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segunda-feira, 23 de setembro de 2013

ESTADO NOVO E UNIVERSIDADE: A PERSEGUIÇÃO AOS PROFESSORES


AUTORES: Fernando Rosas & Cristina Sizifredo;
EDITOR: Tinta-da-China (Setembro 2013), p. 144.

A Perseguição aos Professores conta a história de todos aqueles que,  por motivos políticos, se viram impedidos de aceder à docência  universitária, foram afastados dos seus centros de investigação,  impossibilitados de progredir nas carreiras académicas ou  compulsivamente exonerados das suas funções como investigadores ou  professores das universidades portuguesas durante a Ditadura Militar e  o Estado Novo.

A depuração política do corpo docente universitário ou de quem a ele  pretendia aceder, quase sempre fundamentada em informações da polícia  política, atingiu um largo espectro de investigadores ou docentes,  muitos dos quais representavam, nos seus sectores – na matemática, na  medicina, na economia, na física, na agronomia, nas ciências humanas  –, o escol do pensamento científico português. A perseguição política  desses elementos por parte de um regime que considerava a liberdade de  opinião e de expressão, e portanto a liberdade científica, como  incompatíveis com a segurança do Estado, acarretaria nefastas e  duradouras consequências para o desenvolvimento científico em Portugal.

Muitos dos investigadores e docentes perseguidos pelas suas convicções  políticas viram-se forçados ao exílio em vários países da Europa e da  América Latina, ou nos EUA, onde livremente puderam exercer o seu  múnus científico. E aí semearam a marca indelével do seu saber,   deixando aos países que os acolheram aquilo que foram impedidos de  oferecer ao seu.

Não parece possível abordar o problema da depuração política das  universidades sem se compreenderem as relações do Estado Novo com o  saber científico e académico e, portanto, com as universidades, depositárias tradicionais desse conhecimento e órgãos por excelência  da sua reprodução. Tenhamos presente que no projecto político, ideológico e cultural da 'política do espírito', delineado no rescaldo  do plebiscito constitucional de 1933 com a criação do Secretariado de  Propaganda Nacional (SPN), virá a ser atribuído um papel claramente  periférico e subalterno ao saber académico, à cultura científica e às   universidades de uma forma geral”.  [ler AQUI - sublinhados nossos]
 
 J.M.M.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

REPÚBLICA, UNIVERSIDADE E ACADEMIA


LIVRO: República, Universidade e Academia;
AUTOR: Vítor Neto [coord.);
EDITORA: Almedina, 2012.

"Este volume procura reflectir o conhecimento objectivo do ciclo histórico da I República e revelar as preocupações dos autores a respeito das relações entre o poder político, as ideologias e a Universidade.

Nos múltiplos enfoques presentes nos diferentes artigos será certamente possível encontrar alguma unidade epistemológica e teórica que transformará a leitura dos textos agradável e inovadora nas suas várias abordagens.

E se o livro não trouxer muitas certezas, pelo menos levantará questões de interpretação teórica e poderá suscitar perguntas ao leitor. A história desta temática ainda se encontra, em boa medida, por fazer. No entanto, esta obra trará, sem dúvida, um contributo para um melhor entendimento destes assuntos em período republicano
".

J.M.M.

quinta-feira, 29 de março de 2012

A CRISE ACADÉMICA DE 1962 - 100 DIAS QUE ABALARAM O REGIME



LIVRO: 100 Dias Que Abalaram O Regime - A Crise Académica de 1962;

AUTORES: Coord. Artur Pinto; TEXTOS de Alexandre Alves Costa, António Sampaio da Nóvoa, Carlos Campos Morais, Eurico Figueiredo, Fernando Rosas, João Marecos, Jorge Sampaio, José Augusto Rocha, José Maria Brandão de Brito, José Marques Felismino, José Medeiros Ferreira, Manuela Bernardino, Maria Benedicta Monteiro, Ruben de Carvalho, Teresa Tito de Morais;

EDIÇÃO: Tinta da China, 2012.

J.M.M.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

BERNARDINO MACHADO


Curso de Antropologia de Bernardino Machado - Univ. Coimbra 1905

[via Arquivo Manuel Machado Sá Marques, com o nosso agradecimento]

J.M.M.

domingo, 15 de abril de 2007

BIBLIOGRAFIA [BREVE] SOBRE A QUESTÃO/CRISE ACADÉMICA DE 1907



O Centenário da Questão Académica ou Greve Académica de 1907, em Coimbra, foi por nós, ao longo de mais de um mês, merecidamente assinalado. Recordar a crise académica de 1907 foi-nos particularmente grato.

Homenagear os intransigentes estudantes de antanho, todos de elevado espírito fraterno e solidário, e o seu combate, significou entender que o acontecimento não resulta de um qualquer "ruído" normal próprio da juventude ou como fruto da sua intrepidez, mas sim que emerge e amplia-se como reflexo da situação de mal-estar académico, social, cultural e político que então se vivia em Portugal. Passe o trabalho conspirativo existente por detrás da orientação política dos vários grupos de estudantes, pode antever-se, na contestação e idealismo dos seus protagonistas, uma atitude regeneradora face à nação e às mentalidades, que irá marcar, daí em diante, a Alma Republicana.

O tributo que prestámos a partir de 26 de Fevereiro, deste ano, aos briosos estudantes da Universidade de Coimbra, foi particularmente merecido. As figuras e os factos relembrados, sem opulência ou luxo maior, aqui estão. Talvez um dia, esta pequena referência (e outras que apareceram pela blogosfera e fora dela) possibilite uma antologia de impressões, manifestos e textos desse curioso acontecimento, em tempos idos de 1907. E que bem falta faz.

Por último, deixamos um brevíssimo contributo bibliográfico (de obras existentes e, algumas, por nós consultadas) sobre a Questão Académica de 1907, sabendo que a bibliografia existente é bem mais vasta que a que poderemos apresentar. Mas decerto, com a ajuda de leitores interessados, podemos certamente fazer os aditamentos necessários.

- BRANCO, João Franco Pinto Castelo, Cartas de El-Rei D. Carlos I , Aillaud & Bertrand, Lisboa, 1924
- CABRAL, António, Cartas de El-Rei D. Carlos I a João Franco Castello Branco seu último Presidente do Conselho, Aillaud & Bertrand, Lisboa, 1924.
- CASTRO, Américo de, Últimos Anos da Monarquia. Memórias, Porto, J. Pereira da Silva 1918.
- CHAGAS, João, Subsídios Críticos para a História da Dictadura, Tip. Anuário Comercial, 1908.
- CORREIA, Natália, A Questão Académica de 1907, Minotauro/Seara Nova, Lisboa, 1962.
- CUNHA, D. Correia da, A "Malta". Reportagens da Vida Académica de Coimbra, Coimbra, 1933.
- GUEDES, Armando Marques, Páginas do Meu Diário, Editorial Enciclopédia, Lisboa/Rio de Janeiro, 1957.
- História da República, Editorial O Século, 1960.
- LAMY, Alberto Sousa, A Academia de Coimbra (1537-1990), Rei dos Livros, Lisboa, 1990.
- LEAL, Cunha, Coisas de Tempos Idos. As Minhas Memórias. Romance duma época, duma família e duma vida de 1888 a 1917, Ed. Autor, Lisboa, 1966, 3 vols..
- LIMA, João Evangelista Campos, A Questão da Universidade: depoimento d'um estudante expulso, Clássica Editora, Lisboa, 1907.
- MACHADO, António, Bernardino Machado. Memórias, Livraria Figueirinhas, Porto, 1945.
- MACHADO, Bernardino, Pela República (1906-1908), Ed. Autor, Coimbra, 1908.
- MACHADO, Bernardino, Universidade de Coimbra, Ed. Autor, Coimbra, 1908.
- MADEIRA, Lina Maria Alves, Alberto da Veiga Simões. Esboço de uma biografia política, Quarteto Editora, Coimbra, 2002.
- MARTINS, Rocha, João Franco e o seu tempo, Ed. Autor, Lisboa, 1925.
- MARTINS, Rocha, Vermelhos, Brancos e Azuis, vol. II, Organizações Crisális, Lisboa, 1950.
- PIMENTA, Alfredo, Factos Sociaes: Problemas d'hoje: Ensaios de Philosophia Critica, Lello & Irmão, Porto, 1908.
- QUARTIN, António Tomás Pinto, "A Greve Académica de Coimbra em 1907", Ver e Crer, Lisboa, nº 45, 1949, p. 3-9.
- RAPOSO, Hipólito, Livro de Horas, França Amado, Coimbra, 1913.
- RIBEIRO, Herlander, Cartas de uma tricana. Coimbra de 1903 a 1908, Lisboa, 1936.
- SARDICA, José Miguel, «Combate político e renovação cultural: a Greve Académica de 1907». Comunicação apresentada no Colóquio de História Contemporânea «Maio de 1968: Trinta anos depois. Os movimentos estudantis em Portugal», organizado pelo Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, realizado na referida Universidade, nos dias 28 e 29 de Maio de 1998.
- SARDICA, José Miguel, «A Greve Académica de 1907. Combate político e renovação cultural». Publicado na Revista História, 3.ª Série, n.º 4-5, Lisboa, Julho-Agosto de 1998, pp. 28-37.
- SARDICA, José Miguel, «A Greve Académica de 1907», Textos publicados nos fascículos n.º 4 (pp. 96-97) da obra Século XX. Homens, mulheres e factos que mudaram a História, Lisboa, Público/El Pais, 2000.
- SOUSA, Marnoco e; REIS, José Alberto, A Faculdade de Direito e o seu ensino, França Amado Editora, Coimbra, 1907.
- VENTURA, António, "Um Anarquista Português em Paris", História, Lisboa, Julho/Agosto, 2002, nº 47, Ano XXIV (III Série), p. 66-67.
- XAVIER, Alberto, História da Greve Académica de 1907, Coimbra Editora, Coimbra, 1962.

Notícias na Imprensa (alguns periódicos que deram especial relevo aos acontecimentos)

- Diário Ilustrado, Lisboa; (jornal da época)
- Illustração Portuguesa, Lisboa; (revista ilustrada e noticiosa da época – ver 11/03, 8/04, 15/04, 22/04)
- Luta, Lisboa, 10-03-1907;
- O Século, Lisboa, 1-4-1907 e 4-4-1907;
- O Mundo, Lisboa
- Diário de Lisboa, Lisboa, 6-2-1963, entrevista a Alberto Xavier sobre os acontecimentos da greve académica de 1907.
- Diário de Lisboa, Lisboa, 15-02-1963, publica uma carta de Carlos Eugénio Dias Ferreira, filho de José Eugénio Dias Ferreira, a defender aquilo que entendia ser "o propósito de diminuir a personalidade do candidato reprovado", suscitado na entrevista anterior de Alberto Xavier.
- Diário de Lisboa, Lisboa, 19-02-1963, Alberto Xavier responde a Carlos E. D. Ferreira, em "A Greve Académica de 1907. O Dr. Alberto Xavier responde à carta de Carlos Eugénio Dias Ferreira"
- República, Lisboa, 8-4-1912, artigo de Alfredo Pimenta, "A Greve de 1907".

A.A.B.M.
J.M.M.

A QUESTÃO DA UNIVERSIDADE - ESTUDANTES E LENTES

"Os estudantes da Universidade [Coimbra] insurgiram-se contra a reprovação plena de um seu camarada de estudos que se apresentou a defender as suas theses finaes. Mais uma vez se dirime a eterna contenda entre lentes e estudantes. Coimbra, a velha cidade universitária, assume imprevistamente um aspecto revolucionário (...)

Toda a Academia se levantou n'um grito. A gargalheira estrangulava-a, o foro glacial e rígido da Universidade era um capacete de ferro que não a deixava respirar; o sangue corria-lhe nas veias menos impetuoso e menos generoso. Não é uma questão entre homens, é um combate entre factos ...
"

[Estudantes e Lentes. A Questão da Universidade, in Illustração Portuguesa, III vol., 11 de Março de 1907, p. 294-295 - sublinhados nossos]

J.M.M.

terça-feira, 10 de abril de 2007

REITOR E GRUPO DE LENTES DA UNIVERSIDADE DE COIMBTA (1907)



Dr. Avelino Calixto (lente de direito), Dr. Souto Rodrigues (lente de matemática), Dr. José Alberto dos Reis (lente de direito), Dr. Machado Villela (lente de direito), Dr. Bernardo Madureira (lente de teologia), Dr. Raymundo da Motta (lente de medicina), Dr. Filomeno da Camara (lente de medicina), Dr. Santos Viegas (reitor), Dr. Angelo da Fonseca (lente de medicina), Dr. Arzilla Fonseca (lente de matemática), Dr. Eusébio Tamagnini (lente de filosofia), Dr. Pedro Martins (lente de direito), Dr. Luiz Santos Viegas (lente de medicina), Dr. Teixeira d'Abreu (lente de direito), Dr. Sousa Gomes (lente de filosofia), Dr. Bernardino Machado (lente de filosofia)

Fotos da Conimbricense, Gonçalves, Tinoco e União (de Coimbra), in Illustração Portugueza, III volume, 22 Abril de 1907

J.M.M.

A GREVE DE 1907 NA "ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA"


A Greve de 1907 na revista Ilustração Portuguesa

Reprodução de uma página da revista Ilustração Portuguesa, de 22 Abril de 1907,onde aparece, ao longo de 16 páginas, um conjunto de fotos sobre a Questão Académica de 1907, tiradas por Benoliel e alguns fotógrafos de Coimbra - como a Photographia União, a Gonçalves, a Conimbricense, a Tinoco.

J.M.M.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

A QUESTÃO ACADÉMICA DE 1907 POR HERLANDER RIBEIRO


A Questão Académica 1907 vista por Herlander Ribeiro

Em "Cartas uma Tricana (Coimbra de 1903 a 1908)", Lisboa, 1936, Herlander Ribeiro [1886-1967], um dos alunos que, frequentando o 4º ano de Direito, não foi solidário com a greve dos estudantes de Coimbra de 1907, escreve 3 curiosos textos, que devemos assinalar.

O primeiro, datado de 1906 [Academia Politica] dá conta do "pulsar" social e cultural de Coimbra, na época. O segundo [A Greve] apresenta um importante comunicado sobre os acontecimentos de 1907 por "Um Grupo de Académicos da Universidade", com o título "Os Acontecimentos de Coimbra. Aos Académicos e ao Paiz". O terceiro [O comício no Teatro Avenida], refere um comício republicano em Maio de 1907, a que assistiu, com curiosos comentários.

Eis, alguns pequenos excertos:

"Nesta quadra de actos, falta em Coimbra o assunto para a carta semanal: porque porêm, nas noites quentes deste Julho, pela alta, à luz da fraca iluminação publica, grupos de estudantes da rua Larga à Couraça, discutem até de madrugada, e anda em móda na academia o anarquismo, que Campos Lima, Gomes da Silva e um novo caloiro [Alfredo] França, lá na baixa, inflamados, declaram ser o regimen do futuro (...)" [Academia Politica, Julho de 1906]

"Todo o paiz sabe, pelas noticias da imprensa e ainda por informações particulares, que se deram graves acontecimentos em Coimbra, por ocasião da reprovação em acto de conclusões magnas do doutorando José Eugénio Ferreira.
Houve manifestações de desagrado na Sala dos Capelos, durante os argumentos d’alguns lentes, nos dias 27 e 28 de Fevereiro, repetidas no átrio da Universidade e nas ruas da cidade, pelas quaes passou um numeroso cortejo que acompanhou o doutorando à sua casa na Estrada da Beira, tendo-se pronunciado, durante o percurso do mesmo cortejo, discursos violentos e injuriosos.


No dia 28, à noite, reuniu a Academia em assembleia geral 'para manifestar o seu desagrado pela exclusão do sr. José Eugénio Ferreira'. Depois de discutidos vários alvitres, foi aprovado 'que se fizesse uma manifestação de desagrado aos professores da Faculdade de Direito' (...)
A manifestação projectada realizou-se no dia seguinte, 1 de Março, à hora em que devia começar o primeiro turno d’aulas, 8 e um quarto da manhã, e consistiu em assobios, apupos, ameaças, vivas ao candidato reprovado e morras aos lentes da Faculdade de Direito (...)


A imprensa, na sua grande parte, ou mal informada ou propositadamente, desvirtuou os acontecimentos e desorientou a opinião, fazendo passar como legítimo e espontâneo o que não era mais que uma exploração política. Tão habilmente urdido foi o plano, e tão secretas as instruções dos seus dirigentes, que a máxima parte da Academia se deixou ludibriar na sua generosidade e boa fé, entrando no movimento com calor e entusiasmo (...)

Quais os parlamentares e homens políticos que secundaram o movimento, prometendo e prestando o seu apoio aos académicos, em conferências, na imprensa e em interpelações ao governo? (...)
Por mais esforços que se façam, não se consegue descobrir elementos que não pertençam ao 'livre pensamento' (ideia!) republicanismo académico, e maçonaria indígena (...)

Aos interessados cumpre tirar a conclusão de tudo o que deixamos dito, a qual, a nosso ver, não pode ser senão esta:


Apesar de ter havido expulsões, reconhecer o logro de que foi vitima e apresentar-se nas aulas logo que reabra a Universidade ..." [A Greve, Abril de 1907]

"Venho dum comicio que o Dr. Bernardino Machado e outros promoveram no teatro de Santa Cruz, em que falaram Alexandre Braga e outros caudilhos republicanos.
Por parte da academia os inevitaveis Campos Lima e Gomes da Silva e por representação do povo, falou o Viana, cá da rua da Trindade, o encadernador de cabeleira grande e zaragata constante com a consorte. Não gostei da oratoria que ali se usou; orador brilhante, um pouco rouco, foi só Alexandre Braga: a frase deste tribuno é quente, a voz otima para comicios, a figura insinuante e de autentico batalhador da palavra.


A sala estava cheia e a academia fortemente representada. No camarote o comissario da policia, sem côrte, como nos dias de espectáculo.

Não ouvi traçar um programa de construção social: gritou-se contra tudo, criticou-se o analfabetismo, mas não vi que se esboçasse, a sério, qualquer coisa que se dirigisse, não ás gargantas dos vivos, mas aos cerebros dos assistentes e até mesmo aos seus corações.
É assim que querem fazer a republica em Portugal, os republicanos?

Não me parece que consigam modificar a mentalidade os academicos, nem o instinto dos futricas: pode ser palavroso, faz barulho, mas não cria adeptos sinceros ...
" [Maio, 1907]

J.M.M.

quarta-feira, 28 de março de 2007

O CENÁCULO DOS INTRANSIGENTES



No prosseguimento da Greve Académica de 1907 em Coimbra, a tentativa de "romper os laços de solidariedade que se estabeleceram, e se mantinham, entre os estudantes de Coimbra e entre estes e os de todas as escolas superiores e técnicas do país" [in História da Greve Académica de 1907, de Alberto Xavier, 1962] foi diversas vezes tentada, sem total êxito. A nomeação do novo reitor da Universidade de Coimbra, D. João de Alarcão, os apelos de vários pais de alunos ["na sua maioria, políticos militantes, e, alguns deles, franquistas", ibidem] para demover os estudantes e a solicitação feita ao próprio Rei, nesse sentido, ele mesmo interessado na resolução do conflito, levou a contemplar diversos mecanismos para que os estudantes desavindos pudessem fazer as suas provas, sem ao mesmo tempo "vexar os professores". Não foi, parece, pacifica entre os lentes, e em especial os da Faculdade de Direito, o processo que permitia "a realização dos actos", o que não obstou a que um Decreto (23 de Maio de 1907) do ministro do Reino determinasse a "reabertura da Universidade para efeitos de exames", mediante algumas condições.

Pretendia-se, dado a ordem a cumprir rigorosamente, que os estudantes regressassem individualmente e "somente nos dias indicados para as provas", para que afastada a presumida "reunião" dos alunos dos "cursos jurídicos", de onde pertenciam os mais intransigentes, se estabelecesse a quebra de "solidariedade" entre os estudantes de Coimbra e entre estes e os do resto do país. Diversos normativos foram publicados para o efeito, quer no que respeita a Coimbra, quer aos cursos de Lisboa e Porto.

Desta forma, em Coimbra, dos "1049" alunos matriculados, "encerraram a matricula 866 alunos", para efeitos de exame. Por decisão do Conselho de Decanos [1 de Abril de 1907] sete alunos tinham sido expulsos e recusaram-se a requerer matrícula [diz-nos Alberto Xavier] 160 alunos [e não 155 como foi na altura registado]. Tais estudantes "que procederam como homens de perfeita responsabilidade, dotados de livre autonomia de vontade, os quais, desinteressada e briosamente, se recusaram a requerer matrícula para efeitos de exames, enquanto os sete camaradas, injustamente expulsos, não fossem restituídos à plenitude dos direitos e regalias universitárias" [idem, ibidem], a opinião publica denomino-os de intransigentes.

Aos intransigentes, a estes alunos, foi dada a ordem de "abandonar Coimbra". Muitos regressaram às suas casas, mas um curioso grupo deles foram "passar o Verão à praia da Figueira da Foz, onde organizaram uma ‘pousada’ denominada dos Intransigentes, na Rua do Melhoramento, 63. Logo de início os comensais eram

Alfredo Pimenta, Alfredo França, M. Monteiro, Pestana Júnior, Justino Campos, Teixeira Jardim, Sant'Ana Leite, e Parreira da Rocha. Outros apareceram a aumentar o número" [ibidem]

Diz-nos, ainda, Alberto Xavier, citando o jornal O Século de 14 de Junho, desse ano:

"O 'Cenáculo dos Intransigentes', instalado na Figueira da Foz, continua sendo o ponto de reunião de todos os estudantes que não encerram matrícula na Universidade. Aquela agremiação académica tem já um hino próprio, denominado charge aos furadores da greve, e que se vai tornando popular, por os estudantes o cantarem, em grupos, pelas ruas, nas proximidades do cenáculo. O autor do hino foi o maestro Dias Costa

J.M.M.

terça-feira, 27 de março de 2007

UNIVERSIDADE DE COIMBRA


Universidade de Coimbra

Jardim do Páteo da Universidade - Foto: Arquivo Fotográfico

J.M.M.

domingo, 25 de março de 2007

CRISE, CONFLITOS E GREVES NA UNIVERSIDADE DE COIMBRA - NOTA BREVE


Desde a sua fundação (1290) a Universidade de Coimbra foi palco de infindáveis acontecimentos que tiveram no seu centro os estudantes e que, por isso, merecem a melhor das atenções. Quer se tenha tratado de invectivas, soiças ou arruaças, motins (como aquele contra os cristãos-novos (1630), tumultos (caso da desordem na sala dos Capelos em 1757), constituição de trupes (vide o Rancho de Carqueja, 1720-21), participação dos estudantes nas guerras da restauração (1645) ou nos diversos batalhões académicos formados, seja o caso do assassinato dos lentes (18/03/1828) ou a constituição da sociedade secreta dos Divodignos, até mesmo a acção das diferentes Sociedades Secretas (ex: Sociedade do Raio, 1861-1863), passando por pontuais, mas não indiferentes, movimentos de luta estudantil (caso do conflito havido, em Junho de 1938, contra uma conferência de um fascista italiano nos Direitos) ou mesmo, se quisermos, o repúdio da Academia contra o filme "Capas Negras" (1947) ou uma bem curiosa greve aos cinemas de Coimbra (1932), os estudantes da Academia de Coimbra conquistaram, ao longo de gerações, um espaço legítimo na luta política, social e cultural do país.

Desses conflitos, crises ou greves, que animaram o espírito coimbrão, registe-se pela sua vitalidade e importância:

o conflito conhecido por Tomarada ou Entrudada (Fevereiro-Março 1854) entre os estudantes e os futricas / conflito da Rolinada (Abril-Maio de 1864) onde participa Antero de Quental / a Questão Coimbrã (1865-1866) / a Zé Pereirada (1881) / a Questão da Sebenta (1883) / a greve (ou parede) de Maio de 1886 contra o Reitor Adriano Abreu Cardoso Machado / a greve de 1892 / a Campanha do Ferrão (1898) / a Revolta do Grelo (Março-Abril de 1903) / a Questão Académica ou a Greve de 1907 / o conflito resultante da criação das Universidades de Lisboa e Porto e o desdobramento da Faculdade de Direito (1911-1913) / conflito "Olha o Boné" (1913) entre estudantes e polícias / o conflito entre os estudantes da Escola Normal Superior e o seu director (Fevereiro-Março 1916) / a Greve de 1919 (Maio-Junho de 1919) contra a transferência da Faculdade de Letras / a Tomada da Bastilha (25/11/1920) / o conflito entre o V Ano Médico e o dr. Ângelo da Fonseca (Abril-Setembro 1921) / o conflito de Maio-Setembro de 1924 / a greve em "protesto contra a reforma universitária do Governo da Ditadura" (Maio de 1928) / a Tomatada (1930) / a reacção académica ao Decreto 40900 de 1956 / a crise académica de 1962 / a crise de 1965 como resultado da vitória nas eleições da AAC da lista do Conselho das Repúblicas / a crise académica e Greve de 1969 / a crise de 1970/71.

Fonte principal: A Academia de Coimbra (1537-1990), de Alberto de Sousa Lamy, Rei dos Livros, 1990.

Foto: reprodução da 1ª página do jornal do Conselho das Repúblicas, Coimbra, Março de 1968. Curioso porque traz um "Sumário da Crise" de 1961/62, uma reflexão sobre a Questão Coimbrã (por Celso Cruzeiro), além de vários artigos, entre os quais o "Desafio à Universidade" (por Rui Namorado) e "Os 20 Anos do Conselho de Repúblicas" (por Décio de Sousa)

J.M.M.

A CRISE ACADÉMICA DE 1962



"Faz hoje 45 anos, milhares de estudantes revoltaram-se. Marcelo Caetano solidarizou-se com eles, pela autonomia da universidade. Jorge Sampaio e alguns dos principais líderes em Lisboa, Coimbra e Porto contam como viveram esse dia e a influência que a luta teve na sua vida (...)

Mentiras ministeriais, agressões brutais da polícia, humilhação inflingida ao reitor, que mantinha relações cordiais com os dirigentes associativos - está constituído o caldo de cultura explosivo que vai baptizar politicamente milhares de jovens estudantes portugueses.
Nos três meses de agitação que se seguem e nas ondas de choque que se repercutem pelas vidas de muitos deles - 150 perdem o ano, muitas centenas são presos, vários torturados, 43 expulsos do sistema de ensino, numerosos chamados à tropa - forja-se uma nova geração que prepara o fim do Estado Novo ...
"

[Adelino Gomes, in Crise de 62 contada pelos que a dirigiram, jornal Público (P2), 24/03/2007 - sublinhados nossos. Foto do jornal Público, com a devida vénia]

J.M.M.

sábado, 24 de março de 2007

AINDA ... BERNARDINO MACHADO


«A greve académica de 1907, cujo ponto de partida foi a acintosa reprovação do Dr. José Eugénio Ferreira no acto de doutoramento em Direito, revestiu significado politico evidente, tanto mais que se tratava de uma personalidade em evidência no Partido Republicano de Coimbra. Todavia, foi o carácter afrontoso, e contrario a todas as práticas, dessa reprovação de um licenciado que desencadeou na Universidade uma situação insurreccional que não tardaria a alastrar à demais escolas superiores e liceus do país.

Bernardino Machado, na inauguração do Centro Eleitoral de Belém, em Março desse ano, não apenas dá a cobertura moral do seu imenso prestigio às revindicações estudantis como declara que, se algum estudante fosse, "como caudilho desse honroso movimento, expulso das aulas por um arcaico e falso critério disciplinar ele as considerará também para si fechadas"
Poucos dias depois, retomará no Centro Democrático de Lisboa o tema da disciplina académica que já versava em 1885. A defesa dos estudantes é acompanhada de censuras não menos firmes à Universidade ao seu imobilismo.

O Governo de João Franco diligencia junto do Reitor Santos Viegas no sentido de Bernardino Machado ser objecto de processo. Inteirado de que tal pretensão se não concretizaria, pede a exoneração de lente catedrático por ofício datado de 16 de Abril de 1907 mas remetido alguns dias depois.

Posteriormente, em Junho, numa entrevista concedida a Mayer Garção para o jornal "O Mundo", Bernardino Machado inserirá com extrema lucidez a questão universitária e as medidas repressivas governamentais no processo ditatorial de João Franco.

O pedido de demissão de Bernardino Maçado e o apoio incondicional prestado aos estudantes durante toda a crise académica provocaram a maior emoção em todo o País. Além da homenagem pública que lhe seria prestada em Julho desse ano, existem vários documentos epistolares altamente significativos, entre os quais um soneto, ao que supomos inédito, de Angelina Vidal.

Entre as reacções mais significativas inclui-se, decerto, o de um dos sete estudantes expulsos, Campos Lima, dada à estampa no "País" sob o título de A lógica dos factos. Caracterizando o que poderíamos chamar "a ilusão reformista" de Bernardino Machado em relação à Universidade, a sua aposta numa "corrente nova de lentes" que levariam por diante uma reforma radical da instituição, Campos Lima [que, ao que parece, mantinha curiosos debates com Bernardino Machado, que lhe publica, via 'Instituto', e a pedido do prof. Marnoco e Sousa, a sua tese de dissertação, 'O Movimento Operário em Portugal'] aditava:

Aquando da sua oração de sapiência já alguma coisa devia ter-lhe levado ao espírito o convencimento de que a Universidade não se modificava com palavras de amor, se o espírito desse homem não fosse de uma grande generosidade, que é o seu maior defeito. O conflito académico, em cujas responsabilidades uma manifesta má vontade dos dirigentes o ia envolvendo, sem que a Universidade pela pessoa dos seus lentes se erguesse num protesto, como a Academia o fez para connosco, os estudantes expulsos, deve ter-lhe feito ver claro a respeito das belezas daquele armazém de sábios sem ciência'

A exoneração de Bernardino Machado marca de facto o termo das tentativas de reestruturação da Universidade a partir de um conjunto de pressões endógenas»

[Rogério Fernandes, in Bernardino Machado e os problemas da Instrução Pública, Livros Horizonte, 1985 - sublinhados nossos]

J.M.M.

sexta-feira, 23 de março de 2007

A QUESTÃO DA UNIVERSIDADE - A POSIÇÃO DE BERNARDINO MACHADO


Agradecendo a mensagem enviada pelo nosso leitor, vimos esclarecer que ainda não foi possível abordar a questão da posição dos vários professores da Universidade perante o conflito. Porém, é nossa intenção tratar também esta temática nos próximos dias, porque a bibliografia sobre este assunto ainda continua por explorar.

No caso de Bernardino Machado, conhecemos as obras que nos refere, mas até agora não foi possível utilizá-las pois não as possuimos nas nossas "pequenas" bibliotecas pessoais.

Mas recordamos a propósito o que ele próprio afirmava em 1907:

Os agravos que, num momento passageiro de exaltação mútua, um ou outro estudante cometeu, mas toda a academia, logo reunida em assembleia geral, repudiou, indo dar deles satisfação, castiguem-nos, se não têm grandeza de alma para os perdoar. Mas castiguem, sujeitando-os ao fôro comum, em conformidade com o código penal, que desde 1885, dispõe sobre a matéria, e não ao fôro universitário, que, por falta de garantias para a defesa, desde que deixe de ser paternal, converte-se em inquisitorial. Nem sirva de enbaraço o decreto de 1839 sobre disciplina académica, porque outro decreto ou uma lei o derroga. O que seria incrível é que a Universidade que ensina o direito, o não praticasse. Castiguem, muito embora, se crêem mais na eficácia do rigor do que da bondade. [apud Bernardino Machado, A Universidade de Coimbra, 1908, p. 306-307 in Angelo Vaz, Bernardino Machado. Sentimentos, Ideias e Factos do seu Tempo, Ed. do Autor, Porto,1950, p. 89]

Fica clara, desde aqui, a posição deste ilustre professor da Universidade, que assume a defesa dos estudantes, mas sobretudo a importância de não os julgar pelo fôro académico, mas de acordo com o Código Penal então vigente. Outros professores tomaram posição na defesa dos estudantes, mas a atitude daquele que viria a ser Presidente da República foi extremamente importante no contexto da época, até porque era uma figura muito conhecida e respeitada, mesmo nos meios monárquicos, porque já tinha feito parte de governos regeneradores.

Renovamos os nossos agradecimentos pela informação bibliográfica e pela atenção que nos dispensa.

[foto in Arquivo Fotográfico de Lisboa]

A.A.B.M.

terça-feira, 20 de março de 2007

ACADÉMICOS DE COIMBRA



Académicos de Coimbra nos jardins do Ateneu Comercial - foto de Carlos Alberto Lima, in Arquivo Fotográfico.

J.M.M.

segunda-feira, 12 de março de 2007

LENTES DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA (II)



Grupo de professores da Universidade de Coimbra (1899?). Reconhecem-se: Afonso Costa, Sidónio Pais, Calisto, Alberto Reis, Guilherme Alves Moreira.

Foto de Alberto Carlos Lima, in Arquivo Fotográfico.

J.M.M.

sábado, 10 de março de 2007

OS ESTUDANTES - POR CAMPOS LIMA


"Os estudantes, segundo o regulamento da casa, sam obrigados a um trajo especial. A capa e batina, habito talar propriamente, ficou como reminiscencia d'aquela boa Universidade fradesca, toda humanista, sem preocupacões d'ordem scientífica, que fez as delicias d'algumas gerações de frades.
O trajo academico, á rigori e conforme a praxe universitaria estatue, seria uma coisa sem elegancia e cheia de gravidade. Esmancham os rapazes a disciplina do vestuario, terçando as capas ou descendo-as dos hombros. Em regra só os lentes observam a lei, usando a capa sobre as espaduas caindo lisa até aos pés.

Caso sem importancia, sem significação, dirám. Logico parece que isto não deva ser tomado em conta para o balanço da vida universitaria.
Pois engana-se quem assim cuida. Nada mais fundamental. A capa e batina e o modo de a usar, desde que se transpõe a Porta Ferrea ou a Porta Minerva, se entra ao Museu ou ao Jardim Botanico, é uma questão de vida e de morte para a Universidade. Ha archeiros zelosos encarregados da compostura da nossa toilette e que nos podem levar á reitoria, como renitentes no desleixo da vestimenta.

A questão das gravatas é um capitulo interessantissimo na historia interna do estabelecimento. A gravata deve ser preta; do contrario, como num colegio, o estudantinho que prevaricou pode ser impedido de entrar na aula e, quando haja reincidencia e ainda por cima se atreva a protestar, arrisca-se a passar um mau quarto d'hora na reitoria.
E não se diga que isto poderia ser uma questão de birra da parte de reitores irrasciveis. Não, senhores. Sabem bem o caso d'aquele bom reitor que comprava gravatas aos rapazes e a cada um que lhe levavam por pecha de mal engravatado presenteava com uma gravata convenientemente preta. Não era birra. Era, como não podia deixar de ser, o natural funcionamento da engrenagem universitaria.

Ha também quem faça questão por causa dos rasgões da batina. Os archeiros então mandam-nos cozer e não ha remedio senão dar os pontarecos. Muito estudante atribue reprovações e má disposição de certos lentes ao facto de não se escovar todos os dias, não usar botas de polimento, trazer a capa cossada, a batina rota e a barba por escanhoar.

Assim a Universidade tem o aspecto d'uma grande alfaiataria. Á viva força nós havemos de sahir de lá cuidadosos com o fato, preocupadíssimos com o laço da gravata, considerando a linha elegante do nosso perfil desenhado ao lado na sombra que vamos projectando sobre a calçada e de que nos enchemos de inveja.

Se ele é assim, ha uma lacuna importante nos Gerais. É urgente mandar colocar nas paredes uma fileira de espelhos"

[Campos Lima, no nº 3 de Verdade, 31/10/1903 (aliás, in A Questão da Universidade. Depoimento d'um estudante expulso, Livraria Clássica Editora, 1907)]

J.M.M.

sexta-feira, 9 de março de 2007

LENTES DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA



Grupo de lentes da Universidade de Coimbra no palácio das Necessidades, que veio apresentar ao rei uma mensagem de congratulações - Junho de 1908

Foto de Joshua Benoliel, in Arquivo Fotográfico.

J.M.M.