me identifico com movimentos como o que Sardinha defendia e alimentou. Hoje, a sociedade em que eu vivo e que pretendo deixar para os vindouros é de Igualdade, de Fraternidade e de Diálogo. Sobretudo, é de Respeito. Tenho direito a não me identificar e a pedir que não me obriguem a ler este nome na placa identificativa de uma artéria lisboeta, cidade que desde o século XV foi de “muitas e desvairadas gentes”, como afirmava Damião de Góis, outro perseguido pela Inquisição que Sardinha desejava.

Lisboa representa exactamente o oposto de António Sardinha

Celebrar António Sardinha, ou a Antítese do Lugar onde quero ir – por Paulo Mendes Pinto, jornal Público, 15 de Março de 2018, pp. 54/55 – com sublinhados nossos.



J.M.M.

sexta-feira, 9 de março de 2018

DO MINHO AO MANDOVI: UM ESTUDO SOBRE O PENSAMENTO COLONIAL DE NORTON DE MATOS



LIVRO: Do Minho ao Mandovi: um Estudo sobre o pensamento Colonial de Norton de Matos;
AUTOR
: Sérgio Neto;
EDITORA: Imprensa da Univ. de Coimbra, 2016.

(RE)LANÇAMENTO [AQUI a nossa Nota de lançamento]:

DIA: 12 de Março 2018 (17,15 horas);
LOCAL:
Escola Secundária José Falcão (Biblioteca), Coimbra;
ORADORES: Prof. Luís Reis Torgal | Prof. Armando Malheiro da Silva;

A longa vida do general José Norton de Matos (1867-1955) teve na questão colonial, apesar do “Milagre de Tancos” e da sua candidatura à presidência da República, em 1949, um esteio maior. Com efeito, a sua comissão na Índia, (1898-1908), onde dirigiu os Serviços de Agrimensura, a sua participação na missão encarregue de delimitar os limites de Macau (1909-1910), assim como os cargos de Governador-Geral (1912-1915) e de Alto-Comissário (1921-1924) da província de Angola, assinalaram muitos anos de actividade no Ultramar, a que se seguiu, uma vez concluída a acção no terreno, a redacção de livros de pendor doutrinário e uma vasta colaboração em jornais e revistas, sendo de destacar aquela que desenvolveu n’O Primeiro de Janeiro (1931-1954).

 

De resto, é possível falar num saber (sobretudo) de experiência feito, em que Norton beneficiou do contacto directo com colonialistas de gerações anteriores, como Mouzinho de Albuquerque, Henrique Paiva Couceiro ou Joaquim José Machado, governador da Índia quando da sua chegada a este território. Seja como for, as leituras dos clássicos ingleses da colonização tiveram o seu lugar no ideário “nortoniano”, expressando o general grande apreço pela aliança com a Grã- Bretanha e admiração pelos seus processos administrativos nos territórios africanos e na Índia. 

O objectivo deste estudo é seguir o percurso colonial de Norton de Matos, de modo a integrá-lo na sua época. Havendo convivido com a questão ultramarina, ao longo de três regimes políticos, ensaiar-se-á avaliar a sua experiência colonial a partir das linhas de força da Monarquia Constitucional, da Primeira República e do Estado Novo. Apreciar os debates e os argumentos trocados. Explicar o impacto da geopolítica mundial do período de entre-guerras no olhar desta importante figura histórica portuguesa do século XX, cotejando-a com a mitologia colonial herdada da Primeira República e aqueloutra desenvolvida pelo Estado Novo. 

Importa, pois, estabelecer os pontos de contacto entre os três regimes e explicitar algumas ideias que permearam as suas visões, nomeadamente, o mito prometeico da “gesta colonizadora”, o Apartheid, a miscigenação e o entendimento colonial que fazia dos imperialismos coloniais, assim como as primeiras independências, na Ásia e em África [AQUI]

J.M.M.

quinta-feira, 8 de março de 2018

DIA INTERNACIONAL DA MULHER



Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma

 
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética
 
J.M.M
 

40.º ANIVERSÁRIO DA MORTE DE VITORINO NEMÉSIO – EVOCAÇÃO DA SUA VIDA E OBRA



40.º Aniversário da Morte de Vitorino Nemésio – Evocação da sua Vida e Obra

 
DIA: 10 de Março 2018 (15,00 horas - 17,00 horas);

LOCAL: Centro Cultural de Belém (sala Sophia de Mello Breyner Andresen), Lisboa.

 
PROGRAMA:

- Abertura e Justificação da Homenagem (por Elísio Summavielle, pres. Cons. Adm. Do CCB)

- Retrospetiva de Vitorino Nemésio (António Valdemar, jornalista e investigador)

­- Poemas de Vitorino Nemésio (por Luiza Costa)

- O Lugar de Nemésio na Literatura Portuguesa e na Cultura Açoriana (Luís Fagundes Duarte, Univ. Nova de Lisboa)

- Poemas de Vitorino Nemésio (por Luiza Costa)


“Poeta, escritor e professor universitário, Vitorino Nemésio (1901-1978) nasceu com o século XX e acompanhou quase todo o século nas suas múltiplas transformações culturais, políticas e sociais.

Em março de 2018 completam-se 40 anos sobre a sua morte. O Centro Cultural de Belém vai recordar esta efeméride no dia 10.


A problemática açoriana dominou grande parte da criação literária de Nemésio, embora se ocupasse de outros temas relacionados com a Europa e, muito em especial, o Brasil.

Deixou quatro livros de ficção, onze de poesia e, ainda, mais dezassete volumes constituídos por aquilo que, genericamente, denominou «história, critica e viagens». De todos os títulos, porém, o que teve maior renome nacional e internacional foi o 
Mau Tempo no Canal (1944).

Além do 
Mau Tempo no Canal, Vitorino Nemésio afirmou- se como poeta, nomeadamente em: La Voyelle Promise (1935); O Bicho Harmonioso (1938); Eu, Comovido a Oeste (1940); Nem Toda a Noite a Vida (1953); O Verbo e a Morte (1959); Canto de Véspera (1966); Sapateia Açoriana (1976). Assinala-se na obra poética o livro póstumo, Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga (2003), que testemunha a outra grande paixão com Margarida Vitoria Jácome Correia”.

[António Valdemar, AQUI – sublinhados nossos]

FOTO: Vitorino Nemésio, por Alfredo Cunha, com a devida vénia

J.M.M.

segunda-feira, 5 de março de 2018

VIDA E OBRA DE MARIA LAMAS



DEBATE: “Vida e Obra de Maria Lamas. Atualizar o pensamento, abalar a indiferença”.

DIA: 8 de Março 2018 (10,00 horas);
LOCAL:
Auditório da Biblioteca Nacional de Portugal (Campo Grande, 83, Lisboa);

Na Comemoração dos seus 50 Anos, o Movimento Democrático de Mulheres (MDM), realiza um Ciclo de Debates – “MDM. Um Movimento de Mulheres em Movimento" -, abrindo o seu Ciclo, no próximo dia 8 de Março, com um sugestivo tema: "Vida e Obra de Maria Lamas. Atualizar o pensamento, abalar a indiferença”. No decorrer da sessão será lançado o livro de “Atas do II Congresso Maria Lamas”, realizado a 12 de Dezembro de 2015, em Almada.

A não perder.

J.M.M.

domingo, 4 de março de 2018

O COMBATE CIVILIZACIONAL PELOS LIVROS E PELA LEITURA


O Combate Civilizacional pelos Livros e pela Leitura” – por José Pacheco Pereira, in Jornal Público, 3 de Março de 2018
O problema é o mito perigoso de que a “leitura”, mesmo numa forma diferente, está a emigrar de um meio para outro, porque não está.
“Estas últimas semanas passei pelos restos de um mundo que foi o meu, mas que está a acabar. A Livraria Leitura no Porto acabou. Era seu frequentador desde os tempos em que era Divulgação e tinha a loja da esquina da Rua de Ceuta e a outra que depois foi dos Livros do Brasil e o seu livreiro era Fernando Fernandes, juntamente com o editor José Carvalho Branco. Não era difícil perceber, nos últimos anos, a sua agonia para quem, como eu, já viu muitas livrarias moribundas. O stock começa a não ser renovado, as estantes têm quase sempre os mesmos livros, as novidades começam a ser sempre as mesmas de todas as livrarias, até que começam também a desaparecer. Não há dinheiro para diversificar as encomendas ou as compras e isso na Leitura era uma ruptura com a prática de Fernando Fernandes de encomendar sempre dois exemplares dos livros que os professores da Universidade do Porto mandavam vir, um para eles e outro para a livraria. Deixou há muitos anos de haver a Galeria de Arte. Pouco a pouco fechou a secção de livros artísticos, desapareceram muitos livros estrangeiros e sobravam os chamados “monos”, mesmo assim aqueles em que ainda ia descobrindo livros para comprar. Havia uns restos de filosofia, alguns livros de história, e para os professores uma boa secção de pedagogia. As montras pareciam sempre iguais e os esforços dos empregados, e dos clientes fiéis que ficaram até ao fim, não chegavam para dar vida ao espaço. Quem queria apresentar novos livros rumava para outros locais menos fúnebres. E, mesmo no anúncio da sua morte, alguns dos artigos jornalísticos publicados eram tão estereotipados e pobres, que era fácil perceber que havia uma ruptura da memória do papel da Leitura no Porto, desde os tempos da resistência, nessa rua emblemática onde havia tertúlias no Café Ceuta dos oposicionistas do Porto, onde vários destacados membros da oposição à ditadura viviam ou tinham os seus escritórios profissionais. Foi na Leitura (e na Divulgação) que vi muitas exposições, recordo-me de uma de Tapiés, escrevi textos para alguns dos catálogos, conheci Francisco Sá Carneiro e vi pela única vez Aquilino Ribeiro.
 
Primeiro, chegou um cabeleireiro ocupando a parte “histórica” da livraria e ficou apenas a nova parte na Rua José Falcão, para onde antes se passava por uma espécie de túnel com livros por todo o lado. Nada tenho contra os cabeleireiros, mas aquele ficou-me atravessado, sem culpa nenhuma. E depois veio o estrangeirismo na moda “Leitura Books & Living”, depois veio a doença terminal, e depois veio a Morte.
Nesta mesma semana, fui pela última vez à Pó dos Livros em Lisboa. Consegui a proeza de entrar, ver com algum tempo tudo o que lá havia e não conseguir encontrar nada para comprar. Este para mim é sempre o sinal. Mesmo no mercado dos livros na Estação da Gare do Oriente consigo comprar dezenas de livros de cada vez, fruto de uma outra realidade do mundo dos livros: a caótica e paupérrima distribuição, que deixa dezenas de títulos de pequenas editoras por distribuir e lá, junto dos comboios, estão como “monos” invendáveis. Comprei, na última vez, livros sobre o PREC, sobre Maria Archer, sobre a história fabril de Portugal, sobre história cultural da música popular portuguesa, etc., etc. O mesmo me acontece com os livros dessa empresa que não é uma editora, mas dá o nome de Chiado aos livros que lhes pagam para publicar. O que acontece é que há coisas muito más, mas há também alguns ensaios e estudos muito interessantes. Como de costume não se encontram nas livrarias e só nestes mercados e na Feira do Livro.
O panorama de muitas livrarias que ainda sobrevivem é igualmente paupérrimo. O espaço que têm para expor os livros — um aspecto fundamental de uma livraria — está cheio da mesma tralha de papel pintado que às centenas de títulos se publicam por mês. Quase não há livros estrangeiros, a não ser as mesmas traduções de Pessoa e Saramago para os turistas, com o pretexto de que agora “toda a gente manda vir os livros pela Amazon”. Isto é apenas uma parte da verdade, mas, de novo, ignora-se o papel dos livros expostos para uma espécie de “browsing” físico que nada substitui. Quem compra livros escolhe muitas vezes pela possibilidade de encontrar livros que não conhecia, ou mesmo quando os conhecia por ter a possibilidade de os folhear. Por exemplo, a Fnac e outras livrarias colocaram nas estantes a edição original do livro controverso sobre a Casa Branca de Trump de Michael Wolff. Não tinha a intenção de o comprar, porque pensava que os extractos publicados me chegavam e acabei por o fazer perante o livro físico. O desprezo pelo objecto real em detrimento de um hipotético objecto virtual é cada vez mais acentuado e é suicidário nos livros e nas livrarias. O mercado pode ser mais pequeno, mas é certamente constituído por gente com mais recursos.
E depois há um lado negro pouco conhecido que passa pela manipulação dos “tops”, pelas relações preferenciais entre editores e jornalistas da área da cultura da televisão, rádio e jornais, que promovem apenas alguns livros e alguns autores, há o amiguismo de grupos intelectuais ou das cortes de A e B e C que se autopromovem mutuamente, colocando-se na moda, ou estando presentes nos sítios certos e nos momentos certos, há muitas formas de pequena corrupção nos meios culturais que a ideia da intangibilidade de tudo o que é da cultura impede de ser escrutinado como devia.
Que algumas livrarias estão a morrer é verdade, mas não são todas as livrarias, que o mercado caminha para haver ou grandes livrarias como a Fnac ou livrarias de culto como a Letra Livre é verdade, que o mundo das grandes cidades como Lisboa e Porto, dominado pelos efeitos imobiliários do boom turístico, é hostil ao mercado livreiro, tudo isto é verdade. Mas também é verdade que a edição de livros é muito má, que traduções, edições, revisões, grafismo são pouco cuidados e que os professores que iam encomendar livros à Leitura hoje não compram livros, nem na Amazon — como os estudantes não os lêem. O deserto livreiro que são as universidades estende-se à sua volta onde só os ingénuos pensam que sobrevivem livrarias, quando o que está a dar são casas de fotocópias. 
 
 
Não há nada pior do que dar uma explicação errada para o que se está a passar, quando essa explicação é uma justificação derrotista de aceitação de fim de um mundo melhor a favor de um mundo pior. É que, meus amigos, às vezes as coisas andam para trás.

Repetem-se quanto à morte das livrarias os mesmos lugares-comuns sobre o arcaísmo dos livros face às novas plataformas digitais, às mudanças de hábitos de leitura geracionais, etc,. etc. Considero que quase tudo isto é, para usar um eufemismo americano, que é substituído nas televisões por um apito, bullshit. Estas “explicações” destinam-se a encobrir muita incompetência, muitos erros de gestão, muito facilitismo, muito ir atrás de modas, muitas afirmações que podem ser virais, mas que não são verificadas; e, pior que tudo, escondem um problema maior, que é o da leitura, não no mundo digital que para estas matérias eu não sei o que é, mas o da ascensão de novas e agressivas formas de ignorância, aquilo a que tenho chamado a “nova ignorância”, que ganharam valor corrente na sociedade dos dias de hoje e que a ajudam a caracterizar. E do mesmo modo que é suposto combater o autoritarismo, a violência, o sexismo, o populismo, e mais uma longa série de “ismos”, é preciso combater essa degradação daquilo que era um valor civilizacional (sim, há valores civilizacionais...) que era caminhar do fim do analfabetismo para uma qualificação da leitura como modo de dominar melhor o mundo e a vida de cada um.

O problema não é substituir os livros por um ecrã de um telefone inteligente ou de um tablet — o problema é o mito perigoso de que a “leitura”, mesmo numa forma diferente, está a emigrar de um meio para outro, porque não está. O que se está é a ler diferente, pior e menos, como se está a “saber” demasiado lixo — meia dúzia de performances rudimentares com as novas tecnologias — e pouco saber. A morte das livrarias é um aspecto desse soçobrar no lixo, mas infelizmente estão demasiado acompanhadas pela morte de muitas outras coisas, do valor do conhecimento, do silêncio, do tempo lento, da leitura, da verdade factual, e da usura da democracia

O Combate Civilizacional pelos Livros e pela Leitura – por José Pacheco Pereira, Jornal Público, 03/03/2018, p. 60 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

sexta-feira, 2 de março de 2018

MANUEL DE ARRIAGA. INTERVENÇÕES PARLAMENTARES

No próximo dia 6 de Março de 2018, terça-feira, na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, vai ser apresentada esta obra sobre o presidente Manuel de Arriaga.

Os organizadores do livro são  Sérgio Campos Matos e Carolina Rufino.

Vai apresentar a obra o professor Luís Bigotte Chorão.

O Almanaque Republicano não pode deixar de saudar mais uma obra evocando o contributo de uma das figuras fundamentais do movimento republicano em Portugal, o açoriano Dr. Manuel de Arriaga. Ficam também algumas das referências que, ao longo do tempo, fomos fazendo ao ilustre republicano AQUI.

Com os votos do maior sucesso.
A.A.B.M.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

ACADEMIAS E INSTITUIÇÕES DE CULTURA



Academia e Instituições de Cultura” – por Diogo Ramada Curto, in Caderno E, Expresso, 17 de Fevereiro de 2018
Onde se defende que se no projeto de levar a cabo um estudo sobre academias o objetivo é propor a renovação de uma espécie de conformismo institucional, o melhor seria sugerir que o público não soubesse nada do que se passa dentro de tais instituições

"Instituições de cultura há que não têm merecido a devida atenção por parte da opinião pública. Faltam estudos ou simples notícias que as deem a conhecer. Será, por ora, escusado saber a quem assacar responsabilidades para explicar a falta de estudos sobre as mesmas: se às instituições que não informam, por viverem em vaso fechado, ou se a uma opinião pública que vive dissociada da vida de certas instituições.
Três situações aparentemente díspares, em termos de conhecimento por parte de um público mais alargado, podem ser utilizadas como laboratórios de estudo: um livro destinado a repensar a universidade em Portugal; os estatutos de uma academia criada em 1965, mas que sobreviveu até aos nossos dias; e um ‘pequeno’  instituto de investigação de uma universidade privada, fundado em 1997. Nos três casos, detetam-se disfuncionalidades e demonstrações de elitismo simbólico, que nada têm que ver com a investigação, o ensino e a transmissão do conhecimento e da cultura. Estudá-los e comunicá-los a uma esfera de opinião mais alargada constitui, só por si, um modo de ultrapassar os problemas encontrados.
A Universidade como deve ser
O recente livro de António Feijó e Miguel Tamen, intitulado “A Universidade Como Deve Ser” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2017), é um excelente contributo para conhecermos o que se passa dentro da universidade. Nele, será possível distinguir um estudo da universidade tal como funciona e o programa de um curso, interdisciplinar, de Estudos Gerais. O livro comporta tanto aspetos corajosos como outros que se afiguram discutíveis.
A sua coragem está em pôr o dedo na ferida, considerando que o ensino universitário não tem de andar subordinado a objetivos práticos ou a meros interesses de mercado. O ensino universitário, feito no contacto com a investigação, tem de se pautar por outros critérios e manter, sempre, um elevado nível de independência em relação a outros poderes. As universidades devem igualmente ser pensadas como unidades, situadas acima deste ou daquele curso (embora este propósito dos autores entre, depois, em contradição com o centramento num único curso). Corajosa é também a crítica dos autores em relação à burocratização da investigação e dos seus centros, bem como à generalização dos projetos coletivos com dotações gigantescas, os quais poucos resultados alcançam, sobretudo na áreas de humanidades e ciências sociais.
Muito discutíveis são os sinais de uma espécie de elitismo anglo-americano, num momento em que abundam as tendências dentro da universidade de desprezo pelas práticas democráticas. De igual modo, é chocante que a proposta de introdução de um modelo inspirado nos “liberal arts colleges” surja numa espécie de deserto criado pelos próprios autores. Isto é, em nenhum momento do livro se encontram referências às inúmeras discussões sobre a universidade que, pelo menos desde  Miller Guerra, têm sido recorrentes em Portugal. Ao circunscreverem-se a um único curso, Feijó e Tamen assemelham-se a náufragos numa ilha deserta, que, tal como Robinson Crusoe, só conseguem salvar do navio encalhado alguns livros (não em português, como no livro de Daniel Defoe, língua que o protagonista não sabia decifrar, mas em inglês, o idioma em que mergulham as raízes mais profundas do livro em causa). Facto que denota uma incapacidade para pensar de modo mais realista — e menos como uma robinsonada — a universidade como um todo.
 
 
A expansão da cultura portuguesa
De um teor completamente diferente são as notas esparsas que recolhi acerca da Academia Internacional de Cultura Portuguesa. Elas constituem um minúsculo contributo para colmatar a lacuna dos estudos sobre instituições de cultura. Pelo menos podem servir como chamada de atenção para a necessidade de querer saber mais acerca do que se passa na vida de tal instituição. A começar pelo seu financiamento, que não sabemos se será ou não de natureza pública. Os seus estatutos, aprovados por decreto de 1965, mantêm-se em vigor. O primeiro aspeto que neles importa sublinhar diz respeito ao principal objetivo da mesma instituição: difundir a cultura portuguesa no mundo. A consulta do “Boletim da Academia Internacional de Cultura Portuguesa”, cuja publicação começou em 1966, revela bem qual a conceção de cultura que ali se defende: do luso-tropicalismo, em tempos coloniais, à sua continuidade, sob a forma de lusofonia, adaptada aos tempos democráticos. Vinho novo em odres velhos...
O segundo aspeto prende-se com as áreas pelas quais se distribui esse mesmo labor difusionista. De um modo que, hoje, interpretaríamos como sendo da ordem da interdisciplinaridade, estabeleceram-se três secções: das artes e letras, das ciências e da missionologia. Aliás, esta última formulação, sobre a qual tanta tinta correu na década de 1960, entendida em estreita relação com a mensagem católica, compreende-se bem à luz da política colonial portuguesa da época.
Do Tarrafal à Academia Internacional
O terceiro aspeto a não perder de vista diz respeito aos fundadores da Academia e como são postos limites ao número dos sócios académicos ou correspondentes. Inegável será, em todo este processo, o papel dinâmico desempenhado por Adriano Moreira, seu fundador e presidente, ao lado do padre Silva Rego, de Jorge Dias e de Virgínia Rau. Estes últimos professores universitários com capacidade para controlar as suas áreas disciplinares, da antropologia à história. A simples evocação de outros nomes da confiança do regime de Salazar, entre os quais se contavam Azeredo Perdigão e Franco Nogueira, faz-nos lembrar que não existe apenas uma lista de nomes que formam o que, hoje, os cientistas sociais designam como uma rede de relações. Há, também, uma rede de outras instituições a ter em conta.
Por exemplo, Adriano Moreira, licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, iniciou a sua carreira na antiga Escola Colonial, onde começou por realizar estudos sobre o sistema prisional nas antigas colónias. Seguiu o processo de transformação daquela Escola impulsionado por Mendes Correia e, em 1961, favoreceu a sua integração na Universidade Técnica, o que lhe valeu a equivalência a professor catedrático, mesmo sem possuir um doutoramento (com o “Diário de Notícias” de Augusto de Castro a atribuir-lhe o título de professor doutor a partir de 14 de abril). Desempenhou papel de relevo na Junta de Investigações do Ultramar e envolveu-se, igualmente, nas atividades da Sociedade de Geografia de Lisboa (onde a mesma Academia Internacional veio a ficar sediada). Enquanto subsecretário de Estado e depois ministro do Ultramar, na altura do início da Guerra em Angola, manteve ligações de estreita colaboração com muitas outras instituições, incluindo o Gabinete de Negócios Políticos do Ministério do Ultramar e o por ele criado “campo de trabalho” de Chão Bom, vulgo, Tarrafal.
 
 

Conforme procurei demonstrar noutro local, Adriano Moreira esteve, por volta de 1961, bem no centro do processo de tomada de decisões das políticas coloniais de Salazar. A legislação laboral promulgada durante a sua passagem pelo Ministério do Ultramar constituiu, sobretudo, “uma carapaça legal com que Portugal pudesse defender-se” internacionalmente (José Capela, “O imposto de palhota...”, Afrontamento, 1977, p. 259). E, por mais que ele próprio tivesse tentado construir a sua própria versão dessa passagem pelo Governo de Salazar, em sucessivas memórias, aconselhou, na altura, a adoção de medidas violentas de aterrorização das populações do Norte de Angola (“Políticas Coloniais em Tempo de Revoltas — Angola circa 1961”, Afrontamento, 2016). Ora a Academia Internacional de Cultura Portuguesa foi criada no interior dessa malha. Nela, sobrepuseram-se uma carreira individual, uma série de instituições e de legislação orientadas para a execução de políticas coloniais e, ainda, um quadro de justificação de fortíssima carga ideológica suscitado pela guerra colonial em Angola, e depois na Guiné e em Moçambique (que de nenhum modo pode ser reduzido a noções de integração ou assimilação luso-tropical).
Questões de indumentária
Há um quarto aspeto que inclui várias minudências acerca do vestuário, difíceis de traduzir por outras palavras. Vale, por isso, a pena citar diretamente da fonte que seguimos, no ponto relativo às vestes académicas, mesmo que infelizmente se tenha perdido o rasto ao desenho: “A farda académica constará de casaca de gola alta, fechada por uma ordem de botões, e de calça, aquela e esta, de pano verde. A casaca terá, bordado a ouro, no peito, gola e portinholas, canhões e remates, assim como na cintura, por cima do começo das abas, um rebordo, que no peito será acompanhado de uma simples fieira de ramos de oliveira folhados e frutados, segundo os desenhos anexos. A calça terá galão estreito, dourado, nas costuras laterais. O chapéu armado, de pasta, será orlado superiormente de plumas pretas e com presilhas das cores académicas verde e encarnado. O espadim, de copos e guarnições douradas, suspende-se de pala de pano verde, com ramos de oliveira, bordados a ouro. Os botões serão ornados com as armas nacionais. A capa será de pano preto com gola voltada”.
Para comparar padrões de dress code, sigo as diferentes maneiras de trajar no quotidiano ou em dias de festa, dentro e fora das instalações ou, no interior destas, em salas diversas ou entre membros e visitantes da instituição em causa. De notar, também, que se trata de um resquício para cobrir com sinais de nobreza, inventando tradições e exibindo um elitismo de pacotilha, certas instituições de criação recente. É aqui que vem a propósito referir as normas que regem o Instituto de Estudos Políticos (IEP) da Universidade Católica, criado em 1997, mais de três décadas depois da citada Academia Internacional, mas inspirado na putativa Escola de Sagres, que nos traz à memória o chapéu de aba larga do Infante D. Henrique:
Todos os colaboradores permanentes do IEP adotam um código de vestuário com a decência e formalidade adequadas às responsabilidades que detêm, o que inclui, para os homens, casaco e gravata, e, para as senhoras, decência correspondente. Na sala Sir Winston Churchill e nos gabinetes de trabalho é esperado que os homens possam tirar o casaco, mas não a gravata. Na sala D. Henrique é esperado o uso de casaco e gravata. Em todo o espaço do IEP, não é autorizado o uso de shorts, T-shirts ou chinelos, sapatos de ténis ou blue-jeans. Estas regras aplicam-se apenas aos colaboradores permanentes do IEP e não aos alunos ou a visitantes, cuja eventual vulgaridade não deve, em princípio, merecer reparo. Em contrapartida, trajes nacionais, regionais, locais ou específicos de instituições, por mais excêntricos, serão sempre respeitados e bem-vindos. Todos os docentes do IEP, incluindo docentes convidados, são enfaticamente encorajados a usar casaco e gravata nas suas aulas e tutorias, podendo tirar o casaco, mas não a gravata”...
Conformismo institucional ou Gentlemanship
O estudo monográfico de instituições como a Academia Internacional de Cultura Portuguesa terá ainda de compreender um quinto e último aspeto. Trata-se de tentar compreender como é que instituições criadas durante o Estado Novo, mais a mais num contexto aberto de guerra colonial, promoveram formas de conformismo de sentido institucional. Senão, vejamos como é que os estatutos impõem formas de controlo e de censura: é “proibido aos académicos contrariar os fins do instituto; imprimir trabalhos fora das publicações académicas com indicação de provirem da Academia; e criticar trabalhos feitos por encargo da mesma ou a ela apresentados por outros académicos, a não ser nas suas sessões ordinárias”.
Que esse conformismo institucional se intensificou na década de 1960, para dar sentido à atuação das elites cooptadas pelo regime de Salazar, num quadro internacional de forte pressão sobre a política colonial portuguesa, parece um dado evidente. O que já não me parece ser possível de aceitar é que as mesmas regras possam subsistir em democracia. Mesmo aceitando que, na vida das instituições, existem arcaísmos, o seu ridículo cresce na medida em que se descobre que eles são invenção recente e, em geral, determinados por quem não tem terra, família, nem vontade para viver numa sociedade democrática. Aliás, os que procuram transformar essas mesmas instituições culturais em veículos da sua promoção são quase sempre os mesmos que têm vergonha de reconhecer o mérito individual. É o que sucede com o curioso ponto sobre “Gentlemanship”, de uma fedúncia insuportável, digna de um qualquer parvenu, e que suscita uma gargalhada digna de uma personagem de Gil Vicente:
Nenhuma regra pode substituir o sentido de responsabilidade pessoal, o common  sense e o sentido de humor de cada pessoa. As regras acima expostas deverão ser aplicadas sem rigidez prussiana e sem laxismo mediterrânico. Portugal é um país atlântico (e não mediterrânico), fundador da mais velha aliança do mundo, bem como do mais velho tratado de comércio livre, e pioneiro dos Descobrimentos. No nosso pequeno IEP da UCP, apreciamos tentar cumprir o dever de honrar as nossas nobres tradições” (Instituto de Estudos Políticos, nº 24).
Enfim, no projeto de levar a cabo um estudo sobre academias, ‘pequenas’  instituições de cultura e universidades, se o nosso principal objetivo fosse propor a renovação de uma espécie de conformismo institucional, o melhor seria sugerir que o público não soubesse mesmo nada do que se passa dentro de tais instituições. Às urtigas, pois, com a mania da informação e com a famigerada opinião pública! O secretismo impõe-se como uma urgência... É que permanecer na ignorância ou dar ao desprezo qualquer tipo de estudo sobre o funcionamento de tais instituições talvez seja, em suma, a única maneira de uma opinião pública escapar a tamanhas aberrações.
 
Academias e Instituições de Cultura – por Diogo Ramada Curto, [Historiador e professor da Universidade Nova], revista E, Expresso, 17 de Fevereiro de 2018, pp. 66/67 – com sublinhados nossos.

J.M.M.