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quarta-feira, 18 de abril de 2007

domingo, 15 de abril de 2007

BIBLIOGRAFIA [BREVE] SOBRE A QUESTÃO/CRISE ACADÉMICA DE 1907



O Centenário da Questão Académica ou Greve Académica de 1907, em Coimbra, foi por nós, ao longo de mais de um mês, merecidamente assinalado. Recordar a crise académica de 1907 foi-nos particularmente grato.

Homenagear os intransigentes estudantes de antanho, todos de elevado espírito fraterno e solidário, e o seu combate, significou entender que o acontecimento não resulta de um qualquer "ruído" normal próprio da juventude ou como fruto da sua intrepidez, mas sim que emerge e amplia-se como reflexo da situação de mal-estar académico, social, cultural e político que então se vivia em Portugal. Passe o trabalho conspirativo existente por detrás da orientação política dos vários grupos de estudantes, pode antever-se, na contestação e idealismo dos seus protagonistas, uma atitude regeneradora face à nação e às mentalidades, que irá marcar, daí em diante, a Alma Republicana.

O tributo que prestámos a partir de 26 de Fevereiro, deste ano, aos briosos estudantes da Universidade de Coimbra, foi particularmente merecido. As figuras e os factos relembrados, sem opulência ou luxo maior, aqui estão. Talvez um dia, esta pequena referência (e outras que apareceram pela blogosfera e fora dela) possibilite uma antologia de impressões, manifestos e textos desse curioso acontecimento, em tempos idos de 1907. E que bem falta faz.

Por último, deixamos um brevíssimo contributo bibliográfico (de obras existentes e, algumas, por nós consultadas) sobre a Questão Académica de 1907, sabendo que a bibliografia existente é bem mais vasta que a que poderemos apresentar. Mas decerto, com a ajuda de leitores interessados, podemos certamente fazer os aditamentos necessários.

- BRANCO, João Franco Pinto Castelo, Cartas de El-Rei D. Carlos I , Aillaud & Bertrand, Lisboa, 1924
- CABRAL, António, Cartas de El-Rei D. Carlos I a João Franco Castello Branco seu último Presidente do Conselho, Aillaud & Bertrand, Lisboa, 1924.
- CASTRO, Américo de, Últimos Anos da Monarquia. Memórias, Porto, J. Pereira da Silva 1918.
- CHAGAS, João, Subsídios Críticos para a História da Dictadura, Tip. Anuário Comercial, 1908.
- CORREIA, Natália, A Questão Académica de 1907, Minotauro/Seara Nova, Lisboa, 1962.
- CUNHA, D. Correia da, A "Malta". Reportagens da Vida Académica de Coimbra, Coimbra, 1933.
- GUEDES, Armando Marques, Páginas do Meu Diário, Editorial Enciclopédia, Lisboa/Rio de Janeiro, 1957.
- História da República, Editorial O Século, 1960.
- LAMY, Alberto Sousa, A Academia de Coimbra (1537-1990), Rei dos Livros, Lisboa, 1990.
- LEAL, Cunha, Coisas de Tempos Idos. As Minhas Memórias. Romance duma época, duma família e duma vida de 1888 a 1917, Ed. Autor, Lisboa, 1966, 3 vols..
- LIMA, João Evangelista Campos, A Questão da Universidade: depoimento d'um estudante expulso, Clássica Editora, Lisboa, 1907.
- MACHADO, António, Bernardino Machado. Memórias, Livraria Figueirinhas, Porto, 1945.
- MACHADO, Bernardino, Pela República (1906-1908), Ed. Autor, Coimbra, 1908.
- MACHADO, Bernardino, Universidade de Coimbra, Ed. Autor, Coimbra, 1908.
- MADEIRA, Lina Maria Alves, Alberto da Veiga Simões. Esboço de uma biografia política, Quarteto Editora, Coimbra, 2002.
- MARTINS, Rocha, João Franco e o seu tempo, Ed. Autor, Lisboa, 1925.
- MARTINS, Rocha, Vermelhos, Brancos e Azuis, vol. II, Organizações Crisális, Lisboa, 1950.
- PIMENTA, Alfredo, Factos Sociaes: Problemas d'hoje: Ensaios de Philosophia Critica, Lello & Irmão, Porto, 1908.
- QUARTIN, António Tomás Pinto, "A Greve Académica de Coimbra em 1907", Ver e Crer, Lisboa, nº 45, 1949, p. 3-9.
- RAPOSO, Hipólito, Livro de Horas, França Amado, Coimbra, 1913.
- RIBEIRO, Herlander, Cartas de uma tricana. Coimbra de 1903 a 1908, Lisboa, 1936.
- SARDICA, José Miguel, «Combate político e renovação cultural: a Greve Académica de 1907». Comunicação apresentada no Colóquio de História Contemporânea «Maio de 1968: Trinta anos depois. Os movimentos estudantis em Portugal», organizado pelo Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, realizado na referida Universidade, nos dias 28 e 29 de Maio de 1998.
- SARDICA, José Miguel, «A Greve Académica de 1907. Combate político e renovação cultural». Publicado na Revista História, 3.ª Série, n.º 4-5, Lisboa, Julho-Agosto de 1998, pp. 28-37.
- SARDICA, José Miguel, «A Greve Académica de 1907», Textos publicados nos fascículos n.º 4 (pp. 96-97) da obra Século XX. Homens, mulheres e factos que mudaram a História, Lisboa, Público/El Pais, 2000.
- SOUSA, Marnoco e; REIS, José Alberto, A Faculdade de Direito e o seu ensino, França Amado Editora, Coimbra, 1907.
- VENTURA, António, "Um Anarquista Português em Paris", História, Lisboa, Julho/Agosto, 2002, nº 47, Ano XXIV (III Série), p. 66-67.
- XAVIER, Alberto, História da Greve Académica de 1907, Coimbra Editora, Coimbra, 1962.

Notícias na Imprensa (alguns periódicos que deram especial relevo aos acontecimentos)

- Diário Ilustrado, Lisboa; (jornal da época)
- Illustração Portuguesa, Lisboa; (revista ilustrada e noticiosa da época – ver 11/03, 8/04, 15/04, 22/04)
- Luta, Lisboa, 10-03-1907;
- O Século, Lisboa, 1-4-1907 e 4-4-1907;
- O Mundo, Lisboa
- Diário de Lisboa, Lisboa, 6-2-1963, entrevista a Alberto Xavier sobre os acontecimentos da greve académica de 1907.
- Diário de Lisboa, Lisboa, 15-02-1963, publica uma carta de Carlos Eugénio Dias Ferreira, filho de José Eugénio Dias Ferreira, a defender aquilo que entendia ser "o propósito de diminuir a personalidade do candidato reprovado", suscitado na entrevista anterior de Alberto Xavier.
- Diário de Lisboa, Lisboa, 19-02-1963, Alberto Xavier responde a Carlos E. D. Ferreira, em "A Greve Académica de 1907. O Dr. Alberto Xavier responde à carta de Carlos Eugénio Dias Ferreira"
- República, Lisboa, 8-4-1912, artigo de Alfredo Pimenta, "A Greve de 1907".

A.A.B.M.
J.M.M.

A QUESTÃO DA UNIVERSIDADE - ESTUDANTES E LENTES

"Os estudantes da Universidade [Coimbra] insurgiram-se contra a reprovação plena de um seu camarada de estudos que se apresentou a defender as suas theses finaes. Mais uma vez se dirime a eterna contenda entre lentes e estudantes. Coimbra, a velha cidade universitária, assume imprevistamente um aspecto revolucionário (...)

Toda a Academia se levantou n'um grito. A gargalheira estrangulava-a, o foro glacial e rígido da Universidade era um capacete de ferro que não a deixava respirar; o sangue corria-lhe nas veias menos impetuoso e menos generoso. Não é uma questão entre homens, é um combate entre factos ...
"

[Estudantes e Lentes. A Questão da Universidade, in Illustração Portuguesa, III vol., 11 de Março de 1907, p. 294-295 - sublinhados nossos]

J.M.M.

sábado, 14 de abril de 2007

ESTUDANTES DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA (1907)



1º plano: Bissaya-Barreto, José Montez, Carneiro Franco, Carlos Olavo.

2º plano: Justino Cardozo, Monteiro Araújo, António Granjo, Carlos Amaro, Feio Azevedo, Alberto Xavier, Pires da Rocha.

Foto da Photographia Gonçalves (Coimbra), in Illustração Portugueza, III volume, 22 Abril de 1907

J.M.M.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

OS REITORES DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA DURANTE A CRISE DE 1907


António dos Santos Viegas Júnior

Filho de António dos Santos Viegas e de Máxima Carolina Gomes Barata Feio, nasceu na Covilhã, distrito de Castelo Branco, em 7 de Abril de 1837,concluiu o exame de licenciado em 30 de Julho de 1859, doutorou-se em Filosofia em 30 de Outubro de 1859 e começou a leccionar na Universidade em 22 de Fevereiro de 1860. Lente de Física e responsável pelo respectivo gabinete, exerceu ainda as funções de Director do Observatório Meteorológico e Magnético da Universidade. Realizou a oração de sapiência de abertura da Universidade em 1888/1889, publicada no Anuário da Universidade de Coimbra. Realizou também a alocução de abertura das aulas no ano lectivo 1906-1907, publicada no anuário da Universidade de 1906-1907. Foi o responsável princial pela publicação das Observações meteorológicas feitas no observatório meteorológico da Universidade de Coimbra nos anos de 1881, 1883 e 1884, Coimbra, Imprensa da Universidade.

Casou-se com D. Maria Francisca de Vasconcelos Carreira dos Santos Viegas de quem teve um filho também ele professor da Universidade, Luís dos Santos Viegas, que se doutorou em 1890.

Dedicou-se aos estudos experimentais sobre o Geomagnetismo e a Meteorologia que constituíram uma das prioridades da actividade científica de António dos Santos Viegas a partir de 1864. Por portaria de 24 de Outubro de 1866 foi encarregado de realizar uma viagem científica pelos principais países da Europa, para visitar as escolas e universidades desses países e estudar a organização do ensino das ciências filosóficas. Efectuou estágios científicos em diversas escolas europeias, Santos Viegas especializou-se em técnicas experimentais de análise espectral. Neste domínio colaborou com o Observatório Astronómico, realizando observações magnéticas e de análise espectral durante a ocorrência de eclipses. Desde a sua fundação, o Observatório Meteorológico e Magnético ficou integrado numa extensa rede europeia de observatórios que tinham por objectivo o estudo do magnetismo terrestre.

Em 1881 foi enviado a Paris para representar Portugal no Congresso e Exposição de Electricidade.
Foi reitor da Universidade diversas vezes: a primeira entre 1890 e 1892, voltou a essas funções entre 1896 e 1898 e volta a ser nomeado em Abril de 1906. Desempenhou também ainda as funções de deputado eleito pelo círculo da Covilhã em 1870 e 1871. Mais tarde foi também eleito Par do Reino em representação dos estabelecimentos científicos.

Publicou:
- Dissertação inaugural para o acto de conclusões magnas- Argumento: 1ºQuais as relações da química com as outras ciências?2º Que benfícios presta ela à civilização e à humanidade? 3º Que relação ao nosso país que temos de esperar da química industrial?, Coimbra, 1859.
- Theses ex Naturali Philosophia: quas preside clarissimo ac sapientissímo D. Fortunato Raphaele Pereira de Senna, ano de 1859 in Conimbrigensi Academi propugnabat ..., Coimbra, 1859;
-"Viagem scientífica do Dr. António dos Santos Viegas - Primeiro relatório: Dezembro de 1866 a Maio 1867", Diário de Lisboa: Folha Official do governo portuguez, Outubro 1867, n.º 229, p. 2966.
-"Viagem scientífica do Dr. António dos Santos Viegas -Segundo relatório: Junho a Novembro de 1867", Diário de Lisboa: Folha Official do governo portuguez, 21 Março 1867, n.º 66, p. 553.
- Programa da 3ª Cadeira: Phisica - 1ª parte para o ano lectivo de 1889 a 1889, redigido pelo lente ..., Coimbra, 1889.

[Fotografia de António dos Santos Viegas in Guitarra de Coimbra que também tem vindo a dedicar a sua atenção a estes acontecimentos]

[Nota Importante: este post foi corrigido no terceiro parágrafo devido à existência de um erro importante detectado pelos nossos leitores, com os nossos agradecimentos pela chamada de atenção.]

A.A.B.M.

terça-feira, 10 de abril de 2007

REITOR E GRUPO DE LENTES DA UNIVERSIDADE DE COIMBTA (1907)



Dr. Avelino Calixto (lente de direito), Dr. Souto Rodrigues (lente de matemática), Dr. José Alberto dos Reis (lente de direito), Dr. Machado Villela (lente de direito), Dr. Bernardo Madureira (lente de teologia), Dr. Raymundo da Motta (lente de medicina), Dr. Filomeno da Camara (lente de medicina), Dr. Santos Viegas (reitor), Dr. Angelo da Fonseca (lente de medicina), Dr. Arzilla Fonseca (lente de matemática), Dr. Eusébio Tamagnini (lente de filosofia), Dr. Pedro Martins (lente de direito), Dr. Luiz Santos Viegas (lente de medicina), Dr. Teixeira d'Abreu (lente de direito), Dr. Sousa Gomes (lente de filosofia), Dr. Bernardino Machado (lente de filosofia)

Fotos da Conimbricense, Gonçalves, Tinoco e União (de Coimbra), in Illustração Portugueza, III volume, 22 Abril de 1907

J.M.M.

PINTO QUARTIN E MÁRIO MONTEIRO



"O quintanista Mário Monteiro despedindo-se do seu colega Pinto Quartin, que regressa a Lisboa"

Foto, in Illustração Portugueza, III volume, 22 Abril de 1907

J.M.M.

A GREVE DE 1907 NA "ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA"


A Greve de 1907 na revista Ilustração Portuguesa

Reprodução de uma página da revista Ilustração Portuguesa, de 22 Abril de 1907,onde aparece, ao longo de 16 páginas, um conjunto de fotos sobre a Questão Académica de 1907, tiradas por Benoliel e alguns fotógrafos de Coimbra - como a Photographia União, a Gonçalves, a Conimbricense, a Tinoco.

J.M.M.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

[AINDA] PINTO QUARTIN E A GREVE DE 1907 (III)


Ainda ... Pinto Quartin e a greve Académica de Coimbra em 1907 (III)

Na parte final deste artigo, Pinto Quartin ocupou-se, em especial, de dois aspectos ligados à crise académica: a discussão do assunto nas Cortes e o alastramento do movimento. Como já fizemos referência aqui, a discussão deste assunto na Câmara dos Deputados foi um processo complexo porque "o Presidente do Ministério [João Franco] esquivava-se sempre a responder às interpelações dos deputados e pares da minoria". Face a esta situação afirma Pinto Quartin:

A vida parlamentar estava paralisada porque a oposição não consentia que os trabalhos prosseguissem sem a discussão de um assunto de tão grave importância e de tão grande oportunidade, que afectava o futuro de milhares de rapazes e os interesses de tantas famílias. Encerradas várias sessões pelo obstrucionismo da oposição, João Franco leva à assinatura régia o decreto de 10 de Abril, que encerrava as Cortes. O Governo não transige e a greve mantém-se firma, e tão ordeira que até jornal católico portuense «A Palavra» dizia não poder deixar de louvar o aprumo, a isenção com que procedia a mocidadade das escolas [...][ as únicas situações com alguma violência ocorreram com os]lamentáveis acontecimentos da Escola Politécnica de Lisboa e do Liceu de Coimbra, onde ficaram feridos alguns estudantes como Lacerda Forjaz, Fernando de Oliveira e Mariano de Melo Vieira.
A resistência afrouxa e tudo termian em bem ...
Em vista da persistência dos rapazes e do alastramento do movimento, João Franco fez encerrar em 15 de Abril todos os estabelecimentos de ensino onde os estudantes se haviam declarado em greve, incluindo a Universidade, cujos estudantes militares recolheram aos seus regimentos e os restantes novamente se retiraram para as suas terras.
O reitor Dr. António dos Santos Viegas pede a sua exoneração e é substituído plo Dr. D. José de Alarcão. Surge então da parte dos pais dos estudantes, e dizia-se que inspirada pelo novo reitor, uma ofensiva a favor de um indulto para os estudantes expulsos. E, em 22 de Maio, as escolas são reabertas, sendo convidados os alunos que não tivessem perdido o ano por faltas até o dia 8 desse mês a encerrar matrículas e a fazerem acto, à excepção dos sete estudantes riscados da Universidade. Poucos foram os estudantes que nos primeiros dias acorreram a matricular-se, mas os jornais aumentavam o número dos «amarelos», citando nomes de alguns que logo se apressaram a desmentir. Mário de Azevedo Gomes, que era então quintanista de Agronomia, mandava para os jornais a seguinte declaração:
«Sr. Redactor: Publicam alguns jornais de hoje a notícia de que os quintanistas de Agronomia declararam não ter aderido à greve e solicitavam a continuação do tirocínio. Ora eu sou quintanista de agronomia e declarei que aderia à greve e não solicitei a continuação do tirocínio. E como tenho uma só forma de proceder, sou hoje, como ontem, grevista intransigente».
Declaração semelhante fez também o seu colega do mesmo ano e do mesmo curso Fernando César Correia Mendes.
Em vão, porém, os manifestos - edentre eles foi notável o da Comissão Central de Lisboa, assinado pelos estudantes Júdice Formosinho, Lúcio dos Santos, Mário Vasconcelos e Sá, Luís Filipe Nunes, Sequeira Coutinho e Francisco Pulido Valente - exortam a Academia a manter-se firme e a não ir a exames sem que os estudantes expulsos sejam readmitidos. A Academia estava cansada - o conflito arrastava-se havia já perto de três meses - e a pressãodos pais, atemorizados com a perspectiva da perda de ano de seus filhos, abatia os ânimos, afrouxava a resistência. Muitos dos estudantes começaram então a reivindicar a sua liberdade de proceder. Os alunos dos liceus são os primeiros a regressar às aulas. Imitam-nos os das escolas secundárias: os do Conservatório, das Belas Artes e do ensino industrial e comercial. [...]
«Furada» a greve em Coimbra, as escolas superiores de Lisboa e Porto, desobrigadas do seu compromisso, reentram na normalidade.
Quase em simultâneo, a 13 de Junho, era publicado o decreto que permitia a todos os estudantes, incluindo os sentenciados, concluirem os seus cursos sem perda de nenhum ano, atendendo-se assim à representação entregue ao Chefe de Estado e patrocinada pelo Reitor, em que os estudantes se haviam matriculado, «movidos por vivo sentimento de fraternidade escolar» pediam uma amnistia geral e o indulto para os sete dos seus camaradas afastados das lides escolares [...]
E assim teminou, se não vitoriosamente, pelo menos com nobreza, dignidade e elegância, este arrastado conflito em que a Academia se manteve, até à última, fiel aos seus tradicionais sentimentos de generosidade e, galantaria.


Esta longa transcrição de um artigo de Pinto Quartin, serviu essencialmente para dar a conhecer mais alguns dados que, o autor, por ter sido protagonista nos acontecimentos, relata com alguma paixão. Porém, pretende-se sobretudo contribuir para revelar mais uma fonte de trabalho a consultar, porque relata o envolvimento de outros protagonistas fora da cidade de Coimbra, avança razões para o protesto e procura construir um desenlace quase ideal, como nos referimos no último parágrafo do texto transcrito. Foi o nosso contributo, simples mas no sentido de valorizar o estudo deste acontecimento.

Nos próximos dias avançaremos com um último post sobre este assunto, para abordarmos outras temáticas importantes como a revolta que conduziu à III República em que vivemos actualmente.

[Na fotografia vê-se João Franco a visitar a Escola Politécnica de Lisboa em Junho de 1907. In Arquivo Fotográfico de Lisboa].

A.A.B.M.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

PINTO QUARTIN E A GREVE ACADÉMICA DE COIMBRA EM 1907 (II)


Pinto Quartin e a Greve Académica de Coimbra em 1907 (II)

O autor continua a recordar os acontecimentos em que foi um dos protagonistas e refere alguns factos com grande pormenor. Um dos aspectos que aborda com particular interesse é o facto de o movimento iniciado em Coimbra ter alastrado ao restante país, causando grande impacto na opinião pública devido ao eco dos acontecimentos na imprensa da época. Assim, afirmava Pinto Quartin:

A atitude dos estudantes de Coimbra é imediatamente secundada pelos estudantes das escolas superiores de Lisboa e Porto, que se declararam também em greve de solidariedade para com os estudantes expulsos. No Ateneu Comercial de Lisboa, numa reunião em que usaram da palavra Campos Lima, Mário Monteiro, Pulido Valente, Alberto Xavier e Carlos Olavo, é lida uma carta do lente Dr. Bernardino Machado, solidarizando-se com o protesto dos estudantes.

No Porto, no Salão da Guarda, realiza-se um comício a que presidiu o terceiranista de Medicina Teixeira de Seixas e em que falaram Bissaya Barreto, Jaime Cortesão, Campos Lima, Leonardo Coimbra, Álvaro Monteiro, Henrique Forjaz, Augusto Verol, Pádua Correia e o lente da Escola Médico Cirúrgica dr. Alfredo de Magalhães, sendo recebida uma carta de incitamento do poeta Guerra Junqueiro.

Rapidamente a greve se generalizou a todo o País. Não só os estudantes das escolas superiores, são também os das escolas industriais e comerciais, de Belas Artes, do Conservatório, das escolas normais masculina e feminina e até os dos liceus. Formam-se Comissões Centrais em Lisboa e no Porto e Comissões de Vigilância em todos os estabelecimentos de ensino, distinguindo-se nesse movimento, além dos citados em vários passos desta reportagem retrospectiva, os estudantes José Montez, Madeira Pinto, Rui Feijó, Humberto Avelar, Chaves de Almeida, Costa Cabedo, Alfredo França, Henrique Brás, Francisco Luís Tavares, Tadeu Sacramento Monteiro, Francisco Lopes Vieira de Almeida, Alberto Mac Bride, Valentim Lourenço, Colares Correia, Feio Terenas, António de Sousa, Cláudio Basto, Armando Marques Guedes, Álvaro e Ernesto Beleza de Andrade, Manuel Pinto Coelho Vale e Vasconcelos, Mário Malheiros, Eduardo Lopes, José Maria Nunes Leitão, Júlio Gomes dos Santos Júnior, Emílio Martins, António Vaz de Sá Pereira e Castro, Fernando Matos, Alfredo Martins, Januário Leite, Carlos Rego, António Martins, Arnaldo Lima, Francisco Negrão, Germano de Amorim, Lusitano e Geraldino de Brites, José Maria Rangel de Sampaio, António Joyce, António de Carvalho Lucas, Américo de Castro, Antero Cardoso, Amâncio de Alpoim, Paiva Lereno, António Nápoles, Francisco Cruz, Jacinto de Freitas, João Santos Moita, Luís Bicudo, Luís Faísca, Maurício Costa e Luís da Câmara Reis.


A seriação dos nomes dos principais envolvidos nesta polémica, pode tornar-se maçadora para alguns, mas é bastante interessante verificar o papel social e político que algumas destas personalidades vão desempenhar anos mais tarde. Encontramos aqui desde futuros professores da Universidade, ministros, jornalistas, escritores, poetas, músicos, médicos, advogados, outros que vão continuar no anonimato, etc.
Continuando a transcrição do artigo, Pinto Quartin relata:

Pela sua atitude, alguns dos directores e professores são vaiados, outros, como o general Schiapa Monteiro e o Dr. Silva Teles, são vitoriados. De pequenos conflitos com a polícia resulta a prisão, por pouco tempo mantida, dos estudantes Adriano de Almeida Lopes e Francisco José da Silveira Campos. Fernando Bissaya Barreto é também preso, mas pouco tempo depois posto em liberdade, por se ter rido de um polícia de que o prevenira de que não podia «andar parado». E porque, suspenso o direito de reunião, os estudantes se juntassem no «Gelo» e no «Martinho», em Lisboa, e no «Central» no Porto, foram dadas ordens aos proprietários dos «cafés» para não consentirem que nos seus estabelecimentos se falasse de política, nos assuntos académicos ou «em tudo o que saísse do simples e usual exercício da sua indústria». (sic)

Nos próximos dias continuaremos a dar a conhecer mais este importante contributo para a história da Questão Académica de 1907.


[Na foto, as pessoas a passearem frente ao Café Martinho da Arcada onde os estudantes também se reuniam para as discussões políticas. Foto in Arquivo Fotográfico de Lisboa]

A.A.B.M.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

PINTO QUARTIN E A GREVE ACADÉMICA DE COIMBRA EM 1907 (I)


Pinto Quartin e A Greve Académica de Coimbra em 1907

Nas nossas deambulações e pesquisas pelas Bibliotecas em jornais e revistas portuguesas dos séculos XIX e XX, encontram-se alguns elementos curiosos que muitas vezes vão ficando esquecidos porque quase ninguém sabe da sua existência. Assim, este artigo de que vamos extraír alguns apontamentos pode ser consultado na revista Ver e Crer, Lisboa, 1945-1950, Dir. José Ribeiro dos Santos e Mário Neves ,era propriedade da Gráfica Portuguesa, tendo sido publicados 56 números. Esta revista contava com inúmeras colaborações de autores conhecidos como: Fernando Namora, Julião Quintinha, Augusto d'Esaguy, Aquilino Ribeiro, António Sérgio, Carlos Olavo, Ramada Curto, José Saramago,entre muitos outros.

Pinto Quartin, em 1949, na referida revista, número 45, rememorava nos acontecimentos de 1907 num artigo intitulado: A Greve Académica de Coimbra em 1907. Uma página de História da Academia. Diz-nos Pinto Quartin, após explicar a origem dos acontecimentos:

Num imponente cortejo, a academia em peso levou em triunfo o candidato reprovado até à sua residência na Arregaça, e à noite os mais exaltados foram apedrejar as casas dos professores Álvaro Vilela e Guilherme Moreira. No dia seguinte, à entrada das aulas, os alunos do primeiro ano de Direito fizeram, nos gerais, uma ensurdecedora e violenta assuada aos professores, e a Academia, reunida no Ginásio Académico, prevendo as represálias, reivindicou para si, colectivamente, a responsabilidade absoluta de todos os acontecimentos.
Em vista da exaltação dos estudantes, Coimbra viu-se sitiada por tropas e polícia, e um deputado, lente de Direito, o Dr. Teixeira de Abreu, chegava àquela cidade para inquirir dos acontecimentos e informar deles o Governo.


De seguida, o autor do artigo refere as principais reclamações que os estudantes de então apresentavam:
[...] cerca de quatrocentos rapazes avançaram em comboio especial, sobre Lisboa, a apresentar ao Governo e ao Parlamento as suas reclamações, que consistiam numa sindicância ao acto de conclusões magnas do candidato José Dias Ferreira, ou a faculdade deste repetir as suas provas; na abolição pura e simples do «foro académico»; na remodelação dos processos de ensino seguidos na Faculdade de Direito; e, atribuindo a causa da imobilização dos métodos e programas dessa Faculdade à concentração do ensino apenas em Coimbra, alvitrando-se a criação de mais duas Faculdades de Direito: uma em Lisboa e outra no Porto.
Uma comissão composta dos estudantes Alberto da Cunha Dias, João Bianchi, Henrique Trindade Coelho, Carlos Olavo, António Granjo, Mário Monteiro, Santiago Prezado, Ramada Curto, Aquiles Gonçalves e Isidro Aranha, acompanhada de milhares de estudantes da capital e de Coimbra, fez entrega da representação ao Ministro das Obras Públicas, Malheiro Reimão, que respondeu aceitar o Governo as reclamações dos estudantes, mas que não as tomaria em considração enquanto eles se não submetessem a entrar na normalidade da vida universitária.


Após a decisão de expulsar alguns estudantes, por parte do Conselho dos Decanos, com base no «foro académico», refere Pinto Quartin alguns episódios curiosos e pouco conhecidos:
foi ordenada a reabertura da Universidade de Coimbra para o dia 8 desse mesmo mês de Abril, mas os estudantes, que das suas terras acorreram a Coimbra, resolveram na véspera, não comparecer às aulas. E, efectivamente, com a excepção dos estudantes militares, de um aluno de Medicina filho de um lente, e de dois ou três teólogos, poucos mais «furaram» a greve. O próprio filho de João Franco, o Frederico, e o filho do juiz Veiga e o do então governador civil do Porto declararam que só iriam às aulas se a maioria dos seus colegas comparecesse.
Alguns incidentes curiosos se registaram nesse dia. O Camilo Castelo Branco, filho do conselheiro José Castelo Branco, sentiu partir-se nas costas um guarda-chuva quando censurava a atitude de um pai que violentava o filho a entrar para a aula. O estudante Raul de Oliveira de Sousa Leal, que, doente, se apeava de um trem à Porta Férrea, é tido como «amarelo» e assuado, mas o pai, que o acompanhava, logo explica que o filho estava ali para ser solidário com os seus colegas, o que lhe valeu uma entusiástica e prolongada salva de palmas. Os professores Drs. Madureira, Oliveira Guimarães,Caeiro da Mata e Pedro Martins exigem a retirada da polícia da porta das suas aulas, e atribui-se ao actual Ministro dos Negócios Estrangeiros [José Caeiro da Mata] recusar-se a subir à cátedra, ao verificar que apenas tinha na sua frente três alunos militares.


[continuação nos próximos dias]

Nota 1: agradecemos publicamente a indicação da existência deste artigo ao Dr. Carlos Santarém Andrade.

Nota 2: Os negritos são da nossa responsabilidade, bem como a escolha dos textos.

A.A.B.M.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

A QUESTÃO ACADÉMICA DE 1907 POR HERLANDER RIBEIRO


A Questão Académica 1907 vista por Herlander Ribeiro

Em "Cartas uma Tricana (Coimbra de 1903 a 1908)", Lisboa, 1936, Herlander Ribeiro [1886-1967], um dos alunos que, frequentando o 4º ano de Direito, não foi solidário com a greve dos estudantes de Coimbra de 1907, escreve 3 curiosos textos, que devemos assinalar.

O primeiro, datado de 1906 [Academia Politica] dá conta do "pulsar" social e cultural de Coimbra, na época. O segundo [A Greve] apresenta um importante comunicado sobre os acontecimentos de 1907 por "Um Grupo de Académicos da Universidade", com o título "Os Acontecimentos de Coimbra. Aos Académicos e ao Paiz". O terceiro [O comício no Teatro Avenida], refere um comício republicano em Maio de 1907, a que assistiu, com curiosos comentários.

Eis, alguns pequenos excertos:

"Nesta quadra de actos, falta em Coimbra o assunto para a carta semanal: porque porêm, nas noites quentes deste Julho, pela alta, à luz da fraca iluminação publica, grupos de estudantes da rua Larga à Couraça, discutem até de madrugada, e anda em móda na academia o anarquismo, que Campos Lima, Gomes da Silva e um novo caloiro [Alfredo] França, lá na baixa, inflamados, declaram ser o regimen do futuro (...)" [Academia Politica, Julho de 1906]

"Todo o paiz sabe, pelas noticias da imprensa e ainda por informações particulares, que se deram graves acontecimentos em Coimbra, por ocasião da reprovação em acto de conclusões magnas do doutorando José Eugénio Ferreira.
Houve manifestações de desagrado na Sala dos Capelos, durante os argumentos d’alguns lentes, nos dias 27 e 28 de Fevereiro, repetidas no átrio da Universidade e nas ruas da cidade, pelas quaes passou um numeroso cortejo que acompanhou o doutorando à sua casa na Estrada da Beira, tendo-se pronunciado, durante o percurso do mesmo cortejo, discursos violentos e injuriosos.


No dia 28, à noite, reuniu a Academia em assembleia geral 'para manifestar o seu desagrado pela exclusão do sr. José Eugénio Ferreira'. Depois de discutidos vários alvitres, foi aprovado 'que se fizesse uma manifestação de desagrado aos professores da Faculdade de Direito' (...)
A manifestação projectada realizou-se no dia seguinte, 1 de Março, à hora em que devia começar o primeiro turno d’aulas, 8 e um quarto da manhã, e consistiu em assobios, apupos, ameaças, vivas ao candidato reprovado e morras aos lentes da Faculdade de Direito (...)


A imprensa, na sua grande parte, ou mal informada ou propositadamente, desvirtuou os acontecimentos e desorientou a opinião, fazendo passar como legítimo e espontâneo o que não era mais que uma exploração política. Tão habilmente urdido foi o plano, e tão secretas as instruções dos seus dirigentes, que a máxima parte da Academia se deixou ludibriar na sua generosidade e boa fé, entrando no movimento com calor e entusiasmo (...)

Quais os parlamentares e homens políticos que secundaram o movimento, prometendo e prestando o seu apoio aos académicos, em conferências, na imprensa e em interpelações ao governo? (...)
Por mais esforços que se façam, não se consegue descobrir elementos que não pertençam ao 'livre pensamento' (ideia!) republicanismo académico, e maçonaria indígena (...)

Aos interessados cumpre tirar a conclusão de tudo o que deixamos dito, a qual, a nosso ver, não pode ser senão esta:


Apesar de ter havido expulsões, reconhecer o logro de que foi vitima e apresentar-se nas aulas logo que reabra a Universidade ..." [A Greve, Abril de 1907]

"Venho dum comicio que o Dr. Bernardino Machado e outros promoveram no teatro de Santa Cruz, em que falaram Alexandre Braga e outros caudilhos republicanos.
Por parte da academia os inevitaveis Campos Lima e Gomes da Silva e por representação do povo, falou o Viana, cá da rua da Trindade, o encadernador de cabeleira grande e zaragata constante com a consorte. Não gostei da oratoria que ali se usou; orador brilhante, um pouco rouco, foi só Alexandre Braga: a frase deste tribuno é quente, a voz otima para comicios, a figura insinuante e de autentico batalhador da palavra.


A sala estava cheia e a academia fortemente representada. No camarote o comissario da policia, sem côrte, como nos dias de espectáculo.

Não ouvi traçar um programa de construção social: gritou-se contra tudo, criticou-se o analfabetismo, mas não vi que se esboçasse, a sério, qualquer coisa que se dirigisse, não ás gargantas dos vivos, mas aos cerebros dos assistentes e até mesmo aos seus corações.
É assim que querem fazer a republica em Portugal, os republicanos?

Não me parece que consigam modificar a mentalidade os academicos, nem o instinto dos futricas: pode ser palavroso, faz barulho, mas não cria adeptos sinceros ...
" [Maio, 1907]

J.M.M.

terça-feira, 3 de abril de 2007

ANTÓNIO ABRANCHES FERRÃO

Nasceu em Seia, em 25 de Agosto de 1883. Realizou os primeiros estudos no Colégio de S. Fiel, prosseguindo os seus estudos na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde se encontrava em 1907. Na sequência dos acontecimentos que temos vindo a descrever, envolve-se activamente na vida política da época, afirmando-se republicano por esta época. Conclui o seu curso mais tarde e candidata-se mesmo ao doutoramento, que viria a realizar em 1909.

Casou-se em inicialmente Maria Alzira Correia Teles de quem teve um filho: Fernando de Oliveira Abranches Ferrão (n. 1908). Mais tarde divorcia-se e casa com Arminda Amália Borges de Oliveira.

Segue a carreira académica na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde lecciona a partir de 1913 até 1932. Desempenhou o cargo de Director Interino da Faculdade de Direito (1914-1928), foi também o representante da Faculdade de Direito no Senado Universitário. Foi um dos principais impulsionadores do curso de Notariado na Faculdade de Direito de Lisboa.

Em 1921 atinge alguma notoriedade quando foi convidado pela primeira vez para ser Ministro da Justiça, num governo liderado por Cunha Leal, entre 16 de Dezembro de 1921 a 6 de Março de 1922. Mais tarde volta ser convidado a integrar um governo liderado por António Maria da Silva, entre 7 de Dezembro de 1922 e 15 de Novembro de 1923. Desempenha ainda que interinamente as funções de Ministro das Finanças entre 17 e 20 de Agosto de 1923. No ano seguinte, volta a integrar novo governo agora com a pasta da Instrução Pública entre 6 de Julho de 1924 e 22 de Novembro do mesmo ano.

Foi eleito deputado independente por Gouveia, entre 1922 e 1925.
Destacou-se para além das actividades políticas como professor e como legislador.
Foi um legislador foi encarregue de diversos projectos, destacando-se entre eles o que permitiu, em 1926, dar origem à criação da Ordem dos Advogados, o famoso decreto 11715, publicado a 12 de Junho de 1926, quando José Mendes Cabeçadas era chefe de Governo, portanto no início da Ditadura Militar.

A sua produção escrita destacam-se os seguintes títulos:

- Sumário das lições da primeira cadeira de Direito Civil : matérias professadas no ano lectivo de 1913-1914 , s.l., s.d.;
- Sumário das lições do curso de direito internacional público, s.l., s.d.;
- Sumário das matérias professadas no ano lectivo de 1915-1916 : cadeira de direito internacional privado , s.l., s.d.;
- Das doações segundo o Código civil português, Imprensa da Universidade, Coimbra, 1911-1912, 2 vols.
- Das socidades comerciais irregulares : exegese dos artigos 107o do código comercial e 61 da lei de 11 de Abril de 1901, Imprensa da Universidade, Coimbra, 1913 [Dissertação de concurso à Faculdade de Estudos Sociais e de Direito da Univ. de Lisboa, Grupo de Ciências Jurídicas]

Aponta-se também a sua colaboração na revista O Livre Pensamento, de Coimbra, 1905, de que se publicaram apenas dois números. Nesta revista colaboraram também: Lopes de Oliveira, António Granjo, Cândido Guerreiro, Tomás da Fonseca e Aurélio da Costa Ferreira.

A.A.B.M.

domingo, 1 de abril de 2007

BISSAYA-BARRETO: NOTA BREVE



Bissaya-Barreto fez parte da geração de estudantes da Greve Académica de 1907. Frequentava, na altura, o 1º ano da Faculdade de Medicina e foi um dos 160 alunos (chamados Intransigentes) que não renovaram a matrícula para fazer exame.

Eis, sobre ele, uma breve nota:

Fernando Baeta Bissaya Barreto Rosa nasce em Castanheira de Pêra a 29 de Outubro de 1886, filho de Albino Rosa e de Joaquina Baeta Bissaya Barreto. Faz os seus estudos primários em Coimbra, em regime de pensionato, e depois entra para o liceu. Matricula-se, o que era normal na época, em três faculdades - a de medicina, e em Filosofia e Matemáticas Superiores. Refere o próprio Bissaya-Barreto, o seguinte:

"Estudava medicina para satisfazer as tradições de minha família [note-se que o seu pai era farmacêutico e tinha na família vários médicos], a filosofia para me satisfazer a mim próprio, e as matemáticas porque estava persuadido que era engenharia a carreira que me esperava” [in, Bissaya-Barreto, de Pierre Goemaere, 1942]

Na Faculdade de Medicina acaba a licenciatura em 1913, formando-se, anos antes, em Filosofia e Matemática, com excelentes notas. Lecciona, ainda sendo aluno, no Colégio de Coimbra, a disciplina de Ciências Físicas e Biológicas, colaborando na altura com o professor Sidónio Pais, que decerto muito o influenciou.

Em Coimbra, enquanto estudante, foi convicto republicano. Pertenceu, quando frequentava o 4º ano de medicina, ao Comité civil da organização carbonária autónoma de Coimbra, "Carbonária Portugália", em Janeiro de 1910, do qual fazia parte Ramada Curto, Floro Henriques, Emílio Martins, Pestana Júnior, Simões Favas, Júlio da Fonseca, Costa Ramos, Lino Gameiro, Garraio da Silva, entre outros. Ao mesmo tempo, faz parte, em Coimbra, da Loja Revolta (aliás, como todos os do comité de estudantes da Carbonária Portugália) com o nome simbólico Saint Just, tendo atingido o grau 5º do Rito Francês [ver Almanaque da República, 1913 e A.H.Oliveira Marques, Dicionário da Maçonaria Portuguesa, vol. I, Editorial, Delta, Lisboa, 1986]. Participou, como delegado, no Congresso do Partido Republicano, realizado em Coimbra.

Foi Bissaya-Barreto colega de Oliveira Salazar na Universidade, acompanhou-o depois na tertúlia do CADC, e pode dizer-se, tal era a admiração pessoal que tinha por ele, que foi salazarista antes do salazarismo. O ditador soube, mais tarde, agradecer-lhe a atenção dedicada.

Acabada a licenciatura em Medicina, Bissaya-Barreto opta pela vida política, fazendo-se eleger para o círculo eleitoral da Figueira da Foz, para a Constituinte de 1911. Em Lisboa, frequenta a Escola Médica e as aulas do professor e cirurgião Cabeça, ao mesmo tempo que o parlamento. Passado 3 anos regressa a Coimbra, onde faz provas para professor agregado da Faculdade de Medicina, regendo depois a cadeira de "Técnica Cirúrgica" e exerce clínica. Como cirurgião, percorre a província, operando em Vila Real, Guarda, S. Comba Dão, Mealhada, Castanheira de Pêra, Figueira da Foz.

Bissaya-Barreto que fez parte (1932) da Comissão Central da União Nacional [juntamente com Manuel Rodrigues, Armindo Monteiro, Lopes Mateus, e sob chefia de Salazar], foi, ainda, Presidente da Junta da Província da Beira Litoral, procurador à Câmara Corporativa e, ao longo do tempo, teve uma acção no campo social e da saúde pública muito importante. Impulsionou sanatórios, leprosarias, casas da criança, refúgios para velhos, institutos maternais, bairros económicos, campos de férias, colónias balneares, estando à frente da campanha contra a tuberculose, a lepra e a loucura. Mandou fazer a Escola Normal Social e o Portugal dos Pequeninos. Em [26 de Novembro] 1958, criou uma Fundação, em Coimbra, que tem o seu nome, justamente na casa onde habitou. Após o 25 de Abril foi exonerado de todos os seus cargos, morrendo em Lisboa a 16 Setembro de 1974.

Além de artigos em revistas, publicou O Sol em Cirurgia (1915) e Subsídios para a História (1946-1964), em 7 volumes.

J.M.M.

sexta-feira, 30 de março de 2007

PINTO QUARTIN



Nascido na Rua de S. Luís Gonzaga, em S. Cristóvão, Rio de Janeiro, filho de pai português (Bráz Leão Soares Quartin) e mãe brasileira (Guilhermina Augusta Castro Pinto), em 15 de Janeiro de 1887, com o nome completo de António Tomás Pinto Quartin. Foram seus padrinhos de baptismo os Barões de Quartin. Morre, em Lisboa, a 7 de Fevereiro de 1970.

Regressado a Portugal, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra em 1905, onde se encontra em 1907, aquando da Questão Académica. O seu envolvimento nestes acontecimentos provocaram a sua expulsão da Universidade por um ano. Porém, a sua actividade política e a escrita nos jornais não lhe permitiram a continuação dos estudos, pelo que ingressou na vida jornalística.

Inicialmente colabora de forma esporádica no jornal A Vida, que se publicou no Porto, entre 18-03-1905 e 3-07-1910, onde colaboravam também: Manuel Joaquim de Sousa, Alfredo Pimenta, Ângelo Jorge, António de Sousa, Augusto Casimiro, Campos Lima, César Porto, Guilherme de Azevedo, Homem Cristo Filho, João de Barros, Rodrigo Solano e Vaz Passos.

Começa a sua vida como jornalista no jornal O Século, em 1908, onde se torna responsável pela secção "Vida Operária", pouco tempo após funda e dirige O Protesto,de que era proprietário e redactor principal, cujo primeiro número seria publicado em 25 de Julho de 1908 e que termina a publicação em 20- 03-1909.

Chefia também o efémero Amanhã[nº1, 1-06-1909 a nº 6, 15-08-1909], Lisboa, onde colaboram entre outros: António Altavila, Augusto Casimiro, Bento Casimiro, Bento Faria, Coriolano Leite, Emílio Costa, José Bacelar, Manuel Ribeiro e Tomás da Fonseca.

Colaborou também no jornal A Greve, Lisboa, [18-09-1908 a 1917] juntamente com Grácio Ramos onde pontificavam também Teodoro Ribeiro, Fernandes Alves, Trindade Correia, Ladislau Batalha, Augusto César dos Santos, João Pereira, César Nogueira, Teixeira Severino, Eduardo de Abreu, António José de Ávila, Hilário Marques, Jorge Coutinho, João Pedro dos Santos, Manuel Córdoba, Francisco Cristo, José Benedy, Luís Calvet de Magalhães, Deolinda Lopes Vieira [que viria a casar com Pinto Quartin], Rosalina Ferreira e Lucinda Tavares . Este jornal que começou por se publicar diariamente acabou por se transformar em bissemanário e mais tarde em mensário da classe operária.

Em 1911, Pinto Quartin colabora na revista Lúmen, que tinha por editor, Joaquim Madureira, o director era Severino de Carvalho e os colaboradores eram: César Porto, Bernardo Sá, Aráujo Pereira, Adolfo Lima, Jorge Coutinho e Luís da Mota.

Começa a organizar em sua casa, a partir de 1912, reuniões anarquistas onde assistiam Sobral de Campos, Neno Vasco, Aurélio Quintanilha, Mário Costa, Afonso Manaças, Lucinda Tavares, Susana Quintanilha, António Manaças e outros.

Em 1913 reaparece na direccção do semanário anarquista A Aurora, Porto, 10-07-1910 a 29-10-1916, publicaram-se três séries, num total de 54 números. Neste jornal colaboraram: António Alves Pereira, Alfredo Guerra, Maciel Barbosa, João Pinto Coelho, Serafim Cardoso Lucena, Manuel Joaquim de Sousa, Clemente Alves dos Santos.

Casa com Deolinda Lopes Vieira, de quem viria a ter dois filhos: Hélio Vieira Quartin (n. 1916) e Glícinia Vieira Quartin (n. Lisboa,20-12-1924 - fal.Lisboa, 28-4-2006).

Faz parte do jornal Terra Livre, colaboradores: Carlos Rates, Sobral de Campos, António Alves Pereira, Araújo Pereira, Bernardo de Sá, Campos Lima, Clemente Vieira de Campos, Emílio Costa, José Benedy. Este jornal acabou por ser perseguido e apreendido pela "formiga branca".

É preso e expulso do país após a explosão da bomba no dia 10 de Junho de 1913, por um período de dez anos, mas passados dois anos estava de regresso à redacção de O Século (1915). Durante a sua estadia no Brasil (1913-1915)colaborou na revista A Vida, ao lado de José Oiticica e Francisco Viotti. Durante esse período concede uma entrevista ao jornal diário do Rio de Janeiro, A Época, que teve grande repercussão.

Dirige os jornais Ultima Hora, Lisboa, 16-02-1921 a 3-3-1921, onde participaram também Ramiro Barros e Silva e Norberto Lopes; Actualidade.
Colabora ainda na A Aurora, 1917; O Movimento Operário, 29-04-1917 a 09-1918, publicou-se por iniciativa da União Operária Nacional, o editor era Ricardo Malheiro e o director era Alexandre Vieira; A Batalha, 23-02-1919 a 1949 [entre 1934 e 1949 publicou-se clandestinamente], dirigida inicialmente por Alexandre Vieira, com colaboração de: Joaquim Cardoso, Manuel Joaquim de Sousa, Alberto Dias, Carlos José de Sousa, David de Carvalho; A Pátria, Lisboa, 1920; A Tarde, 1923;O Primeiro de Janeiro, Porto [foi chefe da redacção deste jornal em Lisboa]; colaborou ainda no semanário O Diabo, Lisboa, 2-06-1934 a 21-12-1940; O Globo, Lisboa, 2-01-1930 a 20-07-1930.

Como viveu em Angola entre 1930 e 1936 colaborou na imprensa angolana como: A Província de Angola, Luanda, 1930-1936; O Planalto, Nova Lisboa, 1930-1936. Escreveu ainda as seguintes obras:
- Mulheres, s.d., s.l.
- Trezentos Contos (peça de teatro satírica, em 4 quadros), Luanda, 1934.
- A Lenda e o Processo do Estranho Caso Pauling (novela), Luanda, 1935.

Publica em 1908 um folheto intitulado Libertai-Vos!, com a seguinte dedicatória: para que [as mulheres] venham unir-se a esta legião aventureira e audaz que caminha, sofendo e cantando, para um mundo novo exuberante de amor e de justiça, do coração dedica o Autor.

Publicara já anteriormente dois folhetos: Vítimas da Guerra (conto antimilitarista), Lisboa, 1906; Mocidade Vivei!, Clássica Editora, Lisboa, 1907[livro proibido durante o regime salazarista];
Eu e a Questão Universitária, Clássica Editora, s.d.
Falar é semear, s.d.
O Sindicalismo e os Intelectuais, s.d.
Ao Trabalhador Diferente, s.d.

Traduziu ainda obras de Réclus como Ao Meu irmão Camponês, Lisboa 1908;
J. Cuenca, Como Não Ser Anarquista, Lisboa, 1909;
D. Elmassian, Lisboa, 1909.

O espólio de Pinto Quartin, legado à Casa da Imprensa, foi mais tarde depositado no Instituto de Ciências Sociais, no Arquivo de História Social e pode ser consultado online. Nele podem ser encontrados milhares de documentos sobre o movimento sindical e anarquista em Portugal. Para poder analisar os diversos documentos que aí existem deve consultar-se o catálogo da Exposição de Documentos de Pinto Quartin integrado no Seminário "O Movimento Operário em Portugal", organizado pelo Gabinete de Investigações Sociais, com texto de Maria Filomena Mónica, Lisboa, Biblioteca Nacional, 4 a 67 de Maio de 1981.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

Medina, João , Um Semanário Anarquista durante o primeiro governo de Afonso Costa: Terra Livre, Análise Social, GIS, vol. 17, nº 67-68-69,Lisboa,1981.
Oliveira, César de , Antologia da Imprensa Operária Portuguesa, Perspectivas & Realidades, Lisboa, 1984.
Pires, Daniel, Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX (1900-1940), vol I, Grifo, Lisboa, 1986.
Rodrigues, Edgar, A Oposição Libertária em Portugal: 1939-1974, Editora Sementeira, Lisboa, 1982, p. 147-148.
Sá, Victor de, Roteiro da Imprensa Operária e Sindical (1836-1986) ,Caminho, Lisboa, 1991.
Vieira, Alexandre, Para a História do Sindicalismo em Portugal, Seara Nova, Lisboa, 1974.

A.A.B.M.

quarta-feira, 28 de março de 2007

O CENÁCULO DOS INTRANSIGENTES



No prosseguimento da Greve Académica de 1907 em Coimbra, a tentativa de "romper os laços de solidariedade que se estabeleceram, e se mantinham, entre os estudantes de Coimbra e entre estes e os de todas as escolas superiores e técnicas do país" [in História da Greve Académica de 1907, de Alberto Xavier, 1962] foi diversas vezes tentada, sem total êxito. A nomeação do novo reitor da Universidade de Coimbra, D. João de Alarcão, os apelos de vários pais de alunos ["na sua maioria, políticos militantes, e, alguns deles, franquistas", ibidem] para demover os estudantes e a solicitação feita ao próprio Rei, nesse sentido, ele mesmo interessado na resolução do conflito, levou a contemplar diversos mecanismos para que os estudantes desavindos pudessem fazer as suas provas, sem ao mesmo tempo "vexar os professores". Não foi, parece, pacifica entre os lentes, e em especial os da Faculdade de Direito, o processo que permitia "a realização dos actos", o que não obstou a que um Decreto (23 de Maio de 1907) do ministro do Reino determinasse a "reabertura da Universidade para efeitos de exames", mediante algumas condições.

Pretendia-se, dado a ordem a cumprir rigorosamente, que os estudantes regressassem individualmente e "somente nos dias indicados para as provas", para que afastada a presumida "reunião" dos alunos dos "cursos jurídicos", de onde pertenciam os mais intransigentes, se estabelecesse a quebra de "solidariedade" entre os estudantes de Coimbra e entre estes e os do resto do país. Diversos normativos foram publicados para o efeito, quer no que respeita a Coimbra, quer aos cursos de Lisboa e Porto.

Desta forma, em Coimbra, dos "1049" alunos matriculados, "encerraram a matricula 866 alunos", para efeitos de exame. Por decisão do Conselho de Decanos [1 de Abril de 1907] sete alunos tinham sido expulsos e recusaram-se a requerer matrícula [diz-nos Alberto Xavier] 160 alunos [e não 155 como foi na altura registado]. Tais estudantes "que procederam como homens de perfeita responsabilidade, dotados de livre autonomia de vontade, os quais, desinteressada e briosamente, se recusaram a requerer matrícula para efeitos de exames, enquanto os sete camaradas, injustamente expulsos, não fossem restituídos à plenitude dos direitos e regalias universitárias" [idem, ibidem], a opinião publica denomino-os de intransigentes.

Aos intransigentes, a estes alunos, foi dada a ordem de "abandonar Coimbra". Muitos regressaram às suas casas, mas um curioso grupo deles foram "passar o Verão à praia da Figueira da Foz, onde organizaram uma ‘pousada’ denominada dos Intransigentes, na Rua do Melhoramento, 63. Logo de início os comensais eram

Alfredo Pimenta, Alfredo França, M. Monteiro, Pestana Júnior, Justino Campos, Teixeira Jardim, Sant'Ana Leite, e Parreira da Rocha. Outros apareceram a aumentar o número" [ibidem]

Diz-nos, ainda, Alberto Xavier, citando o jornal O Século de 14 de Junho, desse ano:

"O 'Cenáculo dos Intransigentes', instalado na Figueira da Foz, continua sendo o ponto de reunião de todos os estudantes que não encerram matrícula na Universidade. Aquela agremiação académica tem já um hino próprio, denominado charge aos furadores da greve, e que se vai tornando popular, por os estudantes o cantarem, em grupos, pelas ruas, nas proximidades do cenáculo. O autor do hino foi o maestro Dias Costa

J.M.M.

sábado, 24 de março de 2007

AINDA ... BERNARDINO MACHADO


«A greve académica de 1907, cujo ponto de partida foi a acintosa reprovação do Dr. José Eugénio Ferreira no acto de doutoramento em Direito, revestiu significado politico evidente, tanto mais que se tratava de uma personalidade em evidência no Partido Republicano de Coimbra. Todavia, foi o carácter afrontoso, e contrario a todas as práticas, dessa reprovação de um licenciado que desencadeou na Universidade uma situação insurreccional que não tardaria a alastrar à demais escolas superiores e liceus do país.

Bernardino Machado, na inauguração do Centro Eleitoral de Belém, em Março desse ano, não apenas dá a cobertura moral do seu imenso prestigio às revindicações estudantis como declara que, se algum estudante fosse, "como caudilho desse honroso movimento, expulso das aulas por um arcaico e falso critério disciplinar ele as considerará também para si fechadas"
Poucos dias depois, retomará no Centro Democrático de Lisboa o tema da disciplina académica que já versava em 1885. A defesa dos estudantes é acompanhada de censuras não menos firmes à Universidade ao seu imobilismo.

O Governo de João Franco diligencia junto do Reitor Santos Viegas no sentido de Bernardino Machado ser objecto de processo. Inteirado de que tal pretensão se não concretizaria, pede a exoneração de lente catedrático por ofício datado de 16 de Abril de 1907 mas remetido alguns dias depois.

Posteriormente, em Junho, numa entrevista concedida a Mayer Garção para o jornal "O Mundo", Bernardino Machado inserirá com extrema lucidez a questão universitária e as medidas repressivas governamentais no processo ditatorial de João Franco.

O pedido de demissão de Bernardino Maçado e o apoio incondicional prestado aos estudantes durante toda a crise académica provocaram a maior emoção em todo o País. Além da homenagem pública que lhe seria prestada em Julho desse ano, existem vários documentos epistolares altamente significativos, entre os quais um soneto, ao que supomos inédito, de Angelina Vidal.

Entre as reacções mais significativas inclui-se, decerto, o de um dos sete estudantes expulsos, Campos Lima, dada à estampa no "País" sob o título de A lógica dos factos. Caracterizando o que poderíamos chamar "a ilusão reformista" de Bernardino Machado em relação à Universidade, a sua aposta numa "corrente nova de lentes" que levariam por diante uma reforma radical da instituição, Campos Lima [que, ao que parece, mantinha curiosos debates com Bernardino Machado, que lhe publica, via 'Instituto', e a pedido do prof. Marnoco e Sousa, a sua tese de dissertação, 'O Movimento Operário em Portugal'] aditava:

Aquando da sua oração de sapiência já alguma coisa devia ter-lhe levado ao espírito o convencimento de que a Universidade não se modificava com palavras de amor, se o espírito desse homem não fosse de uma grande generosidade, que é o seu maior defeito. O conflito académico, em cujas responsabilidades uma manifesta má vontade dos dirigentes o ia envolvendo, sem que a Universidade pela pessoa dos seus lentes se erguesse num protesto, como a Academia o fez para connosco, os estudantes expulsos, deve ter-lhe feito ver claro a respeito das belezas daquele armazém de sábios sem ciência'

A exoneração de Bernardino Machado marca de facto o termo das tentativas de reestruturação da Universidade a partir de um conjunto de pressões endógenas»

[Rogério Fernandes, in Bernardino Machado e os problemas da Instrução Pública, Livros Horizonte, 1985 - sublinhados nossos]

J.M.M.

sexta-feira, 23 de março de 2007

A QUESTÃO DA UNIVERSIDADE - A POSIÇÃO DE BERNARDINO MACHADO


Agradecendo a mensagem enviada pelo nosso leitor, vimos esclarecer que ainda não foi possível abordar a questão da posição dos vários professores da Universidade perante o conflito. Porém, é nossa intenção tratar também esta temática nos próximos dias, porque a bibliografia sobre este assunto ainda continua por explorar.

No caso de Bernardino Machado, conhecemos as obras que nos refere, mas até agora não foi possível utilizá-las pois não as possuimos nas nossas "pequenas" bibliotecas pessoais.

Mas recordamos a propósito o que ele próprio afirmava em 1907:

Os agravos que, num momento passageiro de exaltação mútua, um ou outro estudante cometeu, mas toda a academia, logo reunida em assembleia geral, repudiou, indo dar deles satisfação, castiguem-nos, se não têm grandeza de alma para os perdoar. Mas castiguem, sujeitando-os ao fôro comum, em conformidade com o código penal, que desde 1885, dispõe sobre a matéria, e não ao fôro universitário, que, por falta de garantias para a defesa, desde que deixe de ser paternal, converte-se em inquisitorial. Nem sirva de enbaraço o decreto de 1839 sobre disciplina académica, porque outro decreto ou uma lei o derroga. O que seria incrível é que a Universidade que ensina o direito, o não praticasse. Castiguem, muito embora, se crêem mais na eficácia do rigor do que da bondade. [apud Bernardino Machado, A Universidade de Coimbra, 1908, p. 306-307 in Angelo Vaz, Bernardino Machado. Sentimentos, Ideias e Factos do seu Tempo, Ed. do Autor, Porto,1950, p. 89]

Fica clara, desde aqui, a posição deste ilustre professor da Universidade, que assume a defesa dos estudantes, mas sobretudo a importância de não os julgar pelo fôro académico, mas de acordo com o Código Penal então vigente. Outros professores tomaram posição na defesa dos estudantes, mas a atitude daquele que viria a ser Presidente da República foi extremamente importante no contexto da época, até porque era uma figura muito conhecida e respeitada, mesmo nos meios monárquicos, porque já tinha feito parte de governos regeneradores.

Renovamos os nossos agradecimentos pela informação bibliográfica e pela atenção que nos dispensa.

[foto in Arquivo Fotográfico de Lisboa]

A.A.B.M.

terça-feira, 20 de março de 2007

ACADÉMICOS DE COIMBRA



Académicos de Coimbra nos jardins do Ateneu Comercial - foto de Carlos Alberto Lima, in Arquivo Fotográfico.

J.M.M.

sábado, 17 de março de 2007

JARDIM DO ATENEU COMERCIAL DE LISBOA - MARÇO 1907



Foto da Conferência de Teófilo Braga, no Jardim do Ateneu Comercial de Lisboa, durante a crise académica [in Ilustração Portuguesa, Março 1907]

J.M.M.