sábado, 3 de fevereiro de 2018

ANTERO DE QUENTAL - ENTRE EROS E THANATOS


LIVROPoesia II – Sonetos Completos, de Antero de Quental; edição crítica de Luiz Fagundes Duarte, Abysmos, 2018, 441 pags.

Entre Eros e Thanatos” – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso
“A criação poética de Antero de Quental teve o maior impacto na sua geração e continuou a motivar, no século XIX e no século XX, as gerações seguintes. Marcada por Cesário Verde e Camilo Pessanha, a geração do “Orpheu” também não ficou indiferente à poesia de Antero, em especial aos “Sonetos”. Está provado que Fernando Pessoa recebeu forte influência de Antero. Manuscritos existentes na Biblioteca Nacional revelam que Pessoa “não seria o que é se não tivesse havido, antes, um Antero, sobretudo, no espírito de muitas odes e de muitos dos ‘Sonetos’”.

Revelam, ainda, que Pessoa deixou traduções para inglês de muitos sonetos e projetou uma edição das Poesias de Antero, constituída por seis pequenos volumes, uma edição encadernada, de 370 páginas, do tipo da de Coleridge, por W & Foyle e da qual existe um exemplar, com a sua assinatura na sua biblioteca pessoal, na Casa Fernando Pessoa.

A propósito da geração do Orpheu, refira-se, também, o retrato quase desconhecido de Antero – que a Revista do Expresso divulgou – da autoria de Almada Negreiros e que fez parte da exposição retrospetiva apresentada, em 2017, na Fundação Gulbenkian.
Estas e outras questões encontram-se pormenorizadas no volume “Poesia II, Sonetos Completos”, que acaba de ser publicada na série Obras Clássicas da Literatura Portuguesa Século XIX, projeto em curso da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, e, no caso concreto, na sequência de “Poesia I”, que reuniu as “Odes Modernas e Primaveras Românticas”. Em ambos os volumes, a edição crítica é da responsabilidade do filólogo Luiz Fagundes Duarte, professor da Universidade Nova de Lisboa, que tem feito outras edições críticas e estudado os manuscritos autógrafos de escritores como Eça de Queirós, Fernando Pessoa, José Régio ou Vitorino Nemésio. Antero de Quental (1842-1891), além de uma recolha de sonetos de juventude — Coimbra, 1861 —, a chamada edição Sténio [pseudónimo literário do seu colega, amigo e também açoriano Alberto Teles (1840 1917)], publicou, no Porto, em 1881, outra edição de “Sonetos”, numa altura em que já atingira o maior prestígio intelectual, e, cinco anos mais tarde, em 1886, os “Sonetos Completos”, acompanhados por um estudo introdutório de Oliveira Martins, que inclui, com a anuência de Antero, cinco outras poesias a que chamou “lúgubres”: ‘Os Cativos’, ‘Os Vencidos’, ‘Entre Sombras’, ‘Hino da Manhã’ e ‘A Fada Negra’.
Em 1886, Antero acrescentou sonetos inéditos e dispersos estruturados em cinco ciclos correspondentes à sua evolução intelectual e filosófica, às intervenções cívicas, aos combates políticos e às efusões sentimentais e que ficaram assim distribuídos: 1860-1862, vinte; 1862-1866, vinte e oito; 1864-1874, dezassete; 1874-1880, vinte e três; e 1880-1884, vinte e um. Desta compilação surgiu uma segunda edição (1890), ainda em vida do autor, sem alterações nos textos dos sonetos, mas incluindo 46 traduções de 32 sonetos para alemão (por Wilhelm Storck), espanhol (Curros Enríquez e Baldomero Escobar), italiano (Giuseppe Cellini, Marco Antonio Canini, Emilio Teza e Tommaso Cannizzaro) e francês (Fernando Leal).
O conjunto de 109 sonetos de Antero teve sucessivas reedições, muitas das quais repetindo gralhas e outras incorreções que afetaram a autenticidade do texto. Entretanto, António Sérgio organizou, no âmbito do centenário do nascimento de Antero, celebrado em 1942, uma edição anotada, mais tarde inserida nos Clássicos Sá da Costa, e que não só manteve lapsos tipográficos como também alterou por completo a sistematização preconizada por Antero e Oliveira Martins.
 
 
A atual edição crítica realizada por Luiz Fagundes Duarte — com rigor textual levado ao extremo e com exaustiva erudição biográfica e bibliográfica —, apresenta as sucessivas variantes introduzidas pelo poeta, a partir dos manuscritos autógrafos, quando disponíveis, ou da última edição em vida. Numa secção de ‘Addenda’, Luiz Fagundes Duarte apontou três sonetos apócrifos, um dos quais a propósito de Camões, no centenário de 1880, ao qual Antero não se associou e assumiu atitude crítica: o soneto ‘Ananké’, que se provou não ser de Antero, mas sim de Joaquim de Araújo, pelo que desaparece do corpus anteriano. Mais ainda: dois sonetos atribuídos a Antero que circulavam, desde 1916, nos meios espíritas como tendo sido ditados por Antero através de um médium. Todavia, um dos outros méritos e revelações que se deparam nesta edição consistiu no trabalho meticuloso de verificação de largas centenas de manuscritos, em arquivos nacionais e estrangeiros, e de consulta em coleções de jornais e revistas, para recuperar todos os dispersos de Antero, até agora conhecidos. Perfazem 176 sonetos (traduções incluídas) relativos a diferentes períodos e que se encontram integrados na já referida arrumação por etapas cronológicas

Esta investigação, porém, não está concluída. Previsto para breve, e também a cargo de Luiz Fagundes Duarte, está o aparecimento do último tomo, “Poesia III – Poemas Dispersos, Alterados e Destruídos”, que virá substituir o volume póstumo “Raios de Extinta Luz”, preparado por Teófilo Braga (1892) e, posteriormente, acrescentado (1948) por António Salgado Júnior e José Bruno Carreiro. Nele se misturam sonetos e não sonetos, publicados uns em vida de Antero e outros póstumos. O critério e exigência agora adotados irão, certamente, corrigir e esclarecer lacunas e incorreções que perduram desde a edição “a vários títulos espúria” de Teófilo Braga.
Os “Sonetos” de Antero chegaram, através da tradução alemã de Wilhelm Storck, ao conhecimento de Tolstoi que registou a profunda emoção e apreço que lhe causaram. Antes da obra ortónima e heterónima de Fernando Pessoa, Antero de Quental foi um dos poetas portugueses de maior projeção e reconhecimento universal. Oliveira Martins afirmou que os “Sonetos” de Antero “não são os quaisquer episódios particulares de uma vida de homem; são a refração das agonias morais do nosso tempo, vividas, porém, na imaginação de um poeta”.
Embora tenha escrito nas mais diversas modalidades estróficas, Antero optou quase sempre pelo soneto que imortalizara “Dante, Miguel Ângelo, Shakespeare e Camões” para exprimir, conforme salientou, “a forma completa do lirismo puro”. Foi, portanto, na concisão lapidar do soneto, que Antero manifestou as crises de angústia metafísica, as lutas políticas, as efusões sentimentais e o exacerbado pessimismo, o testemunho do sofrimento físico resultante de sucessivas doenças que lhe tornaram a vida insuportável e aceleraram o trágico encontro com a morte.
Os “Sonetos” de Antero colocam-nos perante o grito que arde, o verbo que anuncia e o murmúrio que soluça, a presença dominadora de Eros e Thanatos, matriz de um imaginário que oscila entre a labareda do amor e o espetro da morte. E, muitas vezes, a fatalidade e o orgulho de ser açoriano. No auge da mais ruidosa das polémicas em que esteve envolvido, não hesitou em considerar os portugueses de outras regiões do país os meus “quase patrícios”. Era a reivindicação das suas origens que, além das circunstâncias familiares, denunciaram na sua poesia, em especial nos “Sonetos”, os fatores geográficos que singularizam o arquipélago.

O mar é, assim, um dos lugares onde podemos, na sua ilha ou em qualquer outra parte do mundo, estar perto de Antero, de olhar horizontes que o quotidiano oculta e de ouvir, na voz do vento, o legado sempre vivo da sua inquietação”

SONETO

Este é o livro das vinganças nobres,
O inferno dos que têm o céu na terra:
Nem vingança; justiça
- Oh vós que as lagrimas
Trazeis sempre nos olhos, sem se querem,

Lázaros no banquete da existência,
Oh filhos do dever! Lede este livro,
Porque através de um mundo de misérias
Do largo peregrinar chegando ao termo,

Heis- de ouvir, lá das bandas do futuro,
A grande voz do Cristo, a voz eterna,
Erguer – se sobre os filhos da verdade:

«- Felizes dos que sofrem – terão prémio:
Feliz do pobre e triste, órfão de afetos,
Será rico: no céu seu pai o espera!»

[Nota] Coimbra, Dezembro de 1861 e incluído com o número 129, pag. 191 da atual edição, com o titulo “Na Primeira Pagina do Inferno do Dante”. Pela primeira vez – e nesta edição critica – passa a integrar os Sonetos Completos de Antero.
Eros e Thanatos – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 3 de Fevereiro de 2018, pp. 72/73 – texto agora acrescentado pelo autor e com sublinhados nossos.
António Valdemar
J.M.M.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

O PINTOR DOMINGOS REBÊLO EM 10 PINCELADAS – LIVRO E CONFERÊNCIA



AUTORA: Rosa Maria Neves Simas;
EDITORA: Letras Lavadas;

APRESENTAÇÃO:

DIA: 2 de Fevereiro de 2018 (21,30 horas);
LOCAL: Casa dos Açores [Rua dos Navegantes, 21 – à Lapa], Lisboa;
ORGANIZAÇÃO: Casa dos Açores;

ORADORES: António Valdemar (Academia das Ciências) | Jorge Rebêlo

 
O pintor e professor Domingos Maria Xavier Rebelo (1891-1975) nasceu em Ponta Delgada a 3 de Dezembro de 1891, de família de “posses modestas” mas que valorizava o ensino e a educação, como uma valia importante para a ascensão social e cultural. Fez Domingos Rebelo os seus estudos (de forte componente católica) no Instituto Fischer, revelando cedo uma especial propensão para as artes e a pintura. Ingressou na Escola de Artes e Ofícios Velho Cabral [por iniciativa do Decreto de 22 de Agosto de 1889, de Emídio Navarro, são fundadas Escolas Técnicas nos Açores; a 1 de Outubro de 1890 inicia-se as aulas na Escola de Desenho Industrial Gonçalo velho Cabral, curiosamente no solar onde nasceu Antero de Quental], actual Escola Secundária Domingos Rebelo. Com apoio dos condes de Albuquerque, “impressionadas com a qualidade da sua arte”, Domingos Rebelo parte para Paris para prosseguir os seus estudos (tinha 15 anos de idade).


É em Paris que Domingos Rebelo estuda e convive com uma plêiade de notáveis nomes da pintura [Léon Bonnat, Amadeu de Sousa Cardoso, Santa Rita Pintor, Emmerico Nunes, Dórdio Gomes, Eduardo Viana, Manuel Bentes, Pedro Cruz] que lhe marcam decisivamente a sua valiosa obra artística.    

Regressa em 1913 a sua Ilha de S. Miguel, ali permanecendo 30 anos, com deslocações a Lisboa, participando regularmente em exposições na Sociedade Nacional de Belas-Artes. A partir de 1942 estabelece-se em Lisboa, onde produz obras importantes, ao mesmo tempo que leciona, foi director da Biblioteca Museu do Ensino primário, director da Academia Nacional de Belas Artes (1947-1970).

Morre a 11 de Janeiro de 1975.  

J.M.M.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

GLÓRIA AOS REVOLUCIONÁRIOS DE 31 DE JANEIRO DE 1891



 
Glória ao 31 de Janeiro de 1891
 

A revolução republicana de 31 de Janeiro de 1891, na cidade do Porto, foi a primeira das várias “manifestações revolucionárias” visando implantar a República. Essencialmente militar (contando com o apoio de civis), a revolta republicana foi, passe o seu insucesso, um dos muitos “gritos patrióticos” erguidos contra a degradação da situação política, social e económica do final da monarquia, sendo, sem dúvida, uma data histórica de luta e paixão pelo ideário republicano em Portugal. Como tal faz parte do vasto património revolucionário republicano e democrático.

 
Eu meu Senhor, não sei o que é a República, mas não pode deixar de se uma coisa santa. Nunca na Igreja senti calafrio assim. Perdi a cabeça então como os outros todos. Todos a perdemos. Atirámos então as barretinas ao ar. Gritámos todos: Viva, Viva, Viva a República” [testemunho, em tribunal, de um soldado implicado no movimento]
J.M.M.

domingo, 21 de janeiro de 2018

22 DE JANEIRO DE 2018 - VIVA O SINÉDRIO - BICENTENÁRIO DA SUA FUNDAÇÃO


 
VIVA O SINÉDRIO
 
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22 Janeiro 1818/2018 - Bicentenário da Fundação do Sinédrio
 
Jornal publicado pela Editorial Moura Pinto | Pró-Associação 8 de Maio
a ser distribuído gratuitamente no dia 22 de Janeiro de 2018, na cidade do Porto
 
[clicar nas imagens para ler]
 
J.M.M.

[22 DE JANEIRO] CASA DA CULTURA DE S. COMBA DÃO - JOSÉ DA SILVA CARVALHO E O BICENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO LIBERAL DE 1820



A caminho das Comemorações do Bicentenário da Revolução Liberal de 1820, há lugar na Casa da Cultura de Santa Comba Dão a Sessão de Abertura, com a Evocação de José da Silva Carvalho (1782-1856).

DIA: 22 de Janeiro de 2018 (20,30 horas);
LOCAL: Casa da Cultura de Santa Comba Dão [Avenida Santo Estêvão, S. Comba Dão];
ORGANIZAÇÃO: Casa da Cultura de S. Comba Dão;

PROGRAMA:

20.30 Horas - Recepção aos Convidados;
21.00 Horas – Sessão de Abertura das Comemorações do Bicentenário da Revolução Liberal de 1820.

ORADORES/TEMAS:

- Leonel Gouveia: “Apresentação e Enquadramento”;

- António Neves: “Calendarização das Comemorações e o papel de José da Silva Carvalho e de outros conterrâneos do concelho e da região no Liberalismo

- Ana Cristina Araújo: As revoluções liberais na Europa e em Portugal - a acção do liberal José da Silva Carvalho
 
A não perder.

José da Silva Carvalho foi um vulto ilustre de Santa Comba Dão (nasce em Dianteira, freguesia de S. João das Areias); filho de lavradores pobres, frequenta o Colégio das Artes de Coimbra, matriculando-se depois (1800) em Leis na Universidade de Coimbra, onde se forma em 1803; parte para Lisboa onde abre banca de advogado; em 1810, aproximando-se a III invasão francês, comandada por Massema, é nomeado Juiz de Fora de Recardães (Águeda) e depois, por intermédio de Wellington, ocupa (1814) o lugar de Juiz dos Órfãos do Porto. Conhece na cidade do Porto os patriotas, Manuel Fernandes Tomás (Desembargador da Relação e Casa do Porto), José Ferreira Borges e João Ferreira Viana, integrando, resolutamente, a associação secreta por eles pensada, o Sinédrio (fundada a 22 de Janeiro de 1818), que foi a luz da Revolução Liberal de 24 de Agosto de 1820, na cidade do Porto; coube-lhe a missão de arregimentar os elementos militares para esse glorioso pronunciamento; depois da Revolução de 24 de Agosto; é nomeado para a Junta Provisional do Supremo Governo do Reino (Porto), depois integra a Junta Provisional Preparatória das Cortes; é nomeado (27 de Janeiro de 1821) membro da Regência, encarregado do governo do estado; tomou, depois da Chegada de D. João VI, a pasta dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, até 1823 (Vilafrancada); nessa data, entendendo que a perseguição contra os liberais, pela facção absolutista, não se faria esperar, emigrou (como outros tantos) para Inglaterra, regressando em 1826; com a aclamação ao trono de D. Miguel, depois de lhe terem passado ordem de prisão, exila-se de novo em Londres, depois de uma serie de aventuras rocambolescas na sua terra natal, na tentativa de não ser feito prisioneiro; em Inglaterra, por intermédio do Duque de Palmela, é nomeado vogal de Socorros aos Emigrados, fugidos da sanha persecutória miguelista; com a reação de D. Pedro IV (1831) contra a usurpação do trono por D. Miguel e pela libertação dos portugueses do despotismo miguelista, acompanha-o na sua campanha, pelos Açores e no Porto (aqui com valiosa missão perante o cerco do Porto pelos absolutistas), e parte com ele para Lisboa; foi deputado, entre 1834-36 e ministro da Fazenda; com o Setembrismo volta, de novo, a exilar-se (1836-38), só regressando em 1838, tomando lugar de deputado às Cortes até 1842, integrou a Câmara dos Pares (foi seu Vice-Presidente).
 
 

José da Silva Carvalho foi sócio da Academia Real das Ciência, importante membro da Maçonaria (Irmão Hydaspe) - tendo sido Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano (1822-39) e Soberano Grande Comendador (1841-56) -, foi Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Conselheiro de Estado; tinha a Grã-Cruz da Ordem de S. Tiago e da de Carlos III de Espanha.

Deixou-nos José da Silva Carvalho curiosas intervenções na Câmara dos Pares, que podem ser consultadas online no site da Assembleia da República; a sua Correspondência Epistolar é copiosa e em parte já está publicada [António Viana, “José da Silva Carvalho e o seu Tempo”, Lisboa, Impr. Nacional, 1891-1894]; deixou escrito um opúsculo, “Manifesto sobre a execução que teve a lei de 19 de Dezembro de 1834 nas operações de fazenda que em virtude della se fizeram. Offerecido às Cortes e à Nação Portugueza, Lisboa, Typ. Patriotica de Carlos José da Silva & Comp., 1836”.   

Faleceu a 5 de Setembro de 1856, em Lisboa, e está sepultado no Cemitério dos Prazesses, Lisboa.  

J.M.M.

sábado, 6 de janeiro de 2018

HISTORIOGRAFIA CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA DE 2017 – A NOSSA ESCOLHA

 
HISTORIOGRAFIA CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA DE 2017

1. Republicanos, Anarquistas e Comunistas no Exílio (1927-1936)Cristina Clímaco (Colibri), 385 p. 
2. Manuel de Arriaga e a construção da imagem da RepúblicaMaria João Neto (Caleidoscópio), 120 p. 

3. Chefes de Governo Maçons. Portugal (1835-2016)António Ventura (Nova Vega), 280 p.
4. A Grande Guerra e a Construção do Mundo ModernoAntónio José Telo, Pinto RamalhoAntónio Ventura  (Fronteira do Caos), 256 p. | A Grande Guerra nos Açores. Património e Memória MilitarSérgio Rezendes (Caleidoscópio), 312 p.

5. Gomes Freire de Andrade. O Mártir do MitoFernando Marques da Costa (Instituto de Estudos Maçónicos), 140 p. | Gomes Freire de Andrade: Um Mártir da PátriaA. J. Rodrigues Gonçalves (Âncora Editora), 142 p.

6. Portugal e os Nazis. Histórias e Segredos de uma AliançaCláudia Ninhos (A Esfera dos Livros), 328 p. | Salazar. Anos de TensãoArnaldo Madureira (Clube do Autor), 392 p.
7. A Maçonaria na Sociedade Amor da Pátria. A História de uma Loja no FaialAntónio Lopes (Edição Sociedade Amor da Pátria), 192 p. | Elites e Educação. O Liceu de ÉvoraFernando Luís Gameiro  (Colibri), 446 p.

8. Contra o Vento. Portugal o Império e a maré anticolonial (1945-1960)Valentim Alexandre (Temas e Debates), 840 p.
9. História da Indústria Portuense. 1. Dos finais do século XVIII a 1852José Manuel Lopes Cordeiro  (Edições Afrontamento), 246 p.

10. Provocações: por Dever de OfícioJoaquim Romero de Magalhães (Palimage), 294 p.

A.A.B.M.
J.M.M.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

REVISTA DE CULTURA LIBERTÁRIA - “A IDEIA” Nº81/83



A IDEIA. Revista de Cultura Libertária. II Série, Outono de 2017, nº 81-83 (número triplo, Dezembro 2017); Director: António Cândido Franco; Consultor Editorial: Artur Cruzeiro Seixas; Editor Gráfico: Luís Pires dos Reys; Impressão: Europress; Lisboa; 2017, 320 p.

“A Ideia regressa em 2017 reafirmando a sua marca identitária entre as publicações portuguesas, até da área em que nasceu e se situa, através da atenção que consagra ao surrealismo como “caso de estudo” mas também como prática actuante e “modo de vida”. Além dos documentos e dos textos que o leitor pode encontrar neste número que se prendem com o conhecimento activo desse movimento e das suas figuras portuguesas, republicamos na secção “Leituras & Notas” o editorial do número duplo 30/31 d’ A Ideia (Outono, 1983), consagrado à criação picto-poética e que contou com o empenho de Mário Cesariny. Escrito e publicado há 34 anos, o texto não assinado mas redigido por Miguel Serras Pereira mostra a continuidade entre o passado e o presente desta revista e ilustra a seu modo o entusiasmo que desde há muito votamos ao surrealismo e às suas aspirações indeléveis de liberdade, de amor, de imaginação e de poesia.

Um século depois da revolução russa de 1917, com certeza o evento que mais marcou o desenvolvimento da história mundial no século XX, pareceu-nos indispensável, mais ainda numa publicação que teve como referencial de origem a cultura operária, reflectir sobre este acontecimento com as perspectivas e as ideias que nos são próprias. Ao longo das várias secções deste volume apresentamos um conjunto diverso de materiais sobre o evento, uns amplamente divulgados internacionalmente, mas deficientemente conhecidos entre nós, como os respeitantes à figura de Nestor Makno e aos sucessos de Cronstadt de Março de 1921, outros quase desconhecidos, como os que documentam o impacto da revolução russa na imprensa operária portuguesa da época – e numa altura em que o jornal A Batalha ainda juntava Bakunine, Kropotkine, Lenine e Trotsky. Neste capítulo, além dos estudos de Paulo Eduardo Guimarães e Gabriel Rui Silva, chamamos a atenção para o levantamento feito por António Baião, incidindo na revista A Sementeira, barómetro afinadíssimo dos eventos russos então em curso. Cumpre destacar a figura do operário caldeireiro Hilário Marques, director da publicação, de quem se republicam alguns dos editoriais então dados à estampa. São peças notáveis de independência, de espírito crítico e de perspicácia analítica, valores aliás comuns ao escol operário da época, formado nos valores emancipadores do sindicalismo libertário e todo notavelmente auto-didacta.

Por fim queremos assinalar a republicação do texto de José Pedro Zúquete, publicado pela primeira vez na revista Análise Social (n.º 221, vol. LI, 4.º trimestre, 2016, pp. 966-989), não por estarmos de acordo com tudo o que diz – estamos longe até dalguns enfoques – mas por nos parecer que pela primeira vez, ao menos nos tempos mais recentes, um texto exterior ao movimento, escrito por um jovem politólogo, a quem agradecemos a autorização que nos deu para reproduzir e comentar o seu trabalho, mostra um genuíno interesse pela história das nossas ideias e um rico e actualizado acervo de informações sobre uma parte do anarquismo contemporâneo, podendo assim tornar-se num ponto de reflexão interna. Daí o pedido que fizemos a dois históricos da revista, João Freire e Jorge Leandro Rosa, para comentarem o texto, que levanta porém questões – nas relações do anarquismo com a violência – que os dois comentários aqui publicados, que só comprometem os autores, não esgotam. É pois possível que a ele regressemos em próximo número. Os libertários bateram-se por uma sociedade livre e sem coacções e por isso há 100 anos não puderam seguir os rumos da revolução russa. Continuam hoje a desejar uma sociedade livre e cooperante, sem coacções, sem guerras, sem violências e por isso não podem aceitar a violência – a desobediência civil como Thoreau, Gandhi e Luther King a praticaram, mesmo quando ilegal, valendo por isso aos seus autores a cadeia, é eticamente irrepreensível – como ponto de partida da sociedade a que aspiram” [in Limiar, p. 7, da revista].

[Alguns Anotações Nossas]: António Baião [A Revolução Russa na Imprensa Operária e Libertária da I República - bibliografia], António Cândido Franco [Henry David Thoreau e a Moderna Tradição Libertária], [Conversa com Cruzeiro Seixas], [Correspondência de Fernando Alves dos Santos para Cruzeiro Seixas], [Correspondência de Luiz Pacheco para Fernando de Paços], [Correspondência Mário Cesariny/Natália Correia], Dossier Portugal Surrealismo, Emma Goldman [Recordações de Kropotkine], Gabriel Rui Silva [Manuel Ribeiro, Eduardo Metzner e a Revolução Russa de 1917], [Memorial de Cronstadt], Fernando J. B. Martinho [Virgílio Martinho: Poeta], Hilário Marques [Editoriais D’A Sementeira], Jaime Brasil [A Rússia dos Sovietes], Jaime Salazar Sampaio [textos … inéditos], João Freire [A Acção Anarquista Hoje e há um Século], João de Sousa [poema], José Maria Carvalho Ferreira [Contradições e Equívocos Históricos da Revolução Russa], José Pedro Zúquete [O Anarquismo está de volta?], Manuel da Silva Ramos [Baptista-Bastos Vivo e Indispensável], Miguel Real [Virgílio Martinho entre o surrealismo e o neo-realismo], Paulo Eduardo Guimarães [O Iconoclasmo Acrata e a Crise da Consciência Revolucionária em Portugal nos Anos 20], Risoleta C. Pinto Pedro [Jaime Salazar Sampaio – O Homem Drama].
J.M.M.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

CURSO BREVE DE PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL


A Direcção Regional de Cultura do Algarve vai levar a efeito durante o próximo mês de Janeiro de 2018, um Curso Breve de Património Cultural Imaterial, num total de 35 horas, que conta com a coordenação científica da Prof. Doutora Carla Almeida, a ter lugar às segundas e terças-feiras.

Pode ler-se na nota de divulgação do curso:

A Direção Regional de Cultura do Algarve vai promover durante o mês de janeiro de 2018 um Curso Breve sobre Património Cultural Imaterial, focado na região e que visa difundir os conhecimentos científicos sobre o Património Cultural Imaterial, bem como os processos necessários para o seu registo e salvaguarda. 

Terá a duração de 5 dias e conta com a coordenação científica da Profª. Dra. Carla Almeida. O curso terá início no dia 15 de janeiro.

As sessões terão uma parte expositiva, teórica, sendo facultados materiais de apoio aos formandos. Procurar-se-á relacionar os conhecimentos transmitidos com as experiências dos participantes, incentivando o trabalho em conjunto, de modo a estimular e potenciar a troca de experiências, enquadradas pela relação teoria/prática. 

Cada uma das sessões contará com a presença de diversos especialistas convidados que apresentarão trabalhos por si desenvolvidos nos seguintes domínios:

Espaço – rural, urbano e marítimo.

Pesquisa – histórica, interação direta e registos audiovisuais.

Património Cultural Imaterial – proponentes e candidaturas registadas no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial/INPCI. 

Este Curso destina-se a todos os que estiverem interessados nesta temática.

As inscrições são gratuitas, podendo ser feitas até ao dia 10 de janeiro através do email: cristina.santos@cultalg.gov.pt indicando os seguintes dados: nome e entidade a que pertence. 

Solicitamos a vossa colaboração na divulgação.


Uma iniciativa louvável e que merece a melhor divulgação junto das entidades locais e dos interessados  na temática do Património.

A.A.B.M.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

2018 FRATERNO – SAÚDE, PAZ E PROSPERIDADE


 
“Tudo o que existe tem de passar; mas as gerações sucedem-se, e é maravilhoso que, sendo tudo o mesmo, tudo é diverso” 

[Sampaio Bruno]


Aos estimados leitores, amigos e companheiros destas viagens de encantos & desencantos,  deste itinerário e fragmentos da Grande Alma Republicana, aceitai os nossos VOTOS de Feliz Festividades e um 2018 Solidário, Próspero e Fraterno.

 
Saúde, Paz & Fraternidade

Vale!

sábado, 9 de dezembro de 2017

BARCA NOVA. SEMANÁRIO DEMOCRÁTICO PROGRESSISTA



BARCA NOVA. Semanário Democrático Progressista. Ano I, nº 1 (10 Novembro 1977) ao Ano VII, nº 241 (3 Junho 1983); Propriedade: Empresa Jornalística do Mondego, SARL; Administração e Redacção: Rua Nogueira da Carvalho, 1 r/c, Figueira da Foz (depois, Rua da República, idem), Porto; Director: Wilson dos Santos Nunes (depois, ao nº 104, José Fernandes Martins); Impressão: Atlântida Editora, SARL, Coimbra; Figueira da Foz; 1977-83, 241+2 numrs
 
Trata-se de um “semanário regionalista” democrático e progressista, politicamente militante na área da esquerda, que se publicou entre 1977 e 1983 na cidade da Figueira da Foz e que pretendia defender “os interesses das populações da Figueira da Foz e concelhos limítrofes”. E fê-lo com rasgado e impiedoso vigor de crítica política (o que explica alguma incomodidade ressentida pelo então situacionismo político local; afinal, na provocação e no estar contra-a-corrente estava a máxima imperativa de Joaquim Namorado: “só a ortodoxia é uma aventura”) e uma graciosa ironia (o humor da pena de José Fernandes Martins era perfumadamente corrosivo); e tanto assim foi que logo no seu primeiro número (1977) foi objecto de “cortes” da censura. Teve como principais fundadores e orientadores ideológicos duas personalidades excepcionais, dois grandes amigos, dois grandes companheiros de jornadas culturais e políticas, Joaquim Namorado e José Fernandes Martins, ambos luminosos colaboradores da imprensa regional e nacional, quer nos periódicos República, Diário de Lisboa, Opinião, Diário e, principalmente, na revista Vértice.


O semanário era propriedade de uma curiosa sociedade anónima de responsabilidade limitada [Joaquim Namorado estava, certamente, consciente do que aconteceu à antiga revista “Vértice”], a Empresa Jornalística do Mondego [foi constituída aos 22 de Agosto de 1977] e os seus corpos gerentes eram assim formados: Conselho de Administração: Carlos Manuel dos Santos Neto (Pres.), Wilson dos Santos Nunes e Mário António Figueiredo Neto; Conselho Fiscal: Joaquim José Cerqueira da Rocha (Pres.), Armando de Oliveira Correia e Lídia da Silva Amaral Beja da Silva (efectivos) e José Augusto Alves Fernandes (suplente); Mesa da Assembleia Geral: Rui Pinto Ferreira Alves (Pres.), José Alberto de Castro Fernandes Martins e António Reis (secretários). Era impresso todas as quartas-feiras em Coimbra, na tipografia da Editora Atlântida; seguia depois para a Figueira da Foz, via comboio, nas mãos do recoveiro da CP, para as competentes provas de revisão ortográfica e tipográfica; regressava de novo a Coimbra e findo o trabalho correctivo partia no comboio matutino dos sábados para a Figueira da Foz, para a sua cobertura local e envio pelo correio aos assinantes (sob direção de Adalberto Carvalho); é evidente a colossal aventura logística que exigia, o que não poucas vezes atrasou a distribuição (à volta de 2000 exemplares) do jornal.  


[Alguns Escritos] Colaboração: A. Esteves, A. Janeiro, Adelino Tavares da Silva, Alexandre Campos, Álvaro Bica, António Agostinho, António Augusto Menano, António Maria Carvalho, António Martins Quaresma, António Nascimento, António Oliveira, Armando Correia, Arménio Paixão, Augusto Alberto Pinto Rodrigues, Carlos A. Leal, Carlos Alberto Amorim, César dos Santos, E. Sousa-Abreu, Fernando Gomes Pedrosa, Fernando Lopes Graça, Gilberto Vasco, Guije Baltar, Helder Fonseca, Idalécio Cação, Joaquim António Carriço, Joaquim da Graça, Joaquim José Cerqueira da Rocha, Joaquim Namorado, Jorge Camarneiro, Jorge Leite, Jorge Rigueira, José Augusto Alves Fernandes, José Ferreira Monte [com inéditos], José Fernandes Martins, José Penicheiro, José Traqueia Bracourt, Leitão Fernandes, Leonor Santa Rita, Luís de Albuquerque, Luís Carvalheira, Luís Falcão, Luís Melo Biscaia, Luísa Maria Martins, Lucinda Alves Jordão, Luiz Francisco Rebello, Manuel Cintrão, Mário Castrim, Mário Dionísio, Mário Neto, Mário B. Ribeiro, Mário Reis, Miguel Andrade, Orlando de Carvalho, Pedro Biscaia, Rui Clímaco, Rui Namorado, Rui Santos, Ruy Alves, Teixeira Martins, Sant’Anna Dionísio [“Mondego e os Campos de Coimbra a Montemor”, nº78 e ss], Vasco Gonçalves, Victor Camarneiro, Vital Moreira, Vitorino de Nemésio, Waldemar Ramalho.
J.M.M.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

MANUEL DA SILVA MENDES: MEMÓRIA E PENSAMENTO


 
LIVRO: Memória da Silva Mendes: Memória e Pensamento | Ensaios de: António Aresta, Amadeu Gonçalves e Tiago Quadros

AUTOR: Manuel da Silva Mendes (1867-1931);
EDIÇÃO: Livros do Oriente, 2017, p. 600
LANÇAMENTO:

DIA: 6 de Dezembro 2017 (18,30 horas);
LOCAL: Fundação Rui Cunha (Av. da Praia Grande, Macau)
ORADOR: Jorge Morbey.

Trata-se da reedição da curiosa obra de Manuel da Silva Mendes (1867-1931), um dos mais proeminentes eruditos da história contemporânea e da tradição e arte de Macau, aqui no seu primeiro volume. Os textos de Silva Mendes, que era uma personagem multifacetada (advogado, professor, juiz, filosofo, antiquário colecionador, …), versam nesta copiosa obra os seus ensaios sobre Arte, Filosofia e Religião e Tradições Chineses, antes publicadas nos periódicos e em obra avulsas.



A obra é acompanhada de três ensaios sobre a figura de Silva Mendes, assinados por António Aresta, Amadeu Gonçalves e Tiago Quadros.

Manuel da Silva Marques, formado em Direito por Coimbra, era republicano e ateu, e tinha um notável cabedal de conhecimentos, ao mesmo tempo que era um curioso divulgador do anarquismo individual e metafísico e das suas doutrinas; parte para Macau só em 1901, dada a sua nomeação para professor do liceu (leccionava latim e português) e depois seu reitor, que manteve durante duas dezenas de anos; exerceu outras funções, até à sua morte em 1931, numa vida ricamente preenchida, com uma intervenção cívica e social local importante, trabalhando e tertuliando com alguns dos maiores vultos de antanho, entre eles o poeta Camilo Pessanha.  

J.M.M.

domingo, 3 de dezembro de 2017

IN MEMORIAM DE MÁRIO NETO (1942-2017)



O engenheiro e professor Mário Neto, cuja morte surpreendeu amigos e admiradores, partiu discretamente, como sempre rendilhou a sua vida, faz esta noite uma semana. Este nosso querido amigo, dedicado companheiro e mestre, não consentiu – na sua proverbial humildade – a homenagem pública que fraternalmente se impunha à admiração e respeito das suas avultadas qualidades humanas e que os figueirenses sabiamente lhe reconheciam. Partiu de rosto levantado, com a honrada obrigação do dever cumprido.

O falecimento do Mário Neto, leitor atento (e crítico) do Almanaque Republicano [como antes, do Almocreve das Petas], deixa-nos profundamente consternados: pelo saber que irradiava, na inteligência, bondade e generosidade intelectual que repartia e o engrandecia. Mário Neto, como tão bem disse [in Diário das Beiras, 30/11/ 2017] o nosso comum amigo Guedes Correia era “uma figura quase renascentista, ao estilo de Leonardo da Vinci ou de Pico della Mirandola, capaz de ter um discurso motivante e encorajador sobre a humanidade e sobre o mundo a partir da sua experiência pessoal, das suas leituras, das suas viagens”.

Mário Neto foi nosso distinto professor na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e, na lei que regula os destinos, tivemos o privilégio de nos ter honrado com a sua amizade e companheirismo. A sua intensa luz soube-nos aproveitar este tempo de utopias, essa “grande paz exterior das coisas” [H.H.] com a serenidade prudente que o sentimento de liberdade exige. E que Mário Neto tão ciosamente buscava, na sua perfumada independência e na benevolência do seu pensamento. O seu legado pela igualdade e dignidade dos Homens, de que era cultor irredutível, eleva-se admirável e eloquentemente. E não será esquecido.

Até sempre, Mário Neto.

Mário António Figueiredo Neto nasceu na Figueira da Foz a 19 de Fevereiro de 1942. Fez os seus estudos no liceu da Figueira da Foz até ao 2º ano, terminando depois o ensino secundário no Liceu D. João III (actual José Falcão). Entretanto foi um curioso desportista, do futebol à prática de ténis de mesa, representando nesta última modalidade o Ginásio Clube Figueirense. Partiu para Lisboa, matriculando-se no Instituto Superior Técnico [IST], em engenharia de máquinas, ou engenharia mecânica [o Núcleo de Estudos de Engenharia Mecânica data de 1960 e foi o primeiro e único a trabalhar até 1975].

Em Lisboa, residiu numa das várias “repúblicas” que pululavam à volta do IST, onde conviveu (e se fez amigo) com uma geração de estudantes messiânicos [dos católicos progressistas aos futuros membros da FAP/CMLP], intransigente contra a ditadura e o Estado Novo. O cinema (sua grande e eterna paixão) e a vida associativa moldaram-lhe o dom e o ornamento do seu carácter, assumidamente combativo contra a impetuosa repressão cultural e política do seu tempo. Frequentou, então, o movimento do cineclubismo, que dava os seus passos, assumindo a direcção (1964) do Cineclube Universitário de Lisboa [CCUL].  

A crise de 1964-65, consequência dos movimentos estudantis de 1956 e de 1962, torna-o activista consciente dos valores da democracia e da liberdade. O Partido Comunista, então em movimento de rectificação contra o “desvio de direita” [antes, Álvaro Cunhal, que se tinha evadido, com outros camaradas seus, do Forte de Peniche, foi nomeado secretário-geral do partido, em Janeiro de 1960], aprova, em Abril de 1964, o importante relatório, elaborado por Álvaro Cunhal, “Rumo à Vitória. As tarefas do Partido na Revolução Democrática e Nacional”, que marca uma nova linha política de combate e derrube do fascismo. A importância dada à conquista da direcção de movimentos culturais e associativos (caravanismo, cineclubismo, associação de estudantes e associações culturais em geral) é notória, visando politizar amplos sectores da população e em especial, mobilizando os estudantes, então ávidos de liberdade e modernidade [sobre este curioso assunto, veja-se: Guya Accornero, Efervescência Estudantil. Estudantes, acção contenciosa e processo político no final do Estado Novo (1956-1974), 2009]. Assim, Mário Neto integra-se nesse movimento, que irrompe à escala nacional (e sabe-se o efeito que teve na greve académica de 1969, em Coimbra; de outro modo, tenha-se em conta o começo dos protestos contra a guerra do Vietname, na Universidade de Berkeley, também em 1964) e, particularmente, no Instituto Superior Técnico     

No dia 24 (ou 25?) de Novembro de 1964, Mário Neto é preso na rua pela PIDE. Então na direcção do CCUL [cf.Liberdade para os Estudantes Presos”, 1º informação das Comissões de Apoio; antes já tinham sido detidos inúmeros estudantes de várias Faculdades, entre os quais Saldanha Sanches, Rui Faure da Rosa, …], Mário Neto (pseudónimo Cândido) é acusado de ser dirigente do PCP no IST, não tendo prestado à PIDE qualquer declaração [outros dirigentes então presos e acusados de ligação ao PCP, seriam: José Crisóstomo Teixeira (pseud. Gonçalo; controlaria superiormente as actividades da Faculdade de Ciências, IST, RIA, Belas-Artes, ISCEF, liceus e escolas técnicas), Humberto António Caria Lucas (pseud. Hugo; juntamente com o Mário Neto seria quem orientava as actividades do IST) – ver jornal República 28/01/1965, p.2 e 15].

No Aljube partilha a mesma cela com Mário Lino (Milo), Fernando Rosas (Rui) e outros mais, quase todos presos na sequência da vaga de prisões verificadas a 21 de Janeiro de 1965, por delação do controleiro do PCP para o sector estudantil Nuno Álvares Pereira [NAP] (pseud. Moreira – ver sobre este assunto, Irene Pimentel, “Vitimas de Salazar”). Refira-se que o caso NAP não esta completamente esclarecido, colocando-se a hipótese de ter sido, ele próprio, um infiltrado da PIDE. Por último, diga-se que a vaga de prisões verificada decapitou o sector estudantil de Lisboa do PCP e curiosamente, como AQUI referimos, deixou incólume o sector de Coimbra, então sob direcção de Valentim Alexandre, ou Vieira. Mário Neto é julgado em 11 de Agosto de 1965, no Plenário Criminal Auxiliar da Boa-Hora, tendo sido absolvido, saindo em liberdade (cf. Diário de Lisboa, 12/08/1965, p. 2).   

Lecciona na Escola Emídio Navarro (Setúbal) em 1965/66 e na Escola Afonso Domingues  (Lisboa) no ano de 1966/67, tendo sido afastado compulsivamente desta Escola a 14 de Junho de 1967, por motivos políticos, pelo Despacho do Conselho de Ministros de 13 de Junho desse ano.  

Cumpre, depois, serviço militar, tendo sido incorporado a 12 de Julho de 1971, saindo a 27 de Setembro de 1974 ( esteve às ordens de Vasco Gonçalves).  Termina o curso em engenharia e, de imediato, matriculou-se e frequentou, com aproveitamento, Economia no ISCEF   

 


No regresso à Figueira da Foz, no ano letivo de 1974/1975, lecionou na Escola Industrial Bernardino Machado. Depois do 25 de Abril, manteve-se militante do PCP, integrando como deputado a Assembleia Municipal. Demitiu-se, em discordância política com o Partido, ainda quando era deputado pela Assembleia.

Mário Neto teve ensejo de integrar o grupo inicial desse curioso projecto figueirense, o periódico “Barca Nova” [semanário democrático progressista;1, 10 de Novembro de 1977 ao nº 241, de 3 de Junho de 1983], sob impulso (principalmente) de Joaquim Namorado e José Fernandes Martins, em torno da Empresa Jornalística do Mondego, SARL, tendo colaborado com textos e pertencido desde a constituição da sociedade, ao seu Conselho de Administração [juntamente com Carlos Neto, presidente, e Wilson dos Santos, que foi, ao mesmo tempo, o primeiro director].

A partir de 1975/1976, Mário Neto é assistente convidado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, ministrando a disciplina de Microeconomia. Aposentou-se em Dezembro de 2008.   
 
Mário Neto era membro do Grande Oriente Lusitano há mais de duas dezenas de anos, fazendo parte da Loja Fernandes Tomás, da Figueira da Foz.

Faleceu no final do dia 26 de Novembro de 2017.

J.M.M.