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quinta-feira, 11 de outubro de 2007

A GREVE ACADÉMICA DE 1907


A Greve Académica de 1907: impacto na imprensa da época

A Hemeroteca Municipal de Lisboa, que tem tido o favor de nos dispensar um serviço público perfeito, principalmente no campo da digitalização de periódicos, está a expor desde o passado dia 10 uma "Mostra Bibliográfica e Documental" sobre o "impacto da Greve Académica de 1907 na imprensa" da época.

Intitulada, "Tensão na Universidade - A Greve Académica de 1907", a "Mostra Bibliográfica e Documental" irá até ao dia 31 de Outubro, no átrio e escadaria da Hemeroteca Municipal de Lisboa. Apresenta, ainda, um Ciclo de Conferências sobre o evento (que o Almanaque Republicano evocou aqui), estando já agendado a sua 1ª conferência.

Consulta on line.

J.M.M.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

domingo, 15 de abril de 2007

BIBLIOGRAFIA [BREVE] SOBRE A QUESTÃO/CRISE ACADÉMICA DE 1907



O Centenário da Questão Académica ou Greve Académica de 1907, em Coimbra, foi por nós, ao longo de mais de um mês, merecidamente assinalado. Recordar a crise académica de 1907 foi-nos particularmente grato.

Homenagear os intransigentes estudantes de antanho, todos de elevado espírito fraterno e solidário, e o seu combate, significou entender que o acontecimento não resulta de um qualquer "ruído" normal próprio da juventude ou como fruto da sua intrepidez, mas sim que emerge e amplia-se como reflexo da situação de mal-estar académico, social, cultural e político que então se vivia em Portugal. Passe o trabalho conspirativo existente por detrás da orientação política dos vários grupos de estudantes, pode antever-se, na contestação e idealismo dos seus protagonistas, uma atitude regeneradora face à nação e às mentalidades, que irá marcar, daí em diante, a Alma Republicana.

O tributo que prestámos a partir de 26 de Fevereiro, deste ano, aos briosos estudantes da Universidade de Coimbra, foi particularmente merecido. As figuras e os factos relembrados, sem opulência ou luxo maior, aqui estão. Talvez um dia, esta pequena referência (e outras que apareceram pela blogosfera e fora dela) possibilite uma antologia de impressões, manifestos e textos desse curioso acontecimento, em tempos idos de 1907. E que bem falta faz.

Por último, deixamos um brevíssimo contributo bibliográfico (de obras existentes e, algumas, por nós consultadas) sobre a Questão Académica de 1907, sabendo que a bibliografia existente é bem mais vasta que a que poderemos apresentar. Mas decerto, com a ajuda de leitores interessados, podemos certamente fazer os aditamentos necessários.

- BRANCO, João Franco Pinto Castelo, Cartas de El-Rei D. Carlos I , Aillaud & Bertrand, Lisboa, 1924
- CABRAL, António, Cartas de El-Rei D. Carlos I a João Franco Castello Branco seu último Presidente do Conselho, Aillaud & Bertrand, Lisboa, 1924.
- CASTRO, Américo de, Últimos Anos da Monarquia. Memórias, Porto, J. Pereira da Silva 1918.
- CHAGAS, João, Subsídios Críticos para a História da Dictadura, Tip. Anuário Comercial, 1908.
- CORREIA, Natália, A Questão Académica de 1907, Minotauro/Seara Nova, Lisboa, 1962.
- CUNHA, D. Correia da, A "Malta". Reportagens da Vida Académica de Coimbra, Coimbra, 1933.
- GUEDES, Armando Marques, Páginas do Meu Diário, Editorial Enciclopédia, Lisboa/Rio de Janeiro, 1957.
- História da República, Editorial O Século, 1960.
- LAMY, Alberto Sousa, A Academia de Coimbra (1537-1990), Rei dos Livros, Lisboa, 1990.
- LEAL, Cunha, Coisas de Tempos Idos. As Minhas Memórias. Romance duma época, duma família e duma vida de 1888 a 1917, Ed. Autor, Lisboa, 1966, 3 vols..
- LIMA, João Evangelista Campos, A Questão da Universidade: depoimento d'um estudante expulso, Clássica Editora, Lisboa, 1907.
- MACHADO, António, Bernardino Machado. Memórias, Livraria Figueirinhas, Porto, 1945.
- MACHADO, Bernardino, Pela República (1906-1908), Ed. Autor, Coimbra, 1908.
- MACHADO, Bernardino, Universidade de Coimbra, Ed. Autor, Coimbra, 1908.
- MADEIRA, Lina Maria Alves, Alberto da Veiga Simões. Esboço de uma biografia política, Quarteto Editora, Coimbra, 2002.
- MARTINS, Rocha, João Franco e o seu tempo, Ed. Autor, Lisboa, 1925.
- MARTINS, Rocha, Vermelhos, Brancos e Azuis, vol. II, Organizações Crisális, Lisboa, 1950.
- PIMENTA, Alfredo, Factos Sociaes: Problemas d'hoje: Ensaios de Philosophia Critica, Lello & Irmão, Porto, 1908.
- QUARTIN, António Tomás Pinto, "A Greve Académica de Coimbra em 1907", Ver e Crer, Lisboa, nº 45, 1949, p. 3-9.
- RAPOSO, Hipólito, Livro de Horas, França Amado, Coimbra, 1913.
- RIBEIRO, Herlander, Cartas de uma tricana. Coimbra de 1903 a 1908, Lisboa, 1936.
- SARDICA, José Miguel, «Combate político e renovação cultural: a Greve Académica de 1907». Comunicação apresentada no Colóquio de História Contemporânea «Maio de 1968: Trinta anos depois. Os movimentos estudantis em Portugal», organizado pelo Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, realizado na referida Universidade, nos dias 28 e 29 de Maio de 1998.
- SARDICA, José Miguel, «A Greve Académica de 1907. Combate político e renovação cultural». Publicado na Revista História, 3.ª Série, n.º 4-5, Lisboa, Julho-Agosto de 1998, pp. 28-37.
- SARDICA, José Miguel, «A Greve Académica de 1907», Textos publicados nos fascículos n.º 4 (pp. 96-97) da obra Século XX. Homens, mulheres e factos que mudaram a História, Lisboa, Público/El Pais, 2000.
- SOUSA, Marnoco e; REIS, José Alberto, A Faculdade de Direito e o seu ensino, França Amado Editora, Coimbra, 1907.
- VENTURA, António, "Um Anarquista Português em Paris", História, Lisboa, Julho/Agosto, 2002, nº 47, Ano XXIV (III Série), p. 66-67.
- XAVIER, Alberto, História da Greve Académica de 1907, Coimbra Editora, Coimbra, 1962.

Notícias na Imprensa (alguns periódicos que deram especial relevo aos acontecimentos)

- Diário Ilustrado, Lisboa; (jornal da época)
- Illustração Portuguesa, Lisboa; (revista ilustrada e noticiosa da época – ver 11/03, 8/04, 15/04, 22/04)
- Luta, Lisboa, 10-03-1907;
- O Século, Lisboa, 1-4-1907 e 4-4-1907;
- O Mundo, Lisboa
- Diário de Lisboa, Lisboa, 6-2-1963, entrevista a Alberto Xavier sobre os acontecimentos da greve académica de 1907.
- Diário de Lisboa, Lisboa, 15-02-1963, publica uma carta de Carlos Eugénio Dias Ferreira, filho de José Eugénio Dias Ferreira, a defender aquilo que entendia ser "o propósito de diminuir a personalidade do candidato reprovado", suscitado na entrevista anterior de Alberto Xavier.
- Diário de Lisboa, Lisboa, 19-02-1963, Alberto Xavier responde a Carlos E. D. Ferreira, em "A Greve Académica de 1907. O Dr. Alberto Xavier responde à carta de Carlos Eugénio Dias Ferreira"
- República, Lisboa, 8-4-1912, artigo de Alfredo Pimenta, "A Greve de 1907".

A.A.B.M.
J.M.M.

sábado, 14 de abril de 2007

ESTUDANTES DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA (1907)



1º plano: Bissaya-Barreto, José Montez, Carneiro Franco, Carlos Olavo.

2º plano: Justino Cardozo, Monteiro Araújo, António Granjo, Carlos Amaro, Feio Azevedo, Alberto Xavier, Pires da Rocha.

Foto da Photographia Gonçalves (Coimbra), in Illustração Portugueza, III volume, 22 Abril de 1907

J.M.M.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

OS REITORES DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA DURANTE A CRISE DE 1907


António dos Santos Viegas Júnior

Filho de António dos Santos Viegas e de Máxima Carolina Gomes Barata Feio, nasceu na Covilhã, distrito de Castelo Branco, em 7 de Abril de 1837,concluiu o exame de licenciado em 30 de Julho de 1859, doutorou-se em Filosofia em 30 de Outubro de 1859 e começou a leccionar na Universidade em 22 de Fevereiro de 1860. Lente de Física e responsável pelo respectivo gabinete, exerceu ainda as funções de Director do Observatório Meteorológico e Magnético da Universidade. Realizou a oração de sapiência de abertura da Universidade em 1888/1889, publicada no Anuário da Universidade de Coimbra. Realizou também a alocução de abertura das aulas no ano lectivo 1906-1907, publicada no anuário da Universidade de 1906-1907. Foi o responsável princial pela publicação das Observações meteorológicas feitas no observatório meteorológico da Universidade de Coimbra nos anos de 1881, 1883 e 1884, Coimbra, Imprensa da Universidade.

Casou-se com D. Maria Francisca de Vasconcelos Carreira dos Santos Viegas de quem teve um filho também ele professor da Universidade, Luís dos Santos Viegas, que se doutorou em 1890.

Dedicou-se aos estudos experimentais sobre o Geomagnetismo e a Meteorologia que constituíram uma das prioridades da actividade científica de António dos Santos Viegas a partir de 1864. Por portaria de 24 de Outubro de 1866 foi encarregado de realizar uma viagem científica pelos principais países da Europa, para visitar as escolas e universidades desses países e estudar a organização do ensino das ciências filosóficas. Efectuou estágios científicos em diversas escolas europeias, Santos Viegas especializou-se em técnicas experimentais de análise espectral. Neste domínio colaborou com o Observatório Astronómico, realizando observações magnéticas e de análise espectral durante a ocorrência de eclipses. Desde a sua fundação, o Observatório Meteorológico e Magnético ficou integrado numa extensa rede europeia de observatórios que tinham por objectivo o estudo do magnetismo terrestre.

Em 1881 foi enviado a Paris para representar Portugal no Congresso e Exposição de Electricidade.
Foi reitor da Universidade diversas vezes: a primeira entre 1890 e 1892, voltou a essas funções entre 1896 e 1898 e volta a ser nomeado em Abril de 1906. Desempenhou também ainda as funções de deputado eleito pelo círculo da Covilhã em 1870 e 1871. Mais tarde foi também eleito Par do Reino em representação dos estabelecimentos científicos.

Publicou:
- Dissertação inaugural para o acto de conclusões magnas- Argumento: 1ºQuais as relações da química com as outras ciências?2º Que benfícios presta ela à civilização e à humanidade? 3º Que relação ao nosso país que temos de esperar da química industrial?, Coimbra, 1859.
- Theses ex Naturali Philosophia: quas preside clarissimo ac sapientissímo D. Fortunato Raphaele Pereira de Senna, ano de 1859 in Conimbrigensi Academi propugnabat ..., Coimbra, 1859;
-"Viagem scientífica do Dr. António dos Santos Viegas - Primeiro relatório: Dezembro de 1866 a Maio 1867", Diário de Lisboa: Folha Official do governo portuguez, Outubro 1867, n.º 229, p. 2966.
-"Viagem scientífica do Dr. António dos Santos Viegas -Segundo relatório: Junho a Novembro de 1867", Diário de Lisboa: Folha Official do governo portuguez, 21 Março 1867, n.º 66, p. 553.
- Programa da 3ª Cadeira: Phisica - 1ª parte para o ano lectivo de 1889 a 1889, redigido pelo lente ..., Coimbra, 1889.

[Fotografia de António dos Santos Viegas in Guitarra de Coimbra que também tem vindo a dedicar a sua atenção a estes acontecimentos]

[Nota Importante: este post foi corrigido no terceiro parágrafo devido à existência de um erro importante detectado pelos nossos leitores, com os nossos agradecimentos pela chamada de atenção.]

A.A.B.M.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

[AINDA] PINTO QUARTIN E A GREVE DE 1907 (III)


Ainda ... Pinto Quartin e a greve Académica de Coimbra em 1907 (III)

Na parte final deste artigo, Pinto Quartin ocupou-se, em especial, de dois aspectos ligados à crise académica: a discussão do assunto nas Cortes e o alastramento do movimento. Como já fizemos referência aqui, a discussão deste assunto na Câmara dos Deputados foi um processo complexo porque "o Presidente do Ministério [João Franco] esquivava-se sempre a responder às interpelações dos deputados e pares da minoria". Face a esta situação afirma Pinto Quartin:

A vida parlamentar estava paralisada porque a oposição não consentia que os trabalhos prosseguissem sem a discussão de um assunto de tão grave importância e de tão grande oportunidade, que afectava o futuro de milhares de rapazes e os interesses de tantas famílias. Encerradas várias sessões pelo obstrucionismo da oposição, João Franco leva à assinatura régia o decreto de 10 de Abril, que encerrava as Cortes. O Governo não transige e a greve mantém-se firma, e tão ordeira que até jornal católico portuense «A Palavra» dizia não poder deixar de louvar o aprumo, a isenção com que procedia a mocidadade das escolas [...][ as únicas situações com alguma violência ocorreram com os]lamentáveis acontecimentos da Escola Politécnica de Lisboa e do Liceu de Coimbra, onde ficaram feridos alguns estudantes como Lacerda Forjaz, Fernando de Oliveira e Mariano de Melo Vieira.
A resistência afrouxa e tudo termian em bem ...
Em vista da persistência dos rapazes e do alastramento do movimento, João Franco fez encerrar em 15 de Abril todos os estabelecimentos de ensino onde os estudantes se haviam declarado em greve, incluindo a Universidade, cujos estudantes militares recolheram aos seus regimentos e os restantes novamente se retiraram para as suas terras.
O reitor Dr. António dos Santos Viegas pede a sua exoneração e é substituído plo Dr. D. José de Alarcão. Surge então da parte dos pais dos estudantes, e dizia-se que inspirada pelo novo reitor, uma ofensiva a favor de um indulto para os estudantes expulsos. E, em 22 de Maio, as escolas são reabertas, sendo convidados os alunos que não tivessem perdido o ano por faltas até o dia 8 desse mês a encerrar matrículas e a fazerem acto, à excepção dos sete estudantes riscados da Universidade. Poucos foram os estudantes que nos primeiros dias acorreram a matricular-se, mas os jornais aumentavam o número dos «amarelos», citando nomes de alguns que logo se apressaram a desmentir. Mário de Azevedo Gomes, que era então quintanista de Agronomia, mandava para os jornais a seguinte declaração:
«Sr. Redactor: Publicam alguns jornais de hoje a notícia de que os quintanistas de Agronomia declararam não ter aderido à greve e solicitavam a continuação do tirocínio. Ora eu sou quintanista de agronomia e declarei que aderia à greve e não solicitei a continuação do tirocínio. E como tenho uma só forma de proceder, sou hoje, como ontem, grevista intransigente».
Declaração semelhante fez também o seu colega do mesmo ano e do mesmo curso Fernando César Correia Mendes.
Em vão, porém, os manifestos - edentre eles foi notável o da Comissão Central de Lisboa, assinado pelos estudantes Júdice Formosinho, Lúcio dos Santos, Mário Vasconcelos e Sá, Luís Filipe Nunes, Sequeira Coutinho e Francisco Pulido Valente - exortam a Academia a manter-se firme e a não ir a exames sem que os estudantes expulsos sejam readmitidos. A Academia estava cansada - o conflito arrastava-se havia já perto de três meses - e a pressãodos pais, atemorizados com a perspectiva da perda de ano de seus filhos, abatia os ânimos, afrouxava a resistência. Muitos dos estudantes começaram então a reivindicar a sua liberdade de proceder. Os alunos dos liceus são os primeiros a regressar às aulas. Imitam-nos os das escolas secundárias: os do Conservatório, das Belas Artes e do ensino industrial e comercial. [...]
«Furada» a greve em Coimbra, as escolas superiores de Lisboa e Porto, desobrigadas do seu compromisso, reentram na normalidade.
Quase em simultâneo, a 13 de Junho, era publicado o decreto que permitia a todos os estudantes, incluindo os sentenciados, concluirem os seus cursos sem perda de nenhum ano, atendendo-se assim à representação entregue ao Chefe de Estado e patrocinada pelo Reitor, em que os estudantes se haviam matriculado, «movidos por vivo sentimento de fraternidade escolar» pediam uma amnistia geral e o indulto para os sete dos seus camaradas afastados das lides escolares [...]
E assim teminou, se não vitoriosamente, pelo menos com nobreza, dignidade e elegância, este arrastado conflito em que a Academia se manteve, até à última, fiel aos seus tradicionais sentimentos de generosidade e, galantaria.


Esta longa transcrição de um artigo de Pinto Quartin, serviu essencialmente para dar a conhecer mais alguns dados que, o autor, por ter sido protagonista nos acontecimentos, relata com alguma paixão. Porém, pretende-se sobretudo contribuir para revelar mais uma fonte de trabalho a consultar, porque relata o envolvimento de outros protagonistas fora da cidade de Coimbra, avança razões para o protesto e procura construir um desenlace quase ideal, como nos referimos no último parágrafo do texto transcrito. Foi o nosso contributo, simples mas no sentido de valorizar o estudo deste acontecimento.

Nos próximos dias avançaremos com um último post sobre este assunto, para abordarmos outras temáticas importantes como a revolta que conduziu à III República em que vivemos actualmente.

[Na fotografia vê-se João Franco a visitar a Escola Politécnica de Lisboa em Junho de 1907. In Arquivo Fotográfico de Lisboa].

A.A.B.M.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

PINTO QUARTIN E A GREVE ACADÉMICA DE COIMBRA EM 1907 (II)


Pinto Quartin e a Greve Académica de Coimbra em 1907 (II)

O autor continua a recordar os acontecimentos em que foi um dos protagonistas e refere alguns factos com grande pormenor. Um dos aspectos que aborda com particular interesse é o facto de o movimento iniciado em Coimbra ter alastrado ao restante país, causando grande impacto na opinião pública devido ao eco dos acontecimentos na imprensa da época. Assim, afirmava Pinto Quartin:

A atitude dos estudantes de Coimbra é imediatamente secundada pelos estudantes das escolas superiores de Lisboa e Porto, que se declararam também em greve de solidariedade para com os estudantes expulsos. No Ateneu Comercial de Lisboa, numa reunião em que usaram da palavra Campos Lima, Mário Monteiro, Pulido Valente, Alberto Xavier e Carlos Olavo, é lida uma carta do lente Dr. Bernardino Machado, solidarizando-se com o protesto dos estudantes.

No Porto, no Salão da Guarda, realiza-se um comício a que presidiu o terceiranista de Medicina Teixeira de Seixas e em que falaram Bissaya Barreto, Jaime Cortesão, Campos Lima, Leonardo Coimbra, Álvaro Monteiro, Henrique Forjaz, Augusto Verol, Pádua Correia e o lente da Escola Médico Cirúrgica dr. Alfredo de Magalhães, sendo recebida uma carta de incitamento do poeta Guerra Junqueiro.

Rapidamente a greve se generalizou a todo o País. Não só os estudantes das escolas superiores, são também os das escolas industriais e comerciais, de Belas Artes, do Conservatório, das escolas normais masculina e feminina e até os dos liceus. Formam-se Comissões Centrais em Lisboa e no Porto e Comissões de Vigilância em todos os estabelecimentos de ensino, distinguindo-se nesse movimento, além dos citados em vários passos desta reportagem retrospectiva, os estudantes José Montez, Madeira Pinto, Rui Feijó, Humberto Avelar, Chaves de Almeida, Costa Cabedo, Alfredo França, Henrique Brás, Francisco Luís Tavares, Tadeu Sacramento Monteiro, Francisco Lopes Vieira de Almeida, Alberto Mac Bride, Valentim Lourenço, Colares Correia, Feio Terenas, António de Sousa, Cláudio Basto, Armando Marques Guedes, Álvaro e Ernesto Beleza de Andrade, Manuel Pinto Coelho Vale e Vasconcelos, Mário Malheiros, Eduardo Lopes, José Maria Nunes Leitão, Júlio Gomes dos Santos Júnior, Emílio Martins, António Vaz de Sá Pereira e Castro, Fernando Matos, Alfredo Martins, Januário Leite, Carlos Rego, António Martins, Arnaldo Lima, Francisco Negrão, Germano de Amorim, Lusitano e Geraldino de Brites, José Maria Rangel de Sampaio, António Joyce, António de Carvalho Lucas, Américo de Castro, Antero Cardoso, Amâncio de Alpoim, Paiva Lereno, António Nápoles, Francisco Cruz, Jacinto de Freitas, João Santos Moita, Luís Bicudo, Luís Faísca, Maurício Costa e Luís da Câmara Reis.


A seriação dos nomes dos principais envolvidos nesta polémica, pode tornar-se maçadora para alguns, mas é bastante interessante verificar o papel social e político que algumas destas personalidades vão desempenhar anos mais tarde. Encontramos aqui desde futuros professores da Universidade, ministros, jornalistas, escritores, poetas, músicos, médicos, advogados, outros que vão continuar no anonimato, etc.
Continuando a transcrição do artigo, Pinto Quartin relata:

Pela sua atitude, alguns dos directores e professores são vaiados, outros, como o general Schiapa Monteiro e o Dr. Silva Teles, são vitoriados. De pequenos conflitos com a polícia resulta a prisão, por pouco tempo mantida, dos estudantes Adriano de Almeida Lopes e Francisco José da Silveira Campos. Fernando Bissaya Barreto é também preso, mas pouco tempo depois posto em liberdade, por se ter rido de um polícia de que o prevenira de que não podia «andar parado». E porque, suspenso o direito de reunião, os estudantes se juntassem no «Gelo» e no «Martinho», em Lisboa, e no «Central» no Porto, foram dadas ordens aos proprietários dos «cafés» para não consentirem que nos seus estabelecimentos se falasse de política, nos assuntos académicos ou «em tudo o que saísse do simples e usual exercício da sua indústria». (sic)

Nos próximos dias continuaremos a dar a conhecer mais este importante contributo para a história da Questão Académica de 1907.


[Na foto, as pessoas a passearem frente ao Café Martinho da Arcada onde os estudantes também se reuniam para as discussões políticas. Foto in Arquivo Fotográfico de Lisboa]

A.A.B.M.

quarta-feira, 28 de março de 2007

O CENÁCULO DOS INTRANSIGENTES



No prosseguimento da Greve Académica de 1907 em Coimbra, a tentativa de "romper os laços de solidariedade que se estabeleceram, e se mantinham, entre os estudantes de Coimbra e entre estes e os de todas as escolas superiores e técnicas do país" [in História da Greve Académica de 1907, de Alberto Xavier, 1962] foi diversas vezes tentada, sem total êxito. A nomeação do novo reitor da Universidade de Coimbra, D. João de Alarcão, os apelos de vários pais de alunos ["na sua maioria, políticos militantes, e, alguns deles, franquistas", ibidem] para demover os estudantes e a solicitação feita ao próprio Rei, nesse sentido, ele mesmo interessado na resolução do conflito, levou a contemplar diversos mecanismos para que os estudantes desavindos pudessem fazer as suas provas, sem ao mesmo tempo "vexar os professores". Não foi, parece, pacifica entre os lentes, e em especial os da Faculdade de Direito, o processo que permitia "a realização dos actos", o que não obstou a que um Decreto (23 de Maio de 1907) do ministro do Reino determinasse a "reabertura da Universidade para efeitos de exames", mediante algumas condições.

Pretendia-se, dado a ordem a cumprir rigorosamente, que os estudantes regressassem individualmente e "somente nos dias indicados para as provas", para que afastada a presumida "reunião" dos alunos dos "cursos jurídicos", de onde pertenciam os mais intransigentes, se estabelecesse a quebra de "solidariedade" entre os estudantes de Coimbra e entre estes e os do resto do país. Diversos normativos foram publicados para o efeito, quer no que respeita a Coimbra, quer aos cursos de Lisboa e Porto.

Desta forma, em Coimbra, dos "1049" alunos matriculados, "encerraram a matricula 866 alunos", para efeitos de exame. Por decisão do Conselho de Decanos [1 de Abril de 1907] sete alunos tinham sido expulsos e recusaram-se a requerer matrícula [diz-nos Alberto Xavier] 160 alunos [e não 155 como foi na altura registado]. Tais estudantes "que procederam como homens de perfeita responsabilidade, dotados de livre autonomia de vontade, os quais, desinteressada e briosamente, se recusaram a requerer matrícula para efeitos de exames, enquanto os sete camaradas, injustamente expulsos, não fossem restituídos à plenitude dos direitos e regalias universitárias" [idem, ibidem], a opinião publica denomino-os de intransigentes.

Aos intransigentes, a estes alunos, foi dada a ordem de "abandonar Coimbra". Muitos regressaram às suas casas, mas um curioso grupo deles foram "passar o Verão à praia da Figueira da Foz, onde organizaram uma ‘pousada’ denominada dos Intransigentes, na Rua do Melhoramento, 63. Logo de início os comensais eram

Alfredo Pimenta, Alfredo França, M. Monteiro, Pestana Júnior, Justino Campos, Teixeira Jardim, Sant'Ana Leite, e Parreira da Rocha. Outros apareceram a aumentar o número" [ibidem]

Diz-nos, ainda, Alberto Xavier, citando o jornal O Século de 14 de Junho, desse ano:

"O 'Cenáculo dos Intransigentes', instalado na Figueira da Foz, continua sendo o ponto de reunião de todos os estudantes que não encerram matrícula na Universidade. Aquela agremiação académica tem já um hino próprio, denominado charge aos furadores da greve, e que se vai tornando popular, por os estudantes o cantarem, em grupos, pelas ruas, nas proximidades do cenáculo. O autor do hino foi o maestro Dias Costa

J.M.M.

sexta-feira, 16 de março de 2007

MOSTRA BIBLIOGRÁFICA: 1907 - NO ADVENTO DA REPÚBLICA



"1907 foi marcado pela ditadura de João Franco, que já presidia ao Ministério desde o ano anterior. Na sequência da «questão dos adiantamentos» e apoiado pelo próprio rei D. Carlos, o governo dissolveu o Parlamento em Maio e a Câmara Municipal de Lisboa em Junho. A grave crise que o país atravessava foi agudizada pelas proporções da greve académica que, iniciada em Coimbra em Março, se propagou a outras escolas do país. A governação 'à turca', como então foi apelidada a política franquista que pretendera governar 'à inglesa', viria a terminar com o regicídio em Fevereiro de 1908, dando aos republicanos, então aliados aos Progressistas e fortalecidos pela Carbonária, uma força decisiva que provocou a mudança do regime em 1910"

[in Biblioteca Nacional - sublinhados nossos]

Mostra Bibliográfica: de 15 de Março a 9 de Junho de 2007 na Biblioteca Nacional. Pode ler uma versão do Catálogo, aqui.

J.M.M.

quinta-feira, 1 de março de 2007

ASSIM FALAVA EU ... POR ALFREDO PIMENTA


"Assim falava eu ...

... julgando interpretar o sentir da mocidade académica que produziu espontaneamente as retumbantes manifestações de 29 de Fevereiro. E na verdade parecia bem que dessa geração académica, que se liquidou miseravelmente meses depois, ia sair o grande movimento redentor desta nacionalidade, a reforma integral do ensino, a mudança completa nos costumes universitários e, porventura, uma profunda transformação nos nossos costumes políticos! Viu-o o Presidente do Conselho, João Franco Castelo Branco. Nos seus discursos deixava transparecer claramente o receio de que o movimento académico, triunfante, o derrotasse. E por isso lançou mão de todas as baixezas, de todas as vilezas, de todas as delações, de tudo quanto um cérebro doentio e um carácter anódino se pode servir para conseguir fins condenáveis. A cena que o Governo desempenhou no Parlamento, os gestos grotescos e os discursos parvos do lente Teixeira d'Abreu, a subserviência imbecil da maioria, e as campanhas caluniosas do órgão do Governo; a atitude policial do reitor João d'Alarcão, a submissão do professorado de Direito, ou antes, (porque não?) de todo o professorado universitário onde houve apenas uma excepção gloriosa, a do Dr. Bernardino Machado; tudo isso a que assistimos durante longos três meses, é a prova inegável do temor que invadiu as esferas governativas, perturbando-as e desorientando-as. Vendo isso, as nossas esperanças aumentaram. Dizia João Franco que nós queríamos a queda do Governo. Não. Mas se o Governo caía por nossa causa, havíamos de abandonar o movimento? De modo nenhum. Caísse o Governo, Caísse a monarquia, mas salvasse-se uma geração inteira que pesa mais nos destinos de um país que um Governo de idiotas, ou uma monarquia de incapazes. As nossas vistas eram mais largas. E à medida que caminhávamos o nosso sonho era maior"

[Alfredo Pimenta, in Factos Sociais: problemas d'hoje, Porto, 1908]

J.M.M.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

O CONFLITO ACADÉMICO DE 1907


"Com a greve dos estudantes que em 1907 emocionou profundamente o País, revelou-se uma geração republicana que teve influência decisiva para a proclamação do novo regime e fez-se o processo da Universidade de Coimbra, especialmente da sua Faculdade de Direito que deixara de corresponder à sua missão"

[in Historia da República, Editorial Século, 1960]

J.M.M.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

BREVE RESUMO DA REVOLTA ESTUDANTIL DE 1907


Os acontecimentos iniciaram-se no dia 28 de Fevereiro de 1907, quando José Eugénio Dias Ferreira foi reprovado no seu acto de doutoramento(Conclusões Magnas), em plena Sala dos Capelos. O candidato era desconhecido para a maioria dos estudantes da época porque tinha terminado o bacharelato em Direito em Outubro de 1903. Enquanto estudante não tinha assumido papel de destaque na comunidade estudantil conimbricense, mas como eram poucos os estudantes que se candidatavam a este acto, alguns tiveram curiosidade em assistir ao acto solene, especialmente porque começou a correr o boato que o candidato seria reprovado. Este facto acabou por provocar a enchente na Sala dos Capelos que assistiram, como refere Alberto Xavier:

[os professores da Faculdade de Direito] concluiados, combaterem o candidato, desqualificá-lo perante a assistência e conduzi-lo a uma situação de estenderete retumbante. Cada membro do júri, incumbido de intervir no exame, desenvolvia o interrogatório com questões de mesquinho interesse, enunciadas com voz e vivacidade teatral de gestos. O candidato propunha-se responder, esboçava a sua defesa. Mas os professores arguentes interrompiam-no constantemente, não o deixando prosseguir; aguçavam o timbre das suas vozes de sorte a abafar, totalmente, a voz do arguido. Os examinadores continuavam a bradar. Em dado momento, um deles, já sem consciência da sua incompreensível exaltação, chegou a gritar para José Eugénio Ferreira, estupefacto e humilhado:
- Cale-se, senhor, cale-se!
Foi o cúmulo! Não podia ter sido mais desoladora e incrível cena dramática desenrolada na solene e majestosa Sala dos Capelos, diante dum público pasmado, prestes a manifestar-se, mas esforçando-se por dominar o seus sentimentos de indignação. Esboçaram-se murmúrios, logo abafados pela intervenção do Reitor.
[p. 67]

Os estudantes de Coimbra, em primeiro lugar assumiram a revolta como uma questão política e não concordaram com a decisão dos professores de Direito que, por unanimidade reprovaram o acto do candidato. Organizaram uma manifestação que conduziu José Eugénio Dias Ferreira desde o pátio da Universidade até à sua residência na Arregaça, em Coimbra.

Os estudantes que foram punidos com a pena de expulsão da Universidade,na sequência destes acontecimentos foram: Carlos Olavo, Campos Lima e Amilcar Ramada Curto [por dois anos lectivos].

Expulsos por um ano foram: Alberto Xavier, Pinto Quartim, Francisco Mendes Preto, José Rebelo de Pinho Ferreira Júnior.

Nove estudantes que foram indiciados acabaram por ser considerados isentos de culpa por falta de provas: Adelino Furtado, Júlio Dias da Costa, Adriano de Sousa e Melo, Ernesto Carneiro Franco, Vasco Correia da Rocha, Manuel Gregório Pestana Júnior, Francisco António do Vale, Afonso Henriques Duarte de Vasconcelos, Ernani Rebelo Peixoto de Magalhães, Fernando de Reboredo.

Na sequência dos acontecimentos de 28 de Fevereiro a 1 de Março a Academia reuniu-se e pediu a realização de um inquérito ao acto de conclusões magnas, enquanto João Franco solicitava a intervenção do Reitor para punir os estudantes que se manifestavam.

[Na imagem acima os estudantes expulsos por dois anos: da esquerda para a direita Campos Lima, Ramada Curto e Carlos Olavo]

Nos próximos dias continuaremos.

A.A.B.M.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

CENTENÁRIO DA QUESTÃO ACADÉMICA - COIMBRA 1907


"Abaixo a Universidade Fradesca, a Universidade Inquisição

A Universidade de Coimbra não viverá enquanto não morrer. A Universidade de Coimbra, verdadeiramente, já não vive. A Universidade de Coimbra é um espectro, é um corpo gangrenado, é um foco de infecção, é uma vergonha, como documento da nossa civilização ...
"

[in Suplemento do Jornal de Coimbra, A Verdade, 27 de Fevereiro de 1907]

O Almanaque Republicano comemora, a partir de hoje, o Centenário dos célebres acontecimentos que, a partir do movimento académico em Coimbra e na sua Universidade, agitaram o país e inquietou seriamente os diferentes poderes, arrastando consigo repercussões políticas graves e insanáveis. Na Questão Académica de 1907 ou na Greve Académica de 1907, há toda uma geração académica ilustrada, entusiasta e fraterna, que com a maior das generosidades e espírito livre, participa significativamente na "gestação" da mudança que se verificaria anos depois. O conjunto de homens que participaram nesse conflito académico e que ousaram exigir a "reforma" da sua Universidade, de tão ilustres, falam por si. Iremos, por isso mesmo, assinalar aqui, devidamente, essa data histórica. Porque o assunto é de maior interesse, estimação e actualidade.

J.M.M.