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domingo, 10 de junho de 2018

DIA DE CAMÕES, DE PORTUGAL E DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS - PRECE



"Senhor, que és o céu e a terra, e que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo estás — (o teu templo) — eis o teu corpo.
Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.
[...]
Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.
Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.
Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim"
[FERNANDO PESSOAin Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação]

J.M.M.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

CAMÕES, JUSTIFICAÇÃO DO 10 DE JUNHO


Camões, justificação do10 de Junho” – por António Valdemar, in Público


“A polémica em redor dos feriados nacionais não atingiu o 10 de Junho. Sejam quais forem os aproveitamentos de governos e governantes de vários regimes (monarquia absoluta e monarquia liberal, Iª república, salazarismo e IIª república) Camões não se pode reduzir aos jogos partidários e aos expedientes da retórica política.
A leitura d’Os Lusíadas e outras obras que nos legou ultrapassa as manipulações arbitrárias e circunstanciais. O homem – tal como o retrataram os que o conheceram – manifestou-se com frontalidade e independência. Não recorreu – como era habitual na época – a um prefaciador para fazer a apresentação d´Os Lusíadas, nem escondeu o protesto contra a situação que o País vivia.

A Inquisição estava instalada desde 1536. A Censura encontrava-se em pleno funcionamento. Os livros eram submetidos à leitura prévia e só podiam ser impressos e postos a circular depois da autorização do Santo Oficio. Assim aconteceu, em 1572, com Os Lusíadas. Sousa Viterbo e Aquilino Ribeiro analisaram hipóteses do que terá sido truncado no manuscrito. Também se pronunciaram acerca de intervenções do censor – em cumplicidade negociada com o Poeta - que fabricou versos atribuídos a Camões, para deixar passar outros.
Mesmo assim, em sucessivas estrofes d’Os Lusíadas, deparamos um sentido crítico em torno de questões teológicas, políticas e sociais. Apelos contínuos para a urgência da liberdade e justiça para uma sociedade construída nos princípios da honra e nos valores da solidariedade.

Nas horas de crise e de recuperação de identidade nacional, Os Lusíadas acompanharam a resistência ao domínio filipino, as lutas liberais no século XIX, a formação do Partido Republicano, a aproximação de Portugal das exigências e solicitações da Europa. Incorporaram, na síntese de Jaime Cortesão, os factores democráticos da constituição de Portugal, o humanismo universalista dos portugueses, a abertura para o mundo e a invenção da modernidade. Gago Coutinho – também um estudioso de Camões que se envolveu em controvérsias sobre a dupla rota de Vasco da Gama - levou uma edição d’Os Lusíadas, na travessia aérea do Atlântico.
Transpondo em múltiplos aspectos as outras grandes epopeias, Camões coloca - nos perante um Portugal conquistado palmo a palmo, com homens inteiros, que olham de frente, na terra e no mar, os impulsos cósmicos da natureza. Viveram a aventura e a descoberta e partilharam a fatalidade e a apoteose.

Toda esta energia cívica incentivou o entusiasmo de Teófilo Braga, numa campanha de opinião pública, para celebrar, em todo o País, o III centenário da morte de Camões. A informação existente indicava o dia 10 de Junho, como data da morte. Foi exatamente nesse dia que se realizaram, em 1880, as comemorações com a participação de intelectuais e políticos e significativa mobilização popular. Permaneceram memoráveis as cerimónias que decorreram em Lisboa. Marcaram a coesão do Partido Republicano conciliando tendências e os grupos dispersos no pensamento e na acção.
Proclamada a Republica, a 5 de Outubro de 1910, o Governo Provisório, presidido por Teófilo Braga, e para afirmar a supremacia do poder civil sobre o poder religioso, deixou de reconhecer os dias santificados inscritos no calendário litúrgico. Decretou, logo a 12 de Outubro, os seguintes feriados nacionais e assim designados: 1 de Janeiro, consagrado à Fraternidade Universal; 31 de Janeiro, consagrado aos precursores e aos Mártires da Republica; 5 de Outubro, consagrado aos Heróis da Republica; 1 de Dezembro, consagrado a autonomia e independência e restauração da Pátria; 25 de Dezembro, consagrado à Família. Além destas efemérides cada município, segundo o critério das respectivas Câmaras, podia assinalar o seu feriado. Lisboa escolheu o 10 de Junho que, sob a égide de Camões, em 1880, uniu o Partido Republicano.

A Constituição de 1933 revogou a legislação existente nesta matéria. Todavia, para Salazar o 10 de Junho começou por ser o dia da raça, uma das expressões salientadas no discurso proferido na inauguração do Estádio Nacional do Jamor, em 1944, ainda em plena Guerra Mundial, quando os ódios raciais continuavam a enviar judeus para os campos de concentração. Terminada a guerra, em Maio de 1945, perdurou a denominação dia da raça. O decreto 34. 596, de 4 de Janeiro de 1952, determinou um reajustamento com base na Concordata estabelecida com a Santa Sé, repondo, tal como no tempo da monarquia, nos feriados nacionais, dias santificados impostos pela igreja católica.
No pós-II Guerra Mundial e no pós entrada de Portugal para as Nações Unidas procurou-se retirar estigmas do Acto Colonial, proclamar virtudes da colonização portuguesa, ausência de racismo, evidência de sociedades multiculturais inseridas no todo nacional. Os movimentos de emancipação africana, nos anos 50, anunciavam a iminência de guerrilhas em três frentes de combate Angola, Guiné e Moçambique.

A partir de 1963, Salazar transformou o 10 de Junho no Dia de Portugal para exaltar as Forças Armadas e prosseguir a Guerra Colonial. Marcelo Caetano manteve a tradição. Durante dez anos, o Terreiro do Paço, foi o grande palco das condecorações de vivos e mortos que se distinguiram em operações militares. Com o 25 de Abril, a independência de Angola, Guiné e Moçambique e outros territórios ultramarinos, o 10 de Junho ficou a chamar-se não só Dia de Portugal, mas também de Camões e das Comunidades Portuguesas.
 
O regresso de Camões, exemplo de uma vida pelo mundo em pedaços repartida, veio reforçar um símbolo do imaginário colectivo. Os Lusíadas representam motivo de reflexão para vencer a impaciência e sacudir o fatalismo em qualquer de tempo de angústia e incerteza. Camões celebrou as memórias gloriosas de Portugal, sem virar as costas às tensões políticas e às realidades sociais. Daí a actualidade das suas advertências. Para reencontrar o homem que, em cada dia, se revela, se oculta e se afirma, na aspiração da liberdade. Para romper o medo, banir a superstição e quebrar as algemas das tiranias passadas, presentes e futuras.

Camões, justificação do 10 de Junho – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Academia das Ciências], jornal Público, 10 de Junho de 2015, p.57 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

terça-feira, 10 de junho de 2014

PORTUGAL


«Desfralda a invicta bandeira/Á luz viva do teu ceu,/Brade a Europa á terra inteira/Portugal não pereceu!» [quadra inscrita no prato]
“Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino
nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
(...)
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca”
 
[Jorge de Sousa Braga]
 
O nosso drama de portugueses,
O nosso maior drama entre os maiores
Dos dramas portugueses,
É este apego hereditário à Forma:
Ao modo de dizer, aos pontinhos nos ii,
Às vírgulas certas, às quadras perfeitas,
À estilística, à estética, à bombástica,
À chave de ouro do soneto vazio
- Que põe molezas de escravatura
Por dentro do que pensamos
Do que sentimos
Do que escrevemos
Do que fazemos
Do que mentimos
 
 [Carlos Queirós, Anti-Soneto]
 
“outro é o tempo
outra a medida
 
tão grande a página
tão curta a escrita
 
entre o achigã e a perdiz
entre chaparro e choupo
 
tanto país
e tão pouco”
 
[Manuel Alegre]
 
“Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncios e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades”
 
[Sophia de Mello Breyner]
 
 
“Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...”
 
[Fernando Pessoa]

[J.M.M.]

quarta-feira, 10 de junho de 2009


DIA DE PORTUGAL, DE CAMÕES E DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

"Pai ...
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!
...
A bênção como espada,
A espada como bênção!
"

Fernando Pessoa

J.M.M.

CENTENÁRIO DE CAMÕES EM 1880

Quando se assinala mais um aniversário do 10 de Junho, recordamos o que se passou em Lisboa em 1880, quando se realizaram as grandes comemorações camoneanas que hoje muita gente se queixa não saber a origem.

Nesse período tinha sido descoberto um documento na Torre do Tombo, que Teófilo Braga depois divulgou num periódico dirigido por Magalhães Lima, intitulado Comércio de Portugal, onde referia a data de falecimento do nosso poeta mais consagrado na época: Luís Vaz de Camões. Foi então deliberado assinalar a data em 10 de Junho de 1880, passando a partir daí a ser feriado nacional para assinalar o Dia de Portugal e de Camões e só mais recentemente passou também a homenagear as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.

A.A.B.M.

domingo, 10 de junho de 2007

CENTENÁRIO DE CAMÕES (1880)



Assinala-se hoje, 10 de Junho de 2007 o feriado que marca o aniversário da morte do maior poeta português, Luís Vaz de Camões. Porém, muita gente já não sabe porque motivo o 10 de Junho começou a ser feriado.

Assim, em 1879, Joaquim de Vasconcelos apresentou na Sociedade de Geografia de Lisboa a proposta para a comemoração do Tricentenário da morte de Camões, mais tarde em Abril de 1880, cria-se uma comissão para organizar os festejos, sendo constituída essencialmente por jornalistas e escritores em destaque na época. Sendo uma organização que se desenvolveu por todo o País, envolveu muitas personalidades, mas a comissão central, responsável pelos acontecimentos em Lisboa era constituída por:J. C. Rodrigues da Costa, Eduardo Coelho, Sebastião de Magalhães Lima, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Jaime Batalha Reis, Luciano Cordeiro, Rodrigo Afonso Pequito.

A partir de 1880, começou a ser feriado nacional em Portugal, tendo esta data sido aproveitada para assinalar também o Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas, já que nós fomos por tradição um país de emigração esta data servia para assinalar a importância de todos os portugueses que eram, foram ou são emigrantes.

A propósito dizia Teófilo Braga sobre o Centenário de Camões de 1880:
Nesse dia, todas as forças vivas, tudo quanto há com futuro ainda nesta pequena nacionalidade, vibrou com unanimidade ao impulso de um estímulo consciente, a tradição ligada ao nome de Camões como representante e o símbolo da civilização de um povo que se sente da vida histórica. A nação inteira compreendeu esta grande data, em que a perda da nacionalidade coincidiu com o passamento daquele grande espírito, que ao ver a pátria invadida pelos exércitos de Filipe II, expirou num desalento que se tornou o protesto eterno da liberdade. […] O dia 10 de Junho de 1880, não devia passar despercebido; era uma prova terrível contra a nossa vitalidade, e a nação compreendeu o sentido desse grande dia. O Centenário de Camões manifestou à Europa, que sabíamos tirar partido da maior tradição do nosso passado histórico o estímulo para um renascimento. A festa da nossa primeira glória literária e artística foi simultânea por todo o território português, e fez-se por fundações fecundas de iniciativa individual, pela cooperação activa dos municípios, que compreenderam que eram os representantes directos da liberdade nacional, e pelo acordo de todas as classes sociais. O Centenário de Camões excedeu tudo quanto era possível prever; a Europa deu um carácter universal ao jubileu deste pequeno povo: em França, Itália, na Alemanha, Suécia, em Bóston, na Filadélfia, celebraram-se comemorações generosas e comoventes, glorificou-se o nome de Camões em livros e trabalhos artísticos que ficam.
[Teófilo Braga, História das Ideias Republicanas em Portugal, col. Documenta Histórica, Vega, Lisboa, 1983, p. 163-164]

Alexandre Cabral, analisando o acontecimento explicou-nos o processo utilizado por Teófilo Braga, para conseguir os seus objectivos. Em 8, 9 e 10 de Janeiro de 1880 começa por publicar um conjunto de artigos intitulados O Centenário de Camões em 1880, no jornal Comércio de Portugal e afirma:
Além dos preciosos ensinamentos de natureza erudita, o essencial dos artigos era promover a associação do nome glorioso de Camões ao possível (e necessário) renascimentos da Pátria. Assim, como em 1580, Os Lusíadas, no momento em que o usurpador do Escorial fazia perigar a soberania de Portugal, profetizaram sobre as glórias passadas o bem-estar e a independência porvindouros, assim em 1880, o Partido Republicano, considerando-se legítimo representante do simbolismo camoniano, consubstanciava as esperanças do povo no renascimento da grei lusitana”. A ideia de comemorar dignamente o tricentenário da morte do Épico, como sintoma de vitalidade e crença no futuro, e não como atitude fetichista e retrógrada de reverenciar as passadas grandezas […].
[Alexandre Cabral, Notas Oitocentistas – I, Livros Horizonte, Lisboa, 1980, p. 63.]



Por seu lado, o professor Fernando Catroga afirmou sobre as comemorações do Tricentenário de Camões:
A estratégia ideológica que os positivistas portugueses (Teófilo Braga, Ramalho Ortigão) imprimiram às comemorações camonianas foi inspirada não só no tom erudito das comemorações petrarquianas [1874], mas também nas festividades promovidas pelos radicais franceses em honra de Voltaire e Rousseau. […] Assim, enquanto nas comemorações de 1878 se nota a intenção de se aglutinar o clima de unidade nacional à volta de um regime, entre nós, as festas foram apresentadas como um projecto que, se se pretendia independente do constitucionalismo monárquico, não queria confundir-se, porém, com o Partido Republicano. Logo, a veemência com que foi sublinhado o seu significado exclusivamente nacional, o que não impediu, porém, que os frutos do seu sucesso tenham sido colhidos essencialmente, pelo republicanismo.
[Fernando Catroga, A Militância Laica e a Descristianização da Morte em Portugal (1865-1911), FLUC, Coimbra, 1988, p. 906]


A.A.B.M.