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terça-feira, 23 de setembro de 2025

O OUTRO AFONSO DUARTE – POR ANTÓNIO VALDEMAR

 

O Outro Afonso Duarte – por António Valdemar, in O Figueirense

A descoberta, no contacto direto com as populações, do modo de ser e de estar do povo português através de exemplos recolhidos no tesouro poético das quadras populares e na sabedoria dos adágios e provérbios.

Entre os grandes poetas do seculo XX, Afonso Duarte ocupa um lugar de relevo na História da Literatura Portuguesa e nas principais antologias da poesia portuguesa. Celebrou a energia cósmica da natureza, a exaltação panteísta da vida, o apego as raízes telúricas e humanas e, simultaneamente, os grandes valores universais que fundamentam a liberdade e a democracia.

Afonso Duarte (1884–1958) nasceu na Ereira, concelho de Montemor-o-Velho, no território tão característico do Baixo Mondego, onde nasceram outros poetas, escritores, artistas plásticos, mestres universitários e outras personalidades de projeção cultural, política e social. Todavia, a quase totalidade da vida pessoal, profissional e literária de Afonso Duarte decorreu em Coimbra em cuja Universidade se licenciou (Ciências Físico Naturais) e onde também exerceu o magistério secundário, sendo erradicado do exercício de funções, por motivos políticos, nas primeiras purgas efetuadas pelo governo de Salazar.

A conjugação do real e o imaginário manifesta-se com forte poder metafórico logo nos primeiros livros: Cancioneiro das Pedras [1912]; Tragédia do Sol Posto [1914]; Rapsódia do Sol-Nado e Ritual do Amor [1916] que serão revistos e selecionados, em 1929, num único volume Os 7 Poemas Líricos. Esta fase reflete uma proximidade com a poesia de Teixeira de Pascoaes e da doutrinação literária e estética difundida na revista A Águia e no movimento Renascença Portuguesa.

Um novo ciclo poético se vai evidenciar partir dos anos 30, documentado em livros de referência como Ossadas (1947); Post-Scriptum de um Combatente (1949); Sibila (1950); Canto da Babilónia (1952); Canto de Morte e Amor (1952); Lápides e Outros Poemas (1956-1957), reunidos, em 1956, na primeira edição da Obra Poética. Corresponde ao período em que Afonso Duarte se insere no ideário da Seara Nova, acompanha o movimento da Presença e, mais tarde, o movimento dos neorrealistas reunidos. Embora não tenha livros publicados no âmbito do Novo Cancioneiro, é um colaborador da revista Vértice. Carlos de Oliveira, Mário Braga e Joaquim Namorado, assinalam-se entre os seus amigos que frequentavam as tertúlias instaladas em cafés históricos de Coimbra.

Desde Cancioneiro das Pedras – editado em 1912 –, Afonso Duarte evidenciou uma relação possessiva com a terra natal e em todas as estações do ano: «As cheias vindas às casas! / Tudo afoga em dilúvio, ervilhal e giesta, /o próprio lar, as brasas! /o vento assopra ao desamparo, o vento grita, / como um louco varrido! /A Aldeia é um gemido». (…) «Asa do vento, como vens distante? /E o vento avança, o vento diz: mais longe!». É uma permanente reivindicação das suas origens: «canto o amor de meus campos e baldios/ meu casal que é uma ilha aos quatro ventos». A Ereira, desde então, passou a ser incluída na literatura portuguesa».

Mas além da obra poética, Afonso Duarte realizou, nos anos 20 e 30 do século passado, um trabalho pedagógico que mudou a orientação preconizada no ensino do desenho, rompendo com os métodos existentes, quer na instrução primária, quer nos estudos secundários. Encontra-se, pormenorizada em três ensaios: O Desenho na Escola, Barros de Coimbra (Lúmen, 1925); Carta Metodológica "do desenho decorativo"; e Os desenhos animistas de uma criança de 7 anos (Imprensa da Universidade de Coimbra, 1933). Ficou a ser um dos precursores da «educação pela arte», que seria desenvolvida, a partir dos anos 50 por Calvet de Magalhães (1913-1975), como professor e diretor da Escola Francisco Arruda, em Lisboa, e nas campanhas que, periodicamente, desencadeou no Diário de Lisboa.

Há ainda outra componente muito significativa na criação intelectual de Afonso Duarte: a investigação etnográfica publicada, através da Seara Nova, em duas obras que obtiveram, na altura, o interesse da crítica: O Ciclo do Natal na Literatura Oral Portuguesa (1936) e Um Esquema do Cancioneiro Popular Português (1948).

No texto introdutório desta segunda obra referiu que: «a propósito de tudo, a gente do povo sabe uma quadra; uma sabedoria milenar que passou a herança poética (…) «impregnada de “nuances” afetivas próprias das nossas atitudes mentais», após o que justificou o sentido e oportunidade desta antologia: um «breviário de conceitos morais, formando corpo de doutrina sobre a honra, firmeza, fidelidade, prudência, diligência e persistência, confiança e franqueza, amor da família, e uma filosofia da experiência que é toda perdão, desculpa e paciência perante as fraquezas da vida».

Nestas duas obras de Afonso Duarte – que merecem ser reeditadas e lanço o apelo à Câmara Municipal de Montemor-o-Velho –, perdura o vínculo profundo que o ligava à Ereira e às singularidades dos Campos do Mondego, tão visível na sua poesia: «Sem esta terra funda e fundo rio/ que ergue as asas e sobe em claro voo; / sem estes ermos montes e arvoredos / eu não era o que sou».

Não se pode classificar uma investigação saudosista, à semelhança de muitas outras manifestações promovidas pelo salazarismo, tais como «Monsanto, a aldeia mais portuguesa de Portugal». Afonso Duarte repudiava todas essas incursões no passado. Basta recordar estes versos de forte contundência epigramática incluídos em Ossadas: «O antigo é a doença que eu mais detesto/ É viciar o que já foi virtude! O tornar ao Passado é sempre um resto».

Mas ao proceder à sistematização da poesia popular, Afonso Duarte teve por objetivo recolher quadras, trovas, adágios e provérbios que definem o comportamento do povo português através dos séculos: a humanização da natureza, os sentimentos afetivos, as virtudes e vícios, o riso e as lágrimas, a ironia e o sarcasmo que se aplicam às mais diferentes circunstâncias. Quantas «carapuças» existiam no tesouro do Cancioneiro popular que se poderiam aplicar ao regime político e ao próprio Salazar? A obra poética de Afonso Duarte e as outras criações em que se empenhou colocam-nos perante um notável poeta que associou sempre a literatura e a cultura à militância cívica.

O Outro Afonso Duarte” – por António Valdemar [Jornalista, carteira profissional número Um; sócio efetivo da Academia das Ciências], in O Figueirense, 27 de Agosto de 2025, p.21 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

ALEXANDRE O’NEILL PRECISA-SE – POR ANTÓNIO VALDEMAR

 

Alexandre O’Neill Precisa-se” – por António Valdemar

Estou a vê-lo tal como o próprio Alexandre O’Neill se autoretratou: “moreno, português, cabelo asa de corvo” (…) “sofre de ternura, bebe demais e ri-se…”. Estou também a ouvi-lo num bate papo, sempre inesquecível, através das esquinas, entre o Jardim do Príncipe Real e a Rua do Alecrim. Além da conversa fascinante, desafiava-nos para ir comer uns carapaus fritos, com salada fresca, um tinto do lavrador e a sair do barril. Depois era o café. Muito café. Fumava cigarros, uns atrás dos outros.

Viajou muito. Andou de país em país. Viu museus e palácios. Comeu e bebeu o que lhe apetecia em bons hotéis e bons restaurantes. Mas Lisboa permanecia dentro dele. Era aqui o seu território: passar nas livrarias e alfarrabistas; ir as tascas do Bairro Alto, frequentar antigos restaurantes que já não existem ou se existem tem outra clientela.

O centenário do nascimento de Alexandre O'Neill (1924-1986) – que se vai concluir a 19 de dezembro deste ano – permite recordar o Homem e a obra nas suas varias componentes. Grande poeta, dos maiores da literatura portuguesa da segunda metade do seculo XX, também se distinguiu pela intervenção cívica.

Entre os poetas e escritores da sua geração, Alexandre O'Neill foi, porventura, o que se aproximou do público mais diversificado. Basta citar o poema Gaivota, que transpôs as fronteiras nacionais, interpretado pela voz de Amália e composição musical de Alain Oulman. Para o renome de Alexandre O'Neill também contribuíram as intervenções frequentes na televisão e noutros órgãos de comunicação, tais como no Diário de Lisboa, n'A Capital e n‘A Luta.

A política acompanhou-o sempre. Na oposição ao salazarismo, no combate ao marcelismo e, depois do 25 de Abril, na rejeição dos totalitarismos partidários. Era um defensor acérrimo do pluralismo de expressão e critica. Manteve, e em circunstâncias bastante difíceis, a frontalidade da opinião. Orientava-se por exigências éticas princípios democráticos, contra a imposição de compêndios estéticos e cartilhas literárias. Insurgiu-se contra tudo que lhe condicionava a liberdade pessoal.

Poucos escritores e poetas denunciaram, como Alexandre O'Neill, os ridículos, as frivolidades, o absurdo, a farsa da sociedade portuguesa. Tal como Gervásio Lobato na célebre “Lisboa em Camisa”. O inconformismo visceral de O'Neill destaca-se quer no volume “Poesia Completa”, introdução de Clara Rocha; quer nos textos dispersos em jornais recolhidos por Maria Antónia de Oliveira, com o titulo “Portugal em forma de Assim”.

Mostrou-se implacável perante “o Pais engravatado todo o ano/ a assoar-se na gravata por engano, /o incrível pais da minha tia, / trémulo de bondade e de aletria”. Ou quando se debatia com lisboetas que o indignavam: “Tu não mereces esta cidade/não mereces/ esta roda de náusea em que giramos/ até a idiotia/ esta pequena morte/ e o seu minucioso e porco ritual/ esta nossa razão absurda de ser”. (…) “Tu és da cidade onde vives por um fio/de puro acaso/ onde morres ou vives não de asfixia/ mas às mãos de uma aventura de um comércio puro/sem a moeda falsa do bem e do mal”.

Não poupava, Alexandre O'Neill, a insinuação ostensiva e presunçosa dos intelectuais de serviço que mudam de ideias quando convém, sem qualquer espécie de vergonha: “Todos os dias os encontros” – escreveu – “Evito-os. Às vezes sou obrigado a escuta-los” (…) “Mas também os aturo por escrito. No livro. No jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos. (…). Querem vencer, querem convencidos, convencer. Vençam lá à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear”.

Na criação literária de O'Neill, predomina uma poesia desenvolta onde se acentua a ironia, o sarcasmo e o humor negro; e também outra poesia de fortes tensões líricas e elegíacas. Faz a exaltação da mulher, celebra a volúpia do Amor: “defendo-me da morte quando dou/meu corpo ao seu desejo violento/e lhe devoro o corpo lentamente”. Também aprofundou as interrogações que colocam o homem perante a angústia da vida e o desespero da morte.

Buscou quer na poesia, quer na prosa, quer ainda no ofício da tradução, todos os recursos de cada palavra; desarticulava, sempre que necessário, as amarras da gramática tradicional. Procurou transmitir gestos, tiques e atitudes. Inventava novas palavras, incluía outras extraídas de alfarrábios e ainda mais outras apanhadas na rua ou no café. Este foi mais outro notável contributo da sua escrita. Deu maior amplitude à língua portuguesa.

Alexandre O'Neill faleceu com pouco mais de 60 anos. Já não era novo, mas também não era velho. Morreu destroçado por crises cardíacas e hospitalizações penosas. Ficou, a certa altura, um velhinho magro, pálido e de bengala, igual àqueles velhinhos à espera da morte nos bancos dos jardins.

Contudo, mal começava a falar, esquecíamo-nos do espectro físico em que se transformara. Logo nas primeiras palavras, emergia o seu comentário arrasador, a propósito das últimas notícias literárias e politicas, que acompanhava com à maior atenção.

Recebeu, em vida, quase todas as homenagens possíveis para um intelectual politicamente incorreto, a exceção do Prémio Camões ainda não instituído. Entre os poetas e escritores da sua geração, Alexandre O'Neill foi, porventura, o que mais se aproximou do grande público.

Recorreu à ironia e ao sarcasmo para a desmontagem de hábitos e rotinas ancestrais. Daí o paralelo inevitável entre a sua obra, a de Nicolau Tolentino e a de Cesário Verde. Nos três podemos encontrar afinidades, embora com escritas diferentes, visões diferentes e os condicionalismos de épocas diferentes. De todos, Alexandre O’Neill continua mais próximo de nós.

Embora exista outra classe social e outra classe politica, em numerosos aspetos, mantém hábitos e costumes inveterados. Revelam-se refratários à mudança. Falta-lhes ousadia para ultrapassar constrangimentos ancestrais para atingir as grandes reivindicações do cidadão da Europa.

Alexandre O’Neill Precisa-se” – por António Valdemar [Jornalista, carteira profissional número Um; sócio efetivo da Academia das Ciências], in Figueirense, 31 de Janeiro 2025, p. 18 – com sublinhados nossos; gravura de Álvaro Carrilho.

J.M.M.

domingo, 17 de março de 2024

O 25 DE ABRIL, A FORÇA DOS SÍMBOLOS – POR ANTÓNIO VALDEMAR

 


O 25 DE Abril, a força dos símbolos” – por António Valdemar, in Tempo Livre

 Portugal ficou diferente. Falta muito para o desejável. Mas faltará sempre, aqui e em outros países democráticos, que enfrentam os problemas atuais e procuram articulá-los com os grandes desafios do futuro

Tudo aconteceu há 50 anos. Rompeu através da madrugada e ganhou uma energia extraordinária através de todo o dia. A apoteose decorreu no 1.º de Maio. A Liberdade era restituída, em 25 de Abril, com a poesia e a música de José Afonso, sem recorrer aos tiros dos canhões e das espingardas. Nas ruas de Lisboa, e um pouco por todo o país, os cravos vermelhos logo se transformaram num dos símbolos vivos da revolução. Constituiu o ponto final de 50 anos de ditadura imposta por Salazar, seguida por Marcello Caetano. A poesia, a música e as artes plásticas registaram testemunhos impressionantes da prisão, da tortura, do exílio e da saga da resistência. A Ode à Liberdade de Jaime Cortesão insistia no repúdio ao «ódio fanático dos bonzos», ao «ciúme vil dos fariseus». Para louvar «a cada novo dia e duro preço», o «sopro e a lei da criação». Era a exortação para transpor a incerteza, a violência, a desigualdade e estabelecer uma cultura de justiça, de tolerância e diálogo.

Outro poeta, Sidónio Muralha, não podia sufocar este protesto veemente: «Já não há mordaças, nem ameaças,/ nem algemas que possam impedir/ a nossa caminhada,/ em que os poetas são os próprios versos dos poemas.» Ou, então, o clamor de Prometeu, recriado por Joaquim Namorado: «Abafai-me os gritos com mordaças,/ maior será a minha ânsia de gritá-los; /amarrai-me os pulsos com grilhetas,/ maior será a minha ânsia de quebrá-las;/ rasgai a minha carne, triturai os meus ossos,/ o meu sangue será a minha bandeira;/ meus ossos o cimento de uma outra humanidade, /que aqui ninguém se entrega./ Isto é vencer ou morrer!»

Jorge de Sena, do outro lado do mar enviava este poema repleto de angústia e alguma esperança. «Eu não posso senão ser/ desta terra em que nasci. /Embora ao mundo pertença /e sempre a verdade vença, /qual será ser livre aqui, /não hei-de morrer sem saber. / Trocaram tudo em maldade, /É quase um crime viver./ Mas, embora escondam tudo/ e me queiram cego e mudo, /Não hei-de morrer sem saber/ Qual a cor da liberdade

Sophia de Mello Breyner viveu e celebrou em Lisboa o 25 de Abril. Em plena revolução deslocou-se a Caxias para acompanhar a libertação dos que estiveram privados de liberdade. Resumiu num poema – ilustrado por Vieira da Silva – que ficou a ser uma referência obrigatória: «Esta é a madrugada que eu esperava /O dia inicial inteiro e limpo /Onde emergimos da noite e do silêncio/E livres habitamos a substância do tempo.»

O programa do 25 de Abril anunciou – e cumpriu – a reposição das liberdades reprimidas e castigadas durante meio século; o início da descolonização possível; a oportunidade para concretizar as regras constitucionais que fundamentam um Estado de Direito. Milhares e milhares de portugueses e suas famílias encontravam-se dilacerados pela crueldade da guerra colonial, em três frentes de combate: o espectro da morte, os pressentimentos, as insónias, os pesadelos que nunca mais esquecem.

Os poemas escaldantes de Manuel Alegre tornaram-se a voz da nossa própria voz: «Foram dias foram anos a esperar por um só dia. /Alegrias. Desenganos. Foi o tempo que doía /Com seus riscos e seus danos. Foi a noite e foi o dia /Na esperança de um só dia. Foram batalhas perdidas. Foram derrotas e vitórias./Foi a vida (foram vidas). Foi a História (foram histórias) / Mil encontros despedidas. Foram vidas (foi a vida) /Por um só dia vivida./ (…) Fogos-fátuos cinza fria. Musa minha que cantavas /A canção que se vestia com bandeiras nas palavras: /Armas que o tempo tecia. Minha vida toda a vida / Por um só dia vivida.»

No romance Os Memoráveis, Lídia Jorge recriou testemunhos de intervenientes da revolução e, ao mesmo tempo, os efeitos da passagem do tempo, não só acerca desses protagonistas, mas dos que se evidenciaram na sociedade contemporânea. Caracterizam a grandeza e as misérias dos portugueses, no dia-a-dia, e, em momentos históricos. Dir-se-iam que permanecem como sobreviventes de um tempo já inalcançável.

A leitura dos Memoráveis conduz-nos à ilusão revolucionária, à desilusão de muitos e à travessia para conseguir a plenitude da democracia. A exaltação e o ceticismo destacam-se, invariavelmente na poesia, nos Diários, nos contos, novelas e romances de Miguel Torga.

É o homem sempre irritado, receoso, sombrio, ressabiado, cujo mundo reside, apenas, nele próprio. Basta ler e refletir na posição assumida, em 1976, num discurso sobre o 25 de Abril, proferido em Arganil: «Hora angustiosa que nada fazia prever em Abril de setenta e quatro, quando uma manhã de esperança raiou no espírito de todos nós. Depois de meio século de negrura, o sol da liberdade brilhou inesperadamente em Portugal. E foi, como sabeis, uma festa universal. Depressa, porém, a tristeza voltou.

E a palavra revolução, acolhida com benevolência até nos ouvidos, mais refractários, em vez de, como outrora, significar uma rotura promissora e fecunda, passou a evocar apenas a desordem à solta nas ruas, e o arbítrio e a prepotência, ensarilhados na parada dos quartéis. Creio que nenhum português consciente esquecerá até ao fim dos seus dias estes dois anos aziagos. Enganada na sua boa fé, a alma da Nação foi durante eles indelével e dolorosamente tatuada por todos os estigmas da desgraça

Qualquer que seja a avaliação o 25 de Abril cerrou as grades das prisões políticas de Caxias, do Aljube e de Peniche. Promoveu a formação de partidos, de pluralismo de opinião e de crítica. Ao procedermos a um balanço sumário verificamos acidentes de percurso. Todavia, a Constituição da República, estabeleceu as regras do exercício do Estado de Direito e a enumeração dos objetivos fundamentais para o combate inadiável à rotina e ao pensamento único; para reclamar os imperativos da mudança, incutir a exigência de responsabilidade ética, estimular a ousadia e a inovação para a transformação do País, mergulhado em estruturas arcaicas.

Concretizou-se o programa do 25 de Abril, anunciado nessa madrugada histórica. Houve, de imediato, a restituição das liberdades. Realizou-se a integração na Europa. Falta muito para atingir o desejável, mas faltará sempre, aqui e em outros países livres e democráticos, que dentro dos condicionalismos inevitáveis enfrentam os problemas atuais e procuram articulá-los com os grandes desafios para o futuro.

O 25 DE Abril, a força dos símbolos – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências] – in Tempo Livre Março/ Abril de 2024, p. 8 – com sublinhados nossos; FOTO de Álvaro Carrilho.

J.M.M.

domingo, 4 de novembro de 2018

CONFERÊNCIA – “LEAL DA CÂMARA, PORTUGAL, O MUNDO E A CASA”



CONFERÊNCIA: Leal da Câmara, Portugal, o Mundo e a Casa
ORADOR: António Valdemar (Academia das Ciências) | imagens de Álvaro Carrilho;

DIA: 7 de Novembro 2018 (16,00 horas);
LOCAL: Casa Museu Leal da Câmara [Calçada da Rinchoa, 67, Rio de Mouro]

"A vida, a obra e a projeção  de mestre Leal da Câmara (1876-1948), um dos maiores panfletários da caricatura, em Portugal, em Espanha e em França, vai ser objeto de uma visão retrospetiva por António Valdemar, a realizar no próximo dia 7 de Novembro, na sala multiusos que tem o nome do artista e se encontra instalada na Casa Museu Leal da Câmara, na Rinchoa, Rio de Mouro.

A conferência, subordinada ao titulo genérico «Leal da Câmara, Portugal, o Mundo e a Casa”, destina – se a encerrar  um ciclo comemorativo promovido pelo investigador  e diretor do museu Élvio Melim de Sousa e que tem o patrocínio do Presidente da Camara de Sintra e dos responsáveis pela área da cultura.
 
 

Assim, vão estar em destaque os aspetos mais significativos da criação plástica e da intervenção cívica de Leal da Câmara  que, em 1900, foi o primeiro português a conhecer Picasso, em Paris, e  que também conviveu com outras notáveis personalidades internacionais como, por exemplo, Anatole France,  Trotsky,  Valle Inclan e Ruben Dario; poetas e escritores portugueses como Cesário Verde, Gomes Leal, Guerra Junqueiro e  Aquilino Ribeiro; artistas como Stuart Carvalhais,  Almada Negreiros e  Jorge Barradas, além de políticos  como Afonso Costa, João Chagas, Magalhães Lima, António José de Almeida etc. 

A conferência será acompanhada por um power point concebido pelo designer Álvaro Carrilho".

A não perder.
 
J.M.M.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

[18 DE NOVEMBRO * CENTRO CULTURAL DE BELÉM] – RAUL BRANDÃO REVISITADO – NOS 150 ANOS DO SEU NASCIMENTO E NO CENTENÁRIO DO LIVRO “HÚMUS”


Nos 150 Anos do Nascimento de Raul Brandão e no Centenário da publicação do livro “Húmus” – DIA LITERÁRIO RAUL BRANDÃO

DIA: 18 de Outubro (15,00 horas);
LOCAL: Centro de Congressos e Reuniões do Centro Cultural de Belém [Piso 1], Lisboa;
CONFERÊNCIA: Raul Brandão Revisitado;
ORADOR: António Valdemar (Academia das Ciências);

INTERVENIENTES: Leitura de Interpretação de Textos da obra “Húmus” por José Fanha; Ilustrações de Álvaro Carrilho.  

ORGANIZAÇÃO: António Valdemar / Centro Cultural de Belém.

“A personalidade e a obra de Raul Brandão estão associadas, em 2017, a dois acontecimentos relevantes: a comemoração dos 150 anos do nascimento do escritor e o centenário da publicação do livro Húmus.
 
 

As duas efemérides vão ser assinaladas com uma intervenção de António Valdemar sobre a criação do escritor, as figuras da época, os movimentos políticos, militares, sociais e culturais e ainda os locais do Porto, de Guimarães, de Lisboa, dos Açores e da Madeira, mencionados nos seus livros. Haverá, ainda, a leitura de textos de Húmus, por José Fanha.

A sessão será ilustrada com uma apresentação concebida pelo designer Álvaro Carrilho, autor de outros trabalhos  que tem efetuado, na última década, para a Academia das Ciências,  para o Grémio Literário, para a Biblioteca Museu da Resistência e da República e outras instituições culturais e cívicas.

Raul Brandão nasceu a 12 de março de 1867, na Foz do Douro, estudou no Colégio São Carlos e no liceu do Porto, frequentou o Curso Superior de Letras (1888) e matriculou-se na Escola do Exército, em 1891. Concluiu o curso, em 1894, tendo sido colega dos futuros Presidentes da República Sidónio Pais e Óscar Carmona.

Exerceu funções em Lisboa, no Porto e em Guimarães. Quando se encontrava nesta cidade, casou, em 1897, com Maria Angelina. Reformou- se do posto de capitão em junho de 1911.

Adquiriu, em 1912, a casa do Alto da Nespereira, na periferia de Guimarães, onde passava parte do ano (dedicando-se à agricultura) e a outra parte em Lisboa, primeiro na York House, depois em casa própria na Rua de São Domingos à Lapa, onde faleceu a 5 de dezembro de 1930.

Desde 1902, ao radicar-se em Lisboa, teve intensa atividade no jornalismo, no Correio da Manhã, no Dia e no República, dirigido por António José de Almeida.

Muitos dos textos das suas memórias foram redigidos, em forma definitiva, a partir de notícias, reportagens e crónicas publicadas naqueles e noutros jornais e revistas.
 
 

A sua relação com Teixeira de Pascoais data de 1914, colaborando na revista Águia e no movimento Renascença Portuguesa. Publicou Húmus, a sua obra principal, em novembro de 1917. Fez parte do Grupo da Biblioteca, quando Jaime Cortesão era diretor da Biblioteca Nacional de Lisboa. Pertenceu ao núcleo dos fundadores da Seara Nova. Frequentou o ateliê de Columbano, que lhe fez vários retratos, e as tertúlias da Brasileira do Chiado e da Bertrand.

Atualmente, a Relógio d’Água tem estado a reeditar Raul Brandão – em edições críticas e prefaciadas por especialistas na matéria – na série Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, iniciativa da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, com o patrocínio do Ministério da Cultura” [AQUI].
 
 

A não perder.

J.M.M.