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sábado, 22 de fevereiro de 2020

IN MEMORIAM DE VASCO PULIDO VALENTE (1941-2020)


Morreu VPV. Inútil falar nas qualidades intelectuais patenteadas nos seus diferentes escritos, compêndios que gulosamente lambiscávamos e soletrávamos, a fermosa estrivaria rinchava e o raminho da fazenda púbica caluniava. Eles aí estão, curveteados à falta de liberdade, para contar. Tomem lá arremedos, Ó mestres d’aldeia.

Obrigado VPV. Obrigado pela prosa no Almanaque. Obrigado pelo receituário no Tempo e o Modo. Obrigado pelas diatribes no Indy e na Kapa. Obrigado pelas mil crónicas & outros tantos artigalhos. Definitivamente … Obrigado! [J.M.M.]

 “ … Deus sabe que eu nunca fui assim. Não falo do corpo. O corpo está lá, sei perfeitamente. E já não está tão bom como era, concedo. Há sinais de que, por cerimónia, omito a descrição. Uma vez por ano, resolvo meter o corpo na ordem. O ano passado, por exemplo. Não lhe dei de comer e, sobretudo, de beber. Tirei-lhe quarenta cigarros por dia. Dobrei-o e estiquei-o, com método e persistência, em várias direcções. Corri com ele à borda do rio. Introduzi-o numa piscina que tresandava a desinfectantes e lá o fiz andar de um lado para o outro até o pôr de rastos.
O sofrimento que estas coisas lhe causaram, e me causaram a mim, não se descreve. Se ele não ficou melhor, ficou, pelo menos, diferente. Alguns íntimos e amigos pareceram apreciar as modificações. Presumo que os traços da tortura física auto-infligida indicam elevação moral. Ignoro se indicam saúde. Sobre essa matéria o meu corpo não se pronunciou.
Estes acessos de loucura não tendem, normalmente, a durar. E eu torno a cumprir os meus deveres. Um corpo da idade do meu já merece que o deixem em sossego e o poupem a cenas ridículas. Ele não quer ser mais novo. Eu, às vezes, quero que ele seja. Mas sou eu, não é ele, coitado. Ele nasceu em 1941 e não tem vergonha nenhuma. Até aqui, aliás, não se portou mal. Houve uma época em que me inquietava. Perdi muito tempo a exibi-lo inutilmente a médicos. Hoje não me inquieta. Ele que decida o que lhe apetecer, quando lhe apetecer. Eu parto do princípio de que ele não existe. Evito incomodar-me. Dali não me virá com certeza nada de bom. Nestes casos, a melhor política é a indiferença. Uma indiferença fingida, escuso de esclarecer. Afinal, a qualquer momento, ele pode acabar comigo.
Depressa ou devagar, com alguma dignidade ou impensáveis humilhações. Eu assisto à óbvia incompetência dele, calado e quieto. Para não o provocar e para não lhe ceder. Recuso-me a tratá-lo como se ele fosse um velho; com mimos e cuidados de velho. Ele que se aguente. Ou não se aguente.


[DESTINOS] Deus sabe que eu nunca fui assim e eu também sei que não fui. Só não sei o que fui. Falta à minha vida ordem e finalidade e, por isso, não posso dizer «fui assim» e, a seguir, «assim». Uma carreira ajudava. Fui tenente, major e capitão; deputado e ministro; assistente e catedrático. Uma vocação ajudava: fui filho, pai e avô. Uma obra ajudava; o meu primeiro livro, o segundo, o terceiro. Tudo isso ou parte disso talvez me permitisse dividir, arrumar, organizar o passado. Até uma grande ambição ajudava: estive mais longe ou mais perto, ganhei mais dinheiro ou ganhei menos. A mim, infelizmente, as coisas sucederam-me sem nexo ou deliberação. Comecei e desisti. Desisti e recomecei. Desejei e não desejei. Dei meia volta ou a volta inteira.
Se me obrigassem a escrever a minha biografia, não era capaz de escrever uma história coerente. Nem sequer com alguma arrumação de superfície. Mesmo pelas regras mais simples: infância, adolescência, juventude, maturidade, velhice. Era velhíssimo na adolescência, adolescente na maturidade e toda a gente me acha simultaneamente infantil e soturno. E não me lembro de períodos fixos, de mudanças drásticas, lembro-me de acontecimentos. De uma noite, à saída de Lineacre College, em Oxford, com muito frio e uma neve brilhante, em que me senti, por qualquer razão trivial, a mais admirável criatura terrestre. Do elevador em que me levaram à sala de operações subterrânea de uma clínica de Biarritz, inerme e nu, como pura carne. De um café vazio, à noite, no Luso, com mesas de fórmica e o chão molhado, onde de repente verifiquei que não havia motivo plausível para sair dali.

Quando penso na minha vida, penso nestes episódios e noutros como estes, que não permitem a separação em «antes» e «depois» e não revelam qualquer curso, honroso ou não. Em cinquenta anos, não notei indícios de um destino manifesto ou de um destino humildemente necessário. o que eu escolhi, ou que me sucedeu sem eu escolher, foi um acaso e eu próprio sou um produto de coincidências improváveis, de circunstâncias efémeras, de emoções sem substância. Os factos consumaram-se sempre por mecanismos obscuros, totalmente estranhos à minha vontade. «O que é que eu estou aqui a fazer?», perguntava eu, desastre após desastre. «Como é que eu vim aqui parar?». Péssimas perguntas.
Durante muito tempo supus que viver bastava, por simples acumulação, para me definir uma personagem e um caminho. Definiu, excluindo, como com toda a gente. O poder físico e o poder intelectual diminuem. Algumas pessoas acreditam que nos conhecem e retiram-nos o benefício de certas dúvidas. E, principalmente, numa sociedade doméstica como a portuguesa, cresce o número dos nossos inimigos, tácitos ou confessos. Se eu me defini, defini-me a coleccionar inimigos. Eles mostram o que eu sou e eu sou o que eles mostram. Mas que as possibilidades se reduzem à medida que se roda para o fundo do funil é um antigo lugar--comum e nem sequer se distingue por ser verdadeiro. Descontado o irremediável (já de si relativo e ambíguo), sobra ainda quase tudo. O caos persiste.


[INTIMAÇÕES DE MORTALIDADE]. Não há transição. A infalibilidade e a confiança perdem-se de repente. Ontem corria tudo bem, hoje corre tudo mal. Ontem não se fazia um erro, hoje só se fazem erros. A pessoa é a mesma: o corpo e a cabeça. As circunstâncias são as mesmas, os outros são os mesmos. Por mais que se procure nada mudou. Só mudou o efeito que se produz no mundo. Um homem deita-se com o mundo aos pés e acorda com ele às costas. As mulheres fogem, os amigos desaparecem, os telefones desligam-se. Dantes andava-se e esquecia-se. Agora, a vida pára. Repete-se. Um mês é igual ao anterior e ao próximo e ao seguinte. Não acontece nenhuma coisa diferente, só acontecem coisas indiferentes. Por qualquer razão obscura, na° se consegue descobrir o sítio onde as coisas acontecem; e elas 0 na° acontecem onde aconteciam.
Um pequeno pânico instala-se. Ao princípio, pensou-se que era um estado passageiro, uma época de azar ou de mau jeito. Mas depois o estado não passa, a sorte não vem e o mau jeito continua. Conta-se com angústia o tempo para trás e, a certa altura, conta-se com terror o tempo que sobra. Deixa-se de ter quarenta e três ou quarenta e sete anos e têm-se treze anos até aos sessenta ou dezoito até aos sessenta e cinco E não será optimismo os sessenta e cinco? E vale a pena? Acontecem coisas aos sessenta e cinco? Não com certeza as coisas que acontecem aos trinta.
Eu penetrei na impropriamente chamada meia idade desta maneira: ou seja, aflito. O céu caiu-me em cima sem aviso. Nestas crises, segundo o costume, as pessoas agarram-se: à família, ao trabalho, às ambições. Reparei que os meus amigos se agarravam. Um a um, consoante a sua natureza, transformaram-se em secretários de Estado, políticos respeitáveis, académicos triunfantes, altos funcionários ou pais extremosos. Vários preferiram a virtude, ideológica ou sexual. Com meritórias excepções, quase todos se encaminharam. Mas precisamente eu não pretendia encaminhar-me Deus sabe que eu nunca fui assim”

Eu Sempre fui Assim: Auto-retrato aos 50 anos” – por Vasco Pulido Valente, in Retratos me Auto-Retratos, Assírio e Alvim, 1992 (aliás in revista Kapa, Fevereiro de 1992) – com sublinhados nossos.
J.M.M.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

CONTRA-REVOLUÇÃO E RADICALISMO NO PORTUGAL MODERNO. O FUNDO DA GAVETA – VASCO PULIDO VALENTE



LIVRO: Contra-Revolução e Radicalismo no Portugal Moderno. O Fundo da Gaveta;
AUTOR: Vasco Pulido Valente;

EDIÇÃO: Dom Quixote, 2018, 282 pp.

“A Monarquia Constitucional portuguesa explicada por Vasco Pulido Valente. Num primeiro ensaio, A Contra-Revolução, esclarece como D. Miguel falhou a tentativa de restaurar o absolutismo. Com o irmão, D. Pedro IV, precipitou o país para as Guerras Liberais. Ressurreição e Morte do Radicalismo, o segundo ensaio, descreve a posterior tentativa falhada de modernização do país, que não conseguiu reformar o Estado, fazer a economia crescer e educar a sociedade.

Assim se conduziu o país para uma nova revolução, a republicana, de 1910. Um livro escrito no estilo inconfundível de Vasco Pulido Valente, O Fundo da Gaveta é uma descrição brilhante do Portugal oitocentista e uma poderosa metáfora do nosso país” [AQUI]

J.M.M.


 

 

 

domingo, 16 de novembro de 2014

[ESTADO DA NAÇÃO] “TEMOS MUITA SORTE” – VASCO PULIDO VALENTE


O dr. Cavaco acha que não há uma crise política na República e que tudo corre normalmente. O primeiro-ministro Passos Coelho concorda com ele. Claro que, por aqui e por ali, houve um ou outro percalço. Nada de importante. A sra. ministra da Justiça permitiu que se criasse uma enorme trapalhada nos tribunais por causa da 'plataforma' Citius e continua por aí a ameaçar os putativos culpados, que não aparecem. Mas Passos Coelho gosta muito dela e quer que ela fique descansadíssima no seu lugarzinho. O ministro da Educação, Nuno Crato, presidiu à mais confusa abertura do ano lectivo em vinte anos, mas, como sempre, o seu querido chefe e amigo não se quis separar dele e até, para que não ficasse a mais leve dúvida sobre o assunto, o elogiou em público.

Parte do Governo caiu com certeza num buraco, porque não se ouve falar dele e, na baralhada de títulos da Presidência do Conselho, não se consegue perceber o que é suposto fazer cada um. Os sr. Poiares Maduro e o sr. Marques Guedes, de quando em quando, ainda perpassam pela cena para se aliviar de alguma irrelevância. O sr. Lomba não é visto desde 2013 e correm boatos sérios de que emigrou à socapa. De qualquer maneira, para Passos Coelho, são essenciais. Sem eles, a Gomes Teixeira não tinha com certeza a mesma alegria e a mesma vivacidade. Falta evidentemente o grupo anónimo, que anda de carro preto, e de que não se conhece com segurança a existência e o destino. O que não impede o dr. Cavaco de se rever com satisfação na normalidade e no fulgor da nossa querida democracia.

Anteontem, soubemos com espanto que a polícia suspeitava de corrupção, de peculato e de branqueamento de capitais de 11 personalidades de consequência, entre as quais: o director nacional do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, o presidente do Instituto de Registos e Notariado e a secretária-geral do Ministério da Justiça. Mais de 200 agentes da PJ revolveram e tornaram a revolver 60 escritórios de altos dirigentes da administração do Estado. Não se sabe o que por lá encontraram. Seja como for, o ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, que conhecia alguns dos presumíveis patifes, resolveu, com senso de responsabilidade e decência, apresentar a sua demissão. O primeiro-ministro disse logo que não, que não era capaz de viver sem ele e que, evidentemente, a actual situação, sendo inteiramente normal e quase feliz, não justificava um gesto tão drástico. De Belém não veio um murmúrio. Temos muita sorte.”


J. M. M.

domingo, 27 de janeiro de 2008

D. CARLOS


D. Carlos

" ... D. Carlos compreendia muito bem que o ‘rotativismo’ liberal estava esgotado, ou, pelo menos, que não resistiria à violência popular em Lisboa. Existiam duas soluções: reprimir pela força a agitação urbana (como a seguir se fez na ditadura) ou integrar o radicalismo no regime através de um novo arranjo partidário e de eleições, por assim dizer, ‘honestas’. Apoiando João Franco, o Rei tentou a ‘segunda via'. Sucede que a 'segunda via', com 62 por cento da população na agricultura e 75 por cento de analfabetos, para não falar da quase completa ausência de uma indústria fabril, era inteiramente ilusória. Tarde ou cedo acabava mal. Acabou cedo. Os políticos da monarquia e o Partido Republicano viram com alívio a morte do rei, que imediatamente os salvava. Mas D. Carlos tornara impraticável um regresso pacífico ao ‘rotativismo’ e, depois de uns meses de absoluta desordem, veio a revolução ..."

[Vasco Pulido Valente, in D. Carlos, jornal Público, 26/02/2008]

J.M.M.

domingo, 12 de novembro de 2006

MODERNIZAÇÃO I

"Anteontem, vendo Sócrates, vi Cavaco e, vendo Cavaco, vi Caetano e, vendo Caetano, vi a longa fila de beneméritos, que tentaram, no ardor da sua inconsciência, transformar Portugal no 'modelo' do dia: a Inglaterra ou a França, a Bélgica, a Suécia, a Irlanda, a Finlândia, e até a Espanha. O espantoso é que toda a gente ouve esta idiotia histórica, com a mesma credibilidade e assombro com que sempre a ouviu. Num país normal, quem abrisse a boca para dizer 'modernização' seria imediatamente corrido e sovado. Aqui, não. Aqui, o indígena gosta dessa velha missa e venera o oficiante. A 'modernização' é uma espécie de milagre, que chegará por um caminho ínvio (a educação e a ciência) e que entretanto esconde a triste realidade portuguesa. Não é uma promessa prática, é um sinal de impotência" [sublinhados nossos]

[Vasco Pulido Valente, in Público, 12/11/2006]

J.M.M.