"Não
tendo ele sido verdadeiramente um escritor, na acepção estilística do termo,
foi um jornalista ardoroso e intemerato, arrostando tão corajosamente os
perigos como afrontava sobranceiramente chufas e arruaças, em luta permanente
contra tudo e contra todos pelo Progresso, pela Ordem e pela Verdade" [José
Pinto Loureiro, in Índice Ideográfico de O
Conimbricense, Coimbra, 1953]
"...
A collecção do Conimbricense, escripto da primeira columma à última
por Martins de Carvalho, é um repositório interessante da nossa
historia pátria, em que o fallecido jornalista era aprofundadíssimo e excavador
extremado de factos históricos ..." [Portugal Moderno, Rio de
Janeiro, 1901]
"É
preciosa a collecção do Conimbricense. Mais vasto repositório de
história não é possível encontrar-se em nenhum jornal político dos muitos que
se tem publicado no paiz. É um arquivo inestimável de factos e documentos
valiosíssimos, uma bússola indispensável a todos os cavouqueiros da história
pátria. Quando mais não seja a história contemporânea de Portugal não pode
fazer-se com segurança sem a consulta previa da collecção do Conimbricense ..."
[Marques Gomes, in O Conimbricense e a História
Contemporânea. Publicação comemorativa do 50º aniversario do nosso mesmo jornal,
Aveiro, 1897]
De
facto, como se pode ler pelo Índice Ideográfico de O
Conimbricense (sob direcção de Pinto Loureiro), a
vastidão e a importância dos assuntos publicados no jornal ao longo dos anos,
faz dele uma fonte inultrapassável sobre os acontecimentos económicos,
políticos, sociais e literários de finais do século XIX. São curiosas e
estimadas as referências sobre Garrett, Arqueologia, Lutas
Académicas, Bibliografia e Bibliofilia, Jornalismo, Cabralismo,
Costumes, Duelos, Tauromaquia, Teatro, Tipografia (importante os seus
Apontamentos para a História da Tipografia em Coimbra), Viticultura, Eleições,
Epistografia, Évora, Manuel Fernandes Tomás, Freire de Andrade, Guerra
Peninsular, Herculano, Iberismo, Índia Portuguesa, Lisboa, Macau, José
Agostinho de Macedo, Mosteiros, Mutualismo, Operariado, Marquês de
Pombal, etc .
Absolutamente
notável as inúmeras e preciosas referências que se dispõe sobre Coimbra, Inquisição, Ordens Religiosas, Invasões Francesas, Lutas Liberais, Miguelismo,
Jesuítas, Maçonaria e Carbonária, Sociedades Secretas (como S.
Miguel da Ala).
Diga-se,
que o próprio Joaquim Martins de Carvalho pertenceu à Carbonária
Lusitana de Coimbra , instalada a 29 de Maio de 1848, pelo Padre
António Maria da Costa [o Benigno Primo, ou B. P., Ganganelli] e José
Joaquim Manso Preto [B. P. Lagrange] e dissolvida em 1850. Joaquim Martins de
Carvalho integrou a “Choça 16 de Maio” [título em homenagem à data da vitoria
popular contra o Cabralismo, a 1847 em Coimbra; reunia a choça em frente ao
Colégio Novo, quando se sobe a Couraça dos Apóstolos), era Joaquim Martins de Carvalho o Orador, o B. P.
“Ledru Rollin”; foi presidente da choça "Segredo" – que sucede à "Choça 16 de Maio",
que muda de nome dada a descoberta e o assalto executado pela polícia cabralina
e que reúne depois, não sem alguns curiosos percalços, no convento de Santo
António dos Olivais - e é 1º secretário da Barraca "Igualdade", que chegou a reunir
no Jardim Botânico de Coimbra. Refira-se que a Carbonária Lusitana de Coimbra é
diferente daquela que se denomina de Carbonária Portuguesa
(1896/7??) e não se deve confundir com a Carbonária Lusitana,
de pendor anarquista - ou Carbonária dos Anarquistas - muito
sigilosa, a que pertenceram os anarquistas José do Vale, Ribeiro
de Azevedo, entre outros [vidé a Carbonária em Portugal,
por António Ventura, Museu Republica e Resistência, 1999]. Joaquim
Martins de Carvalho foi iniciado na maçonaria em data incerta, com o nome
simbólico de “Lamartine”, tendo feito parte da loja maçónica de Coimbra, Pátria e Caridade [1852-53?
– sob obediência da Confederação Maçónica Portuguesa; curiosamente fez parte da
loja, sendo seu Venerável, Filipe de Quental (Chatterton) e José Luciano de
Castro; a loja situava-se junto ao Colégio dos Grilos e mais tarde muda-se para
o Colégio da Trindade – ver Encyclopedia das Encyclopedias, vol. VI M-MAG, p.
396; ver, ainda, Francisco A. Martins de Carvalho, “Algumas horas na minha
Livraria", 1910, p.99 e ss].
Refira-se
que a sua admirável livraria [que contava com peças manuscritas de grande valor
e raridade], em parte vendida em 1923 (em Coimbra), era extraordinária - principalmente
o conjunto raríssimo de jornais, revistas e publicações várias, autógrafos e um
notável conjunto de opúsculos políticos - sendo que o leilão realizado foi um dos
acontecimentos mais excepcionais entre os bibliófilos portugueses.
Faleceu
em Coimbra a 18 de Outubro de 1898 [curiosamente, 81 anos decorridos da
“horrorosa” morte de Gomes Freire de Andrade]. O funeral, que saiu da igreja de
S. Bartolomeu para o cemitério da Conchada, apesar de copiosa chuva, foi uma
homenagem “imponentíssima”. Todas as associações de Coimbra e um numeroso grupo
de trabalhadores marcaram presença, em “alas compactas” na Praça do Comércio
[ver “A Voz Pública", 21 de Outubro de 1898], o comércio local fechou as portas,
tendo discursado no cemitério Brito Aranha (pelo DN e Associação dos
Jornalistas), A. X. da Silva Pereira (pela Associação da Imprensa Portuguesa e
como correspondente do Conimbricense em Lisboa), Guilherme Alves Moreira (pelo
Partido Republicano), João José Sabino (pela Voz do Operário), José do Carmo
(pelo jornal A Voz do Operário), Teixeira Bastos (pelo Século), Ernesto da
Silva (pela Liga de Artes Gráficas), António Ferreira Carneiro (carpinteiro e
artista conimbricense), José Pereira da Cruz (pelo 1º de Janeiro) e António Bahia
(em nome dos pobres de Coimbra). Estiveram presentes um elevado número de
representantes de periódicos nacionais e regionais (como a Gazeta da Figueira,
Resistência) e a comissão municipal republicana do Porto fez-se representar
pelo dr. Afonso Costa [idem, ibidem; ver, ainda, jornal “Vanguarda”, de 20 de
Outubro de 1898].
Algumas
Obras: Apontamentos para a Historia Contemporânea, Imp.
da Univ., 1868 / Novos apontamentos para a História contemporânea os
assassinos da Beira, Imp. Univ., 1890 / A Nossa Aliada! Artigos publicados
pelo redactor do Conimbricense, Porto, 1883 / Homenagem a Joaquim Martins de
Carvalho, Typ. Operaria, 1889 / O Retrato de Venus. Edição Comemorativa do
nascimento de Garrett, Coimbra, 1899 / Os assassinos da Beira,
Coimbra, 1922 / Catálogo da... livraria que pertenceu ... a
Joaquim Martins de Carvalho e ... Francisco Augusto Martins de Carvalho, Imp.
da Univ., 1923
NOTA:
este texto foi inicialmente publicado, por nós em 2003, no Almocreve das Petas, e apresenta-se agora com
novos aditamentos.
J.M.M.