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quinta-feira, 3 de julho de 2014

MÁRIO SOARES – “ESCRITOS POLÍTICOS” (1969)


Mário Soares, “Escritos Políticos”, Edição do Autor [Depositária Editorial Inquérito, Travessa da Queimada, 23, 1º Dto, Lisboa], Tip. do Jornal do Fundão, Lisboa, 1969

«Uma das palavras que melhor caracteriza a Censura portuguesa é "inconveniente". A palavra não implica um julgamento de valor sobre o conteúdo de um livro ou de um artigo, apenas que pode pôr em causa aquilo que é o interesse da ordem estabelecida.

"Inconveniente" é perturbador e, se há coisa que a Censura toma como sua missão, é impedir qualquer perturbação, seja política, seja social, seja cultural, seja nos costumes. Acresce que há um significado conexo, o de mal-educado, malcriado. "Não sejas inconveniente" diziam as mães para os filhos no passado longínquo em que a linguagem não era gutural como é agora. É esta a classificação que a Censura dá aos Escritos Políticos de Mário Soares, uma antologia de textos de circunstância escritos ao sabor das actividades oposicionistas do autor, publicado em 1969.

A PIDE não se limita a mandar o livro para que a Censura o proíba - coisa que faz quase sempre quando lhe é solicitado pela PIDE, o que nem sempre acontece quando o recebe do SNI ou de outras instituições da ditadura - mas, como anota o autor do despacho, faz uma admoestação implícita aos censores por terem deixado passar alguns destes textos "quando apresentados para jornais diários". A PIDE mostra o desconforto com a publicação, o censor dos livros puxa as orelhas aos censores da imprensa. O que é que explica ser esta obra "um puro ataque político mal intencionado e inoportuníssimo", em plena primavera marcelista?

O despacho da Censura explica-o em termos bem mais calmos do que rebarbativos, "inoportuníssimo": trata-se de "um ataque ao Governo e às bases orgânico-políticas do actual sistema político-social". De facto, é disso mesmo que se trata. Mário Soares, então uma personagem em ascensão na oposição moderada, onde ainda compete com um conjunto de velhos dirigentes vindos da República, ou do MUD, ou do Directório, está a deslocar-se com os seus amigos progressivamente de um republicanismo oposicionista para um socialismo que nem sempre é moderado. Fá-lo em competição com o PCP, com quem, nesse ano eleitoral de 1969, demasiado importante porque eram as primeiras eleições sem Salazar, rompe a unidade, apresentando-se a CEUD e a CDE em listas separadas.


Os escritos de Mário Soares são um retrato do que era a actividade da oposição não comunista, muito limitada, operando muitas vezes na semilegalidade, ou na legalidade permitida e vigiada, ao sabor de jantares, pequenos comícios, abaixo-assinados, e artigos no República. Há textos biográficos e políticos sobre os vultos da velha oposição republicana ou da República, como é o caso de Mário de Azevedo Gomes, de Fernão Boto Machado ou dos revolucionários do 31 de Janeiro; há teses enviadas às reuniões republicanas e oposicionistas, entrevistas e intervenções em colóquios censurados ou proibidos, e um ocasional artigo numa publicação estrangeira.

No seu conjunto, revelam o pensamento de Soares tal como ele se tinha estabilizado depois da sua saída do PCP no início dos anos cinquenta, ainda muito preso ao peso do republicanismo histórico, mas já apresentando-se como a sua ala esquerda socializante, organizada na ASP e depois no PS. Essa tendência socializante e mesmo nalguns casos esquerdizante veio a acentuar-se nos anos seguintes, influenciado ele também pelo Maio de 1968, pelas lutas estudantis e pela sua experiência mais tardia no exílio europeu onde pôde contactar pela primeira vez com outros socialistas europeus.

Esta deriva para a esquerda faz o caminho entre a ruptura eleitoral com os comunistas em 1969, até aos acordos frentistas de 1973 entre o PS e o PCP. Mas não é esse ainda o tempo dos Escritos Políticos. À data da publicação deste livro, como se pode ver nos seus anexos, Mário Soares enfileira numa atitude atentista e, por isso mesmo, benévola, em relação à liberalização caetanista, atitude essa duramente criticada pelo PCP como "ilusória" e perigosa. Num dos abaixo-assinados transcritos no livro, os signatários apresentam-se como "socialistas democráticos" e não como "socialistas totalitários", dispostos a ajudarem Marcelo Caetano a criar o "clima novo" que este anunciava. Conhecendo-se como se conhece, após a leitura de milhares de despachos, a cabeça dos censores é este abraço da oposição moderada a Marcelo Caetano que era "mal intencionado e inoportuníssimo".

Proíba-se pois o livro»

FOTO 2:“Mário Soares em campanha pela CEUD, Outubro 1969” – via Casa Comum

[José Pacheco Pereirain jornal PÚBLICO (02/07/2014), sublinhados nossos]

J.M.M.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

OBRAS E OPÚSCULOS DE FERNÃO BOTTO MACHADO



AQUI apresentámos algumas notas sobre Fernão Botto Machado, repartidas em quatro partes, sendo a última referente à sua extensa e profícua obra. A Livraria In-Libris colocou à praça um conjunto de livros e opúsculos do notável “propagandista dos ideais da Republica e do livre-pensamento”, curiosamente valorizados com dedicatória do autor, a saber:

"CRENÇAS E REVOLTAS. 1908. Typographia Bayard. Lisboa. 14x21cm. 485-III págs. E. no mesmo volume e todos do mesmo autor, com excepção dos dois últimos:— A RELIGIÃO DA MORTE. Artigo reproduzido do Diario «A REPUBLICA» e offerecido ao Gremio Excursionista Civil do Monte para a sua propaganda livre-pensadora. 1908. Typographia Bayard. Lisboa. 14x21cm. 9-I págs.;— A CONFISSÃO. Dedicado á Junta Federal do Livre-Pensamento para a sua propaganda. 1908. Typographia Bayard. Lisboa. 14x21cm. 16 págs.;— A OBRIGATORIEDADE DO REGISTO CIVIL. 1908. Typographia Bayard. Lisboa. 14x21cm. 32 págs.;— O IDEAL E A SOLIDARIEDADE HUMANA. Lisboa. Typographia Bayard. 1910. 14x21cm. 48 págs..." [ler TUDO AQUI]

FOTO de Fernão Botto Machado e uma parte de um texto assinado por José Augusto de Castro, in Arquivo Republicano [Biblioteca Nacional online]

J.M.M.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

FERNÃO BOTTO MACHADO: NOTA BREVE - PARTE IV



Obras publicadas: O Grupo Republicano de Estudos Sociais, Typ. Pereira & Faria, Lisboa, 1895 / [co-autor com Heliodoro Salgado] A Religião da Morte, Lisboa, 18xx / A Liberdade de Imprensa: carta aberta e minuta extra-processal, enviadas aos srs. Juízes da Relação de Lisboa, a proposito do processo instaurado sobre a penultima apprehensão do jornal republicano "O Mundo", Typ. Bayard, Lisboa, s.d. (1905) / Crenças e Revoltas [textos publicados no jornal Vanguarda], Typ. Bayard, Lisboa, 1908 / A Confissão [dedicado à Junta Federal do Livre Pensamento], Typ. Bayard, Lisboa, 1908 / Direitos politicos e civis: liberdade, suffragio universal e descentralização (Dissertação apresent. ao Congresso Nacional de Livre Pensamento), Lisboa, 1908 / A Obrigatoriedade do Registo Civil, Lisboa, 1908 / A queda do Monstro. Pela Emancipação da Mulher pela Liberdade de Consciência, Typ. Bayard, Lisboa, 1910 / O Ideal e a Solidariedade Humana, Typ. Bayard, Lisboa, 1910 / Constituição ou código fundamental da república portuguesa: projecto apresentado à Assembleia Nacional Constituinte, Typ. Bayard, Lisboa, 1911 / A jornada normal de oito horas de trabalho: projeto de lei, Typ. Bayard, Lisboa, 1911 / As loterias: meio único de se apanhar a sorte grande: projecto de lei apresentado à I Constituinte da República Portuguesa, Typ. Bayard, Lisboa, 1911 / O diário da república portuguesa: sua remodelação e sua redução de preço, Typ. Bayard, Lisboa, 1911 / O seguro obrigatorio dos trabalhadores: projecto de lei apresentado à Assembleia Nacional Constituinte, Typ. Bayard, Lisboa, 1911 / Abolição das touradas: projecto de lei, Typ. Bayard, Lisboa, 1911 / Levantamento de nota de refractário. Requerente Henrique Filomeno da Costa, 1920 / A Maçonaria e a Sociedade das Nações (Tese apresentada ao Congresso Maçónico de 1924), Tip. Grémio Lusitano, Lisboa, 1924 / No Parlamento (pref. S. de Magalhães Lima), Tip. Torres, 1929

Fontes bibliográficas: além das que referimos nos textos, registe-se as seguintes:

- Archer de Lima, Magalhães lima e a sua Obra, Lisboa, 1911 / [Heliodoro Salgado, pref.] Pela Verdade. Vinte e Sete Anos de Trabalho Honesto e Constante, Bayard, Lisboa, 1903 / Rodrigo Veloso, Fernão Botto-Machado, Solicitador Encartado, Lisboa, 1910 (colec. Perfis Forenses, nº7).

J.M.M.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

FERNÃO BOTTO MACHADO: NOTA BREVE - PARTE III


Autodidacta, solicitador, participante na sublevação do 5 de Outubro de 1910

[tinha como missão, segundo os planos feitos pela "Comissão de Resistência da Maçonaria" (formada a partir de uma reunião no Grémio Lusitano a 14 de Junho de 1910, composta por José de Castro, Simões Raposo, Cordeiro Júnior, Francisco Grandella, Miguel Bombarda e Machado Santos) para “o grupo civil” revolucionário, "sublevar” Sacavém e Camarate e acabou “tomando posições contra o avanço das baterias de Santarém" – cf. A Revolução Portugueza Relatório de Machado Santos, Tip. Liberty, Lisboa, 1911, aliás ed. facsimilada da Arquimedes Livros, 2007]

deputado, diplomata e jornalista, Fernão Botto Machado teve (como se disse já) uma actividade social e política intensa.

No campo político, além do seu activo trabalho na Constituinte de 1911 (referido já), participa (como delegado) no Congresso do Partido Republicano (1895), apoia o GRES (como foi referido aqui), participa no Congresso Internacional do Livre Pensamento (Roma, 1904), integra a Comissão do II Centenário de António José da Silva (1905), participa nas Comemorações do Quinquagenário de Theofilo Braga (1906), no Congresso Nacional do Livre Pensamento (Lisboa, Abril de 1908), participa com moções no Congresso Maçónico de 1924, em Lisboa e no I Congresso Feminista e da Educação, também em 1924, em Santarém.

Botto Machado dirigiu e colaborou em inúmeros jornais. Já se falou, aqui, da sua participação no "O Mundo Legal e Judiciário". Mas colaborou n'A Folha do Povo (nº1, Agosto de 1881), na Vanguarda [o jornal de Gomes da Silva, A Vanguarda, surge em Lisboa. No período entre 1896-1903 é dirigido por Sebastião Magalhães Lima e depois por Botto Machado]. Colabora, ainda, n'O Mundo, A Humanidade [folha mensal cooperativista, da qual foi director. Ano I, nº1 (Maio 1907) ao nº3 (Julho 1907)], no Trabalho (Gouveia, nº 1, 3 de Março de 1899) e Solidariedade (Gouveia, nº 1 28 de Abril de 1907, direcção de Armando Rebelo). Escreve nos jornais A Batalha e O Germinal [do centro de Propaganda Livre de Setúbal, tendência anarquista. Propr. Martins dos Santos; Adm: José Gago da Silva. 1903-1913], no "Paiz", "O Debate", no "Século".

Na carreira diplomática, é indigitado Ministro na República na Argentina (1912), mas não tendo sido possível ocupar o cargo foi nomeado Cônsul Geral no Rio de Janeiro (1912). Aqui, dirimiu polémicas e desavenças presentes no Grémio Republicano Português do Rio de Janeiro [vidé a propósito, Carvalho Neves, No Brasil. As minha divergências com os Republicanos Portuguezes do Rio de Janeiro, Impr. Africana, de António Tibério de Carvalho, Lisboa, 1912]. Nomeado Ministro junto das repúblicas da América Central, Botto Machado chefia em 1913 a delegação portuguesa no Panamá, viaja em trabalho para a Venezuela (1915) onde permanece, regressando depois a Portugal. Parte para o Japão (1919) onde realiza um trabalho notável em prol do seu país [funda escolas, bibliotecas, apoia o comercio português], regressando com frequência a Portugal por motivos de saúde.

Pertenceu ao Grémio Lusitano (como aqui se disse), fez parte da Junta Federal do Livre Pensamento, da Associação Propagadora da Lei do Registo Civil, era membro do Congresso Permanente da Humanidade, da Sociedade Académica de História Internacional. Fazia parte da Sociedade Instrução e Beneficência "A Voz do Operário" [a quem doou por testamento a sua "riquíssima biblioteca"], pertenceu à Associação dos Jornalistas de Lisboa, à Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, à Associação do Foro Português, à Sociedade de Geografia, à Liga Naval. Foi agraciado com as comendas da Ordem de Cristo, Sol Nascente e Legião de Honra [cf. Gr. Enc. Port-Bras]. Está representado no Archivo Republicano [sucedâneo do Archivo Democrático] e no Álbum Republicano [de J. Ramos e Luís Derouet, 1908]. Em 1905 foi inaugurado um centro Republicano com o seu nome [na rua do Paraíso, nº1] que se manteve durante o Estado Novo.

Morre a 3 de Novembro de 1924, na Quinta do Encanto, e o seu funeral foi largamente participado por ex-presidentes da República, associações, partidos político e uma "multidão anónima", conforme nos é dito pelos jornais da época.

[a continuar]

J.M.M.

CENTRO ESCOLAR REPUBLICANO BOTTO MACHADO


Centro Escolar Republicano Botto Machado

J.M.M.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

FERNÃO BOTTO MACHADO NO PARLAMENTO


"... dizem que eu sou anarquista. O que eu sou acima de tudo, é um grande crente e um grande idealista. Anarquista não o sou, porque infelizmente não o posso ser.

O tipo ideal do anarquista é um tipo tão superior, tão bom, tão abnegado, tão altruísta, tão perfeito, que bem longe de estar já à face da terra, é incompatível com a actual psicologia humana, e só pode resultar pela evolução da raça, pela instrução e educação lentas e pelo refinamento de psicologias e psicologias sucessivas, duma espécie bem superior à actual ..."

[Fernão Botto Machado em discurso parlamentar, citado in "Fernão Botto Machado”, de Abílio Mendes do Amaral, sep. Notícias de Gouveia, 1965-68, pp. 44 - sublinhados nossos]

"Sr. Presidente: tendo apresentado, ha dias, á Constituinte um projecto de Constituição, que tem pelo menos a vantagem de não ser a copia servil de qualquer outra, fui beber uma grande parte do meu estudo á Republica romana, e, principalmente á fonte inexaurivel que foram as republicas gregas e a grande democracia dos tempos de Demosthenes. E, ao fazer esse estudo, eu fiquei maravilhado com o respeito que então se tributava á liberdade individual, e o altissimo sentimento que defendia a personalidade humana. Vi então que longe de se proceder como entre nós, onde cada detentor do poder e da autoridade faz da liberdade uma rodilha, e da personalidade humana um capacho a que limpa os pés, essa extraordinaria democracia tinha chegado a um grau de cultura e civilização não attingido ainda hoje por qualquer democracia moderna.

Lá, entendia-se, e muito bem, que a liberdade era o dom mais precioso do homem, e que eram os bens e não o corpo, que deviam responder por delictos, transgressões ou contravenções. Antes de condemnados por sentença, só os exactores da fazenda infieis ou os parricidas entravam na cadeia. Criminoso, ou presumido criminoso, que tivesse bens suficientes para responderem pelas suas faltas ou que offerecesse tres fiadores idóneos, não entrava na cadeia preventivamente. Entre nós, é o que se tem visto. Cada autoridade permitte-se o direito de dispor da liberdade do cidadão como cousa despresivel. Não pode nem deve continuar assim, sob pena de a Republica atraiçoar a sua missão.

Se a melhor lei é a, que facultar menos arbitrio, a melhor autoridade é a que menos se approveitar do arbitrio que a lei lhe confere. Mas entre nós, na maioria dos casos, as autoridades, paraphraseando Luiz XIV, em regra dizem: a lei sou eu! Não pode ser, e não ha de ser, pelo menos sem o meu energico protesto"

[Fernão Botto Machado na sessão parlamentar de 4 de julho de 1911 - sublinhados nossos]

J.M.M.

FERNÃO BOTTO MACHADO: NOTA BREVE - PARTE II


Botto Machado, dissemos, viveu entre o jornalismo, a actividade de solicitador, o exercício do cargo de deputado e da carreira diplomática, não esquecendo a sua faceta de tribuno, propagandista dos ideias da Republica, de livre-pensador, pelo que, de facto, se pode dizer que teve ao longo da sua vida uma "actividade polifacetada" [cf. Ventura, 2000].

O projecto de Constituição ["ou Código Fundamental"] que apresentou ("a título individual") na Constituinte de 1911, da qual foi deputado eleito por Lisboa [concorreu em eleições anteriores, a primeira em 1903 como socialista, mas nunca foi eleito] - onde propõe a criação de uma Câmara de Censores para vigilância da Constituição, ou a legislação sobre as incompatibilidades nas relações contratuais Estado-Sociedades Anónimas, ou a defesa da "instituição do habeas-corpus", ou a consagração do "referendum" em certas condições, ou a defesa da "descentralização e soberania popular", ou ainda "a moralização das lotarias" [Botto Machado era, na altura, provedor da Assistência e tinha como missão "reformar" o jogo], a fixação da jornada das oito horas de trabalho, o seguro obrigatório dos trabalhadores ou a abolição das touradas [vidé "Fernão Boto Machado. No Parlamento", ibid.] – pela sua filosofia e princípios orientadores, revelam um Botto Machado estudioso, de excelente "bagagem" cultural e de grande formação jurídica.

Ora, foi dito já, o filho do feitor [da Quinta do Paúl – cf. Abílio Mendes do Amaral, Fernão Botto Machado, sep. Notícias de Gouveia, 1965-68] Pedro Rodrigues e de D. Carlota Emília, cedo enveredou pela prática de solicitadoria [julgamos que na época a regulamentação para o seu exercício exigia como "habilitações a aprovação em exame público de instrução primária" e, ainda, exames "perante o Juiz de Comarca".] e, decidido a melhorar a sua situação, parte para Lisboa.

Assim, aparece, apenas com 21 anos, em sociedade com Alfredo Ansur [n. em Porto de Mós, finalista de Direito da U. C, em 1870, faz estágio “sob a direcção de Levy Maria Jordão de Paiva Manso”, e dedicou-se “à advocacia e ao jornalismo”, foi membro do Partido Progressista e pertenceu ao Centro Republicano de Lisboa – ref. Luís Biggotte Chorão, 2002, pp. 238-239], à frente da revista quinzenal de jurisprudência "O Mundo Legal e Judiciário"

[Ano I, nº1 (10 de Outubro de 1886) ao Ano XXIII, nº 72 (31 de Março de 1915). Propriedade de A. Ansur & Fernão A. Botto Machado (a partir do nº 31, 10 de Janeiro de 1888, A. Botto Machado. Administrador: Fernão A. Botto Machado (ao nº 50, Joaquim Marques de Lemos). Director: A. Ansur (nº 35, a 10 de Março de 1888, António Maria Carvalho de Almeida Serra). Colaboradores: Abel de Andrade (Ano IX, nº 2 e segs), Afonso Xavier Lopes Vieira, Alfredo Ansur, António Augusto Chrispiniano da Fonseca, António de Azevedo Castello Branco (Ano II, a partir nº 46), António Baptista de Sousa, António Maria de Carvalho Almeida Serra, António de Senna Faria e Vasconcelos (Ano XIV, nº 5 e segs), Bernardo Lucas, Bettencourt Ferreira (Ano III, nº 68 e segs), Bettencourt Rodrigues (III Ano, nº 67), Fernando Martins de Carvalho [de 1893 até 1901], Fernão Botto Machado (a partir do nº 43), Ferreira Deusdado (nº 121 e segs), Francisco Vieira da Silva Barradas, Jeronymo da Cunha Pimentel (Ano V, nº 106 e nº 141; vidé nota biográfica sobre "o então director da penitenciária de Lisboa" por Botto Machado, V ano, nº 112), José Benevides (Ano VIII), José Maluquer y Salvador (correspondente em Espanha), Júlio de Mattos (Ano II, nº 46), Mendes Leal (Ano XII, nº 11), Miguel Bombarda (Ano VII, nº 18 e segs), Silva Jones, Thomaz Ribeiro. Redacção e Correspondência: R. de S. Julião, 118, 3º, Lisbo (depois, ao nº 36, na Rua da Prata, nº 267; idem nº 50, Rua do Ouro, nº 124-1º). Composto e Impresso na Imprensa Minerva, Lisboa.]

Refira-se que as notas bibliográficas sobre "O Mundo Legal e Judiciário" que se apresentam, foram retiradas, na sua quase totalidade, do livro já citado de Luís Bigotte Chorão, "O Periodismo Jurídico Português do Século XIX" (IMCM, 2002), que apresenta, ainda, copiosa informação e análise sobre este periódico jurídico português (pp. 238- 257). Outros dados estão referenciados na supra citada separata do "Noticias de Gouveia", "Fernão Botto Machado", de autoria de Abílio Mendes do Amaral.

[a continuar]

J.M.M.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

FERNÃO BOTTO MACHADO: NOTA BREVE - PARTE I


Fernão Amaral Botto Machado nasce em Gouveia a 20 de Julho de 1865. Era filho de Pedro Rodrigues do Amaral (trabalhador rural) e de Carlota Emília Botto Machado. O seu irmão Pedro Amaral Botto Machado participou no 31 de Janeiro de 1891 - era na altura 2º sargento de infantaria, foi julgado e condenado a 3 anos de degredo em Luanda e Benguela, sendo reintegrado em Novembro de 1910 -, foi deputado na Constituinte de 1911 (pelo circulo nº 23 de Pinhel) e senador da República [cf. As Constituintes de 1911 e os seus Deputados, Livraria Ferreira, Lisboa, 1911].

Fernão Botto Machado foi "um homem, feito por si mesmo, a self made man" [S. Magalhães Lima, in pref. Fernão Boto Machado. No Parlamento, Tip. Torres, Lisboa, 1929]. Foi um autodidacta [cf. António Ventura, Anarquistas Republicanos e Socialistas em Portugal. As convergências possíveis (1892-1910), Cosmos, 2000], "não fez exame de instrução primária" [Lima, op.cit.], mas ainda assim foi solicitador encartado, deputado, diplomata e jornalista e, ao mesmo tempo, um admirável defensor junto das "classes operárias", que, aliás, "ocorriam em massa a ouvir a sua palavra" [in Gr. Enc. Port.-Bras.]

Em Lisboa, para onde partiu, dedica-se à "prática da solicitadoria forense”" [anotação que daremos conta, a seguir na Parte II, recorrendo para isso à valiosa nota biobibliográfico sobre Botto Machado e publicações jurídicas a ele ligadas, de autoria de Luís Bigotte Chorão, incluída no seu livro "O Periodismo Jurídico Português do Século XIX", IMCM, 2002], participa na luta politica nas fileiras socialistas e republicanas e colabora nos jornais republicanos "A Folha do Povo" (nº1, 10 de Agosto de 1881) e "Vanguarda" [tendo substituído na sua direcção Magalhães Lima, que tinha vindo d'O Século. Ver a propósito, S. Magalhães Lima, "Episódios da Minha Vida", Livraria Universal, s.d. (1925), pp. 211 e segs].

É, em 1893, iniciado maçon na Loja Caval(h)eiros da Verdade, de Lisboa, adoptando o nome simbólico de "José Falcão" [A. H. de Oliveira Marques, Dicionário da Maçonaria Portuguesa, vol II, 1986], e no mesmo ano encontramo-lo na "Loja Renascença" [António Ventura, Um Republicano Heterodoxo: Fernão Botto Machado, Rev. História da Ideias, nº 27, Coimbra, 2006]. Transita em 1896 para a Loja Razão Triunfante, depois Luiz de Camões (1902) e Elias Garcia [Oliveira Marques, ibid., pp. 920]. Atinge em 1917 o 33º do REAA. Foi eleito presidente do Conselho da Ordem entre 1918-1919, durante o mandato do Grão-Mestre do GOLU Sebastião de Magalhães Lima, de que era particularmente amigo. No Congresso Maçonico de 1924 (em Lisboa), apresenta uma tese: "A Maçonaria e a Sociedade das Nações", que foi impressa na Tipografia do Grémio Lusitano, no mesmo ano. [cf. Ventura, 2006].

Adere ao Grupo Republicano de Estudos Sociais [O GRES é fundado em 1896, e o seu manifesto apresenta a assinatura de Afonso Costa, Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, Brito Camacho, Guerra Junqueiro, ente outros. Cf. Ventura, 2000]. Sobre o GRES, diz-nos Botto Maçado que é "um grupo de homens dispostos a integrar as suas vistas particulares de remodelação económica, politica e moral num conjunto coerente de reformas, que façam do futuro regime não uma obra efémera de declamadores inscientes, mas uma perdurável realidade social” [refª Fernão Botto Machado, in O Grupo Republicano de Estudos Sociais, Lisboa, 1896, citado por António Ventura., op. cit, pp. 20-21].

Foto do espólio de Carvalhão Duarte, in Fundação Mário Soares, com a devida vénia.

[a continuar]

J.M.M.