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quinta-feira, 8 de março de 2018

40.º ANIVERSÁRIO DA MORTE DE VITORINO NEMÉSIO – EVOCAÇÃO DA SUA VIDA E OBRA



40.º Aniversário da Morte de Vitorino Nemésio – Evocação da sua Vida e Obra

 
DIA: 10 de Março 2018 (15,00 horas - 17,00 horas);

LOCAL: Centro Cultural de Belém (sala Sophia de Mello Breyner Andresen), Lisboa.

 
PROGRAMA:

- Abertura e Justificação da Homenagem (por Elísio Summavielle, pres. Cons. Adm. Do CCB)

- Retrospetiva de Vitorino Nemésio (António Valdemar, jornalista e investigador)

­- Poemas de Vitorino Nemésio (por Luiza Costa)

- O Lugar de Nemésio na Literatura Portuguesa e na Cultura Açoriana (Luís Fagundes Duarte, Univ. Nova de Lisboa)

- Poemas de Vitorino Nemésio (por Luiza Costa)


“Poeta, escritor e professor universitário, Vitorino Nemésio (1901-1978) nasceu com o século XX e acompanhou quase todo o século nas suas múltiplas transformações culturais, políticas e sociais.

Em março de 2018 completam-se 40 anos sobre a sua morte. O Centro Cultural de Belém vai recordar esta efeméride no dia 10.


A problemática açoriana dominou grande parte da criação literária de Nemésio, embora se ocupasse de outros temas relacionados com a Europa e, muito em especial, o Brasil.

Deixou quatro livros de ficção, onze de poesia e, ainda, mais dezassete volumes constituídos por aquilo que, genericamente, denominou «história, critica e viagens». De todos os títulos, porém, o que teve maior renome nacional e internacional foi o 
Mau Tempo no Canal (1944).

Além do 
Mau Tempo no Canal, Vitorino Nemésio afirmou- se como poeta, nomeadamente em: La Voyelle Promise (1935); O Bicho Harmonioso (1938); Eu, Comovido a Oeste (1940); Nem Toda a Noite a Vida (1953); O Verbo e a Morte (1959); Canto de Véspera (1966); Sapateia Açoriana (1976). Assinala-se na obra poética o livro póstumo, Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga (2003), que testemunha a outra grande paixão com Margarida Vitoria Jácome Correia”.

[António Valdemar, AQUI – sublinhados nossos]

FOTO: Vitorino Nemésio, por Alfredo Cunha, com a devida vénia

J.M.M.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

À MINHA LOJA MÃE – RUDYARD KIPLING


À Minha Loja Mãe”, de Rudyard Kipling, s/l (Figueira da Foz), s/d (Janeiro de 2016), p. 32

Trata-se de uma curiosa e esmerada edição, de tiragem reduzida, do apreciado poema “À Minha Loja Mãe” de Rudyard Kipling, evocando o 80.º aniversário da sua morte (18 de Janeiro de 1936). O poema é apresentado em inglês e português e vem ornado com nove desenhos, originais e a cores, a todo o tamanho das páginas, que o ilustram e lhe “dão mais beleza”. Tem um curioso posfácio e é acompanhado de textos de Fernando Lima (Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano), de “Alexandre Herculano" (n.s.) e de António Lopes. De muito apreço.

"Rudyard Kipling, poeta, romancista e contista, O Livro da Selva e Kim, entre outros, laureado com o Prémio Nobel em 1908,foi iniciado na maçonaria, com dispensa de idade, na loja Hope and Perserverance de Lahore,da multifacetada Índia, e, posteriormente, membro de várias lojas maçónicas..

Kipling escrevia com a convicção que as ideias e valores maçónicos, transmitidos nas suas histórias, eram aceites e partilhados pelos seus leitores, como em "0 homem que queria ser rei", "Com a guarda"ou a "Viúva em Windsor". O poema "A minha pedra cúbica" é a oração de um obreiro Maçom; O trabalho, o esforço e a perseverança espelham-se no poema "O palácio", a maçonaria operativa está no conto "A coisa errada", que contém o célebre "Se". Mas é na recolha "Sete mares" que se encontra o seu comovente e mais conhecido poema maçónico, "Loja Mãe", dedicado à memória da sua primeira loja, lugar inesquecível da iniciação em todo o seu significado.

A diversidade da composição humana da Loja, o reconhecimento e o respeito pelo outro, a tolerância e o sentimento de pertença sublinham aí valores maçónicos universais que subjazem em toda a espiritualidade, filosofia e prática maçónica de uma actualidade que nunca é demais sublinhar, em tempos de barbárie, fundamentalismos e exclusão.

Este humanismo nunca é demais sublinhar e recordar em tempos difíceis. servindo de exemplo e guia para todos nós. Kipling não será nisto nunca esquecido”. [Fernando Lima, Grão-Mestre do GOL - sublinhados nossos]



“A poesia é mais verdadeira do que a história. Porque não é a história que faz o homem, mas o homem que faz a história, mesmo sem saber que história vai fazendo. Daí que o paradoxo ainda continue a ser a melhor forma de acedermos à verdade, porque esse é o conteúdo da fé, pelo qual o eterno vem ao tempo, como salientava Kierkegaard. A poesia é, assim, mais verdadeira do que a história, a que não é causa, provocada pelos teóricos do processo histórico, sob a forma de ideologias, mas antes o simples produto das ações dos homens e não das respetivas intenções e planeamentos, porque são mesmo os poetas que movem a humanidade, sentindo as correntes profundas. Daí, a maçonaria, porque faz conviver a história com o mistério e apenas ascende quando se torna poesia. Como a de Rudyard Kipling, quando tentava elevar o imperialismo britânico na Índia, onde nasceu, em esforço de civilização, agregando cristãos, muçulmanos, hindus, sikhs e judeus. Até estava inserido naquele movimento de criação do movimento scout, de Baden Powell, procurando um método educativo para uma nova forma de vida. Aliás, quatro anos depois do lançamento de tal movimento, um jovem oficial português, Álvaro de Melo Machado, iniciado maçom desde 1907, fundava, em Macau, o primeiro grupo de escoteiros em território português, quando já era bastante ativa a loja Luís de Camões, que mobilizava personalidades como Camilo Pessanha e o jornalista Francisco Hermenegildo Fernandes. O poema de Kipling, sem qualquer cedência ao cientificismo, chame-se futurologia ou prospetiva, supera, em plenitude, as próprias vulgatas esotéricas, revelando o essencial dos homens de boa vontade que querem ser homens livres, conforme o berço do estoicismo, do judaísmo, do cristianismo e do islamismo, bem contrário aos totalitarismos grupais e aos respetivos fundamentalismos (…) [“Alexandre Herculano” (n.s.) - sublinhados nossos]

“ (…) Na Loja, a Igualdade é o resultado da harmonia que deve reinar, constituindo a força da união entre os Irmãos. A igualdade é lembrada ao neófito logo no seu primeiro contacto com a Loja, quando ele se apresenta perante esta “nem nu, nem vestido”. Significa que qualquer  diferenciação social derivada do seu modo de vestir não tem qualquer valor e que a sua primeira roupa são os paramentos maçónicos, neste caso o avental que lhe será entregue. Com ele coloca-se em plano de igualdade perante os Irmãos e com ele é-lhe lembrado o valor do trabalho em Loja. Por seu lado, a fraternidade, que a Maçonaria elege como outro dos seus pilares,  encontra assim expressão na ligação à realidade cívica de cada cidadão.

É a igualdade plena que impede que um indivíduo se sobreponha ou domine outro, transformando-se por isso e naturalmente em fraternidade. A esta nova realidade associam-se o cosmopolitismo e a tolerância. Sendo o primeiro um ideal antigo - Sócrates já se considerava um cidadão do mundo - o cosmopolitismo é um estado de espírito e um modo de viver que constituem uma referência intimamente associada à Liberdade e à Igualdade, mas que pressupõe uma atitude fraterna para com o outro (…) [António Lopes - sublinhados nossos]

J.M.M.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

[RUDYARD] KIPLING JORNADA


CONFERÊNCIAS / DEBATE: "[Rudyard] Kipling Jornada.
DIA: 17 de Dezembro 2015 (14,30 horas);
LOCAL: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa [sala 5.2.];

COORDENAÇÃO: António Ventura & J. Carlos Viana Ferreira

COMUNICAÇÃO/ORADOR:

► “The Jungle Book in postcolonial metropolis: Ian Iqbal Rashid’s Surviving Sabu and Bhaiju Shyam’s The London Jungle Book as intermedial acts of translation” [Ana Cristina Mendes];  

► “Could they have been ‘Masonic Friends?’ Rudyard Kipling and Annie Besant” [Teresa de Ataíde Malafaia];

► “Travelling between journalism and literature: Kipling’s art in crossing fixed textual borders [Isabel Ferreira Simões];

► “A man of this Time: the Scientific and Political Grounds for Kipling’s Imperialism[Carla Larouco Gomes];

► “Orwell and Kipling: an imperialist, a gentleman on a great artist[J. Carlos Viana Ferreira];

► “Kipling, Freemasonry and Death[Marie Mulvey-Roberts];

Debate [16,40 horas]

 
Once in so often," King Solomon said,
Watching his quarrymen drill the stone,
"We will club our garlic and wine and bread
And banquet together beneath my Throne,
And all the Brethren shall come to that mess
As Fellow-Craftsmen - no more and no less."

"Send a swift shallop to Hiram of Tyre,
Felling and floating our beautiful trees,
Say that the Brethren and I desire
Talk with our Brethren who use the seas.
And we shall be happy to meet them at mess
As Fellow-Craftsmen - no more and no less."

"Carry this message to Hiram Abif -
Excellent master of forge and mine:-
I and the Brethren would like it if
He and the Brethren will come to dine
(Garments from Bozrah or morning-dress)
As Fellow-Craftsmen - no more and no less (…)

 
[Rudyard Kipling, "Banquet Night", 1926]
 
 
 
 
J.M.M.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

VITORINO NEMÉSIO – UMA EVOCAÇÃO [TERTÚLIA EM COIMBRA]


TERTÚLIA: O VERBO E A MEMÓRIA / "Vitorino Nemésio – Uma Evocação”;
DIA: 20 de Fevereiro 2015 (21,00 horas);
LOCAL: Café Santa Cruz (Coimbra);
ORGANIZAÇÃO: Pro Associação 8 de Maio & Café Santa Cruz.

PARTICIPAÇÃO: Orfeão Académico de Coimbra | Manuel Freire | Ana Loureiro (soprano) | Tiago Nunes (teclas) | António Vilhena | Carlos Santarém Andrade | Emília Nave | José Garrucho | Pires de Carvalho | Ricardo Kalash | Francisco Paz

DIA 21 DE FEVEREIRO de 2015 (12,00 horas) – Descerramento de uma lápide na campa de Vitorino Nemésio, Cemitério dos Olivais (Coimbra)

Vitorino Nemésio (1901-1978), aliás Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva, nasceu na Praia da Vitória (Terceira, Açores) a 19 de Dezembro de 1901. Estudou no liceu de Angra (de onde foi “expulso”), terra, aliás, onde o ideário republicano (e libertário) o iluminou. Fez posteriormente os exames como externo no Liceu Nacional da Horta, concluindo esses estudos preliminares em Julho de 1918 [conclui o curso do liceu já em Coimbra, em 1921]. Antes (1916) publica o seu primeiro livro, “Canto Matinal”. Em 1919 serve a arma de infantaria, pelo que saiu por esses mares adiante, descansando da intriga do “mau tempo no canal”. 

 
Em Coimbra, matricula-se em Direito, mas três anos depois endereça os seus estudos para o curso de Histórico-Filosóficas e em 1925 em Filologia Românica.

O ano de 1923 foi-lhe particularmente benéfico: conhece Miguel de Unamuno (com quem não deixará de trocar correspondência pela vida fora) e é iniciado na Loja “A Revolta”, nº 336, do GOLU, com o n.s. de “Manuel Bernardes”. Em 1924 atinge o grau de Mestre. O maçon “Manuel Bernardes” teve afastado da actividade maçónica durante alguns anos, mas “comportou-se sempre como um verdadeiro maçon” [cf. António Ventura, “Uma História da Maçonaria em Portugal”, p. 830] e já depois do 25 de Abril de 1974 o seu processo de regularização na Loja “Liberdade e Justiça” estava em fase de conclusão [ibidem], o que não se verificou pelo seu falecimento.

Em 1924 é um dos fundadores da revista coimbrã “Tríptico”, juntamente com Afonso Duarte, António de Sousa, Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões. No ano seguinte (15 de Março de 1925) é o director do curioso jornal “Humanidade”, jornal quinzenal dos estudantes de Coimbra [fundado em 1912 pelas lojas maçónicas de Coimbra].

Em 1927, com actividade intensa no Centro Republicano Académico de Coimbra, Vitorino Nemésio e Carlos Cal Brandão, ambos obreiros da Loja “A Revolta”, iniciam a publicação do jornal republicano académico “Gente Nova” [com Paulo Quintela e Sílvio Lima]. Em 1928 termina Filosofia na Universidade de Coimbra com a tese, “O problema da recognição” e começa a escrever na “Seara Nova”. Em 1930, já na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, conclui Filologia Românica e lecciona (1931) nessa Universidade, literatura italiana e espanhola. Colabora poeticamente na revista “Presença” (1930). O ano de 1934 encontra-o doutorado com a tese (de que saiu livro) “A Mocidade de Herculano até à volta do Exílio”.

Entre 1937-1939 dirige a “Revista de Portugal” (Coimbra) e lecciona na Universidade Livre de Bruxelas, tendo regressado em 1939 à Faculdade de Letras de Lisboa, onde se jubilou a 12 de Setembro de 1971.


Romancista, escritor e poeta, Vitorino Nemésio deixou obra farta e primorosa, tendo colaborado em diversos jornais e revistas literárias. Assim, já em 1916, funda a revista literária “Estrela d’Alva”, colabora na revista “Bizãncio” (Coimbra, 1922), “Cadernos de Poesia”, revista “Aventura”, revista “Litoral”, na revista “Vértice”; é redactor do jornal “A Pátria” (1920), “A Imprensa de Lisboa” (1921), “Última Hora” (1921), no jornal “O Diabo” (1935), “Diário Popular (1946), revista “Observador” (1971) e é director do jornal “O Dia” (1975 – que abandona depois por não aceitar as “graves acusações [feitas por Henrique Cerqueira] a vários antifascistas” no caso Henrique Delgado].

A sua obra de perfeição, "O Mau Tempo no Canal” data de 1944, mas antes publicou "Paço do Milhafre" (1924), "Varanda de Pilatos" (1926), "A Casa Fechada" (1937). A sua bibliografia poética é extensa e valiosa: "Canto Matinal" (1916), "Nave Etérea" (1922), "O Bicho Harmonioso" (1938), "Eu, Comovido a Oeste" (1940), "Nem Toda a Noite a Vida" (1953), “O Pão e a Culpa" (1955), "O Verbo e a Morte" (1959), "O Cavalo Encantado" (1963), "Andamento Holandês e Poemas Graves" (1964), "Violão do Morro. Seguido de Nove Romances da Bahia" (1968), "Limite de Idade" (1972), "Sapateia Açoriana" (1976), entre outros.

Morre a 20 de Fevereiro de 1978, no hospital da CUF e será sepultado, a seu pedido, no cemitério de Santo António dos Olivais de Coimbra.  

Vitorino Nemésio foi um homem das letras, um poeta com génio, e mesmo que a história (datada de 1979) nunca totalmente esclarecida de uma sua putativa (e escandalosa) adesão ao separatismo açoriano (via FLA), de uma republica insular, e que o estigmatiza [tanto quanto o “indigna” – s/ o assunto ver Manuel Ferreira, "Vitorino Nemésio e a sapateia açoriana loucura ou traição”, 1988] no pós Abril de 1974, nada fará esquecer essa figura impar da nossa portugalidade. E bem estão aqueles que sabem que “em terra onde há ritos, tem que haver quem celebre” (V.N.). Como no dia 20 de Coimbra se cumprirá.
 
J.M.M.

terça-feira, 10 de junho de 2014

PORTUGAL


«Desfralda a invicta bandeira/Á luz viva do teu ceu,/Brade a Europa á terra inteira/Portugal não pereceu!» [quadra inscrita no prato]
“Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino
nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
(...)
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca”
 
[Jorge de Sousa Braga]
 
O nosso drama de portugueses,
O nosso maior drama entre os maiores
Dos dramas portugueses,
É este apego hereditário à Forma:
Ao modo de dizer, aos pontinhos nos ii,
Às vírgulas certas, às quadras perfeitas,
À estilística, à estética, à bombástica,
À chave de ouro do soneto vazio
- Que põe molezas de escravatura
Por dentro do que pensamos
Do que sentimos
Do que escrevemos
Do que fazemos
Do que mentimos
 
 [Carlos Queirós, Anti-Soneto]
 
“outro é o tempo
outra a medida
 
tão grande a página
tão curta a escrita
 
entre o achigã e a perdiz
entre chaparro e choupo
 
tanto país
e tão pouco”
 
[Manuel Alegre]
 
“Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncios e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades”
 
[Sophia de Mello Breyner]
 
 
“Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...”
 
[Fernando Pessoa]

[J.M.M.]

sábado, 23 de novembro de 2013

JOAQUIM NAMORADO


“Não há grandeza que baste
Quando a desgraça é tamanha!..."
 
Calados, mudo,
No buraco metidos,
Sem coragem de nos mexermos,
De medo transidos,
Sempre despertos os cinco sentidos
Não cheguem lá fora os ruídos
Do mastigar das migalhas
Das mesas caídas;
A vida cobarde a toda a hora agradecida,
Como esmola recebida …
Isto não, não é vida!"
 
 Joaquim Namorado, in “Incomodidade
 
 
J.M.M.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924-2013)


“Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
È um arco-iris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol”

[ARR, in A Palavra e o Lugar]

ANTÓNIO RAMOS ROSA nasce em Faro a 17 de Outubro de 1924. Fez estudos secundários, não concluindo “por questões de saúde”, e trabalha [cf. A.R.R, A Palavra e o Lugar, 1977] como empregado comercial, explicador e tradutor [traduzindo Éluard, Brecht; Pasternak, Camus, Hervé Bazin, Richard Bach, Sanguinetti, André Gide], Marguerite Yourcenar, ...]. Reside em 1945 em Lisboa, exercendo a profissão de empregado comercial, mas regressa cedo á sua terra de origem, só se radicando definitivamente na capital a partir de 1962.

A palavra é uma estátua submersa, um leopardo
que estremece em escuros bosques, uma anémona
sobre uma cabeleira. Por vezes é uma estrela
que projeta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua, mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada. Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos, os cabelos ardentes
E vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
Que canta num mar musical o sangue das vogais” [in Acordes]

Publica (em 1958) no jornal “A Voz de Loulé” o seu poema “Os dias, sem matéria” e no mesmo ano deu inicio á sua vasta obra poética [ver AQUI] com o livro “O Grito Claro” [editado em Faro, em 1958]. Um ano antes, Adolfo Casais Monteiro faz referência [no jornal do Brasil – ACM estava exilado] à “profunda autenticidade” poética de Ramos Rosa, que aliás situa na síntese entre o surrealismo e neo-realismo [e que os Cadernos de Poesia são disso exemplo – sobre este curioso assunto ver Ana Paula Coutinho Mendes, “Poesia do Séc. XX com António Ramos Rosa ao fundo”, 2005]

 
Poeta, ensaísta e crítico literário, colabora em inúmeros periódicos [Diário de Lisboa, Diário popular, capital, O Comércio do Porto, Diário de Noticiais, Diário de Coimbra, Artes e Letras] e publicações variadas. Co-dirige as revistas literárias Árvore (1952-54), Cassiopeia (1956), Cadernos do Meio-Dia (1958-1960). Colabora na revista Seara Nova, Vértice, “O Tempo e o Modo”, Ler, Colóquio Letras, Raiz e Utopia, Silex. Está traduzido em diversas antologias no estrangeiro [ler mais AQUI]

António Ramos Rosa militou no MUD juvenil (1945), ainda em Faro [tendo como companheiros, no grupo do Algarve, Raul Martins Veríssimo e Manuel Madeira], tendo sido preso pela Ditadura [ler mais AQUI]

No nosso tempo havia cegos e surdos que falavam
e nos queria cegar e ensurdecer.
Mas nós mantínhamos nos pulsos a tensão vertical
de um fogo verde de um outra vida.
Era um horizonte de palavras novas, de árvores reverentes.
Escrevíamos panfletos que às vezes nos fugiam dos bolsos
em revoadas que se confundiam com as aves.
Acampávamos em pinhais, cantávamos e dançávamos,
saudando o sol de um novo dia
e às vezes a polícia surpreendia-nos
com as metralhadoras aperradas contra nós.
Devorávamos os livros proibidos apaixonadamente
reunidos em exíguos quartos ou solitariamente.

Não importa se muitos se enganavam adorando um déspota como um deus
porque a verdade estava na sua oposição
à tirania que nos roubava o sol,
à liberdade e à justiça da palavra viva.
Vivemos duramente com obstinada paixão
mas vivíamos solidários e lúcidos na sombra
e a fraternidade era a nossa força e o prémio da nossa luta.
Vencemos finalmente mas a madrugada da nossa liberdade
foi apenas um momento. O que se seguiu depois
é um sistema que não sabemos combater
porque a sua teia é anónima, de uma violência esparsa
que nos impede a defrontação
com os seus disfarces e os seus estratagemas.

Diz-me meu querido Manuel, os nossos sonhos diluíram-se apagaram-se
ou resta ainda um tronco verde com duas ou três folhas
e a nossa sede não morreu, ela é a nascente viva
tal como eu te procurava para partilhar o meu fogo ansioso
entre as anelantes aranhas da minha angústia obscura?
Será que resta uma centelha insubmissa
desse lume fascinante que nos deslumbrava como se fôssemos náufragos
que procuravam um madeiro ou uma giesta incendiada
para que sentíssemos que a vida era a vida com o seu horizonte azul?”

[António Ramos Rosa, in Manuel Madeira, No Encalço do Real Inalcançável, Editorial Minerva, 2004 - ler AQUI]
 
J.M.M.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

ESTA GENTE - SOPHIA DE MELLO BREYNER



"Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo"


"ESTA GENTE", Sophia de Mello Breyner Andresen, in ”Geografia

J.M.M.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

5 DE OUTUBRO - POR M. DA COSTA E MELO



5 DE OUTUBRO [clicar para ler]
DATA: 4 de Outubro de 1969

AUTOR: M.[anuel] da Costa e Melo [1913-2002] - com dedicatória a "Maria Barroso (Voz da Liberdade)" [esp. JMM]

J.M.M.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O JESUÍTA - EM HOMENAGEM À LEI DA SEPARAÇÃO



O JESUÍTA - EM HOMENAGEM À LEI DA SEPARAÇÃO, NO SEU 2º ANIVERSÁRIO (20/04/1913) - clicar na foto para ler

AUTOR: José d'Aquino Falcão

José d’Aquino Falcão foi professor do ensino primário e autor [cf. Dicionário dos Educadores Portugueses, A. Nóvoa, p.524] "de um método de aprendizagem rápido de leitura e da escrita", pelo que procurava fundar uma "escola especial de educação modelar" (seria uma escola modelo, que estava pensada para existir no Largo do Conde Barão). Para isso funda o periódico "O Ensino" (Lisboa, 1916), com que pretendia por em funcionamento o dito projecto. Do mesmo modo, aparece como director do periódico "O Equilíbrio Social" (Porto, 1 de Julho de 1924 a 1 de Maio de 1925), que surge na sequência da sua "Cartilha Nacional" ["Cartilha Nacional. Systema de ensino puramente prático e racional", Cabeceiras de Basto, Typ. Jornal de Cabeceiras, 1898] e onde se procurava fomentar o "mutualismo, promover a beneficência e divulgar o seu método de aprendizagem da leitura em 30 dias" [ibidem].

José d’Aquino Falcão, tem, ainda, a seguinte actividade periodista: é editor e redactor do semanário "O Cabeceirense" [1898 (nº 1, 3 de Novembro?); cf. BNP]; tem a co-direcção do diário liberal independente "O Progresso" [com José de Sousa Coutinho, em 1905] e é editor de "O Liberal" entre 1 de Fevereiro e 15 de Março de 1906; edita [1906] a "Revista - literária humorística e anunciadora", periódico continuador do semanário "Justiça" [com o subtítulo "jornal e revista para todos", Lisboa].

J.M.M.

segunda-feira, 14 de março de 2011

AS QUADRAS DO POVO. PAMPHLETOS REVOLUCIONARIOS


PUBLICAÇÃO: As Quadras do Povo. Pamphletos Revolucionarios;
PROPRIETÁRIO: A. de Almeida; DIRECÇÃO: Hercules Severo (pseud.??); Typ. de António Maria Antunes, Calçada da Glória, Lisboa, 1909.

COLABORAÇÃO [trata-se de uma colecção completa de VI opúsculos, "que apparecem anonymas [mas] são feitas pelos primeiros poetas portuguêses", com o seguintes números e autores:

1 – Ao Povo! [anónimo]
2 – Carta ao Rei, impondo-lhe a expulsão dos jesuitas, por Gomes Leal
3 – A Sombra de Guilherme Braga, por Armando d’Araujo
4 – Satyra aos jesuitas e aos liberaes, por Augusto Gil
5 – Á Luz do Sol, por Dias d’Oliveira
6 – Eterna comedia!, por Mario Monteiro

"... Assésta a grande lunêta,
e ólha os sacros mariolas
amontoando sacólas
como Harpagão, o forreta.
....
Vem ao convento do Quelhas
vêr bonitinhas condêssas
beijocarem as abadessas
sobre as boquinhas vermelhas.
Como gulosas abelhas
extraindo o mel das flores,
vê beijarem-se as sorores
como Juliêta a Romeu...
ou com lúbricos decótes
bailarem com as cócótes
chamadas do 'Pái do Ceu' ...
"

[Gomes Leal]

via FRENESI [ver, ainda, a mesma obra na Livraria Manuel Ferreira]

J.M.M.