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segunda-feira, 2 de abril de 2018

O SÉCULO XX EM REVISTA(S)



O Século XX em Revista(s)” – por Luís Miguel Queirós, in Jornal “Público
As quatro principais revistas históricas do movimento anarco-sindicalista português juntam-se este sábado a outras importantes publicações já colocadas online pelo portal Revistas de Ideias e Cultura, uma gigantesca base de dados que abre à navegação digital aquelas que foram as grandes montras culturais do século XX.
As duas séries d’A Sementeira (1908-19), a Germinal (1916-17), o suplemento d’A Batalha (1923-27) e a Renovação (1925-26), quatro revistas fundamentais para a história da disseminação do ideário anarquista e do desenvolvimento do movimento anarco-sindicalista português ao longo das primeiras décadas do século XX, já podem ser integralmente consultadas e pesquisadas online. É a mais recente expansão do portal Revistas de Ideias e Cultura (RIC), um ambicioso projecto dirigido por Luís Andrade e desenvolvido pelo Seminário de História das Ideias do Centro de Humanidades da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em parceria com a Biblioteca Nacional e a Fundação Mário Soares.
O objectivo, explica Luís Andrade, professor de Filosofia da Universidade Nova, é “fazer o mapeamento da cultura portuguesa do século XX a partir da análise sistemática do conteúdo das revistas tidas por mais significativas”.
Mais do que um arquivo digital, o RIC é uma base de dados dotada de sofisticadas ferramentas de pesquisa e que permite ao leitor ou investigador não apenas aceder ao conteúdo integral das diferentes publicações, mas também consultá-lo a partir de uma série de critérios que podem cruzar-se numa mesma busca e que incluem índices de autores (quer de textos, quer de ilustrações), conceitos (por exemplo, anarquismo), assuntos (por exemplo, I Guerra Mundial), nomes citados (distinguindo os singulares e os colectivos), obras citadas ou nomes geográficos.


Suponhamos que o leitor está interessado em textos que abordem a I Guerra Mundial: se fizer uma pesquisa geral no portal, encontrará 2153 artigos, distribuídos por várias revistas, que incluem quer as publicações anarquistas já referidas, quer outras como A Águia, a Seara Nova ou a Atlântida, para citar apenas algumas. Mas também pode pesquisar o mesmo assunto apenas numa revista específica, ou cruzá-lo com outros critérios. E se a Grande Guerra é um assunto de que naturalmente trataram todas as publicações da época, se procurar um tópico bastante menos óbvio, como, digamos, o haxixe, descobrirá com provável surpresa que Sampaio Bruno discorreu sobre esta substância num artigo intitulado O Tabaco… em Heródoto, publicado em 1913 n’A Águia.


(…) Com uma pequena equipa permanente – que inclui, além do seu coordenador, um editor executivo, um documentalista, um informático, uma analista de dados estatísticos e uma webdesigner –, mas contando com o auxílio de investigadores especializados para cada uma das revistas a publicar, a estratégia do portal tem sido a de se focar em sucessivos movimentos culturais ou ideológicos para dar prioridade às principais revistas que lhes estão associadas. Antes de se debruçar sobre as publicações anarquistas, o site já disponibilizara online as revistas relacionadas com o movimento cultural da Renascença Portuguesa, como a Nova Silva, A Águia ou A Vida Portuguesa, ou ainda as principais publicações associadas ao primeiro modernismo, como Orpheu, Portugal Futurista, Sphinx, Exílio, Centauro e Eh Real!.
E por vezes não se trata apenas de poupar aos investigadores, ou a simples curiosos, muitas horas a preencher pedidos em bibliotecas. Alguns dos números agora digitalizados e consultáveis estão em falta nas várias bibliotecas públicas. Exemplo disso mesmo é a célebre e raríssima edição 11/12 da 4.ª série d’A Águia, de 1929, que foi apreendida ainda na tipografia porque denunciava um plágio de Gustavo Cordeiro Ramos, ministro da Instrução Pública em sucessivos governos da ditadura militar e no início do Estado Novo. “Só está representado na Biblioteca Nacional por um postal onde se informa que este número não foi posto à venda por motivos imprevistos”, diz Luís Andrade.


Outra façanha de monta deste portal foi a digitalização integral da Seara Nova, abarcando todas as suas (muito) diversas fases, desde a fundação, em 1921, até 1984, num total de 1604 números, correspondentes a 31.500 páginas e a cerca de 21.500 peças de mais de três mil autores.
Para cada uma das revistas publicadas, o interessado encontra não apenas a reprodução digital de todos os números, mas também apresentações que procuram caracterizá-la e situá-la no seu contexto histórico, secções que reúnem os seus manifestos e outros textos de dimensão programática, uma antologia de literatura passiva sobre a publicação em causa e alguns estudos reproduzidos em texto integral.
Há também uma secção autónoma dedicada às polémicas, um modo de discussão pública aliás muito característico das revistas, e que só por aproximação corresponde àquilo a que hoje se chama uma polémica na imprensa ou nas redes sociais. Luís Andrade recorda, por exemplo, a famosa controvérsia entre António Sérgio e Pascoaes, nas páginas d’A Águia, a propósito do saudosismo, ou “a discussão entre Álvaro Cunhal e José Régio acerca do significado social da literatura”, na Seara Nova. Mas também nas revistas anarquistas agora digitalizadas se encontram polémicas, designadamente as que ilustram o confronto de posições perante a Grande Guerra ou a Revolução de Outubro.
A barra de navegação inclui ainda um “magasin”, que joga foneticamente com “magazine” (revista), mas que aqui alude mais a um tipo de armazém comercial ecléctico, onde se vende um pouco de tudo. É nesta secção que se acumulam todos os materiais que, não pertencendo formalmente às revistas em causa, a elas estão directamente ligados, como as separatas, ou que permitem conhecer melhor a respectiva história, como a correspondência travada entre os seus fundadores, testemunhos diversos e outros documentos. No magasinda Seara Nova é possível encontrar, salienta Luís Andrade, “vários dossiers do seu arquivo editorial, até agora inéditos”.
Obra em aberto e em constante expansão, o portal anuncia já também na sua homepage os vários títulos que deverão ficar disponíveis ainda este ano e que incluem a magnífica Contemporânea, dirigida por José Pacheko entre 1922 e 1926, com um primeiro número isolado saído em 1915. Ilustrada por artistas como Almada Negreiros, Stuart Carvalhais, Eduardo Viana ou Dórdio Gomes, contou entre os seus colaboradores literários com nomes como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro ou Aquilino Ribeiro
Outra importante publicação prometida para este ano é O Tempo e o Modo, fundada em 1963 por um grupo de católicos progressistas como Alçada Baptista, Bénard da Costa, Pedro Tamen ou Nuno de Bragança. Está ainda prevista a digitalização de Alma Nacional, uma revista republicana lançada literalmente nas vésperas da queda da monarquia, e de outras publicações do início do século XX, como Dionysos, dirigida em Coimbra por Aarão de Lacerda, ou A Renascença, de Lisboa. Sol Nascente, dos anos 30, ligada ao neo-realismo, e a mais recente Raiz e Utopia, já do pós-25 de Abril, são outros títulos previstos para 2018. E o Revista de Ideias e Cultura pretende começar a apostar também em publicações com motivações mais específicas, como a revista feminista Sociedade Futura, dirigida por Ana de Castro Osório, ou A Construção Moderna, que considera “uma peça fundamental da cultura arquitectónica e urbana das duas primeiras décadas do século XX”.
Já a decisão de criar estes quatro novos sites agora consagrados às revistas anarquistas ficou também a dever-se ao desejo de “repor a memória de uma das correntes principais do pensamento e da intervenção social do século XX, remetida ao esquecimento de forma pouco inocente após a revolta da Marinha Grande de 18 de Janeiro de 1934”, diz Luís Andrade, numa provável alusão ao modo como o PCP veio a reescrever a história desse levantamento, que acabaria por marcar o fim da predominância do anarco-sindicalismo no movimento operário.
Mas não só os que se interessam pelo anarquismo terão boas razões para consultar estas revistas. Uma rápida consulta aos dados estatísticos que acompanham, em secção própria, cada um destes títulos, permite verificar, por exemplo, que os apreciadores de Ferreira de Castro encontrarão aqui nada menos do que 181 artigos dispersos assinados pelo romancista, a maior parte no suplemento d’A Batalha, mas também na Renovação. E os apaixonados pela ilustração podem deliciar-se com as dezenas de trabalhos criados para as mesmas revistas por Stuart Carvalhais ou pelo notável Roberto Nobre, que acumulava as artes gráficas com a crítica de cinema.
Estes levantamentos de ocorrências estão também cheios de surpresas: quem diria, por exemplo, que o nome mais citado nas duas já referidas revistas da Confederação Geral do Trabalho é o de Jesus Cristo, ou que a obra mais citada n’A Águia foi a revista Mercure de France? Mas estes resultados imprevistos, se podem ser mais ou menos anedóticos, ou ter explicações prosaicas, também “fornecem a informação necessária quer para testar as leituras correntemente aceites, quer para suscitar interrogações até hoje não formuladas” sobre estas revistas e movimentos, observa Luís Andrade. O que torna este portal uma ferramenta doravante indispensável para quem queira estudar umas e outros.
O Século XX em Revista(s) – por Luís Miguel Queirós, Jornal Público, 31 de Março de 2018, pp. 24/25 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

PARIS SEMPRE [NO REGRESSO DE JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS]


Paris Sempre” – por António Valdemar, in Caderno E, revista do Expresso
A França constituiu o paradigma cultural de várias gerações de artistas, escritores, cientistas e políticos portugueses. Muitos jovens, na primeira e segunda década do século XX, dirigiram-se para Paris. Uns, formados nas Escolas de Belas-Artes de Lisboa e do Porto e a usufruir de bolsas de estudo; outros, a beneficiar da generosidade de mecenas; outros, a receber mesadas das famílias; outros, ainda, à sua própria custa. Foi este o caso de Almada Negreiros, durante pouco mais de um ano. Repleto de contrariedades incidentes.
Antes, porém, da viagem que lhe permitiu um contacto direto com artistas, galerias e a realidade quotidiana de Paris e outras cidades, José de Almada Negreiros já se considerava fruto da irradiação da cultura francesa. A 16 de novembro de 1917, em “A Engomadeira”, uma das mais prodigiosas ficções da língua portuguesa, Almada Negreiros afirmou, ao concluir a dedicatória a José Pacheko, numa carta prefácio:

“Escuso de repetir-me neste assunto que o nosso Mário de Sá-Carneiro sabia tão justamente classificar:
— Nós três somos de Paris!
E somos. Temos esta elegância, esta devoção, este farol da Fé”.
A correspondência de Mário de Sá-Carneiro para Fernando Pessoa refere, em 1914, em 1915 e em 1916, projetos de viagens de Almada a Paris. Queria viver por dentro a viragem introduzida no desenho, na pintura, na escultura, na literatura, no teatro, na dança, no bailado e outras áreas, não apenas por franceses mas personalidades originárias de países diferentes, tais como Picasso, Brancusi, Modigliani, Chagall, Apollinaire ou Blaise Cendrars.

Numa carta a Pessoa, Sá-Carneiro, conhecedor da energia revolucionária de Almada, manifestava o desejo de o ter, a seu lado, em Paris. Estava bastante só. (Cinquenta anos depois, Almada definiu esse isolamento e angústia, num desenho, que também viria a inspirar Lagoa Henriques no monumento a Pessoa no Chiado...). Sá-Carneiro sentava-se horas e horas no café, a ver passar as horas. Emergia o tédio e o mal-estar. Despertava obsessões que o conduziram, dia após dia, ao suicídio.
“Seria muito agradável” — escreveu Sá-Carneiro — “ver aqui Almada, quanto mais não fosse para fazer escândalo nos cafés”. A virulência torrencial de “A Cena do Ódio” de Almada destinada ao “Orpheu 3” invadiu e empolgou Sá-Carneiro que não hesitou em reconhecê-la como “soberba”. Pessoa já classificara Almada de “homem de génio. Ele é mais novo do que os outros, não só em idade como também em espontaneidade e efervescência. Possui uma personalidade muito distinta — para admirar é que a tivesse adquirido tão cedo”.
DELAUNAYS E BAILADOS RUSSOS
Desde junho de 1915 a janeiro de 1917, instalaram-se em Portugal Sonia e Robert Delaunay, a fugirem à guerra. Também o pintor russo Daniel Rossiné e o pintor americano Samuel Halpert. A eles se juntaram Amadeo de Souza-Cardoso, Eduardo Viana, Pacheko e Almada. Pretenderam formar a Corporation Nouvelle, incluindo Apollinaire e Blaise Cendrars, para “expositions mouvantes” e outras ações culturais. O objetivo não se realizou. No entanto, permitiu um convívio estimulante em torno das estéticas da vanguarda. Vivendo cá, Almada sabia o que se passava em Paris. Os textos que inseriu no “Portugal Futurista” refletem o domínio que já possuía da cultura europeia contemporânea.
Intensificou essa amplitude, na relação pessoal, em Lisboa, com Serguei Diaguilev e Massine, seu coreógrafo e bailarino, quando a companhia dos Bailados Russos se deslocou a Portugal, em fins de 1917 e princípios de 1918, no auge da revolução de Sidónio Pais. A propósito deste acontecimento memorável, Almada lançou um manifesto com aplausos exuberantes e realizou um conjunto de desenhos de figuras e cenas dos espetáculos que decorreram no Coliseu dos Recreios e no Teatro de São Carlos. Foram publicados na revista “Atlântico”. Para “O Século da Noite”, Jorge Barradas fez, com o seu estilo, outra série de desenhos. Quase 50 anos depois, quer Almada quer Barradas, evocaram-me — ainda fascinados — o impacto dos Bailados Russos na arte e na literatura portuguesas.
Estes dois acontecimentos, o contacto com os Delaunays e a vinda dos Bailados Russos a Portugal, trouxeram a Almada o universo de Paris.
CONCRETIZAÇÃO DO DESEJO
A concretização do desejo de ir a Paris só ocorrerá de janeiro de 1919 até abril de 1920. Recusou-se, então, a procurar o pai, o jornalista António Lobo de Almada Negreiros, que se radicara, definitivamente, em 1900, em França para organizar o Pavilhão das Colónias Portuguesas, na Exposição Universal de Paris. Depois ficou como correspondente de “O Século”. Falecera a mulher, em 1896, com 24 anos, em São Tomé, quando esperava um terceiro filho. Casou-se com uma francesa. Almada e um irmão mais novo foram internados dez anos no Colégio de Campolide dos Jesuítas. Concluídos os estudos secundários, ficou entregue ao seu destino. Visitava, de vez em quando, os avós e tios maternos que moravam, em Lisboa, na Rua Castilho e tinham casa em Cascais. Pai e filho, após longa ausência, só se viram e falaram uma única vez, em Sevilha. Almada ganhara o 1º Prémio do cartaz da representação portuguesa naquela exposição. O pai estava como jornalista. “Havia muita gente à volta. Limitaram-se a muito poucas palavras” — contou-me Jorge Barradas — “alta tensão recíproca”.
Almada enfrentou inúmeras dificuldades, apesar dos amigos disponíveis para o ajudar nos momentos maus e no acolhimento quotidiano. “Os amigos pela vida fora” — disse-me — “valem mais do que uma universidade”. Sem meios de fortuna, vivendo de ilustrações em jornais, da realização de cartazes e outras situações precárias, habituou-se, muitos anos, à dura experiência dos quartos de aluguer.
HOMEM CRISTO FILHO
Ao permanecer em França, em Paris, Biarritz e outras cidades, Almada trabalhou como bailarino de salão e empregado de armazém. Teve, contudo, apoios de Francisco Homem Cristo (1892-1928), o admirado e detestado jornalista, filho de Homem Cristo, o implacável panfletário que tanto era contra a monarquia e a República, e bisavô de Guy-Manuel de Homem-Christo, do duo de música eletrónica francês Daft Punk.
Em Paris e em Lisboa, Homem Cristo Filho desenvolveu intensa conspiração monárquica. Esteve ligado ao jornal “Autorité”, dos irmãos Cassagnac, porta-voz da extrema-direita, numa França ainda eletrizada pelo caso Dreyfus. Escrevia artigos de combate, ora com o seu nome, com as iniciais HCF, ora com os pseudónimos Alithinos e Libertador. Assumirá protagonismo político no consulado de Sidónio Pais. Pertencerá, em Itália, ao círculo íntimo de Mussolini e contribuiu para a construção do fascismo, com o livro “Mussolini Bâtisseur d’Avenir” que obteve projeção internacional. Ao falecer, a caminho de Roma, num desastre de automóvel, Mussolini ordenou honras fúnebres a Homem Cristo Filho (in Miguel Castelo Branco, “Homem Cristo Filho — Do Anarquismo ao Fascismo”, edição Nova Arrancada, 2001).
Homem Cristo Filho privou com artistas e intelectuais que participaram na aventura do modernismo. Almada trabalhou na revista “Ideia Nacional”, da qual Homem Cristo Filho era diretor. Era uma publicação monárquica e bissemanal. O primeiro número tem a data de 18 de março de 1915. Foi suspensa, pouco depois, devido à grave crise política que depôs a ditadura de Pimenta de Castro. Reaparecerá a 4 de abril de 1916 e vai prosseguir até 15 de junho de 1916. A orientação artística é de José Pacheko, autor da capa do “Orpheu 1”.
A GRANDE AFRONTA
Almada já se comprometera como diretor artístico do “Papagaio Real”, revista satírica, ilustrada por modernistas, em oposição frontal não só à estética de Bordalo e seus epígonos, mas fundamentalmente à República e aos republicanos, aos chefes dos três partidos — António José de Almeida, Partido Evolucionista; Brito Camacho, Partido Unionista; e, sobretudo, Afonso Costa, Partido Democrático. Também já ilustrara “Republicaníadas”, um verrinoso panfleto monárquico, em verso, subscrito por Marco António, pseudónimo de António Correia Pinto de Almeida.
Se a presença de Almada no primeiro número do “Orpheu” não provocou a controvérsia suscitada por Fernando Pessoa/Álvaro de Campos e Mário de Sá-Carneiro, uma das colaborações de Almada para a “Ideia Nacional” desencadeou forte polémica nos sectores religiosos e políticos. Foi quando desenhou a capa da edição de 20 de abril de 1916 — “Semana Sancta”, ao representar, no auge das celebrações da Quaresma, um Cristo verde, esquálido, sem rosto. E sem lágrimas.
Acossado por católicos e monárquicos, a reagirem à blasfémia onde menos esperavam, numa revista que subsidiavam para combater uma República jacobina e ateia que atacava a Igreja, desterrava o cardeal-patriarca e outros bispos, agredia padres, boicotando atos de culto, Homem Cristo Filho resolveu intervir no debate. Procurou separar-se dos modernistas. Apontou-os como “novos arautos da Anarquia”, “iconoclastas impenitentes sem Fé nem Pátria”.
Perante estas acusações, José Pacheko, em carta para o pintor Eduardo Viana, classificou-as como “tudo quanto há de mais intransigente sobre a arte moderna”; e Almada Negreiros, em carta a Sonia Delaunay disse, muito indignado, que se afastava da Ideia Nacional”. Acentuou, perentoriamente: “Je suis sorti de cette chose ignoble”. Saí desta coisa ignóbil.
Contudo, a relação de Almada Negreiros e Homem Cristo Filho caracterizou-se por distanciamentos e aproximações. Ao ir para França, em 1919, voltou a ligar-se a Homem Cristo Filho. Tanto mais que ele tivera com o pai de Almada um conflito de grande repercussão e que terminou num duelo. “Almada (pai) assestou um golpe, ferindo-o no antebraço e no cotovelo”. O embaixador João Chagas exigiu a expulsão de Homem Cristo. A imprensa francesa impediu (in Miguel Castelo Branco, idem).
 
RELAÇÃO ATRIBULADA
José de Almada Negreiros convergia em muitas opções ideológicas com Homem Cristo Filho. Ambos coincidiam na exautoração da maçonaria e dos judeus por serem “forças do cosmopolitismo apátrida, contra os fundamentos da civilização cristã e ocidental, que teria nas pátrias, na religião católica e na família tradicional os seus alicerces mais sólidos”. Ambos dividiam Portugal entre os ‘homens dignos’ e os ‘bandidos’. Este critério derivava, aliás, de Homem Cristo Pai que rotulava,por exemplo, António José de Almeida de “pulha de bem” (in Miguel Castelo Branco, ibidem).
Provocador incorrigível, com um sentido inveterado do risco e da aventura, Homem Cristo Filho fazia vida faustosa. Morava na Rue Royalle. Sá-Carneiro, numa carta a Pessoa pormenorizou: “Vive em casa atapetada, com telefone, chaufage central e cigarros de luxo. (...) Ergue-se na verdade em Europa, essa figura do Homem Cristo Filho, nascido em Aveiro!”. Tinha um salão que recebia com aparato personalidades políticas e literárias de nomeada. Uma delas, o escritor Maurice Barrès, nacionalista integral. Este ambiente confortável, opulento, sensual, gastronomia requintada, vinhos e champanhes dos melhores, mulheres sedutoras e a imaginação magnética do anfitrião, cativaram Almada Negreiros. Declarou-se rendido: “As circunstâncias fizeram-me o maior amigo do Homem Cristo Filho” (in “Escritor nº 2”, APE, 1993).
Deixou-se envolver e agarrar nos projetos e guerrilhas de Homem Cristo Filho, conforme se verifica em duas cartas, de 13 e 15 de setembro de 1916, enviadas ao poeta e advogado Acácio Leitão a solicitar-lhe, e com a máxima urgência, seis mil francos. O empréstimo destinava-se a encerrar um negócio de Homem Cristo Filho e José de Almada Negreiros e que implicava, na outra parte, o advogado e professor universitário Martinho Nobre de Melo (1891-1985) e o banqueiro José Espírito Santo (1895-1968), gerente em Paris e filho do fundador do clã Espírito Santo, e que também dava “apoio moral”. (in “Escritor”, idem)
O ARRASO A MARTINHO
Martinho Nobre de Melo (diretor do “Diário Popular” de 1958 até 27 de abril de 1974), natural de Cabo Verde, era, na época, o mais jovem catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa. Tinha sido, aos 26 anos, ministro da Justiça, no consulado de Sidónio Pais. Almada e Martinho conheciam-se desde a revista “Sátira”, antecâmara dos Salões dos Humoristas, efetuados, em 1912 e 1913, no Grémio Literário. Martinho andara na roda do “Orpheu”. Fora colega de liceu de Alfredo Guisado e depois seu professor na Faculdade de Direito. Publicara o livro “Ritmos do Amor e do Silêncio” (que Vitorino Nemésio enalteceu no “Jornal do Observador”). Colaborara na “Exílio”, com Pessoa, Alfredo Guisado, Cortes Rodrigues e António Ferro, uma revista, como a “Centauro”, entre o “Orpheu” e o “Portugal Futurista”.
Também se encontrava associado aos primórdios da dança e bailado em Portugal, promovidos por Helena Castelo Melhor e ativa participação de Almada Negreiros. O bailado “Princesa de Sapatos de Ferro”, representado em 1918, no Teatro de São Carlos, baseava-se num poema de Martinho Nobre de Melo. Tinha música de Rui Coelho e cenários de José Pacheko. O próprio Almada realizara os figurinos, a coreografia e dançava com os outros intérpretes.
Apesar de todos os vínculos literários, estéticos, geracionais e até políticos e ideológicos, a insólita operação financeira concebida por Homem Cristo Filho, que enredou Almada, também lhe incutiu um ódio de estimação a Martinho Nobre de Melo. Até ao fim da vida. Nas cartas a Acácio Leitão, mostra-se revoltado por deparar em Paris “surpresas que um raciocínio puro como o meu não pode prever. É o facto de que em Paris, também havia portugueses, mas portugueses, d’aqueles portugueses que não me perdoarão nunca que eu os não admire (eles que nada têm para que eu admire). Um d’estes portugueses, o meu maior inimigo, chama-se Martinho Nobre de Mello”. (in “Escritor” ibidem)
Promete, então, uma desforra e envia, para sair nos jornais, um manifesto a desancar Martinho Nobre de Melo. É um ataque cruel. Pessoal. Intelectual. Considera Martinho Nobre de Melo “pulha” e “safado”. Almada, nascido em São Tomé, na Roça Saudade, e cuja mãe Elvira Freire Sobral era filha de uma angolana negra, não se coíbe de reduzir Martinho Nobre de Melo, a um “desclassificado” e a rebaixá-lo por ser “cor de café com leite”; a desprezá-lo por ser importador do batuque mulato, a morna de Cabo Verde. Insiste: como se poderá chamar “Nobre”? Mais ainda: “verdadeira demonstração da nossa competência intelectual d’ além-mar”. (in “Escritor” ibidem)
O manifesto que tencionava “publicar brevemente”, intitulava-se ‘PA-TA-POOM’. Presumo ser o último manifesto de Almada após o outro arraso impetuoso do “Manifesto Anti-Dantas”. Esta versão manuscrita, na posse da escritora Leonoreta Leitão, filha de Acácio Leitão — autora do recente livro de memórias “Era Uma Vez Uma Boina” — foi por ela entregue, em 1993, e para publicação na revista “Escritor”, da Associação Portuguesa de Escritores.
Todavia, o semanário “O Domingo Ilustrado”, divulgará outra versão, sem especificar o nome de Martinho Nobre de Melo: “Uma Novela da Minha Vida PA-TA-POOM — Recordação de Paris — Capítulo III por Almada Negreiros”. Leitão de Barros, diretor do semanário, inseriu a seguinte nota: “Almada, o maior nome da arte modernista, dá-nos hoje uma novela na sua forma originalíssima. O público tem ali de saborear um estilo pessoal e uma prosa cujo bas-fonds é sempre valioso e tem qualquer coisa de subtil e filosófico. ‘O Domingo’, fiel ao seu programa, vai renovar-se de dia para dia.”
A edição de “O Domingo Ilustrado” é de 8 de agosto, de 1926. A 28 de maio fora implantada a Ditadura Militar, chefiada pelo general Gomes da Costa. Martinho Nobre de Melo (antigo ministro na ditadura de Sidónio), tinha 35 anos incompletos e fez parte do governo, como ministro dos Negócios Estrangeiros. Salazar também fora convidado mas só entrará em 1928. Para durar até 27 de setembro de 1968.
 
SEMPRE PARIS
Regressou Almada Negreiros de Paris, a 7 de abril de 1920. No dia em que completava 27 anos. Só voltará, numa rápida passagem, em 1950, mas continuou a ter Paris dentro de si. Porventura, sem a exacerbação carnal e possessiva do seu amigo Mário de Sá-Carneiro: “Paris da minha ternura/(...) Minha cidade com rosto,/ minha fruta mal madura.../ Mancenilha e bem-me-quer./ Paris — meu lobo e amigo — /quisera dormir contigo,/ ser todo a tua mulher”.
Almada, em certos dias da semana, depois do almoço, na sua casa de família, no Rato, antes de se refugiar no ateliê ia, a pé, em direção ao Rossio. Acompanhei-o, muitas vezes. Em especial, entre janeiro e junho de 1960, quando me concedeu as entrevistas para o “Diário de Notícias”, recuperadas no recente livro “Almada, os Painéis, a Geometria e Tudo” (edições Assírio & Alvim). Entrava na tabacaria Mónaco para comprar jornais e revistas franceses. Seguia-se um café, de saco, tomado ao balcão, na Casa Chinesa, no início da Rua do Ouro. Via logo os títulos. Começava pelo “Paris-Match”. Uma das suas leituras obrigatórias. Lembro-me, de olhar e exclamar: “Horrível este acidente de automóvel que matou Albert Camus. Repare nesta fotografia trágica...”.
Noutra ocasião, no mesmo local, folheando vagarosamente o “Paris-Match”, exclamava: “Morreu Georges Braque. Merece honras nacionais. Não pode ficar eclipsado por Picasso”. (Pouco depois, no Louvre, prestaram-lhe a homenagem devida. André Malraux, ministro da Cultura, proferiu um discurso histórico). E Almada prosseguia: “Penso muito em Braque...” E repetia a diretriz enunciada por Braque: “‘J’aime la règle qui corrige l’emotion. J’aime l’emotion qui corrige la règle’. Penso nisto todos os dias. Talvez várias vezes por dia. Diante de Nuno Gonçalves, da obra-prima da pintura primitiva portuguesa”.
Estas e outras circunstâncias, demonstram o interesse e o conhecimento de Almada a propósito do que se passava em Paris. Recolhia informação nas revistas, nos jornais, nos livros, nos catálogos que lhe ofereciam ou comprava. Via com atenção os principais filmes. Assistia aos espetáculos de teatro de companhias francesas que vinham a Lisboa. Escutava, com atenção crítica, notícias que ouvia de amigos que chegavam de Paris: Vieira da Silva, Júlio Pomar, Merícia de Lemos, Manuel Cargaleiro. Tudo isto conjugava e recriava a imaginação transfiguradora em contínuo estado de alerta. Assim conseguia Almada Negreiros sentir e estar em Paris, residindo em Portugal
Paris Sempre – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 4 de Fevereiro de 2017, pp. 33/35 – com sublinhados nossos.
 
 
António Valdemar

J.M.M.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

REVISTAS DE IDEIAS E CULTURA: APRESENTAÇÃO DE WEBSITES


Amanhã, 5 de Outubro de 2016, pelas 17 horas, no Auditório José Gomes Mota, nas instalações da Fundação Mário Soares vão ser apresentados os websites de quatro revistas importantes do início do século XX, que agora permitem vários tipos de abordagem, com funcionalidades muito úteis aos investigadores como: índices diversificados (autores, conceitos, assuntos, nomes citados, obras citadas, nomes geográficos), bem como as recolhas documentais específicas.

Esta iniciativa resulta da parceria entre a Fundação Mário Soares, o Seminário Livre História das Ideias, do Centro de História d'Aquem e d'Além Mar,  a Biblioteca Nacional de Portugal, e sido apoiadas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, a Assembleia da República, o Centro Nacional de Cultura e a Fundação Calouste Gulbenkian.

As revistas que passam a dispor deste serviço são:
- Nova Silva, 1907:
- A Águia, 1907-1932;
- Vida Portuguesa, 1912-1915;
- Atlântida, 1915-1920.

Estão já previstos novos processos para outras revistas durante o ano de 2017 e seguintes.

Recomenda-se uma visita e uma pesquisa pelos diferentes formulários que por lá se podem encontrar.
Por outro lado, existem dados complementares muito interessantes e importantes para que se dedica a estes assuntos.

A.A.B.M.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

"REALIZAÇÕES E UTOPIAS: PATRIMÓNIO CULTURAL E ARTÍSTICO DAS CALDAS DE MONCHIQUE NA CENOGRAFIA DA PAISAGEM TERMAL" E APRESENTAÇÃO DA PROMONTÓRIA MONOGRÁFICA, Nº2 - MONCHIQUE

Realiza-se no próximo sabado, dia 9 de Abril de 2016, em Monchique, pelas 15 horas, a apresentação do livro "Realizações e Utopias: património cultural e artístico das Caldas de Monchique na cenografia da paisagem termal", da autoria de Ana Maria Lourenço Pinto, publicado pela Fundação Oriente.

Pode ler-se na nota de divulgação do evento:
As Caldas de Monchique encerram uma paisagem única na região algarvia, com uma estreita relação entre o património natural e edificado. 
A sua água termal tem sido utilizada desde há pelo menos dois mil anos, numa história vasta e rica em projectos de edifícios e obras de arte, realizados em contextos muito diferentes. Por outro lado, são também revelados neste trabalho outros tantos projectos que não chegaram a concretizar-se, constituindo as utopias de importantes arquitectos e artistas para este cenário, até à atualidade. 
O livro, agora editado pela Fundação Oriente, constitui a publicação da tese de mestrado de Ana Lourenço Pinto em Arte, Património e Teoria do Restauro, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e conta com os apoios da Direção Regional de Cultura do Algarve, Município e Junta de Freguesia de Monchique.
Através do estudo do património das Caldas de Monchique, a autora, com raízes familiares em Monchique, propõe uma estratégia de dinamização do potencial cultural e paisagístico deste destino turístico de Saúde e Bem-Estar.



O segundo número da revista Promontoria Monográfica, da série dedicada à história da região algarvia, intitula-se “Fragmentos para a História do Turismo no Algarve”, e é coordenado por Alexandra Gonçalves, diretora regional da Cultura, António Paulo Oliveira, docente da Universidade do Algarve, e Cristina Fé Santos, mestre em História da Arte pela mesma Universidade.
Podem encontrar-se os contributos de vários autores, através de áreas do saber tão distintas como a cultura, museologia, história, saúde, arqueologia, imprensa e economia, e em que se inserem dois artigos dedicados a Monchique.
A Promontoria é editada pelo Centro de Estudos em Património, Paisagem e Construção (CEPAC) da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve, tendo como objetivo principal a divulgação de trabalhos de investigação nesta área, cujo âmbito geográfico se centre no sudoeste peninsular.

Relembramos o índice do presente número da revista Promontória Monográfica:

Índice
Cultura e turismo
Vitor Neto
A experiência turística e os museus a Sul
Alexandra Gonçalves
Portimão - O Desafio Museológico Entre Turismo e Património
José Gameiro I Ana Ramos
Património Arqueológico e Turismo na Região Algarvia
João Pedro Bernardes I António Faustino Carvalho
A institucionalização do Turismo - Contributos para o estudo dos primórdios do Turismo no Algarve
Artur Barracosa Mendonça
A primeira acção de propaganda externa do Algarve - A visita dos jornalistas ingleses em 1913
Luís Guerreiro
O Algarve e o turismo da região na «Revista de Turismo» (1916-1924)
Miguel Godinho
Contributo para o estudo do Turismo de Saúde no Algarve
Cristina Fé Santos
O Património Histórico-Artístico das Caldas de Monchique na valorização
do destino turístico algarvio

Ana Lourenço Pinto
Os primeiros Operadores Turísticos no Algarve
Alberto Strazzera
O turismo balnear em Albufeira: Uma história recente
Patrícia Batista
As vias de comunicação terrestres no Algarve e a sua evolução nos últimos 170 anos
Aurélio Nuno Cabrita
Estrada da Fóia - Da vila ao coropito
José Gonçalo Duarte
O aeroporto de Faro como infraestrutura principal do desenvolvimento
turístico da região

António Correia Mendes
O Turismo como fator de Crescimento Regional: a noção de “BeachDisease”
João Romão I João Guerreiro I Paulo M. M. Rodrigues

A acompanhar com toda a atenção.

A.A.B.M.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

PRÁTICAS DA HISTÓRIA


Teve lugar hoje, quinta-feira, dia 9 de Julho de 2015, pelas 17h30 o lançamento do primeiro número de uma nova revista académica, a Práticas da História. O evento teve lugar na Biblioteca Nacional onde se realizou uma conferência do Professor António Hespanha sobre os usos da teoria na história. 


Mais informação sobre a revista (sumário do primeiro número, conselho editorial, conselho científico, como submeter uma proposta de comunicação, etc.) pode ser encontrada no site. Os textos do primeiro número estão disponíveis sem restrições de acesso.


A revista Práticas da História é apoiada pelo Instituto de História Contemporânea (Universidade Nova de Lisboa e Universidade de Évora) e pelo Centro de História d’Aquém e Além Mar (Universidade Nova de Lisboa e Universidade dos Açores).

Segue o Índice do primeiro número da revista:

Práticas da História 1, nº 1 (2015)

Nota Editorial

Nota de Apresentação


Artigos

Metahistory: Notes Towards a Genealogy
Herman Paul
Mariana Pinto dos Santos

Ensaio

L’excès des mots: pratiques de desidentification et logiques heterogènes de la culture
Entretien avec Jacques Rancière réalisé par Maria-Benedita Basto et José Neves

Testemunho

Marta Faustino
Recomenda-se uma visita regular ao site da revista AQUI.

A.A.B.M.

terça-feira, 30 de junho de 2015

GAZETA ILLUSTRADA. REVISTA SEMANAL DE VULGARIZAÇÃO SCIENTÍFICA, ARTÍSTICA E LITERARIA



GAZETA ILLUSTRADA. Revista Semanal de Vulgarização Scientífica, Artística e Literaria. Ano I, nº 1 (29 de Maio de 1901) ao nº XXVI (23 de Novembro de 1901); Proprietário: Albino Caetano da Silva; Administração e Redacção: Praça do Commercio, 11 A, Coimbra; Editor: José Joaquim d’Almeida; Redactores: António A. da Costa Ferreira, J J. d’Oliveira Guimarães, Joaquim Martins Teixeira de Carvalho [depois: Augusto dos Santos, F. M. da Costa Lobo]; Secretário da redacção: Carlos d’Almeida; Impressão: Typographia Auxiliar d’Escriptorio (Coimbra); Coimbra; 1901, 26 numrs

Trata-se de uma revista coimbrã de “divulgação e generalização moderna, orientação científica, literária e artística, fornecendo semanalmente aos (…) leitores, numa leitura clara, simples e amena, o conhecimento de tudo o que pela sua importância, actualidade e interesse se torna necessário para a formação de uma cultura geral” [in nº1].
Alguns dos artigos são muito curiosos, entre eles a “Homenagem a Garrett” (nº1), “Pasteur” (nº2 e ss), “O Esperantismo” (ao nº 2 e ss; nº 19; nº 22; nº 26), “[Henrique] Pousão” (nº3), “Divisas e emblemas decorativos” (nº4), “Brotero” (nº6), “Direitos e deveres com os animais” (nº7), “Bilhetes Postais Ilustrados” (nº7), “O Culto dos Grandes Homens. A propósito do projecto dum monumento a Antero de Quental” (nº8), “O Buçaco” (nº9 e ss), “Socorros a náufragos” [sobre o patrão Joaquim Lopes, com gravura] (nº 11), “ A arte de voar e o balão Santos-Dumont” (nº 13; nº 20), “A Casa Moderna” (nº17 e ss), “O retrato e a arte” (nº20), “Bernardino Ribeiro” (nº 21), “Carta aos estudantes de Coimbra” [carta da pena de Afonso Lopes Vieira aos estudantes, visando a subscrição de um busto de Antero de Quental] (nº 25),

Colaboração [in colecção de periódicos do nosso Arquivo]: A. A. Rocha Peixoto (naturalista), A. Barbosa (engenheiro), A. Gonçalves (director da Esc. Brotero), A. Henriques da Silva (lente da UC), A. J. Gonçalves Guimarães (lente da UC), A. Lopes Vieira (publicista), A. M. Simões de Castro (archeologo), Adolpho F. Moller (inspector do J. Botãnico), Agostinho de Campos (professor), Alberto d’Oliveira (cônsul em Tanger), Alves dos Santos (lente da UC), António Cabreira (publicista), António Cruz (jornalista), António Thomé (professor do liceu Coimbra), António de Vasconcelos (lente da UC), Bernardino Machado (lente da UC), Bernardo Lucas (advogado), C. Lepierre (professor da Esc. Brotero), D. João da Câmara (publicista), Domingos Ramos (juiz), Eduardo de Sousa (médico), Emygdio d’Oliveira (publicista), F. Fernandes Costa (professor do liceu de Coimbra), Fialho de Almeida (publicista), F. M. da Costa Lobo (lente da UC), Francisco Martins (reytor lyceu do Porto), Henrique de Vasconcellos (publicista), J. A. de Sousa Refoios (lente da UC), João A. Ribeiro (professor Instituto Industrial do Porto), João D. do Carmo (professor do ensino livre), João Grave (publicista), José Cid (médico), José J. Rodrigues (professor do lyceu de Angra), Julio Brandão (professor da Esc. “Infante D. Henrique”), Julio Henriques (lente da UC), Manuel Larangeira (lente da Academia do Porto), Marcellino Mesquita (dramaturgo), Maximiano Lemos (lente da Escola Médica do Porto), Oliveira Alvarenga (jornalista), P[edro] Fernandes Thomas (professor da Escola “Bernardino Machado”, Figueira da Foz), Toy, Trindade Coelho (magistrado e escritor).


J.M.M.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

AURORA - REVISTA MENSAL DE SOCIOLOGIA, SCIÊNCIA E ARTE


AURORA. Revista Mensal de Sociologia, Sciência e Arte. Ano I, nº 1 (Setembro 1929) ao Ano II, nº XIV (Outubro 1930); Administração e Redacção: Rua Cunha Espinheira, 131 A [depois, ao nº3, Largo da Póvoa, 9], Porto; Administrador: António Teixeira de Araújo; Editor: Fernando Barros; Director: Abílio Ribeiro; Impressão: Tipo-Lito de Gonçalves & Nogueira, Limitada (Porto); Porto; 1929-30, 14 numrs

Colaboração [Alguns Escritos de …]: A. Aulard, A. Sadier, Alexandre Herculano, Alice dos Reis Mendes, Antero de Quental, Aristides Ribeiro, Arnaldo S.[imões] Januário, B. Inácio, Camilo Castelo Branco, Camilo Pert, Carlos Brandt, Constantino de Figueiredo, Daneff, Delfim de Castro, Dostoiewski, Duarte Lima, Eduardo Casela, Eliseu Réclus, Ernesto Gil, ErricoMalatesta, Fialho de Almeida, Francisco Quintal, Francisco de Sade, G. Molinari, Guerra Junqueiro, Henri Martin, Henrique Nido, Hipólito Havel, Hugo Treni, J. M. Peres, João Serra, João Xavier de Matos, Joaquim Serra, Jacinto Benavente, Jean Grave, Joaquim Dicenta, José de Arruela, Júlio Dantas, Leon Trotsky, Lingelbach, Luís Falcão, Maria Montseny, Mário de Oliveira, MaurícioLachatre, Mayer Garção, Max Nettlau, Maximiano Rica, Medeiros e Albuquerque, [Meridional], Miguel Bakunine, Miguel Hernandez Sanchez, Neno Vasco, Oldemiro César, Pinheiro Chagas, Raul Brandão, Roberto das Neves, Rudolfo Rocker, Tomás da Fonseca, Vicente Garcia, Victor Hugo.


Trata-se de uma importante revista de ideário anarquista, publicada na cidade do Porto durante o tempo da Ditadura Militar, sob responsabilidade do grupo “A Comuna”, aliás do grupo “Propaganda Libertária” (grupo nascido em 1904 e que existe até 1925) que está na sua fundação. A revista – que publicou 14 números e foi encerrada pela PIDE em Outubro de 1930 – é o seguimento do periódico “A Aurora” (nascido da fusão entre o Grupo de Propaganda Libertária e o grupo Aurora Social) e do semanário “A Comuna” (Maio de 1920) e reagrupava, depois da repressão policial, os anarquistas da região do Porto.

Tinha como editor Fernando [de Oliveira Leite] Barros, serralheiro (apaixonado cinéfilo) e militante anarquista do Porto (fez parte do Comité de Propaganda e Organização Anarquista do Norte – 1923/1926), que foi preso a 3 de Outubro de 1930, e deportado [juntamente com “Aníbal Dantas, Anastácio Ramos, Manuel João, José Silva, Domingos Lopes Bibi, todos do Porto, e Mário Castelhano e outros, de Lisboa” – cf. Edgar Rodrigues, “A Oposição Libertária em Portugal 1939-1974”, Sementeira, 1982, p. 177] para os Açores, seguindo depois para Ilha da Madeira. Com o romper da revolta da Madeira (1931), tenta Fernando Barros regressar para o continente, mas, face ao fracasso da revolta, refugia-se em Espanha (Barcelona).
Como director da revista encontramos Abílio Ribeiro, dedicado militante anarquista, que tinha já antes colaborado no semanário comunista libertário do Porto com o título, “A Comuna” (1920-25?), tendo sido mesmo seu editor. Na reunião de resistência ao golpe militar de 28 de Maio de 1926, Abílio Ribeiro é o delegado da União Anarquista Portuguesa (UAP – declarada, pela Ditadura Militar, ilegal em 1929).

A qualidade de administrador está o operário gráfico (e secretário da UON e da CGT) António Teixeira de Araújo [1888-1965 – consultar a sua biografia na “Voz Anarquista”, nº17, Setembro de 1976], com intensa colaboração [usando numerosos pseudónimos] em periódicos anarquistas [como “A Batalha”, “Vanguarda Operária”, “Aurora; “A Comuna”]. Em 1908, António Teixeira de Araújo é um dos fundadores do grupo libertário “Verdade e Luz” (Coimbrões), mantendo o grupo uma escola de ensino livre [cf. Edgar Rodrigues, ibidem, p. 151], o Ateneu Sindicalista.
J.M.M.