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sexta-feira, 11 de maio de 2018

MAIO DE 68, “REVOLUÇÃO-FICÇÃO”



Maio de 68, “Revolução-Ficção” – por Rui Bebiano, in jornal Público

O "Maio francês" representou um instante breve, mas ruidoso e memorável, da história contemporânea.
Em Maio de 68 explicado àqueles que o não viveram, o documentarista Patrick Rotman afirmou ser este "um objeto histórico encerrado, que devemos olhar e analisar como tal". Muito pelo contrário, é possível e mesmo indispensável encarar o "Maio francês" como um dos momentos que conferem sentido aos últimos 50 anos da história mundial, permanecendo aberto a interpretações e a efeitos que lhe atribuem uma dimensão singular e permitem considerá-lo, pelo menos por enquanto, como memorável.

O ano de 1968 foi o mais turbulento do pós-guerra, carregado de acontecimentos inesperados, violentos, exaltantes ou trágicos: a ofensiva do Tet no Vietname, o auge do movimento pacifista contra o apoio dos EUA a Saigão, a explosão por todo o lado da contestação estudantil, a afirmação do Movimento de Libertação das Mulheres e do fenómeno da contracultura, a Primavera de Praga, as barricadas de Paris, o assassinato de Martin Luther King e de Robert Kennedy, os protestos de Chicago contra o racismo, a invasão da Checoslováquia pelos tanques soviéticos, o massacre de 200 estudantes na cidade do México. Neste contexto, o que ocorreu em França poderia ser um episódio sonoro, é certo, mas curto e de limitado impacto; já o não será, todavia, se o olharmos como sinal de um tempo e prenúncio de algumas transformações.
 
A dimensão complexa do movimento tem levado a que na tentativa de o explicar se diga tudo e o seu contrário, observando-o como sintoma da doença do sistema universitário ou de uma mais geral "crise da civilização", passando pela sua associação à reconfiguração do mapa político tradicional, ao culto juvenil da revolta, à atração do hedonismo, até à luta de classes "de um tipo novo", que supostamente colocava o estudante onde antes se encontrara o proletário. Raymond Aron considerou-o "acesso febril desprovido de objetivo", não mais que um juvenil "simulacro de revolução". Régis Debray viu-o como "contrarrevolução conseguida", impondo o triunfo do consumismo sobre a moral libertária e abrindo a via para o triunfo do neoliberalismo. No sentido oposto, Edgar Morin identificou-o como "êxtase da História", explosão jubilatória de vitalidade que promoveu "uma viragem dos espíritos e das sensibilidades".

A maioria das leituras tem, pois, desenvolvido um sentido interpretativo que oscila entre o descrédito e o enaltecimento. Pelo meio encontram-se os testemunhos daqueles que viveram os acontecimentos ou o seu tempo, em França ou noutros lugares, e que em regra alternam também entre a exaltação ou o derrotismo. Soixante-huitiard passou a ser sinónimo de nostálgico que vive a romantização do seu próprio passado, indiferente ou crítico de todas as mudanças ocorridas nas últimas décadas. Do lado contrário, os que sempre tiveram dificuldade em compreender o que aconteceu insistem na inscrição do movimento num período de caos e anarquia, espelhado numa cidade à mercê dos rapazes e das raparigas que erguiam barricadas e apedrejavam a polícia em nome de um "realismo do impossível".
Para escapar às armadilhas colocadas pelas diferentes subjetividades e releituras, o caminho a seguir só pode ser o da observação do que pode ser historicamente aferido. Assim, o movimento não foi tão espontâneo quanto parece, uma vez que a intervenção estudantil e a dos grupos políticos começou mais cedo. A sua orientação foi muito diversa, separando-se claramente o ativismo libertário, a intervenção da esquerda mais radical, o papel dos intelectuais e as escolhas do PCF, que só tardiamente aderiu ao movimento, tentando aproximá-lo da luta sindical. O proclamado caos foi mais simbólico que real, pois o mapa físico e social dos acontecimentos de Paris foi circunscrito. No final, o movimento saiu derrotado, com a enorme manifestação gaullista que lhe pôs termo e uma acentuada reafirmação eleitoral da direita francesa – mais de 71% nas presidenciais de Junho de 1969 que elegeram Pompidou –, acompanhada de um enorme recuo da esquerda. Todavia, a impacto da sua dimensão "antidisciplinar", associada à recusa sistémica de um modelo social e cultural até aí hegemónico, lançou sementes que potenciaram novas atitudes coletivas. O conhecido slogan "é proibido proibir" é indicativo da afirmação dos direitos das minorias, da legitimação da diferença, da pluralidade do pensar, do agir, dos modos de viver, amar ou aprender, que foram testados no laboratório do movimento parisiense e da sua projeção mundial, plasmando futuros projetos políticos e modelos de sociedade.
 
A 50 anos de distância, pode dizer-se que ele representou um instante breve, mas ruidoso e memorável, da história contemporânea, potenciador de um certo "espírito" libertário e igualitário que pontuou o tempo e, como declara um editorial recente da revista L’Obs, "permanece um farol, e talvez mesmo um reservatório de recursos, para procurar responder aos problemas do nosso tempo". Jacques Tarnero, que esteve em Nanterre, onde a 22 de Março de 1968 o movimento despertou, chamou-lhe "revolução-ficção", momento e lugar onde por instantes foi possível imaginar e ensaiar um padrão de viragem e de renovação que é o motor de toda a mudança duradoura. Por isso ecoa ainda na consciência partilhada por diversas gerações e não pode ser um caso encerrado.
Maio de 68, Revolução-Ficção – por Rui Bebiano, [Historiador, professor da FLUC e investigador do CES], jornal Público, 10 de Maio de 2018, p. 51 – com sublinhados nossos.
J.M.M.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O (AS)SALTO DA MEMÓRIA - COLÓQUIO


Realiza-se amanhã, 27 de Outubro de 2016, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, este interessante congresso: O (As)salto da Memória. História, Narrativas e silenciamentos da deserção e do exílio.

Pode ler-se na nota de divulgação do evento:
O exílio e nomeadamente a deserção à Guerra Colonial foram fenómenos que marcaram indelevelmente a sociedade portuguesa dos anos 60 e 70 do séc. XX. Este colóquio pretende discutir estas questões cruzando olhares disciplinares diversos sobre como pensar, descrever, caracterizar ou arquivar o "exílio" e a "deserção", assim como a documentação e as memórias a eles associadas.

A historiografia gradualmente vai conseguindo abordar novas temáticas e temas até agora pouco explorados. Um deles é sem dúvida este.

O parabéns pela iniciativa que aqui se divulga para outros poderem participar.

A não perder, em Lisboa, com um conjunto reputado de historiadores.

A.A.B.M.

sábado, 4 de abril de 2015

II CONGRESSO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA DO MOVIMENTO OPERÁRIO E MOVIMENTOS SOCIAIS EM PORTUGAL

Realiza-se nos próximos dias 7 e 8 de Abril, na sala Multiusos 2 e 3, no Edifício I&D, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, o II Congresso Internacional de História do Movimento Operário e Movimentos Sociais em Portugal.

Este congresso conta com alguns nomes já conhecidos da historiografia portuguesa dedicada à História dos Movimentos Sociais e à História do Movimento Operário, contando entre outros com a presença de Raquel Varela, Paula Godinho, Rui Bebiano, João Madeira, Maria Inácia Rezola, João Arsénio Nunes, Constantino Piçarra, David Luna de Carvalho, João LázaroAlbérico Afonso Costa, entre muitos outros que vão apresentar as respectivas comunicações.

O programa do congresso segue abaixo [Recomenda-se que clique na imagem para aumentar ou, em alternativa, guarde a imagem no computador e aumente-a a partir do visualizador de imagens]:

Uma excelente iniciativa que se repete e que continua a necessitar de novos contributos, perspectivas de análise, interpretações pluralistas e descobrindo novas situações para análise e interpretação.

Com os votos do maior sucesso para todos os participantes.

A.A.B.M.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

EXÍLIO E DEMOCRACIA: DEBATE


Realiza-se hoje, 25 de Junho de 2014, no âmbito das comemorações dos 40 anos do 25 de Abril, pelas 18 horas, no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, um debate público.

Esta iniciativa resulta da parceria entre o Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra, o Centro de Estudos  Sociais e o TAGV (Teatro Académico de Gil Vicente), onde se procura debater as condições que conduziram ao exílio alguns dos intervenientes que antes da Revolução dos Cravos se aventuravam a criticar a situação política existente.

Pode ler-se na nota de divulgação:
Integrada na evocação do 40º aniversário da Revolução dos Cravos, o Centro de Documentação 25 de Abril, de parceria com o CES e o TAGV, organiza, no próximo dia 25 de Junho, 4ª feira, pelas 18H00, um debate público sobre um tema que teve uma importância central no processo que conduziu à queda da ditadura e volta hoje a deter uma importância central na sociedade portuguesa. De facto, na década e meia que antecedeu a queda do regime, nas condições de repressão policial e de uma guerra colonial que enfrentou uma crescente oposição interna, o exílio, nas suas diversas formas, foi para um grande número de homens e mulheres uma via para a sobrevivência e um lugar de resistência, cruciais para a construção de sociabilidades e de formas de ativismo que em muito contribuíram para a queda do regime.

O debate conta com a moderação de Fernando Matos Oliveira e a participação de Rui Bebiano, José Dias e Susana Martins.

Uma iniciativa que se recomenda e se divulga a todos os interessados.

[NOTA: Clicar nas imagens para aumentar.]

A.A.B.M.