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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

JOAQUIM MARTINS DE CARVALHO [1822-1898] - NOTA BREVE

 
Joaquim Martins de Carvalho nasceu em Coimbra [a 19 de Novembro de 1822, curiosamente no mesmo dia em que morre Manuel Fernandes Tomás]. Frequenta (1833 e 1834) aulas de latim nos jesuítas [os pais queriam que seguisse o estudo eclesiástico – ver Diccionario de Esteves Pereira, vol IV; idem Dicionário Bibliográfico de Inocêncio, vol XII, Suplemento J, p. 113 e ss], foi empregado comercial [ficou órfão prematuramente e não pode prosseguir os estudos] e trabalhou no ofício de latoeiro [daqui nasce a alcunha posta pelos académicos de antanho de “doutor latas”]; fez parte do movimento da "Maria da Fonte" (1846), tendo por isso sido preso [4 de Fevereiro de 1847] e levado de Coimbra para a Figueira da Foz e daí para Buarcos, onde o embarcaram num barco de guerra com destino a Lisboa, sendo enviado de imediato para o Limoeiro [onde fica de Fevereiro a Junho – foge a 29 de Abril mas é rapidamente recapturado], de onde sai pela convenção de Gramido [redigida pelo punho de Teixeira de Vasconcelos], a 28 de Junho [cf. O Século, 20 de Outubro de 1898]  

Foi um notável jornalista, talvez o mais admirável do seu tempo: colaborou (1851) no Liberal do Mondego, foi revisor, redator e (depois) proprietário do Observador  [fundado a 16 de Novembro de 1847; o seu primeiro escrito no jornal, “Sociedades de Socorros Mútuos”, data de 13 de Agosto de 1850] e fundou e redigiu, quase que integralmente, esse incontornável, erudito e precioso jornal, O Conimbricense  [nº 1, 24 de Janeiro de 1854, ao nº 6230, de 31 de Agosto de 1907, saindo um nº a 1 de Julho de 1908; continuação d’Observador], uma verdadeira “enciclopédia de história politica, literária e artística do nosso país” [Silva Pereira, in Occidente, 30/10/1898]. Funda a 30 de Outubro de 1855 uma Tipografia, para a impressão d’O Conimbricense, na rua de Coruche (ou, depois, Visconde da Luz), mudando-se posteriormente para a rua das Figueirinhas (depois chamada, rua Martins de Carvalho), num prédio onde veio a residir.

N'O Conimbricense, Joaquim Martins de Carvalho “expandia todas as suas ideias de liberal sans peur et sans reproche, atacando todos os movimentos reacionários e retrógrados, tudo o que fosse voltar aso tempos nefastos da opressão ou que apresentasse um ataque às liberdades públicas” [cf. O Século, 20 Outubro 1898; jornal Resistência, ibidem]

 


Defensor das liberdades públicas, liberal “sem nódoa” [cf. Occidente, ibidem] e convicto associativista, foi um admirável defensor da instrução do operariado, pertencendo aos fundadores da Sociedade de Instrução dos Operários (1851), do Montepio Conimbricense (1851; e que depois tomou o seu nome), do Centro Promotor de Instrução (antiga Biblioteca Popular da Sociedade Terpsychore Conimbricense), da Associação Liberal de Coimbra, da Sociedade Protetora do Asilo de Mendicidade de Coimbra, foi sócio honorário da Associação de Artistas de Coimbra, da Assembleia Recreativa de Coimbra, da Escola Livre das Artes de Desenho de Coimbra, da Associação Comercial de Coimbra, do Instituto de Coimbra, do Grémio dos Empregados de Comércio e Industria de Coimbra, dos Bombeiros Voluntários, da Sociedade Tipográfica Lisbonense e Artes Correlativas, da Sociedade Protetora dos Animais, da Sociedade União Beneficente A Voz de Operário, do Centro Promotor de Melhoramentos das Classes Laboriosas de Lisboa, da Sociedade de Geografia e Comercial do Porto, da Academia Real das Ciências de Lisboa, do Clube Literário Limoeirense de Pernambuco, da União Beneficente do Rio de Janeiro, do Grémio de Instrução e Recreio de Bragança, do Grémio Literário de Angra do Heroísmo, foi correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa, da Sociedade de Geografia do Porto, da Associação Liberal Portuense, da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, da Real Associação dois Arquitetos Civis e Arqueólogos Portugueses [idem, ibidem]. Já perto do final da sua vida, além de colaboração esporádica em periódicos estudantis [como o Académico (1880), a Folha Literária (1882) e Portugal (1896)], o “integérrimo liberal” torna-se um “liberal desiludido” [cf Magalhães Lima, Vanguarda, 19 Outubro de 1898], “fez-se republicano” e filia-se (1895) no Partido Republicano, porque era na República que via “a salvação do país” [cf. jornal Resistência, Coimbra, 20 de Outubro 1898; idem O Século, Lisboa]   

Joaquim Martins de Carvalho foi agraciado, em Novembro de 1869, com o “hábito da Conceição”, mas renunciou, tendo sido aceite pelo diploma de 5 de Janeiro de 1870. E é o principal animador da Exposição Distrital de Coimbra, inaugurada a 1 de Janeiro de 1884, onde é presidente da Comissão Executiva. Em 1888, por ocasião do seu 66º aniversário, a Associação dos Artistas de Coimbra “tomou a iniciativa de imponentes manifestações em sua honra”, tendo realizado um “cortejo cívico majestoso”, com representações de todas as associações e dando lugar, a noite, a uma sessão solene onde discursaram o conde de Valenças e o conselheiro José Dias Ferreira [O Século, ibidem].   

 


"Não tendo ele sido verdadeiramente um escritor, na acepção estilística do termo, foi um jornalista ardoroso e intemerato, arrostando tão corajosamente os perigos como afrontava sobranceiramente chufas e arruaças, em luta permanente contra tudo e contra todos pelo Progresso, pela Ordem e pela Verdade" [José Pinto Loureiroin Índice Ideográfico de O Conimbricense, Coimbra, 1953]

"... A collecção do Conimbricense, escripto da primeira columma à última por Martins de Carvalho, é um repositório interessante da nossa historia pátria, em que o fallecido jornalista era aprofundadíssimo e excavador extremado de factos históricos ..." [Portugal Moderno, Rio de Janeiro, 1901]

"É preciosa a collecção do Conimbricense. Mais vasto repositório de história não é possível encontrar-se em nenhum jornal político dos muitos que se tem publicado no paiz. É um arquivo inestimável de factos e documentos valiosíssimos, uma bússola indispensável a todos os cavouqueiros da história pátria. Quando mais não seja a história contemporânea de Portugal não pode fazer-se com segurança sem a consulta previa da collecção do Conimbricense ..." [Marques Gomesin O Conimbricense e a História Contemporânea. Publicação comemorativa do 50º aniversario do nosso mesmo jornal, Aveiro, 1897]

De facto, como se pode ler pelo Índice Ideográfico de O Conimbricense  (sob direcção de Pinto Loureiro), a vastidão e a importância dos assuntos publicados no jornal ao longo dos anos, faz dele uma fonte inultrapassável sobre os acontecimentos económicos, políticos, sociais e literários de finais do século XIX. São curiosas e estimadas as referências sobre Garrett, ArqueologiaLutas AcadémicasBibliografia e Bibliofilia, JornalismoCabralismo, Costumes, Duelos, Tauromaquia, Teatro, Tipografia (importante os seus Apontamentos para a História da Tipografia em Coimbra), Viticultura, Eleições, Epistografia, Évora, Manuel Fernandes Tomás, Freire de AndradeGuerra Peninsular, Herculano, Iberismo, Índia Portuguesa, Lisboa, Macau, José Agostinho de Macedo, Mosteiros, Mutualismo, OperariadoMarquês de Pombal, etc .

Absolutamente notável as inúmeras e preciosas referências que se dispõe sobre CoimbraInquisição, Ordens Religiosas, Invasões Francesas, Lutas Liberais, Miguelismo, Jesuítas, Maçonaria e Carbonária, Sociedades Secretas (como S. Miguel da Ala).

Diga-se, que o próprio Joaquim Martins de Carvalho pertenceu à Carbonária Lusitana de Coimbra , instalada a 29 de Maio de 1848, pelo Padre António Maria da Costa  [o Benigno Primo, ou B. P., Ganganelli] e José Joaquim Manso Preto [B. P. Lagrange] e dissolvida em 1850. Joaquim Martins de Carvalho integrou a “Choça 16 de Maio” [título em homenagem à data da vitoria popular contra o Cabralismo, a 1847 em Coimbra; reunia a choça em frente ao Colégio Novo, quando se sobe a Couraça dos Apóstolos), era Joaquim Martins de Carvalho o Orador, o B. P. “Ledru Rollin”; foi presidente da choça "Segredo" – que sucede à "Choça 16 de Maio", que muda de nome dada a descoberta e o assalto executado pela polícia cabralina e que reúne depois, não sem alguns curiosos percalços, no convento de Santo António dos Olivais - e é 1º secretário da Barraca "Igualdade", que chegou a reunir no Jardim Botânico de Coimbra. Refira-se que a Carbonária Lusitana de Coimbra é diferente daquela que se denomina de Carbonária Portuguesa  (1896/7??) e não se deve confundir com a Carbonária Lusitana, de pendor anarquista - ou Carbonária dos Anarquistas - muito sigilosa, a que pertenceram os anarquistas José do ValeRibeiro de Azevedo, entre outros [vidé a Carbonária em Portugal, por António Ventura, Museu Republica e Resistência, 1999]. Joaquim Martins de Carvalho foi iniciado na maçonaria em data incerta, com o nome simbólico de “Lamartine”, tendo feito parte da loja maçónica de CoimbraPátria e Caridade  [1852-53? – sob obediência da Confederação Maçónica Portuguesa; curiosamente fez parte da loja, sendo seu Venerável, Filipe de Quental (Chatterton) e José Luciano de Castro; a loja situava-se junto ao Colégio dos Grilos e mais tarde muda-se para o Colégio da Trindade – ver Encyclopedia das Encyclopedias, vol. VI M-MAG, p. 396; ver, ainda, Francisco A. Martins de Carvalho, “Algumas horas na minha Livraria", 1910, p.99 e ss].

 


Refira-se que a sua admirável livraria [que contava com peças manuscritas de grande valor e raridade], em parte vendida em 1923 (em Coimbra), era extraordinária - principalmente o conjunto raríssimo de jornais, revistas e publicações várias, autógrafos e um notável conjunto de opúsculos políticos - sendo que o leilão realizado foi um dos acontecimentos mais excepcionais entre os bibliófilos portugueses.

Faleceu em Coimbra a 18 de Outubro de 1898 [curiosamente, 81 anos decorridos da “horrorosa” morte de Gomes Freire de Andrade]. O funeral, que saiu da igreja de S. Bartolomeu para o cemitério da Conchada, apesar de copiosa chuva, foi uma homenagem “imponentíssima”. Todas as associações de Coimbra e um numeroso grupo de trabalhadores marcaram presença, em “alas compactas” na Praça do Comércio [ver “A Voz Pública", 21 de Outubro de 1898], o comércio local fechou as portas, tendo discursado no cemitério Brito Aranha (pelo DN e Associação dos Jornalistas), A. X. da Silva Pereira (pela Associação da Imprensa Portuguesa e como correspondente do Conimbricense em Lisboa), Guilherme Alves Moreira (pelo Partido Republicano), João José Sabino (pela Voz do Operário), José do Carmo (pelo jornal A Voz do Operário), Teixeira Bastos (pelo Século), Ernesto da Silva (pela Liga de Artes Gráficas), António Ferreira Carneiro (carpinteiro e artista conimbricense), José Pereira da Cruz (pelo 1º de Janeiro) e António Bahia (em nome dos pobres de Coimbra). Estiveram presentes um elevado número de representantes de periódicos nacionais e regionais (como a Gazeta da Figueira, Resistência) e a comissão municipal republicana do Porto fez-se representar pelo dr. Afonso Costa [idem, ibidem; ver, ainda, jornal “Vanguarda”, de 20 de Outubro de 1898].  

Algumas ObrasApontamentos para a Historia Contemporânea, Imp. da Univ., 1868 / Novos apontamentos para a História contemporânea os assassinos da Beira, Imp. Univ., 1890 / A Nossa Aliada! Artigos publicados pelo redactor do Conimbricense, Porto, 1883 / Homenagem a Joaquim Martins de Carvalho, Typ. Operaria, 1889 / O Retrato de Venus. Edição Comemorativa do nascimento de Garrett, Coimbra, 1899 / Os assassinos da Beira, Coimbra, 1922 / Catálogo da... livraria que pertenceu ... a Joaquim Martins de Carvalho e ... Francisco Augusto Martins de Carvalho, Imp. da Univ., 1923

NOTA: este texto foi inicialmente publicado, por nós em 2003, no Almocreve das Petas, e apresenta-se agora com novos aditamentos.

J.M.M.

sábado, 9 de dezembro de 2017

BARCA NOVA. SEMANÁRIO DEMOCRÁTICO PROGRESSISTA



BARCA NOVA. Semanário Democrático Progressista. Ano I, nº 1 (10 Novembro 1977) ao Ano VII, nº 241 (3 Junho 1983); Propriedade: Empresa Jornalística do Mondego, SARL; Administração e Redacção: Rua Nogueira da Carvalho, 1 r/c, Figueira da Foz (depois, Rua da República, idem), Porto; Director: Wilson dos Santos Nunes (depois, ao nº 104, José Fernandes Martins); Impressão: Atlântida Editora, SARL, Coimbra; Figueira da Foz; 1977-83, 241+2 numrs
 
Trata-se de um “semanário regionalista” democrático e progressista, politicamente militante na área da esquerda, que se publicou entre 1977 e 1983 na cidade da Figueira da Foz e que pretendia defender “os interesses das populações da Figueira da Foz e concelhos limítrofes”. E fê-lo com rasgado e impiedoso vigor de crítica política (o que explica alguma incomodidade ressentida pelo então situacionismo político local; afinal, na provocação e no estar contra-a-corrente estava a máxima imperativa de Joaquim Namorado: “só a ortodoxia é uma aventura”) e uma graciosa ironia (o humor da pena de José Fernandes Martins era perfumadamente corrosivo); e tanto assim foi que logo no seu primeiro número (1977) foi objecto de “cortes” da censura. Teve como principais fundadores e orientadores ideológicos duas personalidades excepcionais, dois grandes amigos, dois grandes companheiros de jornadas culturais e políticas, Joaquim Namorado e José Fernandes Martins, ambos luminosos colaboradores da imprensa regional e nacional, quer nos periódicos República, Diário de Lisboa, Opinião, Diário e, principalmente, na revista Vértice.


O semanário era propriedade de uma curiosa sociedade anónima de responsabilidade limitada [Joaquim Namorado estava, certamente, consciente do que aconteceu à antiga revista “Vértice”], a Empresa Jornalística do Mondego [foi constituída aos 22 de Agosto de 1977] e os seus corpos gerentes eram assim formados: Conselho de Administração: Carlos Manuel dos Santos Neto (Pres.), Wilson dos Santos Nunes e Mário António Figueiredo Neto; Conselho Fiscal: Joaquim José Cerqueira da Rocha (Pres.), Armando de Oliveira Correia e Lídia da Silva Amaral Beja da Silva (efectivos) e José Augusto Alves Fernandes (suplente); Mesa da Assembleia Geral: Rui Pinto Ferreira Alves (Pres.), José Alberto de Castro Fernandes Martins e António Reis (secretários). Era impresso todas as quartas-feiras em Coimbra, na tipografia da Editora Atlântida; seguia depois para a Figueira da Foz, via comboio, nas mãos do recoveiro da CP, para as competentes provas de revisão ortográfica e tipográfica; regressava de novo a Coimbra e findo o trabalho correctivo partia no comboio matutino dos sábados para a Figueira da Foz, para a sua cobertura local e envio pelo correio aos assinantes (sob direção de Adalberto Carvalho); é evidente a colossal aventura logística que exigia, o que não poucas vezes atrasou a distribuição (à volta de 2000 exemplares) do jornal.  


[Alguns Escritos] Colaboração: A. Esteves, A. Janeiro, Adelino Tavares da Silva, Alexandre Campos, Álvaro Bica, António Agostinho, António Augusto Menano, António Maria Carvalho, António Martins Quaresma, António Nascimento, António Oliveira, Armando Correia, Arménio Paixão, Augusto Alberto Pinto Rodrigues, Carlos A. Leal, Carlos Alberto Amorim, César dos Santos, E. Sousa-Abreu, Fernando Gomes Pedrosa, Fernando Lopes Graça, Gilberto Vasco, Guije Baltar, Helder Fonseca, Idalécio Cação, Joaquim António Carriço, Joaquim da Graça, Joaquim José Cerqueira da Rocha, Joaquim Namorado, Jorge Camarneiro, Jorge Leite, Jorge Rigueira, José Augusto Alves Fernandes, José Ferreira Monte [com inéditos], José Fernandes Martins, José Penicheiro, José Traqueia Bracourt, Leitão Fernandes, Leonor Santa Rita, Luís de Albuquerque, Luís Carvalheira, Luís Falcão, Luís Melo Biscaia, Luísa Maria Martins, Lucinda Alves Jordão, Luiz Francisco Rebello, Manuel Cintrão, Mário Castrim, Mário Dionísio, Mário Neto, Mário B. Ribeiro, Mário Reis, Miguel Andrade, Orlando de Carvalho, Pedro Biscaia, Rui Clímaco, Rui Namorado, Rui Santos, Ruy Alves, Teixeira Martins, Sant’Anna Dionísio [“Mondego e os Campos de Coimbra a Montemor”, nº78 e ss], Vasco Gonçalves, Victor Camarneiro, Vital Moreira, Vitorino de Nemésio, Waldemar Ramalho.
J.M.M.

domingo, 3 de dezembro de 2017

IN MEMORIAM DE MÁRIO NETO (1942-2017)



O engenheiro e professor Mário Neto, cuja morte surpreendeu amigos e admiradores, partiu discretamente, como sempre rendilhou a sua vida, faz esta noite uma semana. Este nosso querido amigo, dedicado companheiro e mestre, não consentiu – na sua proverbial humildade – a homenagem pública que fraternalmente se impunha à admiração e respeito das suas avultadas qualidades humanas e que os figueirenses sabiamente lhe reconheciam. Partiu de rosto levantado, com a honrada obrigação do dever cumprido.

O falecimento do Mário Neto, leitor atento (e crítico) do Almanaque Republicano [como antes, do Almocreve das Petas], deixa-nos profundamente consternados: pelo saber que irradiava, na inteligência, bondade e generosidade intelectual que repartia e o engrandecia. Mário Neto, como tão bem disse [in Diário das Beiras, 30/11/ 2017] o nosso comum amigo Guedes Correia era “uma figura quase renascentista, ao estilo de Leonardo da Vinci ou de Pico della Mirandola, capaz de ter um discurso motivante e encorajador sobre a humanidade e sobre o mundo a partir da sua experiência pessoal, das suas leituras, das suas viagens”.

Mário Neto foi nosso distinto professor na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e, na lei que regula os destinos, tivemos o privilégio de nos ter honrado com a sua amizade e companheirismo. A sua intensa luz soube-nos aproveitar este tempo de utopias, essa “grande paz exterior das coisas” [H.H.] com a serenidade prudente que o sentimento de liberdade exige. E que Mário Neto tão ciosamente buscava, na sua perfumada independência e na benevolência do seu pensamento. O seu legado pela igualdade e dignidade dos Homens, de que era cultor irredutível, eleva-se admirável e eloquentemente. E não será esquecido.

Até sempre, Mário Neto.

Mário António Figueiredo Neto nasceu na Figueira da Foz a 19 de Fevereiro de 1942. Fez os seus estudos no liceu da Figueira da Foz até ao 2º ano, terminando depois o ensino secundário no Liceu D. João III (actual José Falcão). Entretanto foi um curioso desportista, do futebol à prática de ténis de mesa, representando nesta última modalidade o Ginásio Clube Figueirense. Partiu para Lisboa, matriculando-se no Instituto Superior Técnico [IST], em engenharia de máquinas, ou engenharia mecânica [o Núcleo de Estudos de Engenharia Mecânica data de 1960 e foi o primeiro e único a trabalhar até 1975].

Em Lisboa, residiu numa das várias “repúblicas” que pululavam à volta do IST, onde conviveu (e se fez amigo) com uma geração de estudantes messiânicos [dos católicos progressistas aos futuros membros da FAP/CMLP], intransigente contra a ditadura e o Estado Novo. O cinema (sua grande e eterna paixão) e a vida associativa moldaram-lhe o dom e o ornamento do seu carácter, assumidamente combativo contra a impetuosa repressão cultural e política do seu tempo. Frequentou, então, o movimento do cineclubismo, que dava os seus passos, assumindo a direcção (1964) do Cineclube Universitário de Lisboa [CCUL].  

A crise de 1964-65, consequência dos movimentos estudantis de 1956 e de 1962, torna-o activista consciente dos valores da democracia e da liberdade. O Partido Comunista, então em movimento de rectificação contra o “desvio de direita” [antes, Álvaro Cunhal, que se tinha evadido, com outros camaradas seus, do Forte de Peniche, foi nomeado secretário-geral do partido, em Janeiro de 1960], aprova, em Abril de 1964, o importante relatório, elaborado por Álvaro Cunhal, “Rumo à Vitória. As tarefas do Partido na Revolução Democrática e Nacional”, que marca uma nova linha política de combate e derrube do fascismo. A importância dada à conquista da direcção de movimentos culturais e associativos (caravanismo, cineclubismo, associação de estudantes e associações culturais em geral) é notória, visando politizar amplos sectores da população e em especial, mobilizando os estudantes, então ávidos de liberdade e modernidade [sobre este curioso assunto, veja-se: Guya Accornero, Efervescência Estudantil. Estudantes, acção contenciosa e processo político no final do Estado Novo (1956-1974), 2009]. Assim, Mário Neto integra-se nesse movimento, que irrompe à escala nacional (e sabe-se o efeito que teve na greve académica de 1969, em Coimbra; de outro modo, tenha-se em conta o começo dos protestos contra a guerra do Vietname, na Universidade de Berkeley, também em 1964) e, particularmente, no Instituto Superior Técnico     

No dia 24 (ou 25?) de Novembro de 1964, Mário Neto é preso na rua pela PIDE. Então na direcção do CCUL [cf.Liberdade para os Estudantes Presos”, 1º informação das Comissões de Apoio; antes já tinham sido detidos inúmeros estudantes de várias Faculdades, entre os quais Saldanha Sanches, Rui Faure da Rosa, …], Mário Neto (pseudónimo Cândido) é acusado de ser dirigente do PCP no IST, não tendo prestado à PIDE qualquer declaração [outros dirigentes então presos e acusados de ligação ao PCP, seriam: José Crisóstomo Teixeira (pseud. Gonçalo; controlaria superiormente as actividades da Faculdade de Ciências, IST, RIA, Belas-Artes, ISCEF, liceus e escolas técnicas), Humberto António Caria Lucas (pseud. Hugo; juntamente com o Mário Neto seria quem orientava as actividades do IST) – ver jornal República 28/01/1965, p.2 e 15].

No Aljube partilha a mesma cela com Mário Lino (Milo), Fernando Rosas (Rui) e outros mais, quase todos presos na sequência da vaga de prisões verificadas a 21 de Janeiro de 1965, por delação do controleiro do PCP para o sector estudantil Nuno Álvares Pereira [NAP] (pseud. Moreira – ver sobre este assunto, Irene Pimentel, “Vitimas de Salazar”). Refira-se que o caso NAP não esta completamente esclarecido, colocando-se a hipótese de ter sido, ele próprio, um infiltrado da PIDE. Por último, diga-se que a vaga de prisões verificada decapitou o sector estudantil de Lisboa do PCP e curiosamente, como AQUI referimos, deixou incólume o sector de Coimbra, então sob direcção de Valentim Alexandre, ou Vieira. Mário Neto é julgado em 11 de Agosto de 1965, no Plenário Criminal Auxiliar da Boa-Hora, tendo sido absolvido, saindo em liberdade (cf. Diário de Lisboa, 12/08/1965, p. 2).   

Lecciona na Escola Emídio Navarro (Setúbal) em 1965/66 e na Escola Afonso Domingues  (Lisboa) no ano de 1966/67, tendo sido afastado compulsivamente desta Escola a 14 de Junho de 1967, por motivos políticos, pelo Despacho do Conselho de Ministros de 13 de Junho desse ano.  

Cumpre, depois, serviço militar, tendo sido incorporado a 12 de Julho de 1971, saindo a 27 de Setembro de 1974 ( esteve às ordens de Vasco Gonçalves).  Termina o curso em engenharia e, de imediato, matriculou-se e frequentou, com aproveitamento, Economia no ISCEF   

 


No regresso à Figueira da Foz, no ano letivo de 1974/1975, lecionou na Escola Industrial Bernardino Machado. Depois do 25 de Abril, manteve-se militante do PCP, integrando como deputado a Assembleia Municipal. Demitiu-se, em discordância política com o Partido, ainda quando era deputado pela Assembleia.

Mário Neto teve ensejo de integrar o grupo inicial desse curioso projecto figueirense, o periódico “Barca Nova” [semanário democrático progressista;1, 10 de Novembro de 1977 ao nº 241, de 3 de Junho de 1983], sob impulso (principalmente) de Joaquim Namorado e José Fernandes Martins, em torno da Empresa Jornalística do Mondego, SARL, tendo colaborado com textos e pertencido desde a constituição da sociedade, ao seu Conselho de Administração [juntamente com Carlos Neto, presidente, e Wilson dos Santos, que foi, ao mesmo tempo, o primeiro director].

A partir de 1975/1976, Mário Neto é assistente convidado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, ministrando a disciplina de Microeconomia. Aposentou-se em Dezembro de 2008.   
 
Mário Neto era membro do Grande Oriente Lusitano há mais de duas dezenas de anos, fazendo parte da Loja Fernandes Tomás, da Figueira da Foz.

Faleceu no final do dia 26 de Novembro de 2017.

J.M.M.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

PORTUGALA ESPERANTISTO: ORGÃO DO MOVIMENTO ESPERANTISTA PORTUGUÊS



PORTUGALA ESPERANTISTO. Órgão mensal do Movimento Esperantista Português. Ano I, nº 1 (Janeiro de 1936) ao nº 8 (Agosto de 1936); Propriedade: L.E.S Nova Vojo, Liga dos Esperantistas Ocidentais e L.E.S. Antauen [no nº1]; Administração e Redacção: Rua Jardim do Regedor, nº5, 4 º, Lisboa; Editor: Joaquim Costa; Director: Manuel de Jesus Garcia; Impressão: Sociedade Industrial de Tipografia (Rua Almirante Pessanha, 5, Lisboa) [ao nº3, Tip. A Montanhesa (Rua Luz Soriano, 71, Lisboa]; Lisboa; 1936, 8 numrs

Colaboração: A. Couto, Afonso de Castro, Alsácia Fontes Machado, António Alves, Carvela Ribeiro, Costa Júnior, Jacinto Benavente, José Antunes, José Vicente Júnior, Júlio Baghy, Júlio Dantas, Justinho Carvalho, L. Beaufront, Lígia de Oliveira, Luzo Bemaldo, Manuel de Jesus Garcia, Mário Pedroso de Lima, Ramiro Farinha, Saldanha Carreira [importante impulsionador do esperantismo português], [Simões Raposo – entrevista].

Trata-se de um periódico esperantista (bilingue), que se dizia “órgão do movimento esperantista”, que se publicou em 1936, em Lisboa. Foram fundadores e proprietários três organismos esperantistas: a “L[aboristas] E[sperantistas] S[ocieto] Nova Vojo”, a “Liga dos Esperantistas Ocidentais” e a “L.E.S. Antauen”.
PORTUGALA ESPERANTISTO AQUI DIGITALIZADO
► «Esta "língua internacional auxiliar", cuja história remonta (também em Portugal) aos finais do século XIX, conhece um ressurgimento na década de 30 do século XX, e é nesse contexto que este jornal, bilingue, se apresenta em editorial: "Ao publicarmos o primeiro número (...), cumpre-nos dizer duas palavras sobre o seu aparecimento. É muito difícil, quási impossível, por nos faltarem elementos, determinar com precisão as causas do desenvolvimento do Esperanto no país, depois de 1931. Certo é que, dessa data em diante, as sociedades, as secções e cursos de Esperanto se multiplicaram de uma maneira assombrosa, não só na capital como na província, num ritmo com tendência a acelerar-se. Só em Lisboa, o número de esperantistas filiados nas organizações citadinas duplicou e, constatando êsse número salta logo à vista que, paralelamente, nada estava feito que pudesse unificar e coordenar os esforços de todos, dando-lhes consciência de uma finalidade a atingir."
Essa coordenação, lê-se no editorial do número seguinte, fazia parte da missão do Portugala Esperantisto, que se propunha como "instrumento de aproximação entre as sociedades esperantistas e consequentemente entre os esperantistas", com vista à futura constituição de uma entidade coordenadora, não um "organismo de carácter associativo ou federativo", antes uma "comissão que interrelacione os grupos".
Saiba mais na ficha histórica da publicação, por Rita Correia, aqui.
 
Em paralelo, disponibilizamos, aqui, a Grammatica da lingua internacional auxiliar Esperanto, editada no Porto em 1907, da autoria de José Augusto Proença e o Curso completo (elementar, médio e superior) de Esperanto, aqui, em 16 fascículos, editado pelo Portugala Instituto de Esperanto entre 1934 e 1935.
Para assinalar a disponibilização destes materiais, iremos realizar na Hemeroteca, amanhã, 7 de dezembro, pelas 17:30h, a sessão O Esperanto como veículo de paz e amizade entre os povos : do Portugala Esperantisto aos nossos dias. Rita Correia falará do passado do Esperanto e Miguel Boieiro, orador convidado, falará do seu presente e das perspetivas de futuro. Mais informações aqui» [via Hemeroteca]

J.M.M.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

sábado, 30 de novembro de 2013

FORA DA LEI! PERIÓDICO PANFLETÁRIO E REPUBLICANO


FORA DA LEI! Periódico Panfletário e Republicano – 1915; Proprietários, Editores e Directores: Hermano Neves & Herculano Nunes; Administração e Depósito: Livraria Ventura Abrantes (Rua do Alecrim, 80), Lisboa; Impressão: Tip. Leiria (Rua da Horta Seca, 64), Lisboa; 1915, II numrs [29 de Abril 1915-6 de Maio de 1915]


O facto de voluntariamente nos collocarmos fora da lei, outra coisa não significa mais do que a affirmação de uma necessidade urgente: entendemos que n’este grave momento da vida nacional é indispensável proclamar-se sem rodeios e sem hesitações tudo o que suppomos a verdade.

Fóra da lei, quuer dizer, libertos de preconceitos, de convenções, de hypocrisias, de conveniências, orientados apenas pelo interesse supremo de um paiz cujas energias tardam em despertar, guiados tão somente pelo desejo de contribuir, com um pouco de esforço, para o grande esforço de patriótica ressureição que é indispensável surgir em Portugal. Fora da lei é tudo isto, mas é mais alguma coisa ainda: é a garantia de uma independência formal de clientellas e de partidos políticos, cujos interesses só consideramos legítimos quando se confundem com os interesses geraes da nação ..." [in nº I, 29 de Abril 1915]
 
 
J.M.M.

terça-feira, 28 de maio de 2013

O DYABO


O DYABO - Editor Responsável, João Victorino Ribeiro [a partir do nº2. Manuel Inácio Alves Pereira], Typographia Gutenberg, Porto. 1895, VI números.
 
Ano I, nº 1 (12 Maio 1895) ao nº 6 (17 Agosto de 1895);
 
Manuel Inácio Alves Pereira (1869- ), escriturário por profissão e guarda-livros da Liga das Associações de Socorros Mútuos (de Gaia), foi um curioso editor [colabora n’A Portugueza, Velocipedista, O Carapau, A Luz, Zé Povinho, O Má Língua, Revista Nova, Moncorvo, O Arauto – ver AQUI], por diversas vezes condenado por abuso de liberdade de imprensa (como foi o caso passado com “A Portugueza”).  
 
Cavalheiro! Parece-me que lhes vejo os narizes torcidos! Pois destorçam-n’os que eu vou fallar. Sou o Dyabo, volto do exilio, venho sadio e mau, sem o desalento e a gloria que se amalgamaram na fronte do senhor João Chagas, mas disposto, se a minha popularidade não chegar ás fabricas de louça ou bolacha, a leval-os todos para as profundas do Inferno. Quem disse que eu morrera, mentiu-lhes. É verdade que o Guerra Junqueiro me atou uma lata ao rabo, e me fez coisas do arco-da-velha, mas nesse tempo, andava eu faminto, anemico de bolsa, como os manos Arroios de vesga memoria (...)”.
 
O seu programa diz o seguinte: “É coisa que não fazemos, ao inverso da estafada praxe. O nosso programma está na nossa consciencia; sebel-o-ha quem nos lêr. Fazer programmas para mentil-os, é uma torpeza reles ou incoherencia estupida. De resto, não nos bandeamos com ninguem: queremos fazer fogo de franco-atiradores (...)” [ler AQUI]
 
J.M.M.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A ORGIA – GOMES LEAL


A ORGIA – Publicação mensal: política, litteratura, costumes, por Gomes Leal, Lisboa, Typographia Popular [ed. Autor], 26 de Fevereiro de 1882, 98-II pags.

Primeiro (e único) número: Carta a El-Rei de Hespanha Sobre a União Ibérica

Na sequência do Tricentenário Camoniano, que impulsionou as ideias republicanas em Portugal [cf. Gomes Leal Sua Vida e sua Obra, de Álvaro Neves e Henrique Marques Júnior, Editorial Enciclopédia, Lda, Lisboa, 1948], foram abertos Centros Republicanos, publicam-se periódicos [O Século sai a 4 de Janeiro de 1881, com o poeta-panfletista fazendo parte da sua redacção], fazem-se conferências e comícios. Gomes Leal acompanha todo esse movimento de propaganda republicana.

Escreve “A Fomes de Camões” [1880], publica o “Bisturi”, é orador em comícios promovidos pel’O Século, publica o folheto (hoje raríssimo) “A Traição”, que tem de imediato o apoio entusiástico de “um grupo de operários” [ibidem], sendo preso “pelos crimes injúrias por escrito dirigidas ao rei pública e directamente tendo por fins excitar o ódio contra a sua pessoa e autoridade, e excitar o povo á guerra civil e à revolta” [in “Última Hora", artigo do jornal “O Século de 5 de Julho de 1881 – aliás Gomes Leal …, ibidem, pp 62-63]. A agitação dos Centos Republicanos não se fez esperar, protestando contra a sua prisão. O “António Maria”, pela pena de Bordalo Pinheiro, consagra-lhe o seu nº7 [Julho].   
  
Gomes Leal está, portanto, no Limoeiro. Entra altivo, aristocrata, de “fraque, flor petulante na lapela, fumando o predilecto charuto, de chapéu declinado sobre o lado direito” [ibidem]. Escreve uma curiosa Carta aos “correligionários” e publicada n’O Século. Os republicanos, em sua homenagem, respondem com a abertura do Centro Republicano Gomes Leal [Rua das Farinhas, nº1].

Gomes Leal “prevarica” novamente, para irritação dos “burgueses” e “irritação” ministerial. Escreve (1881) o opúsculo “O Herege. Carta dirigida a D. Maria Pia de Sabóia acerca da queda dos Thronos e dos Altares”, seguido do folheto satírico (1881) “O Renegado. A António Rodrigues Sampaio. Carta ao velho pamphletario sobre a perseguição da imprensa”. Quando sai da prisão é de novo preso pelo Arrobas [governador-civil] por um soneto onde o poeta faz dela chacota pública e satiriza. Ganha o recurso em tribunal, para regozijo dos admiradores e amigos. 

A 23 de Janeiro de 1882 na Sessão Solene do I Aniversário do Club Henriques Nogueira, o poeta Gomes Leal é um dos participantes. Logo no dia 2 de Fevereiro usa da palavra num Comício em Alcântara, contra o Tratado do Comércio.

No dia 26 de Fevereiro sai a público a publicação “A Orgia”, panfleto revolucionário de Gomes Leal [ibidem] do qual só saiu o 1º número, dedicando uma Carta a El-Rei de Espanha sobre a União Ibérica. 
 
Depois disso …. bem, depois disso, temos um Gomes Leal que [citando Bordalo Pinheiro, no “António Maria”] “tanto o apodaram de satânico, que Gomes Leal, sentindo-se um dia muito madalena, pôs o gibão de fogo e os calções de tarlatana e as asinhas de jaspe dos querubins, fez-se alado às regiões místicas (…)” e “virou a casaca”.

FOTO via FRENESI

J.M.M.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

CORRIDA DE JORNAIS


CORRIDA DE JORNAIS: desenho de Silva e Souza, inO Zé”.

Com Machado Santos [Intransigente], Cruz Moreira [Os Ridículos], António José de Almeida [República], Brito Camacho [A Luta] e Afonso Costa [O Mundo].


J.M.M.  

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A BARRICADA. SEMANARIO RADICAL ORGÃO DOS OPRIMIDOS



A BARRICADA. Semanario Radical Orgão dos Oprimidos – Ano I, nº 1 (30 de Março 1890); Administração: Rua de São Bento, 602, 2º: Lisboa; Redacção: Rua Saraiva de Carvalho, 47, Lisboa, (1890-?)

A Barricada AQUI digitalizado

J.M.M.

domingo, 17 de julho de 2011

A OBRA SOCIAL DA REPÚBLICA - POR ALFREDO PIMENTA



Conferência [extracto]: "A Obra Social da República":
Orador: Alfredo Pimenta;
Data: 23 de Novembro de 1910

FOTO: Semanário "Alvorada", de 27 de Novembro de 1910 - via Memórias de Araduca [clicar para ler]

Conferência republicana proferida por Alfredo Pimenta na Associação dos Empregados do Comércio de Guimarães e publicada no nº1 do semanario republicano Alvorada

[o periódico "Alvorada" nasce a 1 de Junho de 1907 e acabará (ao que se julga) no seu nº4, de Junho do mesmo ano; segue-se o (ainda) semanário com o mesmo título e o mesmo director (e proprietário), António Lopes de Carvalho; Editor: dr. Alberto Rodrigues; impresso na Tipografia Minerva Vimaranense e redacção na rua da República, 154; com duas séries, este semanário de esquerda republicana, publica-se de 27 de Novembro de 1910 a 9 de Setembro de 1921 (cf. A.H.O.M.); teve como redactores e colaboradores: capitão Luís Augusto de Pina Guimarâes, A. L. de Carvalho, dr. Francisco Moreira Sampaio, dr. Florêncio Lobo, Carlos Torres, ... - ver Revista de Guimarães, 1940]

J.M.M.

domingo, 12 de junho de 2011

O ENSINO LIVRE (1871-1872)



O ENSINO LIVRE - [Ano I, nº1 (8 de Outubro 1871) ao nº 51 (29 de Setembro 1872)], Lisboa; Proprietários: Joaquim José Annaya, Carlos Borges; Administrador: Joaquim José Annaya; Colaboração: A. de Castro, A. M. C. L. [correspondência], Alfredo Júlio de Brito [dir. Escola Central Primária de Lisboa], António da Costa, António Sérvulo da Mata, E. [correspondente do Porto], E. Motta, F. J. de Campos Rodrigues, Francisco Adolfo Varnhagen, J. A. Simões Raposo, J. P. [correspondente de Coimbra], João Semana, Lucílio [Cartas a Lucílio], M.C.R. [correspondência], Nelson [correspondência], Pedro Maria de Aguilar, Viscondessa de Tagilde [Folhetim]; Administração e Redacção: Praça de D. Pedro (Rossio), 102, 1º [a partir do nº7, na rua dos Retroseiros, 46, 1º; depois ao nº14, para a rua do Crucifixo, 62-66], Lisboa; Tipografia Central, Rua dos Retroseiros, nº46, Lisboa [ao nº14, Tip. do Ensino Livre, rua do Crucifixo]; publica-se semanalmente, aos Domingos [vende-se na Livraria do sr. Lavado, Rua Augusta, 95].

FOTO: reprodução da capa do nº 2 d’O Ensino Livre, via Biblioteca Nacional.

NOTA: interessante periódico onde se pretende debater o estado da Instrução Pública, apresentando como "indispensáveis para a reforma e desenvolvimento da educação em Portugal: liberdade de ensino, descentralização administrativa e articulação da iniciativa privada com a oficial" [cf. "A Imprensa de Educação e Ensino", dir. António Nóvoa, Lisboa, 1993, p. 347-48]. Alguns textos a registar:

A "História da Instrução Popular em Portugal, desde a fundação da Monarquia até aos nossos dias", por D. António da Costa [do nº1 ao nº6]; a necessidade de "reactivar a Associação de Professores"; um curioso anúncio do "Horário das Aulas da Escola Académica"; as "Cartas a Lucílio"; o "Quadro Nominal dos Discípulos" leccionados no ano de 1871, pelo Instituto Caligráfico, dirigido por Carlos Silva [nº15]; a "Proposta de lei de Instrução Pública” [apresentação e debate, com realce para um texto crítico de Simões Raposo – ao nº19 e segs]; um polémico texto [com cont.] contra o Reitor do Liceu Nacional de Lisboa [nº21 e segs, onde são referenciados abusos, ilegalidades e transgressões da lei na época de exames. A polémica trouxe à liça um curioso (e violento) debate entre os articulistas dos jornais a Crença Liberal e a Gazeta do Povo contra os d’ O Ensino Livre]; um In Memoriam de Pedro Augusto Adolfo Mauperrin [nº28]; uns "Apontamentos para a História do Ensino dos Surdos-Mudos em Portugal" e a notícia da reunião iniciadora da comissão para a fundação de uma Escola própria [nº35].

O Ensino Livre AQUI digitalizado.

J.M.M.

domingo, 5 de junho de 2011

O REPUBLICANO 1869



O REPUBLICANO. Folha do Povo. Liberdade, Igualdade, Fraternidade - [Ano I, nº1 (1869) ao nº3 (1869)], Lisboa; Administração: Rua da Penha de França (ao Colégio dos Nobres), 52, 1º, Lisboa; Tipografia Lusitana, Rua Nova da Palma, 89-91, Lisboa [nº2, na Tip. Lisbonense, Largo de S. Roque, 7, Lisboa]

O Republicano digitalizado na Biblioteca Nacional, AQUI.

J.M.M.

sábado, 28 de maio de 2011

A BOMBA - JORNAL HUMORÍSTICO DO PORTO



A Hemeroteca Digital disponibilizou online o jornal humorístico "A BOMBA". Esta curiosa peça bibliográfica "estourou" nos tempos idos de 1912 na cidade do Porto, justamente na Rua da Alegria. "Apesar de efémera trata-se duma publicação importante, quer pelo posicionamento político que adopta, de crítica do status quo, quer pela qualidade gráfica dos desenhos e caricaturas que deu à estampa, numa diversidade de traços e temas que marcam sem dúvida a imprensa humorística desta época"

- ler a ficha bibliográfica (por Álvaro Costa de Matos) - AQUI;
- jornal A BOMBA (nos seus 10 numrs) - digitalizado AQUI.

A BOMBA. Jornal humorístico - [Ano I, nº1 (20 de Abril 1912) ao nº 10 (22 de Junho 1912)], Porto; Editor: Carlos Gonçalves; Direcção Literária: Álvaro Pinto; Direcção Artística; Cristiano de Carvalho; Redactor: Laurindo Mendes; Colaboração gráfica: Almada Negreiros, Cristiano Cruz, Gil, Larçam [pseud. António Marçal]; M. Pacheco, Manuel Monterroso; Colaboração literária: Algodão Pólvora, Álvaro de Alte [Álvaro Pinto?], Ambrósio, Clorato, Doutor Estouro, Jerónimo, Girândola, Melinite, Nitro, Picrato – todos pseud. - e, ainda, Álvaro Pinto, J. Costa Carregal, Silva Cunha; Administração: Rua da Alegria, 218, Porto; Tipografia: Travessa Passos Manuel, 27; publica-se aos sábados.

FOTOS: reprodução da capa do nº 1 e nº 9 d’A Bomba.

J.M.M.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

TRIBUNA DO POVO


Local: Lisboa
Periodicidade: semanário
Proprietário: Não determinado
Director: Não determinado
Tipografia: Rua da Rosa, 275
Páginas: 4 pág.
Colunas: 4
Surgiu em: 02-03-1879
Terminou publicação em: 11-05-1879, tendo sido publicados 11 números.
Rubricas regulares: Folhetim “A Arte e a República”, Revista Estrangeira, Crónica do Ensino Superior, Boletim Comercial, Revista dos Teatros, Correspondência, entre outros espaços.
Colaboradores: Angelina Vidal, que neste periódico utilizou o pseudónimo de Juvenal Pigmeu, José Francisco Azevedo e Silva, Bartolomeu Salazar Moscoso, Horácio Hesk Ferrari, João Monteiro, Louis Viardot, entre outros.
Foi neste jornal que Angelina Vidal criticou a inexistência de retórica nos versos de Cesário Verde. Por outro lado, esta notável panfletária e poetisa republicana anuncia também a publicação de um poema de Angelina Vidal intitulado "A Morte de Satã".

A.A.B.M.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O PROLETARIO BI-SEMANÁRIO DEFENSOR DO OPERARIADO EM GERAL


O PROLETÁRIO BI-SEMANÁRIO DEFENSOR DO OPERARIADO EM GERAL – Ano I, nº 1 (1 Maio 1898) ao nº 16 (10 Julho de 1898), Lisboa; Administração e Redacção, Campo de Santa Clara, 144 A-146, Lisboa; Editor: Manoel Moreira; Director: Guedes Quinhones [a partir nº15]; Correspondência: dirigida a José Moreira do Amaral, Campo de Sta Clara, 144 A, Lisboa; Impressão: Imprensa Minerva, Campo de Santa Clara, 144 A- 146, Lisboa; publica-se aos Domingos e quintas-feiras; 1898, 16 numrs,

Colaboração/textos: António de Campos Vieira, António José Machado, Costa Goodolphim, Emílio Zola [via publicação do ‘Germinal” em folhetim, versão de Augusto José Vieira], Francisco José Pereira, Gil Ruiz, Gonçalves Viana, Guedes Quinhones, João Portugal (Tavira), João Rodrigues, Joaquim Rodrigues Lourenço, José Benedy, José Carvalho Branco (Sesimbra), Karl Marx [“Teoria da Luta de Classes”], Marques Farinha, Miguel António Lopes, Nodigal, P. A. d’Assunção, Ribeiro Gonçalves, Túlio, Vieira da Silva.


A Biblioteca Nacional disponibilizou online O PROLETÁRIO (bi-semanário defensor do operariado em geral), com o seu primeiro número saído no dia 1º de Maio de 1898. Teve curiosa colaboração operária como a do socialista heterodoxo e livre-pensador, [José Augusto] Guedes Quinhones, que foi seu director a partir do nº15;

[Guedes Quinhones (1861-1911) foi o fundador da Associação dos Carpinteiros Civis (cf. António Ventura, Anarquistas Republicanos e Socialistas em Portugal, 2000), fez parte do Partido Socialista, era um destacado militante anticlerical (colaborou na Associação de Registo Civil), foi autor dos folhetos anticlericais "Folhas que Voam" (30 de Julho 1898), participou no Congresso Anticlerical de 1900 com a tese "Federação dos Círios Civis como elemento de combate à reacção", e dirigiu os periódicos A Garlopa (1886), O Revoltado (1887), A Obra (1891) e colaborou nalguns dos mais destacados jornais operários; suicidou-se em 14 de Março de 1911 (cf. António Ventura, ibid.)]

e ainda escritos de Costa Goodolphim e Vieira da Silva.

O PROLETÁRIO AQUI digitalizado.

sábado, 9 de abril de 2011

TERRA LIVRE – SEMANÁRIO ANARQUISTA


TERRA LIVRE. SEMANÁRIO ANARQUISTA – Ano I, nº 1 (13 Fevereiro 1913) ao nº 24 (31 de Julho de 1913), Lisboa; Propriedade: Grupo Terra Livre; Administração e Redacção: Rua das Gáveas, 55, 1º, Lisboa; Editor: Jaime de Castro; Director: Pinto Quartin; Corpo Redactorial: Carlos Rates, Neno Vasco, Pinto Quartin, Sobral de Campos; Impressão: Oficinas Gráficas, Rua do Poço dos Negros, 81, Lisboa; publica-se às quintas-feiras; 1913, 24 numrs,

Colaboração/textos: A. Girard, Adolfo Lima, Afonso Manaças (estudan. medicina), Araújo Pereira, Astrogildo Pereira, Aurélio Quintanilha (estudan. Medicina), Bel-Adon, Campos Lima, Clemente Vieira dos Santos, Eça de Queiroz, Edmundo d’Oliveira, Emília Garrido, Emílio Costa, Errico Malatesta, Francisco Lopes de Sousa [carta ao semanário sobre a sua prisão e de outros camaradas em Olhão], Francisco Moreno, G. Moitet, Gaspar Santos (estudan. Medicina), Humberto de Avelar, Ismael Pimentel, Jacinto Benavente, Joana Dubois, José Bacelar, José Benedy, José Carlos de Sousa, José Gomes Ventura, Madeleine Vernet, Manuel Luiz da Costa Júnior, Marcela Capy Marques, Manuel Ribeiro, Max Nourdau, Miranda Santos, N. de B., Nelly Roussel, Pedro Kropotkine, R. C. Júdice, Rocha Vieira (caricaturista), Rene Miguel, Rui Forsado, Zeferino Oliva.

A Biblioteca Nacional disponibilizou online um dos mais importantes jornais da corrente anarquista e libertária do movimento operário, Terra Livre. Nascido em 1913, “nesse agitado e turbulento ano” [cf. João Medina, Um semanário anarquista durante o primeiro governo de Afonso Costa. ‘Terra Livre’, Análise Social, vol. XVII (67-68), 1981] que curiosamente “não deixava saudades a quem quer que fosse, nem mesmo porventura a Afonso Costa, que em começos do ano seguinte acabaria de se apear do Ministério, após a árdua tarefa de dirigir o país durante exactamente treze meses” [ibid], o semanário Terra Livre (“órgão da luta social e económica”) teve a colaboração dos mais preclaros e esclarecidos libertários de então [Pinto Quartin, Carlos Rates, Neno Vasco, Sobral de Campos, Manuel Ribeiro, Emílio Costa, Adolfo Lima, Campos Lima, Aurélio Quintanilha]. Doutrinador e formativo, promoveu um conjunto de raras iniciativas no campo político, cultural e de divulgação do ideário anarquista, criticando e combatendo o parlamentarismo republicano e o governo de Afonso Costa [ver César de Oliveira, in Antologia da Imprensa Operária Portuguesa, 1837-1936, Lisboa, 1984].

Com uma tiragem de 3500 exemplares, o semanário Terra Livre era um “ponto de encontro” e lugar de debate para os mais esclarecidos e “iluminados” dirigentes do movimento operário. Não resistindo à repressão imposta pelo governo de Afonso Costa [o “novo João Franco” ou o “racha-sindicalistas”], com a prisão e a expulsão [por dez anos para o Brasil] do seu director, Pinto Quartin, e de muitos dos seus colaboradores, no decorrer de uma feroz vaga repressora anti-operária e anti-social, o periódico Terra Livre termina a sua publicação ao fim de 24 números e com ele finda uma voz incómoda ao “conservadorismo republicano” [ver, sobre o assunto, o esclarecido artigo, já citado, de João Medina].

Terra Livre AQUI online.

J.M.M.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

FONTES ONLINE PARA ESTUDAR O 31 DE JANEIRO


Existem actualmente um conjunto apreciável de fontes disponíveis em vários espaços que nos permitem acompanhar e compreender o que foi o 31 de Janeiro de 1891.

Em primeiro lugar, começando pela Biblioteca Nacional Digital, onde é possível consultar alguns títulos imprescíndíveis para compreender a época, os acontecimentos e o contexto político e social em que ocorreram.
Para começar recomendamos uma visita a os Debates, para compreender a versão republicana da origem dos acontecimentos, que foi obrigado a suspender publicação devido aos acontecimentos do Porto.
Encontra-se também disponível o Jornal do Porto, que permite acompanhar de alguma forma a realidade portuense pré e pós revolta de 31 de Janeiro.
Pode ainda recorrer-se a um jornal de província, como O Viriato de Viseu, um bissemanário, para perceber o eco dos acontecimentos em algumas regiões do País e as leituras e interpretações que se fizeram dos eventos na cidade invicta.

Também na BIBRIA, de Aveiro, é possível consultar uma das fontes mais importantes para se compreender o 31 de Janeiro, porque o Povo de Aveiro era dirigido por Francisco Manuel Homem Cristo, um dos homens que integrava, à época, o Directório do Partido Republicano Português. Com uma ressalva, para a necessidade de ter que realzar a pesquisa, porque a colocação da ligação só remete para a página inicial com todos os jornais, não permitindo a colocação directa, como acontece na Biblioteca Nacional.

No caso da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, na Alma Mater também é possível utilizar um dos seus periódicos.
O Tribuno Popular, permite acompanhar os acontecimentos e a sua repercussão em Coimbra, durante os anos que antecedem e sucedem aos acontecimentos.

Finalmente, na Hemeroteca Digital de Lisboa é possível localizar também na revista Ocidente iconografia e relatos sobre as incidências da revolta republicana na cidade do Porto, em especial no nº 437 e seguintes, onde se encontram elementos interessantes para completar os dados.

Possívelmente existirão outras fontes já disponíveis online que não conhecemos, mas estas que aqui recordamos aos nossos ledores já permitem alguma variedade de informação e aspectos de maior detalhe que possibilitam a realização de um estudo especifico ou abrangente sobre os factos ocorridos na cidade do Porto.

A.A.B.M.