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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

ANNES BAGANHA (Parte II)


Anes Baganha terá concluído o seu curso de veterinário com um estudo intitulado Sobre a Cultura do Arroz, apresentado no Instituto Agrícola.
Entre os nossos papéis de pesquisas efectuadas, encontramos um artigo publicado por Anes Baganha no jornal Novidades, na secção intitulada Ciências Artes & Letras, intitulado Uma Praiada. Neste artigo, o autor enaltece a beleza das praias algarvias, dando particular atenção às belezas naturais da costa entre Portimão e Lagos [cf. Novidades, Lisboa, 08-09-1886, Ano II, nº 583, p. 3, col. 1 e 2]. Um dos primeiros artigos que conhecemos sobre a importância da praia algarvia, num tempo em ir à praia era uma actividade rara, quando muito de gente viajada que já conhecia outras realidades pela Europa fora.

A sua actividade ligada à pedagogia pode ser acompanhada também através dos artigos que publicou em jornais e revistas da especialidade como a Revista de Educação e Ensino (Leça da Palmeira/Lisboa, 1886 a 1900) e A Escola. Revista de Educação e Ensino (Lisboa/Évora, 1884-1892). Mas talvez a obra mais proveitosa para acompanhar as suas propostas pedagógicas seja As Noções Elementares de Pedagogia, para servirem de guia Seguro aos Candidatos ao Magistério Primário (Porto, 1878), onde destaca aspectos como: “a utilidade da escola primária na sociedade, concepção do local e espaço da sala de aula, metodologias de ensino, manutenção da disciplina, modos de classificação, disciplinas que devem ser ensinadas, higiene nas escolas” [Moreira, Tiago, “ Baganha, Domingos Rodrigues Anes”, Dicionário de Educadores Portugueses, Dir. António Nóvoa, Edições Asa, Porto, 2003, p. 129-130]. Anes Baganha nos artigos publicados na Revista de Educação e Ensino apresentou algumas considerações interessantes acerca da importância do método João de Deus, que ele defendia, mas que causou polémica durante algum tempo, tendo participado assim no debate metodológico que então se discutia. Manifestava já preocupação com a formação das crianças, em especial no domínio moral, dando ênfase aos estímulos positivos e às recompensas e preterindo os castigos ou o sancionamento negativo.

Segundo tudo indica, na parte final da sua vida, Anes Baganha viveu um período de isolamento crescente e de doença, que o retiraram do convívio com a sociedade que o envolvia. Problemas familiares provocados por um processo de divórcio e um casamento tardio provocaram-lhe vários dissabores e desilusões que contribuíram para uma crescente solidão.


Publicou no domínio da pedagogia os seguintes artigos:
- “João de Deus –Discurso”, Revista de Educação e Ensino, vol. XI, 1896, p. 60-67;
- “O método João de Deus e a filologia”, Revista de Educação e Ensino, vol. XI, 1896, p. 347-356.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
- Franco, Mário Lyster, Algarviana, Câm. Mun. Faro, Faro, 1982, p. 215-217.
- Moreira, Tiago, “ Baganha, Domingos Rodrigues Anes”, Dicionário de Educadores Portugueses, Dir. António Nóvoa, Edições Asa, Porto, 2003, p. 129-130;
- Nóvoa, António (Dir.), A Imprensa de Educação em Portugal. Repertório analítico (séc. XIX-XX), col. Memórias da Educação, Instituto de Inovação Educacional, Lisboa,
- Portugal. Dicionário Histórico, Chorographico, Heráldico, Biographico, Bibliographico, Numismático e Artístico, Dir. Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, vol. I-A, João Romano Torres Editor, Lisboa, 1904, p. 577-578.

A.A.B.M.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

ANNES BAGANHA (Parte I)

Com o nome completo de Domingos Rodrigues Annes Baganha, nasceu em Alcácer do Sal, a 20 de Fevereiro de 1847. Era filho de Luís José Annes Baganha e de Maria da Piedade Vaz Baganha. Fez os seus estudos no Arsenal da Marinha, onde ainda realizou o exame de mecânica, mas acabou por frequentar o Instituto Industrial, onde veio a concluir o seu curso devido à obtenção de uma bolsa de estudo no Instituto Agrícola em 1863. Em 27 de Janeiro de 1867 foi colocado, por decreto, como médico veterinário, no posto de Intendente de Pecuária do distrito de Faro, onde permaneceu durante 22 anos de muito trabalho científico e literário. Em 1899 abandonou o Algarve em direcção a Lisboa, após algumas desilusões na vida política. Foi da sua autoria o recenseamento dos gados do distrito de Faro, efectuado em 1870, bem como a colecção de produtos agrícolas do Algarve, que esteve patente nas exposições de Lisboa realizadas em 1884 e 1888 e na exposição de Paris efectuada em 1889. Realizou ainda um estudo sobre a filoxera na região sotavento do Algarve, em 1886; o inquérito agrícola do distrito em 1887, etc. Participou ainda em várias comissões de serviço no âmbito das suas atribuições, entre elas inspector do matadouro de Faro (Março de 1882 a Dezembro de 1888); pesquisa filoxérica nos concelhos do sotavento algarvio (1886); combate contra a difteria em Viseu (1889); combate contra a entrite infecciosa nos equídeos do concelho de Sintra (1889); serviço no combate à febre aftosa no distrito de Évora (1892); polícia do serviço sanitário em Santarém (1893). Foi director interino do Hospital Veterinário de 1892 a 1893. Em 22 de Setembro de 1887 foi alvo de uma tentativa de assassinato em que lhe provocou profundos ferimentos. Segundo a imprensa da época terá sofrido quatro golpes de navalha que o deixaram bastante maltratado . Anes Baganha foi igualmente um grande defensor do método pedagógico de João de Deus, de quem foi discípulo e recebeu o diploma que o habilitaria a formar outros professores do ensino primário nas escolas que o Governo Civil subsidiava e que ele fundou nas cidades de Faro e Portimão. Foi ele quem iniciou no Algarve uma série de conferências para demonstrar as vantagens da utilização do método de João de Deus. Fez diversas conferências em Faro e Portimão, e, nesta última localidade começou-se logo a utilizar este método, o que foi difundido através do jornal da terra que aconselhava todas as câmaras a seguir o mesmo exemplo. A sua irmã, Inácia Ludovina Annes Baganha Leal foi também uma das mais salientes figuras do ensino primário no Algarve, que também utilizava o método de João de Deus, fundando escolas primárias, algumas com a ajuda financeira de importantes figuras republicanas locais. No campo literário, este autor deixou diversos trabalhos publicados como Rapida Notícia do Estado do Gado Lanígero no Algarve e Proposta para o seu melhoramento futuro (1873), Relatório Acerca do Progresso das Indústrias Pecuárias do Algarve (1874), Sempre Livres (1874), O Médico dos Animais - Tratado Prático e Popular que Ensina a Conhecer as Principaes Moléstias que Atacam toda a Qualidade de Gado em Portugal (1877), Camões (1880), Documento Para a História do Homicídio Frustrado (1888), As Vacas Leiteiras (1897), O Tratamento da Febre Aftosa (1902); O Cavalo: conhecimentos práticos do seu organismo (em co-autoria com A. Schwarz, 1904). Colaborou ainda em vários órgãos da imprensa regional e em publicações de carácter político como a Encyclopedia Republicana (Lisboa, 1882), Jornal dos Artistas (Portimão, 1875-1877); O Distrito de Faro (1876-1913); O Contemporâneo (Lisboa, 1879-1881); Notícias do Algarve (Lagos, 1880); Jornal de Agricultura e Artes Correlativas (Porto, 1880-1883); A Arte Musical (Lisboa, 1899-1915). Dispersou também a sua colaboração em inúmeras publicações de carácter agrícola como: Archivo Rural; Jornal Oficial de Agricultura; Agricultor Portuguez; Gazeta das Aldeias; Agricultura Portuguesa; Agricultura Nacional. Participou no Congresso Nacional da Tuberculose (Coimbra, 1895), onde apresentou uma memoória intitulada Defesa da Saúde Pública contra a Tuberculose Bovina. Apresentou diversos relatórios no Boletim da Direcção Geral de Agricultura. Manifestou também interesse pelas questões pedagógicas, referimos a sua defesa do método de João de Deus, e publicou nesse âmbito: Noções Elementares de Pedagogia; Compêndio de Moral; Analyse da Linguagem Portuguesa. Colaborou ainda com variadíssimas publicações ligadas à instrução e ensino. Sócio de diversas associações como a Sociedade Protectora dos Artistas de Faro, membro da Scuola Dantesca Napolitana, entre outras. Faleceu em Lisboa, em 6 de Fevereiro de 1911.

A.A.B.M.