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sábado, 9 de abril de 2011

TERRA LIVRE – SEMANÁRIO ANARQUISTA


TERRA LIVRE. SEMANÁRIO ANARQUISTA – Ano I, nº 1 (13 Fevereiro 1913) ao nº 24 (31 de Julho de 1913), Lisboa; Propriedade: Grupo Terra Livre; Administração e Redacção: Rua das Gáveas, 55, 1º, Lisboa; Editor: Jaime de Castro; Director: Pinto Quartin; Corpo Redactorial: Carlos Rates, Neno Vasco, Pinto Quartin, Sobral de Campos; Impressão: Oficinas Gráficas, Rua do Poço dos Negros, 81, Lisboa; publica-se às quintas-feiras; 1913, 24 numrs,

Colaboração/textos: A. Girard, Adolfo Lima, Afonso Manaças (estudan. medicina), Araújo Pereira, Astrogildo Pereira, Aurélio Quintanilha (estudan. Medicina), Bel-Adon, Campos Lima, Clemente Vieira dos Santos, Eça de Queiroz, Edmundo d’Oliveira, Emília Garrido, Emílio Costa, Errico Malatesta, Francisco Lopes de Sousa [carta ao semanário sobre a sua prisão e de outros camaradas em Olhão], Francisco Moreno, G. Moitet, Gaspar Santos (estudan. Medicina), Humberto de Avelar, Ismael Pimentel, Jacinto Benavente, Joana Dubois, José Bacelar, José Benedy, José Carlos de Sousa, José Gomes Ventura, Madeleine Vernet, Manuel Luiz da Costa Júnior, Marcela Capy Marques, Manuel Ribeiro, Max Nourdau, Miranda Santos, N. de B., Nelly Roussel, Pedro Kropotkine, R. C. Júdice, Rocha Vieira (caricaturista), Rene Miguel, Rui Forsado, Zeferino Oliva.

A Biblioteca Nacional disponibilizou online um dos mais importantes jornais da corrente anarquista e libertária do movimento operário, Terra Livre. Nascido em 1913, “nesse agitado e turbulento ano” [cf. João Medina, Um semanário anarquista durante o primeiro governo de Afonso Costa. ‘Terra Livre’, Análise Social, vol. XVII (67-68), 1981] que curiosamente “não deixava saudades a quem quer que fosse, nem mesmo porventura a Afonso Costa, que em começos do ano seguinte acabaria de se apear do Ministério, após a árdua tarefa de dirigir o país durante exactamente treze meses” [ibid], o semanário Terra Livre (“órgão da luta social e económica”) teve a colaboração dos mais preclaros e esclarecidos libertários de então [Pinto Quartin, Carlos Rates, Neno Vasco, Sobral de Campos, Manuel Ribeiro, Emílio Costa, Adolfo Lima, Campos Lima, Aurélio Quintanilha]. Doutrinador e formativo, promoveu um conjunto de raras iniciativas no campo político, cultural e de divulgação do ideário anarquista, criticando e combatendo o parlamentarismo republicano e o governo de Afonso Costa [ver César de Oliveira, in Antologia da Imprensa Operária Portuguesa, 1837-1936, Lisboa, 1984].

Com uma tiragem de 3500 exemplares, o semanário Terra Livre era um “ponto de encontro” e lugar de debate para os mais esclarecidos e “iluminados” dirigentes do movimento operário. Não resistindo à repressão imposta pelo governo de Afonso Costa [o “novo João Franco” ou o “racha-sindicalistas”], com a prisão e a expulsão [por dez anos para o Brasil] do seu director, Pinto Quartin, e de muitos dos seus colaboradores, no decorrer de uma feroz vaga repressora anti-operária e anti-social, o periódico Terra Livre termina a sua publicação ao fim de 24 números e com ele finda uma voz incómoda ao “conservadorismo republicano” [ver, sobre o assunto, o esclarecido artigo, já citado, de João Medina].

Terra Livre AQUI online.

J.M.M.

terça-feira, 10 de abril de 2007

PINTO QUARTIN E MÁRIO MONTEIRO



"O quintanista Mário Monteiro despedindo-se do seu colega Pinto Quartin, que regressa a Lisboa"

Foto, in Illustração Portugueza, III volume, 22 Abril de 1907

J.M.M.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

[AINDA] PINTO QUARTIN E A GREVE DE 1907 (III)


Ainda ... Pinto Quartin e a greve Académica de Coimbra em 1907 (III)

Na parte final deste artigo, Pinto Quartin ocupou-se, em especial, de dois aspectos ligados à crise académica: a discussão do assunto nas Cortes e o alastramento do movimento. Como já fizemos referência aqui, a discussão deste assunto na Câmara dos Deputados foi um processo complexo porque "o Presidente do Ministério [João Franco] esquivava-se sempre a responder às interpelações dos deputados e pares da minoria". Face a esta situação afirma Pinto Quartin:

A vida parlamentar estava paralisada porque a oposição não consentia que os trabalhos prosseguissem sem a discussão de um assunto de tão grave importância e de tão grande oportunidade, que afectava o futuro de milhares de rapazes e os interesses de tantas famílias. Encerradas várias sessões pelo obstrucionismo da oposição, João Franco leva à assinatura régia o decreto de 10 de Abril, que encerrava as Cortes. O Governo não transige e a greve mantém-se firma, e tão ordeira que até jornal católico portuense «A Palavra» dizia não poder deixar de louvar o aprumo, a isenção com que procedia a mocidadade das escolas [...][ as únicas situações com alguma violência ocorreram com os]lamentáveis acontecimentos da Escola Politécnica de Lisboa e do Liceu de Coimbra, onde ficaram feridos alguns estudantes como Lacerda Forjaz, Fernando de Oliveira e Mariano de Melo Vieira.
A resistência afrouxa e tudo termian em bem ...
Em vista da persistência dos rapazes e do alastramento do movimento, João Franco fez encerrar em 15 de Abril todos os estabelecimentos de ensino onde os estudantes se haviam declarado em greve, incluindo a Universidade, cujos estudantes militares recolheram aos seus regimentos e os restantes novamente se retiraram para as suas terras.
O reitor Dr. António dos Santos Viegas pede a sua exoneração e é substituído plo Dr. D. José de Alarcão. Surge então da parte dos pais dos estudantes, e dizia-se que inspirada pelo novo reitor, uma ofensiva a favor de um indulto para os estudantes expulsos. E, em 22 de Maio, as escolas são reabertas, sendo convidados os alunos que não tivessem perdido o ano por faltas até o dia 8 desse mês a encerrar matrículas e a fazerem acto, à excepção dos sete estudantes riscados da Universidade. Poucos foram os estudantes que nos primeiros dias acorreram a matricular-se, mas os jornais aumentavam o número dos «amarelos», citando nomes de alguns que logo se apressaram a desmentir. Mário de Azevedo Gomes, que era então quintanista de Agronomia, mandava para os jornais a seguinte declaração:
«Sr. Redactor: Publicam alguns jornais de hoje a notícia de que os quintanistas de Agronomia declararam não ter aderido à greve e solicitavam a continuação do tirocínio. Ora eu sou quintanista de agronomia e declarei que aderia à greve e não solicitei a continuação do tirocínio. E como tenho uma só forma de proceder, sou hoje, como ontem, grevista intransigente».
Declaração semelhante fez também o seu colega do mesmo ano e do mesmo curso Fernando César Correia Mendes.
Em vão, porém, os manifestos - edentre eles foi notável o da Comissão Central de Lisboa, assinado pelos estudantes Júdice Formosinho, Lúcio dos Santos, Mário Vasconcelos e Sá, Luís Filipe Nunes, Sequeira Coutinho e Francisco Pulido Valente - exortam a Academia a manter-se firme e a não ir a exames sem que os estudantes expulsos sejam readmitidos. A Academia estava cansada - o conflito arrastava-se havia já perto de três meses - e a pressãodos pais, atemorizados com a perspectiva da perda de ano de seus filhos, abatia os ânimos, afrouxava a resistência. Muitos dos estudantes começaram então a reivindicar a sua liberdade de proceder. Os alunos dos liceus são os primeiros a regressar às aulas. Imitam-nos os das escolas secundárias: os do Conservatório, das Belas Artes e do ensino industrial e comercial. [...]
«Furada» a greve em Coimbra, as escolas superiores de Lisboa e Porto, desobrigadas do seu compromisso, reentram na normalidade.
Quase em simultâneo, a 13 de Junho, era publicado o decreto que permitia a todos os estudantes, incluindo os sentenciados, concluirem os seus cursos sem perda de nenhum ano, atendendo-se assim à representação entregue ao Chefe de Estado e patrocinada pelo Reitor, em que os estudantes se haviam matriculado, «movidos por vivo sentimento de fraternidade escolar» pediam uma amnistia geral e o indulto para os sete dos seus camaradas afastados das lides escolares [...]
E assim teminou, se não vitoriosamente, pelo menos com nobreza, dignidade e elegância, este arrastado conflito em que a Academia se manteve, até à última, fiel aos seus tradicionais sentimentos de generosidade e, galantaria.


Esta longa transcrição de um artigo de Pinto Quartin, serviu essencialmente para dar a conhecer mais alguns dados que, o autor, por ter sido protagonista nos acontecimentos, relata com alguma paixão. Porém, pretende-se sobretudo contribuir para revelar mais uma fonte de trabalho a consultar, porque relata o envolvimento de outros protagonistas fora da cidade de Coimbra, avança razões para o protesto e procura construir um desenlace quase ideal, como nos referimos no último parágrafo do texto transcrito. Foi o nosso contributo, simples mas no sentido de valorizar o estudo deste acontecimento.

Nos próximos dias avançaremos com um último post sobre este assunto, para abordarmos outras temáticas importantes como a revolta que conduziu à III República em que vivemos actualmente.

[Na fotografia vê-se João Franco a visitar a Escola Politécnica de Lisboa em Junho de 1907. In Arquivo Fotográfico de Lisboa].

A.A.B.M.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

PINTO QUARTIN E A GREVE ACADÉMICA DE COIMBRA EM 1907 (II)


Pinto Quartin e a Greve Académica de Coimbra em 1907 (II)

O autor continua a recordar os acontecimentos em que foi um dos protagonistas e refere alguns factos com grande pormenor. Um dos aspectos que aborda com particular interesse é o facto de o movimento iniciado em Coimbra ter alastrado ao restante país, causando grande impacto na opinião pública devido ao eco dos acontecimentos na imprensa da época. Assim, afirmava Pinto Quartin:

A atitude dos estudantes de Coimbra é imediatamente secundada pelos estudantes das escolas superiores de Lisboa e Porto, que se declararam também em greve de solidariedade para com os estudantes expulsos. No Ateneu Comercial de Lisboa, numa reunião em que usaram da palavra Campos Lima, Mário Monteiro, Pulido Valente, Alberto Xavier e Carlos Olavo, é lida uma carta do lente Dr. Bernardino Machado, solidarizando-se com o protesto dos estudantes.

No Porto, no Salão da Guarda, realiza-se um comício a que presidiu o terceiranista de Medicina Teixeira de Seixas e em que falaram Bissaya Barreto, Jaime Cortesão, Campos Lima, Leonardo Coimbra, Álvaro Monteiro, Henrique Forjaz, Augusto Verol, Pádua Correia e o lente da Escola Médico Cirúrgica dr. Alfredo de Magalhães, sendo recebida uma carta de incitamento do poeta Guerra Junqueiro.

Rapidamente a greve se generalizou a todo o País. Não só os estudantes das escolas superiores, são também os das escolas industriais e comerciais, de Belas Artes, do Conservatório, das escolas normais masculina e feminina e até os dos liceus. Formam-se Comissões Centrais em Lisboa e no Porto e Comissões de Vigilância em todos os estabelecimentos de ensino, distinguindo-se nesse movimento, além dos citados em vários passos desta reportagem retrospectiva, os estudantes José Montez, Madeira Pinto, Rui Feijó, Humberto Avelar, Chaves de Almeida, Costa Cabedo, Alfredo França, Henrique Brás, Francisco Luís Tavares, Tadeu Sacramento Monteiro, Francisco Lopes Vieira de Almeida, Alberto Mac Bride, Valentim Lourenço, Colares Correia, Feio Terenas, António de Sousa, Cláudio Basto, Armando Marques Guedes, Álvaro e Ernesto Beleza de Andrade, Manuel Pinto Coelho Vale e Vasconcelos, Mário Malheiros, Eduardo Lopes, José Maria Nunes Leitão, Júlio Gomes dos Santos Júnior, Emílio Martins, António Vaz de Sá Pereira e Castro, Fernando Matos, Alfredo Martins, Januário Leite, Carlos Rego, António Martins, Arnaldo Lima, Francisco Negrão, Germano de Amorim, Lusitano e Geraldino de Brites, José Maria Rangel de Sampaio, António Joyce, António de Carvalho Lucas, Américo de Castro, Antero Cardoso, Amâncio de Alpoim, Paiva Lereno, António Nápoles, Francisco Cruz, Jacinto de Freitas, João Santos Moita, Luís Bicudo, Luís Faísca, Maurício Costa e Luís da Câmara Reis.


A seriação dos nomes dos principais envolvidos nesta polémica, pode tornar-se maçadora para alguns, mas é bastante interessante verificar o papel social e político que algumas destas personalidades vão desempenhar anos mais tarde. Encontramos aqui desde futuros professores da Universidade, ministros, jornalistas, escritores, poetas, músicos, médicos, advogados, outros que vão continuar no anonimato, etc.
Continuando a transcrição do artigo, Pinto Quartin relata:

Pela sua atitude, alguns dos directores e professores são vaiados, outros, como o general Schiapa Monteiro e o Dr. Silva Teles, são vitoriados. De pequenos conflitos com a polícia resulta a prisão, por pouco tempo mantida, dos estudantes Adriano de Almeida Lopes e Francisco José da Silveira Campos. Fernando Bissaya Barreto é também preso, mas pouco tempo depois posto em liberdade, por se ter rido de um polícia de que o prevenira de que não podia «andar parado». E porque, suspenso o direito de reunião, os estudantes se juntassem no «Gelo» e no «Martinho», em Lisboa, e no «Central» no Porto, foram dadas ordens aos proprietários dos «cafés» para não consentirem que nos seus estabelecimentos se falasse de política, nos assuntos académicos ou «em tudo o que saísse do simples e usual exercício da sua indústria». (sic)

Nos próximos dias continuaremos a dar a conhecer mais este importante contributo para a história da Questão Académica de 1907.


[Na foto, as pessoas a passearem frente ao Café Martinho da Arcada onde os estudantes também se reuniam para as discussões políticas. Foto in Arquivo Fotográfico de Lisboa]

A.A.B.M.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

PINTO QUARTIN E A GREVE ACADÉMICA DE COIMBRA EM 1907 (I)


Pinto Quartin e A Greve Académica de Coimbra em 1907

Nas nossas deambulações e pesquisas pelas Bibliotecas em jornais e revistas portuguesas dos séculos XIX e XX, encontram-se alguns elementos curiosos que muitas vezes vão ficando esquecidos porque quase ninguém sabe da sua existência. Assim, este artigo de que vamos extraír alguns apontamentos pode ser consultado na revista Ver e Crer, Lisboa, 1945-1950, Dir. José Ribeiro dos Santos e Mário Neves ,era propriedade da Gráfica Portuguesa, tendo sido publicados 56 números. Esta revista contava com inúmeras colaborações de autores conhecidos como: Fernando Namora, Julião Quintinha, Augusto d'Esaguy, Aquilino Ribeiro, António Sérgio, Carlos Olavo, Ramada Curto, José Saramago,entre muitos outros.

Pinto Quartin, em 1949, na referida revista, número 45, rememorava nos acontecimentos de 1907 num artigo intitulado: A Greve Académica de Coimbra em 1907. Uma página de História da Academia. Diz-nos Pinto Quartin, após explicar a origem dos acontecimentos:

Num imponente cortejo, a academia em peso levou em triunfo o candidato reprovado até à sua residência na Arregaça, e à noite os mais exaltados foram apedrejar as casas dos professores Álvaro Vilela e Guilherme Moreira. No dia seguinte, à entrada das aulas, os alunos do primeiro ano de Direito fizeram, nos gerais, uma ensurdecedora e violenta assuada aos professores, e a Academia, reunida no Ginásio Académico, prevendo as represálias, reivindicou para si, colectivamente, a responsabilidade absoluta de todos os acontecimentos.
Em vista da exaltação dos estudantes, Coimbra viu-se sitiada por tropas e polícia, e um deputado, lente de Direito, o Dr. Teixeira de Abreu, chegava àquela cidade para inquirir dos acontecimentos e informar deles o Governo.


De seguida, o autor do artigo refere as principais reclamações que os estudantes de então apresentavam:
[...] cerca de quatrocentos rapazes avançaram em comboio especial, sobre Lisboa, a apresentar ao Governo e ao Parlamento as suas reclamações, que consistiam numa sindicância ao acto de conclusões magnas do candidato José Dias Ferreira, ou a faculdade deste repetir as suas provas; na abolição pura e simples do «foro académico»; na remodelação dos processos de ensino seguidos na Faculdade de Direito; e, atribuindo a causa da imobilização dos métodos e programas dessa Faculdade à concentração do ensino apenas em Coimbra, alvitrando-se a criação de mais duas Faculdades de Direito: uma em Lisboa e outra no Porto.
Uma comissão composta dos estudantes Alberto da Cunha Dias, João Bianchi, Henrique Trindade Coelho, Carlos Olavo, António Granjo, Mário Monteiro, Santiago Prezado, Ramada Curto, Aquiles Gonçalves e Isidro Aranha, acompanhada de milhares de estudantes da capital e de Coimbra, fez entrega da representação ao Ministro das Obras Públicas, Malheiro Reimão, que respondeu aceitar o Governo as reclamações dos estudantes, mas que não as tomaria em considração enquanto eles se não submetessem a entrar na normalidade da vida universitária.


Após a decisão de expulsar alguns estudantes, por parte do Conselho dos Decanos, com base no «foro académico», refere Pinto Quartin alguns episódios curiosos e pouco conhecidos:
foi ordenada a reabertura da Universidade de Coimbra para o dia 8 desse mesmo mês de Abril, mas os estudantes, que das suas terras acorreram a Coimbra, resolveram na véspera, não comparecer às aulas. E, efectivamente, com a excepção dos estudantes militares, de um aluno de Medicina filho de um lente, e de dois ou três teólogos, poucos mais «furaram» a greve. O próprio filho de João Franco, o Frederico, e o filho do juiz Veiga e o do então governador civil do Porto declararam que só iriam às aulas se a maioria dos seus colegas comparecesse.
Alguns incidentes curiosos se registaram nesse dia. O Camilo Castelo Branco, filho do conselheiro José Castelo Branco, sentiu partir-se nas costas um guarda-chuva quando censurava a atitude de um pai que violentava o filho a entrar para a aula. O estudante Raul de Oliveira de Sousa Leal, que, doente, se apeava de um trem à Porta Férrea, é tido como «amarelo» e assuado, mas o pai, que o acompanhava, logo explica que o filho estava ali para ser solidário com os seus colegas, o que lhe valeu uma entusiástica e prolongada salva de palmas. Os professores Drs. Madureira, Oliveira Guimarães,Caeiro da Mata e Pedro Martins exigem a retirada da polícia da porta das suas aulas, e atribui-se ao actual Ministro dos Negócios Estrangeiros [José Caeiro da Mata] recusar-se a subir à cátedra, ao verificar que apenas tinha na sua frente três alunos militares.


[continuação nos próximos dias]

Nota 1: agradecemos publicamente a indicação da existência deste artigo ao Dr. Carlos Santarém Andrade.

Nota 2: Os negritos são da nossa responsabilidade, bem como a escolha dos textos.

A.A.B.M.

sexta-feira, 30 de março de 2007

PINTO QUARTIN



Nascido na Rua de S. Luís Gonzaga, em S. Cristóvão, Rio de Janeiro, filho de pai português (Bráz Leão Soares Quartin) e mãe brasileira (Guilhermina Augusta Castro Pinto), em 15 de Janeiro de 1887, com o nome completo de António Tomás Pinto Quartin. Foram seus padrinhos de baptismo os Barões de Quartin. Morre, em Lisboa, a 7 de Fevereiro de 1970.

Regressado a Portugal, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra em 1905, onde se encontra em 1907, aquando da Questão Académica. O seu envolvimento nestes acontecimentos provocaram a sua expulsão da Universidade por um ano. Porém, a sua actividade política e a escrita nos jornais não lhe permitiram a continuação dos estudos, pelo que ingressou na vida jornalística.

Inicialmente colabora de forma esporádica no jornal A Vida, que se publicou no Porto, entre 18-03-1905 e 3-07-1910, onde colaboravam também: Manuel Joaquim de Sousa, Alfredo Pimenta, Ângelo Jorge, António de Sousa, Augusto Casimiro, Campos Lima, César Porto, Guilherme de Azevedo, Homem Cristo Filho, João de Barros, Rodrigo Solano e Vaz Passos.

Começa a sua vida como jornalista no jornal O Século, em 1908, onde se torna responsável pela secção "Vida Operária", pouco tempo após funda e dirige O Protesto,de que era proprietário e redactor principal, cujo primeiro número seria publicado em 25 de Julho de 1908 e que termina a publicação em 20- 03-1909.

Chefia também o efémero Amanhã[nº1, 1-06-1909 a nº 6, 15-08-1909], Lisboa, onde colaboram entre outros: António Altavila, Augusto Casimiro, Bento Casimiro, Bento Faria, Coriolano Leite, Emílio Costa, José Bacelar, Manuel Ribeiro e Tomás da Fonseca.

Colaborou também no jornal A Greve, Lisboa, [18-09-1908 a 1917] juntamente com Grácio Ramos onde pontificavam também Teodoro Ribeiro, Fernandes Alves, Trindade Correia, Ladislau Batalha, Augusto César dos Santos, João Pereira, César Nogueira, Teixeira Severino, Eduardo de Abreu, António José de Ávila, Hilário Marques, Jorge Coutinho, João Pedro dos Santos, Manuel Córdoba, Francisco Cristo, José Benedy, Luís Calvet de Magalhães, Deolinda Lopes Vieira [que viria a casar com Pinto Quartin], Rosalina Ferreira e Lucinda Tavares . Este jornal que começou por se publicar diariamente acabou por se transformar em bissemanário e mais tarde em mensário da classe operária.

Em 1911, Pinto Quartin colabora na revista Lúmen, que tinha por editor, Joaquim Madureira, o director era Severino de Carvalho e os colaboradores eram: César Porto, Bernardo Sá, Aráujo Pereira, Adolfo Lima, Jorge Coutinho e Luís da Mota.

Começa a organizar em sua casa, a partir de 1912, reuniões anarquistas onde assistiam Sobral de Campos, Neno Vasco, Aurélio Quintanilha, Mário Costa, Afonso Manaças, Lucinda Tavares, Susana Quintanilha, António Manaças e outros.

Em 1913 reaparece na direccção do semanário anarquista A Aurora, Porto, 10-07-1910 a 29-10-1916, publicaram-se três séries, num total de 54 números. Neste jornal colaboraram: António Alves Pereira, Alfredo Guerra, Maciel Barbosa, João Pinto Coelho, Serafim Cardoso Lucena, Manuel Joaquim de Sousa, Clemente Alves dos Santos.

Casa com Deolinda Lopes Vieira, de quem viria a ter dois filhos: Hélio Vieira Quartin (n. 1916) e Glícinia Vieira Quartin (n. Lisboa,20-12-1924 - fal.Lisboa, 28-4-2006).

Faz parte do jornal Terra Livre, colaboradores: Carlos Rates, Sobral de Campos, António Alves Pereira, Araújo Pereira, Bernardo de Sá, Campos Lima, Clemente Vieira de Campos, Emílio Costa, José Benedy. Este jornal acabou por ser perseguido e apreendido pela "formiga branca".

É preso e expulso do país após a explosão da bomba no dia 10 de Junho de 1913, por um período de dez anos, mas passados dois anos estava de regresso à redacção de O Século (1915). Durante a sua estadia no Brasil (1913-1915)colaborou na revista A Vida, ao lado de José Oiticica e Francisco Viotti. Durante esse período concede uma entrevista ao jornal diário do Rio de Janeiro, A Época, que teve grande repercussão.

Dirige os jornais Ultima Hora, Lisboa, 16-02-1921 a 3-3-1921, onde participaram também Ramiro Barros e Silva e Norberto Lopes; Actualidade.
Colabora ainda na A Aurora, 1917; O Movimento Operário, 29-04-1917 a 09-1918, publicou-se por iniciativa da União Operária Nacional, o editor era Ricardo Malheiro e o director era Alexandre Vieira; A Batalha, 23-02-1919 a 1949 [entre 1934 e 1949 publicou-se clandestinamente], dirigida inicialmente por Alexandre Vieira, com colaboração de: Joaquim Cardoso, Manuel Joaquim de Sousa, Alberto Dias, Carlos José de Sousa, David de Carvalho; A Pátria, Lisboa, 1920; A Tarde, 1923;O Primeiro de Janeiro, Porto [foi chefe da redacção deste jornal em Lisboa]; colaborou ainda no semanário O Diabo, Lisboa, 2-06-1934 a 21-12-1940; O Globo, Lisboa, 2-01-1930 a 20-07-1930.

Como viveu em Angola entre 1930 e 1936 colaborou na imprensa angolana como: A Província de Angola, Luanda, 1930-1936; O Planalto, Nova Lisboa, 1930-1936. Escreveu ainda as seguintes obras:
- Mulheres, s.d., s.l.
- Trezentos Contos (peça de teatro satírica, em 4 quadros), Luanda, 1934.
- A Lenda e o Processo do Estranho Caso Pauling (novela), Luanda, 1935.

Publica em 1908 um folheto intitulado Libertai-Vos!, com a seguinte dedicatória: para que [as mulheres] venham unir-se a esta legião aventureira e audaz que caminha, sofendo e cantando, para um mundo novo exuberante de amor e de justiça, do coração dedica o Autor.

Publicara já anteriormente dois folhetos: Vítimas da Guerra (conto antimilitarista), Lisboa, 1906; Mocidade Vivei!, Clássica Editora, Lisboa, 1907[livro proibido durante o regime salazarista];
Eu e a Questão Universitária, Clássica Editora, s.d.
Falar é semear, s.d.
O Sindicalismo e os Intelectuais, s.d.
Ao Trabalhador Diferente, s.d.

Traduziu ainda obras de Réclus como Ao Meu irmão Camponês, Lisboa 1908;
J. Cuenca, Como Não Ser Anarquista, Lisboa, 1909;
D. Elmassian, Lisboa, 1909.

O espólio de Pinto Quartin, legado à Casa da Imprensa, foi mais tarde depositado no Instituto de Ciências Sociais, no Arquivo de História Social e pode ser consultado online. Nele podem ser encontrados milhares de documentos sobre o movimento sindical e anarquista em Portugal. Para poder analisar os diversos documentos que aí existem deve consultar-se o catálogo da Exposição de Documentos de Pinto Quartin integrado no Seminário "O Movimento Operário em Portugal", organizado pelo Gabinete de Investigações Sociais, com texto de Maria Filomena Mónica, Lisboa, Biblioteca Nacional, 4 a 67 de Maio de 1981.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

Medina, João , Um Semanário Anarquista durante o primeiro governo de Afonso Costa: Terra Livre, Análise Social, GIS, vol. 17, nº 67-68-69,Lisboa,1981.
Oliveira, César de , Antologia da Imprensa Operária Portuguesa, Perspectivas & Realidades, Lisboa, 1984.
Pires, Daniel, Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX (1900-1940), vol I, Grifo, Lisboa, 1986.
Rodrigues, Edgar, A Oposição Libertária em Portugal: 1939-1974, Editora Sementeira, Lisboa, 1982, p. 147-148.
Sá, Victor de, Roteiro da Imprensa Operária e Sindical (1836-1986) ,Caminho, Lisboa, 1991.
Vieira, Alexandre, Para a História do Sindicalismo em Portugal, Seara Nova, Lisboa, 1974.

A.A.B.M.