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sexta-feira, 23 de agosto de 2024

[FIGUEIRA DA FOZ] HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS - EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL DE 1820



[FIGUEIRA DA FOZ]  CERIMÓNIA EVOCATIVA DA REVOLUÇÃO LIBERAL DE 1820 E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS

DIA24 de Agosto de 2024 (17,00 horas);

LOCALPraça 8 de MaioFigueira da Foz;

ORGANIZAÇÃO: CMFF | Ass. Manuel Fernandes Tomás | Associação 24 de Agosto 

INTERVENÇÕES
:


  • Representante da Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto;
  • Representante do Grémio Lusitano;
  • Representante da Associação Manuel Fernandes Thomaz;
  • Presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz.

J.M.M.

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

BICENTENÁRIO DA MORTE DE MANUEL FERNANDES TOMÁS

Na próxima sexta-feira, 24 de Novembro de 2023, realizam-se as cerimónias de encerramento do BICENTENÁRIO DA MORTE DE MANUEL FERNANDES TOMÁS.


Nesse dia realiza-se na Figueira da Foz, no Auditório Madalena Biscaia Perdigão, um colóquio evocativo desta figura fundadora do Liberalismo em Portugal.

O programa do colóquio, que também funciona como formação creditada para professores, (6 horas de formação, numa acção de curta duração) cuja inscrição devia ser efectuada no site do Centro de Formação Figueira Mar, AQUI. Contando com a colaboração da Academia Portuguesa da História e da Academia das Ciências de Lisboa, bem como o apoio da Câmara Municipal da Figueira da Foz.

O programa do colóquio é o seguinte, conforme apresentado no cartaz abaixo:

Com os votos do maior sucesso para a iniciativa.

A.A.B.M.


terça-feira, 22 de novembro de 2022

[GRANDE ORIENTE LUSITANO – MAÇONARIA PORTUGUESA] BICENTENÁRIO DA MORTE DE MANUEL FERNANDES TOMÁS

 


A PERENIDADE DE MANUEL FERNANDES TOMÁS (1771 – 1822)

«A afirmação de Ortega & Gasset: “Eu sou eu e a minha circunstância” é um convite à interpelação, ao que de mais profundo resiste dentro de nós, aos exemplos daqueles que fizeram o caminho para estarmos aqui. Muitos o fizeram antes, somos herdeiros da cultura Greco-Latina a que devemos juntar a matriz judaico-cristã.

Agora que a Universidade de Coimbra vai ter um polo na Figueira da Foz faz todo o sentido lembrar que Manuel Fernandes Tomás frequentou a Universidade de Coimbra entre 1785 e 1791, tendo-se formado em Cânones. Talvez tenha recebido aí o seu primeiro banho de dialética, a reforma pombalina trouxe a Coimbra o melhor de uma Europa que se exprimia no pensamento e nas artes.

Sabemos que trabalhou cerca de cinco anos no município da Figueira da Foz, que passou por Arganil, Coimbra e Porto (1816), onde foi um dos militantes mais convictos das causas liberais, tendo fundado o Sinédrio (1818), com José Ferreira Borges, João Ferreira Viana e José da Silva Carvalho. O Sinédrio teve o apoio de lojas maçónicas de Lisboa, e de maçons que viviam em Coimbra, Santarém e na Figueira da Foz. Manuel Fernandes Tomás era maçon, com o nome simbólico Valério Publícola, tendo chegado a ser Venerável (1821) da Loja Patriotismo, nº7, ao Vale de Lisboa.

Participa nas Cortes Constituintes (1821) e no desenho da 1ª Constituição Portuguesa. A sua morte em Novembro de 1822, não lhe permitiu assumir o mandato nas Cortes Legislativas.

Estamos aqui a evocar o homem, o seu pensamento e o legado de Manuel Fernandes Tomás, quando passam 200 anos da sua morte, aquele que foi o “Patriarca da Liberdade Portuguesa”, aquele que não hesitou em erguer o verbo para contra os que recusavam jurar a Constituição (inclusive o Patriarcado de Lisboa). Aquele que elegeu a Liberdade como um dos vértices da trilogia da Revolução Francesa: Igualdade e Fraternidade. Considerava que é a Liberdade é o maior dos direitos do homem, aquele que permite pensar e escolher, o que ousa a sua condição pela dignidade.

Nesse arco de 200 anos nasce, em 1900, a Loja Fernando Tomás, que adota o seu nome como patrono. Nessa mesma loja, importa lembrar a data de 24 de Agosto de 1904, já em plenos trabalhos maçónicos, em sessão especial, o irmão Bernardino Machado, recebe a insígnia de Venerável Honorário. O povo maçónico associa-se para que o monumento da Praça 8 de Maio fosse uma realidade, tendo a loja Fernandes Tomás um papel determinante, ainda que com o apoio do Grande Oriente - tendo sido inaugurado no dia 24 de Agosto de 1911. É esta transmissão dos valores da liberdade, da igualdade e fraternidade que une os que se reveem na maçonaria universal. A cadeia de união que junta homens e mulheres que acreditam que é possível construir uma sociedade mais justa e igualitária, respeitando as diferenças é aquilo que nos une há séculos. Os melhores de nós morreram por nós, lembro Gomes Freire de Andrade.

Manuel Fernandes Tomás atravessa o tempo, esse grande escultor, de que falava Marguerite Yourcenar. O que fazemos na Maçonaria? “Trabalhamos para a construção de um homem novo e de uma sociedade nova, ou seja, para dar à vida um sentido ético e solidário. Praticamos o livre pensamento, a tolerância e a filantropia. “ Essa filantropia que permitiu, também, erguer o monumento a Manuel Fernandes Tomás. Como escreveu António Arnaut, “Queremos um mundo mais livre, justo e fraterno. A utopia que alimenta a nossa fome de perfeição é a certeza de que o futuro está nas mãos de todos os homens e mulheres de boa vontade. Por isso, a Maçonaria é hoje tão indispensável como no passado.”

Não é possível estudar os últimos 200 anos da História de Portugal sem reconhecer a importância da Maçonaria, dos maçons que como Manuel Fernandes Tomás construíram um edifício constitucional que alimentou a chama de um futuro que ainda nos aquece e desafia. Talvez, seja fácil reconhecer que uma enorme parte da Humanidade mais válida lhe pertenceu ou pertence. Hoje estamos aqui a lembrar Manuel Fernandes Tomás, que dizia: “tirar ao homem e ao cidadão a liberdade é o maior castigo que se lhe pode dar, porque o priva de maior direito”.

É impossível esquecermos neste momento a guerra na Ucrânia. Por isso, “Pátria é sinónimo de Liberdade. Onde está a Pátria aí está também a Liberdade”, dizia Magalhães Lima, em 1928, então Grão-Mestre.

Em nome do Grão-Mestre, Fernando Cabecinha, e do Grande Oriente Lusitano, Maçonaria Portuguesa, presto a mais sentida homenagem ao homem, ao seu pensamento, ao cidadão, cuja perenidade evocamos ao lembrar os seus ideais e valores, Manuel Fernandes Tomas, duzentos anos depois do seu desaparecimento.

“Nos quase 300 anos de história maçónica, nos mais de 270 dessa mesma história em Portugal e nos quase 200 anos de existência do Grande Oriente Lusitano, o combate pela Liberdade tem sido um denominador comum.” (Oliveira Marques, há 20 anos). É por essa liberdade que aqui estamos e estaremos sempre, mesmo que isso tenha um preço elevado. Agradecemos o convite do senhor Presidente da Câmara, Dr. Pedro Santana Lopes, para esta evocação de um dos nossos que é, também, da pátria.

[Discurso proferido por António Vilhena, em representação do Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, Maçonaria Portuguesa, na Figueira da Foz a 19 de Novembro de 2022 - sublinhados nossos]

 J.M.M.

sábado, 19 de novembro de 2022

[19 DE NOVEMBRO 2022] IN MEMORIAM DE MANUEL FERNANDES TOMÁS

 




200 ANOS DO FALECIMENTO DO PATRIARCA DA REVOLUÇÃO LIBERAL DE 1820

“Manuel Fernandes Tomás foi a “alma e o cérebro” do levantamento regenerador de 24 de Agosto de 1820, na cidade do Porto, memorável página do nosso primeiro liberalismo político. A coerência do seu pensamento, a superioridade e eloquência do seu saber, a sábia palavra que a todos iluminava, são testemunhos insuspeitos para laurear o seu nome entre os Homens de 1820 e esculpir uma página mais à “história das idades”.

Manuel Fernandes Tomás faleceu no dia 19 de Novembro de 1822: uma vida de probidade e integridade, um pensamento político e obra pública notável, materializada nos ideais de liberdade, justiça e luta contra o despotismo. E foi assim na cidade do Porto quando organizou um grupo de amigos da verdade e da liberdade à volta de uma associação patriótica, denominada Sinédrio. E, depois, quando plantou uma semente mais do edifico do primeiro liberalismo pátrio, a Constituição de 1822.

Isto é, o exemplo benemérito e civilizador de Manuel Fernandes Tomás deve ser rememorado, merece ser evocado no dia do seu passamento. Vale!”  [AQUI]

J.M.M.

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

[FIGUEIRA DA FOZ – 19 DE NOVEMBRO] – BICENTENÁRIO DA MORTE DE MANUEL FERNANDES TOMÁS, O ILUSTRE REGENERADOR DA PÁTRIA

BICENTENÁRIO DA MORTE DE MANUEL FERNANDES TOMÁS, O ILUSTRE REGENERADOR DA PÁTRIA  

DIA: 19 de Novembro de 2022 (16,30 - 20,00 H);

LOCAL: Praça 8 de Maio | Auditório Municipal da CMFF | Igreja da Ordem Terceira

ORADORES: Pres. da Câmara Municipal da Figueira da Foz | José Luís Cardoso | Ana Cristina Araújo | Associação Manuel Fernandes Tomás | Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto | Grande Oriente Lusitano

ORGANIZAÇÃO: CMFF| Ass. MFT | Ass. 24 Agosto


PROGRAMA:

16H30 – Deposição de flores pelas diferentes representações junto ao monumento tumular, na Praça 8 de Maio,

17H00 - Sessão Solene de Homenagem e Evocação da Vida, Obra e Legado de Manuel Fernandes Thomaz, no auditório Municipal

19H15 - Cerimónia Religiosa na Igreja da Ordem Terceira

A Câmara Municipal da Figueira da Foz patrocina a Celebração do Bicentenário da Morte de Manuel Fernandes Tomás, ilustre filho da Figueira da Foz e o Patriarca da Revolução de 1820, na cidade do Porto. Manuel Fernandes Tomás foi uma figura relevante do nosso primeiro liberalismo, um dos regeneradores da Pátria, um “fervoroso apóstolo da Liberdade e da soberania nacional”, o Patriarca da Revolução de 1820. Rememorar a sua vida e obra, principalmente nestes 200 anos do seu falecimento, é um dever cívico de todos e cada um.

J.M.M  

terça-feira, 23 de agosto de 2022

[FIGUEIRA DA FOZ] HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS - EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL DE 1820


[FIGUEIRA DA FOZ]  CERIMÓNIA EVOCATIVA DA REVOLUÇÃO LIBERAL DE 1820 E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS

DIA24 de Agosto de 2022 (17,30 horas);

LOCALPraça 8 de MaioFigueira da Foz;

ORGANIZAÇÃO: CMFF | Ass. Manuel Fernandes Tomás | Associação 24 de Agosto 

INTERVENÇÕES
:


  • Representante da Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto;
  • Representante do Grémio Lusitano;
  • Representante da Associação Manuel Fernandes Thomaz;
  • Presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz.



► “Venho hoje pronunciar um grande nome; mas tão grande como ele será a dor de proferi-lo: maior nome, não o pronunciou boca de homem; maior mágoa não a sentiu coração vivente. Manuel Fernandes Tomás... - morreu. Quereis maior nome que este? Quereis maior dor que a nossa? Não, Senhores, não há português honrado, que não clame afoito - não -; e, se algum há, português não é esse.

Se medisse o meu dever pela bitola de minhas forças; se regulasse o desempenho das funções deste lugar pelas qualidades dos que me ouvem; não restaria (pronunciado tal nome) ao complemento do meu ofício, senão derramar lágrimas, e prantear convosco: mas urge o dever forçoso; e conquanto se acanha o orador na mesquinhes de suas forças, sobeja a vastidão do assunto para dar largas ao mais limitado espírito, e desenvolver o mais curto engenho. Penso no meu objecto, e em vez de me apoucar à face de sua grandeza sinto elevar-me até ele; vejo que me espraio pela imensidão de seu infinito.

Mas não penseis que vou enfeitar-me de flores oratórias; não julgueis que vou servir-me dos atavios emprestados da arte: são postiços esses enfeites; são estranhos esses atavios; são as brilhantes roupas com que a mão da eloquência servil adorna o esqueleto da ambição, e lhe encobre o asqueroso dos vermes com a túnica da pompa: mas vem a mão dos séculos (e essa, não a compra o ouro, nem a desvairão honras) rasga-lhe as roupas mal seguras, e então aparece o horror do sepulcro, e o nada de uma cinza mesquinha, que não legou uma página à história das idades, nem deixou uma letra no pequeno livro dos homens de bem.

Não, Senhores, a eloquência do homem livre é a linguagem do coração: desconhece ornatos, ignora enfeites; é simples como a natureza; é singela como a sua simplicidade.

Vede esses edifícios, que nos deixarão avoengos servis: olhai essas grimpas erguidas por mãos de escravos; examinai os recortados florões dessa arquitectura chamada Gótica: vedes curtas linhas; observais acanhados traços; tudo respira a mesquinhes do engenho encoberta com os enfeites da arte: voltai agora para os grandes monumentos dos povos livres: Que diferença! Deparais com altivas colunas, com esbeltos pórticos, com donairosos remates: mas tudo simples, tudo singelo. Que altiva que é a liberdade, Senhores! …”

[Almeida Garrettin Oração Fúnebre de Manuel Fernandes Tomás]

J.M.M.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

[GRANDE ORIENTE LUSITANO – MAÇONARIA PORTUGUESA] NA EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS – FIGUEIRA DA FOZ

 


DISCURSO PROFERIDO NA EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS NO DIA 24 DE AGOSTO DE 2021, na Figueira da Foz, pelo Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa

Cumprindo a tradição e uma feliz e justa deliberação da Câmara Municipal da Figueira da Foz, com mais de quatro décadas, aqui estamos, de novo, para homenagear Manuel Fernandes Tomás. Ao fazê-lo, recordamos o homem e o cidadão, figura destacada e central na Revolução Liberal de 1820, e sublinhamos a importância do seu contributo e do seu ideário para a democracia que temos e para o Estado de Direito que somos.

Trata-se, por isso, de uma iniciativa justa e pela qual honramos a nossa história e o seu legado.

Consequentemente, o Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa, de que Manuel Fernandes Tomás foi um dos seus mais insignes membros, quer cumprimentar de forma particular a Câmara Municipal da Figueira da Foz, a Associação Manuel Fernandes Tomás e a Associação 24 de Agosto pelo vosso contributo permanente para a defesa do ideário da Revolução Liberal de 1820.

Grande Oriente Lusitano sente particular orgulho em ter contado de entre os seus membros com um Homem com a grandeza de Manuel Fernandes Tomás. O Grande Oriente Lusitano sente orgulho nos maçons que hoje, como nos séculos XIX e XX, trabalham e trabalharam na Figueira da Foz.

Aqui, a Maçonaria fundou associações de apoio aos mais desfavorecidos, criou escolas e exerceu uma profunda influência cultural e cívica através de associações e jornais. Na história da cidade, são incontornáveis os nomes de muitos que aqui nasceram ou que à cidade estiveram ligados pela sua actividade profissional ou política. Nomes como António Augusto Esteves, escritor e bibliófilo, Maurício Águas Pinto, fundador dos Rotários figueirenses, Joaquim de Carvalho, professor universitário, Joaquim António Feteira, comerciante, Goltz de Carvalho, professor e naturalista, António dos Santos Rocha, advogado e arqueólogo, ou ainda de Gentil da Silva Ribeiro, operário, dirigente republicano e impulsionador do associativismo e da imprensa local, têm, além da sua condição de figueirenses, a qualidade de terem sido maçons do Grande Oriente Lusitano.

Ao celebrarmos Fernandes Tomás, estamos inequivocamente a celebrar o dia 24 de Agosto de 1820 e a Revolução Liberal. Estamos a relembrar o homem que encarnou a alma dessa revolução, cuja matriz era a elaboração de uma Constituição, expressão de uma cidadania composta pela participação de todos na vida da sociedade, moldada em direitos e deveres para com o todo social. Estamos também a manter vivas as ideias do Bem Comum e do bom governo que fizeram história a partir do século XVIII, com as teorias de Locke, Hobbes, Montesquieu ou Rousseau.

Homenageamos, hoje, um dos maiores portugueses de todos os tempos, um líder pelo exemplo, defensor da Liberdade e promotor da regeneração da Pátria. Um cidadão com um pensamento político denso e ponderado e defensor intransigente da ideia tão cara ao Grande Oriente Lusitano da sã convivência entre todos os cidadãos, pautada, sempre, por critérios de inabalável justiça.

Sã convivência entre todos os cidadãos, que a par de outros valores superiores, nunca é um valor dado por adquirido, como o demonstra o crescimento que nos últimos anos se tem verificado na sociedade portuguesa das ideias de extrema-direita, populistas e antidemocráticas, que, de forma organizada, mas também perigosamente inorgânica, têm vindo a fazer um caminho, que nos impõe a todos uma prática mais exigente na promoção dos valores democráticos.

Os valores defendidos por Manuel Fernandes Tomás e pelos heróis de 1820 continuam actuais e credores nos dias de hoje de reconhecimento, defesa e promoção.

201 anos depois da Revolução Liberal, todos os democratas têm a obrigação de deixar bem claro, pela sua prática e pela sua intervenção cidadã, que a democracia, para se proteger, tem linhas vermelhas que não podem ser ultrapassadas, pois a democracia não é nem pode ser o regime em que tudo é permitido a todos.

[Carlos Vasconcelos, Grão-Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa - sublinhados nossos]

J.M.M.

FIGUEIRA DA FOZ - [ASSOCIAÇÃO CÍVICA E CULTURAL 24 DE AGOSTO] NA EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS

 


DISCURSO PROFERIDO NA EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS NO DIA 24 DE AGOSTO DE 2021, na Figueira da Foz, pela Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto

Exmos Figueirenses e Cidadãos presentes

Cumprem-se este ano, no passado dia 31 de julho, os 250 anos do nascimento de Manuel Fernandes Tomás, por sinal numa rua bem perto de nós e que podemos avistar desta Praça, na Rua 31 de julho cujo topónimo foi atribuído precisamente em homenagem a este facto, numa Figueira bem mais pequena do que hoje mas certamente igualmente bela. Uma promessa que se viria a cumprir em pleno, quer no caso do menino Manuel quer no caso da nossa Cidade.

Imagens recentes mostram-nos que a Liberdade está hoje ameaçada. Imagens dolorosamente reais. Imagens dolorosamente verdadeiras. O grito por Liberdade ouve-se no mundo de hoje de forma mais clara, porque mais urgente e necessário ainda, do que no século de Manuel Fernandes Tomás!

Esta ânsia de respeito pela Mulher e pelo Homem, plenos de Dignidade e revestidos de uma imanente proteção jurídica e constitucional, esta exigência ética e moral de respeito absoluto e irrevogável pela Pessoa Humana demonstra que o nosso combate, que foi exatamente o combate dos Excelsos Patriotas do Sinédrio de 1820, permanece válido num mundo globalizado e cada vez mais atual em qualquer país onde existir um Homem, ou Mulher, privados ou ameaçados nos seus Direitos e nas suas Liberdades.

Homens ou Mulheres a quem temos por imposição ética e moral estender a nossa mão fraterna. Homens ou Mulheres a quem nunca poderemos virar a cara. Homens ou Mulheres que podem, no futuro, ser os nossos próprios filhos ou filhas.

Este é portanto um combate intransigente, sem tréguas, sem medos, sem resignação, sem desistência e sem retirada. Um combate pela Dignidade do Ser Humano. Um combate pela Dignidade de todos os Seres Humanos quaisquer que sejam os seus credos, convicções políticas ou religiões. Um combate tão atual em 2021 como o foi em 1820, tão atual nos nossos dias como o foi nos dias dos Homens do Sinédrio, para além do nosso Fernandes Tomás e entre outros, José Ferreira Borges, João Ferreira Viana e José da Silva Carvalho.

Um combate de afirmação cívica e política de uma Cidadania ativa perante um sistema político decadente e que não cumpria já, nem poderia cumprir jamais, as aspirações do nosso Povo. Como o exemplo de intervenção política do Sinédrio é um claríssimo exemplo, no combate entre Liberdade e Tirania não há, nem pode haver, zonas cinzentas. Na luta perene, constante, e abnegada pela Liberdade não há passos atrás. Não pode haver passos atrás.

Mas Manuel Fernandes Tomás legou-nos também que a vida em sociedade implica a permanente construção de consensos baseados porém em firmes posições éticas mas de absoluto respeito pelo outro, ainda que dele possamos discordar. É este aliás o princípio do constitucionalismo moderno, um contrato social constitucionalmente firmado, quer em 1822 quer em 1976, pelos representantes de um Povo Livre e de Bons Costumes.

A mão de Manuel Fernandes Tomás nas Cortes, e a obra suprema do seu brilhantismo político e jurídico encontra respaldo no extraordinário e avançado texto constitucional que foi, e é ainda hoje, a Constituição de 1822. Numa sociedade cada vez mais desumanizada, numa sociedade em que a falta de ética por parte de alguns servidores públicos – da ética republicana – numa sociedade que a pouco e pouco parece perder os seus valores Fraternos, os valores de Abril, numa sociedade desvirtuada de princípios, esquecida do seu passado e também das firmes obrigações morais do seu presente… teremos sempre Manuel Fernandes Tomás. Um exemplo de Cidadania tão válido em 1820 como o é hoje em 2021.

Abdicarmos da defesa dos nossos Valores e Princípios, que todos os anos renovamos neste dia, nesta simbólica Praça da nossa Cidade, perante o nosso Patrono, é abdicarmos de nós próprios.


Mas uma garantia podemos dar perante o olhar atento, demasiado atento, demasiado rigoroso, porventura até mesmo assustador de Manuel Fernandes Tomás – e que tão bem Fernandes de Sá conseguiu expressar neste Monumento – não perderemos os mesmos por falta de coragem, por resignação, por falta de comparência nem por falta de verticalidade Ética e Cívica.

Nesta mesma Praça vejo assim, à minha frente, em todos os 24 de Agosto, Cidadãos, Mulheres e Homens dignos de olharem, de frente, olhos nos olhos, este Monumento. Saibamos com a Força, a Virtude e a Coragem das Mulheres e dos Homens Livres defender o Legado histórico, político e cívico do 24 do Agosto de 1820.

Porque enquanto existir um Estado de Direito Democrático em Portugal, diria mesmo enquanto existir Figueira da Foz, aqui estaremos sempre nós Gerações de Figueirenses, nesta Praça, reunidos neste dia. Por isso elevamos hoje a nossa Voz em Memória, e tributo perene, a este Homem Grande, Enorme, Enormíssimo da nossa Cidade e da nossa História! MANUEL FERNANDES TOMÁS.

[Luís M. Mendes Ribeiro, Representante da Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto - sublinhados nossos]

J.M.M.

24 DE AGOSTO DE 1820: LIBERTADORES E PRECURSORES

 


A revolução de 1820 foi um relâmpago da grande Revolução francesa, assim como o 5 de Outubro de 1910, foi, por seu turno, um reflexo de 1820. Integrada na civilização europeia, esta data correspondeu a uma aspiração universal de liberdade. Os que combateram e se sacrificaram por uma pátria arruinada, dissoluta, esmagada pelo estrangeiro, ainda hoje são apodados de idealistas. Bem hajam os jacobinos, os pedreiros livres que nos legaram um tão alto exemplo de civismo.

Foram libertadores e pre­cursores. E a Voz da Justiça, solidarizando-se com uma comemoração, que deve ser de todos os liberais, demonstra que a Figueira da Foz, berço do patriarca que foi a alma do movimento, se mantêm firme nas suas aspirações emancipadoras.

[Sebastião de Magalhães Lima, 30 de Agosto de 1920]

J.M.M.

QUE VIVA MANUEL FERNANDES TOMÁS!

 


A revolução de 1820 foi uma eclosão de liberdade e de luz em Portugal, em reflexo da Grande Revolução de 1789 em Franca, que marcou a separação das duas épocas — da Escravidão e da Liberdade. Em Portugal, tentou-se evitar a entrada das ideias liberais. Tentaram-no Pina Manique e outros. Mas elas vieram com as invasões e com os homens ilustres que no estrangeiro haviam vivido.

Todavia, para que uma causa triunfe, é preciso haver quem prepare esse triunfo. 1820 não surgiria se quando aparecesse um grupo de patriotas, cheios de amor à sua terra e a Liberdade, e para honra de nós todos, figueirenses, o homem que esteve a frente desse grupo foi Manuel Fernandes Tomas, português de indomável coragem, de inexcedível patriotismo, animado dum extraordinário espirito de abnegação 

[Dr. Manuel Gaspar de Lemos]



J.M.M.


segunda-feira, 23 de agosto de 2021

[FIGUEIRA DA FOZ] 24 DE AGOSTO 2021 (17,30H) – CERIMÓNIA EVOCATIVA DA REVOLUÇÃO LIBERAL DE 1820 E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS

 


[FIGUEIRA DA FOZ] 24 DE AGOSTO (17,30 H)CERIMÓNIA EVOCATIVA DA REVOLUÇÃO LIBERAL DE 1820 E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS

DIA: 24 de Agosto de 2021 (17,30 horas);

LOCAL: Praça 8 de Maio, Figueira da Foz;

ORGANIZAÇÃO: CMFF | Ass. Manuel Fernandes Tomás | Associação 24 de Agosto 

INTERVENÇÕES
:


  • Representante da Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto;
  • Representante do Grémio Lusitano;
  • Representante da Associação Manuel Fernandes Thomaz;
  • Presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz.


 “Venho hoje pronunciar um grande nome; mas tão grande como ele será a dor de proferi-lo: maior nome, não o pronunciou boca de homem; maior mágoa não a sentiu coração vivente. Manuel Fernandes Tomás... - morreu. Quereis maior nome que este? Quereis maior dor que a nossa? Não, Senhores, não há português honrado, que não clame afoito - não -; e, se algum há, português não é esse.

Se medisse o meu dever pela bitola de minhas forças; se regulasse o desempenho das funções deste lugar pelas qualidades dos que me ouvem; não restaria (pronunciado tal nome) ao complemento do meu ofício, senão derramar lágrimas, e prantear convosco: mas urge o dever forçoso; e conquanto se acanha o orador na mesquinhes de suas forças, sobeja a vastidão do assunto para dar largas ao mais limitado espírito, e desenvolver o mais curto engenho. Penso no meu objecto, e em vez de me apoucar à face de sua grandeza sinto elevar-me até ele; vejo que me espraio pela imensidão de seu infinito.

Mas não penseis que vou enfeitar-me de flores oratórias; não julgueis que vou servir-me dos atavios emprestados da arte: são postiços esses enfeites; são estranhos esses atavios; são as brilhantes roupas com que a mão da eloquência servil adorna o esqueleto da ambição, e lhe encobre o asqueroso dos vermes com a túnica da pompa: mas vem a mão dos séculos (e essa, não a compra o ouro, nem a desvairão honras) rasga-lhe as roupas mal seguras, e então aparece o horror do sepulcro, e o nada de uma cinza mesquinha, que não legou uma página à história das idades, nem deixou uma letra no pequeno livro dos homens de bem.

Não, Senhores, a eloquência do homem livre é a linguagem do coração: desconhece ornatos, ignora enfeites; é simples como a natureza; é singela como a sua simplicidade.

Vede esses edifícios, que nos deixarão avoengos servis: olhai essas grimpas erguidas por mãos de escravos; examinai os recortados florões dessa arquitectura chamada Gótica: vedes curtas linhas; observais acanhados traços; tudo respira a mesquinhes do engenho encoberta com os enfeites da arte: voltai agora para os grandes monumentos dos povos livres: Que diferença! Deparais com altivas colunas, com esbeltos pórticos, com donairosos remates: mas tudo simples, tudo singelo. Que altiva que é a liberdade, Senhores! …”

[Almeida Garrettin Oração Fúnebre de Manuel Fernandes Tomás]

J.M.M

terça-feira, 25 de agosto de 2020

[COIMBRA] “MEMÓRIAS DA REGENERAÇÃO DE 24 DE AGOSTO DE 1820”


LIVRO: "Memórias da Regeneração de 24 de Agosto de 1820” [textos de dois varões ilustres do nosso primeiro liberalismo, José Liberato Freire de Carvalho e José Ferreira Borges] na Cerimónia de Evocação dos 200 anos da Revolução Liberal de 24 de Agosto de 1820 – Café Santa Cruz, em Coimbra.

Recorte do jornal Diário das Beiras, 25 de Agosto de 2020, p. 8, com a devida vénia 

J.M.M.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

[FIGUEIRA DA FOZ - DIA 24 AGOSTO] – HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS / SESSÃO EVOCATIVA DOS 200 ANOS DA REVOLUÇÃO LIBERAL


Homenagem a MFT / Sessão Evocativa dos 200 anos da Revolução Liberal e apresentação do Livro "Manuel Fernandes Tomás, Escritos Políticos e Discursos Parlamentares (1820-1822)"

PROGRAMA:

DIA: 24 de Agosto de 2020

- 17,30 Horas: Deposição de Coroa de Flores junto ao túmulo de Manuel Fernandes Tomás;

- 18,15 Horas: CAE – Auditório João César Monteiro

- Sessão Evocativa dos 200 Anos da Revolução Liberal;

- Apresentação do Livro "Manuel Fernandes Tomás, Escritos Políticos e Discursos Parlamentares (1820-1822)", de autoria do professor José Luís Cardoso

ORADORES: Pres. da CMFF | Familiar de Manuel Fernandes Tomás | prof. Vital Moreira | prof. José Luís Cardoso

NOTA: O ESPAÇO ESTÁ LIMITADO.

J.M.M.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

MANUEL FERNANDES TOMÁS.ENSAIO HISTÓRICO-BIOGRÁFICO (NOVA EDIÇÃO)


LIVRO: Manuel Fernandes Tomás. Ensaio Histórico-Biográfico (Nova Edição);
AUTOR
: José Luís Cardoso;
EDIÇÃO: Almedina, 2020 (1ª ed. 1983).

“Quando recebi o convite da Câmara Municipal da Figueira da Foz para preparar uma nova edição deste livro publicado em 1983, a primeira e instintiva reacção foi a de reler o que havia escrito há 36 anos. E prontamente confirmei o que à partida se afigurava inevitável: qualquer tentativa de revisão implicaria a reescrita de um novo livro. Por isso, também prontamente concluí que me restava uma única saída: republicar na íntegra o texto original de 1983, fazendo acompanhar o antigo texto de um prefácio a explicar o que faria agora de diferente se tivesse de escrever de raiz um novo livro.

Não pense o leitor que renego o conteúdo ou a forma da edição original. Todavia, 36 anos volvidos, é compreensível o sentimento de que outras coisas poderiam agora ser ditas e, preferencialmente, em registo estilístico diferente. Tal é a consequência natural de um processo próprio de aprendizagem sobre os temas em análise e, sobretudo, do conhecimento adquirido de contribuições alheias que sobre esses mesmos temas se foram acumulando. Por conseguinte, a tentação de acrescentar uma nota ou rever um parágrafo não resistiria à verificação de que seria mais simples escrever tudo de novo, privando o texto de um certo arrojo juvenil que a linguagem académica tende a autocensurar.

Mas então - questionará o leitor atento - para quê republicar um texto que se considera datado ou preso ao tempo em que foi escrito? Perante a necessidade de responder a esta pergunta ocorrem duas justificações plausíveis: em primeiro lugar, porque o livro se encontra há muito esgotado e continua a haver interesse na sua leitura, para melhor se conhecer o personagem retratado; e em segundo lugar porque, apesar dos progressos historiográficos entretanto registados, este livro continua a ser, na dupla dimensão factual e interpretativa, objecto de consensual aceitação. Por outras palavras, entre o número limitado de especialistas da obra de Manuel Fernandes Tomás e do contexto em que viveu, toma-se como adquirida a informação biográfica e a análise de significados históricos que integram o ensaio que publiquei em 1983. É essa, afinal, a razão que melhor legitima e explica a publicação de uma nova edição.

Este livro teve por base um trabalho académico realizado em 1980 no âmbito da disciplina de História Contemporânea de Portugal, do curso de licenciatura em Sociologia do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, leccionada por Miriam Halpern Pereira. Ganharia o texto escolar outro fôlego após convite que recebi do então presidente da Câmara da Figueira da Foz, Dr. Joaquim de Sousa, para verter em livro a pesquisa realizada sobre a vida e obra de Manuel Fernandes Tomás.

Como principal motivação para a publicação deste ensaio em 1983 destaco a vontade em quebrar a rotina ou inércia historiográfica, feita da repetição de habituais lugares-comuns, em tom por vezes hagiográfico, em que a figura de Manuel Fernandes Tomás quase sempre surgia engalanada. Os vistosos atributos de «Pai da regeneração portuguesa», de «Patriarca da liberdade», de «Grande vulto da revolução liberal», ou outros sonantes epítetos, eram pouco convidativos a uma abordagem lúcida e serena do seu percurso como magistrado e como político. Ao resgatar a essência do seu legado, revisitando os momentos mais significativos da sua carreira, procurava sulcar o terreno do historiador interessado em combater lendas e mitos. E mais não fazia do que seguir os exemplos dados por dois autores que muito contribuíram para o estudo objectivo e desapaixonado do percurso de Fernandes Tomás: Joaquim de Carvalho, também ele natural da Figueira da Foz, autor de obras escritas nas décadas de 1930 e 1940 que ainda hoje merecem releitura atenta; e José Manuel Tengarrinha, que tinha organizado em 1974 uma colectânea de escritos de Manuel Fernandes Tomás, num momento político especialmente oportuno para recordar o alcance do constitucionalismo vintista, quando o país vivia a euforia de uma outra revolução. Em ambos os autores, o respeito pelo estudo das fontes, a valorização do conhecimento dos textos que integram o legado bibliográfico de Fernandes Tomás, constituíam sinais de inegável distinção historiográfica.

A redacção do texto-base e a preparação do livro, no início da década de 1980, também beneficiaram da nova receptividade historiográfica concedida ao período das revoluções liberais e do constitucionalismo em Portugal. Com efeito, esse foi um momento particularmente intenso de inovação no estudo de temas de história contemporânea, com destaque para a superação das imensas lacunas no rastreio de fontes e na apresentação de propostas interpretativas sobre as mudanças que ocorreram na sociedade portuguesa ao longo do século XIX […]

[Na apresentação do livro sobre Manuel Fernandes Tomás] 

Em diversas passagens da primeira edição deste Ensaio Histórico-Biográfico deixei expressa a intenção de escrever um texto que valorizasse os traços da carreira individual e do processo de formação cívica e política em que Manuel Fernandes Tomás se envolveu como personalidade dotada de propósitos e motivações próprias, mas sem esquecer a missão de serviço público e o sentido de bem comum que igualmente o nortearam. Munido das ferramentas básicas de quem preza o valor heurístico de fontes documentais pesquisáveis em fundos arquivísticos, procurei também seguir e discutir criticamente a mais relevante bibliografia auxiliar dedicada à figura de Manuel Fernandes Tomás e ao período histórico em que a sua vida decorreu. Deste modo, construí deliberadamente uma narrativa de carácter biográfico, com a intenção de registar os principais momentos de uma vida compassada na sequência cronológica natural dos cargos que foi ocupando ou dos papéis que foi representando, desde o início da sua formação na Universidade de Coimbra até às últimas intervenções que proferiu nas Cortes Constituintes de 1821-1822.

Se fosse agora encetar esta mesma tarefa, dificilmente deixaria de respeitar as linhas gerais e os capítulos nucleares em que o livro se organiza. Algumas secções seriam, porventura, merecedoras de maior tratamento, ou justificar-se-ia menção adicional a novos tópicos; mas a estrutura básica seria a mesma. Reconheço, porém, a falta de um sentido unificador que permita ver a figura de Fernandes Tomás para além da escala circunscrita ao ambiente local, regional ou nacional em que a sua carreira se desenrolou. Ainda que a identificação de tal sentido só seja possível pelo trabalho hermenêutico a que os historiadores não se podem furtar, é a partir do testemunho que o próprio nos deixou que é viável discernir problemas que ultrapassam o simples, mas imprescindível, esforço de comprovação empírica. Fernandes Tomás não podia formar consciência histórica sobre o significado dos seus gestos ou sobre o impacto público das suas palavras. A intencionalidade que emprestava aos seus compromissos públicos era portadora de um sentido ou desígnio cujo impacto ou consequências não poderia antecipar ou avaliar. É esse o mistério que envolve os homens que fazem história através da construção do presente, como foi manifestamente o caso de Manuel Fernandes Tomás.

Que sentido unificador é esse? Trata-se de reconhecer o alcance das acções de Fernandes Tomás num tempo histórico que assiste a mudanças globais para as quais voluntária ou involuntariamente contribuiu. Com efeito, o magistrado que se fez tribuno viveu um tempo intenso de transformação que afectou globalmente o mundo, não apenas em Portugal e na Europa. Foram mudanças que se revestiram de amplitude global, com contágios e influências que operaram em diversas direcções, e que não podem ser circunscritas aos palcos habitualmente referenciados pela historiografia canónica de matriz europeia. Não é mais sustentável a ideia de que as revoluções de cunho liberal (na Europa ou noutros palcos do mundo) tiveram uma única origem causal, por simplificação exemplificada pelos símbolos e lemas da Revolução Francesa que a expansão napoleónica, e consequentes ambições geopolíticas, teria ajudado a disseminar e a implantar.

Entre os elementos caracterizadores desta era de revoluções a uma escala global, importa assinalar a convicção sobre as virtudes de uma nova noção de soberania com fundamentos filosóficos assentes nos direitos naturais dos indivíduos que escolhem os seus representantes legítimos. O combate anti-monárquico, anti-clerical e anti-aristocrático à ordem social e política do ancien regime, foi especialmente relevante para os protagonistas da Revolução Francesa de 1789. Num ambiente propício à denúncia das arbitrariedades do poder absoluto, procuraram consagrar novos princípios de cidadania política e a universalidade de novos direitos, considerando imprescindível a publicação de constituições escritas, estabilizadoras de processos de separação e distribuição dos poderes. Foi essa também uma causa pela qual Fernandes Tomás pugnou.

Muitas das ideias saídas da Revolução Francesa tiveram repercussão noutras regiões e instituições, dentro e fora da Europa. Mas também suscitaram animosidade e oposição em países que acreditavam que as reformas políticas eram viáveis sem os exageros do terror jacobino e sem os efeitos nefastos da expansão hegemónica de Bonaparte. Nalguns casos, designadamente em Espanha, Portugal e Itália, viveu-se mesmo a absoluta contradição de se evocarem ensinamentos políticos e ideológicos da Revolução Francesa, para que as nações fossem patrioticamente salvas da ruína provocada pela ocupação napoleónica e suas sequelas. Manuel Fernandes Tomás foi um intérprete claro dessa tensão entre a aceitação de princípios doutrinais e a rejeição da forma como na prática eram aplicados.

Outro elemento de caracterização da era das revoluções vivida por Manuel Fernandes Tomás diz respeito ao desmembramento dos impérios e à independência de vastos territórios coloniais. O exemplo da Revolução Americana de 1776 mostrou como foi possível que uma revolta de pequena escala contra o sistema fiscal vigente numa parcela do império se transformasse num movimento global de contestação dos poderes localmente instituídos e, por extensão, da coroa britânica. A amplitude das relações comerciais no quadro dos impérios existentes, e a crise motivada pelos ímpetos de autonomia e movimentos de independência efectiva, forçavam ou convidavam a uma tomada de consciência de que o mundo se tornara num campo de revoluções convergentes que ditavam mudanças irreversíveis, mesmo que as sedes dos antigos impérios procurassem manter-se a salvo de tais movimentos. A transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro no início de 1808 marcou o arranque de um processo gradual de separação do Brasil da esfera de influência do império português, com consequências que estiveram bem presentes nas motivações dos regeneradores liberais de 1820, sob a liderança de Manuel Fernandes Tomás.

Manuel Fernandes Tomás estava particularmente ciente da importância desse envolvimento externo, sendo bem conhecida a forma como o Sinédrio mudou de atitude no primeiro trimestre de 1820, quando chegaram as primeiras notícias da proclamação da Constituição espanhola de Cádis de 1812, que havia sido suspensa e revogada por Fernando VII em 1814.

A revolução de 1820 resultou de circunstâncias locais habitualmente identificadas com o sentimento de orfandade de uma nação, com o seu rei ausente e sob tutela administrativa, militar e política inglesa, e com a vontade de mudança política alimentada por sectores esclarecidos da magistratura e do exército. Mas resultou também, e sobretudo, do ambiente internacional próprio de uma era de revoluções que viabilizou o triunfo da causa liberal e constitucional.

A revolução de 1820 teve essa dimensão regeneradora, de procura de adaptação e mudança, de fruição da liberdade, de ânsia de criação de novas instituições de poder representativo, de consolidação de virtudes cívicas. Tal desiderato implicava a participação do Estado e, num certo sentido, confunde-se ou mistura-se com a ideia de reforma que cumpre ao Estado realizar. Ou seja, pressupunha a autoridade e a responsabilidade política do legislador na concepção e execução de programas de melhoramento social em benefício do conjunto da população. Teve ainda uma característica que corresponde a um dos atributos centrais de todas as revoluções: a projecção futura de compromissos presentes, a vontade explícita dos seus principais mentores e promotores de quererem continuar a mudar a ordem das coisas.

Para a compreensão de todos estes significados, o testemunho deixado por Manuel Fernandes Tomás é revelador e essencial. Talvez tenha sido esta leitura da vida e obra de Fernandes Tomás, enquanto intérprete e protagonista desse tempo de múltiplas mudanças, um aspecto que ficou menos explicitado na edição de 1983 deste Ensaio Histórico-Biográfico […]

 [José Luís Cardoso, in Prefácio à nova edição - sublinhados nossos]

J.M.M.