quarta-feira, 5 de setembro de 2018

CENTENÁRIO DO SANATÓRIO VASCONCELOS PORTO


No próximo dia 8 de Setembro de 2018, realiza-se esta iniciativa evocativa do Centenário do Sanatório Doutor Carlos Vasconcelos Porto a ter lugar no Museu do Traje de S. Brás de Alportel.

Após a cerimónia de abertura com o Presidente da Câmara Municipal de S. Brás de Alportel, da representante da Direcção Regional de Cultura, do Director do Serviço de Pneumologia, do Presidente da Administração Regional de Saúde do Algarve e e do Reitor da Universidade do Algarve.

São conferencistas:
- Vítor Ribeiro e Cristina Fé Santos, O(s) Sanatório(s) de São Brás de Alportel - O caso do Sanatório Vasconcelos Porto;
- Renato Gama; Rosa Costa, Arquitectura Sanatorial: Contribuições a partir do Sanatório Vasconcelos Porto;
- Gisele Sanglard, Filantropia, saúde, sociedade: a construção de uma rede de assistência no Brasil e em Portugal, no início do século XX;

- Graça Serejo, As empresas ferroviárias e a assistência hospitalar;
- José Luís Dória, A assistência hospitalar até ao SNS;

- Fernando Rosas, A "pneumónica" ou a "gripe espanhola" em Portugal (1918/1919);
- Vítor Matos e Ana Luísa Santos, O Arquivo Clínico do Sanatório Vasconcelos Porto - São Brás de Alportel;
- Isabel Palmeirim, A formação em Medicina, os jovens profissionais e a integração na região.

Esta acção é promovida pelo Município de São Brás de Alportel, em parceria com a Administração Regional de Saúde do Algarve, a Direcção Regional de Cultura e a Universidade do Algarve.

A realização deste conjunto de conferências tem o apoio do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA), da Sub-Região de Faro da Ordem dos Médicos, da Secção Regional do Sul da Ordem dos Arquitetos, da CP Comboios de Portugal, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical e da Santa Casa da Misericórdia de São Brás de Alportel – Museu do Traje.

A inscrição pode ser feita AQUI.

Com os votos de maior sucesso nesta iniciativa.

A.A.B.M.

JOAQUIM MARTINS DE CARVALHO [1822-1898] - NOTA BREVE

 
Joaquim Martins de Carvalho nasceu em Coimbra [a 19 de Novembro de 1822, curiosamente no mesmo dia em que morre Manuel Fernandes Tomás]. Frequenta (1833 e 1834) aulas de latim nos jesuítas [os pais queriam que seguisse o estudo eclesiástico – ver Diccionario de Esteves Pereira, vol IV; idem Dicionário Bibliográfico de Inocêncio, vol XII, Suplemento J, p. 113 e ss], foi empregado comercial [ficou órfão prematuramente e não pode prosseguir os estudos] e trabalhou no ofício de latoeiro [daqui nasce a alcunha posta pelos académicos de antanho de “doutor latas”]; fez parte do movimento da "Maria da Fonte" (1846), tendo por isso sido preso [4 de Fevereiro de 1847] e levado de Coimbra para a Figueira da Foz e daí para Buarcos, onde o embarcaram num barco de guerra com destino a Lisboa, sendo enviado de imediato para o Limoeiro [onde fica de Fevereiro a Junho – foge a 29 de Abril mas é rapidamente recapturado], de onde sai pela convenção de Gramido [redigida pelo punho de Teixeira de Vasconcelos], a 28 de Junho [cf. O Século, 20 de Outubro de 1898]  

Foi um notável jornalista, talvez o mais admirável do seu tempo: colaborou (1851) no Liberal do Mondego, foi revisor, redator e (depois) proprietário do Observador  [fundado a 16 de Novembro de 1847; o seu primeiro escrito no jornal, “Sociedades de Socorros Mútuos”, data de 13 de Agosto de 1850] e fundou e redigiu, quase que integralmente, esse incontornável, erudito e precioso jornal, O Conimbricense  [nº 1, 24 de Janeiro de 1854, ao nº 6230, de 31 de Agosto de 1907, saindo um nº a 1 de Julho de 1908; continuação d’Observador], uma verdadeira “enciclopédia de história politica, literária e artística do nosso país” [Silva Pereira, in Occidente, 30/10/1898]. Funda a 30 de Outubro de 1855 uma Tipografia, para a impressão d’O Conimbricense, na rua de Coruche (ou, depois, Visconde da Luz), mudando-se posteriormente para a rua das Figueirinhas (depois chamada, rua Martins de Carvalho), num prédio onde veio a residir.

N'O Conimbricense, Joaquim Martins de Carvalho “expandia todas as suas ideias de liberal sans peur et sans reproche, atacando todos os movimentos reacionários e retrógrados, tudo o que fosse voltar aso tempos nefastos da opressão ou que apresentasse um ataque às liberdades públicas” [cf. O Século, 20 Outubro 1898; jornal Resistência, ibidem]

 


Defensor das liberdades públicas, liberal “sem nódoa” [cf. Occidente, ibidem] e convicto associativista, foi um admirável defensor da instrução do operariado, pertencendo aos fundadores da Sociedade de Instrução dos Operários (1851), do Montepio Conimbricense (1851; e que depois tomou o seu nome), do Centro Promotor de Instrução (antiga Biblioteca Popular da Sociedade Terpsychore Conimbricense), da Associação Liberal de Coimbra, da Sociedade Protetora do Asilo de Mendicidade de Coimbra, foi sócio honorário da Associação de Artistas de Coimbra, da Assembleia Recreativa de Coimbra, da Escola Livre das Artes de Desenho de Coimbra, da Associação Comercial de Coimbra, do Instituto de Coimbra, do Grémio dos Empregados de Comércio e Industria de Coimbra, dos Bombeiros Voluntários, da Sociedade Tipográfica Lisbonense e Artes Correlativas, da Sociedade Protetora dos Animais, da Sociedade União Beneficente A Voz de Operário, do Centro Promotor de Melhoramentos das Classes Laboriosas de Lisboa, da Sociedade de Geografia e Comercial do Porto, da Academia Real das Ciências de Lisboa, do Clube Literário Limoeirense de Pernambuco, da União Beneficente do Rio de Janeiro, do Grémio de Instrução e Recreio de Bragança, do Grémio Literário de Angra do Heroísmo, foi correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa, da Sociedade de Geografia do Porto, da Associação Liberal Portuense, da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, da Real Associação dois Arquitetos Civis e Arqueólogos Portugueses [idem, ibidem]. Já perto do final da sua vida, além de colaboração esporádica em periódicos estudantis [como o Académico (1880), a Folha Literária (1882) e Portugal (1896)], o “integérrimo liberal” torna-se um “liberal desiludido” [cf Magalhães Lima, Vanguarda, 19 Outubro de 1898], “fez-se republicano” e filia-se (1895) no Partido Republicano, porque era na República que via “a salvação do país” [cf. jornal Resistência, Coimbra, 20 de Outubro 1898; idem O Século, Lisboa]   

Joaquim Martins de Carvalho foi agraciado, em Novembro de 1869, com o “hábito da Conceição”, mas renunciou, tendo sido aceite pelo diploma de 5 de Janeiro de 1870. E é o principal animador da Exposição Distrital de Coimbra, inaugurada a 1 de Janeiro de 1884, onde é presidente da Comissão Executiva. Em 1888, por ocasião do seu 66º aniversário, a Associação dos Artistas de Coimbra “tomou a iniciativa de imponentes manifestações em sua honra”, tendo realizado um “cortejo cívico majestoso”, com representações de todas as associações e dando lugar, a noite, a uma sessão solene onde discursaram o conde de Valenças e o conselheiro José Dias Ferreira [O Século, ibidem].   

 


"Não tendo ele sido verdadeiramente um escritor, na acepção estilística do termo, foi um jornalista ardoroso e intemerato, arrostando tão corajosamente os perigos como afrontava sobranceiramente chufas e arruaças, em luta permanente contra tudo e contra todos pelo Progresso, pela Ordem e pela Verdade" [José Pinto Loureiroin Índice Ideográfico de O Conimbricense, Coimbra, 1953]

"... A collecção do Conimbricense, escripto da primeira columma à última por Martins de Carvalho, é um repositório interessante da nossa historia pátria, em que o fallecido jornalista era aprofundadíssimo e excavador extremado de factos históricos ..." [Portugal Moderno, Rio de Janeiro, 1901]

"É preciosa a collecção do Conimbricense. Mais vasto repositório de história não é possível encontrar-se em nenhum jornal político dos muitos que se tem publicado no paiz. É um arquivo inestimável de factos e documentos valiosíssimos, uma bússola indispensável a todos os cavouqueiros da história pátria. Quando mais não seja a história contemporânea de Portugal não pode fazer-se com segurança sem a consulta previa da collecção do Conimbricense ..." [Marques Gomesin O Conimbricense e a História Contemporânea. Publicação comemorativa do 50º aniversario do nosso mesmo jornal, Aveiro, 1897]

De facto, como se pode ler pelo Índice Ideográfico de O Conimbricense  (sob direcção de Pinto Loureiro), a vastidão e a importância dos assuntos publicados no jornal ao longo dos anos, faz dele uma fonte inultrapassável sobre os acontecimentos económicos, políticos, sociais e literários de finais do século XIX. São curiosas e estimadas as referências sobre Garrett, ArqueologiaLutas AcadémicasBibliografia e Bibliofilia, JornalismoCabralismo, Costumes, Duelos, Tauromaquia, Teatro, Tipografia (importante os seus Apontamentos para a História da Tipografia em Coimbra), Viticultura, Eleições, Epistografia, Évora, Manuel Fernandes Tomás, Freire de AndradeGuerra Peninsular, Herculano, Iberismo, Índia Portuguesa, Lisboa, Macau, José Agostinho de Macedo, Mosteiros, Mutualismo, OperariadoMarquês de Pombal, etc .

Absolutamente notável as inúmeras e preciosas referências que se dispõe sobre CoimbraInquisição, Ordens Religiosas, Invasões Francesas, Lutas Liberais, Miguelismo, Jesuítas, Maçonaria e Carbonária, Sociedades Secretas (como S. Miguel da Ala).

Diga-se, que o próprio Joaquim Martins de Carvalho pertenceu à Carbonária Lusitana de Coimbra , instalada a 29 de Maio de 1848, pelo Padre António Maria da Costa  [o Benigno Primo, ou B. P., Ganganelli] e José Joaquim Manso Preto [B. P. Lagrange] e dissolvida em 1850. Joaquim Martins de Carvalho integrou a “Choça 16 de Maio” [título em homenagem à data da vitoria popular contra o Cabralismo, a 1847 em Coimbra; reunia a choça em frente ao Colégio Novo, quando se sobe a Couraça dos Apóstolos), era Joaquim Martins de Carvalho o Orador, o B. P. “Ledru Rollin”; foi presidente da choça "Segredo" – que sucede à "Choça 16 de Maio", que muda de nome dada a descoberta e o assalto executado pela polícia cabralina e que reúne depois, não sem alguns curiosos percalços, no convento de Santo António dos Olivais - e é 1º secretário da Barraca "Igualdade", que chegou a reunir no Jardim Botânico de Coimbra. Refira-se que a Carbonária Lusitana de Coimbra é diferente daquela que se denomina de Carbonária Portuguesa  (1896/7??) e não se deve confundir com a Carbonária Lusitana, de pendor anarquista - ou Carbonária dos Anarquistas - muito sigilosa, a que pertenceram os anarquistas José do ValeRibeiro de Azevedo, entre outros [vidé a Carbonária em Portugal, por António Ventura, Museu Republica e Resistência, 1999]. Joaquim Martins de Carvalho foi iniciado na maçonaria em data incerta, com o nome simbólico de “Lamartine”, tendo feito parte da loja maçónica de CoimbraPátria e Caridade  [1852-53? – sob obediência da Confederação Maçónica Portuguesa; curiosamente fez parte da loja, sendo seu Venerável, Filipe de Quental (Chatterton) e José Luciano de Castro; a loja situava-se junto ao Colégio dos Grilos e mais tarde muda-se para o Colégio da Trindade – ver Encyclopedia das Encyclopedias, vol. VI M-MAG, p. 396; ver, ainda, Francisco A. Martins de Carvalho, “Algumas horas na minha Livraria", 1910, p.99 e ss].

 


Refira-se que a sua admirável livraria [que contava com peças manuscritas de grande valor e raridade], em parte vendida em 1923 (em Coimbra), era extraordinária - principalmente o conjunto raríssimo de jornais, revistas e publicações várias, autógrafos e um notável conjunto de opúsculos políticos - sendo que o leilão realizado foi um dos acontecimentos mais excepcionais entre os bibliófilos portugueses.

Faleceu em Coimbra a 18 de Outubro de 1898 [curiosamente, 81 anos decorridos da “horrorosa” morte de Gomes Freire de Andrade]. O funeral, que saiu da igreja de S. Bartolomeu para o cemitério da Conchada, apesar de copiosa chuva, foi uma homenagem “imponentíssima”. Todas as associações de Coimbra e um numeroso grupo de trabalhadores marcaram presença, em “alas compactas” na Praça do Comércio [ver “A Voz Pública", 21 de Outubro de 1898], o comércio local fechou as portas, tendo discursado no cemitério Brito Aranha (pelo DN e Associação dos Jornalistas), A. X. da Silva Pereira (pela Associação da Imprensa Portuguesa e como correspondente do Conimbricense em Lisboa), Guilherme Alves Moreira (pelo Partido Republicano), João José Sabino (pela Voz do Operário), José do Carmo (pelo jornal A Voz do Operário), Teixeira Bastos (pelo Século), Ernesto da Silva (pela Liga de Artes Gráficas), António Ferreira Carneiro (carpinteiro e artista conimbricense), José Pereira da Cruz (pelo 1º de Janeiro) e António Bahia (em nome dos pobres de Coimbra). Estiveram presentes um elevado número de representantes de periódicos nacionais e regionais (como a Gazeta da Figueira, Resistência) e a comissão municipal republicana do Porto fez-se representar pelo dr. Afonso Costa [idem, ibidem; ver, ainda, jornal “Vanguarda”, de 20 de Outubro de 1898].  

Algumas ObrasApontamentos para a Historia Contemporânea, Imp. da Univ., 1868 / Novos apontamentos para a História contemporânea os assassinos da Beira, Imp. Univ., 1890 / A Nossa Aliada! Artigos publicados pelo redactor do Conimbricense, Porto, 1883 / Homenagem a Joaquim Martins de Carvalho, Typ. Operaria, 1889 / O Retrato de Venus. Edição Comemorativa do nascimento de Garrett, Coimbra, 1899 / Os assassinos da Beira, Coimbra, 1922 / Catálogo da... livraria que pertenceu ... a Joaquim Martins de Carvalho e ... Francisco Augusto Martins de Carvalho, Imp. da Univ., 1923

NOTA: este texto foi inicialmente publicado, por nós em 2003, no Almocreve das Petas, e apresenta-se agora com novos aditamentos.

J.M.M.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

FIGUEIRA DA FOZ - [ASSOCIAÇÃO MANUEL FERNANDES TOMÁS] NA EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS



DISCURSO PROFERIDO NA EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS NO DIA 24 DE AGOSTO DE 2018, NA FIGUEIRA DA FOZ, pela Associação Manuel Fernandes Tomás
Em nome da Associação Manuel Fernandes Tomás, cabe-nos a honra e o solene dever, 198 anos após o claro dia da revolução de 24 de Agosto de 1820 na cidade do Porto, evocar essa memorável data que esculpiu uma página mais à “história das idades” e rememorar Manuel Fernandes Tomás, a “alma e o cérebro” desse auspicioso levantamento, certo que o seu legado estará sempre presente para todos e cada um de nós.

É, portanto, com muita alegria que a Associação Manuel Fernandes Tomás tem o grato prazer de se associar à Homenagem aos Heróis de 1820 e honrar a figura do ilustre regenerador da Pátria, Manuel Fernandes Tomás, o filho mais querido, ilustre e venerado da Figueira da Foz.

Minhas Senhoras e Meus Senhores:

Gostaria de vos deixar, nesta sublime ocasião, 30 anos passados da fundação desta Associação e a dois anos da Comemoração do Bicentenário da Revolução Liberal de 1820, 2 notas de aide-mémoire 
1. A primeira nota é para reafirmar que a Associação Manuel Fernandes Tomás - constituída a 12 de Janeiro de 1988 sob os auspícios da CMFF, da família de Manuel Fernandes Tomás (com incansável ânimo do professor Henrique Fernandes Tomás Veiga, que aqui saudamos calorosamente), entidades locais e cidadãos figueirenses – continuará a tomar todas as iniciativas para que se perpetue o espírito e a memória do seu patrono e pretende cooperar para que a celebração do Bicentenário da Revolução de 1820 tenha, também aqui nesta luminosa cidade, a solenidade e a inspiração cívica que o empreendimento exige e o dever de consciência reconhece.   
 
2. A segunda nota é para recordar que se comemorou no dia 22 de Janeiro último o Bicentenário da Fundação do Sinédrio, associação liberal e patriótica que em boa hora um grupo de homens livres fundou na cidade do Porto, sob o olhar vigilante e infatigável de Manuel Fernandes Tomás, e que soube conduzir o levantamento auspicioso de 24 de Agosto de 1820. A dívida que nos cumpre salvar para com esse grupo de varões ilustres que soltaram no Porto o grito da nossa emancipação política - contra o terror do despotismo e em defesa da “Augusta Liberdade” -, essa ideia de regeneração e liberdade da Pátria, é enorme e virtuosa. Não devemos poupar aplausos aos seus festejos e à sua glorificação, pagando assim uma divida de gratidão a todos aqueles que semearam a palavra “Liberdade” e deixaram o seu nome gravado a ouro na memória colectiva da Nação.
No percurso biográfico de Manuel Fernandes Tomás registemos três períodos que ornamentam o itinerário do emérito figueirense. Nascido em 31 de Julho de 1771 na Figueira da Foz, logo após os estudos iniciais ingressa na Universidade de Coimbra, tomando o grau de bacharel em Leis ou Cânones (1791), retornando posteriormente à sua terra natal.
Esta fase da sua vida, o aprendizado universitário, fê-lo discípulo de eruditos e ilustrados juristas (Pascoal José de Melo Freire dos Reis; João Pedro Ribeiro) enquanto a sua formação cívica e humana se forja no convívio com a moderna geração iluminista e racionalista, que então desponta. As funções que depois exerce entre 1792 a 1798, Síndico e Procurador Fiscal do Município e Vereador da Câmara, cargos que cumpriu com elevado zelo, vincaram-lhe a determinação e a coragem, robusteceram-lhe a dedicação e o assomo à causa pública, honra e “desejo cívico de servir”.
Um segundo momento, que vai de 1801 a 1816, com o seu ingresso na carreira da magistratura, fê-lo estar à frente do município de Arganil e depois no exercício de Superintendente das Alfândegas e dos Tabacos das Comarcas de Aveiro, Coimbra e Leiria. Curioso período esse em que Manuel Fernandes Tomás, depois de se “refugiar” (1808) na Figueira da Foz após o cumprimento das suas funções, e decerto reflectindo no sofrimento do seu povo e nas desgraças que a pátria amargava com a invasão francesa, nos surge - após a expulsão da tropa francesa do Forte de Santa Catarina pelo Corpo Académico de Coimbra - como um dos cinco membros da eleita Junta de Segurança Pública local. O reconhecimento do seu valor, patriotismo e competências estavam lançados. Com o desembarque da tropa inglesa, sob comando de futuro duque de Wellington, Fernandes Tomás é nomeado Comissário em Chefe do Exército no Distrito, mais tarde Provedor de Coimbra e, a instâncias do general do exército inglês, tem a responsabilidade da Intendência Geral dos Abastecimentos do Exército anglo-português (1811) e é nomeado Juiz Conservador da Nação Britânica em Coimbra (1812). Este particular período, em que é bem visível a estreita colaboração com os ingleses, ao mesmo tempo torna-o consciente do azedume e animosidade contra a tutela britânica e leva-o a compreender as revindicações e aspirações modernizadoras e liberais de sectores socias com pouca representação económica e política. Não por acaso a sua residência em Coimbra era o ponto de reunião de audaciosos patriotas, lugar onde os debates vivificavam.
Por outro lado, data neste período, possivelmente em 1803, a sua iniciação na maçonaria em Coimbra. Ora, conhecendo-se as denúncias e a sanha persecutória que a Inquisição - por intermédio de Álvaro José Botelho, levou a cabo a partir de 1791, com apoio do intendente geral da polícia Pina Manique - contra os pedreiros-livres e a “libertinagem” em todo o país, entender-se-á tão grande era a importância e a exigência de uma total discrição e segredo. Deste modo, a sua intensa vida social e política despertam nele a prudência, a firmeza e a exigência conspirativa, ajustando a sua conduta posterior aos trabalhos proveitosos da associação secreta que fundou na cidade do Porto em 1818 - o Sinédrio.
No último período a considerar, e que vai de 1816 a 1820, Manuel Fernandes Tomás está provido como Desembargador da Relação do Porto. Tempo fecundo esse, que revela o jurista estudioso, o homem empenhado e interessado pelos problemas do país, o activista e o organizador brilhante, aquele que ousou plantar uma semente do edifico do primeiro liberalismo pátrio. Na cidade do Porto encontrou Fernandes Tomás um grupo de amigos da verdade e da liberdade à volta de uma associação patriótica, denominada Sinédrio.
 
Vale a pena - vale sempre a pena -, rememorar os seus membros: a 22 de Janeiro de 1818 teve lugar em casa de José Ferreira Borges a primeira reunião regular do Sinédrio, onde estiveram presentes os seus quatro elementos fundadores - além do dono da casa, Manuel Fernandes Tomás, José da Silva Carvalho e João Ferreira Viana; nessa mesma noite há lugar a uma sessão em casa de Fernandes Tomás; em 10 de Fevereiro entra para a Associação, em casa de Fernandes Tomás, Duarte Lessa; a 3 de Maio, na mesma residência, ingressam José Maria Lopes Carneiro e José Gonçalves dos Santos Silva; a 6 de Julho, ainda desse ano de 1818, filiou-se José Pereira de Meneses, em casa de Ferreira Borges; a 26 de Maio de 1820, em casa de Fernandes Tomás, ingressam Francisco Gomes da Silva e João da Cunha Souto Mayor; a 5 de Junho de 1820, na mesma casa, entra José de Mello de Castro e Abreu; a 22 de Junho, desse ano, em casa de Duarte Lessa, filia-se José Maria Xavier de Araújo; e o 13.º e último elemento do Sinédrio, Bernardo Correia de Castro Sepúlveda, entra a 19 de Agosto de 1820, em sessão em casa de Fernandes Tomás. Cinco dias depois “rebentava a revolução”.
Estes patriotas, unidos pela lealdade e o segredo jurado, formaram um corpo compacto e esperaram a hora mais oportuna de intervenção, para dirigir o movimento insurrecional em prol do País e da sua Liberdade, com esperado realismo, confiança e sensatez. As funções levadas a cabo pelo Sinédrio, em sessões realizadas no maior sigilo, redobraram de energia logo após a revolução liberal de Março em Espanha e que deu origem ao chamado Triénio Liberal (1820-23). A animosidade antibritânica por diversas vezes manifestada contra o braço férreo e despótico de Beresford (na memória soava ainda a desdita dos revolucionário de 1817 - a execução de Gomes Freire e dos Mártires da Liberdade) e o descontentamento (civil e militar) agitava-se, pelo que o incitamento revolucionário à acção tinha de ser rapidamente declarado. Deste modo, a propaganda aumentou, o aliciamento de oficiais militares foi incrementado e, não sem algumas desinteligências entre civis e militares, a revolução rebentou na manhã luminosa de 24 de Agosto de 1820, no Porto. A revolução tinha-se realizado sem resistência e derramamento de sangue. Fora ouvido (A. Garrett) o apelo do primeiro dos regeneradores, o cidadão extremado, homem único, o benemérito da Pátria, Manuel Fernandes Tomás.
Glória, pois, aos Heróis de 1820.
Honra a Manuel Fernandes Tomás.
[Associação Manuel Fernandes Tomás] – sublinhados nossos
J.M.M.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

FIGUEIRA DA FOZ - [ASSOCIAÇÃO CULTURAL 24 DE AGOSTO] NA EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS



DISCURSO PROFERIDO NA EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS NO DIA 24 DE AGOSTO DE 2018, NA FIGUEIRA DA FOZ, pela Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto

O Patrono da Figueira da Foz, Manuel Fernandes Tomás, foi um Homem ímpar na história de Portugal. Único. Como apenas os que dedicam a sua vida à causa pública – no fundo dedicam a sua vida ao serviço de outros Seres Humanos – podem ser.

Mas em vida encontraríamos eventualmente apenas um homem simples. Como muitos dos presentes com a boa sorte de ter nascido Figueirense, com contradições, dúvidas, impulsos, vontade de ser um simples magistrado sem particulares responsabilidades, despojado de ambições maiores ou sonhos de qualquer mudança radical da sociedade.

Ora no momento em que poderia acomodar-se no seio da sua família, vivendo de forma relativamente confortável e segura, com um rendimento substancial e já respeitado pelos seus pares, Fernandes Tomás foi pela História chamado a desempenhar um papel de liderança. Liderança pelo exemplo. Liderança pelo carisma. Liderança pela intervenção política. Liderança pela inabalável vontade de levantar um Povo abatido e derrotado por séculos de preconceitos, de tirania, de iniquidades e profundas desigualdades, algumas das quais perduraram até há poucas décadas. Algumas das quais perduram até mesmo nos nossos dias.

Tendo grandes simpatias pelos ideais subjacentes à Revolução Francesa e da França Napoleónica, ao dar-se a invasão de 1808 de imediato se colocou porém ao serviço daquela que acreditava ser a legítima autoridade de Portugal, reagindo contra a violência, destruição e iniquidade da Invasão. Precisamente no momento em que a Figueira da Foz desempenha na história da Europa um papel sem precedentes com o desembarque em Lavos, do outro lado do nosso Mondego, das tropas de Arthur Wellington.

Nada deve ir contra a dignidade de um país. Tal como nada pode ir contra a consciência e dignidade da Pessoa Humana.

E esse é o grande legado do nosso Patrono. Legado que Portugal não esquece. Legado que Nós, Figueirenses do Século XXI, não esquecemos.

A Humanidade consegue hoje vencer no Espaço distâncias que se medem em anos-luz – muito para além do que poderíamos há poucos anos atrás sequer sonhar – mas não consegue vencer a iniquidade da distância de rendimentos e de oportunidades que continua – ainda hoje – a separar Homens e Mulheres de distintas crenças, nacionalidades e religiões.

Mas no dia 24 de Agosto de Agosto a Figueira da Foz não homenageia apenas o seu Patrono e Cidadão Emérito maior, não é a apenas a memória de MFT que junto da sua estátua lembramos hoje, mas também a tradição liberal e republicana de permanente e nunca esmorecido empenho cívico pela Liberdade.

Por isso lanço ao nosso Presidente da Câmara Municipal, Dr. João Ataíde, o desafio de que a nossa Figueira da Foz assuma, conjuntamente com a Cidade do Porto, a comemoração nacional do Bi-Centenário da Revolução de 24 de Agosto em 2020. Para tal contará com o nosso apoio.

MFT legou-nos o dever, a obrigação moral e de consciência de uma intervenção cívica empenhada, frontal, responsável, desinteressada e livre como apenas Homens e Mulheres Livres – como ele próprio foi em vida e na morte um incontornável exemplo – podem assumir ter. Perante a sua enorme figura curvamo-nos hoje Nós, Figueirenses do Século XXI.
 
Um bem-haja a todos!
 
[Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto] - sublinhados nossos

J.M.M.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

II ENCONTRO DE HISTÓRIA DE LOULÉ


Nos próximos dias 31 de Agosto (sexta-feira) e 1 de Setembro (sábado), realiza-se o II Encontro de História de Loulé, nas instalações do Convento de S. Francisco (Antigo Instituto Universitário D. Afonso III).

Ao longo de dois dias vão apresentar as suas comunicações diversos investigadores abarcando temáticas desde a Arqueologia à História Medieval, Moderna e Contemporânea de Loulé. Entre os investigadores presentes contam-se Iria Gonçalves, João Pedro Bernardes, Joaquim Vieira Rodrigues, João Cosme, Aurízia Anica, entre vários outros.

Veja-se o programa do evento nas imagens abaixo: (clicar ou descarregar as imagens para ler o programa)
31 de Agosto



1 de Setembro


No programa do Encontro realiza-se a apresentação das "Atas do I Encontro de História de Loulé", realizado no ano passado, e a apresentação do novo número dos Cadernos do Arquivo, "A Justiça em Loulé. Séculos XVII a XIX", de Nuno Camarinhas.

Uma excelente iniciativa, que merece a melhor divulgação.

Com os votos do maior sucesso para a organização deste II Encontro de História de Loulé, que tudo indica poderá ainda aumentar o número de participantes do ano anterior, que ultrapassou as 130 pessoas inscritas.

A.A.B.M.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

OS MEMBROS DO SINÉDRIO – O PRIMEIRO DOCUMENTO CONHECIDO



A lista dos membros do Sinédrio foi, pela primeira vez, publicada no importante periódico redigido por José Liberato Freire de Carvalho, “O Campeão Portuguez, ou o Amigo do Rei e do Povo, vol. IV, de 16 Junho 1821, p. 205, com o título: “Principio da Associação Patriótica [trata-se, evidentemente, do Sinédrio], que produziu a nossa gloriosa Regeneração politica na Cidade do Porto em 24 de Agosto, 1820”. O periódico "Campeão Portuguez" foi lançado,  editado e redigido em Londres, entre 1819 e 1821 (depois de José Liberato ter abandonado "O Investigador") tendo sido um jornal que marcou, decisivamente, a opinião pública liberal (e ... clandestina, circulando, como outros periódicos, de mão em mão). Por isso foi objecto de duras perseguições [cf. José Manuel Tengarrinha, "Os comerciantes e a imprensa portuguesa na I emigração", aliás, "Estudos de Homenagem a Luís António de Oliveira Ramos, 2004]. 

Esta primeira descrição dos membros do Sinédrio, que posteriormente foi replicada por outros jornais e obras que se lhe seguiram, é atribuída por alguns biógrafos e historiadores a José Ferreira Borges.

J.M.M.

OS HEROES DE 1820 – Nº1 MANOEL FERNANDES THOMAZ

 
 
 
 
[download das imagens para ler]
 

Apresenta-se aqui a pequena biografia de “Manoel Fernandes Thomaz”, publicada na obra “Os Heroes de 1820”, Typ. Minerva Central, Lisboa, s.d. [1870? 1880 ou 1884!?]

Trata-se de uma rara e valiosa obra biobibliográfica, de manifesto interesse para a revolução de 1820 e o vintismo, saída em fascículos (em numero de 13, pelo que se conhece), publicada em Lisboa, pela Typograhia Minerva Central (Largo do Pelourinho, 14-15), onde se apresenta pequenas biografias dos “Heroes de 1820” e respectivo retrato.
 
Os biografados são: nº1, Manoel Fernandes Thomaz; nº2, José Ferreira Borges; nº3, Fr. Francisco de São Luiz; nº4, José Pereira da Silva Leite de Berredo; nº5, José Maria Lopes Carneiro; nº6, Sebastião Drago Valente de Brito Cabreira; nº7, José Maria Xavier d’Araújo; nº8, Duarte Lessa; nº9, Bernardo Corrêa de Castro e Sepulveda; nº10, José da Silva Carvalho; nº11, José Joaquim Ferreira de Moura; nº12, Domingos António Gil de Figueiredo Sarmento; nº 13, António da Silveira Pinto da Fonseca.

A Associação Manuel Fernandes Tomás, com sede na Figueira da Foz, na data do passamento de Manuel Fernandes Tomás deste ano, publicou, a cores, uma reprodução facsimilada da obra.

J.M.M.  

[FIGUEIRA DA FOZ] 24 DE AGOSTO (18,00 H) – CELEBRAÇÃO EVOCATIVA DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS



[FIGUEIRA DA FOZ] 24 DE AGOSTO (18,00 H)CELEBRAÇÃO EVOCATIVA DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS

DIA: 24 de Agosto de 2018 (18,00 horas);
LOCAL: Praça 8 de Maio, Figueira da Foz;
ORGANIZAÇÃO: CMFF | Ass. Manuel Fernandes Tomás | Associação 24 de Agosto

INTERVENÇÕES:
  • Representante da Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto;
  • Representante da Associação Manuel Fernandes Thomaz;
  • Presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz.


 
“… As virtudes cívicas que lhe eram particulares avultam em todo o acto a que ficou ligado o seu nome. Transferido do recato do seu lar para a exigência da vida pública, da pesquisa de feição pessoal para as páginas de volumes, permanece o mesmo: íntegro na observância do seu evangelho cívico, patriota sem jaça, regenerador voltado para o futuro e sem olvidar ou menosprezar, sequer, o rumo definido no passado

Estremadas qualidades o distinguiam entre os seus pares. Esse o fundamento, essa a razão bastante para afirmar que Manuel Fernandes Tomás foi, de verdade, no seu tempo e na elevação do seu pensamento, o primeiro dos Regeneradores” 

[António Cruz, No Bicentenário do nascimento de Manuel Fernandes Tomás, Porto, FLUP, 1973]

"... E quem choramos nós: quem lamentam os Portugueses? Um cidadão extremado; um homem único; um benemérito da pátria; um libertador de um povo escravo: Manuel Fernandes Thomaz. Que nome, Senhores, que nome nos fastos da liberdade! Que pregão às idades futuras! Que brado às gerações que hão-de vir! Este nome será só por si a história de muitos séculos; este nome encerra em compêndio milhões de males arredados de um grande povo;..."

[Almeida Garrett, in Oração Fúnebre de Manoel Fernandes Tomaz]


J.M.M.

sábado, 4 de agosto de 2018

SAHIDAS AO SUL



Ao que parece, é no mar que a dor acalma e os alicerces da alma esquecem” [A. de Sá]

O Almanaque Republicano, cumprindo o seu dever de veraneio, segue viagem para o Sul. Não admite passageiros e tem todas as licenças necessárias. Partindo dos antigos e aceites Campos do Mondego, cantos e seguros entraremos em isolamento suspicaz. Longe dos deveres profanos, em fadigas literárias, não atendemos ao domicílio mas deixaremos rasto luminoso. Afinal, o que pode um corpo!?

Regressaremos ao recesso do lar e ao V. aconchego. Até lá … um derradeiro Vale!

Saúde, Paz e Fraternidade!

[traçado algures no Alentejo, à sombra da noute]
 

sexta-feira, 20 de julho de 2018

AL-ULYÃ, nº19


No próximo dia 26 de Julho de 2018, pelas 17.30h, vai ser apresentado mais um volume da revista Al-Ulya. Revista do Arquivo Municipal de Loulé, com um trabalho do Professor Doutor Joaquim Romero Magalhães, tendo por base a documentação do Livro das Avaliações das Fazendas de 1564.

O índice do presente número pode ser consultado na imagem abaixo:
Na apresentação pública deste número da revista serão intervenientes no evento, para além do Prof. Romero Magalhães, os Doutores João Sabóia e Laurinda Paz.

A sessão decorrerá nas instalações do Arquivo Municipal de Loulé.

Com os votos do maior sucesso.
A.A.B.M.

terça-feira, 17 de julho de 2018

IN MEMORIAM DE JOÃO SEMEDO (1951-2018)




Ninguém consegue vencer politicamente se não tiver optimismo” [J.S.]

No falecimento de um Homem lúcido, sereno e de grande dignidade moral, deixamos aqui o nosso grande pesar e sentidas condolências à sua família e amigos. Para João Semedo, para quem a vida foi uma constante luta de consciência e dever, apresentamos o testemunho da nossa gratidão.
Até sempre!
J.M.M. /A.A.B.M.

terça-feira, 3 de julho de 2018

[LIVRO] UMA VIDA DE HERÓI: MORTE E TRANSFIGURAÇÃO DE JAIME CORTESÃO



LIVRO: Uma Vida de Herói: morte e transfiguração de Jaime Cortesão;
AUTOR: Pedro Martins;
EDIÇÃO: Zéfiro, Julho de 2018.

LANÇAMENTO:

DIA: 4 de Julho (18,30 horas);
LOCAL: Museu Maçónico / Grémio Lusitano (Rua do Grémio Lusitano, 25, Lisboa);
ORADORES: Miguel Real | Daniel Pires | Renato Epifânio;

Através de uma leitura simbólica do ocultismo cifrado na literatura de Jaime Cortesão, Pedro Martins apresenta um surpreendente retrato espiritual do grande poeta e historiador. Esta sua interpretação revoluciona, uma vez mais, a história da cultura portuguesa, ao demonstrar como a génese do movimento da Renascença Portuguesa tem as suas raízes no esoterismo judeo-cristão, inscrevendo-se num vasto horizonte que abarca Dante, o Zohar e a Carta sobre a Santidade e se interliga com a maçonaria e o martinismo.

«Pedro Martins neste seu novo trabalho não se afasta da sua linha anterior – ler o que há de mais vital e vivo nas manifestações da cultura portuguesa a partir dum estrato iniciático, que é anterior às religiões e que lhes sobreviveu muitas vezes à margem ou mesmo em franco antagonismo.

Isto deu já proveitosos frutos na leitura duma pintura ainda tão mal conhecida como a de Vasco Fernandes, o autor dos painéis do Retábulo da Sé de Viseu, coevo de Gil Vicente e de Bernardim e sobre o qual tão pouco se sabe.

Com idênticas chaves de leitura – experiência e saber iniciáticos – ele consegue agora uma cerrada e prodigiosa interpretação de parte da obra de Jaime Cortesão e que fica desde já a ser, pela inteligência, finura e teimosia com que cinge as letras, um marco assinalável de progressão nos estudos sobre a poesia e o teatro do autor.

Só agora, após este trabalho, estamos em condições de começar a vislumbrar as verdadeiras dimensões duma obra poética e dramática que sem a simbologia iniciática ficava amputada dum espírito essencial que em muito contribui para a sua altura e o seu desmedido valor.

Cortesão é um dos grandes escritores do século XX português e este livro de Pedro Martins, escrito numa era sombria de morte e de esquecimento, contribui como nenhum outro até hoje para lhe restituir a aura de grandeza e de luz que tem


[António Cândido Franco, in Prefácio].

J.M.M.

domingo, 1 de julho de 2018

IN MEMORIAM DE JOSÉ MANUEL TENGARRINHA (1932-2018)




Biografia de José Manuel Tengarrinha” – por Viriato Soromenho Marques [escrita em 2015 para o Grupo Fascismo Nunca Mais por Viriato Soromenho Marques, a pedido da Coordenadora do Grupo Helena Pato] - Aqui publicada, com a devida vénia, à Memória Saudosa do Historiador, do Professor, do Amigo Fraterno, do Cidadão Ilustrado e Impoluto. Até Sempre, Professor! 
 
José Manuel Marques do Carmo Mendes Tengarrinha nasceu em Portimão, em 12 de Abril de 1932. Concluiu o ensino liceal em Faro e veio para Lisboa com 17 anos (…). É doutorado em História e Professor Jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi dirigente nacional da CDE e estava preso no dia 25 de Abril.

I.
Durante a ditadura a sua vida pessoal e profissional foi fortemente condicionada pela sua consciência cívica e actividade política. Iniciou a actividade política aos 15 anos, no MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática), de que foi membro da Comissão Central.
Actuou com funções de responsabilidade em todas as grandes campanhas políticas da Oposição Democrática, que se desenvolveram desde 1958 a 1974. Foi candidato nas listas da Oposição pelo círculo de Lisboa, nas eleições realizadas para a Assembleia Nacional, em 1969 e 1973. [Foi] Um dos fundadores, em 1969, do Movimento Democrático Português (MDP/CDE).

II Congresso de Aveiro: José Manuel Tengarrinha, ladeado por Helena Pato, Alberto Pedroso e João Sarabando - AQUI 


Participou, como responsável por uma das secções, no Congresso Republicano de 1969 e integrou a Comissão Coordenadora do Congresso da Oposição Democrática de 1973. Foi detido pela PIDE, em inúmeras ocasiões – prisões relacionadas com as actividades políticas que desenvolvia e com as organizações oposicionistas a que pertencia (MUD Juvenil, Partido Comunista Português e CDE). Três prisões totalizaram 14 meses no Aljube e em Caxias. Esteve detido durante um ano na Companhia Disciplinar de Penamacor, onde cumpriu o serviço militar por razões políticas. Durante as prisões foi sujeito a torturas, entre as quais a tortura de sono, na prisão de Dezembro de 1961.
Na sequência desta prisão, foi expulso do Ensino Secundário e, então, também, impedido pela Censura de exercer a actividade profissional de jornalista. A PIDE fez sempre pressões para que fosse despedido em todos os empregos que procurou. Encontrava-se preso no Forte de Caxias, em regime de isolamento e rigorosa incomunicabilidade, quando se deu o 25 de Abril, tendo sido libertado apenas no dia 27.

II.
Em meados da década de 50, quando frequentava o Curso de Histórico- Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa fez parte do núcleo redactorial de Lisboa da revista Vértice, com António José Saraiva, Júlio Pomar e Maria Lamas. Iniciou então investigações sistemáticas sobre a história oitocentista portuguesa.

Frequentou esse Curso como voluntário, por se encontrar então detido na Colónia Penal de Penamacor, depois de ter sido expulso do Corpo de Oficiais Milicianos sob a acusação de desenvolver actividades contra a segurança do Estado.


Em 1958, apesar das condições adversas, criadas também por alguns docentes, concluiu a licenciatura em Ciências Históricas e Filosóficas, na Faculdade de Letras de Lisboa.


Jornalista profissional desde 1953 (Jornal República), iria fazer parte do grupo fundador de um jornal, considerado inovador, o Diário Ilustrado, de que foi chefe da Redacção até 1962, quando a Censura impôs a cessação da sua actividade jornalística, após prisão pela polícia política em Dezembro de 1961.
Nos princípios da década de 60 integrou o corpo redactorial da revista Seara Nova.
Em 1962 foi-lhe atribuído o prémio da Associação dos Homens de Letras do Porto, com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, pelo conjunto de ensaios publicado no jornal Diário de Lisboa, no ano anterior, sob o título António Rodrigues Sampaio, desconhecido.
De 1963 a 1966, a Fundação Calouste Gulbenkian concedeu-lhe uma bolsa de estudo para prosseguir as investigações sobre a História Oitocentista Portuguesa. Foi fundador e director – com os Professores Vitorino Nemésio, Joel Serrão e José Augusto França – do Centro de Estudos do Século XIX do Grémio Literário (que funcionou desde 1969 a 1974, apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian) e, como tal, tendo sido promotor e participante de cursos, conferências e colóquios, sobre temas da nossa história Oitocentista, com a colaboração de qualificados historiadores e sociólogos nacionais e estrangeiros.



Em 1973 assumiu a direcção, com os Professores Tiago de Oliveira e Joel Serrão, da preparação da enciclopédia Logos. No âmbito das actividades do Centro de Estudos do Século XIX, regeu cursos sobre História Contemporânea de Portugal, no Grémio Literário, desde 1970 a 1973 (frequentados sobretudo por estudantes universitários, que viam neles um complemento da formação de que não dispunham na Universidade).
No ano lectivo de 1972/73, a convite do Vice-Reitor da Universidade Técnica de Lisboa (Prof. António Maria Godinho), deu lições sobre História económica portuguesa dos séculos XVIII e XIX, no Instituto Superior de Economia, integradas nas cadeiras de Economia IV e V.

III.
Após o 25 de Abril foi eleito presidente do MDP/CDE e, por esse partido, deputado às Constituintes e em diversas legislaturas.

O Plenário dos estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa, após o 25 de Abril, decidiu integrá-lo no seu corpo docente, o que aconteceu a partir de Outubro de 1974.

Como deputado da Assembleia da República foi Vice-presidente da Comissão Parlamentar de Educação, coordenador e um dos redactores do projecto que daria origem à Lei de Bases do Sistema Educativo. Em 1974 foi convidado a reger a cadeira de “História do Jornalismo” no Curso Superior de Jornalismo do Instituto Superior de Meios de Comunicação Social, actividade que exerceu até ao encerramento desse Instituto, em 1982. Em Outubro de 1974 foi convidado a ingressar no corpo docente da Faculdade, na categoria de equiparado a professor auxiliar. Doutorou-se nesta Faculdade em 1993. Regeu, a partir de então, as seguintes cadeiras:


História Contemporânea de Portugal, depois denominada História de Portugal, sécs. XVIII-XX; História Económica e Social – sécs. XVIII-XX; História Geral Contemporânea, em substituição da anterior, desde 1990.
Criou, dirigiu e leccionou mestrados, em Portugal, nas áreas da História Contemporânea, História Moderna, História do Brasil, História da Imprensa Periódica, História Regional e Local, Cultura e Formação Autárquica. Orientou, nestas áreas, numerosas teses de mestrado e doutoramento. Leccionou em cursos e seminários de doutoramento em Universidades estrangeiras, entre outras: Florença, Pescara, Bolonha, Paris VII, Nantes, Valladolid, Bilbao, Autónoma de Barcelona, Carlos III de Madrid, Sevilha, Canárias, École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris.

[Foi] Professor visitante da Universidade de São Paulo para cursos de pós-graduação; Integra conselhos de redacção e editoriais de revistas de História e Ciências Sociais de Portugal, Espanha e Brasil. [desenvolve] outras actividades no campo da Cultura: Foi responsável científico pelo colóquio sobre “O Barroco e o Mundo-Ibero Atlântico”, promovido pelo Instituto de Cultura Ibero-Atlântica, com sede em Portimão, que decorreu entre 9 e 11 de Maio de 1997; Convidado a integrar o Comité Científico do IV Congreso Internacional en Rehabilitación del Patrimonio Arquitectónico y Edificación, que se realizou em Havana, na segunda quinzena de Julho de 1998; Integrou o júri do prémio de História “Alberto Sampaio”, instituído pelas câmaras municipais de Famalicão e Guimarães; Coordenou um grupo de trabalho, a convite da Comissão dos Descobrimentos, encarregado de elaborar um parecer, no Encontro entre Professores de História Portugueses e Brasileiros sobre o Ensino da História do Brasil em Portugal; Foi convidado pelo Ministério da Educação a integrar a Comissão Científica do Congresso Luso-Brasileiro “Portugal-Brasil: Memórias e Imaginários”, que se realizou em 1999.




IV.
Tem numerosas obras publicadas em Portugal e no estrangeiro, no domínio da História e das Ciências Sociais, com destaque para Obra Política de José Estêvão, 1962; História da Imprensa Periódica Portuguesa, 1965 e 1989; A Novela e o Leitor. Estudo de Sociologia da Leitura, 1973; Diário da Guerra Civil. Sá da Bandeira, 1975-1976; Combates pela Democracia, 1976; Estudos de História Contemporânea de Portugal, 1983; Da Liberdade Mitificada à Liberdade Subvertida; Uma Exploração no interior da repressão à imprensa periódica de 1820 a 1828; Movimentos Populares Agrários em Portugal – 1750-1825, 1994; História do Governo Civil de Lisboa, 2002; Imprensa e Opinião Pública em Portugal, 2006; E o Povo onde está? Política Popular, Contra-Revolução e Reforma em Portugal, 2008; Portimão e a Revolução Republicana, 2010. Numerosas separatas da sua autoria foram editadas por universidades de Itália, França, Holanda e Espanha, além de Portugal. No Brasil (São Paulo), publicou A Historiografia Portuguesa, Hoje, 1999; Historiografia Luso-Brasileira Contemporânea, 1999 e História de Portugal, 2003 (3 edições).

Em 2011, a convite da Assembleia da República, publicou José Estêvão – O Homem e a Obra. Em Fevereiro de 2012 faz, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, a apresentação pública dos resultados do projecto Legislação do Brasil Colonial. 1502- 1706.
V.

Foi Director dos Cursos Internacionais de Verão realizados em Cascais, todos os anos, desde 1992.
Foi Presidente (e foi fundador) do Centro Internacional para a Conservação do Património (CICOP – Portugal), com sede mundial em Tenerife. Presidente do Instituto de Cultura e Estudos Sociais (sediado em Cascais), que tem organizado cursos de mestrado e outros cursos sobre diversos temas e apoiado projecto de investigação pós-doutoramento de historiadores portugueses e brasileiros.

VI.
Em 2006 recebeu a Medalha de Honra do Município de Cascais e, em 2012, a Medalha de Mérito Municipal, grau ouro, do Município de Lisboa.

Morreu a 29 de Junho de 2018, pelas 14,30 horas, em Lisboa.
Nota de Helena Pato: Cidadão sistematicamente gerador de esperança, durante «a noite mais longa de todas as noites», recusou a Ordem da Liberdade, quando Jorge Sampaio quis atribuir-lha 23 anos depois da queda do fascismo.

(*) Biografia escrita em 2015 para o Grupo Fascismo Nunca Mais por Viriato Soromenho Marques, a pedido da Coordenadura do Grupo Helena Pato e agora editada. [VSM é Professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, regendo as cadeiras de Filosofia Social e Política e de História das Ideias na Europa Contemporânea] – sublinhados nossos.

TEXTO de Viriato Soromenho Marques | Foto de José Tengarrinha, por Helena Pato.
J.M.M.