
Inspirada e tutelada por
Martinho Nobre de Melo [
1891-1985, ministro da Justiça de Sidónio Pais, prof. de Direito, embaixador e director do Diário Popular], a
Cruzada Nun’Álvares contará nas suas fileiras com personalidades tão diferentes entre si como os cruzados
Abel de Andrade, Afonso Lopes Vieira (
monárquico integralista e autor da letra da "Canção da Reconquista"), Afonso Lucas, Afonso Miranda (
da Vanguarda Nacional, 1936), Alberto Pinheiro Torres (
no Porto), Alfredo Pinto Sacavém (
Lisboa), Almeida d’Eça, Anselmo de Andrade, Anselmo Braamcamp Freire (
foi presidente da Direcção Geral em 1921), Antero de Figueiredo (
no Porto), António Bivar de Sousa, António Homem de Gouveia (
no Funchal), António Pereira de Matos (
presidente), António Teixeira Lopes (
escultor), Armindo Monteiro (
Vice-presidente), Assis Gonçalves (
secretário de Salazar e antigo vogal da Cruzada), Beleza dos Santos (
em Coimbra), Caeiro da Mata, Canto e Castro, Carlos Malheiro Dias, Costa Lobo (
foi presidente), Cunha e Costa, Egas Moniz, Farinha Beirão (
general), Ferreira do Amaral, Filomeno da Câmara, Fortunato de Almeida (
em Coimbra), Gomes da Costa, Gonçalves Cerejeira (
em Coimbra), Henrique Trindade Coelho (fundador e um dos seus principais obreiros), Hermano José de Medeiros (
Unionista), Hipólito Raposo (
da sua Junta Consultiva), Jacinto Nunes, João de Barros, João de Castro Osório, João de Deus Ramos, José Alberto dos Reis, José Nunes da Ponte (no Porto), José Pereira de Sousa (
nacional-sindicalista), Manuel Rodrigues (
Vice-presidente), Mário Pessoa da Costa (
Estremoz), Oliveira Salazar (
pertenceu à distrital de Coimbra), Óscar Carmona, Pacheco de Amorim, Pequito Rebelo (
presidente), Pinto Coelho, Schiappa de Azevedo, Sidónio Pais (
membro honorário), Tamagnini Barbosa, Tomas de Mello Breyner,
Zuzarte de Mendonça (
fundador), entre muitos outros –
ler uma análise detalhada da sua estrutura dirigente, e ao longo das diferentes fases da organização,
AQUI]
Percorrendo diversas fases na sua expansão, a
Cruzada Nun’Álvares, vai conseguindo uma
ampla convergência entre republicanos e monárquicos, tornando-se numa poderosa organização
elitista conservadora, em que a palavra de ordem era o velho ideário de "
ressurgimento nacional" [
lema muito antes enunciado pelo Congresso Nacional – incentivo à intervenção cívica das elites sociais para superar a crise. De referir que este "intervencionismo elitista" não é, como bem refere Miguel Dias Santos (“A Contra Revolução na I República”), um exclusivo do pensamento indígena, podendo encontrar-se em pensadores tão diferentes como Tocqueville, Spengler, Maurras ou Schmitt - promovido pela Liga Naval Portuguesa, em 1910, e posteriormente avançado pela União Patriótica (1913, promovida por Lino Neto, Pereira de Matos, Costa lobo, entre outros), pela Liga Nacional (1915-18, com Aires de Ornelas, Luís de Magalhães, adeptos da “democracia aristocrática” e do “governo de competências”), Liga de Acção Nacional (1918-19, onde pontificavam António Sérgio e Ezequiel de Campos), depois pela Cruzada Nuno Álvares, pelo Núcleo de Ressurgimento Nacional, pela União Cívica ou, mais tarde, pela própria União Nacional – ver Ernesto Castro Leal, ibid].
O
ódio à democracia [“
essa enfermidade do século”], o esquecimento da “
soberania divina” e os “
deveres para com Deus”, a defesa da “
tradição” [
tradição providencialista] e da “
raça” ou o “
regionalismo” fizeram escola entre os
movimentos católicos [
em especial o Centro Católico], os
integralistas e (
neo)monárquicos [
atente-se em José Fernando de Sousa (Nemo), Pacheco de Amorim, Pinheiro Torres, Pinto Coelho, Luís de Magalhães, Aires de Ornelas, Alfredo Pimenta, Cunha e Costa, António Sardinha, Almeida Braga, Caetano Beirão, Homem Cristo Filho, Vasco de Carvalho, João de Almeida, Paiva Couceiro, Azevedo Coutinho ou Sinel de Cordes – ver Miguel Dias Santos, op. cit.] e, deste modo, o
pensamento antimoderno assim espargido faz ressuscitar os teóricos da contra-revolução [
Marquês de Penalva, padre Agostinho de Macedo, Fortunato de S. Boaventura, José da Gama e Castro, por exemplo], trazendo consigo o
reforço do autoritarismo, a
opção ditatorial e a
propaganda do fascismo.
A
Cruzada Nun’Álvares foi, sem margem para dúvidas, um desses pólos aglutinadores da construção ideológica autoritária e fascista do Estado Novo. Dela se ocupou
Raul Proença (já a partir de 1921 e até 1926), que nas páginas da revista
Seara Nova antecipadamente (e solitariamente) a combate [”
O Manifesto da Cruzada Nun’Álvares",
de 4/5 Dezembro 1921; “
O Fascismo e as suas repercussões em Portugal”,
de 6 de Março 1926; “
O Fascismo”,
artigo de 15 de Abril 1926; ou “Uma apologia do Fascismo”,
datado de 13 de Maio desse ano], polemizando com os “
nacionalistas fascizantes”
Filomeno da Câmara,
Trindade Coelho e
Martinho Nobre de Melo, que lhe responderam no
Diário da Manhã [
Trindade Coelho,
Resposta ao sr. Raul Proença, de 13 Dezembro de 1921] e na
Reconquista [ver p. ex.
Martinho Nobre de Melo, O
sr. Raul Proença e as minhas ideias, nº1; ou O Antifascismo de Raul Proença. Crocodilos Humanitários, nº5], entrando curiosamente na polémica o inefável monárquico integralista
Leão Ramos Ascensão ao publicar o opúsculo “
O Fascismo e o Anti-Fascismo e a Monarquia Hereditária” (Coimbra, 1926), onde
Raul Proença é apodado de “
enraivecido adversário do fascismo” [
ver sobre todo este assunto, João Medina, Os Primeiros Fascistas Portugueses, separata da Vértice, Coimbra, 1978].
FOTO: "Delegados da Confederação Académica e da Cruzada Nuno Álvares, com o sr. presidente da República",
em 24 de Março de 1927 - viaTorre do Tombo.
[
a continuar]
J.M.M.