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domingo, 25 de agosto de 2019

FIGUEIRA DA FOZ - [ASSOCIAÇÃO CÍVICA E CULTURAL 24 DE AGOSTO] NA EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS


DISCURSO PROFERIDO NA EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS NO DIA 24 DE AGOSTO DE 2019, na Figueira da Foz, pela Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto

Caros Cidadãos

Mais uma vez aqui reunidos na Praça 8 de Maio perante o imponente Monumento em pedra e bronze da autoria de Fernandes de Sá, inaugurado a 24 de agosto de 1911 e sob o qual repousam os restos mortais de Manuel Fernandes Tomás, reafirmamos com a nossa presença não apenas a celebração de um mero ritual espúrio em que todos os anos se assinala uma qualquer data, mas a celebração de uma vida plena de verdadeiro empenho cívico, de uma vida dedicada à defesa da Liberdade nas suas diversas acepções, como um direito inalienável e intrínseco a cada Homem e a cada Mulher, de uma vida eivada de um profundo e sincero amor a Portugal. 

Em nome da Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto cumpre-nos assim a honra e o solene dever de evocar o luminoso dia de 24 de Agosto de 1820, aurora exaltante de regeneração nacional e de emancipação da Pátria, e prestar saudoso preito e homenagem ao Cidadão e Varão Ilustre Manuel Fernandes Tomás, nosso inolvidável patrício, o sangue e a alma da Revolução de 1820. 

Nesta luminosa data, a um ano da solene Comemoração do Bicentenário da Revolução Liberal de 1820, seja permitido destacar duas breves notas:

1. A primeira nota é para reafirmar que a Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto continuará, com o zelo dos seus membros e seguindo o notável e entusiástico trabalho iniciado pela Família de Manuel Fernandes Tomás (ao Dr. Henrique Fernandes Tomás Veiga, o nosso fraternal afecto e abraço), a estar presente em todas as iniciativas que visem perpetuar o espírito e a memória do Patriarca da Revolução.

Deste modo, pretende, com manifesto orgulho, colaborar e abrilhantar a competente celebração do Bicentenário da Revolução de 1820 que a Câmara Municipal empenhadamente propõe solenizar.

2. Uma segunda nota diz particular respeito à (re)construção da memória histórica ligada à obra e vida do Regenerador da Pátria, Manuel Fernandes Tomás.

A dívida de gratidão a quem auspiciosamente semeou e nos franqueou a palavra “Liberdade”, exige, de todos nós, a digna celebração dessa data e da vida de Manuel Fernandes Tomás, o “magistrado aplaudido pelo saber” nas palavras de Rebelo da Silva.

A um ano, precisamente, do Bicentenário da Revolução Liberal de 1820, a Câmara Municipal da Figueira da Foz terá a honrosa responsabilidade de juntamente com a Cidade do Porto organizar a condigna celebração deste efeméride na qual resplandece ainda hoje e cada vez mais o nome de Manuel Fernandes Tomás como o incontornável Patriarca da Liberdade, cuja Luminosa Vida e Legado Cívico hoje aqui recordamos.

Na presença do Senhor Presidente da Câmara reitera a Associação Cívica e Cultura 24 de Agosto o nosso empenho, bem como o de todos os seus Fraternos Associados, em colaborar em tal necessário esforço e desiderato.

Assim, salientamos em particular a importância da Memória na história de uma Cidade e na história de um Povo.
 
Não apenas da memória do mais Ilustre Figueirense mas a importância da memória de uma figura histórica nacional de incontornável relevância.

Mas com a nossa presença, hoje celebramos também e sobretudo aqueles que não se resignaram perante a brutal invasão do nosso país por forças estrangeiras; aqueles que não se resignaram à opressão e ao cruel jugo do Absolutismo personificado pelo perverso e obscuro D. Miguel; aqueles que não se resignaram a aceitar que era um fado do nosso povo um Portugal permanentemente atrasado perante a Europa e o Mundo, sem instrução pública e com um sistema político e social velho de séculos; aqueles que não se resignaram a aceitar que Portugal tinha de viver na forma habitual, sem liberdade de pensamento, de imprensa e com censura prévia; aqueles que não se resignaram a que as Mulheres fossem apenas donas de casa ou criadas de servir.
 
 
 
Lembrar Manuel Fernandes Tomás é homenagear aqueles que no Cerco do Porto em 1832, na Rotunda em Outubro de 1910, na resistência democrática à longa noite da Ditadura, no Forte de Peniche, no Campo do Tarrafal, e no Largo do Carmo em Abril de 1974 permitiram novos amanhãs de esperança para Portugal e para o nosso Povo. Todos esses Portugueses têm um nome na História de Portugal e todos se chamam também Manuel Fernandes Tomás.

Tal como eles também nós não nos resignamos hoje a acreditar que o longo caminho de construção de uma sociedade mais justa, fraterna e democrática está de todo concluído.

Pelo contrário, passos empenhados e firmes no árduo percurso de intervenção cívica em defesa dos nossos Valores e Causas são ainda nos tempos de hoje – e cada vez mais – necessários. 

Foi esse espírito de intervenção cívica empenhada, desinteressada, sem compromisso e corajosa um genuíno e valioso legado que Manuel Fernandes Tomás colocou nas nossas mãos para ser cumprido e perpetuado.

E assim terá de ser e assim será.

Um bem alto Viva à Memória de Manuel Fernandes Tomás!

Um bem alto Viva à Memória do 24 de Agosto de 1820!

Um bem alto Viva à Figueira da Foz e à Liberdade!

 
Um bem-haja a todos. Disse.

[Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto] - sublinhados nossos

J.M.M.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

[DIA 10 DE JULHO 2019] ANTÓNIO VALDEMAR DISTINGUIDO COMO SÓCIO HONORÁRIO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ESCRITORES



No próximo dia 10 de Julho, a Associação Portuguesa de Escritores [APE; foi fundada em 1973 como legitima continuação da ex-Sociedade Portuguesa de Escritores, extinta em 1965 por imposição do governo fascista de Oliveira Salazar e na sequência da atribuição do “prémio de novelística” ao escritor angolano José Luandino Vieira, então preso no Tarrafal; a SPE foi, nesse ano de 1965, assaltada e destruída pela PIDE e a Legião Portuguesa, no mesmo dia em que, por Decreto, era extinta] irá atribuir o título de sócio honorário a algumas personalidades nacionais que, ao longo das suas carreiras públicas, prestaram relevantes serviços à comunidade, com “intervenção em domínios diversos da cultura portuguesa”.

A cerimónia, que decorrerá durante um almoço no restaurante As Velhas (Av. da Liberdade, Lisboa) no próximo dia 10 de Julho (12,30 horas), vai preitear o arquitecto Álvaro Siza Vieira, o nosso querido Amigo - o decano dos jornalistas, olisipógrafo e membro da Academia das Ciências - António Valdemar, o fadista Carlos do Carmo, o brilhante ensaísta e filósofo Eduardo Lourenço, o ilustre historiador José Augusto França e o actor Rui Mendes com o respetivo diploma de sócio honorário da Associação. Refira-se que a APE contava nas suas fileiras como sócios honorários, vultos como Alexandre Babo, Carmem Dolores, Júlio Pomar, Mário Soares, Manuel de Oliveira ou Urbano Tavares Rodrigues.

António Valdemar é um bom e fraternal amigo do Almanaque Republicano. Honra-nos, desde a primeira hora, com a sua calorosa e prestimosa sabedoria, ilustração e vigor. A profundíssima alegria evidenciada no seu trabalho de escrita - que cinzela como poucos -, a qualidade e elegância dos seus dizeres, a notável luminosidade do seu saber memorialístico e a sua voz autorizada, são exemplos e estímulos para todos nós. A homenagem que a APE lhe vai prestar merece, sem dúvida, toda a simpatia e o nosso aplauso. A grande estima e elevada consideração que temos para com António Valdemar envolve um vigoroso abraço fraterno, que daqui, destes frondosos Campos do Mondego com mar ao fundo, gostosamente lhe enviamos.
Muitos Parabéns e o nosso Obrigado  
J.M.M.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

FIGUEIRA DA FOZ - [ASSOCIAÇÃO CULTURAL 24 DE AGOSTO] NA EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS



DISCURSO PROFERIDO NA EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS NO DIA 24 DE AGOSTO DE 2018, NA FIGUEIRA DA FOZ, pela Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto

O Patrono da Figueira da Foz, Manuel Fernandes Tomás, foi um Homem ímpar na história de Portugal. Único. Como apenas os que dedicam a sua vida à causa pública – no fundo dedicam a sua vida ao serviço de outros Seres Humanos – podem ser.

Mas em vida encontraríamos eventualmente apenas um homem simples. Como muitos dos presentes com a boa sorte de ter nascido Figueirense, com contradições, dúvidas, impulsos, vontade de ser um simples magistrado sem particulares responsabilidades, despojado de ambições maiores ou sonhos de qualquer mudança radical da sociedade.

Ora no momento em que poderia acomodar-se no seio da sua família, vivendo de forma relativamente confortável e segura, com um rendimento substancial e já respeitado pelos seus pares, Fernandes Tomás foi pela História chamado a desempenhar um papel de liderança. Liderança pelo exemplo. Liderança pelo carisma. Liderança pela intervenção política. Liderança pela inabalável vontade de levantar um Povo abatido e derrotado por séculos de preconceitos, de tirania, de iniquidades e profundas desigualdades, algumas das quais perduraram até há poucas décadas. Algumas das quais perduram até mesmo nos nossos dias.

Tendo grandes simpatias pelos ideais subjacentes à Revolução Francesa e da França Napoleónica, ao dar-se a invasão de 1808 de imediato se colocou porém ao serviço daquela que acreditava ser a legítima autoridade de Portugal, reagindo contra a violência, destruição e iniquidade da Invasão. Precisamente no momento em que a Figueira da Foz desempenha na história da Europa um papel sem precedentes com o desembarque em Lavos, do outro lado do nosso Mondego, das tropas de Arthur Wellington.

Nada deve ir contra a dignidade de um país. Tal como nada pode ir contra a consciência e dignidade da Pessoa Humana.

E esse é o grande legado do nosso Patrono. Legado que Portugal não esquece. Legado que Nós, Figueirenses do Século XXI, não esquecemos.

A Humanidade consegue hoje vencer no Espaço distâncias que se medem em anos-luz – muito para além do que poderíamos há poucos anos atrás sequer sonhar – mas não consegue vencer a iniquidade da distância de rendimentos e de oportunidades que continua – ainda hoje – a separar Homens e Mulheres de distintas crenças, nacionalidades e religiões.

Mas no dia 24 de Agosto de Agosto a Figueira da Foz não homenageia apenas o seu Patrono e Cidadão Emérito maior, não é a apenas a memória de MFT que junto da sua estátua lembramos hoje, mas também a tradição liberal e republicana de permanente e nunca esmorecido empenho cívico pela Liberdade.

Por isso lanço ao nosso Presidente da Câmara Municipal, Dr. João Ataíde, o desafio de que a nossa Figueira da Foz assuma, conjuntamente com a Cidade do Porto, a comemoração nacional do Bi-Centenário da Revolução de 24 de Agosto em 2020. Para tal contará com o nosso apoio.

MFT legou-nos o dever, a obrigação moral e de consciência de uma intervenção cívica empenhada, frontal, responsável, desinteressada e livre como apenas Homens e Mulheres Livres – como ele próprio foi em vida e na morte um incontornável exemplo – podem assumir ter. Perante a sua enorme figura curvamo-nos hoje Nós, Figueirenses do Século XXI.
 
Um bem-haja a todos!
 
[Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto] - sublinhados nossos

J.M.M.

domingo, 3 de dezembro de 2017

IN MEMORIAM DE MÁRIO NETO (1942-2017)



O engenheiro e professor Mário Neto, cuja morte surpreendeu amigos e admiradores, partiu discretamente, como sempre rendilhou a sua vida, faz esta noite uma semana. Este nosso querido amigo, dedicado companheiro e mestre, não consentiu – na sua proverbial humildade – a homenagem pública que fraternalmente se impunha à admiração e respeito das suas avultadas qualidades humanas e que os figueirenses sabiamente lhe reconheciam. Partiu de rosto levantado, com a honrada obrigação do dever cumprido.

O falecimento do Mário Neto, leitor atento (e crítico) do Almanaque Republicano [como antes, do Almocreve das Petas], deixa-nos profundamente consternados: pelo saber que irradiava, na inteligência, bondade e generosidade intelectual que repartia e o engrandecia. Mário Neto, como tão bem disse [in Diário das Beiras, 30/11/ 2017] o nosso comum amigo Guedes Correia era “uma figura quase renascentista, ao estilo de Leonardo da Vinci ou de Pico della Mirandola, capaz de ter um discurso motivante e encorajador sobre a humanidade e sobre o mundo a partir da sua experiência pessoal, das suas leituras, das suas viagens”.

Mário Neto foi nosso distinto professor na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e, na lei que regula os destinos, tivemos o privilégio de nos ter honrado com a sua amizade e companheirismo. A sua intensa luz soube-nos aproveitar este tempo de utopias, essa “grande paz exterior das coisas” [H.H.] com a serenidade prudente que o sentimento de liberdade exige. E que Mário Neto tão ciosamente buscava, na sua perfumada independência e na benevolência do seu pensamento. O seu legado pela igualdade e dignidade dos Homens, de que era cultor irredutível, eleva-se admirável e eloquentemente. E não será esquecido.

Até sempre, Mário Neto.

Mário António Figueiredo Neto nasceu na Figueira da Foz a 19 de Fevereiro de 1942. Fez os seus estudos no liceu da Figueira da Foz até ao 2º ano, terminando depois o ensino secundário no Liceu D. João III (actual José Falcão). Entretanto foi um curioso desportista, do futebol à prática de ténis de mesa, representando nesta última modalidade o Ginásio Clube Figueirense. Partiu para Lisboa, matriculando-se no Instituto Superior Técnico [IST], em engenharia de máquinas, ou engenharia mecânica [o Núcleo de Estudos de Engenharia Mecânica data de 1960 e foi o primeiro e único a trabalhar até 1975].

Em Lisboa, residiu numa das várias “repúblicas” que pululavam à volta do IST, onde conviveu (e se fez amigo) com uma geração de estudantes messiânicos [dos católicos progressistas aos futuros membros da FAP/CMLP], intransigente contra a ditadura e o Estado Novo. O cinema (sua grande e eterna paixão) e a vida associativa moldaram-lhe o dom e o ornamento do seu carácter, assumidamente combativo contra a impetuosa repressão cultural e política do seu tempo. Frequentou, então, o movimento do cineclubismo, que dava os seus passos, assumindo a direcção (1964) do Cineclube Universitário de Lisboa [CCUL].  

A crise de 1964-65, consequência dos movimentos estudantis de 1956 e de 1962, torna-o activista consciente dos valores da democracia e da liberdade. O Partido Comunista, então em movimento de rectificação contra o “desvio de direita” [antes, Álvaro Cunhal, que se tinha evadido, com outros camaradas seus, do Forte de Peniche, foi nomeado secretário-geral do partido, em Janeiro de 1960], aprova, em Abril de 1964, o importante relatório, elaborado por Álvaro Cunhal, “Rumo à Vitória. As tarefas do Partido na Revolução Democrática e Nacional”, que marca uma nova linha política de combate e derrube do fascismo. A importância dada à conquista da direcção de movimentos culturais e associativos (caravanismo, cineclubismo, associação de estudantes e associações culturais em geral) é notória, visando politizar amplos sectores da população e em especial, mobilizando os estudantes, então ávidos de liberdade e modernidade [sobre este curioso assunto, veja-se: Guya Accornero, Efervescência Estudantil. Estudantes, acção contenciosa e processo político no final do Estado Novo (1956-1974), 2009]. Assim, Mário Neto integra-se nesse movimento, que irrompe à escala nacional (e sabe-se o efeito que teve na greve académica de 1969, em Coimbra; de outro modo, tenha-se em conta o começo dos protestos contra a guerra do Vietname, na Universidade de Berkeley, também em 1964) e, particularmente, no Instituto Superior Técnico     

No dia 24 (ou 25?) de Novembro de 1964, Mário Neto é preso na rua pela PIDE. Então na direcção do CCUL [cf.Liberdade para os Estudantes Presos”, 1º informação das Comissões de Apoio; antes já tinham sido detidos inúmeros estudantes de várias Faculdades, entre os quais Saldanha Sanches, Rui Faure da Rosa, …], Mário Neto (pseudónimo Cândido) é acusado de ser dirigente do PCP no IST, não tendo prestado à PIDE qualquer declaração [outros dirigentes então presos e acusados de ligação ao PCP, seriam: José Crisóstomo Teixeira (pseud. Gonçalo; controlaria superiormente as actividades da Faculdade de Ciências, IST, RIA, Belas-Artes, ISCEF, liceus e escolas técnicas), Humberto António Caria Lucas (pseud. Hugo; juntamente com o Mário Neto seria quem orientava as actividades do IST) – ver jornal República 28/01/1965, p.2 e 15].

No Aljube partilha a mesma cela com Mário Lino (Milo), Fernando Rosas (Rui) e outros mais, quase todos presos na sequência da vaga de prisões verificadas a 21 de Janeiro de 1965, por delação do controleiro do PCP para o sector estudantil Nuno Álvares Pereira [NAP] (pseud. Moreira – ver sobre este assunto, Irene Pimentel, “Vitimas de Salazar”). Refira-se que o caso NAP não esta completamente esclarecido, colocando-se a hipótese de ter sido, ele próprio, um infiltrado da PIDE. Por último, diga-se que a vaga de prisões verificada decapitou o sector estudantil de Lisboa do PCP e curiosamente, como AQUI referimos, deixou incólume o sector de Coimbra, então sob direcção de Valentim Alexandre, ou Vieira. Mário Neto é julgado em 11 de Agosto de 1965, no Plenário Criminal Auxiliar da Boa-Hora, tendo sido absolvido, saindo em liberdade (cf. Diário de Lisboa, 12/08/1965, p. 2).   

Lecciona na Escola Emídio Navarro (Setúbal) em 1965/66 e na Escola Afonso Domingues  (Lisboa) no ano de 1966/67, tendo sido afastado compulsivamente desta Escola a 14 de Junho de 1967, por motivos políticos, pelo Despacho do Conselho de Ministros de 13 de Junho desse ano.  

Cumpre, depois, serviço militar, tendo sido incorporado a 12 de Julho de 1971, saindo a 27 de Setembro de 1974 ( esteve às ordens de Vasco Gonçalves).  Termina o curso em engenharia e, de imediato, matriculou-se e frequentou, com aproveitamento, Economia no ISCEF   

 


No regresso à Figueira da Foz, no ano letivo de 1974/1975, lecionou na Escola Industrial Bernardino Machado. Depois do 25 de Abril, manteve-se militante do PCP, integrando como deputado a Assembleia Municipal. Demitiu-se, em discordância política com o Partido, ainda quando era deputado pela Assembleia.

Mário Neto teve ensejo de integrar o grupo inicial desse curioso projecto figueirense, o periódico “Barca Nova” [semanário democrático progressista;1, 10 de Novembro de 1977 ao nº 241, de 3 de Junho de 1983], sob impulso (principalmente) de Joaquim Namorado e José Fernandes Martins, em torno da Empresa Jornalística do Mondego, SARL, tendo colaborado com textos e pertencido desde a constituição da sociedade, ao seu Conselho de Administração [juntamente com Carlos Neto, presidente, e Wilson dos Santos, que foi, ao mesmo tempo, o primeiro director].

A partir de 1975/1976, Mário Neto é assistente convidado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, ministrando a disciplina de Microeconomia. Aposentou-se em Dezembro de 2008.   
 
Mário Neto era membro do Grande Oriente Lusitano há mais de duas dezenas de anos, fazendo parte da Loja Fernandes Tomás, da Figueira da Foz.

Faleceu no final do dia 26 de Novembro de 2017.

J.M.M.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

[COIMBRA] SESSÃO EVOCATIVA DOS 150 ANOS DA PUBLICAÇÃO DO I VOLUME DE “O CAPITAL” DE KARL MARX


 
 
CONFERÊNCIA: Sessão Evocativa dos 150 Anos da Publicação do I Volume de "O Capital" de Karl Marx

ORADOR: Doutor António Avelãs Nunes
DIA: 27 de Outubro de 2017 (21,00 horas);
LOCAL: Casa Municipal da Cultura [Rua Pedro Monteiro], Coimbra;
 
ORGANIZAÇÃO: Ateneu de Coimbra;

Karl Marx publica o volume I de “O Capital”, em Hamburgo, em 1867. Obra importante e estimada - que continua o seu trabalho anterior de crítica da Economia Política (saída em 1859) - publicada em III volumes, ainda hoje é bibliografia incontornável para uma análise do capitalismo e um legado de referência para o pensamento operário e socialista. A influência de Marx no pensamento contemporâneo é enorme, contribuindo para um intenso debate (ainda hoje conceptualmente presente) que vai da Economia (Política) às Ciências Sociais. O que é (ou foi) considerado como "marxismo" [curiosamente e segundo Engels, numa carta escrita a Conrad Schmidt, Marx teria dito: “Tudo o que sei é que eu não sou um marxista”; na verdade o “marxismo”, na sua prática de luta de classes, surge-nos bem antes da sua recepção teórica, que é quase sempre desconhecida] suporta ao longo do tempo reinterpretações sucessivas, controvérsias insanáveis, dando-lhe no entanto, pelas características ideológicas da sua metodologia de análise filosófica, económica e social, um significado ideológico e político distinto e, no tempo presente, uma continuidade, duradoura e intensa, na vida política e partidária em diferentes países do mundo.  



Com a morte de Karl Marx (1883), o seu amigo Friedrich Engels edita, a partir dos seus manuscritos (muitos ainda hoje inéditos), os volumes seguintes de ”O Capital” (o volume II, em 1885 e o III em 1894), não sem alguma polémica. De notar que a 1ª tradução d’O Capital, em português, foi feita a partir da sua tradução francesa, (Agosto de 1883, em França), saindo das Oficinas da Imprensa Lucas, em 1912, e onde surge, curiosamente, o nome do autor, como Carlos Marx.

Abra-se um parêntesis para dizer que os acontecimentos de França de 1848 [Karl Marx, sobre este particular assunto publica “As Lutas de Classe na França de 1848 a 1850“] e que varreram toda a Europa, chegaram a Portugal de forma ainda incipiente, a que não era estranho o relativo atraso do desenvolvimento capitalista em Portugal [por exemplo, a greve dos metalúrgicos de Lisboa, em 1849, é a primeira greve no sector industrial; e até então só se tinha feito sentir os protestos dos operários dos têxteis da Covilhã, em 1846; no entanto, é bom de reter, a importância que teve o movimento social e político, fortemente contestatário, da “Janeirinha” (1868), contra o Fontismo (e que levou à queda do governo), que de algum modo revelava já mudanças significativas da estrutura produtiva e, principalmente, é de destacar o conturbado período de 1871 em diante, em que a questão social se torna objecto económico e socialmente analisável].

Será interessante salientar a importância nessa geração, para a difusão das ideias libertárias ou revolucionárias, o trabalho proporcionado pela imprensa, com foi o caso do aparecimento de alguns periódicos operários combativos [principalmente com “O Eco dos Operários” (1850; fundado por Lopes de Mendonça e Sousa Brandão, Henriques Nogueira Vieira da Silva Júnior e J. Maria Chaves); refira-se, porém, que antes disso já tinha saído do prelo jornais de classe, como “O Cortador”, de 1837; a “Alvorada”, jornal republicano de 1848, não propriamente operário; “Eco Metalúrgico”, em 1850]. Curiosamente, o mesmo é possível de verificar em artigos de revistas académicas, como, por exemplo, as polémicas sobre a “questão social” traçadas na revista do Instituto de Coimbra (1853). Por outro lado, não terá sido indiferente a fundação da Associação Operária Mutualista Portuguesa (1839), o aparecimento do Centro Promotor de Melhoramentos das Classes Laboriosos (1852), as “Conferências Democrática do Casino” (1871), o surgimento da associação de trabalhadores “Fraternidade Operária” (1872), a fundação do Partido Socialista (1875; com José Fontana, Azedo Gneco, José Correia Nobre França e José Tedeschi) ou a criação do núcleo português da AIT, que contribuem decisivamente para o impulso do associativismo dos trabalhadores e para uma curial reflexão nacional sobre a “questão operária” e a “miséria” do proletariado.
 
 

Refira-se que a produção teórica sobre o “miserabilismo das classes trabalhadoras” e a sua emancipação eram (então) sufragados pelo movimento proudhoniano, anarquista e libertário e pelo curioso sindicalismo revolucionário [sobre o assunto ver, Alfredo Margarido, “A Introdução do Marxismo em Portugal 1850-1930"; ver, ainda, António Pedro Pita, "A recepção do marxismo pelos intelectuais portugueses 1930-1941"]. Na verdade a influência do pensamento de Proudhon na história das ideias em Portugal, nessa época, é incontornável.

De facto, a recepção ao pensamento de Proudhon [principalmente a partir da sua obra, “O Que é a Propriedade”, de 1840, a que se seguiu o cintilante “Sistema de contradições econômicas ou Filosofia da Miséria”, 1846, que, aliás, sofre uma violenta crítica de Karl Marx, em a “Miséria da Filosofia”, 1847; mas também, foi relevante, pela controvérsia anticlerical que proporcionou, o seu livro, datado de 1858, “A justiça na Revolução e na Igreja”] abre um curioso debate em Portugal, entre figuras de grande valia, como Pedro Amorim Viana (1882-1901), José Júlio de Oliveira Pinto Moreira (um inconfessável adepto de Bastiat e dos poucos que leu Marx), João da Silva Ferrão de Carvalho Mártens, J. J. Rodrigues de Freitas, José Frederico Laranjo, Batalha Reis, Sampaio Bruno, Basílio Teles, Sebastião Magalhães Lima, Silva Mendes, entre outros, de boa memória e interessante de acompanhar.   

 J.M.M.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

[ASSOCIAÇÃO CULTURAL 24 DE AGOSTO] NA EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES THOMAZ – FIGUEIRA DA FOZ



DISCURSO PROFERIDO NA EVOCAÇÃO DA REVOLUÇÃO LIBERAL E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS NO DIA 24 DE AGOSTO DE 2017, NA FIGUEIRA DA FOZ, pela Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto

“A Figueira da Foz continua a celebrar orgulhosamente os aniversários da Revolução Liberal de 24 de Agosto de 1820. Sob a luz que nos é proporcionada pelo nosso conterrâneo Manuel Fernandes Tomás continuamos, nesta terra, a reunir-nos, neste momento simbólico, e a assinalarmos, em conjunto, esse momento único da história da pátria em que de súbditos passámos a cidadãos.

E este encontro anual continua a ser importante. É importante porque uma cidade também se faz das tradições que se vão construindo. Das suas figuras históricas mais relevantes. Da marca cívica que elas tenham deixado. Do exemplo que tenham legado às gerações seguintes. E a Figueira da Foz tem muitas dessas personagens de quem se pode orgulhar e a quem deve prestar culto. A cidade e as suas instituições têm-no feito e é caminho que deve ser continuado. É a cidade que se une e se revê na vida e na obra dos seus mais ditosos filhos.

E à cabeça desse grupo de personalidades está, evidentemente, a figura quase tutelar de Manuel Fernandes Tomás.

Não valerá a pena repetir os aspectos centrais da sua biografia. Ela é razoavelmente conhecida e a sua valentia, probidade e a inteligência estão bem inculcadas nas mentes e nos corações da grande maioria dos figueirenses. Para isso, vale a pena dizer, em muito contribui a majestosa estátua que, há mais de 100 anos, um grupo de homens generosos lhe quis erigir.

A propósito da majestosa estátua convém dizer – e isso nem sempre é notado – que o topónimo da Praça onde está se encontra não poderia ser mais adequado. O 8 de maio de 1834, com a chegada, a Coimbra, do contingente de tropas liberais comandadas pelo Duque da Terceira colocou, praticamente, um ponto final num dos mais sangrentos períodos da história portuguesa. Passado poucos dias, a 26 de maio, a chamada “Convenção de Évoramonte” deu letra de forma a esse armistício, consumando a instituição, entre nós, de uma monarquia de índole liberal.

Mas voltando ao 197º aniversário que hoje assinalamos, importa dizer que a distância temporal a que já estamos dos acontecimentos retira-nos, talvez, alguma capacidade para captar, na íntegra, a importância da revolução liberal no curso da história do país.

O levantamento de agosto de 1820 colocou, naquele então, o nosso país na linha frente, no concerto ocidental, no plano da consagração legal dos direitos civis e políticos, na liberdade de expressão e de reunião e na separação de poderes.

E hoje, desde o 25 de abril, esses adquiridos são-nos tão familiares que nem nos apercebemos bem de quão revolucionários eles foram nos alvores do séc. XIX.

É também importante lembrar que as conjuras contra o absolutismo exigiam uma coragem bem diferente daquela que hoje, comodamente, sentados em frente ao computador, através das redes sociais, se usam para criticar tudo e mais alguma coisa. Se acaso fosse preciso prova, menos de três anos antes da revolução liberal, o martírio do Gomes Freire de Andrade estava aí para o comprovar.

E é por isto. É por tudo isto, que, na Figueira da Foz, continuamos a celebrar o 24 de agosto e exaltamos a memória de Manuel Fernandes Tomás. Porque o seu exemplo nos ilumina o caminho. Porque queremos ser cidadãos livres num país livre.

Viva a liberdade!”
 
[Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto, 24 de Agosto de 2017] - | sublinhados nossos
J.M.M.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

[ASSOCIAÇÃO MANUEL FERNANDES THOMAZ] HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES THOMAZ – FIGUEIRA DA FOZ



DISCURSO PROFERIDO NA HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES THOMAZ NO DIA 24 DE AGOSTO DE 2016, NA FIGUEIRA DA FOZ, pela Associação Manuel Fernandes Thomaz

A Associação Manuel Fernandes Thomaz, constituída a 12 de Janeiro de 1988 pela Câmara Municipal da Figueira da Foz, e por António Fernandes Tomás Veiga, Henrique Fernandes Tomás Veiga, Maria Amélia dos Anjos Gomes de Pina Veiga, Maria Elisa Pina Tomás Veiga Ferreira, Henrique Manuel Pina Tomás Veiga, Agostinho José Barbosa Ferreira, António Augusto dos Santos Menano e Manuel Barroso dos Santos, surgiu, e passo a citar, porque “várias pessoas e entidades estão interessadas na constituição de uma associação de índole cultural ou de qualquer outra índole relacionada com o movimento liberal encabeçado pelo figueirense MANUEL FERNANDES THOMAZ, (…) certos de que a sua outorga corresponde à vontade de um grande número de interessados”.
Desde sempre com sede na Figueira da Foz e contando, como figura de proa, com o interesse sapientíssimo e empenhado de Henrique Fernandes Tomás Veiga, a Associação visou os seguintes fins:

- promover a trasladação dos restos mortais de Manuel Fernandes Thomaz, de Lisboa para a Figueira da Foz;
- colaborar com a Câmara Municipal da Figueira da Foz nas comemorações da trasladação dos restos mortais de Manuel Fernandes Thomaz;

- fomentar a efectivação de estudos filosóficos, jurídicos, políticos, históricos, ou de qualquer outra índole, que permitam fixar os reflexos das ideias liberais, considerando, com particular atenção, o movimento encabeçado pelo figueirense Manuel Fernandes Thomaz;
- realizar as acções artísticas e culturais que, quer no plano pedagógico, quer no plano económico, se verifique ser necessário implementar como base para a consecução daqueles fins.

Ora, cumpridos a 24 de Agosto de 1988 os dois primeiros fins da sua criação, e porque acreditamos que as Organizações devem ser Entidades vivas e com propósito, valerá certamente a pena, hoje, reflectir acerca de duas questões, as quais, humildemente, enunciamos, acerca do papel da Associação Manuel Fernandes Thomaz:
- de que forma melhor respeitamos, hoje e no futuro, o supremo legado de integridade, valentia, igualdade, justiça, liberdade, sagacidade, reformismo, patriotismo, que o figueirense Manuel Fernandes Thomaz nos deixou?

- como materializamos este legado, em actividades que correspondam à fixação dos reflexos das ideias liberais, e não a um mero activismo ou, até, a um ritualismo frio de sentimentos, desvirtuador da irrequietude cívica do erudito e pensador que se preocupava com os males da pátria, cujos desastres sucessivos lhe enlutavam o generoso coração?
A morte de Manuel Fernandes Thomaz, a 19 de Novembro de 1822, impediu-o de continuar a sua luta em prol de um Portugal mais justo, mais livre, mais elevado, mas também o preservou de assistir à incapacidade dos seus contemporâneos em aplicar as bases da Declaração dos Direitos do Homem, fundamento principal da “sua” Constituição de 1822.

Manuel Fernandes Thomaz é reconhecido como o honrado e austero liberal que libertou o nosso País do jugo estrangeiro, liderando uma revolução “que se fez por aclamação, porque ninguém a ela naquele tempo se opôs e foi universalmente recebida e festejada como a restauradora da pública felicidade”, de acordo com José Liberato Freire de Carvalho, e iniciando, com a já referida Constituição de 1822, “a organização jurídica da democracia”, segundo Joaquim de Carvalho.
Hoje, 194 anos após a sua morte, será desapropriado ou demagógico chamar-lhe “o mais ilustre de todos os figueirenses”?


Assim, desprovidos de qualquer outro sentimento ou intenção que não seja a preservação dinâmica do legado de Manuel Fernandes Thomaz, e lembrando, sobretudo, a Democracia – do grego “demos”, povo, o qual detém o poder soberano sobre os poderes legislativo, executivo e judicial, exercidos em nome de todos os cidadãos pelos seus representantes livremente eleitos, os quais devem ser o garante da liberdade humana (de pensamento, de expressão, de protecção, de participação plena na vida política, económica e cultural da sociedade) -, aqui deixamos o repto de, como sociedade democrática, a qual está, assim, por imperativo ideológico, baseada em valores (como o da tolerância, da cooperação, do compromisso, por exemplo, conforme nos mostrou Manuel Fernandes Thomaz), todos juntos, com a intrepidez, a coragem, a ousadia, mas também eivados de um espírito cívico fundamentado e sábio, trabalharmos com o intuito de, em 2020, por ocasião do duplo centenário da Revolução-mãe, centrarmos na Figueira da Foz, terra natal de Manuel Fernandes Thomaz, as comemorações nacionais desta épica efeméride.

Há 100 anos atrás, escrevia-se que “a celebração do centenário da Revolução de 1820 constitui uma divida nacional. Impunha-se como um dever a todos os liberais. Dominava o país uma opressão traiçoeira; esmagava-o a intervenção férrea do estrangeiro. Foi nestas circunstâncias que apareceram os patriotas de 20, como libertadores e como precursores. Clamaram-lhes e chamam-lhes ainda hoje ingénuos. Ingénuos, sim, para os que são incapazes de avaliar o espírito de sacrifico. E é esse espírito, que torna o homem cidadão e apóstolo, o que mais e melhor caracteriza os heróis daquela revolução, digamo-lo sem favor. (…) Uma revolução que principia por proclamar a liberdade de pensamento, a liberdade de imprensa, a abolição da censura prévia, numa época de fanatismo e de reacção, tem foros adquiridos a uma consagração nacional. É uma divida a saldar pela República Portuguesa que é um reflexo daquele patriotismo e daquela abnegação”.

Sejamos então capazes de construir as pontes necessárias à concretização deste desiderato, que tanto honrará, certamente, a nossa cidade, bem como o legado do figueirense Manuel Fernandes Thomaz!

[Associação Manuel Fernandes Thomaz, 24 de Agosto de 2016]

FOTOS de Manuel Úria, com a devida vénia | sublinhados nossos

J.M.M.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

[TEXTO] NA HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS – FIGUEIRA DA FOZ


 
DISCURSO PROFERIDO NA HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS NO DIA 24 DE AGOSTO DE 2016, NA FIGUEIRA DA FOZ, pela Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto

Vão decorridos 196 anos que um punhado de heróis – à frente dos quais estava o nosso patrício Manuel Fernandes Tomás - ajustou o ideal da santa liberdade à obra legislativa constitucional de um Portugal que se queria novo e regenerado, tão cioso estavam da sua independência e da sua liberdade.
Na verdade, o movimento libertador de 24 de Agosto de 1820 na cidade do Porto, grito memorável da regeneração da Pátria livre e facto glorioso da nossa história, pôs fim à pesada grilheta da opressão férrea do estrangeiro, tirana e absurda, e lançou as sementes da reforma jurídico-constitucional, contra o arbítrio do Estado e os privilégios sociais, enchendo de júbilo o coração dos portugueses.

Cumpre-nos, portanto, a todos e cada um de nós, em preito de homenagem, respeito e gratidão pública, honrar a memória desses cidadãos que bem souberam irradiar a liberdade e redimir a Pátria. E, de entre eles, a veneranda figura do mais ilustre dos figueirenses, do mais instruído dos magistrados, o primeiro dos regeneradores da Pátria, o cidadão e o homem de bem, Manuel Fernandes Tomás.

A Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto tem – e terá sempre - o grato prazer de evocar esse auspicioso dia e laurear o nosso patrício, o Patriarca da Liberdade, associando-se à sua Homenagem, relembrando o seu exemplo benemérito e civilizador, honrando as suas virtudes morais e cívicas, perpetuando e iluminando a sua memória.



Minhas Senhoras e Meus Senhores
Rememorar acções heróicas dos nossos melhores, expondo os seus contributos, virtudes e acções pelo bem público, não é apenas ecoar o clamor da epopeia ou venerar lembranças do passado, mas, outrossim, ao enaltecer os seus talentos, colher os seus ensinamentos, dignificar as suas palavras, semear os seus exemplos.

Manuel Fernandes Tomás, pela probidade e integridade do seu pensamento político e obra pública, acrescentou “uma página à história das idades”, legando-nos um património cívico admirável que persistiu – e persiste – nesta alumiada terra figueirense. O reconhecimento e a ventura do seu ideário passaram, de facto, testemunho à geração vindoura, que ousou ser depositária fiel da sua alma, coragem e luta.
Sim, os ideais liberais e progressivos da revolução vintista deixaram sempre a sua semente luminosa entre a nossa gente, nesta nossa terra. Do Liberalismo à República, do Estado Novo à instauração do Regime Democrático, foram muitos e admiráveis aqueles cidadãos que tão bem souberam materializar os grandes ideais do humanismo, da liberdade, da fraternidade e justiça e que, deste modo, se vêem alistar ao lado de Manuel Fernandes Tomás, a que muito devem e em quem se revêem.

Entre eles, permitam-me lembrar com estremecido júbilo, os seguintes:
José Maria de Lemos (1805-1886), António Roberto de Oliveira Lopes Branco (1806-1889), Fernando Augusto Soares (1838-1918), José Joaquim Alves Fernandes Águas (1840-1919), Ernesto Fernandes Tomás (1848-1902), António dos Santos Rocha (1853-1910), Joaquim da Silva Cortesão (1853), Pedro Fernandes Tomás (1853-1927), Fortunato Augusto da Silva (1856-1926), Augusto Goltz de Carvalho (1858-1913), general Alfredo Augusto Freire de Andrade (1859-1929); José da Silva Fonseca (1863-1936), Manuel Gomes Cruz (1866-1943), Joaquim José Cerqueira da Rocha (1870-1928), João da Silva Rascão (1971-1950), Henrique Raimundo de Barros (1873-1929), José Gomes Cruz (1873-1941), Manuel Gaspar de Lemos (1874-1967), Frutuoso Abel dos Santos (1878-1928), António Mesquita de Figueiredo (1880-1954), Manuel Jorge Cruz (1880-1941), João de Barros (1881-19160), Manuel Cardoso Martha (1882-1958), António Augusto da Gama (1885-1966), Augusto dos Santos Pinto (1888-1979), José dos Santos Alves (1888-1958), António da Silva Biscaia (1892-1970), Raymundo Esteves (1892-1946), Albano Correia Neves Duque (1894-1963), António Augusto Esteves (Carlos Sombrio) (1894-1949), Maurício Augusto Águas Pinto (1884-1958), Adelino Ferreira Mesquita (1890-1977), Cristina Torres (1891-1975), Joaquim de Carvalho (1892-1958), José Rafael Sampaio (1892-1981), José da Silva Ribeiro (1894-1990), Frutuoso Soares Coronel Pessoa (1906-1980).

Assim, na história da vida figueirense, esta plêiade de notáveis cidadãos deixou-nos uma contínua (e difícil) utopia da cidadania e de serviço da causa pública, realizada através de uma fecundidade cívica e cultural exemplar, na animação da vida política, económica e associativa local, na conquista da liberdade e da democracia – o que é, afinal, o mais belo legado que prosseguiu e consolida a obra luminosa de Manuel Fernandes Tomás.
Esse é - Senhoras e Senhores – o maior tributo que se poderá prestar aos heróis dessa alvorada patriótica de 24 de Agosto (e, bem assim, ao nosso patrício Fernandes Tomás): avocar as virtudes sociais do combate cívico levado a cabo por várias gerações que nos precederam, homens e mulheres que irmanados no espírito e consciência do seu tempo nos souberam transmitir, fraterna e solidariamente, os valores da Liberdade, Justiça, Verdade, Honra e Progresso.

Nesse mesmo sentido se referiu Manuel Fernandes Tomás, no dizer do seu Relatório sobre o Estado e a Administração do Reino (3 de Fevereiro de 1821):
“Os homens mais dignos de servir a Pátria viviam no retiro e na obscuridade. Para os conhecer devia passar tempo”.

Tempo passado, é a hora de evocar na nossa memória, e para os vindouros, os traços luminosos que moveram à acção de gerações passadas, tempos históricos, sempre generosos e arrebatados, que deram alma e sonho na vinculação à polis e alento ao abraço de todos os homens como irmãos.
Por tudo isso dizemos bem alto:

Honra a Manuel Fernandes Tomás!
Viva a Liberdade!

[Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto, 24 de Agosto de 2016]

FOTO de F. Teixeira, com a devida vénia | sublinhados nossos

J.M.M.