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sábado, 3 de fevereiro de 2018

POLÉMICAS À PORTUGUESA - JORGE BORGES DE MACEDO


Polémicas à portuguesa” – por Diogo Ramada Curto, in Caderno E, Expresso

Jorge Borges de Macedo é o pioneiro da história tradicionalista de Portugal. Aquela que vê a pátria como excecional e encara o liberalismo e a República como desvios ou anormalidades

“O historiador Jorge Borges de Macedo (1921-1996) foi pioneiro no estabelecimento da atual agenda de uma historiografia tradicionalista. Autor de uma extensa obra, começou por afirmar os seus créditos através de um conjunto de trabalhos sobre o marquês de Pombal, a economia portuguesa do século XVIII e as relações de dependência de Portugal em relação à Inglaterra durante as Invasões Francesas. Entretanto, mudou de orientação ideológica. A proximidade ao marxismo de início da sua carreira deu lugar — depois de entrar na Faculdade de Letras — a uma série de perspetivas tradicionalistas, centradas numa história política e cultural. Porém, foi só depois do seu saneamento político da Faculdade de Letras de Lisboa, após o 25 de Abril, que passou a assumir o papel de principal guardião de uma história pátria, excecional e tradicionalista. É urgente reunir em volume os seus estudos sobre os séculos XIX e XX, que andam dispersos, para perceber melhor o modo como marcaram a escrita da história contemporânea.
Para já, será possível adiantar que, pelo menos num ponto, a sua influência perdurou até aos nossos dias: o liberalismo e a República foram um desvio, uma anormalidade em relação ao destino de uma pátria excecional, com oito séculos de existência. Vale a pena perceber como este aspeto acabado de referir se conjuga com uma interpretação muito própria daquilo que Borges de Macedo considerava ser uma característica marcante da cultura portuguesa: as polémicas entre intelectuais, em que os séculos XIX e XX foram férteis. Porém, constatar a centralidade das polémicas é uma observação relativamente consensual. O que é questionável são as razões aduzidas por Borges de Macedo para explicar por que motivo essas mesmas polémicas foram um elemento central da cultura portuguesa.
Primeiro, as polémicas do século XIX não deviam ser só relacionadas com as suas herdeiras do século XX. Enquanto “um dos temas básicos da cultura portuguesa”, elas encontravam a sua principal razão de ser numa linha de continuidade que remontava, pelo menos, à guerra da independência nacional (1640-1668). Foi no âmbito desta argumentação que sustentou: “As transformações políticas do liberalismo interromperam a perceção do processo essencial da sua continuidade” (“Revista de História das Ideias”, vol. 5, 1983, pp. 471-531, máxime pp. 472-473).
Em segundo lugar, sempre na opinião de Borges de Macedo, a propaganda republicana, que começou a surgir com o máximo de intensidade a partir de 1890, apenas discutiu o governo, sem querer discutir o país. Porém, com a proclamação da República não veio, nem poderia vir a regeneração do país. Pelo contrário, a República ficou-se por uma espécie de politiquice, uma vez que da herança do liberalismo apenas resultou que “muitos aspetos da vida política pareciam agravar-se em instabilidade e choque de renovadas ambições” (idem, p. 474). A ponto de se poder dizer que só quando à República sucedeu o Estado Novo foi possível retomar os referidos temas básicos da cultura portuguesa, incluindo neles a denominada “problemática polémica”.
Recapitulando, para Borges de Macedo existiam elementos que se mantiveram constantes na cultura portuguesa. Um deles era constituído pelos conflitos de opinião, mais especificamente pelas polémicas. As polémicas do século XIX limitaram-se a retomar temas de debates tradicionais, numa linha de continuidade com o que se teria passado anteriormente.

Quanto às ideias republicanas e ao que, através delas, se desencadeou: elas não passaram de propaganda política. Uma imagem que esconde, no fundo, um enorme desprezo pela vida política... Foi preciso esperar pelo Estado Novo para acabar com os desvios trazidos por uma política da instabilidade e retomar um dos temas básicos da cultura portuguesa: o das polémicas.
 
Justificar o autoritarismo
Vale a pena refletir sobre a argumentação de Borges de Macedo — tão inteligente, quanto perversa e inspiradora, até aos nossos dias — nos seus propósitos de justificar diferentes tipos de autoritarismo. Quer este último surgisse associado aos tempos de um absolutismo anterior ao liberalismo, grosso modo anterior a 1820; quer fosse o próprio autoritarismo de Salazar, com o qual em 1926 se pôs termo à I República. Em qualquer dos casos, as polémicas do liberalismo e da República não podiam ser consideradas como um modo de fazer valer ideias progressistas e modernizadoras.

Como interpretar esta agenda conservadora para a história de Portugal? Representará ela, tão-só, um modo de retomar a raiva dos integralistas, nomeadamente de António Sardinha, contra o liberalismo e a República? Como é que a mesma agenda, na versão de Borges de Macedo, estabelecida entre a década de 1960 e a de 1980, acabou por se difundir e se naturalizar, chegando até aos nossos dias? Não terá essa mesma agenda historiográfica conservadora acabado por obter o respeito de muitos historiadores ditos de esquerda, também eles interessados em usar o passado incutindo-lhe valores progressistas, mas considerando que todos os pontos de vista são válidos, uma vez que a história é apenas uma arte que deve ser praticada bem longe das ciências sociais, logo, dos instrumentos de prova que esta última requer?
Polémicas às dúzias
Responder a todas as questões acabadas de enunciar obriga a clarificar o nosso ponto de vista e, sobretudo, implica um estudo do sentido e dos contextos mais pertinentes das grandes polémicas, pelo menos as que ocorreram na segunda metade do século XIX. Trata-se de um trabalho em relação ao qual há que contar com vários contributos, como os que se encontram na compilação clássica organizada por Artur Anselmo e prefaciada por Vitorino Nemésio, com desenho gráfico de Sebastião Rodrigues (“As Grandes Polémicas Portuguesas”, 2 vols., Verbo, 1964-1967); nas “Polémicas de Camilo”, na edição de Alexandre Cabral (Portugália, 1964-1967); no livro de Ana Isabel Buescu, “O Milagre de Ourique e a História de Portugal de Alexandre Herculano” (Instituto Nacional de Investigação Científica, 1987); e, ainda, no importante trabalho de Ana Maria Pina, “A Quimera do Ouro: os Intelectuais Portugueses e o Liberalismo” (Celta, 2003). Esclareça-se, também, que investigações sobre polémicas poderão concentrar-se nalguns nomes ou em momentos de particular intensidade. Por exemplo, está por fazer um inventário das polémicas em que se envolveram Joaquim de Araújo, Adolfo Coelho, Inocêncio Francisco da Silva e tantos outros.


Batalha Reis e as polémicas do seu tempo
Identificar a linguagem violenta e os ataques pessoais de muitas polémicas, em que Camilo Castelo Branco foi useiro e vezeiro, não deverá fazer com que o sentido mais profundo das mesmas possa ser descartado. Conforme desabafou Jaime Batalha Reis, a 12 de setembro de 1873: “Em Portugal, as polémicas, longe de versarem ideias, não passavam de ofensas pessoais” (“Correspondência entre Antero de Quental e Jaime Batalha Reis”, ed. Maria Staak, Assírio e Alvim, 1982, p. 154). As pessoas é que contavam; as ideias eram secundárias. Logo, seria impossível dizer que existissem sequer condições para um debate de ideias em Portugal. Esta característica afigurava-se-lhe uma das maiores debilidades da cultura portuguesa, mas não a única. Mais importante era, sem dúvida, a falta de instrução que afetava os mais diversos estratos sociais. Projetos e estudos, relacionados com a modernização do país, nos quais Batalha Reis se envolveu de modo sistemático durante a sua longa vida, foram o principal modo de contrariar a situação por ele mesmo denunciada. O objetivo consistiu, pois, em abrir caminho para que as ideias — circundadas dos seus inevitáveis debates e sem evitar polémicas — frutificassem.
Mas qual era a experiência que o autor tinha de tais polémicas? Quais as controvérsias, a que assistiu ou em que se envolveu, que o levaram a fazer uma tal generalização e a formular um juízo tão severo — e porventura injusto — acerca da sua superficialidade? Será mesmo verdade que as polémicas incidiam, sobretudo, sobre pessoas — ligadas ou separadas por grupos distintos — e não sobre ideias?
À luz da historiografia existente, há pelo menos duas grandes polémicas a ter em conta. A primeira opôs António Feliciano de Castilho a Antero do Quental e Teófilo Braga, num conflito claro de gerações, que se desenrolou ao longo de 1865 e 1866. Conhecida pela polémica em torno do Bom Senso e Bom Gosto ou Questão Coimbrã. Os seus principais estudiosos foram Alexandre da Conceição, Fran Paxeco, Rui de Abreu Torres, Manuel Antunes, Bernard Martocq, Amadeu de Carvalho Homem e Alberto Ferreira em conjunto com Maria José Marinho. Meritório foi o trabalho desenvolvido pelos últimos, que compilaram, anotaram e estudaram os principais textos que compuseram a referida polémica (4 vol., Portugália, 1966-1970; 2ª ed., Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985-1989).
Do Brasil, José Feliciano de Castilho — irmão de António que, com a sua autoridade, parecia dominar os modos de consagração do meio literário — atirou uma das últimas pedradas, para ridicularizar as “nebulosidades filosóficas” de Teófilo Braga e Antero de Quental, respetivamente, na “Visão dos Tempos” (1864) e nas “Odes Modernas” (1865). Com uma ironia mordaz, declarou que até ficara “convencido e convertido”. O problema estava em que os seus adversários, na ânsia de darem cabo de tudo, só falavam de coisas que não se percebiam, tal “como se cada cidadão se exprimisse em português e tivesse a resposta em malaio” (“A Águia no Ovo e nos Astros”, Rio de Janeiro, Pereira Braga, 1866, pp. 5-6).

A segunda dessas polémicas ocupou o primeiro semestre de 1871. Foi composta pelas célebres Conferências do Casino Lisbonense, que acabaram por suscitar uma série de reações e ser proibidas em julho pelo marquês de Ávila e Bolama. Das conferências que tiveram lugar, as mais conhecidas foram a de Antero de Quental sobre as causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos, a de Eça de Queiroz sobre literatura e a de Adolfo Coelho sobre educação. Ao contrário do que sucedeu com a Questão Coimbrã, de que Jaime Batalha Reis terá ouvido falar, mas na qual não se envolveu diretamente, a sua conferência sobre o socialismo chegou a estar anunciada, mas nunca foi proferida. Entre os principais estudiosos das Conferências e da Geração de 70, figuram António Salgado Júnior, Manuel Mendes, António Quadros, Flausino Torres, José Augusto França, Álvaro Manuel Machado, Fernando Catroga, João Medina e Carlos Reis.
Que não haja dúvidas: há nessas polémicas ofensas pessoais e tricas sobre assuntos que podem ser considerados menores ou mais relacionados com aspetos conotados com a adoção deste ou daquele género literário. Porém, os primeiros a repudiar tais aspetos foram os que se envolveram nessas mesmas lutas. Ao contrário do que argumentou Jorge Borges de Macedo, o mais interessante nessas polémicas do liberalismo oitocentista não pode ser reduzido ao facto de elas estarem em linha com uma qualquer tradição, tomada como uma constante da cultura portuguesa com raízes nos séculos anteriores. O mais relevante dessas polémicas — parece a muitos dos seus estudiosos — consistiu em terem-se constituído em palco de uma luta pela emancipação de ideias, de homens livres, tendo em vista encontrar as vias para criar uma sociedade mais justa. Elas permitiram uma forma de expressão, logo, de luta em nome do progresso, da liberdade e da justiça social.
 
 
Talvez por isso mesmo, Eça de Queiroz deixou na célebre carta a Carlos Mayer, reunida nas “Prosas Bárbaras”, obra póstuma, prefaciada por Batalha Reis, um testemunho das lutas em que a sua geração se envolvera. E, numa recusa do classicismo, dos sentimentos monárquicos correspondentes e das ideias literárias associadas a António de Castilho, sintetizou: “Nós, meu amigo, somos uma geração desiludida por três revoluções, amolecida por uma invenção horrível — a música, tomada de dúvida religiosa, geração que vê esvaecer-se Cristo, a quem tanto tempo amou, e não vê chegar a liberdade, por quem há bastante tempo espera.” E, mais adiante, voltou a sublinhar: “Queremos ver o homem — não o homem dominado pela sociedade, entorpecido pelos costumes, deformado pelas instituições, transformado pela cidade, mas o homem livre, colocado na livre natureza, entre as livres paixões. A arte é simplesmente a representação dos carateres tais quais eles seriam, abandonados à sua vontade inteligente e livre, sem as peias sociais” (Obras, vol. I, Lello, 1958, p. 621).
Polémicas à portuguesa – por Diogo Ramada Curto, revista E, Expresso, 3 de Fevereiro de 2018, pp. 71/72 – com sublinhados nossos.
J.M.M.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

[POLÉMICA] QUADROS: “VISTA DO CHAFARIZ D’EL REI” E “VISTA DA RUA NOVA DOS MERCADORES”

 
 
A curiosa polémica iconográfica em torno da autenticidade histórica da datação do quadro a óleo representando “O Chafariz d’El Rei” - quadro revelado na Exposição “Os Negros em Portugal: século XV a XIX” (1999-2000, Mosteiro dos Jerónimos) -, a que se seguiu idêntica controvérsia no actual quadro presente na novíssima Exposição do Museu Nacional de Arte Antiga [“A cidade global. Lisboa no Renascimento”, 2017], denominado “Rua Nova dos Mercadores”, tem uma indiscutível importância nos seus argumentos historiográficos protestatórios. O debate actual, no que é valioso como narrativa para a temática olisiponense, revela por si só uma dificuldade formal e historiográfica, que é visível na identificação e autentificação dos pormenores iconográficos ali presentes – e que pode servir (presumidamente) como prova documental memorialista, artística (arquitectónica, urbanística, etnográfica) e económico-comercial de uma Lisboa (presumidamente) do século XVI.    
 
 
 
Sobre o assunto pronunciaram-se em diversos artigos e opiniões avulsas, Annemarie Jordan Gschwend (comissária da Exposição que abriu dia 23 de Fevereiro no MNAA; historiadora), Anísio Franco (historiador de arte, conservador do MNAA), António Filipe Pimentel (presidente do MNAA), Diogo Ramada Curto (historiador), Fernando António Baptista Pereira (historiador de arte), Hugo Crespo (Centro de História da FLUL), Irisalva Moita, João Alves Dias (historiador), Joaquim de Oliveira Caetano, Julia Dudkiewicz, Vítor Serrão (historiador de arte; descobriu os quadros num antiquário de Madrid; publicou “O Chafariz D’El Rei da Ribeira Velha, em Lisboa, numa valiosa pintura do século XVI”, 1998).

 
[consultar, ainda, os artigos de Vítor Serrão (“Sobre as polémicas tábuas com trechos da Lisboa antiga” e de Diogo Ramada Curto (“Três quadros falsos não dão um verdadeiro”), publicados na revista E, revista do jornal Expresso, de 26 Fevereiro de 2017, pp.54-57]
 
 
J.M.M.

sábado, 25 de janeiro de 2014

RUI RAMOS NO CANAL Q: UM NOVO ANTÓNIO SARDINHA?


“O novo Sardinha é bem-falante. Na televisão, não hesita. Peremptório mesmo quando dubitativo. Em estilo casual, casaco e colarinho desabotoado. Inteligente e com cara de bom menino. Praticante de um novo populismo, com a chancela atractiva do mercado de massas.

Com obra feita e de reconhecido valor, consta, diz tudo o que lhe vem à real gana. Mas, à cautela, nunca foi em conversas: à política chegou como intelectual com créditos firmados e não como funcionário de partido. Não é como os outros que chegaram bem mais alto, mas à custa de diplomas de origem duvidosa.

Subiu a pulso. Logo após, desfez-se da escada para que mais ninguém lá chegasse. E adoptou os tiques que observou nos snobes. Inspirado em Maurras, misturou-o num blend com outros, tudo autores já publicados pelo Liberty Fund, em encadernações bem cheirosas. Monárquicos, conservadores e uma elite ignara começaram a vibrar com as suas realidades pesadas, donde não está ausente uma ponta de crueldade. E ele não se faz rogado.

– Ena, como vai lançado no seu gosto pela polémica! Estou certo que um dia conseguirá beijar a mão do putativo rei. Ou será que lhe dão mesmo um ministério?

Às suas audiências dá aquilo que elas querem. Indigna-se frente ao despesismo do Estado. E despreza essa esquerdalha de jovens investigadores que, no fundo, não passam de uns comunistas ou ainda pior...

Exímio na arte do paradoxo, partilha com os que não se souberam arranjar uma óbvia denúncia: porque tarde chegaram, foram todos enganados quando alimentaram falsas expectativas em relação a um futuro dedicado à ciência e à investigação. No seu realismo cru, nega-lhes a carreira. Porquê? Simplesmente, porque o despesismo é insustentável. E essas crianças grandes, que se deixaram embalar pelo estudo e pela pesquisa, têm de cair na realidade. Na dura realidade, entenda-se, da sua inutilidade.

Não há alternativa, para tanta evidência. Só talvez a emigração, sempre ela, pode oferecer uma outra via. Porque lá no estrangeiro – provavelmente porque foram todos enganados por um outro trapaceiro – ainda continuam a investir na pesquisa e a preocupar-se em acolher novas gerações de investigadores.

– Olha, Daisy, os coitados lá na estranja, caíram na trapaça. Os tristes continuam a financiar publicamente a investigação.

É que se o despesismo é inútil, porque se constituiu num fardo insustentável, é também escusado pensar-se que exista alguma relação causal entre investigação e desenvolvimento. Tudo uma série de inutilidades. Retire-se, pois, o Estado de tudo isto e deixem em paz os decisores políticos – ministros ou responsáveis por agências de financiamento público – que nunca se deveriam ter envolvido em programas criadores de falsas expectativas e de despesas em espiral.

Devolva-se, isso sim, a responsabilidade às universidades, que se devem comportar de forma autónoma. Mas, esclareça-se desde já, em relação aos que mandam nestas últimas, que devem deixar de se preocupar com o aumento do seu número de investigadores e com a integração de novas gerações na pesquisa. Directores e responsáveis, parem com tais lamúrias insensatas! Basta de tal tipo de erro crasso! Malditos sejam os que o fizerem, sobretudo em jornais! Lá na utopia do propalado liberalismo, as universidades e os centros de investigação nem sequer deveriam depender dos fundos públicos e do Orçamento.

– Olha, Daisy, por que razão não estamos na Grã-Bretanha ou nos Estados Unidos, onde as grandes universidades privadas são mesmo autónomas financeiramente, com os seus states e endowments milionários? Isso é que era bom para que o liberalismo de pacotilha se difundisse. 

– Aqui, no terrunho, tirando as idas à televisão e as vendas dos livros a subir em flecha, tudo o resto é uma chatice. Não que a pátria não exista, com as suas tradições e gente importante digna de biografias que se vendem lindamente. Mas o Estado, ao ter de assumir responsabilidades e ao não deixar crescer as crianças que, na sua adolescência retardada, vivem à sua custa, cria esta chatice, menino! Um autêntico ferro!

“Transforma-se o amador na cousa amada”, como o trapaceiro com a trapaça. A trapaça dos últimos governos que criaram uma ilusão, que enganaram as crianças grandes (pelo menos as que resistiram à emigração) e que alimentaram falsas ideias acerca da criação de um sistema científico. Uma tramóia insuportável, alimentada à custa das loucuras do despesismo do Estado, com que é necessário romper.

O novo Sardinha vê tramóias em todo o lado, porque constrói o mundo à sua imagem. Com a consciência das duras realidades, chama a si a inimputabilidade e uma estratégia de vitimização. Aos seus amigos sopra-lhes a ideia de que a investigação é coisa obscurantista. Por isso, há que reduzi-la e dispensar os que a ela se dedicam. Melhor será fazer como antigamente, só para alguns, muito poucos. E, num estilo sério, mesmo muito sério, o Sardinha new age finge não suportar o estilo chocarreiro deste seu retrato.

–  Olha, Daisy, até que, se se tiver em conta o novo Álbum de Glórias de que este retrato chocarreiro faz parte, nem é assim tão mau. Verás que a notoriedade sobe.

Pouco importa que quem defende que o Estado se retire – aliás, de onde nunca esteve, a julgar pelo que se faz por essa Europa fora – continue a ser um funcionário público, que não abdica de nenhum dos seus cargos e privilégios. A moral de apregoar aos outros aquilo que o próprio não pratica só tem um fundamento: não somos todos iguais, os que já se safaram e que são os beneficiários do sistema não querem partilhar com mais ninguém a estabilidade e tudo o que é bom. A eles o mandarinato e os privilégios, aos outros a dura realidade.

–  Tudo o resto, menino, uma chatice em relação à qual só me resta exprimir a minha dramática indignação: que ferro!”

Diogo Ramada Curto, in jornal PÙBLICO,24/01/2014, p. 49

J.M.M.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

POLÉMICA HISTORIOGRÁFICA

A propósito da polémica historiográfica que tem marcado este ano e a publicação da História de Portugal, coord. Rui Ramos, Nuno Gonçalo Monteiro e Bernardo Vasconcelos e Sousa reeditada agora em vários volumes pelo Expresso e que tanta polémica tem provocado, conheceu hoje um novo contributo, agora de Luís Reis Torgal, cujo texto foi também publicado no jornal Publico e que, com a devida vénia retiramos do blogue de Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória.

RUI RAMOS E O REABRIR DA POLÉMICA SOBRE A "HISTÓRIA DE DIVULGAÇÃO" DO ESTADO NOVO

"Em Janeiro de 2011 apresentei uma comunicação sobre a historiografia do Estado Novo num colóquio organizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Entre outras considerações, abordei criticamente os textos de dois historiadores: Rui Ramos e Filipe Ribeiro de Meneses. Assistimos agora a uma polémica entre Manuel Loff e Rui Ramos, nas páginas do PÚBLICO, que se alargou a um artigo, que não tive ocasião de ler, de António Araújo, a uma pequena, violenta e inconveniente nota de Maria Filomena Mónica, e, depois, a vários outros textos de valor e significado diferentes, entre eles um artigo de um dos melhores especialistas do Estado Novo, Fernando Rosas.

Não querendo entrar nas questões mais pessoais que se levantaram, achei que não devia ficar de fora, dado que me refiro constantemente nos meus textos à falta de um debate público sobre a historiografia e sobre outros temas de ciência e de cultura. Limito-me, porém, por agora, a isolar e a adaptar o texto que escrevi então sobre Rui Ramos, que faz parte, portanto, de um artigo mais lato e complexo que continua à espera de ser publicado nas actas do referido colóquio. Como se verá, não é, pois, a primeira vez que a obra de Rui Ramos suscita, saudavelmente, alguma polémica. A reedição da História de Portugal em pequenos volumes pelo Expresso, coordenada por este historiador, veio, afinal, reabrir velhas questões.

A obra, no seu conjunto, mereceu, obviamente, elogios desde a sua apresentação, na Sociedade de Geografia, pelo sociólogo António Barreto, que, sobretudo, louvou o seu sentido narrativo e de fácil compreensão, onde estava ausente um exercício teorizador. No entanto, a parte relativa ao regime Salazar-Caetano, assinada por Rui Ramos, provocou logo alguma discussão, proporcionada pelo trabalho da jornalista São José Almeida, que entrevistou e transcreveu pequenos passos das opiniões emitidas por alguns historiadores do Estado Novo, como António Costa Pinto, Manuel de Lucena, Manuel Loff, Irene Flunser Pimentel, Fernando Rosas, para além de afirmações do próprio Rui Ramos. O artigo teve o sintomático título “A História de Rui Ramos desculpabiliza o Estado Novo” (PÚBLICO, 31 de Maio de 2010).

Não valerá a pena analisar cada opinião, pois não se chegaria a grandes conclusões, dado até, precisamente, o carácter de curtas passagens que foram extraídas pela jornalista às palavras de cada um dos interlocutores. Apenas poderei resumir esse debate (se é que de debate se tratou) com a própria síntese da jornalista do PÚBLICO: “Rui Ramos lamenta que em Portugal a História seja vista ‘a preto e branco, ou esquerda ou direita’. E que se conviva mal com diferentes interpretações do passado. Mas outros historiadores vêem na mais recente História de Portugal, coordenada por este autor, um discurso que desculpabiliza o Estado Novo e diaboliza a I República. Há mesmo quem fale de ‘legitimação’ do discurso de Salazar. E quem acuse esta História de ignorar a violência daqueles anos”.

Não entro nessa discussão para que, de resto, não fui convidado, mas posso sim discutir a metodologia de análise de Rui Ramos.

Acima de tudo, gosto sempre de salientar que só divulga quem sabe, ou seja, quem investigou. Caso contrário, corremos o risco — evidente no Estado Novo, em “obras do regime”, como a História de Portugal de João Ameal, que constituiu um verdadeiro best-seller — de reduzirmos a História a um discurso narrativo de tipo mais ou menos ideológico. Mas, se, por um lado, a divulgação não pode ser um discurso literário, normalmente atraente, também é perigoso que seja uma simples narrativa aparentemente asséptica e com pretensões científicas, que pode ser, por outro lado, uma grande arma da ideologia.

Rui Ramos não é um especialista do Estado Novo e usou exactamente o método tão elogiado por Barreto, ou seja, a narrativa não teorizadora. Mas, a problematização é o que de mais aliciante tem a História e que provoca no leitor medianamente culto (o outro lê sempre qualquer coisa, até as Histórias rocambolescas da História de Portugal, pensando que está a ler um livro de História) o gosto pela reflexão crítica, o que — aí concordarei com Rui Ramos, se entender o conceito como eu — o leva a ler a História não “a preto e branco”, mas com todas as cores, ou, por outras palavras, de forma poliédrica.

Ora, se lermos as páginas sobre o Estado Novo da História de Portugal (eu li-as na edição principal e não nesta edição em volumes), não nos apercebemos que Salazar se formou num denso complexo de realidades e de concepções do Estado. Sobressaíam então, para além das teses e práticas republicanas mais radicais que geravam naturais reacções, posições republicanas conservadoras e nacionalistas, o corporativismo católico, com as suas teses sociológicas e pedagógicas, ideias integralistas que jamais apontavam para a noção de uma “monarquia absoluta” (como diz Ramos e que era, ao invés, uma ideia que os integralistas combatiam), ideologias fascistas que surgiram em Portugal logo no contexto da “marcha sobre Roma” e, mais tardiamente, apaixonadas afirmações nacionais-sindicalistas, que não se afastavam mesmo do nazismo nascente. Seguindo a narrativa de Rui Ramos, tudo surge de forma natural, formando-se um Estado onde a regra era “viver habitualmente” (ideologia captada em Salazar, em 1938, por Henri Massis, mas que já se encontra na entrevista de António Ferro), no sentido de uma “nova democracia”, onde a palavra “totalitarismo” era proibida, onde se verificava uma “ditadura moderada” (mais moderada do que na própria República) com uma repressão dirigida (esquecendo as vicissitudes de toda a oposição, fosse ela qual fosse), onde havia uma “pluralidade cultural” (como se tendências de oposição pudessem ser integradas na concepção do Estado Novo e não fossem contra ele e alvo da sua repressão)… Mais ainda: onde havia uma concepção de “assimilação” em relação aos naturais das colónias (só tardiamente notória), onde se deu uma guerra colonial (que conheci, na Guiné, no final dos anos sessenta) em que os movimentos de independência acabaram por ter pouco significado social e até militar, onde as estatísticas provam o desenvolvimento de Portugal (que pode ser um facto em determinadas áreas e conjunturas)…

Nada é discutido e problematizado e mesmo o conceito de “fascismo de cátedra” utilizado pela interessante caracterização de Unamuno, numa reflexão jornalística do Ahora, dado a conhecer primeiro por João Medina, é transformado na expressão “ditadura catedrática”, e o conceito de “totalitarismo” não é observado sistematicamente, apesar de, na verdade, ter sido utilizado e discutido por homens próximos de Salazar (como Bissaya Barreto ou Águedo de Oliveira, Mário de Figueiredo ou Manuel Rodrigues). E seria bom que Ramos entendesse que a História se compreende numa lógica diacrónica, mas também sincrónica. É certo que aproxima uma vez o corporativismo de Salazar do de Mussolini, mas haveria que estender essa comparação a outras áreas e perceber que, para além de um “fascismo de movimento”, há um “fascismo de regime”, fascismo ao qual o salazarismo não foi imune, a ponto de se poder sempre perguntar, como fizeram alguns historiadores desde Manuel Lucena (a quem se deve a feliz e problematizadora expressão de que o Estado Novo poderia ser considerado “um fascismo sem movimento fascista”), com respostas diferentes, se era ou não possível integrar o salazarismo num “fascismo genérico”.

A História não pode ser apenas interpretada por sintomas e factos escolhidos previamente, mas — quer se queira quer não (eu que fui influenciado pela metodologia dos Annales, antes de ela se expandir em Portugal, mas que repudiei expressivamente os seus exageros e a máxima imperialista da “história nova”) — tem de ser vista também pela análise das estruturas, que nos podem dar a conhecer o que os factos isolados nos escondem. O grande erro de Rui Ramos, numa história de divulgação, é, pois, pensar que esta é uma pura narrativa do que não se conhece bem, mas de que se podem tirar ilações que interessam ao leitor e o podem orientar. E isso ainda é mais discutível se pensarmos, como Ramos, que a divulgação se pode igualmente fazer, mais livre e despreocupadamente, numa linha “jornalística” — com todo o respeito que tenho pelo jornalismo de investigação — e até utilizando a “história do se…” (“Sá Carneiro. E se ele não tivesse morrido?”, Expresso, Revista Única, 27 de Novembro de 2010) ou da “história virtual” (como diz, à maneira anglo-saxónica) ou da metáfora do “nariz de Cleópatra”, discutida pelo meu mestre Sílvio Lima em 1960, demitido por Salazar em 1935, mas, felizmente, reintegrado nos anos quarenta. Como se vê (agora digo- o eu, em “à parte”), simples liberais eram objecto da repressão salazarista…

No suplemento do Actual do Expresso (24 de Julho de 2010), Rui Ramos escreveu, nos quarenta anos da morte de Salazar, um artigo de fundo sobre o ditador, que praticamente começa assim: “O problema está em que, se quisermos ser exactos, teremos de admitir que foi precisamente com Salazar que Portugal começou a ser menos pobre, menos analfabeto e mais europeu". Chavões deste tipo, com afirmações de meias verdades não contextualizadas, tornam a divulgação tendenciosa. O mesmo se dirá da afirmação, pura e simples: "O Estado Social em Portugal foi salazarista antes de ser democrático". Quanto à repressão, apesar de Ramos concordar que Salazar, quando queria, "podia ser implacável", o que fica no leitor é outro chavão: "Quando comparamos a ditadura salazarista com as suas contemporâneas, a quantidade repressiva é modesta". No que se refere ao colonialismo, refere aquilo que se poderia dizer de outra maneira e com outra contextualização explicativa, sem o efeito de frases que constituíam verdadeiros "slogans de propaganda": "O colonialismo não começou com Salazar. Liberais e republicanos tinham viabilizado as colónias, submetendo as populações ao trabalho forçado administrado pelo Estado". E, a terminar o artigo nem redigido – a boa escrita e a boa comunicação oral são dois factores, por paradoxal que pareça, muito perigosos na dita "divulgação da História", – escreve, simplificando e dando um tom de ficção literária à sua escrita: "Numa quinta-feira de céu cinzento, a 25 de Abril de 1974, tudo foi derrubado como um cenário de papelão. Nenhum movimento político reivindicou, desde então, as ideias de Salazar. Em 2007, a sua vitória num concurso televisivo foi mais um sinal de iconoclastia, contra o velho antifascismo oficial, do que saudosismo. Falamos dele, mas é isso: falamos. Valem-lhe os antifascistas para o conservarem ameaçadoramente 'vivo'. Terá ele imaginado este fiasco final? Nos seus últimos anos de vida, entre 1968 e 1970, não lhe disseram que fora substituído no Governo, mas, como notou Adriano Moreira, ele também não perguntou. Nunca quis saber o resto da história.

Palavras e frases, provavelmente bem construídas, mas sem nenhuma reflexão profunda... – é esta a técnica de divulgação de Ramos, parecendo não entender que a História supõe sempre uma análise e uma reflexão problematizadoras. Que fique claro, não é o facto de Rui Ramos se afirmar como "homem de direita" que me leva a estas considerações. Como cidadão pode ser o que quiser e entender, mas como historiador tem de seguir uma linha metodológica científica, mesmo na arte da divulgação. A menos que entenda que a História não é uma Ciência que procura a objectividade, mas uma pura ficção subjectiva que pode ser – utilizando as suas palavras – de "direita" ou de "esquerda".

Mais um contributo, muito importante, sobre a razão de ser desta polémica que envolve os historiadores, sobretudo quando se estudam temas muito próximos em termos temporais e quando as razões, contextos e conceitos de cada um podem influenciar as leituras que se fazem dos acontecimentos.

Uma reflexão serena, de base conceptual e metodológica que nos merece a melhor atenção e, sobretudo, porque incide em problemáticas da investigação histórica, tentando colocar de lado outras questões paralelas, essas sim secundárias e menos importantes para os interessados na temática.

A ler com toda a atenção.

A.A.B.M.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

CARTILHA "NORMALIZADA" DO ESTADO NOVO?


"Não era minha intenção intervir na polémica que neste jornal tem oposto os historiadores Rui Ramos (RR) e Manuel Loff (ML), a propósito dos conteúdos sobre a História do século XX da de que o primeiro é, respectivamente, autor e co-autor. E não o faria, se o inacreditável artigo de Filomena Mónica (FM) publicado nestas colunas (1/8 - jornal Público) a tal me não tivesse obrigado.

Permitam-me que comece por situar a questão, tal como a vejo: é ou não científica e civicamente relevante discutir criticamente os pontos de vista que enformam a versão da História política do século XX subscrita por RR? Eu acho que sim. Porque é um texto bem escrito, porque teve ampla divulgação e, sobretudo, porque é matéria que se prende umbilicalmente com a forma como pretendemos legitimar o presente e fazer o futuro. No meu entender, foi precisamente isso que, à sua maneira e no seu estilo assertivo, mas onde não vislumbro nada de insultuoso ou pessoalmente difamatório para o criticado, julgo que Manuel Loff pretendeu fazer. Na realidade, essa parte da História de Portugal de RR, no seu modo corrente e aparentemente desproblematizador, no seu jeito de discurso do senso comum superficial e para o 'grande público', é um texto empapado de ideologia. Uma ideologia que faz passar a visão da I República como um regime ditatorial, 'revolucionário' e de 'terror', por contraponto a um Estado Novo ordeiro e desdramatizado, quase banalizado na sua natureza política e social, transfigurado em ditadura catedrática, em regime conservador moderado e aceitável, apesar de um ou outro abuso. Essa visão — em vários aspectos semelhante ao próprio discurso propagandístico do Estado Novo sobre a I República e sobre si próprio — carece, a meu ver, de qualquer sustentação histórica. E, talvez por isso mesmo, convém salientá-lo, não é subscrita, ao que me parece, por uma significativa parte de historiadores e investigadores que, com diferentes perspectivas, trabalham sobre este período.

O que julgo intelectualmente inaceitável é que alguns dos candidatos do costume a sacerdotes do 'pensamento único' venham ameaçar com a excomunhão do seu mundo civilizado quem não aceitar o que eles parece quererem transformar numa espécie de cartilha 'normalizadora' do salazarismo e da sua representação histórica. Peço licença para dizer que, como historiador e como cidadão, não me intimidam. E por isso vamos ao que interessa.

É bem certo que a I República, e já várias vezes o escrevi, não foi, obviamente, uma democracia nem política, nem socialmente, sobretudo no sentido moderno do termo. Com o seu liberalismo oligárquico, com as suas perseguições políticas (sobretudo na sua primeira fase contra as conspirações restauracionistas) e principalmente sociais (contra o movimento operário e sindical), foi um regime de liberdade frequentemente condicionada, à semelhança da maioria dos regimes liberais da Europa do primeiro quartel do século XX. Mas com o ser isso tudo, foi um sistema imensamente mais liberal e aberto do que o Estado Novo da censura prévia, da proibição e perseguição dos partidos, dos sindicatos livres, do direito à greve e da oposição em geral, da omnipresença da polícia política e da violência arbitrária, da opressão quotidiana dos aparelhos de repressão preventiva e de enquadramento totalizante. E tenho para mim que isso não é banalizável ou 'normalizável'. Nem histórica, nem civicamente. É por isso que os valores matriciais da I República puderam ser os da resistência à ditadura salazarista e enformaram, como referência, os constituintes democráticos de 1976.

Infelizmente, RR não compareceu a este debate. Refugiou-se sob o manto de uma pretensa intangibilidade moral, ou seja, de uma vitimização construída a partir, na realidade, da deturpação dramatizante das críticas do seu interlocutor. FM fez bem pior. Sem aparentar perceber nada de nada, veio à liça reclamar contra o facto de ML romper o consenso que ela acha que existia em torno do 'terror republicano', apodá-lo de 'marxista leninista' e de 'historiador medíocre' — quem falou de insultar? — sem discutir um único dos seus pontos de vista e confessando desconhecer e não querer conhecer a obra de ML! E embalou: a 'deturpação de um texto', diz FM, está na natureza dos comunistas e apela sem rebuço à censura do 'seu' jornal contra tal gente. Isto tudo, claro está, porque, como se terá percebido, FM 'gosta de controvérsia'...

Para mim, ao contrário, acho absolutamente necessário que RR e FM continuem a ter pleno direito à palavra. Pelo menos, isso mantém-nos atentos e despertos relativamente aos 'demónios capazes de despertar o pior da cultura portuguesa' (António Barreto dixit)"

FERNANDO ROSAS, in jornal Público, 5 de Setembro 2012, p. 47

[texto via Entre as Brumas da Memória - sublinhados nossos -, com a devida vénia]

J.M.M.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

RUI RAMOS ... OU "UMA HISTÓRIA EM FASCÍCULOS (II)"



[continuação da I parte]

"O Expresso decidiu oferecer gratuitamente aos seus leitores a História de Portugal em 9 fascículos, coordenada por Rui Ramos (RR). Nela, apresenta-se-nos uma ficção sinistra e intelectualmente cínica sobre a ditadura salazarista, procurando aquilo que, até hoje, ninguém na historiografia séria e metodologicamente merecedora do nome tinha tentado: desmontar a natureza ditatorial do Estado Novo. Como comecei a expor aqui há duas semanas atrás, é inaceitável que se pretenda consagrar uma leitura tão manipulada da História.

Para RR, o salazarismo era 'uma espécie de uma monarquia constitucional, em que o lugar do rei era ocupado por um Presidente da República eleito por sufrágio direto e individual' (pp. 632-33), que 'reconhec[ia] uma pluralidade de corpos sociais (...) com esferas de ação próprias e hierarquias e procedimentos específico', mas que só 'não admitiu o pluralismo partidário' (p. 650). Nada se diz sobre o papel das eleições como simulacro de legitimação popular ou a fraude generalizada, realizada mesmo quando nenhuma candidatura alternativa se atrevia perante a do partido único, para inflacionar artificialmente a votação e simular um consenso que não existia.

É inacreditável ver produtos típicos da fascização da sociedade, importados diretamente do fascismo mussoliniano, como foram os sindicatos nacionais, as casas do povo (verdadeiras 'associações de socorro e previdência' que 'desenvolviam atividades desportivas e culturais') e os grémios corporativos, descritos como meras 'associações' de 'representação da população ativa' (p. 644), sem se escrever uma linha sobre a guerra total aberta aos sindicatos livres do período liberal, feita de prisões, deportações e mortes.

Para RR, a repressão, definidora de qualquer ditadura, 'tem de ser colocada no contexto do uso da violência na manutenção da 'ordem pública''. Sem citar documentos, Ramos faz aquilo que ele próprio diz que 'os salazaristas fizeram sempre questão' de fazer: 'Comparar os métodos repressivos [de Salazar] com a ‘ditadura da rua’ do PRP' (p. 652), sustentada sobre o 'trabalho sujo' de 'gangues chefiados por ‘revolucionários profissionais’' (p. 591), empurrando o leitor a achar que a I República fora muito mais violenta que a ditadura. Esta teria sido tão generosa que muitos 'conspiradores e ativistas conservaram as suas posições no Estado em troca de simples abstenção política'; contrariando quase tudo quanto se escreveu na História social e da educação do salazarismo, diz-se que 'não houve saneamentos gerais de funcionários' (p. 653)! Pior terá sido a Revolução de 1974-75, em que '20 mil pessoas [se] viram afastadas dos empregos' e 'pelo menos 1000 presos políticos' terão sido detidos, '7 vezes mais do que no fim do Estado Novo' (p. 732)...

Espantados? Para RR, o salazarismo, afinal, 'não destoava num mundo em que a democracia, o Estado de Direito e a rotação regular de partidos no poder estavam longe de ser a norma na vida política'. A democracia não existia nem na 'Europa ocupada [sic] pela União Soviética', nos 'novos Estados da África e da Ásia' ou 'mesmo na Europa democrática', que 'produziu monopólios de um partido (...), sistemas de poder pessoal (...), restrições e perversões' como 'a proibi[ção] de partidos comunistas' ou 'tortura e execuções sumárias' (p. 669). Em 1968, substituído Salazar por Marcelo, 'a democratização não estava na ordem do dia' no mundo. Os 'constrangimentos policiais', justificados 'no resto do Ocidente' pela '‘luta armada’ da extrema-esquerda' (pp. 697-98) que se inicia no final dos anos 60, eram semelhantes aos do Estado Novo. Eis aquilo que me parece puro cinismo: a democracia, afinal, não existia em lugar nenhum, o que esbate qualquer diferença entre ditaduras e sistemas liberal-democráticos, onde a violência do Estado e de classe coexiste com um mínimo de liberdade de ação para partidos e movimentos que contestem o Estado e os ricos.

Da violência colonial, dos massacres perpetrados contra africanos, nem uma palavra! E a guerra? 'A opção [de recusa de sair das colónias] não pareceu inicialmente excêntrica na Europa' porque 'a retirada europeia de África só começou em 1960', omitindo que ela começara dez anos antes. Se a guerra colonial (nunca assim designada, claro) 'foi o maior esforço militar de um país ocidental desde 1945' (p. 680), as 'guerrilhas' tiveram 'reduzido impacto', a guerra 'não foi demasiado cara' e era 'pouco mortífera', e, 'talvez por isso, o recrutamento nunca foi um problema' (pp. 684-85), o que é talvez o erro factual mais despudorado de todos quantos RR comete! Em resumo, 'a guerra foi aceite' (p. 685) pelos portugueses.

Dedução lógica: o que nos habituámos a chamar uma ditadura não era mais do que um regime semelhante aos que por lá fora havia, melhor até, no campo da repressão, do que muitos, a começar pela I República e o 25 de Abril! Em tempos de transição do Estado Social para o Estado Penal, como designa o sociólogo Loïc Wacquant à criminalização dos dominados que se opera nos nossos dias, o salazarismo voltaria a ser um regime para o nosso tempo!"

MANUEL LOFF, in "Uma História em fascículos ... (II)", jornal "PÚBLICO", 16 Agosto 2012 [via Entre as Brumas da Memória - sublinhados nossos]

J.M.M.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

RUI RAMOS ... OU "UMA HISTÓRIA EM FASCÍCULOS (I)"


"O Expresso está a oferecer gratuitamente aos seus leitores uma História de Portugal dividida em nove fascículos, apresentando-a como 'um dos livros mais vendidos de sempre' entre os que se dedicaram à nossa história. O Expresso acha (eu não) que este é 'hoje reconhecido como um dos melhores livros sobre a História de Portugal', e terá querido disponibilizá-lo a dezenas de milhares de leitores para quem é apetecível uma síntese em 900 páginas da 'história de um grande país'.

O livro é coordenado por Rui Ramos (RR), um historiador especializado na Monarquia Constitucional e na I República portuguesas mas que se encarregou nesta obra de cobrir também o período entre 1926 e a atualidade. As épocas medieval e moderna estiveram a cargo de dois historiadores (Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Monteiro) cujo trabalho não comentarei. Dedicarei esta e a próxima crónicas especificamente ao trabalho de RR, que concebeu e coordenou a obra e disse há dois anos que ela pretendia ser meramente 'uma porta de entrada na História', e 'aguçar o apetite do leitor', descrito como 'exigente' (Prólogo, p. II), e 'fazer com que as pessoas queiram ir ler mais' (PÚBLICO, 31.5.2010). Esperemos que sim.

RR não é um historiador qualquer; a sua visibilidade pública é ajudada, como em pouquíssimos casos, pelo seu acesso às tertúlias televisivas e à imprensa, onde se tem destacado como uma das penas mais sólidas da direita intelectual portuguesa, que reivindica 'o prazer da provocação intelectual e reconhece um aguçado espírito de contradição, sobretudo quando o alvo é a esquerda' (Ler, janeiro 2010). Para percebermos o que RR entende por 'provocação', e em resposta a quem acha — como eu — que o seu trabalho é puro revisionismo historiográfico política e ideologicamente motivado, ele entende que 'toda a História é revisionista' e nela 'é necessário afirmar originalidade' (PÚBLICO, 31.5.2010).

Centremo-nos hoje na narrativa que RR faz do papel de Salazar na história. Para ele, o Estado Novo era 'um regime assente (…) no monopólio da atividade legal por uma organização cívica de apoio ao Governo', e esta é a forma como ele classificará sempre o partido único da ditadura, com 'a chefia pessoal do Estado' entregue a 'um professor catedrático introvertido', um homem 'de outra espécie', com 'nada de uma personagem ditatorial' como a dos líderes da Europa fascista do tempo (pp. 627 e 638-39). Neste campo, a primeira das suas preocupações é a mais comum entre os historiadores da área de RR: desenhar um Salazar sensato e algo neurasténico, que não gostaria de uniformes (apesar da origem militar do regime e do seu caráter inevitavelmente policial e repressivo) e que nada teria a ver com Hitler, Mussolini ou Franco. O 'pobre homem de Santa Comba', como o ditador se definiu a si próprio, teria 'para Portugal objetivos simples' pois propunha-se 'fazer viver Portugal habitualmente' e 'queria instituir uma 'ditadura da inteligência' para 'fazer baixar a febre política' no país e 'reencontrar o equilíbrio' (p. 639).

A segunda originalidade de RR decorre daqui e descola totalmente da realidade: oferecer-nos um Salazar liberal, por oposição aos republicanos de 1910 (um dos ódios de estimação de RR), que, praticamente totalitários, teriam estado empenhados em fazerem da sua 'revolução' uma 'transformação cultural violenta' feita por um 'Estado sectário' (pp. 585-86)! Salazar, pelo contrário, queria 'assentar o Estado, não na 'abstração' de indivíduos desligados da sociedade e arrastados por ideias de transformação radical, mas no que chamou o 'sentimento profundo da realidade objetiva da nação portuguesa'. Para RR, a 'missão do líder' era a de 'reconciliar os portugueses com essa realidade', e ao mesmo tempo ajudá-los a adotar modos de vida sustentáveis'. Em resumo, 'o seu modelo implícito era o que no século XIX se atribuíra aos 'ingleses', prático, 'pouco sentimental': 'Eu faço uma política e uma administração bastante à inglesa' (pp. 639-40) — isto é, um Salazar primeiro-ministro da rainha Vitória... Se acompanharmos as suas crónicas no Expresso, a lição da História para a análise da crise atual parece evidente. Hoje, 'a austeridade é, no fundo, a vida depois de desfeitas as últimas ilusões do passado' – exatamente como Salazar, que 'tinha ambições, mas não ilusões' (RR, in Sábado, 14.1.2010), se havia empenhado em 'reconciliar os portugueses com a realidade' e em 'ajudá-los a adotar modos de vida sustentáveis'! E o que é que, na opinião, de RR foi insustentável no nosso passado recente? 'Uma classe média de funcionários (…), uma economia de trabalhadores e empresários protegidos, e a estatização de grande parte dos serviços (educação, saúde) e da segurança social' (Expresso, 28.7.2012).

RR leva à prática o que ele próprio estabeleceu como o fim 'desta História de Portugal [o de] despertar a atenção para a importância da História como meio de dar profundidade à reflexão e ao debate público sobre o país'. Para ele, 'a História (…) é uma maneira de pensar' (Prólogo, p. IV). Tem toda a razão. E a sua está bem à vista"

MANUEL LOFF, in "Uma História em fascículos ... (I)", jornal "PÚBLICO", 2 Agosto 2012 [via Entre as Brumas da Memória - sublinhados nossos]

J.M.M.

sábado, 30 de junho de 2012

O ALDRABÃO PIMENTA E A SUA "HISTÓRIA"



O ALDRABÃO PIMENTA E A SUA "HISTÓRIA". Análise contundente às parvoíces insanáveis dum megalómano mental [c/ ilustrações de Francisco Valença], de JOÃO PAULO FREIRE (MÁRIO), 1934, III vols [60-76-88 pgs].

Subtítulos:

I Opúsculo: Primeira corrida em pêlo - A Prefação
II Opúsculo: Segunda corrida em pêlo - Do 1º Parágrafo
III Opúsculo: Terceira e ùltima corrida em pêlo - Em Pleno Monturo.

Polémica jocosa [trata-se de um violento ataque á obra de Alfredo Pimenta] à volta duns duvidosos Elementos de História de Portugal de Alfredo Pimenta:

"... Estou arrependido de ter comparado êste biltre [Alfredo Pimenta] ao truculento José Agostinho de Macedo. O frade de Beja era incapaz de escrever esta protérvia, porque o irrequieto tonsurado era mau, mas tinha talento e sabia gramática. Êste tratante dos Elementos nem talento, nem gramática ..."

via FRENESI

J.M.M.

terça-feira, 7 de junho de 2011

À CONVERSA COM AMADEU CARVALHO HOMEM


Vai realizar-se amanhã, dia 8 de Junho, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal de Coimbra, uma conversa com o Prof. Doutor Amadeu Carvalho Homem.


O tema genérico da conversa vai ser Os Símbolos da República a propósito da polémica que envolveu a escolha da nova Bandeira Nacional, problema a que já fizemos referência AQUI ou AQUI.


Uma iniciativa a não perder.

A.A.B.M.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

ANACRONISMOS (NOTAS BREVES PARA UMA POLÉMICA) - PARTE II




A propósito desta nossa polémica com os monárquicos e respondendo ao nosso confrade Luís Bonifácio a propósito da correspondência que publicou, vejamos o que se dizia do lado monárquico, nos últimos anos da Monarquia Constitucional.

Na correspondência que existe publicada por Pedro Tavares de Almeida, recolhida no espólio de José Luciano de Castro, encontram-se várias cartas que comprovam as combinações que se estabeleciam entre os partidos monárquicos para obstaculizar o avanço do Partido Republicano. A que se transcreve de seguida é neste caso bastante elucidativa:

Presidência do Conselho de Ministros
Particular
Exmo. amigo e colega
Falei hoje com o Gov. Civ. de Viana, para me habilitar melhor a responder à carta de Vª. Exª.
Como é natural, porque sempre de um lado e de outro se avalia por melhor, não condizem as informações que ele me dá com as que o Espregueira dá a Vª. Exª., no tocante à força respectiva dos dois partidos nos diferentes concelhos.

Seria arriscada a maioria para o governo, ligando-se os progressistas, para a combater, com os elementos que o José de Abreu, amigo do João Franco, tem em Ponte de Lima. De outra forma, não o creio.

Mas, dada a boa vontade de Vª. Exª. e a minha em caminharmos de boa harmonia, não é nesse terreno restrito que temos de ver a questão.

Vª. Exª sabe que eu tracei as circunscrições eleitorais, de forma a garantir ao seu partido uma representação já bastante maior do que a que tinha na passada sessão legislativa, combinando particularmente com Vª. Exª.

Ponderou-me, depois, Vª. Exª que, para temperar as coisas em Viana, lhe convinha serem por ali eleitos dois progressistas; e o mesmo me ponderou com respeito a Beja. Concordei com uma e outra coisa, se bem que na fixação das maiorias pelos diferentes círculos se compensava já em uns o que em outros houvesse a menos.

Com respeito a Castelo Branco, para mais facilitar a sua acção, propus eu próprio que fossem eleitos dois progressistas, sendo a minoria de um. [...]

Mas, repito, ponho a resolução do assunto nas suas mãos; e se Vª. Exª. entender não poder prescindir de que, por Braga, ainda mesmo passando o Queiroz Ribeiro para Viana, seja eleitos dois progressistas, estarei pelo que Vª. Exª. resolver. Agora, outros assuntos. Tenho informações de que em diversos distritos se procura fazer propaganda e aliciar adesões, sobretudo entre os padres, para apresentação de candidatos católicos. Compreende bem Vª. Exª quanto isto é inconveniente e perigoso; não só para as próximas eleições, como para as que se seguiram, mas para a boa ordem social; fez-se a religião para o culto nos templos, e não para o voto nas urnas. Mas o certo é que o recrutamento se faz: em Braga, em Vila Real, no Funchal; e até em Castelo Branco pensa o Tavares Proença, disputando a maioria, em incluir na lista um candidato católico (não sei se para aliar o Jacinto Cândido).

A Vª. Exª peço que, por sua parte, atenda a isto, que é muito grave é. [...]

De vª Exª
Colega e Amigo obrigado
Hintze Ribeiro
25-8-901


Estes extractos de uma carta de Hintze Ribeiro a José Luciano de Castro, a propósito das eleições de 1901, é possível detectar algumas das estratégias políticas para manter o poder. A alternância de poder era cada vez mais uma farsa e os monárquicos foram os grandes responsáveis pelo seu falhanço. Os republicanos apenas lhe aplicaram o golpe final, porque depois dos resultados eleitorais de 1908, muitos começaram a convencer-se de que não conseguiriam chegar ao poder pela via democrática (eleições), então era necessário organizar uma revolução que abrisse caminho para esse intento. Esta situação, como bem se sabe provocou clivagens profundas dentro do Partido Republicano, porque outros sempre defenderam e acreditaram que o partido atingiria esse grande objectivo por uma forma que fosse inequívoca. Aproveitaram as circunstâncias e aceleraram o processo.

Nesta época (1901), os republicanos ainda estavam a tentar reorganizar-se, depois dos efeitos do 31 de Janeiro e das decisões do Directório em não ir a eleições durante vários anos, o que causou profundo sentimento de desilusão e abandono das fileiras.

Certamente que houve situações de chapeladas, votações combinadas, caciquismo que infelizmente ainda vai persistindo de forma mais ou menos notória em várias regiões do nosso País. Mas isto são sintomas do nosso atraso enquanto País, porque falta maior participação cívica; porque os Partido Políticos merecem tão pouca confiança aos portugueses, com esquemas de funcionamento que vêm do século XIX, e também por isso mesmo é que mantenho a minha independência.

Provavelmente, serei(emos) muitos a pensar desta forma, mas como português espero e desejo sempre o melhor para o meu País, porque isso será quase de certeza melhor para a população.

Nos próximos dias novas achegas irão surgindo.

[Fonte Bibliográfica: Pedro Tavares de Almeida, Nos Bastidores das Eleições de 1881 e 1901. Correspondência política de José Luciano de Castro, Lisboa, Livros Horizonte, 2001, p. 119-120 procedeu-se à actualização da grafia]
A.A.B.M.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

ANACRONISMOS (NOTAS BREVES PARA UMA POLÉMICA)




Nos últimos tempos, a propósito do Centenário da Proclamação da República, alguns monárquicos tentam recuperar a imagem do regime monárquico.

Quem nos conhece pessoalmente ou que nos acompanha em visitas mais ou menos regulares ao blog, certamente nota que temos evitado as apreciações ou depreciações mais ou menos conhecidas. Historicamente, tentamos basearmo-nos em factos e apoiarmo-nos na bibliografia existente que temos disponível. No entanto, não podemos deixar de notar que esses monárquicos para procurarem uma legitimação que actualmente já não possuem, omitem, interpretam e tentam recriar os acontecimentos da forma que os favorece mais.

Muitos dos problemas que o nosso País atravessa são, de facto, de qualidade dos seus dirigentes, mas essa qualidade não é um problema recente. Certamente que alguns dos políticos que nos têm governado, seja na Monarquia, na 1ª República, na 2ª República (Ditadura), ou mesmo na 3ª República cometeram erros que todos os cidadãos acabam por ter que assumir, porque vivemos num país em que muito facilmente se atiram as culpas para os outros e raramente se assume a responsabilidade pelos actos. Temos todos, começando por mim, grande dificuldade em assumir que fizemos uma má opção. No entanto, há uma coisa que não podemos esquecer, é que a liberdade política (Democracia) permite que possamos escolher outros que temos sempre a esperança que sejam melhores.

Na Monarquia já existiam eleições, mas também se sabe que elas de livres tinham só o nome. Mais, os monarcas tiveram o cuidado de votar leis que podiam impedir o progresso eleitoral dos republicanos criando círculos eleitorais mais amplos nas regiões urbanas de Lisboa e do Porto, onde tradicionalmente havia maior votação no Partido Republicano, para conseguirem realizar mais facilmente as famosas chapeladas (colocação de votos nas urnas). Também sabemos que era possível mudar de governo entre os dois grandes partidos monárquicos (Progressista e Regenerador) e, pelo menos a partir da década de 70 do século XIX, houve alguma alternancia de poder, mas os líderes pouco mudavam, a classe política era quase sempre a mesma. Com o aparecimento do Partido Regenerador Liberal, liderado por João Franco, cria-se uma terceira via de alternância, mas não se podia mudar o chefe de estado. Repare-se que não estou a por em causa as qualidades pessoais ou políticas da pessoa de D. Carlos ou de D. Manuel II, mas o certo é que eles não podiam ser eleitos e exerciam o poder pela vida inteira. Isto levanta de imediato o problema de que as pessoas mudavam por uma questão de manter as aparências, porque aquilo que era estrutural nunca mudaria. Para mais havia a questão da hereditariedade, o título era transmitido automáticamente, sem que ninguém fosse chamado a pronunciar-se se era esse o seu desejo ou não. E muitas vezes ficamos com a sensação que alguns monarcas desejavam realizar outras actividades, fossem elas culturais, científicas, de carácter social ou religioso. Esse é para mim um dos grandes defeitos da Monarquia.

Por outro lado, apontam-se também criticas à República que são verdadeiras, mas que fazem parte de todos os momentos revolucionários. Sempre houve e sempre haverá exageros e também os houve durante a República, não temos qualquer dúvida em relação a isso, no entanto também sabemos que quando se vivem momentos revolucionários, de conturbação política e social os acontecimentos ultrapassam as ideias daqueles que os imaginaram e realizaram. Isso aconteceu sempre ao longo da História, seja em Portugal ou no mundo. Houve exageros na Revolução Francesa, com avanços e recuos. Houve situações mal resolvidas durante a República ou mesmo na Revolução dos Cravos, mas as História não existe para de julgar ninguém, mas para analisar e interpretar os acontecimentos. Os protagonistas dos acontecimentos tomaram decisões que só à posteriori se verifica que foram correctas ou erradas.

Alude-se também à questão da liberdade de imprensa. A liberdade de imprensa era ainda uma conquista a fazer nos finais do século XIX. Note-se que com a crise do Ultimatum e do 31 de Janeiro de 1891 foram encerrados variadíssimos jornais de forma compulsiva, simplesmente porque o poder político monárquico assim o entendeu fazer. Os jornalistas eram presos e julgados por emitirem opiniões contrárias ao poder estabelecido, não só os nomes mais conhecidos da propaganda republicana como João Chagas, Francisco Manuel Homem Cristo, António José de Almeida ou Heliodoro Salgado, outros pelo país sofreram estas perseguições e foram exilados ou obrigados a emigrar.

Finalmente, e porque o texto já vai longo, o problema da adesivagem ao novo regime, que é um fenómeno muito típico em Portugal, mas não só. Muitos dos Monárquicos de renome antes do 5 de Outubro, transformaram-se do dia para a noite nos grandes paladinos do novo regime. Tornaram-se os mais ferverosos dos republicanos, capazes de perseguir os antigos companheiros de política que não mudaram de posto só porque mudou a circunstância. Isso também aconteceu em 25 de Abri de 1974 e muitos ainda estão na política activa, no entanto, o povo tudo esquece e quase tudo perdoa. Daí que muitas vezes sejamos considerados um País de brandos costumes.

A.A.B.M.