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segunda-feira, 1 de julho de 2024

ATÉ SEMPRE FAUSTO!

 


… Vêm do fundo da paz da terra os sonhadores

Guardam em sonhos ocultas memórias os computadores

Pedreiros-livres, santos e artistas, tudo e ninguém

Sussurram secretas vozes profetas dos temporais

Pairam nos ventos estranhos seres como cristais …


Fausto Bordalo Dias (1948-2024) partiu e levou-nos esse cantar d’amigo que nos abraçava em saudade antiga, em língua de cante lusitano. Fausto era o jogral da nossa Demanda, era a Luz do nosso pranto, era o olhar da nossa memória. Afinal – como ele docemente nos diz - o Oriente tem o seu rosto em Portugal. Homem livre e de bons costumes, obreiro da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, o seu lugar é no mar alto da música e da poesia, entre a terra e o mar, que a soidade retorna em puro amor. Cantor iluminado e guitarrista exímio, a sua travessia navega por esses rios acima, subindo e descendo, para encanto nosso e em terra amada.

Pois é, Fausto amigo, como bem nos disseste: faz sentido interrogar-nos de onde vimos, para onde vamos, o que já fomos, de onde já voltámos, o que haveremos de ser…

Até sempre Fausto!

J.M.M.

terça-feira, 5 de setembro de 2023

JOAQUIM FEIO (1952-2023): IN MEMORIAM

 

Retirado da página da FEUC, com a devida vénia:

Joaquim Feio nasceu em Lisboa, em 1952. Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia da Universidade Técnica de Lisboa (atual ISEG), em 1975 ingressou na FEUC como Assistente.

Bibliófilo de fina sensibilidade, desde cedo apaixonou-se pela história do pensamento económico. Os primórdios da economia política, os grandes debates e as correntes do pensamento económico, as obras seminais da ciência económica, eram essas as suas leituras de eleição, juntamente com a literatura e com a poesia.

Homem culto e grande leitor de tudo o que se relacionasse com a vida humana e com a organização social e económica, Joaquim Feio lia e escrevia em diversas línguas, privilégio que partilhou com os amigos e leitores em diversos livros de poesia que publicou, em especial no seu fabuloso e pioneiro Two Poetical Tracts & a Post Scriptum (2003). A cultura italiana e o universo cultural das Espanhas interessaram-no sempre de forma particular. Aprendia-se muito com o Joaquim. Sabia de tudo e estava sempre disponível para uma conversa sem rumo, à volta dos livros, no corredor da Faculdade. Antes da era do produtivismo apressado, a Universidade beneficiou muito da presença e do trabalho de personalidades como Joaquim Feio.

Joaquim Feio foi um dos professores que mais se dedicaram à FEUC e que mais contribuíram para o percurso da Faculdade ao longo de várias décadas. Lecionou inúmeras disciplinas, tendo sido regente, entre outras, de Organização Económica Internacional, História do Pensamento Económico, Economia Política Internacional e Introdução à Economia. Entusiasta da construção europeia, participou sempre, ativamente, nos programas e iniciativas de mobilidade de estudantes e professores da FEUC (foi coordenador do GRI entre 2004 e 2011). Além disso, teve uma participação muito generosa e ativa nos órgãos de gestão da FEUC, como membro do Conselho Diretivo (1976 a 1979), do Conselho Pedagógico (1985-1991), da Assembleia de Representantes (1977-1979 e 1985-1993) e, também, no Senado da Universidade de Coimbra (1992-1993). Em 2003-2004 foi vice-presidente do Conselho Diretivo da FEUC. Aposentou-se em abril de 2011. 

[Texto assinado por Álvaro Garrido, diretor da FEUC]

O velório realiza-se na Igreja de Santo António dos Olivais, em Coimbra, a partir das 15h, de terça-feira.

As cerimónias fúnebres realizam-se amanhã, quarta-feira, a partir das 10h da manhã, na Capela de São Miguel, da Universidade de Coimbra. Haverá missa de corpo presente e, de seguida, o corpo seguirá para o Crematório de Taveiro.

As nossas condolências para toda a família e amigos.

A.A.B.M.

J.M.M.


sábado, 5 de agosto de 2023

IN MEMORIAM DE MARIA FERNANDA ALVES DA VEIGA DE OLIVEIRA (FANA) 1949-2023

 


Maria Fernanda Alves da Veiga de Oliveira (1949-2023) expirou três dias antes de celebrar o seu aniversário. Partiu, deixando um mar de afeição, generosidade e carinho – tão raros nestes tempos - entre amigos, conhecidos ou simples cidadãos. A Maria Fernanda (Fana) fez um caminho repassado de luz, paixão e alegria. Bisneta do advogado, professor e publicista republicano e prestigiado maçon [Augusto Manuel] Alves da Veiga, fundador do Partido Republicano e chefe civil da gorada Revolução de 31 de Janeiro de 1891, cedo participa nas lutas pelos direitos cívicos do Portugal amordaçado, integrando no liceu o coletivo do MAEESL e na faculdade a direcção da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa. A seguir ao 25 de Abril de 1974 integrou a 1.ª direcção da Faculdade de Ciências de Lisboa. A Maria Fernanda era neste momento Professora de matemática Jubilada da FCT da Universidade Nova de Lisboa, assim como da Escola Naval. A Maria Fernanda (Fana) tinha a humanidade como um largo mar, onde todos os Homens navegam livremente, como cidadãos fraternos. A sua confiança na felicidade do Homem era inabalável. Ditosos de nós pela estima que nos honrou.

Ao companheiro e nosso querido amigo Fernando Castel-Branco Sacramento, bem como a toda a sua família, o nosso mais sentido pesar. RIP

► “Um grande abraço fraternal de agradecimento a todos pelas vossas palavras amigas de despedida da Fana, bisneta e neta da mais ilustre linhagem de insignes republicanos e maçons portuenses e portugueses, de quem honrosamente recebi o testemunho e a herança da fé inabalável do trabalho a bem da Grei e da esperança e certeza de que, colectivamente e em cadeia de união, seremos sempre capazes de encontrar a força, a energia e a capacidade de ultrapassar as dificuldades e os obstáculos que a vida e a nossa caminhada de homens livres e de bons costumes e de povo multissecular nos apresentem, na sempre eterna luta entre a luz e as trevas, apresentando-se, nesta circunstância, as adversidades como um desafio e uma prova que nos tempere na nossa caminhada de seres livres, mas que respeitem sempre a liberdade de crescimento plural, diverso e inclusivo do outro, na construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.

[…] a Fana, minha companheira de vida, por mais de 50 anos, foi sempre um inabalável esteio onde encontrei em todas as ocasiões um firme apoio e incentivo para que não vacilasse e ultrapassasse, de uma forma cordial, cortês, afável e civilizada os inevitáveis escolhos que a caminhada maçónica, espiritual e cívica nos apresentem e que me ensinou a tratar todos como pessoas únicas com quem temos sempre algo a aprender.

Um bem hajam a todos vós”

[Fernando Castel-Branco Sacramento, 05/08/2023]

NOTA: Na 2ª feira (7 de Agosto) o féretro estará na sala Multiusos do PM do Porto, a partir das 17 horas; o funeral partirá para o Cemitério da Lapa, na 3.ª feira (8 de Agosto) à hora de almoço. 

J.M.M.

sábado, 19 de novembro de 2022

[19 DE NOVEMBRO 2022] IN MEMORIAM DE MANUEL FERNANDES TOMÁS

 




200 ANOS DO FALECIMENTO DO PATRIARCA DA REVOLUÇÃO LIBERAL DE 1820

“Manuel Fernandes Tomás foi a “alma e o cérebro” do levantamento regenerador de 24 de Agosto de 1820, na cidade do Porto, memorável página do nosso primeiro liberalismo político. A coerência do seu pensamento, a superioridade e eloquência do seu saber, a sábia palavra que a todos iluminava, são testemunhos insuspeitos para laurear o seu nome entre os Homens de 1820 e esculpir uma página mais à “história das idades”.

Manuel Fernandes Tomás faleceu no dia 19 de Novembro de 1822: uma vida de probidade e integridade, um pensamento político e obra pública notável, materializada nos ideais de liberdade, justiça e luta contra o despotismo. E foi assim na cidade do Porto quando organizou um grupo de amigos da verdade e da liberdade à volta de uma associação patriótica, denominada Sinédrio. E, depois, quando plantou uma semente mais do edifico do primeiro liberalismo pátrio, a Constituição de 1822.

Isto é, o exemplo benemérito e civilizador de Manuel Fernandes Tomás deve ser rememorado, merece ser evocado no dia do seu passamento. Vale!”  [AQUI]

J.M.M.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

ATÉ SEMPRE PRESIDENTE JORGE SAMPAIO


Sou um democrata de sempre e tenho orgulho no passado. Mas tenho a vontade no presente e os olhos postos no futuro. E sobretudo tenho pressa, porque Portugal também a tem. Julgo que partilhamos um sonho de vida e não o sono da sobrevivência” [Jorge Sampaio, in Declaração sobre as Eleições para a Presidência da República]

Jorge Sampaio partiu hoje de entre nós, deixando uma saudade imensa. O cidadão prestante, eloquente na sua profissão, o estrénuo defensor das liberdades, cordial no trato com amigos e adversários, modesto no trabalho cívico, digníssimo representante de todos nós, deixou-nos num grande exilio de tristeza e dor. O Presidente Sampaio, nosso amigo precioso, foi um exemplo de cidadania plena e de raras virtudes democráticas. A dívida de gratidão de todos nós perante os seus talentos e qualidades é total. Jorge Sampaio foi um dos nossos melhores.  

O Almanaque Republicano apresenta à família e amigos os nossos sentidos pêsames. Que descanse em paz e eternamente. Vale!

José Manuel Martins

Artur Barracosa Mendonça

segunda-feira, 17 de maio de 2021

PEDRO LAINS (1959-2021): IN MEMORIAM

Faleceu, hoje, 16 de Maio de 2021, com 62 anos, o economista e historiador da Economia, Pedro Lains, vítima de doença prolongada. Nascido em Lisboa, em 1959.

Um dos investigadores no domínio da História Económica de Portugal com reconhecimento na historiografia internacional. Era licenciado em Economia pela Universidade Nova de Lisboa (1983) e doutorado em História pelo Instituto Universitário Europeu (1992) e agregação em Economia, na Faculdade de Economia (2001)

Investigador com funções de coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa, desde 2006. Era Professor Convidado da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Católica e membro do Instituto Laureano Figuerola, da Universidade Carlos III, de Madrid.

Beneficiou de uma bolsa para estudar em Oxford, onde conheceu e contactou com figuras de relevo no campo da Economia e da História Económica, em Inglaterra.

Desempenhou as funções de Presidente da Associação Portuguesa de História Económica e Social, foi director da Imprensa de Ciências Sociais e secretário-geral da European Historical Economics Society e director da revista Análise Social.

- Professor, Departamento de História, Universidade de Évora (1998- 2003);

- Professor assistente visitante, Brown University, RI, EUA (1996-1997);

- Professor assistente visitante, Faculdade de Economia, Universidade Nova de Lisboa (1992-1996); 

- Professor assistente visitante, Departamento de Economia, Universidad Carlos III de Madrid (1991-1992); 

- Leitor visitante, Faculdade de Economia, Universidade Nova de Lisboa (1986-1988);

 - Leitor, St. Antony's College, Oxford University (Outubro - Dezembro, 1985);

Publicações

- História da Caixa Geral de Depósitos, 1974-2010. Política Nacional e Banca Pública na Integração Europeia. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais (Forth. 2011);

- Paying for the Liberal State. The Rise of Public Finances in Nineteenth Century Europe, Cambridge: Cambridge University Press, 2010 (Co-autor com José Luís Cardoso);

- Sem Fronteiras. Os Novos Horizontes da Economia Portuguesa. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2009 (Editor). 

- Agriculture and Economic Development in Europe since 1870, London: Routledge, 2009 (Co-autor com Vicente Pinilla); 

- História da Caixa Geral de Depósitos, 1910-1974. Política, Finanças e Economia na República e no Estado Novo. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2008; 

- Portugal em Análise. Antologia. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2007 (Co-autor com Nuno Estêvão Ferreira); 

- O Economista Suave. Ensaios. Lisboa: Cosmos, 2007; 

- Em nome da Europa. Portugal e a Integração Europeia. Lisboa: Principia (Co-autor com Marina Costa Lobo);

- Classical Trade Protectionism, 1815-1914. London: Routledge, 2006 (Co-autor com JeanPierre Dormois);

- Los Progresos del Retraso. Una Nueva Historia Económica de Portugal, 1842-1992. Zaragoza: Prensas Universitárias de Zaragoza, 2006 [Tardução de Os Progressos do Atraso…];

-  História Económica de Portugal, 1700-2000. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais (3 volumes), 2005 (Co-autor com Álvaro Ferreira da Silva);

- Os Progressos do Atraso. Uma Nova História Económica de Portugal, 1842-1992. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2003;

- História da Caixa Geral de Depósitos, 1876-1910. Política e Finanças na Liberalismo Português. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2002;

- L’Economie Portugaise au XIXe siècle. Paris : L’Harmattan, 1999 [Tradução de A Economia Portuguesa…];

- A Economia Portuguesa no Século XIX. Crescimento Económico e Comércio Externo. Lisboa: Imprensa Nacional, 1995. 

Mais informações curriculares podem ser recolhidas AQUI, AQUI e AQUI.

Foi co-autor da História Económica de Portugal, 1143-2010, em parceria com Leonor Freire Costa e Susana Münch Miranda. 

Um dos seus trabalhos mais recentes foi a História da Caixa Geral de Depósitos, 1876-2010. Encontrava-se a trabalhar num projecto de uma História da Economia Ibérica, para a conceituada editora Cambridge University Press.

Deixou colaboração dispersa em revistas como: Análise Social, European Review of Economic History, Explorations in Economic History, Historical Research, Journal of European Economic History, Journal of Iberian and Latin-America History, Open Economies Review, Research in Economic History e Scandinavian Economic History Review.

Alguns apontamentos memorialísticos podem ser consultados num apontamento disponível no seu blogue AQUI.

Uma perda para a historiografia portuguesa que não se podia deixar de assinalar no Almanaque Republicano.

A.A.B.M.



domingo, 10 de janeiro de 2021

LUIS ESPINHA DA SILVEIRA (1954-2021) - IN MEMORIAM


Luís Espinha da Silveira nasceu em Lisboa em 14 de Dezembro de 1954.

Professor Associado com Agregação de História, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa e investigador do Instituto de História Contemporânea. Fundador do Instituto de História Contemporânea, defendeu a sua dissertação de doutoramento em 1988 subordinada ao tema Revolução Liberal e Propriedade: a venda dos bens nacionais no distrito de Évora (1834-1852).

Os trabalhos e o currículo podem ser consultados AQUI.

Desta vez porém, porque os testemunhos pessoais também são importantes para se conhecer melhor as pessoas, deixamos o apontamento que Leonardo Aboim Pires, deixou no seu mural do Facebook, cuja disponibilidade agradecemos:

LUÍS ESPINHA DA SILVEIRA (1954-2021)
Foi hoje que recebemos a triste notícia do falecimento do Prof. Luís Nuno Espinha da Silveira.
Tive o privilégio de ter sido seu aluno na licenciatura em História e no mestrado em História Contemporânea. Originalidade e rigor, quanto a mim, serão as duas palavras que melhor o definem como historiador.
A sua forma de lecionar recordo-a em dois momentos particulares. O primeiro foi na opção livre de investigação «Territórios e Sociedades», onde também se encontravam os professores
Daniel Alves
e
Paulo Fernandes
, em que nos demonstrou a importância da leitura e compreensão das mudanças na paisagem. Como exemplo, escolheu a cidade de Lisboa e o espanto foi geral ao mostrar fotos da zona de Monsanto antes e depois da florestação.... Outro deles ocorreu numa aula de História de Portugal Contemporâneo (século XIX) em que, com base na toponímia das Avenidas Novas, explicou grande parte da história política oitocentista. O entusiasmo foi, igualmente, notório.
A importância que dava à literatura e à música como espelho da sociedade portuguesa do liberalismo também marcava. Ramalho Ortigão ou Domingos Bomtempo entravam assim na sala de aula.
O seu percurso de investigador esteve norteado por temas que a historiografia teimava em deixar para trás. Uma primeira fase ficou marcada pelo seu interesse na problemática da história agrária em Portugal no século XIX, com especial incidência na questão dos agentes sociais envolvidos no processo de desamortização. Esse tema seria desenvolvido na sua tese de doutoramento «Revolução Liberal e Propriedade: a venda dos bens nacionais no distrito de Évora (1834-1852)», defendida em 1988, além de vários artigos.
Posteriormente, temas como a construção do Estado liberal, as relações entre o território e o poder, as elites e os poderes locais e o municipalismo foram estruturantes, de que também resultaram várias teses de mestrado e doutoramento sobre estas questões. O livro «Território e Poder. Nas Origens do Estado Contemporâneo em Portugal» (1997), ainda hoje uma referência, congregou muita dessa investigação.
O seu pioneirismo ficou demonstrado no trabalho desenvolvido sobre as potencialidades da informática aplicada à investigação histórica e, em particular, a aplicação dos sistemas de informação geográfica (SIG), de que os projetos Atlas - Cartografia Histórica (http://atlas.fcsh.unl.pt/) e Memórias Paroquiais de 1758 (http://www.fcsh.unl.pt/memorias/) são alguns exemplos entre vários.
Recentemente, a história ambiental também estava presente nas suas preocupações científicas. Sendo este um dos temas também do meu interesse, quando lhe referi isso numa aula de mestrado, prontamente disse: «Não me diga que também quer estudar gafanhotos?». Uma pergunta que tanto demonstrou um certo espanto como uma notória e genuína recetividade a quem quisesse estudar tais temas. Curiosamente, mais tarde, acabei mesmo por estudar gafanhotos com a
Ana Isabel Queiroz
.
De referir ainda que foi investigador fundador do
Instituto de História Contemporânea
, em 1990.
Aqui fica a minha modesta e sincera homenagem a um professor que com os seus estudos científicos, o seu exemplo como docente, o particular cuidado e exigência com que nos guiava os trabalhos, permanecerá na memória da
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - NOVA FCSH
e da historiografia portuguesa.
Leonardo Aboim Pires

O Professor Luís Espinha da Silveira faleceu hoje, 10 de Janeiro de 2021.

Fica a obra que publicou, os projectos que desenvolveu, os trabalhos que acompanhou orientando mestrando e doutorandos ao longo do tempo.

As condolências à família, aos amigos e aos colegas que com ele compartilharam trabalhos e conhecimentos.

A.A.B.M.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

IN MEMORIAM EDUARDO LOURENÇO (1923-2020)

Só temos o passado à nossa disposição. É com ele que imaginamos o futuro” [E. L.]

Eduardo Lourenço, esse eterno “emigrante intelectual”, levou uma vida a apontar a luz desse “amor e morte” com que carregamos a Alma portuguesa. O murmúrio saudoso desse “profetismo” (vindo da casa de Garrett, Alexandre Herculano e Antero de Quental), entre sombra e nevoeiro, tem no entanto a aparência de esperança - mesmo se a nossa putativa “hiperidentidade” ainda nos angustie - pela “liberdade e vontade” de irmos percorrendo o caminho ao encontro com os outros e que mais não é que o “verdadeiro encontro connosco”.

Seguimos, de sol a prumo, o seu olhar pela ideia de Portugal, “essa espécie de milagre” que nos enlouqueceu, ali sitiado entre a velha nostalgia do império e a anomia da nossa crua realidade. Repensar Portugal seria na prática e progressivamente, em Eduardo Lourenço, a imperiosa “descentragem dos portugueses em relação á sua realidade”, a nível político e necessariamente histórico.

Entre a contemplação de um “passado glorioso” e a espera de um “futuro utópico”, Eduardo Lourenço foi propondo, para sair deste nosso “Labirinto” um novo discurso e um novo fio historiográfico. Que assim seja! Que assim aconteça! Vale.

Eduardo Lourenço faleceu hoje, 1 de Dezembro, na brisa deste luminoso dia da Restauração. Curiosa representação premonitória. Fica o verbo e a memória de um pensador, ensaísta, “filósofo da cultura”, poeta e professor, iluminado e único.

Até sempre Professor!

J.M.M.     

sábado, 22 de fevereiro de 2020

IN MEMORIAM DE VASCO PULIDO VALENTE (1941-2020)


Morreu VPV. Inútil falar nas qualidades intelectuais patenteadas nos seus diferentes escritos, compêndios que gulosamente lambiscávamos e soletrávamos, a fermosa estrivaria rinchava e o raminho da fazenda púbica caluniava. Eles aí estão, curveteados à falta de liberdade, para contar. Tomem lá arremedos, Ó mestres d’aldeia.

Obrigado VPV. Obrigado pela prosa no Almanaque. Obrigado pelo receituário no Tempo e o Modo. Obrigado pelas diatribes no Indy e na Kapa. Obrigado pelas mil crónicas & outros tantos artigalhos. Definitivamente … Obrigado! [J.M.M.]

 “ … Deus sabe que eu nunca fui assim. Não falo do corpo. O corpo está lá, sei perfeitamente. E já não está tão bom como era, concedo. Há sinais de que, por cerimónia, omito a descrição. Uma vez por ano, resolvo meter o corpo na ordem. O ano passado, por exemplo. Não lhe dei de comer e, sobretudo, de beber. Tirei-lhe quarenta cigarros por dia. Dobrei-o e estiquei-o, com método e persistência, em várias direcções. Corri com ele à borda do rio. Introduzi-o numa piscina que tresandava a desinfectantes e lá o fiz andar de um lado para o outro até o pôr de rastos.
O sofrimento que estas coisas lhe causaram, e me causaram a mim, não se descreve. Se ele não ficou melhor, ficou, pelo menos, diferente. Alguns íntimos e amigos pareceram apreciar as modificações. Presumo que os traços da tortura física auto-infligida indicam elevação moral. Ignoro se indicam saúde. Sobre essa matéria o meu corpo não se pronunciou.
Estes acessos de loucura não tendem, normalmente, a durar. E eu torno a cumprir os meus deveres. Um corpo da idade do meu já merece que o deixem em sossego e o poupem a cenas ridículas. Ele não quer ser mais novo. Eu, às vezes, quero que ele seja. Mas sou eu, não é ele, coitado. Ele nasceu em 1941 e não tem vergonha nenhuma. Até aqui, aliás, não se portou mal. Houve uma época em que me inquietava. Perdi muito tempo a exibi-lo inutilmente a médicos. Hoje não me inquieta. Ele que decida o que lhe apetecer, quando lhe apetecer. Eu parto do princípio de que ele não existe. Evito incomodar-me. Dali não me virá com certeza nada de bom. Nestes casos, a melhor política é a indiferença. Uma indiferença fingida, escuso de esclarecer. Afinal, a qualquer momento, ele pode acabar comigo.
Depressa ou devagar, com alguma dignidade ou impensáveis humilhações. Eu assisto à óbvia incompetência dele, calado e quieto. Para não o provocar e para não lhe ceder. Recuso-me a tratá-lo como se ele fosse um velho; com mimos e cuidados de velho. Ele que se aguente. Ou não se aguente.


[DESTINOS] Deus sabe que eu nunca fui assim e eu também sei que não fui. Só não sei o que fui. Falta à minha vida ordem e finalidade e, por isso, não posso dizer «fui assim» e, a seguir, «assim». Uma carreira ajudava. Fui tenente, major e capitão; deputado e ministro; assistente e catedrático. Uma vocação ajudava: fui filho, pai e avô. Uma obra ajudava; o meu primeiro livro, o segundo, o terceiro. Tudo isso ou parte disso talvez me permitisse dividir, arrumar, organizar o passado. Até uma grande ambição ajudava: estive mais longe ou mais perto, ganhei mais dinheiro ou ganhei menos. A mim, infelizmente, as coisas sucederam-me sem nexo ou deliberação. Comecei e desisti. Desisti e recomecei. Desejei e não desejei. Dei meia volta ou a volta inteira.
Se me obrigassem a escrever a minha biografia, não era capaz de escrever uma história coerente. Nem sequer com alguma arrumação de superfície. Mesmo pelas regras mais simples: infância, adolescência, juventude, maturidade, velhice. Era velhíssimo na adolescência, adolescente na maturidade e toda a gente me acha simultaneamente infantil e soturno. E não me lembro de períodos fixos, de mudanças drásticas, lembro-me de acontecimentos. De uma noite, à saída de Lineacre College, em Oxford, com muito frio e uma neve brilhante, em que me senti, por qualquer razão trivial, a mais admirável criatura terrestre. Do elevador em que me levaram à sala de operações subterrânea de uma clínica de Biarritz, inerme e nu, como pura carne. De um café vazio, à noite, no Luso, com mesas de fórmica e o chão molhado, onde de repente verifiquei que não havia motivo plausível para sair dali.

Quando penso na minha vida, penso nestes episódios e noutros como estes, que não permitem a separação em «antes» e «depois» e não revelam qualquer curso, honroso ou não. Em cinquenta anos, não notei indícios de um destino manifesto ou de um destino humildemente necessário. o que eu escolhi, ou que me sucedeu sem eu escolher, foi um acaso e eu próprio sou um produto de coincidências improváveis, de circunstâncias efémeras, de emoções sem substância. Os factos consumaram-se sempre por mecanismos obscuros, totalmente estranhos à minha vontade. «O que é que eu estou aqui a fazer?», perguntava eu, desastre após desastre. «Como é que eu vim aqui parar?». Péssimas perguntas.
Durante muito tempo supus que viver bastava, por simples acumulação, para me definir uma personagem e um caminho. Definiu, excluindo, como com toda a gente. O poder físico e o poder intelectual diminuem. Algumas pessoas acreditam que nos conhecem e retiram-nos o benefício de certas dúvidas. E, principalmente, numa sociedade doméstica como a portuguesa, cresce o número dos nossos inimigos, tácitos ou confessos. Se eu me defini, defini-me a coleccionar inimigos. Eles mostram o que eu sou e eu sou o que eles mostram. Mas que as possibilidades se reduzem à medida que se roda para o fundo do funil é um antigo lugar--comum e nem sequer se distingue por ser verdadeiro. Descontado o irremediável (já de si relativo e ambíguo), sobra ainda quase tudo. O caos persiste.


[INTIMAÇÕES DE MORTALIDADE]. Não há transição. A infalibilidade e a confiança perdem-se de repente. Ontem corria tudo bem, hoje corre tudo mal. Ontem não se fazia um erro, hoje só se fazem erros. A pessoa é a mesma: o corpo e a cabeça. As circunstâncias são as mesmas, os outros são os mesmos. Por mais que se procure nada mudou. Só mudou o efeito que se produz no mundo. Um homem deita-se com o mundo aos pés e acorda com ele às costas. As mulheres fogem, os amigos desaparecem, os telefones desligam-se. Dantes andava-se e esquecia-se. Agora, a vida pára. Repete-se. Um mês é igual ao anterior e ao próximo e ao seguinte. Não acontece nenhuma coisa diferente, só acontecem coisas indiferentes. Por qualquer razão obscura, na° se consegue descobrir o sítio onde as coisas acontecem; e elas 0 na° acontecem onde aconteciam.
Um pequeno pânico instala-se. Ao princípio, pensou-se que era um estado passageiro, uma época de azar ou de mau jeito. Mas depois o estado não passa, a sorte não vem e o mau jeito continua. Conta-se com angústia o tempo para trás e, a certa altura, conta-se com terror o tempo que sobra. Deixa-se de ter quarenta e três ou quarenta e sete anos e têm-se treze anos até aos sessenta ou dezoito até aos sessenta e cinco E não será optimismo os sessenta e cinco? E vale a pena? Acontecem coisas aos sessenta e cinco? Não com certeza as coisas que acontecem aos trinta.
Eu penetrei na impropriamente chamada meia idade desta maneira: ou seja, aflito. O céu caiu-me em cima sem aviso. Nestas crises, segundo o costume, as pessoas agarram-se: à família, ao trabalho, às ambições. Reparei que os meus amigos se agarravam. Um a um, consoante a sua natureza, transformaram-se em secretários de Estado, políticos respeitáveis, académicos triunfantes, altos funcionários ou pais extremosos. Vários preferiram a virtude, ideológica ou sexual. Com meritórias excepções, quase todos se encaminharam. Mas precisamente eu não pretendia encaminhar-me Deus sabe que eu nunca fui assim”

Eu Sempre fui Assim: Auto-retrato aos 50 anos” – por Vasco Pulido Valente, in Retratos me Auto-Retratos, Assírio e Alvim, 1992 (aliás in revista Kapa, Fevereiro de 1992) – com sublinhados nossos.
J.M.M.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

MANUEL SÁ-MARQUES (1923-2020): MEDICINA E HUMANISMO


Manuel Sá-Marques (1923-2020): Medicina e Humanismo” – por António Valdemar, in Público   

“A Medicina ao longo de 70 anos representou para Manuel Sá Marques um compromisso integral com os imperativos da profissão, as solicitações da cultura e a intervenção politica, para um exercício permanente da cidadania. Na Ordem dos Médicos, no Sindicato dos Médicos e outros organismos empenhou – se no confronto de ideias, na concretização de projetos e reivindicações para dar resposta aos desafios e interrogações do presente e às solicitações do futuro.
Manuel Sá Marques que acaba de falecer com 97 anos era um dos últimos sobreviventes das históricas lutas profissionais que marcaram a segunda metade do seculo XX: a defesa e valorização dos problemas médicos e hospitalares, no âmbito do Programa das Carreiras Medicas. Completavam a sua intervenção no Movimento de Unidade Antifascista, (MUNAF); no Movimento de Unidade Democrática, (MUD); nas campanhas presidenciais de Norton de Matos, Rui Luís Gomes e Humberto Delgado e outros combates possíveis á repressão salazarista. Após o 25 de Abril, Manuel Sá Marques prosseguiu as lutas desenvolvidas para a concretização dos objetivos prioritários e da estruturação associativas

Pertenceu Manuel Sá Marques ao último curso da Faculdade de Medicina de Lisboa (1942- 1947) regido por mestres da envergadura científica e profissional de Pulido Valente, Cascão de Anciães e Fernando Fonseca, expulsos da cátedra por motivos políticos. Nos Hospitais Civis de Lisboa completou os ensinamentos recebidos, até optar pela especialização.
Discípulo de Ernesto Roma (1886- 1978) - criador da Diabetologia Social que, ao estagiar nos Estados Unidos, se inteirou da «revolução da insulina» e fundou, em 1926,a Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal, a mais antiga de todas estas instituições existentes no mundo - Manuel Sá Marques deu significativa continuidade à lição do mestre, atualizando – a com as novas contribuições que foram surgindo. Influenciou várias gerações nos grupos de trabalho que chefiou, incutindo a luta contra a rotina e a burocracia, estimulando o espírito crítico, o rigor e a probidade que se devem conjugar para a eficácia do desempenho da medicina.

No tratamento da Diabetes, Manuel Sá Marques, durante sucessivas décadas, salvou a vida e restituiu a saúde a milhares de crianças, de jovens e adultos que recorreram aos seus cuidados e orientação. Em vez de dietas rígidas, recomendava um regime e uma educação alimentar para a garantir o equilíbrio das funções corporais e mentais, a fim de insuflar a energia e a vitalidade, reduzindo a fadiga, a depressão e a ansiedade.
Quase até aos últimos momentos manteve, na internet, um blog, sob a égide de seu avô, Bernardino Machado. Consultando documentos manuscritos e informação publicada em diversas fontes relativas ao fim da Monarquia, à vigência da Republica e à resistência ao salazarismo, Manuel Sá Marques reconstituiu, passo a passo, um perfil universitário e político que principiou a ser analisado nas Farpas de Ramalho Ortigão e, a seguir, estudado e divulgado por historiadores e críticos como Lopes de Oliveira, Jaime Cortesão, António Ramos de Almeida e, presentemente, Norberto Cunha, catedrático da Universidade do Minho e coordenador cientifico do Museu Bernardino Machado, em Famalicão.

Integrava-se Manuel Sá Marques na grande tradição que Ribeiro Sanches, em 1763, no Método para aprender a estudar a Medicina definiu nesta síntese lapidar: «nenhum médico foi célebre na sua arte se não teve o entendimento alimentado com o estudo das humanidades. Se assim não for- observou ainda Ribeiro Sanches - «convertem-se apenas em obreiros da Medicina, mas nunca serão médicos».
Tinha, assim, pleno cabimento a proposta da secção sul da Ordem dos Médicos e do Sindicato dos Médicos ao indicarem Manuel Sá Marques para o Prémio Miller Guerra. A proposta era merecida e justa, porque comtemplava um médico exemplar e também uma personalidade humana, igualmente, exemplar.

Manuel Sá Marques faleceu no Hospital Garcia de Orta em Almada. O corpo, a partir das 17 horas desta quarta-feira, encontra-se na casa mortuária da igreja de Santa Joana Princesa. O funeral realiza-se esta quinta-feira, diz 6 de Fevereiro, no cemitério do Alto de São João, onde, às 16h30, será cremado
Manuel Sá-Marques (1923-2020): Medicina e Humanismo – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], jornal Publico, 5 de Fevereiro de 2020 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

IN MEMORIAM DE MANUEL SÁ-MARQUES (1923-2020)



Manuel Sá-Marques deixou-nos ontem (dia 4 de Fevereiro), cumprindo em virtude, assombro e profissionalismo, sem mácula, uma vida plena de muita luz.
O dr. Manuel Sá-Marques, que nos deu a subida honra de ser nosso precioso Amigo, era exemplarmente bondoso nos sentimentos, de uma gentileza desassossegadora no trato, estimulante no alto valor da sua grandeza humana.

O Almanaque Republicano apresenta as sentidas condolências à família e curva-se perante a grandeza desse Querido Amigo, tão grato ao nosso coração. Vale!

 Até sempre dr. Manuel Sá-Marques
José Manuel Martins
Artur Barracosa Mendonça

terça-feira, 19 de novembro de 2019

ATÉ SEMPRE, COMPANHEIRO!



José Mário Branco, “português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro”, espalhou luminosamente a palavra, a melodia e o canto. Traçou a poesia, celebrou o sonho, inquietou-nos a alma. Com ternura e alegria.

Zé Mário tinha essa elevada arte de “estar aqui connosco”. Cantou a “margem do outro lado”, essa travessia ou “vaga de fundo” estremecida, atribulada, mas sempre digna. Essa bem-aventurança. Confiou-nos “a luz que vem do fim do mundo”, essa viagem daqueles que ainda não nasceram. Esteve connosco e nós com ele. “Para cantar e para o resto” – disse. E sim …. valeu a pena a travessia.

Até sempre, Companheiro!

FOTO de Alfredo Cunha, com a devida vénia

J.M.M.

sábado, 12 de outubro de 2019

TRÊS VEZES ROGÉRIO RODRIGUES


Três vezes Rogério Rodrigues” – por Henrique Monteiro, in Expresso online, 12 de Outubro de 2019

O jornalista Rogério Rodrigues, que faleceu esta semana e é cremado este sábado, depois de uma cerimónia simples, como foi sempre toda a sua vida, tem sido alvo de várias homenagens. Aqui fica a despedida do seu amigo de sempre, cronista e ex-diretor do Expresso Henrique Monteiro.
Penso nele, neste momento, a discutir com São Pedro os méritos da entrada no céu. Mas, de acordo com a ética do Rogério, é ele que defende que lhe faltam qualidades e São Pedro que insiste em lhas lembrar.

O Rogério era assim. Já muitos o escreveram, mas poucos, talvez, o tenham conhecido tão bem quanto eu nas várias dimensões que teve. Foi um tremendo jornalista (torpedo, chamava-lhe a Fernanda Mestrinho); foi um poeta e escritor, que apenas a humildade natural e a vontade de se apagar e de ser crítico de si próprio não levou mais longe; foi um maçon exemplar, incorruptível e fraterno que adotou como nome simbólico Antero de Quental, com quem se há-de encontrar na mão direita de Deus (o de quem o substitua).

Conheci-o há mais anos do que é justo dizer aos jornalistas novos. Nos tempos em que as redações tinham dinheiro, vagar e alegria. Sabíamos notícias à segunda e podíamos guardá-las três, seis, 10 dias. E se o Rogério tinha notícias. De todos os lados, de toda a gente. As suas fontes eram diversificadas e a sua escrita rigorosa. Um dia fomos ambos em reportagem ao Alentejo profundo, lá onde ainda não chegara o alcatrão, nem a luz, nem a água canalizada. Difícil, sabem, é o começo do texto que assinaríamos ambos. O Rogério virou-se para mim e disse-me: "escreve aí (eu escrevia à máquina mais depressa do que ele) ": “Naquelas terras cujo pó nem as sandálias do diabo conheceram…” - e eu, que era já aquiliano, virei-me para ele e disse: “De onde te vem isso?”. E ele respondeu: “Da cultura."
Ah, sim! Porque o Rogério era poeta. Em 1972 publicara ‘Livro de Visitas’, um livro de poesia com uma dedicatória arrepiante ao seu irmão morto na guerra colonial, em Angola: “Ao Anísio Manuel Rodrigues - vivo; pelo Anísio Manuel Rodrigues – morto”.

A morte não lhe era mais estranha do que a vida. O seu outro irmão, que ficara cego, morreria atropelado, em Lisboa. E ele, que estudara no seminário, em Macau, por mor de contos que não vêm ao caso, e que mais tarde se fizera à Filologia Românica, deu o salto para Paris, a fugir à tropa. Voltou quando um decreto permitiu que não fosse para a guerra quem fosse amparo de mãe, ou seja, tivesse já um irmão morto nas Forças Armadas.
Andou com Afonso Praça, da mesma terra do que ele – Torre de Moncorvo (o concelho, porque ele era de Peredo de Castelhanos) e com o Assis Pacheco. E com o Cardoso Pires e com tanta gente da cultura – da Graça Morais ao Herberto Hélder. Sempre sem fanfarra nem gabarolices. Caramba! Conheço-os todos graças ao Rogério e talvez por isso a Ana Sá Lopes lembrasse as palavras que eu, mais velho, lhe dissera quando, como estagiária, entrou em ‘O Jornal’: “Aqui somos todos rogeriodependentes!

Escreveu outros livros, o último dos quais de poemas, que assinou com o nome de Pedro Castelhano, em homenagem à sua terra, e me entregou para que eu o apresentasse. Fi-lo com gosto e recomendo-o: "(Re) Cantos d’Amar Morto".
Não! A morte não lhe era estranha. Ele aprendeu a morrer e, como Sócrates disse, quando tomou a cicuta, agora que chegou a hora de nos separarmos – ele para a morte e nós para continuar a vida – qual tem o melhor caminho? “Eis algo que só Deus sabe”.

Na mão de Deus / Na sua mão direita / Descansou afinal meu coração, escreveu o Antero, que era também o Rogério. “Os meus dias tiveram o pão duvidoso e a fome avara dos humildes”, escreveu o Rogério, que era também Antero.

Penso que nunca fez mal a ninguém, salvo a ele próprio. A mulher, a Arlete, médica de quase todos nós na Casa da Imprensa, os filhos Tiago e Diogo, eram a sua luz. Mas entre mim e ti, Rogério, havia sombras. O que nós dizíamos mal e gozávamos com tantos (e tantas) que andam por aí. Dizíamos mal até nos fartarmos e passarmos a dizer mal um do outro e depois mal cada um de si próprio. Qual psiquiatria, como tu dizias alto e bom som, com a tua voz inesquecível: “Eu não tenho problemas pessoais!”.

Um dia, no Grémio Lusitano, sede da Maçonaria, encontrámo-nos. Nem ele foi pela minha mão nem eu pela dele. Pura e simplesmente encontrámo-nos onde se podem encontrar homens bons. Crentes na humanidade (apesar de haver por lá muito quem não mereça); crentes na vida que supera a morte, porque como a semente morre para que nasça a árvore e o fruto, assim nos encontraremos no que chamamos Eterno Oriente. A última publicação em que estivemos juntos foi a da Maçonaria, a pedido do saudoso António Arnaut, que nos desafiou, com aquele ar dele sempre ingénuo: vocês é que podiam… e tal. E nós pudemos. E fizémos. Algumas vezes os dois sozinhos, porque outros tinham sempre muito que fazer e, por muito que nós tivéssemos também, sempre guardámos um espaço para o mistério do espírito, da vida e da morte.

Conheci-te, Rogério, nas tuas várias dimensões. Como diz o nosso ritual funerário, partiste um pouco antes de nós. Lá nos encontraremos, com aqueles que estivemos: o Nunes de Almeida, o Gabriel Viegas, o Luís Conceição, o Óscar Gois.

E com todos os camaradas de profissão – da nossa profissão a sério – que fomos perdendo e aqueles que hão de chegar, como eu, o Castanheira, o Garcia, o Adelino, a Fernanda, o Grego Esteves e todo o pessoal da ‘cozinha’ de ‘O Jornal’. E com o mundo todo, porque como dizia o Assis, a puta da vida é pior do que a puta da morte, mas não temos mais nada a que nos encostar. Talvez aí o Praça, que representou tão bem o papel de padre num filme, nos abençoe a todos e nos conduza ao pé do Antero e de ti; à mão direita de Deus.

Até já!”

 Três vezes Rogério Rodrigues” – por Henrique Monteiro, in Expresso online, 12 de Outubro de 2019 – com sublinhados nossos

 
J.M.M.