terça-feira, 9 de outubro de 2018

IV CONGRESSO REPÚBLICA E REPUBLICANISMO


Nos próximos dias 11 e 12 de Outubro de 2018, na Biblioteca da Imprensa Nacional, em Lisboa, vai realizar-se o IV Congresso República e Republicanismo.

O programa do evento apresenta-se abaixo: (clicar na imagem para aumentar)

Ao longo de dois dias, vários investigadores do tema da República, vão apresentar partes dos trabalhos de investigação que têm vindo a desenvolver. 
No dia 11 de Outubro, a conferência de abertura estará a cargo do Prof. Norberto Cunha, que analisará a figura de Brito Camacho: de sombra de Poder a Poder de Sombras.
No dia 12 de Outubro, haverá um painel dedicado às democracias sul-americanas, com abordagens sobre o Brasil, a Argentina e uma outra de conjunto. Ainda no âmbito deste painel, o Prof. António Ventura apresentará uma comunicação sobre "A Maçonaria e o PCP (1921-1935).
Um outro painel será dedicado a Republicanismo e Republica, com estudos sobre Agronomia e República, o «pão político» e o Diário de Lisboa, a Carbonária em vésperas da implantação da República, o Império Português e a Europa na perspectiva de Celestino de Almeida.


No painel subordinado ao tema A República entre a Paz e a Guerra, irão ser apresentadas cinco comunicações, a saber: Consiglieiri Pedroso e a política externa sérvia desde 1888, um apontamento biográfico sobre o coronel Pires Monteiro, as memórias dos combatentes na I Guerra Mundial, A República e a Sociedade das Nações e um pequeno contributo sobre os pequenos beligerantes na I Guerra Mundial.

Por último, no painel dedicado à República, Memória e Identidade, com estudos sobre o Congresso das Nações do Ocidente, o comemoracionismo republicano durante o Estado Novo e a conferência de encerramento ficará a cargo de Maria Gemma Rubi Casals.

A ligação ao evento pode ser consultada AQUI e o programa do congresso descarregado pelos potenciais interessados.

Mais uma excelente iniciativa a que se associa este modesto espaço virtual partilhando e divulgando o evento a potenciais interessados.

Com os votos do maior sucesso!!!

A.A.B.M.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

QUE VIVA O 5 DE OUTUBRO!



Hoje é a Hora de rememorar a Luz que emerge do glorioso 5 de Outubro de 1910 e saudar a esclarecida Gente que nos precedeu nesta Viagem. Essa lusa Gente soube, nesse antiquíssimo dia, cantar a Pátria Lusíada, os Arcanos que os Deuses guardam das “infâmias e sarcasmos, inquisições e tiranias” [Guerra Junqueiro] e reencontrar o espaço do seu devir – a Alma Lusitana.

O Almanaque Republicano junta-se a esse antiquíssimo cantar, Memória de Gente Sonhadora, Livre e Fraterna, cumprindo o que não acaba nem começa e, corações ao alto,  grita … PRESENTE!  
VIVA O 5 DE OUTUBRO!
VIVA A REPÚBLICA!

SAÚDE E FRATERNIDADE!

J.M.M.
A.A.B.M.

domingo, 30 de setembro de 2018

IN MEMORIAM FERNANDO FERNANDES [1934-2018]



Partiu de entre todos nós, FERNANDO FERNANDES, livreiro da mítica livraria portuense “Leitura” (com uma entrada na rua de Ceuta e outra pela rua José Falcão; foi fundada em Setembro de 1968 por Fernando Fernandes e José Carvalho Branco, silenciando-se só em 1999), um espaço de encontro, esperança e luta contra a ditadura, um local de culto que uma geração conheceu e venerou. Anos antes (1958) já Fernando Fernandes, o guardião dos livros, tinha decidido entrar no mundo dos livros, criando a livraria “Divulgação”.
Fernando Fernandes nasceu em Águeda e vem residir [em 1941; cf. Pedro Pereira Leite, Pela estrada larga: O Livreiro Fernando Fernandes e as memórias duma geração – texto que seguimos de perto e para qual remetemos a sua gostosa leitura] para a cidade do Porto, que muito amou. Órfão muito cedo, acedeu ao convite para dirigir a sessão de livros da papelaria Aviz. Tinha 18 anos e um especial assombro e entusiasmo pelo papel impresso. Estava traçado o seu destino nessa nobre “arte de vender livros”, da qual muitos dos livreiros herdaram muito do que sabem. O “poeta dos livros” marcou, seguramente, toda uma geração de livreiros.

Fernando Fernandes não era, porém, um simples e erudito livreiro, era um cidadão íntegro e de corpo inteiro, que vivia intensamente o seu tempo, por isso não espanta que tenha (em 1953) integrado o MUD Juvenil [idem, ibidem], combatendo com determinação a ditadura. Foi aí, porventura, pelas tertúlias culturais organizadas pela oposição, e onde participa, que lhe nasce esse gosto e entrega pelo serviço público cultural, ornamento do seu negócio do livro.    

Foi preso (1955), internado no hospital psiquiátrico [Conde Ferreira; idem ibidem] e julgado no célebre processo [o seu advogado era Alexandre Babo] que levou à prisão 52 democratas do Porto, na violenta repressão salazarista que se abateu contra os estudantes universitários do Porto, e que culminou na proibição legal (1957) do MUD Juvenil. Sai em liberdade e regressa à sua secção de livros da papelaria Aviz.   
Em 1958, na sequência da sua colaboração com o movimento cívico “Convívio” [que editava os cadernos Convívio, como depois publicava livros; tinha os bons auspícios de Afonso Cautela], vendendo no seu estabelecimento as suas edições, foi-lhe feito a proposta de criar uma livraria, convidando Fernando Fernandes para a sua direção. Fernando Fernandes depois de muita hesitação [“foi a decisão mais difícil da minha vida” – ibidem] deixou o trabalho na papelaria Aviz (com alguma tristeza, pela sua grande amizade com o proprietário, Manuel Camanho) e funda em Junho a livraria “Divulgação”, “na esquina da rua de Ceuta nº 88, com a rua José Falcão. Como novidade, a nova livraria organizava-se com secções temáticas, publica um boletim bibliográfico mensal, patrocinava sessões de autógrafos com escritores, tinha uma galeria de arte e secção de discos, organiza exposições bibliográficas [como aquela organizada em 1963, por José Augusto Seabra, sobre o vate Fernando Pessoa, e que ficaria célebre pelo incidente verificado com o dr. Pedro Veiga (Petrus), e que não cumpre aqui referir]. Tudo isso era notoriamente inovador, pelo que desde o seu início foi um centro dinamizador cultural da cidade e um local conotado com o reviralhismo conspirativo e a oposição à ditadura. A Divulgação abriu mesmo duas livrarias mais, uma (1964) em Lisboa e outra em Viana do Castelo, o que de certo modo originou problemas financeiros que se foram agravando, levando ao encerramento da livraria em 1968 [sobre este assunto ver Pedro Pereira Leite, ibidem].



Fernando Fernandes não desiste e, com o apoio de Jaime Castelo Branco (que se torna seu sócio) reabre a livraria [recuperando-a da tutela da Bertrand], agora com o nome de “Livraria Leitura”. De novo impera o mesmo espírito de amor aos livros e tributo aos seus ledores, a mesma “referência da elite intelectual do Porto”, pelo que floresce e alarga-se a outras zonas e regiões (caso de Aveiro).  Até ao 25 de Abril de 1974, foi objeto contínuo de vigilância da PIDE, mas mesmo assim lá se encontravam os inúmeros opúsculos, textos e livros proibidos de circular pela censura, continuando a ser um local de paragem obrigatória ao cidadão democrata e livre, uma espaço de tertúlia cultural e de fraternidade. Em 1998 Fernando Fernandes reforma-se, “descontente com o rumo que estava a ser seguido pelo mercado livreiro, com a emergência de novos espaços comerciais, onde nem sempre o livro é tratado com a devida deferência”. Em 2017, Fernando Fernandes leiloa a sua estimada biblioteca (o Catálogo com a colaboração de Armando Alves e Albano Martins) e sua colecção de Arte.
Morre a 30 de Setembro de 2018.

[NOTA: agradecimento especial a Pedro Baptista]
J.M.M.

domingo, 23 de setembro de 2018

FERNANDO PESSOA, UM RETRATO FORA DA ARCA



Da Resistência a Fernando Pessoa” – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso
Motivos literários, políticos e religiosos ajudam a explicar a lenta, polémica e difícil compreensão do poeta

"Fernando Pessoa, Um Retrato Fora da Arca”, por Zetho Cunha Gonçalves, integra mais de 400 páginas com artigos e depoimentos repartidos em quatro núcleos temáticos: a homenagem da revista “Presença” em 1936, os próximos do seu convívio, o presente da amizade retribuído e as vozes da intimidade comunicantes. Pretende ser “a mais alentada recolha de textos alguma vez dada a público, não só de Fernando Pessoa sobre os seus pares mais próximos, como também, sobretudo daqueles com que eles mais intimamente conviveram humana e literariamente”. É um contributo, sem dúvida, mas não se poderá considerar exaustivo.
A recuperação de textos dispersos principiou com as “Páginas de Doutrina Estética”, coligidas por Jorge de Sena, em 1946, e insere-se, a partir de 1942, no âmbito das obras completas editadas pela Editorial Ática, de Luís de Montalvor. Disponibilizou elementos fundamentais para elaborar as primeiras biografias e estudos críticos. Assinala os primórdios da divulgação ainda muito contestada da produção ortónima e heterónima de Fernando Pessoa.

A escolha para “Um Retrato Fora da Arca” dos dois artigos de Alfredo Guisado no semanário “O Diabo”, de 1935 e de 1936, escritos sob o impacto da morte de Pessoa, e devido a muitos disparates nos jornais e de lamentáveis omissões, merece, todavia, ser completada com a entrevista que Alfredo Guisado concedeu à revista “Autores”, (número 10, de 1960) e que, embora não assinada, é da autoria do diretor e único redator Luís de Oliveira Guimarães.
Ainda sobre Alfredo Guisado aguarda-se, há muito, a colheita e a seleção de centenas de artigos e crónicas acerca do grupo e da geração do Orpheu, no jornal “República”, do qual foi um dos diretores de fins dos anos 40 a fins dos anos 60. Traçou perfis de amigos e companheiros, descreveu episódios desconhecidos, envolveu-se em guerrilhas com Gaspar Simões e Casais Monteiro.
 
 

ERROS CRASSOS
A polémica desencadeada, em 1950, por Gaspar Simões, nos dois tomos de “Vida e Obra de Fernando Pessoa” motivou a crítica pertinente de Augusto Ferreira Gomes, em entrevista de que lemos, agora, alguns excertos reveladores. Todavia, o ataque mais documentado e profundo depara-se em “Fernando Pessoa — Notas a uma Biografia Romanceada”, por Eduardo Freitas da Costa. Pertencia à família, convivera de perto com Pessoa, nos últimos anos. Estava habilitado para rebater opiniões, apontar lacunas e denunciar erros, alguns deles crassos. Por ser um adversário político confesso, João Gaspar Simões recusou-se a proceder às retificações que se impunham em edições posteriores.

A propósito de erros crassos existem outros nas “Páginas Íntimas e de Autointerpretação”, organizadas por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho. São, por exemplo, detetáveis na identificação de Esther Duval, que era a atriz Esther Leão, ou acerca de Carlos Corado, como mais um possível heterónimo de Pessoa. Tratava-se, afinal, de Carlos Celestino Corado, grande contador de histórias de bastidores políticos e culturais, colega de Pessoa no Curso Superior de Letras, bibliotecário do Palácio de São Bento e do “Jornal do Comércio”. Retificou o equívoco Hernâni Cidade, num artigo publicado n’ “O Primeiro de Janeiro”.
AS RESTRIÇÕES DA IGREJA

A igreja católica, durante décadas, formulava as maiores restrições a Fernando Pessoa, enquanto glorificava Mário Beirão, autor do hino da Mocidade Portuguesa e, sobretudo, António Correia de Oliveira, a proposta sempre na manga para um candidato português ao Nobel da Literatura. Uma das vozes mais influentes da igreja, o padre Moreira das Neves, consultor da nunciatura e do episcopado, biógrafo encartado do cardeal Cerejeira, chefe de redação do jornal “Novidades”, órgão diário do episcopado até ao 25 de Abril, depôs no inquérito do semanário “Acção”, mas não foi selecionado para “Um Retrato Fora da Arca”.
Não seria despiciendo divulgar o que, então, disse Moreira das Neves. Reconhecia Fernando Pessoa “um dos poetas mais densos da literatura portuguesa” e, logo a seguir, afirmava perentoriamente: “Crivado de enigmas e com sede de luz, debateu-se entre Deus e o poder das trevas. Daí o hermetismo de muitos dos seus versos e o pendor profético de tantos outros. Lastimo todos os erros que Fernando Pessoa não soube evitar.”

Afonso Lopes Vieira, um dos denominados “mestres da portugalidade”, autor do Avé de Fátima e da Oratória de Fátima musicada, em 1932, por Ruy Coelho, no inquérito da “Acção”, sobre Fernando Pessoa foi categórico: “Quanto à sua vasta obra poética, pelo que conheço, encontro um exoterismo (sic) ou cabalismo que sinto pouco e entendo mal.”
FRASEOLOGIA UNIVERSITÁRIA
Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, até ao fim dos anos 50, fundador e diretor da revista “Colóquio”, até 1975, Hernâni Cidade, colega de Pessoa no Curso Superior de Letras — em texto agora não recuperado do inquérito da “Acção” — ao pronunciar-se acerca de Fernando Pessoa considerava que a sua poesia “procura, acima de tudo intuir os frémitos desconexos, os nevoentos emaranhamentos do mundo interior, em sua atividade subconsciente pré-lógica”.

Esta fraseologia que sempre foi peculiar a Hernâni Cidade, seja a escrever ou a falar sobre Camões, Vieira e outros poetas e escritores clássicos ou contemporâneos, marcou sucessivas gerações de alunos.
A opinião que predominava na Faculdade de Letras de Lisboa, foi alterada por Vitorino Nemésio, catedrático de Literatura Portuguesa Contemporânea. Não sendo um pessoano militante, incitou Jacinto do Prado Coelho a não continuar com a novela camiliana — uma das especialidades do pai, António do Prado Coelho, discípulo de Teófilo — e a preparar a tese Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, concluída em 1949.
 
 

BANDEIRA POLÍTICA
Outro depoimento do insuspeito José Osório de Oliveira que se limitou à “Mensagem”. “Teve, esse livro — acentuou — a pior sorte que em Portugal pode ter uma obra literária; servir de bandeira política”. Muitos “do outro lado, passaram a admirar Fernando Pessoa só no dia em que ele escreveu contra a extinção das ordens secretas”.

Em face de tudo isto a oposição republicana, socialista e comunista, até aos anos 50/60, rotulava Fernando Pessoa de poeta fascista. Tanto mais que publicara, em 1928, a “Defesa e Justificação da Ditadura Militar”. Recorde-se que Pessoa rejeitou este folheto editado pelo Núcleo de Ação Nacional. Com efeito, na nota biográfica, com data de 30 de março de 1935 escreveu: “Deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isto e talvez que repudiar muito.”
A POSIÇÃO DE MÁRIO SOARES

Os preconceitos dos neorrealistas foram, por vezes, ostensivos. Deveriam ser recolhidos e analisados. Mário Soares — companheiro e amigo dos neorrealistas, editado na coleção do Novo Cancioneiro, casado com Maria Barroso, intérprete dos principais poetas do neorrealismo — aproximou-se de Fernando Pessoa “só no exílio em Paris e, fundamentalmente, depois do regresso a Portugal” — confidenciou-me, recordando o forte impacto na sua formação literária e cívica incutido por Álvaro Salema. “A minha visão democrática de Portugal” — prosseguia — “foi alicerçada com a leitura de escritores, poetas e ensaístas dos séculos XIX e XX“. E enumerava: “Herculano e Garrett, Antero e Oliveira Martins, Eça que li e continuei a ler e a reler, até aos intelectuais da República, ao grande escritor da República, Teixeira Gomes, e aos críticos da República, Sérgio, Cortesão e Proença”. A referência era, portanto, a “Seara Nova” e não o “Orpheu”.
Já Presidente da República, numa viagem a bordo do “Sagres”, em agosto de 1986, entre Ponta Delgada, escala nas Berlengas e desembarque no Tejo, aproveitou a oportunidade para, “em contato direto com o mar” fazer uma leitura da “Mensagem”. Leu e gostou muito. Pessoa, para Mário Soares, passou a constituir uma surpresa. Antes o grande poeta era Antero que Álvaro Salema “o obrigou no 7º ano do liceu a ler e a comentar”, na edição dos sonetos prefaciada por António Sérgio. Diversas vezes disse a Mário Soares que não era a obra principal de Pessoa. Respondia-me que “era o único livro que Pessoa editara em português, que teve o cuidado de rever cada poema e que fez a sistematização num todo simbólico”. Procurei lembrar a Mário Soares a opinião do próprio Pessoa sobre a “Mensagem” e que reencontro agora textualmente na famosa e histórica carta a Casais Monteiro sobre os heterónimos: “Não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz com um livro da natureza de Mensagem. Sou, de facto, um nacionalista místico, um sebastianista racional. Mas sou, à parte isso — referia Pessoa na mesma carta — e até em contradição com isso, muitas outras coisas.”
 
 

AS DECLARAÇÕES DE ÁLVARO CUNHAL
No Martinho da Arcada, num encontro organizado por Luiz Machado, em maio de 1991, interroguei Álvaro Cunhal sobre Pessoa, a relação de Pessoa com os fascismos europeus e a “Mensagem”. O Pessoa que Cunhal gostava era Álvaro de Campos. Acerca da “Mensagem” — e estou a transcrever um texto gravado — foi ainda mais categórico: “A ‘Mensagem’ é um momento contraditório na obra de Fernando Pessoa. É uma encomenda do Secretariado da Propaganda, do futuro SNI, uma obra para um prémio, fomentada e inspirada por António Ferro.” “É uma obra fraquíssima, porque Pessoa quis conformar a obra poética com a mensagem política. E o resultado foi que a obra poética fracassou completamente. A ‘Mensagem’ — insistiu — é um fracasso.” Fez questão de acrescentar logo: “Mas em Almada Negreiros, um homem profundamente comprometido com a ditadura fascista, eu reconheço o grande desenhador que ele foi. Isto conforma que é preciso saber distinguir a obra de arte do artista e a sua opção política.”

Tentei demonstrar que os poemas da “Mensagem” eram das primeiras duas décadas do século, publicadas em vários jornais e revistas, muito anteriores à fundação do Secretariado dirigido por António Ferro. Imperturbável, Álvaro Cunhal concluiu a rir, “Olhe que não… olhe que não…”

“MALABARISMO” FREQUENTE
Gustavo de Fraga, no mesmo inquérito, promovido pela “Acção” entrevistou — e vem agora na íntegra em “Um Retrato Fora da Arca” — Vieira de Almeida, antigo colega de Pessoa no Curso Superior de Letras, personalidade do maior prestígio intelectual e cívico. Recordo-me muito bem que, ao falar de Pessoa, Vieira de Almeida caía no absurdo de afirmar que “o seu caso não é excecional, pois (António) Feijó também se serviu do heterónimo de Abreu e Lima”, sem distinguir e clarificar a diferença entre pseudónimo e heterónimo. Muito mais grave, ainda, era quando Vieira de Almeida — sem conseguir dilucidar as diversas personas de um “drama em gente” — declarava com veemência: “Pessoa foi, frequentemente, um malabarista. Há na sua poesia malabarismo, ironia… e creio que muitas vezes ele próprio não sabia onde terminava isso e começava algo diferente.”
 
 

DOIS CRIMES DO JORNALISMO
Mesmo em cima da morte e do funeral de Fernando Pessoa, Norberto de Araújo, um dos jornalistas mais celebrados da época e ainda hoje lembrado como “mestre de estudos olisiponenses”, na página semanal que mantinha no “Diário de Lisboa”, enaltecia o teatro de Eduardo Schwalbach e as crónicas de Augusto de Castro — dois diretores do “Diário de Notícias” — com os adjetivos mais retumbantes, enquanto reduzia Fernando Pessoa a uma figura estranha e bizarra, a vaguear nas ruas da cidade (“Diário de Lisboa”, 5- 12- 1935). Não era de esperar outra coisa de Norberto de Araújo e de muitos outros jornalistas. Uma das raras exceções foi António Ferro. Aliás, o próprio Fernando Pessoa, em carta a António Ferro, identificava, na época, o jornalismo português mergulhado em “dois grandes crimes mentais — a lentidão e a tradição”; (…) “o bolor radicalmente póstumo dos Emídios Navarros, Marianos de Carvalho, Eduardo Coelho e quantos mais, de igual estirpe, que pesam no passado do jornalismo presente como calos do abismo.”

Entre os méritos de Fernando Pessoa, um retrato fora da arca, organizado por Zetho Cunha Gonçalves, somos confrontados com testemunhos curiosos. Não deixa de ser interessante conhecer depoimentos que revelam os insólitos motivos literários, políticos e religiosos que determinaram a lenta, difícil e polémica compreensão da obra de Fernando Pessoa até atingir toda a irrecusável dimensão nacional e projeção universal.
Da Resistência a Fernando Pessoa – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 22 de Setembro de 2018, pp. 66/67 – com sublinhados nossos.
 
António Valdemar
 

J.M.M.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

JOSÉ FERREIRA PINTO BASTO – HOMENAGEM EM ÍLHAVO, 22 SETEMBRO



A Comissão Liberato vai amanhã – dia 22 de Setembro de 2018 – na Vista Alegre (Ílhavo) fazer a justa Homenagem a José Ferreira Pinto Basto, um devoto liberal, destacado empresário e capitalista social do período vintista e que foi uma árvore frondosa do liberalismo pátrio. Este respeitável cidadão manteve fortes laços com José Liberato Freire de Carvalho, de quem foi amigo, auxiliando os exilados liberais em fuga ao despotismo miguelista. Manteve-se firme em território nacional, foi perseguido e preso, mas soube consolidar a sua obra comercial e industrial – de que foi disso exemplo o sucesso da sua fábrica da Vista Alegre - com sincera fraternidade social e inquebrantável justiça e progresso aos seus trabalhadores.     

PROGRAMA – HOMENAGEM A JOSÉ FERREIRA PINTO BASTO

DIA: 22 de Setembro de 2018

11.00 Horas – Descerramento de placa alusiva e deposição de uma coroa de flores junto ao seu busto, na Vista Alegre (Ílhavo);

11.30 Horas – Visita ao Museu da Vista Alegre:

Conferência pela professora doutora Isabel Nobre Vargues

13.00 Horas - Almoço

15.00 Horas – Visita guiada ao Museu Marítimo de Ílhavo.

ORGANIZAÇÃO: Comissão Liberato
 
JOSÉ FERREIRA PINTO BASTO [1744-1839] - NOTA BREVE

José Ferreira Pinto Basto nasceu no Porto [a 16 de Setembro de 1744]. Era o filho primogénito de Domingos José Ferreira Pinto Basto [proprietário e grande comerciante, com casa comercial estabelecida no Porto; o seu pai, Manuel Ferreira Pinto, era natural de S. Jorge de Abadim, Cabeceiras de Basto, pelo que Domingos José Ferreira Pinto acrescentou ao nome o de “Basto” – cf. Enciclopédia Luso-Brasileira; ver, ainda e principalmente, Carlos Bobone, “História da Família Ferreira Pinto Basto”, Livraria Bizantina, 1997, II vols, obra que seguimos de muito perto] e de Maria do Amor Divino da Costa [filha de um importante comerciante do Porto, António José da Costa] e teve como irmãos, entre outros, António Ferreira Pinto Basto [1775-1860] e João Ferreira Pinto Basto [1788-1854 ?], originando uma curiosa, próspera e influente família burguesa [com brasão de armas, Alvará de D. João VI, 12 de Setembro de 1818, justamente a José Ferreira Pinto de Basto – ver “Resenhas das Famílias Titulares e Grandes de Portugal”, 1883, tomo I, p. 164], uma verdadeira dinastia comercial  e industrial, e uma nova classe política, como outras mais surgidas durante e após o processo da implantação, triunfo e consolidação do liberalismo português.

José Ferreira Pinto Basto, juntamente com o seu pai e seus irmãos, António e João, e o seu primo Custodio José Teixeira Pinto Basto [1774-1849], fundou a casa comercial “Domingos Ferreira Pinto, Filhos & Ferreira”, na cidade do Porto, núcleo original da sua própria caminhada financeira. Os negócios da família Pinto Basto prosperavam, o génio empreendedor do seu filho mais velho estava individualmente lançado (em especial depois da morte, em 1820, do seu pai).

 


Entre 1809 e 1837, o grupo Pinto Basto disputa e toma o lugar de contratador-geral dos Tabacos e das Saboarias e, para essa função, José Ferreira Pinto Basto vai residir em Lisboa [1817; mandou construir a Casa dos Arcos, na Boavista, para sede dos seus negócios, comprando o vasto terreno conhecido pelos “Prazos da Marinha da Boavista”, de onde partiam os seus navios para o Brasil e o Oriente] para dirigir esse lucrativo negócio do monopólio dos tabacos [enquanto o seu irmão António e o seu primo Custódio ficam á frente do contrato no Porto, e o seu irmão João se instalava em Inglaterra – cf. Carlos Bobone, ibidem]. De 1817 a 1828 o monopólio dos tabacos é dominado pela família Pinto Basto [diga-se que para renovar o contrato dos tabacos oferecia a família á volta de 1.700 contos ao governo, o que dá conta do volume e importância do negócio], até à sua perda com a contra-revolução absolutista. O miguelismo não lhe perdoaria o seu liberalismo militante e afasta a família Pinto Basto da poderosa administração dos Tabacos. Não deixa de ser curioso que, tendo perdido o contrato dos tabacos (fraudulentamente, diga-se, pois ofereceu melhores condições) a favor do negociante João Paulo Cordeiro, de boas graças governamentais, José Ferreira Pinto Basto tenha recorrido ao temível panfletário e publicista corcundático José Agostinho de Macedo, untando-lhe as mãos para esgrimir argumentos a favor das suas pretensões. Como seria de esperar, o padre “Lagosta” rapidamente muda de “amo” e torna-se fiel defensor do vitorioso arrematante governamental, tendo dele recebido uma “confortável pensão vitalícia” [Carlos Bobone, ibidem].

Não esmoreceu, no entanto, José Ferreira Pinto Basto durante o período do miguelismo apesar do rude golpe sofrido no seu império pela perda do contrato dos tabacos ou até quando era ferozmente atacado pelo panfletismo corcundático [em sua defesa surge o “Paquete de Portugal”, escrito por Rodrigo Fonseca Magalhães]. Continuou a desenvolver e modernizar os seus negócios no comércio e indústria, em especial alavancando o negócio da Vista Alegre. Nova situação, porém, o põe em aberto conflito com o governo. Este, face ao descalabro financeiro do país, impôs um empréstimo obrigatório aos principais homens de negócios, tendo, por isso, a família de José Ferreira Pinto Basto sido “taxada” com 16 contos. Recusou, de imediato, pelo que lhe foi dada ordem de prisão e consequente pena de desterro em Mirandela. Sabedor do que o esperava, refugiou-se a bordo duma fragata francesa, ancorada no Tejo, regressando dias depois. Refira-se que, durante a Abrilada, já tinha sido preso por ordem do intendente da polícia, o barão de Randufe, com a acusação de ter facilitado a fuga a José da Silva Carvalho para Londres. Estava, portanto, precavido.

 


Isto é, na verdade José Ferreira Pinto Basto teve, ao longo da sua vida, uma frenética e modernizadora actividade empresarial: grande proprietário [herdou do pai importantes terras em cabeceiras de Basto, em Miramar (quinta do Espírito Santo); comprou depois, a quinta do paço da Ermida, da Vista Alegre, do Silveiro (Oiã), do Rol (Ançâ), a de Foja (Montemor-o-Velho), o convento da Costa e sua tapada (Guimarães), a quinta das Grades Verdes (Granja), a quinta do Malvedo (no Douro), a quinta de Nogueira (Mogadouro; tinha pertencido aos Távoras), a quinta de Queluz (Lisboa), as herdades da Defesa de Barros e do Montinho (Avis), outras herdades em Fronteira, bem como numerosos prédios em Lisboa e no Porto; destacado industrial, dirige a indústria do tabaco, de sabão, de moagem (Aveiro), de soda (Ílhavo), toma posição no comércio marítimo, é encarregado de companhias de seguros, dirige a venda de papel selado em todo o país, é sócio da Companhia das Vinhas do Alto Douro, torna-se um activo e prospero industrial, sendo de realçar a sua magnum opus, a fábrica de porcelana da Vista Alegre (1824), em Ílhavo. Na verdade, o singular modo como esta fábrica era gerida profissionalmente e humanamente, torna-a objecto de estudo, quer no avançado conceito de “centro de produção”, quer no envolvimento associativo e recreativo [e já agora, político; partiu daqui uma brigada liberal – o temido batalhão da Vista Alegre, comandando por Alberto Ferreira Pinto Basto e o diretor fabril João Maria Rissoto - que combateu militarmente o cabralismo, em 1846, na Maria da Fonte; ficou a fábrica 9 meses sem os seus trabalhadores e administradores] dos seus trabalhadores, que ia desde a habitação operária [o bairro operário da Vista Alegre é o primeiro do género no país], um Colégio com internato, a oficina de música, teatro ou capela. A organização social desta empresa diz muito do espirito modernizador, avançado e progressista de José Ferreira Pinto Basto. Funda a Associação Mercantil [de que foi seu presidente], depois denominada Associação Comercial de Lisboa, promove a fundação da Companhia de Pescarias Lisbonenses, integra a Sociétè General des Naufrages et de L’Union des Nations, foi sócio fundador da Sociedade Promotora da Industria Nacional (1822) 

José Ferreira Pinto Basto foi um entusiasta e intransigente liberal [curiosamente o seu irmão António, com quem se incompatibilizaria – até á sua morte – politicamente e comercialmente, colocando mesmo fim aos negócios empresariais conjuntos, era defensor das ambições de D. Miguel – consultar Carlos Bobone, ibidem, p. 29], mantendo um relacionamento constante e intenso com os grandes vultos do liberalismo vintista [como Palmela, José Ferreira Borges, Silva Carvalho, Rodrigo da Fonseca Magalhães, Duarte Guilherme Ferreri, Almeida Garrett, José Liberato, os Irmãos Passos, José Estevão]. Pertenceu (1822) à influente e poderosa Sociedade Literária Patriótica de Lisboa [ver a importância das Sociedades Patrióticas, AQUI]. Refira-se que o seu filho, José Ferreira Pinto Basto Júnior integrou a, também, poderosa e “revolucionária” Sociedade Patriótica Lisbonense (ou clube dos Camilos; 1836), que, além de outros propósitos, debateu questões ligadas á indústria e exportação, tendo sido extinta oficialmente pelo Conselho de Ministros, na eclosão da revolta de Setembro, desse ano.

Foi deputado, quer às Cortes Constituintes de 1837 (por Aveiro), quer em 1838 (pelo Porto) e senador pela cidade de Aveiro. Combateu os cartistas, militando (como seu filho) ao lado dos setembristas, sendo um dos seus mais destacados obreiros – sobre este assunto consultar Carlos Bobone, op.cit., p. 39 e ss.

 


A sua fortuna permitiu-lhe apoiar os exilados liberais portugueses, fugidos ao despotismo miguelista, como José da Silva Carvalho, José Liberato Freire de Carvalho, José Ferreira Borges ou Almeida Garrett. Registe-se que, após ter recusado a proposta de adiantamento do pagamento de 115 contos em troca da futura adjudicação do contrato de tabaco, que lhe foi colocada pelo governo liberal de D. Maria II no exílio, perante a assinatura do barão de Quintela [que aceitou a proposta] não ter sida reconhecida internacionalmente, foi unicamente pelo seu aval que foi garantido o bom pagamento e o acesso aos fundos necessários para se dar inicio à expedição vitoriosa contra o usurpador D. Miguelcf. Carlos Bobone, ibidem.  

Era cavaleiro e comendador da Ordem de Cristo (1803) e da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Por alvará de 8 de Fevereiro de 1826 foi nomeado fidalgo-cavaleiro. Prestou valiosos serviços públicos, em especial o seu contributo para o estabelecimento do porto franco de Lisboa, a sua notável acção á frente da provedoria da Casa Pia, foi secretário do Conservatório Real de Lisboa.

Morre a 23 de Setembro de 1839, na sua casa junto a Santo Amaro, à Junqueira.     

J.M.M.

UM MÉDICO NA GRANDE GUERRA: FERNANDO DA SILVA CORREIA -COLÓQUIO E EXPOSIÇÃO NAS CALDAS DA RAINHA

Inaugura-se amanhã, 22 de Setembro de 2018, no Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha, a Exposição e o Colóquio Um Médico na Grande Guerra: Fernando da Silva Correia.

Promovido pela Associação Património Histórico e pelo município das Caldas da Rainha, no âmbito das Jornadas Europeias do Património vai realizar-se esta iniciativa que visa assinalar o Centenário da Grande Guerra e chamar a atenção para a preservação e divulgação do acervo fotográfico do Doutor Fernando da Silva Correia (1893-1966), realizado durante a I Guerra Mundial enquanto permaneceu em França.


Pode ler-se na nota de divulgação:
A associação Património Histórico – Grupo de Estudos encontra-se a preparar a exposição “Um médico na Grande Guerra. Fernando da Silva Correia”, cuja inauguração está prevista para 22 de Setembro do ano corrente. Esta exposição procura, em simultâneo, assinalar o centenário da I Guerra Mundial (1914-1918) e dar a conhecer o acervo fotográfico do Doutor Fernando da Silva Correia (1893-1966) produzido no último ano deste conflito, em França.

Este projecto enquadra-se num conjunto mais lato de iniciativas que integram o Ano Europeu do Património Cultural e as Jornadas Europeias do Património, destacando a necessidade de preservar e valorizar o património documental que nos desperta para acontecimentos de impacto local, nacional e internacional.

Apesar do seu percurso e acção na história da medicina ainda estarem modestamente estudados, o Doutor Fernando da Silva Correia surge-nos como um actor a valorizar no contexto da I Guerra Mundial. O jovem médico havia terminado o curso em Coimbra a 20 de Julho de 1917, quando foi mobilizado para o Corpo de Artilharia Pesada Independente que deveria conceder apoio ao exército francês. Inicialmente, terá sido integrado no 2º Grupo deste corpo, mas depois ter-se-á ligado a outro, pois não acompanhou aquele Grupo aquando da sua partida para Inglaterra. Sabemos que o Doutor Fernando da Silva Correia partiu de Lisboa a 10 de Janeiro de 1918 e somente regressou de França a 14 de Maio de 1919. Durante este período, terá visitado diversas localidades francesas e contactado com os habitantes locais, conseguindo reunir um significativo conjunto de madrinhas de guerra e outros amigos (alguns deles manterá por toda a vida).

É hoje possível conhecer todo o percurso deste jovem médico, através da documentação que sempre manteve e que, na sua maior parte, está ao cuidado da Associação PH- Grupo de Estudos, conservando a família outros elementos do espólio reunido após a morte de Fernando da Silva Correia. Essa documentação inclui: obras provenientes da biblioteca reunida pelo médico, periódicos que adquiriu (ou lhe foram enviados) em França, correspondência e c. 550 fotografias da sua autoria. Estes documentos e outros objectos pessoais – património móvel – integrarão a exposição, tornando-a num interessante momento de conhecimento e reflexão sobre este primeiro conflito mundial e a participação portuguesa.


O programa do colóquio pode ser consultado abaixo:
Comissão Científica: Doutora Carmina Montezuma, Dra. Dóris Santos, Prof. Doutora Helena Rebelo de Andrade, Dra. Isabel Xavier, Dra. Joana Tornada, Dr. João B. Serra, Dra. Paula Cândido e Prof. Doutora Teresa Silva.
Comissão Organizadora: Dra. Dóris Santos, Designer Fausto Vicente, Dra. Isabel Xavier, Dra. Joana Ribeiro e Dra. Rita Saez.
Certificação para efeitos de avaliação curricular e progressão na carreira docente: o colóquio terá uma certificação reconhecida pelo CFAE Centro-Oeste.
Programa do Colóquio (22 de setembro – sábado)
9:00 – Recepção dos participantes no Museu José Malhoa
9:30 – Abertura do Colóquio com a participação dos membros da Comissão de Honra
10:00 – Conferência inaugural – Dr. João B. SerraO Parlamento perante a Guerra
Coffee Break
10:45 Painel I – A Grande Guerra entre a acção médica e militar
(Moderadora: Dra. Isabel Xavier)
Doutor Tenente-Coronel Pedro Marquês de SousaPortugal na Frente Ocidental da Grande Guerra (1914-1918) – Um Médico Miliciano Mobilizado para a Guerra
Doutor Coronel Luís Alves da FragaOs feridos, os doentes e os mortos no CEP em França
Dr. Tenente-Coronel Rui Pires de CarvalhoO Médico na Grande Guerra: clínico, amigo, protector combatente, observador e…ser humano
Eng.º Ricardo Charters de AzevedoCor. Luís Veríssimo de Azevedo artífice na artilharia
Dra. Raquel Janeirinho, Dra. Sílvia dos Santos e Dr. Rui VenâncioDr. Bonifácio, Peniche e a Grande Guerra
Dra. Lúcia Serralheiro Beneditenses em França na Grande Guerra – Contributos para a história local da freguesia da Benedita
Dr. Manuel Augusto DiasExpedicionários dos concelhos de Ansião e de Alvaiázere na Grande Guerra
12:15-12:30 – Discussão
Almoço
14:15 – Painel 2 – A Grande Guerra: o impacto socio-cultural
(Moderadora: Dra. Dóris Santos)
Dr. Major Joaquim Cunha Roberto – (Título a definir)
Eng.º Carlos FernandesOs monumentos de homenagem aos mortos na 1.ª Grande Guerra – concelho de Leiria foi pioneiro
Doutora Clara SerranoTrês jornalistas na Grande Guerra: os enviados especiais de "O Século".
Dra. Inês Fialho BrandãoAntónio Anastácio Gonçalves e a ‘Malta das Trincheiras’
Dr. Nuno Prates e Dr. José Raimundo NorasVivências da família Relvas na Grande Guerra: entre o Negócio, a Arte e a Política.
Doutor Sérgio NetoDo Teatro de Guerra ao Teatro sobre a (Grande) Guerra.
Prof. Doutora Helena Rebelo de Andrade, Dr. David Felismino, Dra. Inês Cavadas Oliveira, Dra. Joana Oliveira e Dra. Liliane VideiraA pandemia de gripe pneumónica de 1918-1919
16:00-16:15 – Discussão
Coffee Break
16:30 – Painel 3 – Fernando da Silva Correia: uma biografia a desvendar
(Moderadora: Doutora Carmina Montezuma)
Doutora Natália Correia GuedesFernando da Silva Correia: Memórias da Grande Guerra
Dra. Paula Cândido e Dra. Joana Beato RibeiroArquivo Fernando da Silva Correia: construção na desconstrução – um caminho a percorrer
Dra. Dóris SantosFernando da Silva Correia e António Montês. Impressões sobre um museu para as Caldas
Prof. Doutora Teresa Silva e Dr. Hélder MachadoFernando Silva Correia: e a primeira escola de Serviço Social em Portugal
17:30 – Conferência de Encerramento – Dra. Joana Beato RibeiroFernando da Silva Correia: do registo fotográfico à «vida nova» na Grande Guerra
17:45-18:00 – Discussão
18:00 Lançamento do Catálogo e Inauguração da Exposição

Informações úteis: qualquer esclarecimento adicional pode ser obtido através do e-mail caldas.ph@gmail.com ou da página do Facebook Associação Património Histórico PH (https://www.facebook.com/associacaopatrimoniohistorico/). O colóquio decorrerá no Museu José Malhoa, Parque D. Carlos I, 2500-109 Caldas da Rainha.

Com os votos do maior sucesso para a iniciativa.
A.A.B.M.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

JOSÉ EDUARDO SIMÕES COIMBRA – MISTÉRIOS ANTIGOS, MARINHA, MAÇONARIA



AUTOR: Luís Vaz;
EDIÇÃO: Âncora Editora, Setembro 2018

LANÇAMENTO:

DIA: 22 de Setembro 2018 (17,30 horas);
LOCAL: Fornos de Algodres (Biblioteca Maria Teresa Maia Gonzalez);
ORADORES:
Luís Vaz | José Adelino Maltez


“[…] José Eduardo Simões Coimbra [1908-1996] - alvo da nossa atenção nesta obra e com quem tivemos o privilégio de conviver – foi um desses Mestres que na nossa mais profunda convicção, entendemos que os iniciados e aqueles que vierem a ter o privilégio de serem iniciados, devem conhecer. A sua vida impoluta e prenhe de virtudes raras, deve ser conhecida na sua componente profana que creio poucos maçons conhecem, e na sua componente Maçónica, conhecida por muitos, mas, por muitos desconhecida atendendo ao devir do tempo e à pouca tendência para que o futuro seja pensado com o fermento do passado e da memória.
 
Quanto á componente profana, tentamos conhecer o seu percurso histórico desde o seu nascimento até ao seu ingresso no curso de Engenharia Maquinista Naval na Escola Superior Naval da Marinha Portuguesa. Tivemos algumas dificuldades, sobretudo no histórico da sua infância e adolescência, atendendo a que o tempo fez mudança e a mobilidade dos arquivos colocou documentação a seu respeito em espaços que se desconhecem. Não obstante, foi interessante o recurso á tradição oral que nos facultou informação sobre o seu percurso escolar, do Liceu á Escola Superior Naval, que se nos afigura aproximar-se de uma realidade inteligível. Foi mais fácil a análise do seu percurso académico superior e profissional como quadro da Marinha Portuguesa e cuja documentação foi possível analisar com as autorizações legalmente instituídas.
 
É esta história que começa em Vila Chã – Fornos de Algodres, passa por Coimbra, continua o seu percurso pela Escola Superior Naval, no Alfeite em Almada, e percorre continentes e mares, nas residências flutuantes de uma das mais nobres instituições militares, mas sobretudo, de educação, instrução e formação profissional. Passado á reforma fixou-se em Lisboa, só regressa ao “berço”, após o seu desaparecimento físico, onde jaz no cemitério de Vila Chã, Concelho de Fornos de Algodres.
 
Como Maçon [Irmão Victor Hugo - integrou a loja Simpatia e União, nº4, de Lisboa], destacamos a data da sua iniciação clandestina em 1945, assumindo riscos que poderiam fazer perigar a sua carreira e a sua vida. Mas o GOL - Grande Oriente Lusitano, Maçonaria Portuguesa, lembra Simões Coimbra nas suas facetas especiais e plurais, considerando-o uma referência na convivência cívica entre os maçons e de uma extrema dedicação á Obediência, com destaque para o período da transição da ditadura para a democracia. Muito se deve a Simões Coimbra, a prática á luz do dia, do culto da pedagogia dos três valores mais sublimes da Maçonaria – Liberdade, Igualdade e Fraternidade. A ele se deve a pedagogia do pragmatismo, que conferiu o carácter apolítico à organização que entendia constituir o factor de convergência, indispensável para cimentar a fraternidade na pluralidade de pensamento entre todos os irmãos. Foram Homens que ao longo da História e senhores destas componentes que mantiveram a Maçonaria na vanguarda de grandes iniciativas, dos grandes movimentos de opinião liberal, republicana, progressista e democrática a que não são alheias as grandes reformas verificadas com cunho eminentemente iniciático.
 


Na verdade, foi com Simões Coimbra, Dias Amado, Adão e Silva, de entre outros - muito poucos - que resistiram no decurso da longa noite de ditadura, que a Maçonaria, em Abril de 1974, quase a partir do nada, recomeçou em Liberdade, uma nova etapa da sua longínqua História. A eles se deve a restituição do Palácio Maçónico, a sua reabilitação, seu apetrechamento em equipamentos e adaptação aos fins das actividades do Grande Oriente Lusitano. A eles se deve o retorno do património desviado, nomeadamente, documentação, obras literárias, livros de registos e de actas.
 
Foi grande o trabalho de organização administrativa e financeira que envolveu um Conselho da Ordem que funcionava em regime de Comissão Administrativa, que integrava, para além de Simões Coimbra, Dias Amado e Adão e Silva, também Araújo e Sá e Adosindo de Sousa Leite. Foi este Conselho da Ordem que procedeu ao recenseamento “dos antigos associados que não perderam a qualidade e promoveu a regularização das suas situações e secções”. Porém, o mais hercúleo trabalho foi proceder à elaboração do primeiro orçamento – 25 de Abril a Dezembro de 1974 que encerrou a fase de clandestinidade e apresentou várias soluções de receitas em que foram evidenciadas as receitas das quotizações ordinárias, suplementares, eventual única e pedido ao Governo de um subsídio de indemnização definitiva, por todos os prejuízos decorrentes da ocupação do edifício pela Legião Portuguesa. Foram estas receitas que vieram a assegurar as despesas com pessoal, com o normal funcionamento administrativo, seguros, manutenção e obras, cuja evolução se verificou nos anos sequenciais de gestão de Simões Coimbra como presidente do Conselho da Ordem ou como Grão-Mestre [1984-1988], com destaque para o desenvolvimento das relações exteriores com outras Potencias Maçónicas [...]"  
 
in NOTA PRÉVIA [Extrato], por Luís Vaz – com sublinhados & notas nossas. 

J.M.M.