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domingo, 20 de agosto de 2017

VERGÍLIO FERREIRA, NOS FICHEIROS SECRETOS DO SEMINÁRIO DO FUNDÃO



Ficheiros Secretos” – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso
 
O escritor, o poeta, o filósofo e outras figuras intelectuais e artísticas deverão ser estudados, a partir da sua vida real, de actos e factos concretos que surgiram desde o nascimento á morte; ou os estudos e interpretações deverão, apenas, circunscrever-se às circunstâncias que se tornam evidentes através da sua obra?
 
Arnaldo Saraiva, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, tem adotado a primeira destas metodologias numa série de folhetos acerca de figuras públicas. O último intitula-se: "Vergílio Ferreira, Seminarista nos seminários do Fundão e da Guarda".
 
Uma investigação de extrema minúcia permitiu-lhe reconstituir o que se ignorava das origens familiares: o pai, fogueteiro, a mãe, doméstica, emigrantes nos Estados Unidos e que emprestavam dinheiro a juro; a criança a cargo da avó e das tias; Vergílio Ferreira estudante aplicado na escola primária e com aproximação diária à igreja (o tio-avô era o pároco), a ajudar à missa, e em latim, antes dos seis anos; a tocar violino e a participar nas atividades de organizações católicas (Congregação dos Filhos de Maria e Agregação do Santíssimo Sacramento).
Com a classificação de Muito-Bom, no exame geral da quarta classe do ensino primário, entrou, aos 10 anos, em 1926, no Seminário do Fundão. Arnaldo Saraiva procurou, fundamentalmente, apurar tudo o que vem (e não vem) na obra de mons. Alfeu dos Santos Pires, "História e Vida dos Seminários da Guarda e do Fundão", noutros estudos monográficos e em depoimentos de contemporâneos.
Evitou Vergílio Ferreira, na "Manhã Submersa", na "Estrela Polar", no "Diário" e na "Conta Corrente" descrever situações degradantes que lhe marcaram a infância e adolescência até aos 16 anos. Tentou resumir esse submundo de reacionarismo e de intolerância numa frase abrangente: «solidão, desconforto, rigidez de internato».
 
CULTURA DE HIPÓCRISIA
 
No entanto, a investigação de Arnaldo Saraiva reuniu elementos esclarecedores: «o dia-a-dia do seminário do Fundão favorecia por vezes menos a firmeza ou o fortalecimento da vocação do que a hipocrisia e os sentimentos de medo, culpa, frustração, desamparo e tristeza, que nem podiam ser expressos em cartas, porque estas eram obrigatoriamente entregues abertas; e, é claro, que nenhum seminarista recebia correspondência que não tivesse sido aberta e lida por um superior» E acrescenta: «os seminaristas não eram tão incentivados a usar ou a desenvolver as suas capacidades criticas como a cumprir e valorizar os deveres de obediência e de humildade». (pag. 22).
 
O PECADO DA CARNE
 
Todavia, ao caracterizar o espaço fechado e asfixiante do seminário do Fundão, Arnaldo Saraiva escreve: «o tempo diário gasto, sobretudo, em rituais religiosos» (...) «missa, terço, rezas, prédicas, exames de consciência e retiros, mais valorizados do que o tempo das aulas ou das salas de estudo». (...) «a regra do silêncio se impunha até nas horas das refeições». (...) E também as punições frequentes: «a imposição de uma disciplina militar ou militarista e castigando severamente mesmo pequenas infrações, que podiam merecer palmatoadas, verdascadas e bofetadas, ou largos minutos de joelhos e de pé virados para as paredes». (pags. 21 ,22).
 
Menciona a vigilância nos corredores e nas camaratas para afastar «o fantasma do pecado da carne» (sic): «as calças (obrigatoriamente pretas, como o casaco e a gravata) tinham de ser vestidas e despidas entre os lençóis; as mãos não podiam ser aquecidas nos bolsos; o entendimento entre colegas tinha de ser limitado para não conduzir a perigosíssimas amizades particulares». (pag. 23)
Estas medidas repressivas no domínio sexual e afetivo, e a que foram submetidas gerações sucessivasconcluiu Arnaldo Saraiva – não impediram, decorridos 90 anos, que o seminário do Fundão fechasse «as suas portas, em 2015,já depois de um escândalo que envolveu um seu vice-reitor». (pag. 51).
 
 
NOTAS CONFIDENCIAIS
Apesar do encerramento, amplamente noticiado na comunicação social, das declarações contraditórias de bispos da diocese, de processos-crime de pedofilia julgados em Tribunal e a aguardar decisões de instâncias judiciais superiores, perdura o arquivo do Seminário do Fundão. Possui fontes documentais, até agora, consultadas por um número muito restrito de eclesiásticos como Alfeu dos Santos Pires e de que só chegaram ao público informações escassas e muito filtradas.
 
Ao ter acesso aos livros de registos, Arnaldo Saraiva extraiu notas manuscritas e que constam de fichas de comportamento e aproveitamento (19281937). Trata-se de avaliações de reitores e professores, advertências de diretores espirituais e denúncias de confessores que seguiam, de perto, o percurso de cada aluno, em cada ano escolar. Também se destinavam a informar o bispo da diocese da Guarda José Alves Matoso.
 
Entre as observações mais significativas a propósito de Vergílio Ferreira destacam-se, nomeadamente; inteligência e aplicação «regulares»; caráter «afeminado e voluntarioso; tem muitos nervos, é um histérico»; e, ainda, por exemplo, faz «tratamento antissifilítico. É hereditária a doença». (pags.24 a 29)
 
Em Vergílio Ferreira, Seminarista nos seminários do Fundão e da Guarda, Arnaldo Saraiva desfez tabus, esclareceu equívocos, desmontou opiniões falsificadas, corrigiu datas e, em especial, recolheu numerosos documentos inéditos com revelações surpreendentes. Tudo isto porque Arnaldo Saraiva reconhece que, apesar dos livros sobre Vergílio Ferreira da autoria de Maria da Glória Padrão e Helder Godinho, de Serafim Ferreira e Fernanda Irene Fonseca, entre outros estudiosos, Vergílio Ferreira «espera ainda e merece, uma biografia digna», (pag. 7)

MANANCIAL PRODIGIOSO
O universo cadaveroso dos seminários - viveiro dos precursores da delação premiada – proporcionou a largos milhares de antigos alunos, que foram expulsos ou desistiram do sacerdócio, as habilitações indispensáveis para ingressar no funcionalismo público (Câmaras Municipais, correios, tribunais, Policia Judiciária, PIDE, etc) ou, então, nos cursos do magistério (primário, secundário e superior). No caso de Vergílio Ferreira serviu-lhe para fazer o liceu, entrar na Universidade de Coimbra, formar-se em Letras e lecionar, em diversos liceus, Português, Latim e Grego. A repetir, durante décadas, sempre o mesmo do mesmo.

O «exercício burocrático do ensino» – assim me declarou várias vezes – assegurava-lhe a subsistência económica e o equilíbrio financeiro. Cinco ou seis anos de vexames e de humilhações, nos seminários do Fundão e da Guarda, deram-lhe um prodigioso manancial de conhecimento vivido, para reflexões angustiantes em torno da natureza humana. Abriram caminho para se afirmar como um dos mais notáveis escritores portugueses do século XX e com legítima ambição ao Prémio Nobel da Literatura.

Ficheiros Secretos – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 19 de Agosto de 2017, pp. 68/69 – com sublinhados nossos.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

VERGÍLIO FERREIRA OU PORTUGAL POR DENTRO. NA MEMÓRIA DOS DIAS



Vergílio Ferreira ou Portugal por dentro” – por António Valdemar, in Público
Portugal, a sua história e a sua memória foram objeto de abordagem, reflexão e comentário de Virgílio Ferreira, cujo centenário do nascimento está a ser assinalado, com debates em torno da sua obra. Fez a anotação cronológica do tempo vivido. Foi direto, frontal e controverso. Registou afetos e aversões que nele se mantiveram até ao fim e retrataram o seu modo de ser. Ensimesmado. Inquieto. Hesitando. Morrendo. Vivendo.

A memória polémica dos dias constitui o cerne das duas séries da Conta Corrente. O primeiro tomo começa a 1 de Fevereiro de 1959. Fizera 53 anos. Prolongou – se em nove volumes até Dezembro de 1992. Tinha coisas mais importantes para escrever? Já dissera tudo? Estava com 76 anos. Faleceu em 1996 com 80 anos. Seguiu a advertência de Dostoiewski: os «quarenta anos são a idade em que quase toda a gente se confessa. E travou a mesma luta de Sartre, outro dos seus mestres, ao sentir a urgência de «dizer a verdade», «o (sonho) de todo o escritor ao entrar na velhice». Se for publicada a correspondência com Lima de Freitas, Luís Albuquerque, Costa Marques, Mário de Sacramento, Eduardo Lourenço serão esclarecidas muitas posições que assumiu e não assumiu. A verdade possível ficou nas cartas aos amigos mais próximos.
 
Nas várias fases da criação de Vergilio Ferreira elegeu temas que vão perdurar no seu universo e que, de um modo ou de outro, se multiplicam na Conta Corrente. Não se reduzem, apenas, ao círculo familiar, aos conflitos pessoais, às querelas literárias, à oposição a Salazar e ao Salazarismo, a Marcelo Caetano e aos seus acólitos. A guerra aberta a Vasco Gonçalves e ao gonçalvismo. O apoio a Mário Soares na liderança do Partido Socialista e ao exercer a Presidência da Republica. Distinguiu – o com as maiores honras. Apesar disso, Virgílio Ferreira adotou uma reserva sistemática. Outra coisa não era de esperar. Tinha a amargura de quem vive quotidianamente dececionado e surpreendido por fatos consumados.

Assim se pronunciou acerca do comportamento individual e coletivo, dos portugueses, numa visão genérica, em vez de se ocupar de cada região, como fez Oliveira Martins (Joaquim Pedro) na introdução da História de Portugal a propósito das singularidades que se verificam nas populações do Minho ao Algarve, de Trás os Montes ao Alentejo. Procurou formular ideias próprias. Tentou aproximar – se dos ensaios de Eduardo Lourenço, a Psicanalise Mítica do Destino Português, no Labirinto da Saudade para interpretar fatores de identidade. Todavia, não atingiu a dimensão de Eduardo Lourenço, ou do próprio Vergílio Ferreira nos ensaios que reuniu em Espaço Invisível.
Portugal desde que começou a pensar-se – escreveu Vergílio Ferreira, numa indagação das raízes e vicissitudes – pensou-se sempre, não em função dele próprio mas em função dos outros; não em função do que devia pensar de si, mas do que julgava que os outros pensavam dele e do que ele de si pensava. Assim, a nossa individualidade nunca se confrontou consigo própria mas com a individualidade alheia. A nossa bazófia congénita vem da necessidade de que se repare em nós. Como não construímos nada, valemo-nos da farófia para compensar e assim salvarmos alguma coisa. Julgamos confusamente que a pesporrência é um direito legítimo de quem fez coisas"

Ao inventariar defeitos e virtudes incidiu sempre nos defeitos: “Nós inventamos esse direito para parecer que também fazemos. Há uma expressão popular que diz: «arrota, pelintra». Nós, da abundância, temos só o arroto. Usamos um vestuário espampanante, mas não usamos roupa interior nem nos lavamos. E todavia estar a dizê-lo é colaborar ainda na nossa degradação. Nós não sabemos ter respeito por nós próprios - mas que fazer?".
Observou, de imediato: «Pensar Portugal é pensá-lo no que ele é e não iludirmo-nos sobre o que ele é. Ora o que ele é a inconsciência, um infantilismo orgânico, o repentismo, o desequilíbrio emotivo que vai da abjeção e lágrima fácil aos atos grandiosos e heroicos, a credulidade, o embasbacamento, a difícil assunção da própria liberdade e a paralela e cómoda entrega do próprio destino às mãos dos outros, o mesquinho espírito de intriga, o entendimento e valorização de tudo numa dimensão curta, a zanga fácil e a reconciliação fácil como se tudo fossem rixas de família, a tendência para fazermos sempre da nossa vida um teatro, o berro, o espalhafato, a desinibição tumultuosa, o despudor com que exibimos facilmente o que devia ficar de portas adentro, a grosseria de um novo-rico sem riqueza, o egoísmo feroz e indiscreto balanceado com o altruísmo, se houver gente a ver ou a saber, a inautenticidade visível se queremos subir além de nós a superficialidade vistosa, a improvisação de expediente, o arrivismo, a trafulhice e o gozo e a vaidade de intrujar com a nossa «esperteza saloia», o fatalismo, a crendice milagreira, a parolice".

Faltava, contudo, o outro lado da moeda: “Decerto, temos também as nossas virtudes. Mas, na sua maioria, elas têm a sua raiz nestas misérias. Pensar Portugal? Mas mais ou menos todos sabemos já o que ele é. O que importa agora é apenas pensá-lo – ou seja, pôr-lhe um penso…”  Não resistiu a acrescentar que Portugal, no contexto europeu e universal é “um apêndice da sarrabulhada mundial”.
Era irreprimível a descarga de azedume. Mas foi tão intensa que tentou reconsiderar: ”Releio o que escrevi e sinto-me desgostoso. Eu não queria «dizer mal» do meu país, como os homens de 70 que, nesse dizer mal, compensavam o seu complexo de não terem nascido lá fora. O meu destino quer - o totalmente cumprido cá dentro. Tenho ao meu país um amor raivoso e infeliz». Ainda sobre Portugal e os portugueses, Vergílio Ferreira que, durante 40 anos lecionou Os Lusíadas, fez questão de acentuar: “A pátria, em momentos difíceis, descobre-se que existe. Mesmo a do vivório e da retórica. Existe. A retórica não se dá por ela, se trabalha a temperatura alta”.
Tudo isto reflete muito da visão de Eça de Queiroz, desde Uma Campanha Alegre e O Crime do Padre Amaro até à Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras. Ao indicar obras e autores que contribuíram para a sua formação intelectual citou Espinosa, Kant, Sartre, Caldwell, Steinebeck, Óscar Wilde, Jorge Amado. Menciona, noutros livros, Malraux e Heiddeger. Faltou Eça de Queiroz, que Vergílio Ferreira leu e dissecou para a tese de licenciatura na Faculdade de Letras de Coimbra. Muitos anos depois, em plena efervescência do PREC, confessou: “De vez em quando releio, uma página do Eça. E é sempre o mesmo encantamento, a mesma vibração misteriosa da «palavra». Ninguém como ele – concluiu – conheceu as ocultas ressonâncias da língua».
Mas, além de Eça, herdou o pessimismo de Oliveira Martins e de Antero; a contundência de Fialho, os pasmos e abismos de Raul Brandão. Contudo, nunca leu Gervásio Lobato, a grande farsa da  Lisboa em Camisa, as comédias de André Brun ou as diatribes de José Vilhena, a quem Rui Zink consagrou um estudo, no âmbito da Universidade de Lisboa. Também João Pedro Jorge já apresentou outra tese universitária acerca de Luís Pacheco e com o título provocatório Puta Que Os Pariu.
Houve em Vergilio Ferreira – e continua a haver em muitos outros intelectuais – relutância em avaliar a literatura marginal de contemporâneos e admitir que têm intuições que se aproximam da análise antropológica, por exemplo, nos ensaios de Adolfo Coelho e Jorge Dias. Todavia, Vergílio Ferreira assim como outros académicos – com os clássicos é obrigatório... – conheceram e aprofundaram as farsas de Gil Vicente que denunciam tendências inveteradas no povo português.
Os vários tomos da Conta Corrente de Vergílio Ferreira colocam-nos perante o homem e o escritor possuído – como afirmou Eduardo Lourenço – de «um niilismo criador», de um humanismo trágico» e da perturbação do «homem que suporta angustiadamente o desafio da finitude». Será difícil caracterizar melhor todo um percurso com direito a Nobel da Literatura. Em muitas páginas de Conta Corrente confrontamo-nos com ajustes de contas com gente medíocre, espuma de vulgaridades mas, de vez em quando, somos agarrados por reflexões que procuram comunicar um Portugal visto por dentro, na contiguidade da sua relação contemporânea e na amplitude da sua intemporalidade histórica

Vergílio Ferreira ou Portugal por dentro – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], jornal Público, 26 de Setembro de 2016, p.46 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

domingo, 22 de abril de 2012

LIVROS PROIBIDOS NO REGIME FASCISTA (I)


O EXPRESSO (por José Pedro Castanheira) apresenta na edição de 21 de Abril (pp 22-23) uma inventariação de obras proibidas durante 1933-1974 – “Os 900 livros que o Estado Novo censurou” – recorrendo ao trabalho encetado (em 2003) por José Brandão. A listagem já tinha sido anteriormente publicada pela Comissão do Livro Negro sobre o Regime Fascista (Maio de 1981, 124 pgs), mas na verdade não esgotou o rol de publicações censuradas e apreendidas pela Ditadura.

De outro modo, há um curioso zelo (ou enfado ... será?) na não divulgação da opiniosa, quanto sublime, prosa presente nos despachos dos censores (sob este assunto acompanhe-se o trabalho porfiado de José Pacheco Pereira na Ephemera). E, o que é admirável nisto tudo, é a inexistência (que se saiba) de qualquer investigação sobre as recomendações publicados nos jornais (ou em Cartas ao Director) pelos “nossos” censores indígenas (alguns escreviam sob pseudónimo) que em artigos se insurgiram contra a circulação dessas obras ditas “blasfemas”, que “minavam a juventude”, o regime e a civilização. Seria curioso testemunhar esse apostolado reaccionário, bem como entender a ligação que mantinham com sectores institucionais ligados à perpetuação da ditadura. O branqueamento desta questão (como de outras) é quase total. O silêncio é d’oiro!



[a continuar]

J.M.M.